13.11.03

Ódios de estimação: Mariza

Há algo de irracional nos nosso ódios de estimação. Não é fácil de explicar o porquê de alguém nos irritar ao limite da urticária. A cara, a voz, os tiques, qualquer coisa serve para que algo, ou alguém, por nós seja odiado visceralmente.
Hoje apetece-me falar de Mariza - a nova "diva" do fado - a propósito de notícias do seu recente concerto no CCB. Não é só a voz que está aqui em causa e muito menos a pessoa, que não conheço (esta frase é demasiado politicamente correcta, mas vou deixar estar). Pode parecer estranho num cantor, mas não é só pela qualidade vocal da senhora que ela me faz urticária.
Ouço o seu primeiro disco e, para além de uma boa técnica vocal, o que chama a atenção é uma desmedida intenção de colar a sua voz e modo de cantar ao de Amália. Os fados escolhidos todos os cantou a Amália. Os maneirismos são os mesmos e a sua personalidade musical quase nula. O segundo disco é francamente melhor, ao ser de interpretação mais livre. No entanto, não me entusiasma muito.
Para além da voz - que ainda me permite ouvi-la em disco - claramente era incapaz de assistir a um concerto seu. A visão daquele "look" de girafa cibernética é mais do que o tolerável para conseguir ouvir alguém cantar. É evidente que o seu visual mais não é que uma boa campanha de marketing, original (muitíssimo original mesmo) e capaz de chamar a atenção de qualquer pessoa aqui ou no estrangeiro. O penteado louro em estradinhas arranjadas qual doce de ovos mas de aspecto incomestível. O pescoço, já de si fino, ainda mais acentuado e ridículo devido aos adereços. Os fatos espantosos, fazendo hesitar entre um gigantesco papel de rebuçado amarrotado e um repolho alongado. Gostava de conhecer a inspiração do suposto costureiro para fazer algo tão positivamente feio. Se eu tivesse a ideia de criar um visual com o intuito de ser o pior possível, ele não andaria longe disto.
Voltando à voz concordo com José Miguel Tavares em artigo no DN de ontem: "Mas se Mariza já é uma grande artista, ela continua a não ser uma grande fadista". Fado não é só afinação e potência na voz, é alma, a alma de um povo. Pode Mariza ser das grandes cantoras que temos. Não gosto, mas admito. Agora o grande fado não passa por aqui. Felizmente que vai passando por outros vozes, menos exuberantes na forma mas francamente mais importantes no conteúdo.

Caminho final

Euforia no vazio, viagem.
Sono alegre pelo espaço, fugiste no labirinto da vida.
Formiga rebelde escolheste a deriva, o rumo perdido.
O tempo levou-te, não o viste passar.
Tomaste o expresso directo para nunca mais.
Branco como o céu foi teu destino.
Caminho de um sentido só.
Seguiste sem medo, na esperança de chegar ao fim, ao ponto azul do teu céu.
Negro o viste sem o sentir.
Chegaste mais depressa do que pensaste, ao centro do alvo eterno.

Santana e Lisboa

Os receios vão-se confirmando. Apesar da esperança de novas ideias e dinâmica para Lisboa, Santana tem vindo a optar pelo "show off".
1. Sobre a polémica de Gehry muito tem sido dito. A opção é legítima e estritamente política, Gehry é hoje mais do que um arquitecto e a sua influencia nas cidades onde projectou trespassa as questões estéticas. Não gosto do seu estilo enquanto arquitectura, duvido mesmo que o seja. Encontro-o mais como uma escultura de provocação pós moderna. O exemplo de Bilbau é particularmente feliz, mas o enquadramento urbano é totalmente diferente. Tenho as minha dúvidas quanto ao projecto do Parque Mayer. Não sendo um opositor à partida, espero para ver o projecto concreto.
Acho que esta opção (de construção) é pouco arrojada, seria muito mais estimulante e definitivamente arriscado (politicamente) prever naquela zona uma área pública que passasse por um jardim/praça pública. A ligação ao jardim botânico permitiria uma obra de ruptura com o habitual de hoje em dia, criando, finalmente, uma área verde nova no centro de Lisboa. Oportunidades destas não se vão repetir, na cada vez mais apertada malha urbana de Lisboa.
A muito discutida questão dos honorários nada tem a ver com arquitectura. O montante é estratosférico e injustificável no que à arquitectura diz respeito. Do que aqui se fala é de um enorme investimento em marketing para a cidade de Lisboa e para o seu turismo. Neste prisma a justificação só pode ser encontrada no terreno da economia.
2. A escandalosa poluição dos outdoors que pululam pela cidade ofende a alma. Em tempos em que devíamos tentar acabar com estas formas de poluição, é a própria Câmara que avança em força nesta forma de publicidade. O que me choca já nem é o dinheiro gasto (se não fosse aqui seria noutras formas de publicidade) mas sim o desastroso impacto na cidade.
3. Quanto ás flores na Avenida da Liberdade, o que se pode questionar é a desmedida verba empregue. Esteticamente não gosto da solução, mas subscrevo a ideia base. Hoje esta Avenida é mais apelativa, especialmente para os turistas que nela encontram a veia central da cidade.
4. A face mais negra vem, no entanto, da ideia peregrina de fazer o túnel do Marquês. O grave problema é não se perceber qual é a ideia para a cidade. Não é normal que ao mesmo tempo se tire o trânsito de algumas zonas da cidade, para depois fazer obras que facilitem, e estimulem, a entrada de mais carros na cidade.
Ao mesmo tempo é anunciada a construção de silos em zonas históricas. Nada tenho contra o estacionamento em altura. Parece-me que conceptualmente os projectos até são interessantes, aproveitando o arrojo da Experimenta Design. Mantenho algumas dúvidas sobre o enquadramento nas zonas em questão, mas mais uma vez é esperar para ver.
5. Como conclusão, o que Lisboa precisa não é de uma série de ideias avulsas, umas boas outras nem por isso, mas sim de uma política coerente que consiga promover a qualidade de vida das pessoas. Não temos uma capital caótica como o México, mas podemos melhorar, e muito, a vida dos lisboetas. O centro arrasta-se numa morte lenta da qual parece difícil de sanar. Não chegam as boas intenções, é precisa muita coerência e isso, a meu ver, é o que tem faltado a Santana Lopes.

12.11.03

Ferro e Baker

Na RTP o Dr. Ferro volta a falar da Casa Pia. Desligo, já não há paciência.
Ponho a minha última aquisição - "Baby Breeze" de Chet Baker - na aparelhagem. Simplesmente genial este disco em que Baker alterna a voz com o sopro, sem nunca perder a irrepreensível qualidade. "Born to be blue" é na sua voz uma delícia etérea. Ouvir Chet Baker faz-nos sentir definitivamente "cool". As noites tornam-se mais simples, calmas e felizes. Quem consegue pensar em Ferro Rodrigues com este som.

6.11.03

Estupefação

Notícia TVI: fenómenos anormais nas rodagens de "O teu olhar". Monitores ficam encarnados e Patrícia Tavares fica possuída começando a falar com voz de Homem. A produção chamou um padre para averiguação. Tudo se passa na Igreja do Castelo de Montemor.
Inês de Castro voltou, no local onde foi condenada, para assombrar a existência de uma novela. Estará tudo louco. Até a Manuela Moura Guedes esboçou um sorriso. A TVI está capaz de tudo perante o fracasso do Big Brother.

Oposição

Onde está a oposição, qual é o seu futuro e o que podemos esperar dela?
Do inefável Dr. Louçã podemos esperar que continue a cumprir o papel de Stallone, disparando sempre e em todas as direcções. A todo o momento descobrirá uma nova minoria à qual irá buscar o voto. Talvez aos defensores dos direitos da formiga branca ou ao grupo armado de defesa dos sobreiros contra os capitalistas da cortiça.
Do moribundo PC (que ontem até deu sinais de existência, talvez num último suspiro) apenas podemos esperar poemas declamados pela camarada Odete, intervenções surrealistas do camarada Bernardino, gritos estridentes da senhora de "Os verdes" ou a sempiterna Festa do Avante.
Temos ainda o Dr. Monteiro do qual nunca sabemos o que esperar. Apenas que será contra e que as posições mais duras serão defendidas pelo indescritível Dr. Ferreira. Aguardemos por esse vazio ideológico que apropriadamente se chama Nova Democracia. De facto a democracia anda mesmo pelas ruas da amargura.
Chegamos finalmente ao maior partido da oposição, pelo menos em número de votos e por enquanto. O PS é cada vez mais um equívoco. A todos os níveis. Um líder que ninguém sabe muito bem o que anda a fazer, numa pose cada vez mais distante e seráfica. Lembrando um pouco o Tonecas dos últimos tempos, vago, pensativo, quase etéreo. Será que no Largo do Rato distribuem comprimidos para a alienação? Imagino o Dr. Ferro gritando: "Ó Costa, traz-me um Alienex duplo."
No meio desta desorientação geral surge agora o persistente JS. Sim, a Juventude Soarista, que na falta do pai - agora mais preocupado no combate diário aos EUA e ao seu Império do Mal - corre decidida para o poder socialista. A confirmar-se, podemos esperar mais oposição, apenas duvido que seja melhor.
Se JS seguir o estilo da sua última campanha em Lisboa já imagino Vasco Lourenço na vice presidência para as relações externas. A família Soares em repetidas marchas contra o fascismo português - seja ele o que for - acusando todo o governo de salazarismo e de retorno ao passado. Dissertando em estudos comparativos sobre o curriculum anti-fascista dos membros do governo. A palavra chave será ressuscitar, os fantasmas e ódios que - passados quase trinta anos - já deviam estar sanados e esquecidos. (Imagino já uma retribuição à altura do governo, questionando a descolonização do pai Soares). A ILGA será por certo convidada para a pasta da família no governo sombra. Quanto a coligações podemos esperar o pior. Numa desesperada tentativa de unir a esquerda, decerto construirá um Albergue da Rosa Vermelha, ressuscitando (outra vez a palavra chave) os espantosos POUS, MDP, PC (R) e outros afins. A este se juntará o Albergue da Esquerda Caviar (BE) e o Partido da Imutabilidade Comunista (PCP).
Por certo será mais animado, mas será prudente apesar disso que mudem de repente de líder? A verdade é que o governo precisa de oposição. Não porque esteja a governar particularmente mal, mas também está longe de ser brilhante. Precisa de ser espevitado para ir ao sítio, para acordar o Dr. Barroso, para estancar os erros de casting sucessivos. No fundo, para conseguir implantar realmente as boas intenções que tem. Haja oposição.

O Homem de Cera e o Fóssil Milionário

Ouço na SIC que José Castelo Branco (assim se intitula), o Homem de Cera e Betty Graffstein, o Fóssil Milionário, foram presos no aeroporto de Lisboa. Motivo: Contrabando de jóias.
A cena terá sido de antologia. Betty com o seu ar esfíngico falando tranquilamente em inglês. "Xossé, o que se passa. O que querem estes senhores? Fale com eles." José - recordando os seus idos tempos de Trumps - armando uma peixeirada digna do Bolhão. "Não me toquem, está-me a sujar a camisa Versace. Não me enxovalhe as calças Gaultier. Parece que não sabem quem sou eu, sou o José Castelo Branco. Acham que eu era capaz de contrabando. O Sr. Agente, sim, o senhor de corpo musculado, quer revistar-me? Essas jóias são da Betty, tirando aqueles 14 colares de pérolas que são meus. São para os meus shows. Acho que vou falar à Lili, ela deve conhecer alguém que me tire daqui. O quê? Querem levar-me para a prisão onde está o Bibi? Ah! Pronto, será que ainda consigo falar com ele hoje."
Imagino o regabofe que terá sido no Serviço de Estrangeiros e Fronteiras. Adorava ter visto este ser ridículo e arrogante a ser exposto ao...ridículo.

4.11.03

Estações de Comboio

Vou esperar um amigo a Santa Apolónia. Passou algum tempo desde que me rendi à escravatura do carro. Pouco tenho usado o comboio e das últimas vezes já o fiz na bela pós-modernidade do Oriente.
Para variar o comboio atrasa. Melhor assim. Aproveito para uns minutos de melancólica observação. Lembro os tempos de estudante em que aos fins de semana este espaço ocupava uma parte importante da minha vida. Tempos de ida a casa para junto da família após uma "dura" semana de aulas.
Há um misticismo estranho nas gares. As paredes cansadas pelo tempo, o chão desgastado pelas passagens velozes dos atrasados. As velhas de negro, com caras sulcadas, sempre transportando cestas de verga cheias sabe-se lá de quê. Os estudantes de grandes mochilas, ora animados e ansiosos, ora pensativos. Senhoras, com o ar despreocupado de quem não guia nem quer guiar, comprando revistas de decoração. O apito estridente de uma locomotiva a sair. O inconfundível cheiro que inunda o ar. Os "agarrados" e vagabundos mendigando moedas e cigarros, ou buscando vítimas fáceis para furtos breves.
As chegadas apressadas em busca de táxi ou de um abraço de acolhimento.
Com grande pena minha nunca fiz Inter Rail. Não por um fascínio de percorrer quilómetros de mochila ás costas mas sim pelo inata sensação de liberdade e desprendimento. Sentir por dias e dias o ambiente de gares imponentes ou miseráveis. Repousar em bancos de madeira para fugir ao frio do exterior. Usar este meio de transporte de lirismo só superado pelos veleiros.

Halloween

Abomino o Halloween. Revolta-me esta aculturação a tradições americanas a que nada nos liga. Somos um país de tradições, fortes, porque teremos agora de importar as dos outros. Particularmente esta. Dedicando um dia a bruxas e a abóboras. Estas últimas ficam bem em sopa e as bruxas, bem, o melhor é perguntar ao Herman que nos últimos tempos se especializou neste tema.
Esta época do ano lembra-me broas. Lêvedas e de mel. Lembra o cheiro a castanhas inundando as ruas frias e húmidas. O dia de todos os santos tocando ás provincianas portas da minha terra em demanda de "bolinhos, bolinhos, à porta dos santinhos". As pessoas acorrendo ás janelas, vendo quem tocava, e alegremente nos compensando com um sorriso quase sempre acompanhado de um bolo ou rebuçado. As tias idosas que discretamente nos metiam umas moedas ou uma nota no bolso. O fim do dia em grupo, contanto os brindes conseguidos e comendo-os desenfreadamente. O regresso a casa para o cheiro das broas acabadas de fazer. O dia seguinte rumando à tarde com a mãe ao cemitério para limpar o jazigo de família.

29.10.03

Angola

Faz-me mal ver o nosso primeiro ministro a visitar um assassino. José Eduardo dos Santos há anos que o é. Promoveu e manteve uma guerra em proveito próprio. Devastou com isso um país, por entre mortos e estropiados. Toda uma geração de angolanos viverá no estigma de ter visto irmãos a matarem-se. Conseguiu uma fortuna colossal construindo um regime absolutamente corrupto e déspota. Enquanto isto o povo continua a viver na maior miséria.
Haverá solução para Angola sem ele? Não tenho resposta. Se calhar não há. Acredito também que o povo angolano precise de nós independentemente do seu líder. Nada disto invalida que me custe que Portugal se dê com gente tão pouco recomendável.

27.10.03

Prémios do dia

Prémio Lili Caneças - José Miguel Júdice. Parece que anda em todo o lado. Sugere-se que passe uns dias na Quinta das Lágrimas.

Prémio Vasco Granja - Ana Gomes. Desapareceu de circulação. Sugere-se que assim continue a bem da nossa sanidade mental.

Prémio Tom & Jerry - Manuela Moura Guedes e Miguel Sousa Tavares. Aguardam-se as cenas dos próximos capítulos, com câmaras do Big Brother nas salas de maquilhagem.

Prémio Marilyn Monroe - Herman José. Por este andar acaba louro platinado a cantar "Diamonds are the girls best friends".

A nova hora

Odeio este novo horário. Não sei, não quero saber, nem me interessa a quem o devemos. Quero lá saber se as pobres criancinhas não devem entrar de noite na escola. E que as indústrias gastam assim menos energia. E que assim mantemos a diferença horária com Espanha e acompanhamos a Europa. Mas eu não quero acompanhar a Europa. O que de facto detesto, e me incomoda profundamente, é que as cinco da tarde passam a ser cinco da noite. É tão desagradável tomar chá sem luz natural.
Muito sinceramente, e ironias à parte, não será melhor entrar de noite no trabalho ou na escola, podendo sair com alguma luz de um dia que ainda não findou. Os dias assim parecem mais curtos e menos produtivos. Com o frio a chegar, ao cair da luz já só pensamos num sofá, numa lareira e num bom livro. Quem pode produzir assim.

Racionalidade

A racionalidade não é, claramente, uma estupidez. Pode é ser, transformada em modo de encarar a vida, uma forma castradora da criatividade e de uma postura mais hedonista.
O que levamos desta vida que não sejam os pequenos prazeres e os humildes momentos, não será por certo a frieza dos números e do raciocínio que na campa não entrarão.

Voxx à chuva

Sexta feira. Chuva inclemente sobre Lisboa. As ruas parecem um gigantesco stand de automóveis parados. Farto dos CD passo para a telefonia. Na TSF nada de novo. Passo à Voxx em busca de boa música. Escuto os acordes de "Por quem não esqueci" da Sétima Legião. Chega o refrão: "Procuro o cigano; para me dar o pó...", terei enlouquecido? A música prossegue com uma letra no mínimo invulgar. Espero a próxima. O acordeão debita algo semelhante a uma caninha verde minhota. Confirmo no RDS, é mesmo a VOXX. Sai uma ao estilo de Marco Paulo e uma sucessão improvável e, no mínimo, surrealista. As nuvens negras do trânsito imóvel dissipam-se com uma boa disposição incontrolável. Continuo parado mas agora divertido.
A tarde tornou-se menos penosa, ainda assim preocupo-me com a Voxx. Será que terei de reduzir em mais uma o restrito leque das rádio audíveis?
Sábado à tarde. Entro no carro para uma viagem longa. Ligo a telefonia, aparece Voxx no RDS, a boa música voltou. Alguém me poderá explicar o que se passou na Voxx nessa molhada tarde de sexta feira?

22.10.03

Adeus Lenine

Ontem fui, finalmente, ver o "Adeus Lenine". Consta que perdi um discurso do nosso Presidente e uma discussão acalorada no Jornal da Noite da TVI. Confesso que preferi o meu jantar de tapas seguido do filme.
Divirto-me mas penso o quanto sofreram os povos de Leste com a experiência soviética. A cena da manifestação é o cabal exemplo de como o poder do povo era apenas uma aparência nestes regimes. As propaladas igualdade e liberdade nunca foram tão falsas como na prática comunista. Uma elite educava o povo e este era suposto deixar-se educar sem nada perguntar ou por em causa. Um mimo. O filme vale a pena pelo seu sentido de humor, por vezes delirante, e por um argumento no mínimo imaginativo.

Maldades

Acordo mal disposto. O dia definitivamente ameaça não correr bem. Um feroz ataque de rinite alérgica ataca-me devastadoramente. Apetece-me descarregar com maldade sobre alguém. Gostava de ter a Dr. Ana Gomes à minha frente numa barraca de tiro ao alvo com tomates. Sim, tomates bem encarnados e bem maduros. Apetece-me trancar o Dr. Louça num Colombo sem FNAC, obrigando-o ao íntimo contacto com os mais puros instintos consumidores e capitalistas do povo. E que tal convidar o Dr. Ferro para o Big Brother, ao menos aí saberia que estava a ser escutado 24 horas por dia. Talvez não fosse má ideia descalçar o Dr. Barroso, percorrendo em seguida os seus pés com uma simples pena até o fazer rir, desalmadamente. Ao Dr. Sampaio talvez sugerisse a ingestão de "speeds" ou ácidos antes dos discursos, continuaríamos a não perceber nada, mas pelo menos a rapidez dos mesmos impediria que adormecêssemos rápida e alegremente. E que tal obrigar a nossa querida Ministra das Finanças a gastar dinheiro, em qualquer coisa que fosse.
A divagação vai longa, mas esta terapia de maldade está-me a fazer bem. As nuvens vão-se dissipando na minha cabeça, lembro-me de fazer um jantar do Dr. Soares com dez clones do Dr. Portas, ou vice-versa. Que tal obrigar o Dr. Cavaco a ler a integral do Independente de outros tempos. Uma terapia de bom humor para o nosso Nobel. Convidar o Dr. Carrilho como representante do partido num concerto da fogosa Ágata.
Que bem me sinto agora, por hoje acho já ter pensado o suficiente em mal, sinto-me próximo de um verdadeiro Demo. Que pena não poder concretizar algumas destas, digamos subtis, maldades...

17.10.03

Açores

A propósito de umas belas fotografias apresentadas no Picuinhices recordo os Açores, um dos poucos locais, a par com algum Alentejo, onde voltamos a ter esperança em Portugal e no mundo. Um sítio que o Homem ainda não conseguiu estragar. Um pedaço do nosso país onde nos sentimos como no último reduto do paraíso. Onde tudo é possível, o tempo tem ritmo próprio e a terra parece comunicar com sinais de fumo. Onde o verde não está sufocado por entre o betão e o ar que se respira cheira a flores ou a mar. Onde as gentes ainda são puras e têm orgulho do que é seu. Onde a comida eleva os sentidos. Onde o mar é cristalino até ao limite e no qual podemos passear por entre golfinhos brincalhões ou plácidas tartarugas. Um sítio onde valorizamos a vida e comprovamos, os crentes, que Deus existe e se demorou por aqui.

A mulher perfeita?

A esta eterna questão julgo encontrar uma resposta afirmativa ouvindo o disco de Carla Bruni, "Quelqu’un m’a dit". Depois de anos a mostrar a sua beleza e charme ao mundo, despertando os mais básicos sentidos masculinos, seduz-nos agora a cantar. Com o tímido sol desta tarde de Outono apenas apetece rumar a Itália ou Paris, com um anel numa mão e um enorme ramo de flores na outra. Que pena as coisas não serem simples assim.

A relação das secções ou as secções da relação

No episódio de hoje da nossa novela da Casa Pia (que por motivos estranhos não é da TVI, e não têm gémeos nem a Sofia Alves), sabemos que um acórdão da relação, efectuado um dia depois do que deu liberdade ao Sr. Pedroso, o contraria na quase totalidade. Parece que para os juizes desta secção o arguido tem sólidas provas incriminatórias contra si, algumas delas novas, e deveria ser mantido em prisão preventiva.
Será que a justiça em Portugal é feita em função das secções? Estarão os juizes a brincar connosco ou teremos princípios de uma epidemia de loucura colectiva nos nossos magistrados? Será necessário fazer exames de controlo anti-dopping? O povo aguarda cada vez menos sereno o fim desta novela. Quais serão os próximos episódios: Rui Teixeira constituído arguido por si próprio, Carlos Cruz a dar-se como vítima de abusos sexuais, Jorge Ritto a confirmar que era um agente infiltrado na rede e Paulo Pedroso a pedir indemnização a Catalina Pestana por assédio sexual? Tudo parece possível e esta novela, ao contrário das outras, promete ter um fim inesperado sem casamentos felizes.

14.10.03

Para as termas, e depressa.

Após o abalo governativo no qual caíram dois ministros, foram duas as senhoras escolhidas para os substituir. Talvez por inveja deste súbito protagonismo das mulheres do centro para a direita, eis senão quando surge Ana Gomes em todo o seu esplendor, saindo de dentro das nossas televisões com a infinita delicadeza de um elefante numa loja de cristais. A potência da sua presença foi tal que conseguiu a ubiquidade de estar a ser entrevistada em dois canais ao mesmo tempo.
Num acesso que facilmente se qualificaria de histeria, disparou para todo o lado. Primeiro que um artigo do Le Point (aliás já com alguns meses durante quais permaneceu silenciosa) teria referido dois ministros como sendo clientes habituais do Parque Eduardo VII. Não consta que até hoje tenham sido referidos por abuso de crianças, não consta até hoje que tenham sido investigados no caso Casa Pia, consta apenas que seriam frequentadores de um local de engate e prostituição homossexual. Segundo as palavras desta Passionária inflamada estes senhores deveriam estar a ser investigados (e como saberá ela que não o estão a ser?) , mais, parece que todos deveríamos saber os seus nomes, entrando assim por intimidades que me parece não interessarem a ninguém senão por sórdida curiosidade.
Continuou com a defesa do camarada Pedroso, insistindo que o assunto era político e voltando a falar na famigerada cabala, sob outros nomes, agora que este saiu de moda. Voltou a defender a festança no parlamento e todas as outras manifestações que, na sua sempre brilhante opinião, em nada são pressões sobre a justiça e que, em nenhuma circunstância, são formas de politizar a questão. Parece estranho, afinal o que seria necessário para politizar esta questão para além de tudo o que fez o PS?
Não contente com todos estes pensamentos ainda questionou a nomeação de José Lamego para o Iraque, desvinculando totalmente o partido desta decisão e esclarecendo que a mesma foi tomada apenas a título pessoal. Curioso raciocínio que estabelece um trabalho ao serviço do país como algo do foro pessoal e um crime de pedofilia como um crime político.
Aparentemente o PS apercebeu-se de mais uma salva de tiros no pé e, ainda hoje, António Costa veio a público puxar a orelhas da camarada Ana, pedindo silêncio e prudência sobre este tema. Parece que o Dr. Costa percebeu que a histeria colectiva do PS estaria a entrar em patamares dignos de internamento. Termas meus senhores, termas recomendam-se e para já. O país aguarda ansioso.
JAC

13.10.03

Portugal ou EUA

Estou inquieto...
São dias de pessimismo estes em que duvidamos do amor ao nosso país e não percebemos que país é pior, se o nosso querido Portugal se os agora fora de moda Estados Unidos.
Nós temos Ministros dos Negócios Estrangeiros que tentam alterar a lei à medida das filhas e, na impossibilidade de o conseguir, metem discretas cunhas a assessores do Ministro da Educação. Depois dizem sobre palavra de honra e em grande pompa que não falaram com o colega da Educação. Claro que agora se percebe que isso não era necessário, uma vez que o Ministro já tinha convidado o assessor da Educação a mudar para o seu ministério e assim nem precisou de falar com o colega, falou com o assessor. A continuação é ainda mais bizarra pois o primeiro a demitir-se foi o da Educação e, após grande estrondo no país, só depois o dos Negócios Estrangeiros. O mais curioso foi o silêncio ensurdecedor do Primeiro Ministro, quiçá preocupado com alguma pesquisa de receitas de cherne com a nova Ministra.
Ainda nós, temos um ex-deputado que estava em prisão preventiva por abuso de menores que, após recurso na relação aprovado apenas por maioria, saiu em liberdade com termo de identidade e residência. Num qualquer país isto seria um dado normal, noticiado com ponderação uma vez que o julgamento ainda não começou e, apesar da óbvia presunção de inocência, ainda ninguém foi ilibado. Mas não, aqui deu direito a directos desde as seis da tarde em todas as televisões, filmando incessantemente qual Manuel de Oliveira um plano fixo da porta da penitenciária, aguardando a emocionante saída do deputado. A histeria dos jornalistas era grande e á saída perseguiram a pé o carro onde o Sr. deputado saiu, rodeando-o no primeiro semáforo onde parou. O espectáculo prometia terminar, mas eis que num frenético directo do parlamento, dezenas de jornalistas se empurravam à porta. Chegou o carro e parecia a final do Super Bowl americano, as formações correram, sem olhar a meios, atrás da bola (vulgo deputado) por entre portas e escadas deixando vários espojados pelo caminho. Por momentos pensei que era o D. Sebastião a regressar, mas não, não havia nevoeiro. Os colegas do PS choravam, talvez recordando-se do 25 de Abril, e os abraços eram intensos ao herói - que por acaso é ainda arguido dos mesmos 15 crimes de abuso de menores, o que é de somenos importância. A emoção tomava conta de todos, com a honrosa excepção da jornalista da SIC que continuava a frisar que a situação jurídica do Sr. era igual á do dia anterior, com a única diferença de a aguardar em liberdade. Estranho país este em que as vítimas de crimes tão simpáticos como violação enquanto menores são esquecidos e os supostos criminosos tidos como vítimas de uma conspiração e tratados como heróis. Ninguém questiona que houve crimes, parece é que toda a gente quer que não haja criminosos, estes - ainda com presunção de inocência - ou outros quaisquer. O PS parece ter saudades de um sistema feudal em que os poderosos faziam o queriam e tinham tratamento diferente, para as ortigas a igualdade de direitos.
Perante isto, tudo parecia perdido, definitivamente Portugal seria um país do terceiro mundo mas...
Os EUA, grande bastião da nova civilização ocidental, suposto modelo social de virtudes acaba de eleger como governador de um dos seus estados mais importantes e quinta economia do mundo... o Arnold qualquer coisa. Aquele que já foi um Exterminador Implacável, o Conan, o único homem que já engravidou, o ex mister universo, no fundo um grande intelectual e um político de futuro.
Afinal continuo a preferir o nosso Portugal, nós, apesar de alguns Jardins, Loureiros, Avelinos ou Macários, ainda não elegemos o Tarzan Taborda para nenhum cargo público. Benza-nos Deus.

JAC