Finalmente comprei a reedição em CD do mítico "Busto". Como "brinde" temos também direito a "For your delight" e a um single com ensaios de Amália com Alain Oulman. Tudo o que penso sobre Amália está aqui provado e comprovado. Amália foi o grande nome do Fado, aquele que o tornou universal e erudito, que o passeou pelas melhores salas do mundo. Trouxe Portugal na voz e cantou o país como ninguém.
Mas Amália é muito mais do que isto, que já não é pouco. Amália esteve para além do Fado, foi uma voz inigualável, por muitas tentativas de clonagem que se tentem. Mostrou quão longe pode ir a interpretação musical - muito para além da técnica -, em que uma nota é um choro, um trinado um lamento, uma pausa o sofrimento. E isto, por muito que eu goste de Fado, não é um exclusivo do Fado.
Por isso é tão bom ouvir Amália, redescobrir a sua música, o seu mundo, a sua voz. A música, como arte que é, tem esta capacidade de emocionar, de arrebatar. Ouçamos música, ouçamos Amália.
5.2.04
3.2.04
Empate
Já foi há 3 dias mas só agora posso escrever sobre ele. Uma crónica de desporto será para mim uma originalidade, para alguns uma seca, enfim aqui vamos. Tinta, muita tinta já fez correr este jogo e as promessas são que continue assim. Um polémico Sporting-Porto a deixar as gentes à beira de um ataque de nervos.
Foi um grande jogo de futebol, talvez o melhor deste ano entre nós, quase sempre bem jogado, emotivo e disputado. Pela minha parte passei a segunda parte mais tempo em pé do que sentado, "comendo" avidamente cigarros enquanto gritava pelo meu clube. Uma tensão mantida até ao apito final, altura em que deu lugar à frustração. Alguém terá sinceras dúvidas que o Sporting mereceu ganhar o jogo? Não é facciosismo é a realidade do jogo. Gostei mesmo de ver o Sporting jogar no Sábado, mostrou que tem equipa e que o Porto está, neste momento, ao seu nível. Um jogo de campeões.
Até aqui tudo normal, como normal foi todo o jogo. Pequenos casos, uma ou outra dúvida de arbitragem, nada trágico ou comprometedor (os dois penaltis existem, se bem que o segundo possa ter sido forçado por Liedson; Baía e Deco podiam ter sido expulsos). Afinal para que serve falar insistentemente da arbitragem, falemos antes de futebol, pelo menos quando ele existe, e Sábado ele existiu e foi bom.
Chegamos então ao ponto fatal, com toda esta normalidade, apesar do resultado injusto, o que é que tornou este jogo polémico?
O Sr. Mourinho (será que merece que o trate por Senhor?) esteve igual a si próprio. Arrogante, mal-criado, prepotente, com mau perder, mal-educado, em suma intragável. Mas também criativo. Não é fácil inventar inimigos em todos os jogos, cabalas e combinações, justificações exóticas para a falta de vitórias. Percebo toda esta agitação, Mourinho é bom treinador, mas um menino mimado que só sabe ganhar, que se julga o melhor. Esta época habituou-se a um FCP super dominador, sem problemas para ganhar, passeando a sua superioridade pela Super Liga. Até Sábado isso foi verdade, mas em Alvalade o Porto tremeu, percebeu que, apesar de não perder não era inexpugnável, que tinha um adversário à altura. O titubeante Sporting do início do campeonato deu lugar a uma equipa sólida, que entra em campo destemidamente para ganhar. O Porto não esperava isto, Mourinho não sonhou que a passagem por Lisboa mostrasse em certas fases do jogo um Porto encolhido na defesa, quase massacrado pelo adversário. Assim Mourinho amuou, e com o amuo veio a agressividade, e com ela as indescritíveis reacções a uma jogada perfeitamente normal. João Pinto estava a ser atendido e é verdade que de imediato todos os jogadores se acercaram preocupados. Os médicos prosseguiam o seu trabalho, fora do campo, e junto do jogador já só estavam Rui Jorge com a bola na mão e Jorge Costa à frente do jogador do Sporting (basta ver a repetição para confirmar). O árbitro apitou e, além disso, gesticulou para o Sporting repor a bola em jogo. Rui Jorge cumpre as ordens e passa a bola a Liedson que é carregado. Algo de estranho? Em nenhum país do mundo isto seria estranho. Mourinho é mentiroso com todas as letras, não estão vários jogadores em volta de João Pinto, não estão fora do campo e da jogada, está um jogador, Jorge Costa, a cobrir a reposição da bola em jogo. Depois disto Mourinho disparou pérolas como as patetices após o golo do Porto (ainda hoje não percebo a que se refere), insultos a Rui Jorge e Liedson (é certo que fez teatro mas não é caso para tanto) e um chorrilho de impropérios. Únicas palavras sábias, as de que em Portugal ninguém gosta dele e o choro mimado a Pinto da Costa para o deixar sair. Num clube civilizado ou pedia desculpa ou era despedido com justa causa, no Porto tem o aplauso do Sr. Costa, que por certo ainda o incita a mais disparates. Deixem-no ir, estou a imaginar a repercussão de declarações destas em países civilizados como a Inglaterra (despedimento ou irradiação da Liga). Aposto que Mourinho lá fora será um cordeirinho, ou então terá de voltar para cá.
O corolário desta inspiração Mourinhiana terá sido o rasgar da camisola de Rui Jorge, dizendo que gostava de o ver morrer em campo, no que teve o apoio do Sr. Costa. O FCP desmentiu, o Sporting diz que tem provas, a novela continua. A ser verdade esta triste cena, as palavras faltam para descrever estas criaturas. Uma semana depois de um jogador morrer em campo é de uma total e absoluta falta de tudo dizer estas palavras. Quanto ao rasgar da camisola já acho mais normal, afinal estamos a falar de Mourinho. A provarem-se estes acontecimentos apenas espero pela reacção da Liga. Também não sei porquê, o futebol em Portugal é um antro de impunidade.
José Bettencourt da SAD do Sporting também se excedeu nos comentários, fugindo à sua postura habitual. Mas será que a ser verdade o que se diz isto não é normal?
Foi um grande jogo de futebol, talvez o melhor deste ano entre nós, quase sempre bem jogado, emotivo e disputado. Pela minha parte passei a segunda parte mais tempo em pé do que sentado, "comendo" avidamente cigarros enquanto gritava pelo meu clube. Uma tensão mantida até ao apito final, altura em que deu lugar à frustração. Alguém terá sinceras dúvidas que o Sporting mereceu ganhar o jogo? Não é facciosismo é a realidade do jogo. Gostei mesmo de ver o Sporting jogar no Sábado, mostrou que tem equipa e que o Porto está, neste momento, ao seu nível. Um jogo de campeões.
Até aqui tudo normal, como normal foi todo o jogo. Pequenos casos, uma ou outra dúvida de arbitragem, nada trágico ou comprometedor (os dois penaltis existem, se bem que o segundo possa ter sido forçado por Liedson; Baía e Deco podiam ter sido expulsos). Afinal para que serve falar insistentemente da arbitragem, falemos antes de futebol, pelo menos quando ele existe, e Sábado ele existiu e foi bom.
Chegamos então ao ponto fatal, com toda esta normalidade, apesar do resultado injusto, o que é que tornou este jogo polémico?
O Sr. Mourinho (será que merece que o trate por Senhor?) esteve igual a si próprio. Arrogante, mal-criado, prepotente, com mau perder, mal-educado, em suma intragável. Mas também criativo. Não é fácil inventar inimigos em todos os jogos, cabalas e combinações, justificações exóticas para a falta de vitórias. Percebo toda esta agitação, Mourinho é bom treinador, mas um menino mimado que só sabe ganhar, que se julga o melhor. Esta época habituou-se a um FCP super dominador, sem problemas para ganhar, passeando a sua superioridade pela Super Liga. Até Sábado isso foi verdade, mas em Alvalade o Porto tremeu, percebeu que, apesar de não perder não era inexpugnável, que tinha um adversário à altura. O titubeante Sporting do início do campeonato deu lugar a uma equipa sólida, que entra em campo destemidamente para ganhar. O Porto não esperava isto, Mourinho não sonhou que a passagem por Lisboa mostrasse em certas fases do jogo um Porto encolhido na defesa, quase massacrado pelo adversário. Assim Mourinho amuou, e com o amuo veio a agressividade, e com ela as indescritíveis reacções a uma jogada perfeitamente normal. João Pinto estava a ser atendido e é verdade que de imediato todos os jogadores se acercaram preocupados. Os médicos prosseguiam o seu trabalho, fora do campo, e junto do jogador já só estavam Rui Jorge com a bola na mão e Jorge Costa à frente do jogador do Sporting (basta ver a repetição para confirmar). O árbitro apitou e, além disso, gesticulou para o Sporting repor a bola em jogo. Rui Jorge cumpre as ordens e passa a bola a Liedson que é carregado. Algo de estranho? Em nenhum país do mundo isto seria estranho. Mourinho é mentiroso com todas as letras, não estão vários jogadores em volta de João Pinto, não estão fora do campo e da jogada, está um jogador, Jorge Costa, a cobrir a reposição da bola em jogo. Depois disto Mourinho disparou pérolas como as patetices após o golo do Porto (ainda hoje não percebo a que se refere), insultos a Rui Jorge e Liedson (é certo que fez teatro mas não é caso para tanto) e um chorrilho de impropérios. Únicas palavras sábias, as de que em Portugal ninguém gosta dele e o choro mimado a Pinto da Costa para o deixar sair. Num clube civilizado ou pedia desculpa ou era despedido com justa causa, no Porto tem o aplauso do Sr. Costa, que por certo ainda o incita a mais disparates. Deixem-no ir, estou a imaginar a repercussão de declarações destas em países civilizados como a Inglaterra (despedimento ou irradiação da Liga). Aposto que Mourinho lá fora será um cordeirinho, ou então terá de voltar para cá.
O corolário desta inspiração Mourinhiana terá sido o rasgar da camisola de Rui Jorge, dizendo que gostava de o ver morrer em campo, no que teve o apoio do Sr. Costa. O FCP desmentiu, o Sporting diz que tem provas, a novela continua. A ser verdade esta triste cena, as palavras faltam para descrever estas criaturas. Uma semana depois de um jogador morrer em campo é de uma total e absoluta falta de tudo dizer estas palavras. Quanto ao rasgar da camisola já acho mais normal, afinal estamos a falar de Mourinho. A provarem-se estes acontecimentos apenas espero pela reacção da Liga. Também não sei porquê, o futebol em Portugal é um antro de impunidade.
José Bettencourt da SAD do Sporting também se excedeu nos comentários, fugindo à sua postura habitual. Mas será que a ser verdade o que se diz isto não é normal?
31.1.04
Ai!
Navego pela blogosfera a fazer tempo para o Sporting – Porto no Alvalade XXI. Daqui a três horas espero estar já bem sentado, de cachecol verde a gritar pelo meu clube, ansiando pelo apito inicial. A esperança para este ano mantêm-se, mas depende em muito deste jogo. Hesito entre um Xanax ou um Inderal, é que tudo isto vai ser muito duro para os nervos.
Que ganhe o melhor e que o melhor seja o Sporting.
Que ganhe o melhor e que o melhor seja o Sporting.
VPV
Vasco Pulido Valente voltou a escrever no DN. Que bom ter de novo uma dose de pessimismo e lucidez ao fim de semana, particularmente quando ela é tão bem escrita. O difícil acordar de Sábado é assim mais suportável.
29.1.04
Pornografia Emocional
O assunto é recorrente, e ao longo desta semana tornou-se inevitável. Depois de ontem o ter referido por boas razões, hoje o sentimento é contrário. Ontem, esperando já o circo mediático dos privados, acompanhei o Telejornal da RTP1 em busca de informação mais sóbria. Erro crasso. A reportagem do nosso canal privado excedeu, em tudo, os piores receios. No velório no Estádio da Luz o repórter parecia ter encarnado em comentador social, da Caras ou afins, mas em versão macabra. Debitava o nome dos presentes pouco faltando para lhes comentar as roupas, fazia perguntas quase do tipo "como é que se sente neste momento", esqueceu de forma inacreditável que o acontecimento que cobria era um velório, onde deve haver respeito e contenção, e não uma qualquer festa do Jet Oito português. Mas isto não bastou. A equipa de reportagem seguiu até à Hungria para seguir o enterro de Feher, onde manteve o nível, agravado por comentários acerca da expressão da mãe perante o caixão do filho e outras alarvidades do género. O único qualificativo que me lembro para esta ignomínia é mesmo o de pornografia emocional, tudo o que se diga de menos é de uma condescendência inaplicável a este caso.
O nosso canal público tem dado sinais de melhora, mas parece difícil combater algumas mentalidades que ainda não perceberam a diferença entre informar e agredir. Estas peças passaram ás oito da noite, hora em que as crianças estão em frente à televisão com a família. Não tenho filhos, mas seria muito difícil – caso os tivesse – comentar esta invasão brutal da privacidade e intimidade, esta exposição cruel dos sentimentos da família e amigos de alguém a quem o destino pregou uma enorme e trágica partida.
O nosso canal público tem dado sinais de melhora, mas parece difícil combater algumas mentalidades que ainda não perceberam a diferença entre informar e agredir. Estas peças passaram ás oito da noite, hora em que as crianças estão em frente à televisão com a família. Não tenho filhos, mas seria muito difícil – caso os tivesse – comentar esta invasão brutal da privacidade e intimidade, esta exposição cruel dos sentimentos da família e amigos de alguém a quem o destino pregou uma enorme e trágica partida.
28.1.04
Decência
Os últimos dias foram marcados por uma voragem informativa das nossas televisões, desrespeitando o que deveria ser o pudor natural perante o acontecimento chocante de Domingo passado. Os principais canais passaram com exaustão as "imagens vivas da morte", sem o mínimo respeito pela situação.
No meio desta - infelizmente normal - falta de noção resta-nos um sinal positivo. Segundo o DN de hoje, Ricardo Espírito Santo - realizador da Sport TV que fazia a cobertura do jogo de má memória - teve ao seu dispor imagens francamente mais brutais, de pormenores da cara do jogador, num presumível espelho da morte e das desesperadas tentativas de reanimação. Logo mandou parar com os primeiros planos e suspender o que poderia ser um acto de refinado sadismo. Claro que ao que parece houve estações de televisão a tentar comprar - a todo o preço - estas imagens, a Sport TV, numa posição de enorme dignidade, recusou terminantemente a sua venda.
Felizmente ainda há em Portugal gente decente, incapaz de corromper os seus princípios e de massacrar um país com imagens chocantes que em nada contribuiriam para um melhor entendimento da situação. Felizmente ainda há jornalistas capazes de exercer a sua profissão como tal, e não como um filme de terror das misérias humanas. Felizmente há ainda quem tenha respeito pela intimidade dos outros, e haverá algo mais íntimo do que a morte. Felizmente que o realizador desse jogo era Ricardo Espírito Santo e a televisão que o emitiu a Sport TV. Felizmente que há quem ainda me dê esperança num mundo, e em particular num Portugal, mais civilizado e respeitador do ser humano.
No meio desta - infelizmente normal - falta de noção resta-nos um sinal positivo. Segundo o DN de hoje, Ricardo Espírito Santo - realizador da Sport TV que fazia a cobertura do jogo de má memória - teve ao seu dispor imagens francamente mais brutais, de pormenores da cara do jogador, num presumível espelho da morte e das desesperadas tentativas de reanimação. Logo mandou parar com os primeiros planos e suspender o que poderia ser um acto de refinado sadismo. Claro que ao que parece houve estações de televisão a tentar comprar - a todo o preço - estas imagens, a Sport TV, numa posição de enorme dignidade, recusou terminantemente a sua venda.
Felizmente ainda há em Portugal gente decente, incapaz de corromper os seus princípios e de massacrar um país com imagens chocantes que em nada contribuiriam para um melhor entendimento da situação. Felizmente ainda há jornalistas capazes de exercer a sua profissão como tal, e não como um filme de terror das misérias humanas. Felizmente há ainda quem tenha respeito pela intimidade dos outros, e haverá algo mais íntimo do que a morte. Felizmente que o realizador desse jogo era Ricardo Espírito Santo e a televisão que o emitiu a Sport TV. Felizmente que há quem ainda me dê esperança num mundo, e em particular num Portugal, mais civilizado e respeitador do ser humano.
26.1.04
Enviado Especial
Nos tempos cinzentos que correm é com enorme prazer que se pode ler este livro. Após ter lido "Reviver o Passado em Brideshead" e "Declínio e Queda" surgiu-me - em passeio por uma livraria - este "Enviado Especial" de Evelyn Waugh.
Ao comprá-lo não imaginava o grau de diversão que me esperava. Os outros dois livros não são, claramente, livros hilariantes. Este é. Ao fim de algumas páginas dei por mim a ser atingido por imparáveis ataques de riso, ao ponto da minha sanidade mental ser discutida aqui por casa. Os trocadilhos iniciais começaram a abrir perspectivas de um glorioso divertimento. A magnífica descrição de Magna Boot, da deliciosa família Boot na sua vida provinciana e antiquada, com a sua horda de "nanies", mordomos e criados, quase todos inválidos e a viver com eles. A absurda escolha de um impagável "enviado especial" para relatar a eminente guerra na Ismaélia, que escolhe incríveis "gadgets", levando canoas desmontáveis e tacos de golfe para um distante e desconhecido país.
O livro segue depois em ritmo corrosivo, relatando as peripécias - e podem crer que são muitas - de Boot na Ismaélia. A guerra afinal revela-se uma fraude mas assim não o relatam os restantes jornalistas. Gostaria de poder aconselhar este livro a muitos pseudo jornalistas que por aí andam, talvez assim melhor percebessem o ridículo de algumas notícias que divulgam.
No final uma mensagem particularmente actual e politicamente incorrecta. William despreza o dinheiro, as honrarias, a fama, preferindo a sua recatada e monótona vida de província, continuando a escrever bucólicas crónicas sobre agricultura e animais. No mundo de hoje quantos de nós seguiríamos este caminho, quantos de nós negaríamos o sucesso, trocando-o por uma tranquila e anónima vida familiar de província?
Ao comprá-lo não imaginava o grau de diversão que me esperava. Os outros dois livros não são, claramente, livros hilariantes. Este é. Ao fim de algumas páginas dei por mim a ser atingido por imparáveis ataques de riso, ao ponto da minha sanidade mental ser discutida aqui por casa. Os trocadilhos iniciais começaram a abrir perspectivas de um glorioso divertimento. A magnífica descrição de Magna Boot, da deliciosa família Boot na sua vida provinciana e antiquada, com a sua horda de "nanies", mordomos e criados, quase todos inválidos e a viver com eles. A absurda escolha de um impagável "enviado especial" para relatar a eminente guerra na Ismaélia, que escolhe incríveis "gadgets", levando canoas desmontáveis e tacos de golfe para um distante e desconhecido país.
O livro segue depois em ritmo corrosivo, relatando as peripécias - e podem crer que são muitas - de Boot na Ismaélia. A guerra afinal revela-se uma fraude mas assim não o relatam os restantes jornalistas. Gostaria de poder aconselhar este livro a muitos pseudo jornalistas que por aí andam, talvez assim melhor percebessem o ridículo de algumas notícias que divulgam.
No final uma mensagem particularmente actual e politicamente incorrecta. William despreza o dinheiro, as honrarias, a fama, preferindo a sua recatada e monótona vida de província, continuando a escrever bucólicas crónicas sobre agricultura e animais. No mundo de hoje quantos de nós seguiríamos este caminho, quantos de nós negaríamos o sucesso, trocando-o por uma tranquila e anónima vida familiar de província?
Feher
A noite de ontem foi marcada pela morte, por uma tragédia seguida quase em directo. Uma situação impressionante em que a morte súbita nos fez dar graças à vida. Um momento que nos redimimos com a vida que tantas vezes menosprezamos, criticamos, ridicularizamos. Tudo perde o sentido quando nos deparamos com finais assim, repentinos, inesperados.
Todas estas palavras são já muitas. As imagens que vimos - assim como as reflexões que despertaram - foram mais do que suficientes. Paz à sua alma.
Todas estas palavras são já muitas. As imagens que vimos - assim como as reflexões que despertaram - foram mais do que suficientes. Paz à sua alma.
23.1.04
PCP
O Secretário-geral do PCP anunciou ontem que o partido estava em crescimento. Parece que em 2003 aderiram 1450 novos camaradas, dos quais 40% com menos de 30 anos (para além de 1017 novos filiados da JCP).
Será que há neste país um surto de loucura que leve gente nova, e supostamente de ideias um pouquinho mais modernas, a aderirem a um fóssil cada vez menos vivo?
O modo como o PCP continua a manter-se, e até a cativar jovens, é algo que me transcende. Os dirigentes actuais primam por uma dinâmica capaz de adormecer o mais hiperactivo - Dra. Odete à parte, mas também ela agora anda mais pelo Parque Mayer.
Portugal é realmente um país estranho.
Será que há neste país um surto de loucura que leve gente nova, e supostamente de ideias um pouquinho mais modernas, a aderirem a um fóssil cada vez menos vivo?
O modo como o PCP continua a manter-se, e até a cativar jovens, é algo que me transcende. Os dirigentes actuais primam por uma dinâmica capaz de adormecer o mais hiperactivo - Dra. Odete à parte, mas também ela agora anda mais pelo Parque Mayer.
Portugal é realmente um país estranho.
21.1.04
O tom do Governo
Ainda é cedo para saber se este é um bom ou mau governo. Já teve a sua quota-parte de escândalos, demissões, Ministros fantoche e invisíveis. A remodelação, há muito pedida, vai sendo adiada. Tudo isto contribuiria para a crítica imediata, para o escárnio. Não o consigo fazer mas não sei porquê. Acho que é do tom.
O que gosto neste governo é do tom, da sóbria firmeza que tem mostrado, da vontade de mudar, do diálogo em doses q.b. Já tive de aturar a prepotência, a arrogância e o autismo do nosso "ditador democrático". Já tive de adormecer perante um insistente diálogo, desesperar com a ineficiência e com o imobilismo do nosso "Engenheiro do sorriso perene". Temos agora outro estilo, ou pelo menos vários estilos no mesmo governo mas que se complementam.
Acredito que este não seja um grande governo, tenho aliás vários motivos de crítica, mas o tom agrada-me. Acho que pelo menos é um governo como o deve ser numa normal democracia: dialogante mas firme, tentando o consenso mas agindo, com convicções mas sem paixões.
Tudo isto é verdade, mas irrita-me apenas uma coisa, falta-me o despropósito do cavaquismo para poder ter alvos do meu verberar. Ás vezes faz falta um boneco para bombardear com bolas. Bolas!
O que gosto neste governo é do tom, da sóbria firmeza que tem mostrado, da vontade de mudar, do diálogo em doses q.b. Já tive de aturar a prepotência, a arrogância e o autismo do nosso "ditador democrático". Já tive de adormecer perante um insistente diálogo, desesperar com a ineficiência e com o imobilismo do nosso "Engenheiro do sorriso perene". Temos agora outro estilo, ou pelo menos vários estilos no mesmo governo mas que se complementam.
Acredito que este não seja um grande governo, tenho aliás vários motivos de crítica, mas o tom agrada-me. Acho que pelo menos é um governo como o deve ser numa normal democracia: dialogante mas firme, tentando o consenso mas agindo, com convicções mas sem paixões.
Tudo isto é verdade, mas irrita-me apenas uma coisa, falta-me o despropósito do cavaquismo para poder ter alvos do meu verberar. Ás vezes faz falta um boneco para bombardear com bolas. Bolas!
20.1.04
19.1.04
16.1.04
História de Província
Num jornal de província, H. escrevia semanalmente a sua coluna. Como em qualquer meio pequeno, era por todos conhecido e respeitado. Há alguns anos que escrevia nos jornais, sempre com opiniões frontais, descomprometidas e independentes. Escrevia bem, numa prosa escorreita e irónica, com um estilo muito próprio.
A Câmara Municipal actual, de um partido do lado oposto do seu, era agora o seu alvo favorito. As ligações obscuras à construção civil iam sendo denunciadas, ora claramente, ora de forma subtil para evitar processos. A carga era semanal e a C.M., sem tremer pelo forte apoio popular que tinha, temia a sua coluna.
No mesmo jornal escreviam apoiantes da C.M. com opiniões quase sempre opostas ás de H. Certo dia uma forte polémica foi desencadeada com um seu colega de jornal. Sucederam-se as semanas e a polémica ia em crescendo, atingindo tons viscerais e quase agressivos. Curiosamente outros dois colunistas do mesmo jornal alimentavam uma polémica distinta e um outro era quase insultado periodicamente no correio dos leitores. O jornal era neste momento absolutamente imperdível. Como se pode imaginar, numa pequena cidade as notícia correm depressa e não se falava de outra coisa.
A polémica arrefeceu um pouco e H. foi-se dedicando a outros assuntos. Num artigo subtil alegou ligações pouco claras da C.M. com o pequeno clube de futebol local. Uma semana depois deixou de escrever para o jornal. O director do jornal, ligado de qualquer forma ao clube, dispensou os seus textos.
Portugal é um país realmente curioso. Pode-se verberar contra as instituições (e ainda bem porque, afinal, ainda somos uma democracia), pode-se entrar em polémicas pessoais e mesmo insultar (para isso há a lei e os processos por difamação), agora falar mal do futebol...
A Câmara Municipal actual, de um partido do lado oposto do seu, era agora o seu alvo favorito. As ligações obscuras à construção civil iam sendo denunciadas, ora claramente, ora de forma subtil para evitar processos. A carga era semanal e a C.M., sem tremer pelo forte apoio popular que tinha, temia a sua coluna.
No mesmo jornal escreviam apoiantes da C.M. com opiniões quase sempre opostas ás de H. Certo dia uma forte polémica foi desencadeada com um seu colega de jornal. Sucederam-se as semanas e a polémica ia em crescendo, atingindo tons viscerais e quase agressivos. Curiosamente outros dois colunistas do mesmo jornal alimentavam uma polémica distinta e um outro era quase insultado periodicamente no correio dos leitores. O jornal era neste momento absolutamente imperdível. Como se pode imaginar, numa pequena cidade as notícia correm depressa e não se falava de outra coisa.
A polémica arrefeceu um pouco e H. foi-se dedicando a outros assuntos. Num artigo subtil alegou ligações pouco claras da C.M. com o pequeno clube de futebol local. Uma semana depois deixou de escrever para o jornal. O director do jornal, ligado de qualquer forma ao clube, dispensou os seus textos.
Portugal é um país realmente curioso. Pode-se verberar contra as instituições (e ainda bem porque, afinal, ainda somos uma democracia), pode-se entrar em polémicas pessoais e mesmo insultar (para isso há a lei e os processos por difamação), agora falar mal do futebol...
15.1.04
Um filme
Na calma noite de ontem optei pela companhia de um clássico: "O Vale era Verde" de John Ford. Escolha muito difícil de superar.
Este é um filme em que perfeição é a palavra-chave. O argumento é extraordinário, não apenas na história, mas particularmente na forma como esta é escrita. Os diálogos são belíssimos. A encenação quase operática, magnificente, realçada por um preto e branco pleno de contrastes. Os actores em perfeita encarnação no espírito da história. Um realismo assombroso sem que se perca a fortíssima, e dificilmente igualável, noção estética.
Os momentos de antologia abundam, desde os confrontos familiares em redor da greve ás cenas que abrem e fecham o filme. Inesquecível o último sermão do reverendo em que põe a nu a cobardia dos fariseus.
Que bom seria que o Cinema fosse mais vezes assim.
Este é um filme em que perfeição é a palavra-chave. O argumento é extraordinário, não apenas na história, mas particularmente na forma como esta é escrita. Os diálogos são belíssimos. A encenação quase operática, magnificente, realçada por um preto e branco pleno de contrastes. Os actores em perfeita encarnação no espírito da história. Um realismo assombroso sem que se perca a fortíssima, e dificilmente igualável, noção estética.
Os momentos de antologia abundam, desde os confrontos familiares em redor da greve ás cenas que abrem e fecham o filme. Inesquecível o último sermão do reverendo em que põe a nu a cobardia dos fariseus.
Que bom seria que o Cinema fosse mais vezes assim.
Uma exposição
Uma sugestão ainda atempada (até 21 de Janeiro) para uma exposição a não perder: "Francisco Caldeira Cabral e a Primeira Geração de Arquitectos Paisagistas: 1940-1970".
A justa, mas tardia, homenagem ao "Pai" da Arquitectura Paisagista em Portugal, que muitos desconhecem. A sua obra vasta obra inclui o projecto para o Estádio Nacional e muitos espaços urbanos em Lisboa. Tão importante, ou mais, do que a sua obra é o legado que deixou e que permanece até hoje nos Arquitectos Paisagistas portugueses. O curso "nasceu" em Portugal com ele e desta primeira geração faz parte, entre outros, Gonçalo Ribeiro Telles que, nomeadamente pela sua actividade política, se tornou o porta-estandarte "desta Arquitectura" tantas vezes ignorada.
Na exposição percorremos os projectos deste "Mestre" e dos seus discípulos culminando na obra-prima dos jardins da Fundação Gulbenkian, local onde decorre a exposição. O catálogo é excelente e vale, definitivamente, o preço.
Destaco ainda um vídeo da inauguração do Estádio Nacional que, com o devido distanciamento, se torna uma irresistível peça de humor. O comentador em voz solene anunciando a entrada de Salazar como "campeão dos campeões" e a adjectivação pomposa de toda a peça transforma-a numa peça de arqueologia social. Uma delícia vista à distância, sem a magnificência de Leni Riefensthal é ainda assim um belíssimo exemplo de Propaganda.
A justa, mas tardia, homenagem ao "Pai" da Arquitectura Paisagista em Portugal, que muitos desconhecem. A sua obra vasta obra inclui o projecto para o Estádio Nacional e muitos espaços urbanos em Lisboa. Tão importante, ou mais, do que a sua obra é o legado que deixou e que permanece até hoje nos Arquitectos Paisagistas portugueses. O curso "nasceu" em Portugal com ele e desta primeira geração faz parte, entre outros, Gonçalo Ribeiro Telles que, nomeadamente pela sua actividade política, se tornou o porta-estandarte "desta Arquitectura" tantas vezes ignorada.
Na exposição percorremos os projectos deste "Mestre" e dos seus discípulos culminando na obra-prima dos jardins da Fundação Gulbenkian, local onde decorre a exposição. O catálogo é excelente e vale, definitivamente, o preço.
Destaco ainda um vídeo da inauguração do Estádio Nacional que, com o devido distanciamento, se torna uma irresistível peça de humor. O comentador em voz solene anunciando a entrada de Salazar como "campeão dos campeões" e a adjectivação pomposa de toda a peça transforma-a numa peça de arqueologia social. Uma delícia vista à distância, sem a magnificência de Leni Riefensthal é ainda assim um belíssimo exemplo de Propaganda.
13.1.04
O Capote Alentejano
Gosto muito de capotes alentejanos, acho-os bonitos e um dos traços de genuinidade de uma região. Talvez seja dos poucos trajes típicos portugueses, a par da prima samarra, com uso mais ou menos corrente. Não vivesse eu em Lisboa, onde de facto nunca faz frio à séria, e já teria cobiçado o de meu Pai. Teria, digo bem, teria.
Desde que Saramago - o José - fez sair a sua sempre carrancuda e zangada com o mundo cabeça por entre a pele de raposa que fiquei de pé atrás. Depois...
Hoje acendo a televisão para as notícias da tarde e assusto-me. A omnipresente Ana Gomes aparece de capote alentejano, ás portas da Assembleia, vociferando (quase rugindo) contra os hipócritas que não permitem o aborto. (Chegado aqui pergunto, não vão as organizações de defesa dos animais, tradicionalmente de esquerda, manifestar-se contra o uso de peles de raposa?) Sim, os hipócritas, como eu, que respeitam a vontade expressa pelo povo português de forma democrática. Repito democrática. Claro que a vontade do povo pode mudar, mas não se deve dar um pouco mais de tempo antes de fazer mais uma consulta sobre o tema? Será possível fazer uma recolha de assinaturas para que não haja referendo?
Acho que temos o direito de viver em democracia, mesmo contra a arrogância moral da esquerda, mesmo contra a falta respeito que a esquerda têm quando a vontade povo não é a sua.
Por estas e por outras é que o capote continua no baú, mal por mal vou usando a canadiana, é menos nacionalista mas pelo menos não me traz más imagens.
Desde que Saramago - o José - fez sair a sua sempre carrancuda e zangada com o mundo cabeça por entre a pele de raposa que fiquei de pé atrás. Depois...
Hoje acendo a televisão para as notícias da tarde e assusto-me. A omnipresente Ana Gomes aparece de capote alentejano, ás portas da Assembleia, vociferando (quase rugindo) contra os hipócritas que não permitem o aborto. (Chegado aqui pergunto, não vão as organizações de defesa dos animais, tradicionalmente de esquerda, manifestar-se contra o uso de peles de raposa?) Sim, os hipócritas, como eu, que respeitam a vontade expressa pelo povo português de forma democrática. Repito democrática. Claro que a vontade do povo pode mudar, mas não se deve dar um pouco mais de tempo antes de fazer mais uma consulta sobre o tema? Será possível fazer uma recolha de assinaturas para que não haja referendo?
Acho que temos o direito de viver em democracia, mesmo contra a arrogância moral da esquerda, mesmo contra a falta respeito que a esquerda têm quando a vontade povo não é a sua.
Por estas e por outras é que o capote continua no baú, mal por mal vou usando a canadiana, é menos nacionalista mas pelo menos não me traz más imagens.
12.1.04
Sítios
As vidas são marcadas por sítios, por lugares onde passámos, onde tudo aconteceu e acontece. As memórias levam-nos sempre à rua ou casa onde algo se passou. Nas deambulações nostálgicas há sítios recorrentes, onde regressamos com gosto, nem que só em pensamento. São os lugares especiais por momentos vividos, pela sua estética ou por motivos imperceptíveis. Por este ano fora espero passar em alguns desses lugares, em pensamento, na realidade e - porque não - no imaginário deste blogue.
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