Os centros urbanos parecem, depois do fecho das lojas, autênticas cidades fantasma. As cidades são feitas de gente, que nelas dorme e trabalha, se desloca e vive. É essencial que no centro haja movimento, moradores entrando e saindo de casa, entrando nos cafés de bairro após jantar.
A Baixa, centro oficioso de Lisboa, é, depois das oito horas, um deserto perigoso. Na última vez em que nela me passeava com os meus pais, detive-me numa montra e logo me ofereceram haxixe ou outras drogas e depois uma máquina fotográfica, obviamente roubada. Assim não dá.
O movimento dos habitantes, a certeza de que um grito é ouvido por alguém, que o vizinho de cima pode tomar conta da casa na nossa ausência. No fundo a sensação provinciana de viver numa comunidade que cada vez mais se perde nas grandes metrópoles. Em Lisboa ainda há zonas assim, como Campo de Ourique. Alfama e Graça são outro exemplo, onde o espírito ainda existe, talvez na sua forma mais pura, mas a degradação urbana toma, nalguns casos, proporções inacreditáveis. A reformulação urbana não se faz por decreto. Faz-se proporcionando o restauro dos edifícios, de preferência de forma rigorosa e respeitosa com a arquitectura dos mesmos. Não creio na transformação de bairros tradicionais nem em zonas "very typical" de matronas batendo em crianças à porta de casas miseráveis, nem em locais absurdamente caros que deturpam o conceito de bairro.
Parece utópico mas a cidade em que acredito é esta, com bairros mais caros e mais baratos, mas com uma alegre mistura, sem fronteiras rígidas, sem guettos falsos ou reais. Sem os condomínios fechados, que mais não são do que isto, falsos édenes, que em nada contribuem para a vida comunitária e que parecem uma versão capitalista de comunas fechadas ao mundo. Ainda não temos, felizmente, a criminalidade do Rio de Janeiro, essa sim justifica estes guettos. Lisboa foi assim, uma cidade de bairros, de pequenos provincianismos e saudáveis bairrismos, e pode voltar a sê-lo. A Graça sempre alternou casas populares com belos palácios, e Alfama, e a Madragoa. O bairro típico de Lisboa é assim, uma confusão de gentes e culturas. Assim se consiga manter o pouco que existe, sem estagnamos numa visão miserabilista de conservação degradada, ou embarcarmos em devaneios de construção em zonas sensíveis como estas.
8.1.04
7.1.04
Máquina Nova
Para este novo ano prometi-me um presente.
O meu computador, a que carinhosamente chamo "O fóssil", arrastava-se penosamente desactualizado desde há longos tempos atrás. Apesar do carinho que habitualmente ganho aos objectos, por este nada conseguia sentir. Aliás, senti por muitas, demasiadas, vezes uma quase irreprimível vontade de o arremessar pela janela. Monitor incluído, sim, esse que agora tinha imagem baça e de vez em quando flashava (não, não ando a tomar ácidos) sem aparente motivo.
Foi então com enorme satisfação que anteontem fui buscar o meu novo companheiro, preto, sem fios e, especialmente, actualizado e com um enorme ecrã. Parece que entrei numa nova dimensão informática, rápida e mais eficaz. Até o Blogger está diferente, agora que uso o Windows XP.
Acabei o dia a rever, na máquina nova, o belíssimo filme de Woody Allen "Toda a gente diz que te amo". Que boa maneira de começar o ano.
O meu computador, a que carinhosamente chamo "O fóssil", arrastava-se penosamente desactualizado desde há longos tempos atrás. Apesar do carinho que habitualmente ganho aos objectos, por este nada conseguia sentir. Aliás, senti por muitas, demasiadas, vezes uma quase irreprimível vontade de o arremessar pela janela. Monitor incluído, sim, esse que agora tinha imagem baça e de vez em quando flashava (não, não ando a tomar ácidos) sem aparente motivo.
Foi então com enorme satisfação que anteontem fui buscar o meu novo companheiro, preto, sem fios e, especialmente, actualizado e com um enorme ecrã. Parece que entrei numa nova dimensão informática, rápida e mais eficaz. Até o Blogger está diferente, agora que uso o Windows XP.
Acabei o dia a rever, na máquina nova, o belíssimo filme de Woody Allen "Toda a gente diz que te amo". Que boa maneira de começar o ano.
6.1.04
Sporting
Anteontem o Sporting resolveu, pelo menos por uma vez, jogar futebol com garra e alguma qualidade. O Engenheiro, também por uma vez, jogou ao ataque e sem receios, acertando nas substituições.
Conclusão, ganhámos na Luz e o título ainda não uma total miragem.
Bom início de 2004 para as bandas de Alvalade. Ainda bem.
Conclusão, ganhámos na Luz e o título ainda não uma total miragem.
Bom início de 2004 para as bandas de Alvalade. Ainda bem.
2004 Versão optimista
No 2004 dos meus pensamentos mais insanamente optimistas, isto é o que se vai passar.
O caso Casa Pia será resolvido, de forma inquestionável, e os culpados serão severamente punidos. Não me interessa se são os que estão presos, se estes e outros, se somente outros. O povo respirará de alívo e acreditará por uma vez na justiça da justiça em Portugal.
O governo contornará a crise e todos poderemos alargar ostensivamente o cinto. A Ministra das Finanças estará ao longo do ano com invejáveis índices de popularidade, sendo aclamada efusivamente pela população em qualquer local que passe.
O Sporting será campeão nacional, depois de uma série de dezassete jogos sem perder. Fernando Santos cumprirá a promessa de fazer a pé uma digressão pelos dez estádios do Euro, finalizada com um retiro de uma semana em Fátima.
Scolari será agraciado com a Ordem do Infante, depois de levar a nossa selecção à vitória no Euro 2004. Invicta e praticando um futebol de sonho, Portugal deslumbra o mundo, tornando-se campeão incontestado do campeonato que organizou. Os árbitros passam discretos e Baía fica no Porto a ver os jogos pela televisão. Consta que Pinto da Costa comeu um chapéu, devido à promessa de que o faria se Scolari fosse campeão sem jogar com Baía.
Mário Soares contrai uma estranha fobia que o impede de dar entrevistas a televisões, rádios e jornais. A doença é aparentemente contagiosa e Freitas do Amaral e Manuel Monteiro são contaminados.
O Rock in Rio cria um palco intimista, para o qual programa Chico Buarque, João Gilberto, Caetano Veloso, Maria Rita e Marisa Monte. No registo mais mexido os U2 confirmam a sua presença.
George Bush resigna por motivos desconhecidos e é sucedido por um representante da ala anti militarista do Partido Republicano.
Ana Gomes é nomeada embaixatriz no Burundi, com ordens expressas de não estabelecer contactos com o país de origem.
O grupo Media Capital, baseado num aturado estudo de marketing de uma empresa estrangeira, transforma os conteúdos dos seus canais num sucedâneo do ARTE.
Manuel de Oliveira realiza um filme de acção que é nomeado para o Óscar do melhor filme estrangeiro e ganha. Leonor Silveira acompanha-o a Los Angeles e é descoberta por Hollywood. A cerimónia dos óscares decorre de forma inédita com o empate nos Óscares de melhor filme e de melhor realizador entre Clint Eastwood por "Mystic River" e Peter Jackson por "Senhor dos Anéis: O Regresso do Rei."
Santana Lopes tem uma visão e desiste da candidatura à Presidência da República. Concentra-se em Lisboa e começa, de facto, a fazer qualquer coisa pelos alfacinhas. Os ministérios são expulsos, com apoio das massas, do Terreiro do Paço ao som de gritos "Terreiro para os lisboetas, burocratas para a Alta de Lisboa."
O Bloco de Esquerda assume a sua postura de "esquerda caviar", ao comemorar o seu aniversário num jantar na Bica do Sapato, seguido de restrita festa no Lux.
A esquerda tem um ataque de humildade e percebe que os portugueses já exprimiram a sua discordância com o aborto. O assunto cai no esquecimento.
O Iraque pacifica-se e Bin Laden é capturado com umas barbas ainda maiores do que as de Sadham. Israel e a Palestina entendem-se de forma aparentemente milagrosa, dando início a um sólido processo de paz.
Infelizmente não sou optimista.
O caso Casa Pia será resolvido, de forma inquestionável, e os culpados serão severamente punidos. Não me interessa se são os que estão presos, se estes e outros, se somente outros. O povo respirará de alívo e acreditará por uma vez na justiça da justiça em Portugal.
O governo contornará a crise e todos poderemos alargar ostensivamente o cinto. A Ministra das Finanças estará ao longo do ano com invejáveis índices de popularidade, sendo aclamada efusivamente pela população em qualquer local que passe.
O Sporting será campeão nacional, depois de uma série de dezassete jogos sem perder. Fernando Santos cumprirá a promessa de fazer a pé uma digressão pelos dez estádios do Euro, finalizada com um retiro de uma semana em Fátima.
Scolari será agraciado com a Ordem do Infante, depois de levar a nossa selecção à vitória no Euro 2004. Invicta e praticando um futebol de sonho, Portugal deslumbra o mundo, tornando-se campeão incontestado do campeonato que organizou. Os árbitros passam discretos e Baía fica no Porto a ver os jogos pela televisão. Consta que Pinto da Costa comeu um chapéu, devido à promessa de que o faria se Scolari fosse campeão sem jogar com Baía.
Mário Soares contrai uma estranha fobia que o impede de dar entrevistas a televisões, rádios e jornais. A doença é aparentemente contagiosa e Freitas do Amaral e Manuel Monteiro são contaminados.
O Rock in Rio cria um palco intimista, para o qual programa Chico Buarque, João Gilberto, Caetano Veloso, Maria Rita e Marisa Monte. No registo mais mexido os U2 confirmam a sua presença.
George Bush resigna por motivos desconhecidos e é sucedido por um representante da ala anti militarista do Partido Republicano.
Ana Gomes é nomeada embaixatriz no Burundi, com ordens expressas de não estabelecer contactos com o país de origem.
O grupo Media Capital, baseado num aturado estudo de marketing de uma empresa estrangeira, transforma os conteúdos dos seus canais num sucedâneo do ARTE.
Manuel de Oliveira realiza um filme de acção que é nomeado para o Óscar do melhor filme estrangeiro e ganha. Leonor Silveira acompanha-o a Los Angeles e é descoberta por Hollywood. A cerimónia dos óscares decorre de forma inédita com o empate nos Óscares de melhor filme e de melhor realizador entre Clint Eastwood por "Mystic River" e Peter Jackson por "Senhor dos Anéis: O Regresso do Rei."
Santana Lopes tem uma visão e desiste da candidatura à Presidência da República. Concentra-se em Lisboa e começa, de facto, a fazer qualquer coisa pelos alfacinhas. Os ministérios são expulsos, com apoio das massas, do Terreiro do Paço ao som de gritos "Terreiro para os lisboetas, burocratas para a Alta de Lisboa."
O Bloco de Esquerda assume a sua postura de "esquerda caviar", ao comemorar o seu aniversário num jantar na Bica do Sapato, seguido de restrita festa no Lux.
A esquerda tem um ataque de humildade e percebe que os portugueses já exprimiram a sua discordância com o aborto. O assunto cai no esquecimento.
O Iraque pacifica-se e Bin Laden é capturado com umas barbas ainda maiores do que as de Sadham. Israel e a Palestina entendem-se de forma aparentemente milagrosa, dando início a um sólido processo de paz.
Infelizmente não sou optimista.
3.1.04
Intermitência festiva
A época é de calma, de vindas esporádicas à Net, de preguiça na escrita.
O recolher ao porto de abrigo provinciano, o viver calmo e frio. As tardes perdidas em passeios iluminados pelos raios brilhantes de sol de Inverno. Os lanches de fim de tarde, chá e torradas, já à braseira. As noites passadas em serões provincianos que ainda existem. O gélido sair de casa com o vento cortante, embrulhado em cachecóis, em direcção à casa de alguém. A entrada direito à lareira, tentando aquecer o corpo. As conversas longas, quantas vezes sem sentido, quantas vezes do tipo paisagem. As ceias ás três da manhã, ainda no meio da noite, com sugestões de seguir em jogos de cartas ou DVD's. O tempo diferente, quantas vezes esquecido na vida em Lisboa.
A tudo isto acresce a época festiva, o burburinho da família junta. As crianças amuando. Os doces comidos compulsivamente, levando o colesterol a saltos estratosféricos. O egoísta ignorar do mundo lá fora, criando uma muralha em redor da casa. Assim se passa, assim se passou e passará por mais um fim de semana. Segunda-feira tudo voltará ao normal, e este blog também terá uma maior regularidade. Até lá, ou talvez até antes, um bom fim de semana.
O recolher ao porto de abrigo provinciano, o viver calmo e frio. As tardes perdidas em passeios iluminados pelos raios brilhantes de sol de Inverno. Os lanches de fim de tarde, chá e torradas, já à braseira. As noites passadas em serões provincianos que ainda existem. O gélido sair de casa com o vento cortante, embrulhado em cachecóis, em direcção à casa de alguém. A entrada direito à lareira, tentando aquecer o corpo. As conversas longas, quantas vezes sem sentido, quantas vezes do tipo paisagem. As ceias ás três da manhã, ainda no meio da noite, com sugestões de seguir em jogos de cartas ou DVD's. O tempo diferente, quantas vezes esquecido na vida em Lisboa.
A tudo isto acresce a época festiva, o burburinho da família junta. As crianças amuando. Os doces comidos compulsivamente, levando o colesterol a saltos estratosféricos. O egoísta ignorar do mundo lá fora, criando uma muralha em redor da casa. Assim se passa, assim se passou e passará por mais um fim de semana. Segunda-feira tudo voltará ao normal, e este blog também terá uma maior regularidade. Até lá, ou talvez até antes, um bom fim de semana.
Casa Pia
A telenovela voltou. Até o tempo permitir a escrita de uma posta decente sobre o assunto, recomendo o que vai escrevendo na Grande Loja (link ao lado).
24.12.03
19.12.03
Será que o Pai Natal é de esquerda?
Em tempos em que a discussão entre esquerda e direita, e o que de facto as distingue, é cada vez mais actual, parece pertinente perguntar qual será a ideologia do Pai Natal.
Partamos do princípio de que ele existe, sim, que este senhor vive algures na Lapónia e nos visita, de forma estranhamente ubíqua, uma vez por ano.
A argumentação primeira, aquela em que todos pensarão, é que o senhor é caridoso, que distribui presentes por todos, que é solidário, que não é um capitalista interesseiro, já que nada cobra pelo seu serviço. Até aqui, segundo os chavões habituais, ele é sem dúvida de esquerda. Mas os presentes que ele entrega aos ricos são melhores que os dos pobres, será ele um porco capitalista entregue à distinção de classes?
Trabalha apenas um dia no ano inteiro, apesar de o imaginarmos o resto do ano actualizar ficheiros de moradas. Denoto aqui uma certa postura hedonista, de aproveitamento dos rendimentos para estar 364, ou 365, dias praticamente sem produzir. A sua cota para a sociedade é grande, mas não deveria ser maior e prolongada durante o ano? Chegado aqui começo a julgá-lo de uma certa direita individualista, achando que o seu papel para com a sociedade é cumprido apenas num dia do ano, podendo usufruir no resto das coisas boas da vida.
Consta que tem renas, e que elas o transportam, ao suave ritmo do chicote, para todo o lado. A exploração indevida dos animais não o coloca por certo do lado irracionalmente protector dos animais que caracteriza uma certa esquerda radical. Será que vamos ver alguma manifestação no dia de Natal contra a opressão das renas da Lapónia, com gritos de assassino qual manifestação anti-taurina?
Surge outra dúvida, porque será que nunca muda de uniforme, e porque escolheu o vermelho como cor? Acho que um fatinho castanho iria melhor com o seu ar bonacheirão de velhinho simpático. Detecto aqui uma assunção do vermelho como cor de intervenção, de certo ligada a tendências pró comunistas, quem sabe se devido a uma adolescência revolucionária por entre as neves do Norte da Europa. Devo aqui acrescentar a insistência nas longas barbas, por norma associadas aos grades revolucionários, lembro Marx, Fidel e o eterno Che. Serão da família? É que dela nada conhecemos e o seu passado permanece obscuro.
Acho que em conclusão o senhor deverá ser social democrata. Vem do Norte da Europa, onde os sociais democratas são de esquerda, mas deve ter uma costela portuguesa, onde a prática da social democracia se encontra num limbo entre o centro esquerda e o centro direita. No fundo acho que apesar da imagem exuberante, o Pai Natal é do centro, do cinzento centrão, daquela amálgama ideológica incompreensível e oscilante ao sabor das marés. Se fosse português estava agora a apelar ao entendimento entre Durão e Ferro, procurando que apenas existissem dois partido em alegre e monótona alternância.
Por tudo isto é que eu não acredito no Pai Natal. Para mim o Natal é o nascimento de Jesus, uma comemoração de fé alargada a uma festa de família. O Pai Natal sempre foi personagem exótica e de difícil encaixe na visão natalícia lá de casa. Quem dá os presentes sempre foi, e será, o Menino Jesus. A ele agradecemos e a ele pedimos, o Natal é, fora de dúvidas, seu. Viva o Menino Jesus.
Partamos do princípio de que ele existe, sim, que este senhor vive algures na Lapónia e nos visita, de forma estranhamente ubíqua, uma vez por ano.
A argumentação primeira, aquela em que todos pensarão, é que o senhor é caridoso, que distribui presentes por todos, que é solidário, que não é um capitalista interesseiro, já que nada cobra pelo seu serviço. Até aqui, segundo os chavões habituais, ele é sem dúvida de esquerda. Mas os presentes que ele entrega aos ricos são melhores que os dos pobres, será ele um porco capitalista entregue à distinção de classes?
Trabalha apenas um dia no ano inteiro, apesar de o imaginarmos o resto do ano actualizar ficheiros de moradas. Denoto aqui uma certa postura hedonista, de aproveitamento dos rendimentos para estar 364, ou 365, dias praticamente sem produzir. A sua cota para a sociedade é grande, mas não deveria ser maior e prolongada durante o ano? Chegado aqui começo a julgá-lo de uma certa direita individualista, achando que o seu papel para com a sociedade é cumprido apenas num dia do ano, podendo usufruir no resto das coisas boas da vida.
Consta que tem renas, e que elas o transportam, ao suave ritmo do chicote, para todo o lado. A exploração indevida dos animais não o coloca por certo do lado irracionalmente protector dos animais que caracteriza uma certa esquerda radical. Será que vamos ver alguma manifestação no dia de Natal contra a opressão das renas da Lapónia, com gritos de assassino qual manifestação anti-taurina?
Surge outra dúvida, porque será que nunca muda de uniforme, e porque escolheu o vermelho como cor? Acho que um fatinho castanho iria melhor com o seu ar bonacheirão de velhinho simpático. Detecto aqui uma assunção do vermelho como cor de intervenção, de certo ligada a tendências pró comunistas, quem sabe se devido a uma adolescência revolucionária por entre as neves do Norte da Europa. Devo aqui acrescentar a insistência nas longas barbas, por norma associadas aos grades revolucionários, lembro Marx, Fidel e o eterno Che. Serão da família? É que dela nada conhecemos e o seu passado permanece obscuro.
Acho que em conclusão o senhor deverá ser social democrata. Vem do Norte da Europa, onde os sociais democratas são de esquerda, mas deve ter uma costela portuguesa, onde a prática da social democracia se encontra num limbo entre o centro esquerda e o centro direita. No fundo acho que apesar da imagem exuberante, o Pai Natal é do centro, do cinzento centrão, daquela amálgama ideológica incompreensível e oscilante ao sabor das marés. Se fosse português estava agora a apelar ao entendimento entre Durão e Ferro, procurando que apenas existissem dois partido em alegre e monótona alternância.
Por tudo isto é que eu não acredito no Pai Natal. Para mim o Natal é o nascimento de Jesus, uma comemoração de fé alargada a uma festa de família. O Pai Natal sempre foi personagem exótica e de difícil encaixe na visão natalícia lá de casa. Quem dá os presentes sempre foi, e será, o Menino Jesus. A ele agradecemos e a ele pedimos, o Natal é, fora de dúvidas, seu. Viva o Menino Jesus.
18.12.03
Campo de Trigo com Corvos
Por insondáveis motivos lembrei-me hoje de um dos quadros da minha vida. Recuei alguns anos até uma alegre viagem por terras holandesas. Por entre os passeios em Amsterdão detive-me, com os amigos que me acompanhavam, no Museu Van Gogh. Este era já um dos meus pintores preferidos, e tinha grandes expectativas de ver o museu a ele dedicado.
O espanto perante as cores reais e irreprodutíveis foi enorme. Já tinha noção da diferença entre um quadro in vivo e uma reprodução, mas nunca como com Van Gogh essa diferença era tão gritante.
A visita foi longa e intensa, mas o chef d’ouevre estava reservado para o fim, este extraordinário "Campo de Trigo com Corvos". Um céu azul, intenso, com revoltas nuvens num aparente prenúncio de tempestade, esmaga e detêm o olhar. Por debaixo, entre barrentos caminhos sulcados por carroças, um longo campo de trigo. Ou antes um quase mar amarelo, ondulado ao ritmo de uma brisa intensa, num movimento suave mas firme, agitando a terra e testando as raízes. Neste cenário forte, carregado, um grande bando de corvos plana. Talvez fugindo de uma tempestade, talvez picando sobre a terra em busca de alimento, qual gaivotas mergulhando no mar. Aqui, um tema aparentemente bucólico transforma-se em muito mais, uma simples paisagem desperta um turbilhão de sentimentos. A grande pintura é assim, um indizível desencadear de sensações, tantas vezes sem motivos concretos.
As cores e o movimento conseguem um efeito hipnótico e lembro-me de ter de ser insistentemente chamado para largar o quadro e ir embora. Este era o último quadro da exposição, este é, segundo alguns, o último quadro de Van Gogh. Talvez seja uma coincidência, mas por entre os vários quadros deste pintor que adoro, este é, até agora, aquele que mais gostei.
O espanto perante as cores reais e irreprodutíveis foi enorme. Já tinha noção da diferença entre um quadro in vivo e uma reprodução, mas nunca como com Van Gogh essa diferença era tão gritante.
A visita foi longa e intensa, mas o chef d’ouevre estava reservado para o fim, este extraordinário "Campo de Trigo com Corvos". Um céu azul, intenso, com revoltas nuvens num aparente prenúncio de tempestade, esmaga e detêm o olhar. Por debaixo, entre barrentos caminhos sulcados por carroças, um longo campo de trigo. Ou antes um quase mar amarelo, ondulado ao ritmo de uma brisa intensa, num movimento suave mas firme, agitando a terra e testando as raízes. Neste cenário forte, carregado, um grande bando de corvos plana. Talvez fugindo de uma tempestade, talvez picando sobre a terra em busca de alimento, qual gaivotas mergulhando no mar. Aqui, um tema aparentemente bucólico transforma-se em muito mais, uma simples paisagem desperta um turbilhão de sentimentos. A grande pintura é assim, um indizível desencadear de sensações, tantas vezes sem motivos concretos.
As cores e o movimento conseguem um efeito hipnótico e lembro-me de ter de ser insistentemente chamado para largar o quadro e ir embora. Este era o último quadro da exposição, este é, segundo alguns, o último quadro de Van Gogh. Talvez seja uma coincidência, mas por entre os vários quadros deste pintor que adoro, este é, até agora, aquele que mais gostei.
Natal dos Hospitais
Ontem em "zaping" passei por imagens que me pareciam quase arqueológicas. Parei e percebi que era um programa sobre a história do Natal dos Hospitais, apresentado por Júlio Isidro, Ana Zanatti e Henrique Mendes. Fiquei a ver um bocado e deliciei-me em momentos de alegre nostalgia.
O cenário era uma tenda de circo em tons cinza prateado de onde caíam fitas brilhantes. Os colarinhos das camisas eram avantajados, senhoras usavam calças por dentro de altas botas e camisas de manga de balão. E os artistas... Herman ainda magro, ainda com muita graça, ainda com o cabelo preto, na pele de Tony Silva cantando um delicioso medley de músicas da época. Cândida Branca Flor num número musical acompanhada por um bailarino saído de um filme musical série Z dos anos 40. Rui Veloso cantando "Um café e um bagaço", com menos 30 quilos e mais um bigode. O romântico Tony de Matos no seu melhor. Carlos Alberto Moniz a cantar para as crianças, acompanhado pela irreconhecível filha Lúcia, então pré, pré adolescente. Um irreconhecível Fernando Mendes, este com menos 60 quilos, com Francisco Nicholson num número de revista.
Neste momento parece uma obsessão estar a citar o estado de gordura de cada artista, mas é a mais pura da verdade. Leva-me a pensar se podemos estabelecer um paralelo entre a engorda dos artistas e a progressão económica de Portugal. A ser assim, podemos prever que comecem rapidamente a emagrecer, pelo menos assim o diz a Ministra das Finanças. Convém guardar segredo, pois o Dr. Tallon pode ficar sem clientes e tornar-se violento.
Hoje por acaso liguei a televisão...lá estava o Natal dos Hospitais. Um pouco diferente nos cenários, nas barrigas proeminentes dos artistas consagrados, na própria cor da televisão. No resto igual, o dia em que todos os artistas, bons ou maus, desconhecidos ou consagrados, aparecem na televisão. Descobrimos cantores obscuros de voz abafada pelo playback e visual inaudito. Revemos gente que julgávamos desaparecida. Conhecemos novos artistas. No fundo é como ir a um casamento, sem a missa e as comidas. Um acontecimento anual indispensável que só se suporta como exercício quase masoquista de nostalgia. Aguentei uns dez minutos.
O cenário era uma tenda de circo em tons cinza prateado de onde caíam fitas brilhantes. Os colarinhos das camisas eram avantajados, senhoras usavam calças por dentro de altas botas e camisas de manga de balão. E os artistas... Herman ainda magro, ainda com muita graça, ainda com o cabelo preto, na pele de Tony Silva cantando um delicioso medley de músicas da época. Cândida Branca Flor num número musical acompanhada por um bailarino saído de um filme musical série Z dos anos 40. Rui Veloso cantando "Um café e um bagaço", com menos 30 quilos e mais um bigode. O romântico Tony de Matos no seu melhor. Carlos Alberto Moniz a cantar para as crianças, acompanhado pela irreconhecível filha Lúcia, então pré, pré adolescente. Um irreconhecível Fernando Mendes, este com menos 60 quilos, com Francisco Nicholson num número de revista.
Neste momento parece uma obsessão estar a citar o estado de gordura de cada artista, mas é a mais pura da verdade. Leva-me a pensar se podemos estabelecer um paralelo entre a engorda dos artistas e a progressão económica de Portugal. A ser assim, podemos prever que comecem rapidamente a emagrecer, pelo menos assim o diz a Ministra das Finanças. Convém guardar segredo, pois o Dr. Tallon pode ficar sem clientes e tornar-se violento.
Hoje por acaso liguei a televisão...lá estava o Natal dos Hospitais. Um pouco diferente nos cenários, nas barrigas proeminentes dos artistas consagrados, na própria cor da televisão. No resto igual, o dia em que todos os artistas, bons ou maus, desconhecidos ou consagrados, aparecem na televisão. Descobrimos cantores obscuros de voz abafada pelo playback e visual inaudito. Revemos gente que julgávamos desaparecida. Conhecemos novos artistas. No fundo é como ir a um casamento, sem a missa e as comidas. Um acontecimento anual indispensável que só se suporta como exercício quase masoquista de nostalgia. Aguentei uns dez minutos.
Presentes de Natal
Ontem achei por bem começar a pensar na parte prática do Natal. A família é grande e ainda nem sequer de leve tinha pensado nos presentes. Neste ponto poderia tender a ficar horrorizado com a proximidade do Natal e a manifesta falta de tempo. Assim não é.
Hoje o Natal é marcado por um consumismo desenfreado, barbaramente estimulado pelas televisões. As crianças escolhendo catálogos inteiros do Toys'r'us para pedir ao Pai Natal. A febre das compras, particularmente sentida nas grandes superfícies, onde as pessoas se acotovelam, quase se espezinham e se agridem para chegar aos jogos que os filhos pediram e que têm de se dados. Hoje as crianças não podem ser desiludidas, podem sofrer de desequilíbrios graves se não receberem a Barbie Patinadora ou o Action Man da Guerra do Iraque. São as novas pedagogias e educações que as crianças recebem, responsabilidade de pais e professores em cotas iguais.
Independentemente disto adoro as compras de Natal. Deliro ao passear alegremente pelas lojas, vendo, mexendo, pensando no "não sei quê" de ideal para cada pessoa. Que seja barato, original e de preferência inútil (adoro dar inutilidades, aquelas pequenas coisas que não compramos para nós, mas que gostamos de receber e de ter). Dar presentes por gosto, mais não será do que dizer a alguém que dele gostamos. Quando se aproxima o Natal gosto de sair para a rua, no frio de Inverno, e passear longamente, tentando descobrir aquilo que me apetece dar. Mas recuso as grandes superfícies. Prefiro o Chiado, as ruas iluminadas, o ar que se respira com o cheiro a castanhas ainda presente. As pessoas girando felizes, de sorriso na cara e sacos nas mãos. Lanchar por ali, na Benard ou no Chá do Carmo (ou ainda um belo gelado na Hagen Dahz), parando a ver o corrupio. Descer um pouco à baixa, deambular pela Rua Augusta. Subir ao Bairro Alto em busca de algo original, com passagem obrigatória na TonTon. Tudo isto a passar-se no dia 22, ou 23, ou mesmo 24. Sim , depois de tantas voltas ficam sempre as compras para o fim, para aquele último dia em que entro na FNAC e só de lá saio com todos os presentes cumpridos. Sejam livros de cozinha ou discos de música clássica, sejam vídeos da Walt Disney ou livros de contos tradicionais, sejam romances actuais ou biografias imprescindíveis. Aqui o caos é grande, neste dias, mas muito e muito distante de um Continente. As pessoas são razoavelmente civilizadas, não costumam trazer crianças, não gritam, não há carrinhos de compras obscenamente cheios a impedir o caminho, não há músicas do coro de Santo Amaro de Oeiras. Pode-se ir de Metro fugindo ao inenarrável trânsito desta época, pode-se ficar para jantar no Bairro Alto.
Ontem na FNAC perguntei se tinham o vídeo do segundo Harry Potter, responderam que não , só no Colombo ou então no fim da semana. Óbvio que voltarei no fim de semana, ir ao Colombo nesta época nem que me paguem, muito.
Hoje o Natal é marcado por um consumismo desenfreado, barbaramente estimulado pelas televisões. As crianças escolhendo catálogos inteiros do Toys'r'us para pedir ao Pai Natal. A febre das compras, particularmente sentida nas grandes superfícies, onde as pessoas se acotovelam, quase se espezinham e se agridem para chegar aos jogos que os filhos pediram e que têm de se dados. Hoje as crianças não podem ser desiludidas, podem sofrer de desequilíbrios graves se não receberem a Barbie Patinadora ou o Action Man da Guerra do Iraque. São as novas pedagogias e educações que as crianças recebem, responsabilidade de pais e professores em cotas iguais.
Independentemente disto adoro as compras de Natal. Deliro ao passear alegremente pelas lojas, vendo, mexendo, pensando no "não sei quê" de ideal para cada pessoa. Que seja barato, original e de preferência inútil (adoro dar inutilidades, aquelas pequenas coisas que não compramos para nós, mas que gostamos de receber e de ter). Dar presentes por gosto, mais não será do que dizer a alguém que dele gostamos. Quando se aproxima o Natal gosto de sair para a rua, no frio de Inverno, e passear longamente, tentando descobrir aquilo que me apetece dar. Mas recuso as grandes superfícies. Prefiro o Chiado, as ruas iluminadas, o ar que se respira com o cheiro a castanhas ainda presente. As pessoas girando felizes, de sorriso na cara e sacos nas mãos. Lanchar por ali, na Benard ou no Chá do Carmo (ou ainda um belo gelado na Hagen Dahz), parando a ver o corrupio. Descer um pouco à baixa, deambular pela Rua Augusta. Subir ao Bairro Alto em busca de algo original, com passagem obrigatória na TonTon. Tudo isto a passar-se no dia 22, ou 23, ou mesmo 24. Sim , depois de tantas voltas ficam sempre as compras para o fim, para aquele último dia em que entro na FNAC e só de lá saio com todos os presentes cumpridos. Sejam livros de cozinha ou discos de música clássica, sejam vídeos da Walt Disney ou livros de contos tradicionais, sejam romances actuais ou biografias imprescindíveis. Aqui o caos é grande, neste dias, mas muito e muito distante de um Continente. As pessoas são razoavelmente civilizadas, não costumam trazer crianças, não gritam, não há carrinhos de compras obscenamente cheios a impedir o caminho, não há músicas do coro de Santo Amaro de Oeiras. Pode-se ir de Metro fugindo ao inenarrável trânsito desta época, pode-se ficar para jantar no Bairro Alto.
Ontem na FNAC perguntei se tinham o vídeo do segundo Harry Potter, responderam que não , só no Colombo ou então no fim da semana. Óbvio que voltarei no fim de semana, ir ao Colombo nesta época nem que me paguem, muito.
17.12.03
Imagens 3
A teimosia é uma característica minha, assumo.
Volto à carga com as fotografias, agora em novo "hospedeiro". Será desta?
Na senda da posta anterior: Será que só eu vejo o que estou a ver?
Volto à carga com as fotografias, agora em novo "hospedeiro". Será desta?
Na senda da posta anterior: Será que só eu vejo o que estou a ver?
16.12.03
Imagens 2
Afinal ontem nem tudo correu bem. Tenho as imagens num sítio hospedeiro mas, apesar de eu ontem as visualizar bem, parece que afinal as imagens não aparecem. Já tirei as postas onde só apareciam cruzes encarnadas. Resumi-me à insignificância dos meus conhecimentos informáticos, pelo menos para já terei de proseguir sem fotografias.
Não resisto a citar um comentário hoje recebido a este propósito:
"Não vejo as imagens - por vezes acontece, nós vemos, mas os outros não."
Não resisto a citar um comentário hoje recebido a este propósito:
"Não vejo as imagens - por vezes acontece, nós vemos, mas os outros não."
15.12.03
Imagens
Após as primeiras semanas de blog, achei que gostava de inserir no mesmo algumas fotografias minhas. Fui ao Blogspot saber como o podia fazer, vi os upgrades, e tentei. Durante semanas fui tentando e, nada.
Finalmente descobri que podia ir buscar imagens que estivessem alojadas noutros sítios da Net, com a vantagem de não ter de fazer upgrades. Foi assim que arranjei um "hospedeiro" para as minhas imagens que agora posso inserir no blog. A partir de hoje, na segunda fase deste blog, também com imagens.
Finalmente descobri que podia ir buscar imagens que estivessem alojadas noutros sítios da Net, com a vantagem de não ter de fazer upgrades. Foi assim que arranjei um "hospedeiro" para as minhas imagens que agora posso inserir no blog. A partir de hoje, na segunda fase deste blog, também com imagens.
Porquê um Blog?
Há dois meses que comecei este blog. Hoje pergunto-me porque me terei metido nisto, porque se metem as pessoas neste mundo da blogosfera.
No meu caso começou por puro acaso. De quando em vez, escrevia uns mails mais pensados e elaborados, que enviava para alguns amigos. Parece que eles se iam divertindo e, depois de um deles - curiosamente a primeira posta deste blog -, houve quem me sugerisse que fizesse um blog. Na altura confesso que pouco ou nada sabia de blogs, apenas tinha ouvido vagamente falar de alguns e do que era de facto um blog. Resolvi navegar um pouco e fui descobrindo - graças aos links dos blogs que primeiro consultei - uma série de gente interessante, a escrever bem, e com opiniões livres e não espartilhadas pela fortemente "engagée" comunicação social portuguesa. Por uma ou duas semanas iniciava o dia com uma leitura dos meus blogs favoritos. Pensei então que podia fazer o meu blog, mas no fundo porquê um blog? Talvez porque gosto de escrever, apesar de uma enorme preguiça para começar qualquer texto, gosto muito de escrever. O blog foi para mim uma maneira de disciplinar um pouco a escrita, de combater a irritante preguiça, de dizer algo, nem que seja para o ar ou para mim. Manter um blog arruma ideias, exercita o cérebro, faz-nos pensar com regularidade e escrever de forma mais expedita.
Há certamente algo de narcisista em escrever para os outros, em acharmos que temos algo para dizer e que haja quem nos queira ler. No meu caso há também um certo pudor, que me leva a que até hoje só um amigo (também blogger) conheça o meu blog. Com outros descaí-me a dizer que tinha um blog, mas resisti até hoje a dar o endereço. O meu pudor foi forçado a esbater-se porque, este Sábado, fui compelido a finalmente dizer o nome do meu blog. Cedi, e ainda hoje seguirá um mail para alguns amigos desvendando a identidade do meu blog.
Termina assim a primeira fase do AnarcoConservador, aquela em que entrei na blogosfera escrevendo para mim e para quem foi encontrando este blog pelas mais diversas razões. Durante dois meses tentei perceber que tipo de blog queria: se algo de mais sério, baseado em questões políticas e da actualidade; se algo pessoal, com reflexões e pensamentos sobre a vida; se algo mais corrosivo, tentando destruir na escrita as convenções de que não gosto.
Hoje acho que encontrei o rumo para este blog, ele será definido exactamente pela falta de rumo. Vou escrever, como aliás fiz até hoje, sobre aquilo que literalmente me apetece, sem preocupações de coerência. Falarei de política e de viagens, de situações e de livros, de filmes e de lugares. No fundo porei por escrito os assuntos em que for pensando, com a anarquia que caracteriza os meus pensamentos.
A partir de hoje, e com muito gosto, também para alguns amigos. Sejam bem vindos e espero que se divirtam.
No meu caso começou por puro acaso. De quando em vez, escrevia uns mails mais pensados e elaborados, que enviava para alguns amigos. Parece que eles se iam divertindo e, depois de um deles - curiosamente a primeira posta deste blog -, houve quem me sugerisse que fizesse um blog. Na altura confesso que pouco ou nada sabia de blogs, apenas tinha ouvido vagamente falar de alguns e do que era de facto um blog. Resolvi navegar um pouco e fui descobrindo - graças aos links dos blogs que primeiro consultei - uma série de gente interessante, a escrever bem, e com opiniões livres e não espartilhadas pela fortemente "engagée" comunicação social portuguesa. Por uma ou duas semanas iniciava o dia com uma leitura dos meus blogs favoritos. Pensei então que podia fazer o meu blog, mas no fundo porquê um blog? Talvez porque gosto de escrever, apesar de uma enorme preguiça para começar qualquer texto, gosto muito de escrever. O blog foi para mim uma maneira de disciplinar um pouco a escrita, de combater a irritante preguiça, de dizer algo, nem que seja para o ar ou para mim. Manter um blog arruma ideias, exercita o cérebro, faz-nos pensar com regularidade e escrever de forma mais expedita.
Há certamente algo de narcisista em escrever para os outros, em acharmos que temos algo para dizer e que haja quem nos queira ler. No meu caso há também um certo pudor, que me leva a que até hoje só um amigo (também blogger) conheça o meu blog. Com outros descaí-me a dizer que tinha um blog, mas resisti até hoje a dar o endereço. O meu pudor foi forçado a esbater-se porque, este Sábado, fui compelido a finalmente dizer o nome do meu blog. Cedi, e ainda hoje seguirá um mail para alguns amigos desvendando a identidade do meu blog.
Termina assim a primeira fase do AnarcoConservador, aquela em que entrei na blogosfera escrevendo para mim e para quem foi encontrando este blog pelas mais diversas razões. Durante dois meses tentei perceber que tipo de blog queria: se algo de mais sério, baseado em questões políticas e da actualidade; se algo pessoal, com reflexões e pensamentos sobre a vida; se algo mais corrosivo, tentando destruir na escrita as convenções de que não gosto.
Hoje acho que encontrei o rumo para este blog, ele será definido exactamente pela falta de rumo. Vou escrever, como aliás fiz até hoje, sobre aquilo que literalmente me apetece, sem preocupações de coerência. Falarei de política e de viagens, de situações e de livros, de filmes e de lugares. No fundo porei por escrito os assuntos em que for pensando, com a anarquia que caracteriza os meus pensamentos.
A partir de hoje, e com muito gosto, também para alguns amigos. Sejam bem vindos e espero que se divirtam.
12.12.03
Hoje
Acordei cedo e não estava mal disposto, para mim uma quase absoluta contradição. Abri as janelas e um sol brilhante adivinhava-se por detrás de uma neblina matinal. Vencido o frio do quarto despertei para um dia de trabalho que esperava não ser um arrastar penoso de minutos. Hoje tinha assuntos vários a tratar Alentejo adentro, e isso animava-me o espírito.
A calma estrada começou a ser vencida e o sol foi-se impondo ao branco nevoeiro. O pasto verde brilhava num tom quase ofensivo, as folhas baças dos sobreiros cediam o protagonismo ás silhuetas irregulares. Não gosto especialmente de guiar, mas estas estradas, nestes dias, são tapetes onde deambulamos vencidos pela beleza esmagadora da natureza.
O fim do dia chegou, no momento do regresso, com o brilhante sol a desaparecer. As cores sucediam-se por detrás dos troncos despidos ou dos esguios montados. Apetece parar o dia, o tempo, fixar estes momentos e usá-los, abusá-los. Dias destes reconciliam-nos connosco, com a beleza, com o mundo, até com o Homem que ainda não conseguiu destruir tudo. Ainda há dias e sítios assim. Felizmente.
A calma estrada começou a ser vencida e o sol foi-se impondo ao branco nevoeiro. O pasto verde brilhava num tom quase ofensivo, as folhas baças dos sobreiros cediam o protagonismo ás silhuetas irregulares. Não gosto especialmente de guiar, mas estas estradas, nestes dias, são tapetes onde deambulamos vencidos pela beleza esmagadora da natureza.
O fim do dia chegou, no momento do regresso, com o brilhante sol a desaparecer. As cores sucediam-se por detrás dos troncos despidos ou dos esguios montados. Apetece parar o dia, o tempo, fixar estes momentos e usá-los, abusá-los. Dias destes reconciliam-nos connosco, com a beleza, com o mundo, até com o Homem que ainda não conseguiu destruir tudo. Ainda há dias e sítios assim. Felizmente.
9.12.03
Telemarketing
Sábado de manhã, telemóvel desligado. O sono seguia profundo e retemperador. No corredor o telefone toca, levando ao meu desesperado despertar. A noite anterior tinha seguido longa até quase de madrugada. Enrolo-me para o outro lado, não quero acordar, não me apetece levantar. Adormeço. Um pouco mais tarde volto à realidade com mais um toque, que se foi sucedendo uma e outra vez. Vou conseguindo adormecer, a espaços, numa persistência por descanso. Consigo um pouco de sono profundo, do qual acordo um pouco menos mal disposto. Após o banho o telefone volta a soar e atendo, tentando decifrar quem persistentemente me incomodava em dia de descanso. Do outro lado uma voz feminina sobrepondo-se a algum ruído de fundo fez-me pensar em telemarketing. Passo a uma voz mais antipática, após identificação da criatura, perguntando se já me tinha tentado ligar. A resposta afirmativa fez despoletar em mim uma fúria agressiva, afinal tinha sido esta a culpada pelo agravar de uma ressaca já de si infame e poderosa. Comecei, com voz ainda vagamente ameaçadora, a perguntar à senhora se achava normal incomodar as pessoas a um Sábado de manhã. A sua insolente resposta acabou com as minha reservas, passando a descompô-la - ainda que educadamente - com toda a minha revolta. No fim de uma firme reprimenda, a senhora, que de mim nada conhecia, rematou com uma pérola que me fez definitivamente despedir com um seco "Boa tarde" seguido do desligar do telefone. Disse com voz ainda mais insolente, malandra e enervantemente bem disposta "Ah! Peço desculpa, já percebi que o senhor aproveitou para passar a manhã no ninho com a sua esposa".
Será preciso mais para declarar guerra ao telemarketing.
Será preciso mais para declarar guerra ao telemarketing.
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