Hoje discute-se na Assembleia da República a descriminalização do Aborto. Por motivos quanto a mim oportunistas, um assunto referendado há seis anos, e na altura refutado pela maioria dos votantes, volta à actualidade. Na altura não dei o meu voto, por comodidade e por achar que o "Sim" ganharia. Mas essencialmente porque a campanha tomou contornos abjectos de parte a parte, com a "inteligentzia" a bramir pelos direitos da mulher (com meninas bonitas dizerem-se donas do seu ventre) e os adeptos do "Não" com gritos histéricos pela vida. O assunto é sério demais para ser discutido assim, a campanha levou-me a não querer dar razões a ninguém. Não votei.
Sobre o assunto deixo aqui algumas notas dispersas e desorganizadas:
- Tivemos um referendo há muito pouco tempo. Parece-me elementar que se respeite a vontade da população. Democracia é isto, é aceitar a vontade do "povo" expressa nas urnas, seja a nossa ou não. A esquerda parece esquecer-se disso com demasiada frequência, surgindo com a habitual arrogância moral de quem se julga detentor de verdades absolutas.
- Sendo proibido, o aborto é feito em Portugal. Ninguém questiona, mas também há maus tratos, tráfico de droga, violações, pedofilia e não pensamos em legalizá-los por existirem. Este argumento, tantas e tantas vezes utilizado, não faz sentido. Os governos não podem legislar indo atrás de tudo o que ocorre numa sociedade. Algo por existir não nos pode levar forçosamente a aceitá-lo.
- Um aborto é tirar uma vida, ainda em estado de gestação, mas uma vida. Não podemos, como sociedade, descartar vidas em nome de comodidades ou conveniências. Não aceito o aborto como método contraceptivo.
- O sexo não tem, obviamente, que existir apenas com o fito da reprodução. Mas deve ser responsável, ou em caso contrário a responsabilidade deve ser assumida pelos intervenientes. O "combate" deve ser feito antes da fecundação do óvulo, esta – em alguns casos - nem sequer se deve dar, aí é que o Estado pode, e deve, intervir na formação e educação das pessoas. Prevenir sempre foi melhor do que remediar.
- O aborto é uma questão moral. Mas também é uma questão social. O aborto implica uma postura do Estado.
- Não me parece que descriminalizar melhore a situação. Quem vai ter dinheiro para pagar a multa são os mesmos que tem dinheiro para ir a Espanha. Falsa questão.
- Dizer que a legalização do aborto vai melhorar as condições das mulheres que os fazem não me parece real. O estigma ligado ao aborto impedirá, de um modo geral, as mulheres de recorrerem aos hospitais públicos, particularmente em meios pequenos. Os abortos de vão de escadas não vão acabar, acreditar que sim é de enorme ingenuidade.
Apesar de todas estas observações não consigo ter uma ideia absoluta sobre o assunto. Obviamente que não consigo, nem conseguirei, apontar o dedo a qualquer mulher que faça um aborto. Ainda assim acho que o Estado não deve permitir algo que se deve evitar e combater. O que está em causa é mais do que uma luta entre esquerda e direita, é uma questão social e civilizacional. Podemos acreditar numa determinada sociedade ou noutra, eu acredito numa sociedade em que o aborto não é legal mas que é, dentro do possível, eficazmente combatido.
3.3.04
1.3.04
Frio
Por entre o frio que nos congela espero uma réstia de fogo. Sempre gostei de neve, normalmente até gosto do frio, mas dias há em que me parece absurdo que o tempo gele sem que uns farrapos brancos caiam calmamente do céu. Acendo a lareira, que não tenho, e estendo-me com um bom livro ouvindo o ranger dos troncos que se consomem. Lá fora o bulício do fim do dia agita gentes frenéticas e geladas. Eu fico, sem lareira, sem um bom livro, apenas o monitor e a necessidade de trabalhar. Porque é que as coisas não podem ser mais simples.
A Oeste nada de novo
Parece que padeço do mesmo mal que alguns bloggers, tento ver todos os anos os Óscares e fatalmente adormeço no meio dos documentários de curta-metragem ou guarda-roupa. Ontem mantive a tradição, apenas consegui, e já achei muito, chegar até ao Argumento Adaptado.
Não fosse o Billy Cristal e amaldiçoaria as horas de sono perdido. Nenhuma surpresa, nenhum realizador de extrema-esquerda a "envergonhar" Bush, choros pouco sentidos, nenhum estrangeiro a saltar as cadeiras…
A Nova Zelândia foi realmente recorrente e aborrecida. O Senhor dos Anéis é esmagador, uma poderosa adaptação da obra que deliciou a minha adolescência. Só tenho pena que não tenha ganho antes, é que o terceiro é o menos bom de todos, o mais xaroposo.
Nos actores "Mystic River" teve o prémio merecido, as fabulosas interpretações de Sean Penn e Tim Robbins foram justamente vencedoras. (caso ganhasse Bill Murray também não se poderia falar de injustiça)
Enfim, menos interessante do que é normal, sem uma surpresa para animar a noite, menos injusto que noutros anos, o glamour de sempre.
Não fosse o Billy Cristal e amaldiçoaria as horas de sono perdido. Nenhuma surpresa, nenhum realizador de extrema-esquerda a "envergonhar" Bush, choros pouco sentidos, nenhum estrangeiro a saltar as cadeiras…
A Nova Zelândia foi realmente recorrente e aborrecida. O Senhor dos Anéis é esmagador, uma poderosa adaptação da obra que deliciou a minha adolescência. Só tenho pena que não tenha ganho antes, é que o terceiro é o menos bom de todos, o mais xaroposo.
Nos actores "Mystic River" teve o prémio merecido, as fabulosas interpretações de Sean Penn e Tim Robbins foram justamente vencedoras. (caso ganhasse Bill Murray também não se poderia falar de injustiça)
Enfim, menos interessante do que é normal, sem uma surpresa para animar a noite, menos injusto que noutros anos, o glamour de sempre.
27.2.04
25.2.04
Quarta Feira de Cinzas
Hoje começa a Quaresma. Preparemo-nos para a Páscoa que se avizinha. Para variar, e a título excepcional, gostava hoje de estar nos Estados Unidos. Estreia o novo filme de Mel Gibson. Uma visão das últimas horas de Cristo filmada, segundo quem já viu, de forma brutal e hiper realista. Um acto de coragem de Gibson que, contra tudo e contra todos, filmou em aramaico e sem concessões ao politicamente correcto. Poderá não ser grande cinema, mas certamente irei a correr quando estrear em Portugal.
Carnaval
Passou outro Carnaval. Foi como uma brisa matinal, fez-se notar mas foi fugaz. Aderi à depressão colectiva e não tentei exorcizá-la. Deixei-me estar, aproveitando os dias numa placidez melancólica. O Carnaval passou, e então?
Comboio
Há algo de fascinante num comboio com a noite a entrar pelas janelas. As presenças fugazes que povoam a atmosfera de conversas vagas e vazias, num significado nunca profundo. São conversas reveladoras na sua insignificância, são caracteres escondidos que se antevêem entre palavras.
O exercício fantástico de olhar em volta e pensar como são as nossas companhias de viagem. Olhar a roupa, a cara, os modos, detectar cicatrizes - físicas ou da vida. Imaginar as suas casas e famílias, deixarmo-nos enredar pelo seu olhar com o tempo a passar. Não se pode conhecer ninguém só pelo olhar, é no entanto curioso tentar.
E tudo passa, o tempo, a paisagem, a viagem. Viagem e paisagem, a rima não é ocasional, é embrionária e fatal, complementar.
O exercício fantástico de olhar em volta e pensar como são as nossas companhias de viagem. Olhar a roupa, a cara, os modos, detectar cicatrizes - físicas ou da vida. Imaginar as suas casas e famílias, deixarmo-nos enredar pelo seu olhar com o tempo a passar. Não se pode conhecer ninguém só pelo olhar, é no entanto curioso tentar.
E tudo passa, o tempo, a paisagem, a viagem. Viagem e paisagem, a rima não é ocasional, é embrionária e fatal, complementar.
Links
Os links aqui do lado foram actualizados. Novas companhias, entretanto encontradas, foram adicionadas.
D. Sebastião, Rei de Portugal
Louco, sim, louco, porque quis grandeza
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.
Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?
Fernando Pessoa in “Mensagem”
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.
Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?
Fernando Pessoa in “Mensagem”
20.2.04
17.2.04
Santana e Marcelo
Ataques e Contra-Ataques. A política portuguesa anima-se em duelos e este promete. A seguir com interesse e, mais do que isso, com diversão. Na falta de conteúdo ao menos que haja show-off. Na falta discussão política que os políticos se estimulem com ataques e, com sorte, com insultos. Assim talvez passemos da depressão para a agressão.
Branco
Chegou a neve branca, alva, fria.
Via-te de olhos abertos, bem abertos.
Abertos à luz da lua, depois à luz do sol.
Fugiste, não eras tu.
Deslizando no branco, saltaste num belo salto de anjo.
Chegando à água ela era turva, um pântano.
No alto da colina nós víamos-te, longe demais para te estender a mão pois tu não procuravas as árvores para subir.
É duro, triste, olhar o pântano sobrevoado de abutres que esperam carne.
Assim te vi partir.
Levado por abutres, destruído pelo cansaço.
Não quiseste lutar na hora certa, perdeste a corda para a colina.
A montanha da vida é alta, escarpada e fria, e tu não quiseste subir.
Via-te de olhos abertos, bem abertos.
Abertos à luz da lua, depois à luz do sol.
Fugiste, não eras tu.
Deslizando no branco, saltaste num belo salto de anjo.
Chegando à água ela era turva, um pântano.
No alto da colina nós víamos-te, longe demais para te estender a mão pois tu não procuravas as árvores para subir.
É duro, triste, olhar o pântano sobrevoado de abutres que esperam carne.
Assim te vi partir.
Levado por abutres, destruído pelo cansaço.
Não quiseste lutar na hora certa, perdeste a corda para a colina.
A montanha da vida é alta, escarpada e fria, e tu não quiseste subir.
13.2.04
Que dia!
Gosto por norma de sextas-feiras 13. Não ligo muito a superstições - tirando uma ou duas que não vou referir - e divirto-me com a forma com que as pessoas olham estes dias. Hoje, no entanto, vai ser uma excepção, a manhã não promete nada de bom e não sei o que ainda aí virá.
Acordo com a TSF, comme d’habitude, e subitamente quase tenho uma convulsão em plena cama. A voz de Vasco Gonçalves leva-me a duvidar se estou acordado ou num qualquer limbo existencial. Belisco-me, sem muita força, e continuo a ouvir essa voz acusando o actual governo de ser de extrema-direita. Afinal é real, esta múmia está viva e, ao contrário do que eu pensava, não está internada numa qualquer clínica para doentes mentais. Ouço o restante depoimento em que diz que o 25 de Novembro foi culpa dos reaccionários liderados por Mário Soares, senhor que prestou um mau serviço ao país interrompendo o brilhante processo revolucionário.
Divido-me, não sei se deva estar feliz por confirmar que este senhor continua parado num tempo distante (confirmando o que dele pensava), ou se deva temer por um país que deixa alguém neste estado sem um tratamento psiquiátrico adequado. Espero que, nestes tempos em que se fala de mudanças, o PCP não se lembre de reciclar este ex-primeiro ministro para a direcção do partido. Já o imagino em pleno parlamento vociferando, ao mesmo tempo que gesticulava furiosamente quase dando um estalo ao seu vizinho de bancada Francisco Louça: "Não há terceira via, ou se é pela revolução, ou se é contra a revolução."
Como já disse em anterior posta não sou da geração de Abril. A revolução e o PREC são acontecimentos por mim conhecidos através de documentários e comentários, de livros e de pessoas. O companheiro Vasco era alguém que eu quando criança julgava ser um grande actor cómico, senhor de uma mímica prodigiosa e um portento da comédia física. O problema foi quando descobri que ele era um louco furioso que, por motivos estranhos, liderou uns governos provisórios e foi herói de certa esquerda. Só em Portugal alguém que quase arruinou o país continua a ter palavra viva e, imagino eu, a ser ouvido por alguma esquerda que se diz inteligente.
Bolas!!! Acordar assim já era mau mas além disso olho à janela e só vejo branco, branco e o parapeito da varanda. Terá Lisboa desaparecido ou estará o companheiro Vasco a tomar São Bento e esta é a sua muralha de Aço?
Acordo com a TSF, comme d’habitude, e subitamente quase tenho uma convulsão em plena cama. A voz de Vasco Gonçalves leva-me a duvidar se estou acordado ou num qualquer limbo existencial. Belisco-me, sem muita força, e continuo a ouvir essa voz acusando o actual governo de ser de extrema-direita. Afinal é real, esta múmia está viva e, ao contrário do que eu pensava, não está internada numa qualquer clínica para doentes mentais. Ouço o restante depoimento em que diz que o 25 de Novembro foi culpa dos reaccionários liderados por Mário Soares, senhor que prestou um mau serviço ao país interrompendo o brilhante processo revolucionário.
Divido-me, não sei se deva estar feliz por confirmar que este senhor continua parado num tempo distante (confirmando o que dele pensava), ou se deva temer por um país que deixa alguém neste estado sem um tratamento psiquiátrico adequado. Espero que, nestes tempos em que se fala de mudanças, o PCP não se lembre de reciclar este ex-primeiro ministro para a direcção do partido. Já o imagino em pleno parlamento vociferando, ao mesmo tempo que gesticulava furiosamente quase dando um estalo ao seu vizinho de bancada Francisco Louça: "Não há terceira via, ou se é pela revolução, ou se é contra a revolução."
Como já disse em anterior posta não sou da geração de Abril. A revolução e o PREC são acontecimentos por mim conhecidos através de documentários e comentários, de livros e de pessoas. O companheiro Vasco era alguém que eu quando criança julgava ser um grande actor cómico, senhor de uma mímica prodigiosa e um portento da comédia física. O problema foi quando descobri que ele era um louco furioso que, por motivos estranhos, liderou uns governos provisórios e foi herói de certa esquerda. Só em Portugal alguém que quase arruinou o país continua a ter palavra viva e, imagino eu, a ser ouvido por alguma esquerda que se diz inteligente.
Bolas!!! Acordar assim já era mau mas além disso olho à janela e só vejo branco, branco e o parapeito da varanda. Terá Lisboa desaparecido ou estará o companheiro Vasco a tomar São Bento e esta é a sua muralha de Aço?
M.A.D.N.
O dia dos namorados é já amanhã e nesta irritante data temos de nos unir para acabar com esta palhaçada. As importações americanas invadem-nos e o pobre são Valentim deve estar a dar voltas na tumba.
Basta! Chega de corações pendurados e de montras cor-de-rosa apelando a um consumo desenfreado em tempos de contenção. Acabem com esses sorrisos idiotas de felicidade que inundarão as ruas.
Malvado dia este em que jantar fora é impossível, com os restaurantes cheios de mesas com parezinhos à luz de velas a falar de modo delicodoce e a ocupar os lugares que nós precisamos para jantar com os amigos.
E as rádios, é um pesadelo, só se ouve Michael Bolton e Céline Dion, com intervalos para declarações de amor de namorados...um nojo. A programação da televisão ainda não vi, mas imagino que à noite passem "O Senhor das Marés", "Vai onde te leva coração" ou sucedâneos do género lamechas de pior ou menos má qualidade.
Pobres livrarias sérias que só conseguem vender Susanas Tamaros e Margaridas Rebelos Pintos.
O mundo não é cor-de-rosa, eu nem sequer gosto do cor-de-rosa.
Fundemos o Movimento Anti Dia dos Namorados - MADN.
Não me dirijo só aos solteiros, todos temos de nos unir, esta história de decretar que cada par de namorados têm de comemorar no mesmo dia é totalitária e anti-democrática. Deixem cada um comemorar quando quer, no dia em que se conheceram, no dia em que começaram, no dia em que...Ao menos assim incomodam menos aqueles que não têm nada para comemorar.
Ao menos criem o Dia do Divorciado, Dia das Amantes, o Dia dos Unidos de Facto, o Dia dos Solteiros e até o Dia dos Viúvos. Lutemos contra a globalização dos dias de.
A este ritmo qualquer dia vamos ter dias de tudo, já imagino por exemplo: o Dia das Pessoas Doentes com Rinite Alérgica com Menos de 35 Anos (este eu podia comemorar), o Dia das Loiras com Olhos Azuis que Gostam de Arroz de Pato, o Dia das Mulheres Trabalhadoras com Mais de 2 Filhas com o nome Maria, o Dia dos Casais que Namoraram Menos de 1 Ano antes de Casarem
O leque de possibilidades é infinito, mas julgo que a realidade sempre o vai superar.
Juntos venceremos. Temos agora um ano pela frente para conseguirmos, no próximo 14 de Fevereiro, organizar uma gigantesca manifestação anti DN num qualquer bar civilizado deste país, no qual seja proibida a entrada a corações, objectos cor de rosas e gigantescos ramos de flores.
Basta! Chega de corações pendurados e de montras cor-de-rosa apelando a um consumo desenfreado em tempos de contenção. Acabem com esses sorrisos idiotas de felicidade que inundarão as ruas.
Malvado dia este em que jantar fora é impossível, com os restaurantes cheios de mesas com parezinhos à luz de velas a falar de modo delicodoce e a ocupar os lugares que nós precisamos para jantar com os amigos.
E as rádios, é um pesadelo, só se ouve Michael Bolton e Céline Dion, com intervalos para declarações de amor de namorados...um nojo. A programação da televisão ainda não vi, mas imagino que à noite passem "O Senhor das Marés", "Vai onde te leva coração" ou sucedâneos do género lamechas de pior ou menos má qualidade.
Pobres livrarias sérias que só conseguem vender Susanas Tamaros e Margaridas Rebelos Pintos.
O mundo não é cor-de-rosa, eu nem sequer gosto do cor-de-rosa.
Fundemos o Movimento Anti Dia dos Namorados - MADN.
Não me dirijo só aos solteiros, todos temos de nos unir, esta história de decretar que cada par de namorados têm de comemorar no mesmo dia é totalitária e anti-democrática. Deixem cada um comemorar quando quer, no dia em que se conheceram, no dia em que começaram, no dia em que...Ao menos assim incomodam menos aqueles que não têm nada para comemorar.
Ao menos criem o Dia do Divorciado, Dia das Amantes, o Dia dos Unidos de Facto, o Dia dos Solteiros e até o Dia dos Viúvos. Lutemos contra a globalização dos dias de.
A este ritmo qualquer dia vamos ter dias de tudo, já imagino por exemplo: o Dia das Pessoas Doentes com Rinite Alérgica com Menos de 35 Anos (este eu podia comemorar), o Dia das Loiras com Olhos Azuis que Gostam de Arroz de Pato, o Dia das Mulheres Trabalhadoras com Mais de 2 Filhas com o nome Maria, o Dia dos Casais que Namoraram Menos de 1 Ano antes de Casarem
O leque de possibilidades é infinito, mas julgo que a realidade sempre o vai superar.
Juntos venceremos. Temos agora um ano pela frente para conseguirmos, no próximo 14 de Fevereiro, organizar uma gigantesca manifestação anti DN num qualquer bar civilizado deste país, no qual seja proibida a entrada a corações, objectos cor de rosas e gigantescos ramos de flores.
Porto
Depois de Portugal o Porto. A depressão ao que parece está a ser mais sentida pelo Norte. A "Grande Reportagem" de Sábado trazia artigo de fundo sobre a depressão portista, ontem um encontro discutiu estes problemas.
O Porto sofre, há muito, de algum complexo de inferioridade. Certo que é a segunda metrópole (que não cidade) do país, mas a sua insistência - para além do normal - em colar-se a Lisboa sempre me levou à seguinte pergunta: Deverão Coimbra, ou Braga, reclamar para se aproximarem do Porto? A dúvida é entre bipolarizar na primeira cidade ou na segunda. Custa-me que num país tão pequeno se questione a existência de uma capital destacada, querendo à força que a segunda cidade esteja ao seu nível.
Até aqui poderia parecer um ataque cerrado ao Porto, nada mais errado. O Porto é uma cidade muito particular, na sua arquitectura e clima, nas suas gentes. Gosto do Porto, gosto particularmente por ver nele uma quase antítese de Lisboa, uma complementaridade. O que me leva a mim, e alguns outros mais, a vociferar contra um certo Porto, é a postura adoptada por energúmenos como Pinto da Costa ou Fernando Gomes, sempre ao ataque contra Lisboa como se ela fosse a cidade do inferno. Tudo ao Sul é mau, contra eles, contra um Porto perfeito, contra a capital da virtude. Sempre me irritei com superioridades morais (daí me irritar com certa esquerda) e esta é repugnante. Não confundo estes senhores com o Porto, nem com as gentes do Porto, mas infelizmente há quem confunda. A regionalização foi disso exemplo, no dia de boa memória do referendo. Não duvidemos que a derrota da regionalização teve por base o Porto e a sua atitude interesseira de querer criar um segundo centralismo. Sim, alguém terá dúvidas que os Ayatholas do Norte queriam uma capital centralizadora do Tejo para cima? A regionalização não ia descentralizar, ia centralizar em mais locais, apenas isso.
Enquanto do Porto se ouvir "querer ver Lisboa arder" com a anuência de pessoas com responsabilidades, Lisboa nunca os verá muito a sério, e o país também não.
O Porto sofre, há muito, de algum complexo de inferioridade. Certo que é a segunda metrópole (que não cidade) do país, mas a sua insistência - para além do normal - em colar-se a Lisboa sempre me levou à seguinte pergunta: Deverão Coimbra, ou Braga, reclamar para se aproximarem do Porto? A dúvida é entre bipolarizar na primeira cidade ou na segunda. Custa-me que num país tão pequeno se questione a existência de uma capital destacada, querendo à força que a segunda cidade esteja ao seu nível.
Até aqui poderia parecer um ataque cerrado ao Porto, nada mais errado. O Porto é uma cidade muito particular, na sua arquitectura e clima, nas suas gentes. Gosto do Porto, gosto particularmente por ver nele uma quase antítese de Lisboa, uma complementaridade. O que me leva a mim, e alguns outros mais, a vociferar contra um certo Porto, é a postura adoptada por energúmenos como Pinto da Costa ou Fernando Gomes, sempre ao ataque contra Lisboa como se ela fosse a cidade do inferno. Tudo ao Sul é mau, contra eles, contra um Porto perfeito, contra a capital da virtude. Sempre me irritei com superioridades morais (daí me irritar com certa esquerda) e esta é repugnante. Não confundo estes senhores com o Porto, nem com as gentes do Porto, mas infelizmente há quem confunda. A regionalização foi disso exemplo, no dia de boa memória do referendo. Não duvidemos que a derrota da regionalização teve por base o Porto e a sua atitude interesseira de querer criar um segundo centralismo. Sim, alguém terá dúvidas que os Ayatholas do Norte queriam uma capital centralizadora do Tejo para cima? A regionalização não ia descentralizar, ia centralizar em mais locais, apenas isso.
Enquanto do Porto se ouvir "querer ver Lisboa arder" com a anuência de pessoas com responsabilidades, Lisboa nunca os verá muito a sério, e o país também não.
11.2.04
Anatomia de um Crime
As maravilhas dos DVD permitem isto, a revisitação dos clássicos em noites paradas e calmas. Ontem foi a vez de "Anatomia de um Crime" de Otto Preminger. Um filme de moral duvidosa, mesmo amoral, em que a distinção entre bem e mal é ténue.
O filme narra a história de um advogado (James Stewart) que se depara com a defesa de um homem (Bem Gazzara) que matou o suposto violador da sua mulher (Lee Remick). Entre dúvidas sobre a efectiva violação, a motivação do crime, a defesa de um criminoso ou a libertação de um inocente, vagueamos por entre um belíssimo filme.
James Stewart está, como sempre, irrepreensível. Lee Remick é um poço de sedução inocente, ou talvez não. Bem Gazzara um enigmático criminoso. A banda sonora é de antologia e compra, ou gravação, obrigatória, Mr. Duke Ellington no seu melhor.
O filme narra a história de um advogado (James Stewart) que se depara com a defesa de um homem (Bem Gazzara) que matou o suposto violador da sua mulher (Lee Remick). Entre dúvidas sobre a efectiva violação, a motivação do crime, a defesa de um criminoso ou a libertação de um inocente, vagueamos por entre um belíssimo filme.
James Stewart está, como sempre, irrepreensível. Lee Remick é um poço de sedução inocente, ou talvez não. Bem Gazzara um enigmático criminoso. A banda sonora é de antologia e compra, ou gravação, obrigatória, Mr. Duke Ellington no seu melhor.
Curtas
O PS está cada vez melhor. Jorge Coelho e João Soares disponibilizaram-se para a liderança do partido. Carrilho e Mega discutem para a Câmara de Lisboa. Tanta disponibilidade é estranha, será uma cabala?
O Ministério da Educação anunciou que vai criar cursos de Medicina nos Açores e na Madeira. A concretizar-se esta intenção está dado um passo real e efectivo uma descentralização e para o aumento das vagas em Medicina. Bravo.
O Ministério da Educação anunciou que vai criar cursos de Medicina nos Açores e na Madeira. A concretizar-se esta intenção está dado um passo real e efectivo uma descentralização e para o aumento das vagas em Medicina. Bravo.
9.2.04
Reverendo Marcelo
Ontem em jantar de família, enquanto debicava uma empadinhas, dei por mim quase só na casa de jantar. Como o jantar era informal segui até à sala para ver o que se passava. A televisão ligada surgia como que sobre um altar, e dentro dela saía a missa semanal do Professor Marcelo. Tentei perguntar algo mas logo me mandaram calar. Os Domingos ganham assim contornos de insanidade, pois sou católico e missas para mim são na igreja e com padre. Não reconheço ao Professor o estatuto de sacerdote e os sermões dominicais são, de semana para semana, mais vácuos e desinteressantes. Hoje já não me lembro de nada que o Professor tenha falado, excepto talvez a referência a um livro sobre o parto ou o pós-parto.
5.2.04
País deprimido
A queixa é generalizada, Portugal é um país de pedófilos, não tem auto-estima, está deprimido. Devo ser dos poucos que acham que o momento é bom. Todos os escândalos de pedofilia remontam há alguns anos, todos percorreram várias governações. Foram agora descobertos e investigados, porque nos há de deprimir este facto. Claro que é deprimente que tudo isto exista, mas devemos estar felizes, muito felizes, por se estar a investigar, a combater, a descobrir e, esperemos, a castigar. Foi uma impunidade de muitos anos mas agora podemos exultar, tudo está a ser desmascarado. Não partilho da visão pessimista (no que me estranho) generalizada, Portugal está num bom momento. Até o sol está a brilhar.
Amália
Finalmente comprei a reedição em CD do mítico "Busto". Como "brinde" temos também direito a "For your delight" e a um single com ensaios de Amália com Alain Oulman. Tudo o que penso sobre Amália está aqui provado e comprovado. Amália foi o grande nome do Fado, aquele que o tornou universal e erudito, que o passeou pelas melhores salas do mundo. Trouxe Portugal na voz e cantou o país como ninguém.
Mas Amália é muito mais do que isto, que já não é pouco. Amália esteve para além do Fado, foi uma voz inigualável, por muitas tentativas de clonagem que se tentem. Mostrou quão longe pode ir a interpretação musical - muito para além da técnica -, em que uma nota é um choro, um trinado um lamento, uma pausa o sofrimento. E isto, por muito que eu goste de Fado, não é um exclusivo do Fado.
Por isso é tão bom ouvir Amália, redescobrir a sua música, o seu mundo, a sua voz. A música, como arte que é, tem esta capacidade de emocionar, de arrebatar. Ouçamos música, ouçamos Amália.
Mas Amália é muito mais do que isto, que já não é pouco. Amália esteve para além do Fado, foi uma voz inigualável, por muitas tentativas de clonagem que se tentem. Mostrou quão longe pode ir a interpretação musical - muito para além da técnica -, em que uma nota é um choro, um trinado um lamento, uma pausa o sofrimento. E isto, por muito que eu goste de Fado, não é um exclusivo do Fado.
Por isso é tão bom ouvir Amália, redescobrir a sua música, o seu mundo, a sua voz. A música, como arte que é, tem esta capacidade de emocionar, de arrebatar. Ouçamos música, ouçamos Amália.
3.2.04
Empate
Já foi há 3 dias mas só agora posso escrever sobre ele. Uma crónica de desporto será para mim uma originalidade, para alguns uma seca, enfim aqui vamos. Tinta, muita tinta já fez correr este jogo e as promessas são que continue assim. Um polémico Sporting-Porto a deixar as gentes à beira de um ataque de nervos.
Foi um grande jogo de futebol, talvez o melhor deste ano entre nós, quase sempre bem jogado, emotivo e disputado. Pela minha parte passei a segunda parte mais tempo em pé do que sentado, "comendo" avidamente cigarros enquanto gritava pelo meu clube. Uma tensão mantida até ao apito final, altura em que deu lugar à frustração. Alguém terá sinceras dúvidas que o Sporting mereceu ganhar o jogo? Não é facciosismo é a realidade do jogo. Gostei mesmo de ver o Sporting jogar no Sábado, mostrou que tem equipa e que o Porto está, neste momento, ao seu nível. Um jogo de campeões.
Até aqui tudo normal, como normal foi todo o jogo. Pequenos casos, uma ou outra dúvida de arbitragem, nada trágico ou comprometedor (os dois penaltis existem, se bem que o segundo possa ter sido forçado por Liedson; Baía e Deco podiam ter sido expulsos). Afinal para que serve falar insistentemente da arbitragem, falemos antes de futebol, pelo menos quando ele existe, e Sábado ele existiu e foi bom.
Chegamos então ao ponto fatal, com toda esta normalidade, apesar do resultado injusto, o que é que tornou este jogo polémico?
O Sr. Mourinho (será que merece que o trate por Senhor?) esteve igual a si próprio. Arrogante, mal-criado, prepotente, com mau perder, mal-educado, em suma intragável. Mas também criativo. Não é fácil inventar inimigos em todos os jogos, cabalas e combinações, justificações exóticas para a falta de vitórias. Percebo toda esta agitação, Mourinho é bom treinador, mas um menino mimado que só sabe ganhar, que se julga o melhor. Esta época habituou-se a um FCP super dominador, sem problemas para ganhar, passeando a sua superioridade pela Super Liga. Até Sábado isso foi verdade, mas em Alvalade o Porto tremeu, percebeu que, apesar de não perder não era inexpugnável, que tinha um adversário à altura. O titubeante Sporting do início do campeonato deu lugar a uma equipa sólida, que entra em campo destemidamente para ganhar. O Porto não esperava isto, Mourinho não sonhou que a passagem por Lisboa mostrasse em certas fases do jogo um Porto encolhido na defesa, quase massacrado pelo adversário. Assim Mourinho amuou, e com o amuo veio a agressividade, e com ela as indescritíveis reacções a uma jogada perfeitamente normal. João Pinto estava a ser atendido e é verdade que de imediato todos os jogadores se acercaram preocupados. Os médicos prosseguiam o seu trabalho, fora do campo, e junto do jogador já só estavam Rui Jorge com a bola na mão e Jorge Costa à frente do jogador do Sporting (basta ver a repetição para confirmar). O árbitro apitou e, além disso, gesticulou para o Sporting repor a bola em jogo. Rui Jorge cumpre as ordens e passa a bola a Liedson que é carregado. Algo de estranho? Em nenhum país do mundo isto seria estranho. Mourinho é mentiroso com todas as letras, não estão vários jogadores em volta de João Pinto, não estão fora do campo e da jogada, está um jogador, Jorge Costa, a cobrir a reposição da bola em jogo. Depois disto Mourinho disparou pérolas como as patetices após o golo do Porto (ainda hoje não percebo a que se refere), insultos a Rui Jorge e Liedson (é certo que fez teatro mas não é caso para tanto) e um chorrilho de impropérios. Únicas palavras sábias, as de que em Portugal ninguém gosta dele e o choro mimado a Pinto da Costa para o deixar sair. Num clube civilizado ou pedia desculpa ou era despedido com justa causa, no Porto tem o aplauso do Sr. Costa, que por certo ainda o incita a mais disparates. Deixem-no ir, estou a imaginar a repercussão de declarações destas em países civilizados como a Inglaterra (despedimento ou irradiação da Liga). Aposto que Mourinho lá fora será um cordeirinho, ou então terá de voltar para cá.
O corolário desta inspiração Mourinhiana terá sido o rasgar da camisola de Rui Jorge, dizendo que gostava de o ver morrer em campo, no que teve o apoio do Sr. Costa. O FCP desmentiu, o Sporting diz que tem provas, a novela continua. A ser verdade esta triste cena, as palavras faltam para descrever estas criaturas. Uma semana depois de um jogador morrer em campo é de uma total e absoluta falta de tudo dizer estas palavras. Quanto ao rasgar da camisola já acho mais normal, afinal estamos a falar de Mourinho. A provarem-se estes acontecimentos apenas espero pela reacção da Liga. Também não sei porquê, o futebol em Portugal é um antro de impunidade.
José Bettencourt da SAD do Sporting também se excedeu nos comentários, fugindo à sua postura habitual. Mas será que a ser verdade o que se diz isto não é normal?
Foi um grande jogo de futebol, talvez o melhor deste ano entre nós, quase sempre bem jogado, emotivo e disputado. Pela minha parte passei a segunda parte mais tempo em pé do que sentado, "comendo" avidamente cigarros enquanto gritava pelo meu clube. Uma tensão mantida até ao apito final, altura em que deu lugar à frustração. Alguém terá sinceras dúvidas que o Sporting mereceu ganhar o jogo? Não é facciosismo é a realidade do jogo. Gostei mesmo de ver o Sporting jogar no Sábado, mostrou que tem equipa e que o Porto está, neste momento, ao seu nível. Um jogo de campeões.
Até aqui tudo normal, como normal foi todo o jogo. Pequenos casos, uma ou outra dúvida de arbitragem, nada trágico ou comprometedor (os dois penaltis existem, se bem que o segundo possa ter sido forçado por Liedson; Baía e Deco podiam ter sido expulsos). Afinal para que serve falar insistentemente da arbitragem, falemos antes de futebol, pelo menos quando ele existe, e Sábado ele existiu e foi bom.
Chegamos então ao ponto fatal, com toda esta normalidade, apesar do resultado injusto, o que é que tornou este jogo polémico?
O Sr. Mourinho (será que merece que o trate por Senhor?) esteve igual a si próprio. Arrogante, mal-criado, prepotente, com mau perder, mal-educado, em suma intragável. Mas também criativo. Não é fácil inventar inimigos em todos os jogos, cabalas e combinações, justificações exóticas para a falta de vitórias. Percebo toda esta agitação, Mourinho é bom treinador, mas um menino mimado que só sabe ganhar, que se julga o melhor. Esta época habituou-se a um FCP super dominador, sem problemas para ganhar, passeando a sua superioridade pela Super Liga. Até Sábado isso foi verdade, mas em Alvalade o Porto tremeu, percebeu que, apesar de não perder não era inexpugnável, que tinha um adversário à altura. O titubeante Sporting do início do campeonato deu lugar a uma equipa sólida, que entra em campo destemidamente para ganhar. O Porto não esperava isto, Mourinho não sonhou que a passagem por Lisboa mostrasse em certas fases do jogo um Porto encolhido na defesa, quase massacrado pelo adversário. Assim Mourinho amuou, e com o amuo veio a agressividade, e com ela as indescritíveis reacções a uma jogada perfeitamente normal. João Pinto estava a ser atendido e é verdade que de imediato todos os jogadores se acercaram preocupados. Os médicos prosseguiam o seu trabalho, fora do campo, e junto do jogador já só estavam Rui Jorge com a bola na mão e Jorge Costa à frente do jogador do Sporting (basta ver a repetição para confirmar). O árbitro apitou e, além disso, gesticulou para o Sporting repor a bola em jogo. Rui Jorge cumpre as ordens e passa a bola a Liedson que é carregado. Algo de estranho? Em nenhum país do mundo isto seria estranho. Mourinho é mentiroso com todas as letras, não estão vários jogadores em volta de João Pinto, não estão fora do campo e da jogada, está um jogador, Jorge Costa, a cobrir a reposição da bola em jogo. Depois disto Mourinho disparou pérolas como as patetices após o golo do Porto (ainda hoje não percebo a que se refere), insultos a Rui Jorge e Liedson (é certo que fez teatro mas não é caso para tanto) e um chorrilho de impropérios. Únicas palavras sábias, as de que em Portugal ninguém gosta dele e o choro mimado a Pinto da Costa para o deixar sair. Num clube civilizado ou pedia desculpa ou era despedido com justa causa, no Porto tem o aplauso do Sr. Costa, que por certo ainda o incita a mais disparates. Deixem-no ir, estou a imaginar a repercussão de declarações destas em países civilizados como a Inglaterra (despedimento ou irradiação da Liga). Aposto que Mourinho lá fora será um cordeirinho, ou então terá de voltar para cá.
O corolário desta inspiração Mourinhiana terá sido o rasgar da camisola de Rui Jorge, dizendo que gostava de o ver morrer em campo, no que teve o apoio do Sr. Costa. O FCP desmentiu, o Sporting diz que tem provas, a novela continua. A ser verdade esta triste cena, as palavras faltam para descrever estas criaturas. Uma semana depois de um jogador morrer em campo é de uma total e absoluta falta de tudo dizer estas palavras. Quanto ao rasgar da camisola já acho mais normal, afinal estamos a falar de Mourinho. A provarem-se estes acontecimentos apenas espero pela reacção da Liga. Também não sei porquê, o futebol em Portugal é um antro de impunidade.
José Bettencourt da SAD do Sporting também se excedeu nos comentários, fugindo à sua postura habitual. Mas será que a ser verdade o que se diz isto não é normal?
31.1.04
Ai!
Navego pela blogosfera a fazer tempo para o Sporting – Porto no Alvalade XXI. Daqui a três horas espero estar já bem sentado, de cachecol verde a gritar pelo meu clube, ansiando pelo apito inicial. A esperança para este ano mantêm-se, mas depende em muito deste jogo. Hesito entre um Xanax ou um Inderal, é que tudo isto vai ser muito duro para os nervos.
Que ganhe o melhor e que o melhor seja o Sporting.
Que ganhe o melhor e que o melhor seja o Sporting.
VPV
Vasco Pulido Valente voltou a escrever no DN. Que bom ter de novo uma dose de pessimismo e lucidez ao fim de semana, particularmente quando ela é tão bem escrita. O difícil acordar de Sábado é assim mais suportável.
29.1.04
Pornografia Emocional
O assunto é recorrente, e ao longo desta semana tornou-se inevitável. Depois de ontem o ter referido por boas razões, hoje o sentimento é contrário. Ontem, esperando já o circo mediático dos privados, acompanhei o Telejornal da RTP1 em busca de informação mais sóbria. Erro crasso. A reportagem do nosso canal privado excedeu, em tudo, os piores receios. No velório no Estádio da Luz o repórter parecia ter encarnado em comentador social, da Caras ou afins, mas em versão macabra. Debitava o nome dos presentes pouco faltando para lhes comentar as roupas, fazia perguntas quase do tipo "como é que se sente neste momento", esqueceu de forma inacreditável que o acontecimento que cobria era um velório, onde deve haver respeito e contenção, e não uma qualquer festa do Jet Oito português. Mas isto não bastou. A equipa de reportagem seguiu até à Hungria para seguir o enterro de Feher, onde manteve o nível, agravado por comentários acerca da expressão da mãe perante o caixão do filho e outras alarvidades do género. O único qualificativo que me lembro para esta ignomínia é mesmo o de pornografia emocional, tudo o que se diga de menos é de uma condescendência inaplicável a este caso.
O nosso canal público tem dado sinais de melhora, mas parece difícil combater algumas mentalidades que ainda não perceberam a diferença entre informar e agredir. Estas peças passaram ás oito da noite, hora em que as crianças estão em frente à televisão com a família. Não tenho filhos, mas seria muito difícil – caso os tivesse – comentar esta invasão brutal da privacidade e intimidade, esta exposição cruel dos sentimentos da família e amigos de alguém a quem o destino pregou uma enorme e trágica partida.
O nosso canal público tem dado sinais de melhora, mas parece difícil combater algumas mentalidades que ainda não perceberam a diferença entre informar e agredir. Estas peças passaram ás oito da noite, hora em que as crianças estão em frente à televisão com a família. Não tenho filhos, mas seria muito difícil – caso os tivesse – comentar esta invasão brutal da privacidade e intimidade, esta exposição cruel dos sentimentos da família e amigos de alguém a quem o destino pregou uma enorme e trágica partida.
28.1.04
Decência
Os últimos dias foram marcados por uma voragem informativa das nossas televisões, desrespeitando o que deveria ser o pudor natural perante o acontecimento chocante de Domingo passado. Os principais canais passaram com exaustão as "imagens vivas da morte", sem o mínimo respeito pela situação.
No meio desta - infelizmente normal - falta de noção resta-nos um sinal positivo. Segundo o DN de hoje, Ricardo Espírito Santo - realizador da Sport TV que fazia a cobertura do jogo de má memória - teve ao seu dispor imagens francamente mais brutais, de pormenores da cara do jogador, num presumível espelho da morte e das desesperadas tentativas de reanimação. Logo mandou parar com os primeiros planos e suspender o que poderia ser um acto de refinado sadismo. Claro que ao que parece houve estações de televisão a tentar comprar - a todo o preço - estas imagens, a Sport TV, numa posição de enorme dignidade, recusou terminantemente a sua venda.
Felizmente ainda há em Portugal gente decente, incapaz de corromper os seus princípios e de massacrar um país com imagens chocantes que em nada contribuiriam para um melhor entendimento da situação. Felizmente ainda há jornalistas capazes de exercer a sua profissão como tal, e não como um filme de terror das misérias humanas. Felizmente há ainda quem tenha respeito pela intimidade dos outros, e haverá algo mais íntimo do que a morte. Felizmente que o realizador desse jogo era Ricardo Espírito Santo e a televisão que o emitiu a Sport TV. Felizmente que há quem ainda me dê esperança num mundo, e em particular num Portugal, mais civilizado e respeitador do ser humano.
No meio desta - infelizmente normal - falta de noção resta-nos um sinal positivo. Segundo o DN de hoje, Ricardo Espírito Santo - realizador da Sport TV que fazia a cobertura do jogo de má memória - teve ao seu dispor imagens francamente mais brutais, de pormenores da cara do jogador, num presumível espelho da morte e das desesperadas tentativas de reanimação. Logo mandou parar com os primeiros planos e suspender o que poderia ser um acto de refinado sadismo. Claro que ao que parece houve estações de televisão a tentar comprar - a todo o preço - estas imagens, a Sport TV, numa posição de enorme dignidade, recusou terminantemente a sua venda.
Felizmente ainda há em Portugal gente decente, incapaz de corromper os seus princípios e de massacrar um país com imagens chocantes que em nada contribuiriam para um melhor entendimento da situação. Felizmente ainda há jornalistas capazes de exercer a sua profissão como tal, e não como um filme de terror das misérias humanas. Felizmente há ainda quem tenha respeito pela intimidade dos outros, e haverá algo mais íntimo do que a morte. Felizmente que o realizador desse jogo era Ricardo Espírito Santo e a televisão que o emitiu a Sport TV. Felizmente que há quem ainda me dê esperança num mundo, e em particular num Portugal, mais civilizado e respeitador do ser humano.
26.1.04
Enviado Especial
Nos tempos cinzentos que correm é com enorme prazer que se pode ler este livro. Após ter lido "Reviver o Passado em Brideshead" e "Declínio e Queda" surgiu-me - em passeio por uma livraria - este "Enviado Especial" de Evelyn Waugh.
Ao comprá-lo não imaginava o grau de diversão que me esperava. Os outros dois livros não são, claramente, livros hilariantes. Este é. Ao fim de algumas páginas dei por mim a ser atingido por imparáveis ataques de riso, ao ponto da minha sanidade mental ser discutida aqui por casa. Os trocadilhos iniciais começaram a abrir perspectivas de um glorioso divertimento. A magnífica descrição de Magna Boot, da deliciosa família Boot na sua vida provinciana e antiquada, com a sua horda de "nanies", mordomos e criados, quase todos inválidos e a viver com eles. A absurda escolha de um impagável "enviado especial" para relatar a eminente guerra na Ismaélia, que escolhe incríveis "gadgets", levando canoas desmontáveis e tacos de golfe para um distante e desconhecido país.
O livro segue depois em ritmo corrosivo, relatando as peripécias - e podem crer que são muitas - de Boot na Ismaélia. A guerra afinal revela-se uma fraude mas assim não o relatam os restantes jornalistas. Gostaria de poder aconselhar este livro a muitos pseudo jornalistas que por aí andam, talvez assim melhor percebessem o ridículo de algumas notícias que divulgam.
No final uma mensagem particularmente actual e politicamente incorrecta. William despreza o dinheiro, as honrarias, a fama, preferindo a sua recatada e monótona vida de província, continuando a escrever bucólicas crónicas sobre agricultura e animais. No mundo de hoje quantos de nós seguiríamos este caminho, quantos de nós negaríamos o sucesso, trocando-o por uma tranquila e anónima vida familiar de província?
Ao comprá-lo não imaginava o grau de diversão que me esperava. Os outros dois livros não são, claramente, livros hilariantes. Este é. Ao fim de algumas páginas dei por mim a ser atingido por imparáveis ataques de riso, ao ponto da minha sanidade mental ser discutida aqui por casa. Os trocadilhos iniciais começaram a abrir perspectivas de um glorioso divertimento. A magnífica descrição de Magna Boot, da deliciosa família Boot na sua vida provinciana e antiquada, com a sua horda de "nanies", mordomos e criados, quase todos inválidos e a viver com eles. A absurda escolha de um impagável "enviado especial" para relatar a eminente guerra na Ismaélia, que escolhe incríveis "gadgets", levando canoas desmontáveis e tacos de golfe para um distante e desconhecido país.
O livro segue depois em ritmo corrosivo, relatando as peripécias - e podem crer que são muitas - de Boot na Ismaélia. A guerra afinal revela-se uma fraude mas assim não o relatam os restantes jornalistas. Gostaria de poder aconselhar este livro a muitos pseudo jornalistas que por aí andam, talvez assim melhor percebessem o ridículo de algumas notícias que divulgam.
No final uma mensagem particularmente actual e politicamente incorrecta. William despreza o dinheiro, as honrarias, a fama, preferindo a sua recatada e monótona vida de província, continuando a escrever bucólicas crónicas sobre agricultura e animais. No mundo de hoje quantos de nós seguiríamos este caminho, quantos de nós negaríamos o sucesso, trocando-o por uma tranquila e anónima vida familiar de província?
Feher
A noite de ontem foi marcada pela morte, por uma tragédia seguida quase em directo. Uma situação impressionante em que a morte súbita nos fez dar graças à vida. Um momento que nos redimimos com a vida que tantas vezes menosprezamos, criticamos, ridicularizamos. Tudo perde o sentido quando nos deparamos com finais assim, repentinos, inesperados.
Todas estas palavras são já muitas. As imagens que vimos - assim como as reflexões que despertaram - foram mais do que suficientes. Paz à sua alma.
Todas estas palavras são já muitas. As imagens que vimos - assim como as reflexões que despertaram - foram mais do que suficientes. Paz à sua alma.
23.1.04
PCP
O Secretário-geral do PCP anunciou ontem que o partido estava em crescimento. Parece que em 2003 aderiram 1450 novos camaradas, dos quais 40% com menos de 30 anos (para além de 1017 novos filiados da JCP).
Será que há neste país um surto de loucura que leve gente nova, e supostamente de ideias um pouquinho mais modernas, a aderirem a um fóssil cada vez menos vivo?
O modo como o PCP continua a manter-se, e até a cativar jovens, é algo que me transcende. Os dirigentes actuais primam por uma dinâmica capaz de adormecer o mais hiperactivo - Dra. Odete à parte, mas também ela agora anda mais pelo Parque Mayer.
Portugal é realmente um país estranho.
Será que há neste país um surto de loucura que leve gente nova, e supostamente de ideias um pouquinho mais modernas, a aderirem a um fóssil cada vez menos vivo?
O modo como o PCP continua a manter-se, e até a cativar jovens, é algo que me transcende. Os dirigentes actuais primam por uma dinâmica capaz de adormecer o mais hiperactivo - Dra. Odete à parte, mas também ela agora anda mais pelo Parque Mayer.
Portugal é realmente um país estranho.
21.1.04
O tom do Governo
Ainda é cedo para saber se este é um bom ou mau governo. Já teve a sua quota-parte de escândalos, demissões, Ministros fantoche e invisíveis. A remodelação, há muito pedida, vai sendo adiada. Tudo isto contribuiria para a crítica imediata, para o escárnio. Não o consigo fazer mas não sei porquê. Acho que é do tom.
O que gosto neste governo é do tom, da sóbria firmeza que tem mostrado, da vontade de mudar, do diálogo em doses q.b. Já tive de aturar a prepotência, a arrogância e o autismo do nosso "ditador democrático". Já tive de adormecer perante um insistente diálogo, desesperar com a ineficiência e com o imobilismo do nosso "Engenheiro do sorriso perene". Temos agora outro estilo, ou pelo menos vários estilos no mesmo governo mas que se complementam.
Acredito que este não seja um grande governo, tenho aliás vários motivos de crítica, mas o tom agrada-me. Acho que pelo menos é um governo como o deve ser numa normal democracia: dialogante mas firme, tentando o consenso mas agindo, com convicções mas sem paixões.
Tudo isto é verdade, mas irrita-me apenas uma coisa, falta-me o despropósito do cavaquismo para poder ter alvos do meu verberar. Ás vezes faz falta um boneco para bombardear com bolas. Bolas!
O que gosto neste governo é do tom, da sóbria firmeza que tem mostrado, da vontade de mudar, do diálogo em doses q.b. Já tive de aturar a prepotência, a arrogância e o autismo do nosso "ditador democrático". Já tive de adormecer perante um insistente diálogo, desesperar com a ineficiência e com o imobilismo do nosso "Engenheiro do sorriso perene". Temos agora outro estilo, ou pelo menos vários estilos no mesmo governo mas que se complementam.
Acredito que este não seja um grande governo, tenho aliás vários motivos de crítica, mas o tom agrada-me. Acho que pelo menos é um governo como o deve ser numa normal democracia: dialogante mas firme, tentando o consenso mas agindo, com convicções mas sem paixões.
Tudo isto é verdade, mas irrita-me apenas uma coisa, falta-me o despropósito do cavaquismo para poder ter alvos do meu verberar. Ás vezes faz falta um boneco para bombardear com bolas. Bolas!
20.1.04
19.1.04
16.1.04
História de Província
Num jornal de província, H. escrevia semanalmente a sua coluna. Como em qualquer meio pequeno, era por todos conhecido e respeitado. Há alguns anos que escrevia nos jornais, sempre com opiniões frontais, descomprometidas e independentes. Escrevia bem, numa prosa escorreita e irónica, com um estilo muito próprio.
A Câmara Municipal actual, de um partido do lado oposto do seu, era agora o seu alvo favorito. As ligações obscuras à construção civil iam sendo denunciadas, ora claramente, ora de forma subtil para evitar processos. A carga era semanal e a C.M., sem tremer pelo forte apoio popular que tinha, temia a sua coluna.
No mesmo jornal escreviam apoiantes da C.M. com opiniões quase sempre opostas ás de H. Certo dia uma forte polémica foi desencadeada com um seu colega de jornal. Sucederam-se as semanas e a polémica ia em crescendo, atingindo tons viscerais e quase agressivos. Curiosamente outros dois colunistas do mesmo jornal alimentavam uma polémica distinta e um outro era quase insultado periodicamente no correio dos leitores. O jornal era neste momento absolutamente imperdível. Como se pode imaginar, numa pequena cidade as notícia correm depressa e não se falava de outra coisa.
A polémica arrefeceu um pouco e H. foi-se dedicando a outros assuntos. Num artigo subtil alegou ligações pouco claras da C.M. com o pequeno clube de futebol local. Uma semana depois deixou de escrever para o jornal. O director do jornal, ligado de qualquer forma ao clube, dispensou os seus textos.
Portugal é um país realmente curioso. Pode-se verberar contra as instituições (e ainda bem porque, afinal, ainda somos uma democracia), pode-se entrar em polémicas pessoais e mesmo insultar (para isso há a lei e os processos por difamação), agora falar mal do futebol...
A Câmara Municipal actual, de um partido do lado oposto do seu, era agora o seu alvo favorito. As ligações obscuras à construção civil iam sendo denunciadas, ora claramente, ora de forma subtil para evitar processos. A carga era semanal e a C.M., sem tremer pelo forte apoio popular que tinha, temia a sua coluna.
No mesmo jornal escreviam apoiantes da C.M. com opiniões quase sempre opostas ás de H. Certo dia uma forte polémica foi desencadeada com um seu colega de jornal. Sucederam-se as semanas e a polémica ia em crescendo, atingindo tons viscerais e quase agressivos. Curiosamente outros dois colunistas do mesmo jornal alimentavam uma polémica distinta e um outro era quase insultado periodicamente no correio dos leitores. O jornal era neste momento absolutamente imperdível. Como se pode imaginar, numa pequena cidade as notícia correm depressa e não se falava de outra coisa.
A polémica arrefeceu um pouco e H. foi-se dedicando a outros assuntos. Num artigo subtil alegou ligações pouco claras da C.M. com o pequeno clube de futebol local. Uma semana depois deixou de escrever para o jornal. O director do jornal, ligado de qualquer forma ao clube, dispensou os seus textos.
Portugal é um país realmente curioso. Pode-se verberar contra as instituições (e ainda bem porque, afinal, ainda somos uma democracia), pode-se entrar em polémicas pessoais e mesmo insultar (para isso há a lei e os processos por difamação), agora falar mal do futebol...
15.1.04
Um filme
Na calma noite de ontem optei pela companhia de um clássico: "O Vale era Verde" de John Ford. Escolha muito difícil de superar.
Este é um filme em que perfeição é a palavra-chave. O argumento é extraordinário, não apenas na história, mas particularmente na forma como esta é escrita. Os diálogos são belíssimos. A encenação quase operática, magnificente, realçada por um preto e branco pleno de contrastes. Os actores em perfeita encarnação no espírito da história. Um realismo assombroso sem que se perca a fortíssima, e dificilmente igualável, noção estética.
Os momentos de antologia abundam, desde os confrontos familiares em redor da greve ás cenas que abrem e fecham o filme. Inesquecível o último sermão do reverendo em que põe a nu a cobardia dos fariseus.
Que bom seria que o Cinema fosse mais vezes assim.
Este é um filme em que perfeição é a palavra-chave. O argumento é extraordinário, não apenas na história, mas particularmente na forma como esta é escrita. Os diálogos são belíssimos. A encenação quase operática, magnificente, realçada por um preto e branco pleno de contrastes. Os actores em perfeita encarnação no espírito da história. Um realismo assombroso sem que se perca a fortíssima, e dificilmente igualável, noção estética.
Os momentos de antologia abundam, desde os confrontos familiares em redor da greve ás cenas que abrem e fecham o filme. Inesquecível o último sermão do reverendo em que põe a nu a cobardia dos fariseus.
Que bom seria que o Cinema fosse mais vezes assim.
Uma exposição
Uma sugestão ainda atempada (até 21 de Janeiro) para uma exposição a não perder: "Francisco Caldeira Cabral e a Primeira Geração de Arquitectos Paisagistas: 1940-1970".
A justa, mas tardia, homenagem ao "Pai" da Arquitectura Paisagista em Portugal, que muitos desconhecem. A sua obra vasta obra inclui o projecto para o Estádio Nacional e muitos espaços urbanos em Lisboa. Tão importante, ou mais, do que a sua obra é o legado que deixou e que permanece até hoje nos Arquitectos Paisagistas portugueses. O curso "nasceu" em Portugal com ele e desta primeira geração faz parte, entre outros, Gonçalo Ribeiro Telles que, nomeadamente pela sua actividade política, se tornou o porta-estandarte "desta Arquitectura" tantas vezes ignorada.
Na exposição percorremos os projectos deste "Mestre" e dos seus discípulos culminando na obra-prima dos jardins da Fundação Gulbenkian, local onde decorre a exposição. O catálogo é excelente e vale, definitivamente, o preço.
Destaco ainda um vídeo da inauguração do Estádio Nacional que, com o devido distanciamento, se torna uma irresistível peça de humor. O comentador em voz solene anunciando a entrada de Salazar como "campeão dos campeões" e a adjectivação pomposa de toda a peça transforma-a numa peça de arqueologia social. Uma delícia vista à distância, sem a magnificência de Leni Riefensthal é ainda assim um belíssimo exemplo de Propaganda.
A justa, mas tardia, homenagem ao "Pai" da Arquitectura Paisagista em Portugal, que muitos desconhecem. A sua obra vasta obra inclui o projecto para o Estádio Nacional e muitos espaços urbanos em Lisboa. Tão importante, ou mais, do que a sua obra é o legado que deixou e que permanece até hoje nos Arquitectos Paisagistas portugueses. O curso "nasceu" em Portugal com ele e desta primeira geração faz parte, entre outros, Gonçalo Ribeiro Telles que, nomeadamente pela sua actividade política, se tornou o porta-estandarte "desta Arquitectura" tantas vezes ignorada.
Na exposição percorremos os projectos deste "Mestre" e dos seus discípulos culminando na obra-prima dos jardins da Fundação Gulbenkian, local onde decorre a exposição. O catálogo é excelente e vale, definitivamente, o preço.
Destaco ainda um vídeo da inauguração do Estádio Nacional que, com o devido distanciamento, se torna uma irresistível peça de humor. O comentador em voz solene anunciando a entrada de Salazar como "campeão dos campeões" e a adjectivação pomposa de toda a peça transforma-a numa peça de arqueologia social. Uma delícia vista à distância, sem a magnificência de Leni Riefensthal é ainda assim um belíssimo exemplo de Propaganda.
13.1.04
O Capote Alentejano
Gosto muito de capotes alentejanos, acho-os bonitos e um dos traços de genuinidade de uma região. Talvez seja dos poucos trajes típicos portugueses, a par da prima samarra, com uso mais ou menos corrente. Não vivesse eu em Lisboa, onde de facto nunca faz frio à séria, e já teria cobiçado o de meu Pai. Teria, digo bem, teria.
Desde que Saramago - o José - fez sair a sua sempre carrancuda e zangada com o mundo cabeça por entre a pele de raposa que fiquei de pé atrás. Depois...
Hoje acendo a televisão para as notícias da tarde e assusto-me. A omnipresente Ana Gomes aparece de capote alentejano, ás portas da Assembleia, vociferando (quase rugindo) contra os hipócritas que não permitem o aborto. (Chegado aqui pergunto, não vão as organizações de defesa dos animais, tradicionalmente de esquerda, manifestar-se contra o uso de peles de raposa?) Sim, os hipócritas, como eu, que respeitam a vontade expressa pelo povo português de forma democrática. Repito democrática. Claro que a vontade do povo pode mudar, mas não se deve dar um pouco mais de tempo antes de fazer mais uma consulta sobre o tema? Será possível fazer uma recolha de assinaturas para que não haja referendo?
Acho que temos o direito de viver em democracia, mesmo contra a arrogância moral da esquerda, mesmo contra a falta respeito que a esquerda têm quando a vontade povo não é a sua.
Por estas e por outras é que o capote continua no baú, mal por mal vou usando a canadiana, é menos nacionalista mas pelo menos não me traz más imagens.
Desde que Saramago - o José - fez sair a sua sempre carrancuda e zangada com o mundo cabeça por entre a pele de raposa que fiquei de pé atrás. Depois...
Hoje acendo a televisão para as notícias da tarde e assusto-me. A omnipresente Ana Gomes aparece de capote alentejano, ás portas da Assembleia, vociferando (quase rugindo) contra os hipócritas que não permitem o aborto. (Chegado aqui pergunto, não vão as organizações de defesa dos animais, tradicionalmente de esquerda, manifestar-se contra o uso de peles de raposa?) Sim, os hipócritas, como eu, que respeitam a vontade expressa pelo povo português de forma democrática. Repito democrática. Claro que a vontade do povo pode mudar, mas não se deve dar um pouco mais de tempo antes de fazer mais uma consulta sobre o tema? Será possível fazer uma recolha de assinaturas para que não haja referendo?
Acho que temos o direito de viver em democracia, mesmo contra a arrogância moral da esquerda, mesmo contra a falta respeito que a esquerda têm quando a vontade povo não é a sua.
Por estas e por outras é que o capote continua no baú, mal por mal vou usando a canadiana, é menos nacionalista mas pelo menos não me traz más imagens.
12.1.04
Sítios
As vidas são marcadas por sítios, por lugares onde passámos, onde tudo aconteceu e acontece. As memórias levam-nos sempre à rua ou casa onde algo se passou. Nas deambulações nostálgicas há sítios recorrentes, onde regressamos com gosto, nem que só em pensamento. São os lugares especiais por momentos vividos, pela sua estética ou por motivos imperceptíveis. Por este ano fora espero passar em alguns desses lugares, em pensamento, na realidade e - porque não - no imaginário deste blogue.
8.1.04
Centros
Os centros urbanos parecem, depois do fecho das lojas, autênticas cidades fantasma. As cidades são feitas de gente, que nelas dorme e trabalha, se desloca e vive. É essencial que no centro haja movimento, moradores entrando e saindo de casa, entrando nos cafés de bairro após jantar.
A Baixa, centro oficioso de Lisboa, é, depois das oito horas, um deserto perigoso. Na última vez em que nela me passeava com os meus pais, detive-me numa montra e logo me ofereceram haxixe ou outras drogas e depois uma máquina fotográfica, obviamente roubada. Assim não dá.
O movimento dos habitantes, a certeza de que um grito é ouvido por alguém, que o vizinho de cima pode tomar conta da casa na nossa ausência. No fundo a sensação provinciana de viver numa comunidade que cada vez mais se perde nas grandes metrópoles. Em Lisboa ainda há zonas assim, como Campo de Ourique. Alfama e Graça são outro exemplo, onde o espírito ainda existe, talvez na sua forma mais pura, mas a degradação urbana toma, nalguns casos, proporções inacreditáveis. A reformulação urbana não se faz por decreto. Faz-se proporcionando o restauro dos edifícios, de preferência de forma rigorosa e respeitosa com a arquitectura dos mesmos. Não creio na transformação de bairros tradicionais nem em zonas "very typical" de matronas batendo em crianças à porta de casas miseráveis, nem em locais absurdamente caros que deturpam o conceito de bairro.
Parece utópico mas a cidade em que acredito é esta, com bairros mais caros e mais baratos, mas com uma alegre mistura, sem fronteiras rígidas, sem guettos falsos ou reais. Sem os condomínios fechados, que mais não são do que isto, falsos édenes, que em nada contribuem para a vida comunitária e que parecem uma versão capitalista de comunas fechadas ao mundo. Ainda não temos, felizmente, a criminalidade do Rio de Janeiro, essa sim justifica estes guettos. Lisboa foi assim, uma cidade de bairros, de pequenos provincianismos e saudáveis bairrismos, e pode voltar a sê-lo. A Graça sempre alternou casas populares com belos palácios, e Alfama, e a Madragoa. O bairro típico de Lisboa é assim, uma confusão de gentes e culturas. Assim se consiga manter o pouco que existe, sem estagnamos numa visão miserabilista de conservação degradada, ou embarcarmos em devaneios de construção em zonas sensíveis como estas.
A Baixa, centro oficioso de Lisboa, é, depois das oito horas, um deserto perigoso. Na última vez em que nela me passeava com os meus pais, detive-me numa montra e logo me ofereceram haxixe ou outras drogas e depois uma máquina fotográfica, obviamente roubada. Assim não dá.
O movimento dos habitantes, a certeza de que um grito é ouvido por alguém, que o vizinho de cima pode tomar conta da casa na nossa ausência. No fundo a sensação provinciana de viver numa comunidade que cada vez mais se perde nas grandes metrópoles. Em Lisboa ainda há zonas assim, como Campo de Ourique. Alfama e Graça são outro exemplo, onde o espírito ainda existe, talvez na sua forma mais pura, mas a degradação urbana toma, nalguns casos, proporções inacreditáveis. A reformulação urbana não se faz por decreto. Faz-se proporcionando o restauro dos edifícios, de preferência de forma rigorosa e respeitosa com a arquitectura dos mesmos. Não creio na transformação de bairros tradicionais nem em zonas "very typical" de matronas batendo em crianças à porta de casas miseráveis, nem em locais absurdamente caros que deturpam o conceito de bairro.
Parece utópico mas a cidade em que acredito é esta, com bairros mais caros e mais baratos, mas com uma alegre mistura, sem fronteiras rígidas, sem guettos falsos ou reais. Sem os condomínios fechados, que mais não são do que isto, falsos édenes, que em nada contribuem para a vida comunitária e que parecem uma versão capitalista de comunas fechadas ao mundo. Ainda não temos, felizmente, a criminalidade do Rio de Janeiro, essa sim justifica estes guettos. Lisboa foi assim, uma cidade de bairros, de pequenos provincianismos e saudáveis bairrismos, e pode voltar a sê-lo. A Graça sempre alternou casas populares com belos palácios, e Alfama, e a Madragoa. O bairro típico de Lisboa é assim, uma confusão de gentes e culturas. Assim se consiga manter o pouco que existe, sem estagnamos numa visão miserabilista de conservação degradada, ou embarcarmos em devaneios de construção em zonas sensíveis como estas.
7.1.04
Máquina Nova
Para este novo ano prometi-me um presente.
O meu computador, a que carinhosamente chamo "O fóssil", arrastava-se penosamente desactualizado desde há longos tempos atrás. Apesar do carinho que habitualmente ganho aos objectos, por este nada conseguia sentir. Aliás, senti por muitas, demasiadas, vezes uma quase irreprimível vontade de o arremessar pela janela. Monitor incluído, sim, esse que agora tinha imagem baça e de vez em quando flashava (não, não ando a tomar ácidos) sem aparente motivo.
Foi então com enorme satisfação que anteontem fui buscar o meu novo companheiro, preto, sem fios e, especialmente, actualizado e com um enorme ecrã. Parece que entrei numa nova dimensão informática, rápida e mais eficaz. Até o Blogger está diferente, agora que uso o Windows XP.
Acabei o dia a rever, na máquina nova, o belíssimo filme de Woody Allen "Toda a gente diz que te amo". Que boa maneira de começar o ano.
O meu computador, a que carinhosamente chamo "O fóssil", arrastava-se penosamente desactualizado desde há longos tempos atrás. Apesar do carinho que habitualmente ganho aos objectos, por este nada conseguia sentir. Aliás, senti por muitas, demasiadas, vezes uma quase irreprimível vontade de o arremessar pela janela. Monitor incluído, sim, esse que agora tinha imagem baça e de vez em quando flashava (não, não ando a tomar ácidos) sem aparente motivo.
Foi então com enorme satisfação que anteontem fui buscar o meu novo companheiro, preto, sem fios e, especialmente, actualizado e com um enorme ecrã. Parece que entrei numa nova dimensão informática, rápida e mais eficaz. Até o Blogger está diferente, agora que uso o Windows XP.
Acabei o dia a rever, na máquina nova, o belíssimo filme de Woody Allen "Toda a gente diz que te amo". Que boa maneira de começar o ano.
6.1.04
Sporting
Anteontem o Sporting resolveu, pelo menos por uma vez, jogar futebol com garra e alguma qualidade. O Engenheiro, também por uma vez, jogou ao ataque e sem receios, acertando nas substituições.
Conclusão, ganhámos na Luz e o título ainda não uma total miragem.
Bom início de 2004 para as bandas de Alvalade. Ainda bem.
Conclusão, ganhámos na Luz e o título ainda não uma total miragem.
Bom início de 2004 para as bandas de Alvalade. Ainda bem.
2004 Versão optimista
No 2004 dos meus pensamentos mais insanamente optimistas, isto é o que se vai passar.
O caso Casa Pia será resolvido, de forma inquestionável, e os culpados serão severamente punidos. Não me interessa se são os que estão presos, se estes e outros, se somente outros. O povo respirará de alívo e acreditará por uma vez na justiça da justiça em Portugal.
O governo contornará a crise e todos poderemos alargar ostensivamente o cinto. A Ministra das Finanças estará ao longo do ano com invejáveis índices de popularidade, sendo aclamada efusivamente pela população em qualquer local que passe.
O Sporting será campeão nacional, depois de uma série de dezassete jogos sem perder. Fernando Santos cumprirá a promessa de fazer a pé uma digressão pelos dez estádios do Euro, finalizada com um retiro de uma semana em Fátima.
Scolari será agraciado com a Ordem do Infante, depois de levar a nossa selecção à vitória no Euro 2004. Invicta e praticando um futebol de sonho, Portugal deslumbra o mundo, tornando-se campeão incontestado do campeonato que organizou. Os árbitros passam discretos e Baía fica no Porto a ver os jogos pela televisão. Consta que Pinto da Costa comeu um chapéu, devido à promessa de que o faria se Scolari fosse campeão sem jogar com Baía.
Mário Soares contrai uma estranha fobia que o impede de dar entrevistas a televisões, rádios e jornais. A doença é aparentemente contagiosa e Freitas do Amaral e Manuel Monteiro são contaminados.
O Rock in Rio cria um palco intimista, para o qual programa Chico Buarque, João Gilberto, Caetano Veloso, Maria Rita e Marisa Monte. No registo mais mexido os U2 confirmam a sua presença.
George Bush resigna por motivos desconhecidos e é sucedido por um representante da ala anti militarista do Partido Republicano.
Ana Gomes é nomeada embaixatriz no Burundi, com ordens expressas de não estabelecer contactos com o país de origem.
O grupo Media Capital, baseado num aturado estudo de marketing de uma empresa estrangeira, transforma os conteúdos dos seus canais num sucedâneo do ARTE.
Manuel de Oliveira realiza um filme de acção que é nomeado para o Óscar do melhor filme estrangeiro e ganha. Leonor Silveira acompanha-o a Los Angeles e é descoberta por Hollywood. A cerimónia dos óscares decorre de forma inédita com o empate nos Óscares de melhor filme e de melhor realizador entre Clint Eastwood por "Mystic River" e Peter Jackson por "Senhor dos Anéis: O Regresso do Rei."
Santana Lopes tem uma visão e desiste da candidatura à Presidência da República. Concentra-se em Lisboa e começa, de facto, a fazer qualquer coisa pelos alfacinhas. Os ministérios são expulsos, com apoio das massas, do Terreiro do Paço ao som de gritos "Terreiro para os lisboetas, burocratas para a Alta de Lisboa."
O Bloco de Esquerda assume a sua postura de "esquerda caviar", ao comemorar o seu aniversário num jantar na Bica do Sapato, seguido de restrita festa no Lux.
A esquerda tem um ataque de humildade e percebe que os portugueses já exprimiram a sua discordância com o aborto. O assunto cai no esquecimento.
O Iraque pacifica-se e Bin Laden é capturado com umas barbas ainda maiores do que as de Sadham. Israel e a Palestina entendem-se de forma aparentemente milagrosa, dando início a um sólido processo de paz.
Infelizmente não sou optimista.
O caso Casa Pia será resolvido, de forma inquestionável, e os culpados serão severamente punidos. Não me interessa se são os que estão presos, se estes e outros, se somente outros. O povo respirará de alívo e acreditará por uma vez na justiça da justiça em Portugal.
O governo contornará a crise e todos poderemos alargar ostensivamente o cinto. A Ministra das Finanças estará ao longo do ano com invejáveis índices de popularidade, sendo aclamada efusivamente pela população em qualquer local que passe.
O Sporting será campeão nacional, depois de uma série de dezassete jogos sem perder. Fernando Santos cumprirá a promessa de fazer a pé uma digressão pelos dez estádios do Euro, finalizada com um retiro de uma semana em Fátima.
Scolari será agraciado com a Ordem do Infante, depois de levar a nossa selecção à vitória no Euro 2004. Invicta e praticando um futebol de sonho, Portugal deslumbra o mundo, tornando-se campeão incontestado do campeonato que organizou. Os árbitros passam discretos e Baía fica no Porto a ver os jogos pela televisão. Consta que Pinto da Costa comeu um chapéu, devido à promessa de que o faria se Scolari fosse campeão sem jogar com Baía.
Mário Soares contrai uma estranha fobia que o impede de dar entrevistas a televisões, rádios e jornais. A doença é aparentemente contagiosa e Freitas do Amaral e Manuel Monteiro são contaminados.
O Rock in Rio cria um palco intimista, para o qual programa Chico Buarque, João Gilberto, Caetano Veloso, Maria Rita e Marisa Monte. No registo mais mexido os U2 confirmam a sua presença.
George Bush resigna por motivos desconhecidos e é sucedido por um representante da ala anti militarista do Partido Republicano.
Ana Gomes é nomeada embaixatriz no Burundi, com ordens expressas de não estabelecer contactos com o país de origem.
O grupo Media Capital, baseado num aturado estudo de marketing de uma empresa estrangeira, transforma os conteúdos dos seus canais num sucedâneo do ARTE.
Manuel de Oliveira realiza um filme de acção que é nomeado para o Óscar do melhor filme estrangeiro e ganha. Leonor Silveira acompanha-o a Los Angeles e é descoberta por Hollywood. A cerimónia dos óscares decorre de forma inédita com o empate nos Óscares de melhor filme e de melhor realizador entre Clint Eastwood por "Mystic River" e Peter Jackson por "Senhor dos Anéis: O Regresso do Rei."
Santana Lopes tem uma visão e desiste da candidatura à Presidência da República. Concentra-se em Lisboa e começa, de facto, a fazer qualquer coisa pelos alfacinhas. Os ministérios são expulsos, com apoio das massas, do Terreiro do Paço ao som de gritos "Terreiro para os lisboetas, burocratas para a Alta de Lisboa."
O Bloco de Esquerda assume a sua postura de "esquerda caviar", ao comemorar o seu aniversário num jantar na Bica do Sapato, seguido de restrita festa no Lux.
A esquerda tem um ataque de humildade e percebe que os portugueses já exprimiram a sua discordância com o aborto. O assunto cai no esquecimento.
O Iraque pacifica-se e Bin Laden é capturado com umas barbas ainda maiores do que as de Sadham. Israel e a Palestina entendem-se de forma aparentemente milagrosa, dando início a um sólido processo de paz.
Infelizmente não sou optimista.
3.1.04
Intermitência festiva
A época é de calma, de vindas esporádicas à Net, de preguiça na escrita.
O recolher ao porto de abrigo provinciano, o viver calmo e frio. As tardes perdidas em passeios iluminados pelos raios brilhantes de sol de Inverno. Os lanches de fim de tarde, chá e torradas, já à braseira. As noites passadas em serões provincianos que ainda existem. O gélido sair de casa com o vento cortante, embrulhado em cachecóis, em direcção à casa de alguém. A entrada direito à lareira, tentando aquecer o corpo. As conversas longas, quantas vezes sem sentido, quantas vezes do tipo paisagem. As ceias ás três da manhã, ainda no meio da noite, com sugestões de seguir em jogos de cartas ou DVD's. O tempo diferente, quantas vezes esquecido na vida em Lisboa.
A tudo isto acresce a época festiva, o burburinho da família junta. As crianças amuando. Os doces comidos compulsivamente, levando o colesterol a saltos estratosféricos. O egoísta ignorar do mundo lá fora, criando uma muralha em redor da casa. Assim se passa, assim se passou e passará por mais um fim de semana. Segunda-feira tudo voltará ao normal, e este blog também terá uma maior regularidade. Até lá, ou talvez até antes, um bom fim de semana.
O recolher ao porto de abrigo provinciano, o viver calmo e frio. As tardes perdidas em passeios iluminados pelos raios brilhantes de sol de Inverno. Os lanches de fim de tarde, chá e torradas, já à braseira. As noites passadas em serões provincianos que ainda existem. O gélido sair de casa com o vento cortante, embrulhado em cachecóis, em direcção à casa de alguém. A entrada direito à lareira, tentando aquecer o corpo. As conversas longas, quantas vezes sem sentido, quantas vezes do tipo paisagem. As ceias ás três da manhã, ainda no meio da noite, com sugestões de seguir em jogos de cartas ou DVD's. O tempo diferente, quantas vezes esquecido na vida em Lisboa.
A tudo isto acresce a época festiva, o burburinho da família junta. As crianças amuando. Os doces comidos compulsivamente, levando o colesterol a saltos estratosféricos. O egoísta ignorar do mundo lá fora, criando uma muralha em redor da casa. Assim se passa, assim se passou e passará por mais um fim de semana. Segunda-feira tudo voltará ao normal, e este blog também terá uma maior regularidade. Até lá, ou talvez até antes, um bom fim de semana.
Casa Pia
A telenovela voltou. Até o tempo permitir a escrita de uma posta decente sobre o assunto, recomendo o que vai escrevendo na Grande Loja (link ao lado).
24.12.03
19.12.03
Será que o Pai Natal é de esquerda?
Em tempos em que a discussão entre esquerda e direita, e o que de facto as distingue, é cada vez mais actual, parece pertinente perguntar qual será a ideologia do Pai Natal.
Partamos do princípio de que ele existe, sim, que este senhor vive algures na Lapónia e nos visita, de forma estranhamente ubíqua, uma vez por ano.
A argumentação primeira, aquela em que todos pensarão, é que o senhor é caridoso, que distribui presentes por todos, que é solidário, que não é um capitalista interesseiro, já que nada cobra pelo seu serviço. Até aqui, segundo os chavões habituais, ele é sem dúvida de esquerda. Mas os presentes que ele entrega aos ricos são melhores que os dos pobres, será ele um porco capitalista entregue à distinção de classes?
Trabalha apenas um dia no ano inteiro, apesar de o imaginarmos o resto do ano actualizar ficheiros de moradas. Denoto aqui uma certa postura hedonista, de aproveitamento dos rendimentos para estar 364, ou 365, dias praticamente sem produzir. A sua cota para a sociedade é grande, mas não deveria ser maior e prolongada durante o ano? Chegado aqui começo a julgá-lo de uma certa direita individualista, achando que o seu papel para com a sociedade é cumprido apenas num dia do ano, podendo usufruir no resto das coisas boas da vida.
Consta que tem renas, e que elas o transportam, ao suave ritmo do chicote, para todo o lado. A exploração indevida dos animais não o coloca por certo do lado irracionalmente protector dos animais que caracteriza uma certa esquerda radical. Será que vamos ver alguma manifestação no dia de Natal contra a opressão das renas da Lapónia, com gritos de assassino qual manifestação anti-taurina?
Surge outra dúvida, porque será que nunca muda de uniforme, e porque escolheu o vermelho como cor? Acho que um fatinho castanho iria melhor com o seu ar bonacheirão de velhinho simpático. Detecto aqui uma assunção do vermelho como cor de intervenção, de certo ligada a tendências pró comunistas, quem sabe se devido a uma adolescência revolucionária por entre as neves do Norte da Europa. Devo aqui acrescentar a insistência nas longas barbas, por norma associadas aos grades revolucionários, lembro Marx, Fidel e o eterno Che. Serão da família? É que dela nada conhecemos e o seu passado permanece obscuro.
Acho que em conclusão o senhor deverá ser social democrata. Vem do Norte da Europa, onde os sociais democratas são de esquerda, mas deve ter uma costela portuguesa, onde a prática da social democracia se encontra num limbo entre o centro esquerda e o centro direita. No fundo acho que apesar da imagem exuberante, o Pai Natal é do centro, do cinzento centrão, daquela amálgama ideológica incompreensível e oscilante ao sabor das marés. Se fosse português estava agora a apelar ao entendimento entre Durão e Ferro, procurando que apenas existissem dois partido em alegre e monótona alternância.
Por tudo isto é que eu não acredito no Pai Natal. Para mim o Natal é o nascimento de Jesus, uma comemoração de fé alargada a uma festa de família. O Pai Natal sempre foi personagem exótica e de difícil encaixe na visão natalícia lá de casa. Quem dá os presentes sempre foi, e será, o Menino Jesus. A ele agradecemos e a ele pedimos, o Natal é, fora de dúvidas, seu. Viva o Menino Jesus.
Partamos do princípio de que ele existe, sim, que este senhor vive algures na Lapónia e nos visita, de forma estranhamente ubíqua, uma vez por ano.
A argumentação primeira, aquela em que todos pensarão, é que o senhor é caridoso, que distribui presentes por todos, que é solidário, que não é um capitalista interesseiro, já que nada cobra pelo seu serviço. Até aqui, segundo os chavões habituais, ele é sem dúvida de esquerda. Mas os presentes que ele entrega aos ricos são melhores que os dos pobres, será ele um porco capitalista entregue à distinção de classes?
Trabalha apenas um dia no ano inteiro, apesar de o imaginarmos o resto do ano actualizar ficheiros de moradas. Denoto aqui uma certa postura hedonista, de aproveitamento dos rendimentos para estar 364, ou 365, dias praticamente sem produzir. A sua cota para a sociedade é grande, mas não deveria ser maior e prolongada durante o ano? Chegado aqui começo a julgá-lo de uma certa direita individualista, achando que o seu papel para com a sociedade é cumprido apenas num dia do ano, podendo usufruir no resto das coisas boas da vida.
Consta que tem renas, e que elas o transportam, ao suave ritmo do chicote, para todo o lado. A exploração indevida dos animais não o coloca por certo do lado irracionalmente protector dos animais que caracteriza uma certa esquerda radical. Será que vamos ver alguma manifestação no dia de Natal contra a opressão das renas da Lapónia, com gritos de assassino qual manifestação anti-taurina?
Surge outra dúvida, porque será que nunca muda de uniforme, e porque escolheu o vermelho como cor? Acho que um fatinho castanho iria melhor com o seu ar bonacheirão de velhinho simpático. Detecto aqui uma assunção do vermelho como cor de intervenção, de certo ligada a tendências pró comunistas, quem sabe se devido a uma adolescência revolucionária por entre as neves do Norte da Europa. Devo aqui acrescentar a insistência nas longas barbas, por norma associadas aos grades revolucionários, lembro Marx, Fidel e o eterno Che. Serão da família? É que dela nada conhecemos e o seu passado permanece obscuro.
Acho que em conclusão o senhor deverá ser social democrata. Vem do Norte da Europa, onde os sociais democratas são de esquerda, mas deve ter uma costela portuguesa, onde a prática da social democracia se encontra num limbo entre o centro esquerda e o centro direita. No fundo acho que apesar da imagem exuberante, o Pai Natal é do centro, do cinzento centrão, daquela amálgama ideológica incompreensível e oscilante ao sabor das marés. Se fosse português estava agora a apelar ao entendimento entre Durão e Ferro, procurando que apenas existissem dois partido em alegre e monótona alternância.
Por tudo isto é que eu não acredito no Pai Natal. Para mim o Natal é o nascimento de Jesus, uma comemoração de fé alargada a uma festa de família. O Pai Natal sempre foi personagem exótica e de difícil encaixe na visão natalícia lá de casa. Quem dá os presentes sempre foi, e será, o Menino Jesus. A ele agradecemos e a ele pedimos, o Natal é, fora de dúvidas, seu. Viva o Menino Jesus.
18.12.03
Campo de Trigo com Corvos
Por insondáveis motivos lembrei-me hoje de um dos quadros da minha vida. Recuei alguns anos até uma alegre viagem por terras holandesas. Por entre os passeios em Amsterdão detive-me, com os amigos que me acompanhavam, no Museu Van Gogh. Este era já um dos meus pintores preferidos, e tinha grandes expectativas de ver o museu a ele dedicado.
O espanto perante as cores reais e irreprodutíveis foi enorme. Já tinha noção da diferença entre um quadro in vivo e uma reprodução, mas nunca como com Van Gogh essa diferença era tão gritante.
A visita foi longa e intensa, mas o chef d’ouevre estava reservado para o fim, este extraordinário "Campo de Trigo com Corvos". Um céu azul, intenso, com revoltas nuvens num aparente prenúncio de tempestade, esmaga e detêm o olhar. Por debaixo, entre barrentos caminhos sulcados por carroças, um longo campo de trigo. Ou antes um quase mar amarelo, ondulado ao ritmo de uma brisa intensa, num movimento suave mas firme, agitando a terra e testando as raízes. Neste cenário forte, carregado, um grande bando de corvos plana. Talvez fugindo de uma tempestade, talvez picando sobre a terra em busca de alimento, qual gaivotas mergulhando no mar. Aqui, um tema aparentemente bucólico transforma-se em muito mais, uma simples paisagem desperta um turbilhão de sentimentos. A grande pintura é assim, um indizível desencadear de sensações, tantas vezes sem motivos concretos.
As cores e o movimento conseguem um efeito hipnótico e lembro-me de ter de ser insistentemente chamado para largar o quadro e ir embora. Este era o último quadro da exposição, este é, segundo alguns, o último quadro de Van Gogh. Talvez seja uma coincidência, mas por entre os vários quadros deste pintor que adoro, este é, até agora, aquele que mais gostei.
O espanto perante as cores reais e irreprodutíveis foi enorme. Já tinha noção da diferença entre um quadro in vivo e uma reprodução, mas nunca como com Van Gogh essa diferença era tão gritante.
A visita foi longa e intensa, mas o chef d’ouevre estava reservado para o fim, este extraordinário "Campo de Trigo com Corvos". Um céu azul, intenso, com revoltas nuvens num aparente prenúncio de tempestade, esmaga e detêm o olhar. Por debaixo, entre barrentos caminhos sulcados por carroças, um longo campo de trigo. Ou antes um quase mar amarelo, ondulado ao ritmo de uma brisa intensa, num movimento suave mas firme, agitando a terra e testando as raízes. Neste cenário forte, carregado, um grande bando de corvos plana. Talvez fugindo de uma tempestade, talvez picando sobre a terra em busca de alimento, qual gaivotas mergulhando no mar. Aqui, um tema aparentemente bucólico transforma-se em muito mais, uma simples paisagem desperta um turbilhão de sentimentos. A grande pintura é assim, um indizível desencadear de sensações, tantas vezes sem motivos concretos.
As cores e o movimento conseguem um efeito hipnótico e lembro-me de ter de ser insistentemente chamado para largar o quadro e ir embora. Este era o último quadro da exposição, este é, segundo alguns, o último quadro de Van Gogh. Talvez seja uma coincidência, mas por entre os vários quadros deste pintor que adoro, este é, até agora, aquele que mais gostei.
Natal dos Hospitais
Ontem em "zaping" passei por imagens que me pareciam quase arqueológicas. Parei e percebi que era um programa sobre a história do Natal dos Hospitais, apresentado por Júlio Isidro, Ana Zanatti e Henrique Mendes. Fiquei a ver um bocado e deliciei-me em momentos de alegre nostalgia.
O cenário era uma tenda de circo em tons cinza prateado de onde caíam fitas brilhantes. Os colarinhos das camisas eram avantajados, senhoras usavam calças por dentro de altas botas e camisas de manga de balão. E os artistas... Herman ainda magro, ainda com muita graça, ainda com o cabelo preto, na pele de Tony Silva cantando um delicioso medley de músicas da época. Cândida Branca Flor num número musical acompanhada por um bailarino saído de um filme musical série Z dos anos 40. Rui Veloso cantando "Um café e um bagaço", com menos 30 quilos e mais um bigode. O romântico Tony de Matos no seu melhor. Carlos Alberto Moniz a cantar para as crianças, acompanhado pela irreconhecível filha Lúcia, então pré, pré adolescente. Um irreconhecível Fernando Mendes, este com menos 60 quilos, com Francisco Nicholson num número de revista.
Neste momento parece uma obsessão estar a citar o estado de gordura de cada artista, mas é a mais pura da verdade. Leva-me a pensar se podemos estabelecer um paralelo entre a engorda dos artistas e a progressão económica de Portugal. A ser assim, podemos prever que comecem rapidamente a emagrecer, pelo menos assim o diz a Ministra das Finanças. Convém guardar segredo, pois o Dr. Tallon pode ficar sem clientes e tornar-se violento.
Hoje por acaso liguei a televisão...lá estava o Natal dos Hospitais. Um pouco diferente nos cenários, nas barrigas proeminentes dos artistas consagrados, na própria cor da televisão. No resto igual, o dia em que todos os artistas, bons ou maus, desconhecidos ou consagrados, aparecem na televisão. Descobrimos cantores obscuros de voz abafada pelo playback e visual inaudito. Revemos gente que julgávamos desaparecida. Conhecemos novos artistas. No fundo é como ir a um casamento, sem a missa e as comidas. Um acontecimento anual indispensável que só se suporta como exercício quase masoquista de nostalgia. Aguentei uns dez minutos.
O cenário era uma tenda de circo em tons cinza prateado de onde caíam fitas brilhantes. Os colarinhos das camisas eram avantajados, senhoras usavam calças por dentro de altas botas e camisas de manga de balão. E os artistas... Herman ainda magro, ainda com muita graça, ainda com o cabelo preto, na pele de Tony Silva cantando um delicioso medley de músicas da época. Cândida Branca Flor num número musical acompanhada por um bailarino saído de um filme musical série Z dos anos 40. Rui Veloso cantando "Um café e um bagaço", com menos 30 quilos e mais um bigode. O romântico Tony de Matos no seu melhor. Carlos Alberto Moniz a cantar para as crianças, acompanhado pela irreconhecível filha Lúcia, então pré, pré adolescente. Um irreconhecível Fernando Mendes, este com menos 60 quilos, com Francisco Nicholson num número de revista.
Neste momento parece uma obsessão estar a citar o estado de gordura de cada artista, mas é a mais pura da verdade. Leva-me a pensar se podemos estabelecer um paralelo entre a engorda dos artistas e a progressão económica de Portugal. A ser assim, podemos prever que comecem rapidamente a emagrecer, pelo menos assim o diz a Ministra das Finanças. Convém guardar segredo, pois o Dr. Tallon pode ficar sem clientes e tornar-se violento.
Hoje por acaso liguei a televisão...lá estava o Natal dos Hospitais. Um pouco diferente nos cenários, nas barrigas proeminentes dos artistas consagrados, na própria cor da televisão. No resto igual, o dia em que todos os artistas, bons ou maus, desconhecidos ou consagrados, aparecem na televisão. Descobrimos cantores obscuros de voz abafada pelo playback e visual inaudito. Revemos gente que julgávamos desaparecida. Conhecemos novos artistas. No fundo é como ir a um casamento, sem a missa e as comidas. Um acontecimento anual indispensável que só se suporta como exercício quase masoquista de nostalgia. Aguentei uns dez minutos.
Presentes de Natal
Ontem achei por bem começar a pensar na parte prática do Natal. A família é grande e ainda nem sequer de leve tinha pensado nos presentes. Neste ponto poderia tender a ficar horrorizado com a proximidade do Natal e a manifesta falta de tempo. Assim não é.
Hoje o Natal é marcado por um consumismo desenfreado, barbaramente estimulado pelas televisões. As crianças escolhendo catálogos inteiros do Toys'r'us para pedir ao Pai Natal. A febre das compras, particularmente sentida nas grandes superfícies, onde as pessoas se acotovelam, quase se espezinham e se agridem para chegar aos jogos que os filhos pediram e que têm de se dados. Hoje as crianças não podem ser desiludidas, podem sofrer de desequilíbrios graves se não receberem a Barbie Patinadora ou o Action Man da Guerra do Iraque. São as novas pedagogias e educações que as crianças recebem, responsabilidade de pais e professores em cotas iguais.
Independentemente disto adoro as compras de Natal. Deliro ao passear alegremente pelas lojas, vendo, mexendo, pensando no "não sei quê" de ideal para cada pessoa. Que seja barato, original e de preferência inútil (adoro dar inutilidades, aquelas pequenas coisas que não compramos para nós, mas que gostamos de receber e de ter). Dar presentes por gosto, mais não será do que dizer a alguém que dele gostamos. Quando se aproxima o Natal gosto de sair para a rua, no frio de Inverno, e passear longamente, tentando descobrir aquilo que me apetece dar. Mas recuso as grandes superfícies. Prefiro o Chiado, as ruas iluminadas, o ar que se respira com o cheiro a castanhas ainda presente. As pessoas girando felizes, de sorriso na cara e sacos nas mãos. Lanchar por ali, na Benard ou no Chá do Carmo (ou ainda um belo gelado na Hagen Dahz), parando a ver o corrupio. Descer um pouco à baixa, deambular pela Rua Augusta. Subir ao Bairro Alto em busca de algo original, com passagem obrigatória na TonTon. Tudo isto a passar-se no dia 22, ou 23, ou mesmo 24. Sim , depois de tantas voltas ficam sempre as compras para o fim, para aquele último dia em que entro na FNAC e só de lá saio com todos os presentes cumpridos. Sejam livros de cozinha ou discos de música clássica, sejam vídeos da Walt Disney ou livros de contos tradicionais, sejam romances actuais ou biografias imprescindíveis. Aqui o caos é grande, neste dias, mas muito e muito distante de um Continente. As pessoas são razoavelmente civilizadas, não costumam trazer crianças, não gritam, não há carrinhos de compras obscenamente cheios a impedir o caminho, não há músicas do coro de Santo Amaro de Oeiras. Pode-se ir de Metro fugindo ao inenarrável trânsito desta época, pode-se ficar para jantar no Bairro Alto.
Ontem na FNAC perguntei se tinham o vídeo do segundo Harry Potter, responderam que não , só no Colombo ou então no fim da semana. Óbvio que voltarei no fim de semana, ir ao Colombo nesta época nem que me paguem, muito.
Hoje o Natal é marcado por um consumismo desenfreado, barbaramente estimulado pelas televisões. As crianças escolhendo catálogos inteiros do Toys'r'us para pedir ao Pai Natal. A febre das compras, particularmente sentida nas grandes superfícies, onde as pessoas se acotovelam, quase se espezinham e se agridem para chegar aos jogos que os filhos pediram e que têm de se dados. Hoje as crianças não podem ser desiludidas, podem sofrer de desequilíbrios graves se não receberem a Barbie Patinadora ou o Action Man da Guerra do Iraque. São as novas pedagogias e educações que as crianças recebem, responsabilidade de pais e professores em cotas iguais.
Independentemente disto adoro as compras de Natal. Deliro ao passear alegremente pelas lojas, vendo, mexendo, pensando no "não sei quê" de ideal para cada pessoa. Que seja barato, original e de preferência inútil (adoro dar inutilidades, aquelas pequenas coisas que não compramos para nós, mas que gostamos de receber e de ter). Dar presentes por gosto, mais não será do que dizer a alguém que dele gostamos. Quando se aproxima o Natal gosto de sair para a rua, no frio de Inverno, e passear longamente, tentando descobrir aquilo que me apetece dar. Mas recuso as grandes superfícies. Prefiro o Chiado, as ruas iluminadas, o ar que se respira com o cheiro a castanhas ainda presente. As pessoas girando felizes, de sorriso na cara e sacos nas mãos. Lanchar por ali, na Benard ou no Chá do Carmo (ou ainda um belo gelado na Hagen Dahz), parando a ver o corrupio. Descer um pouco à baixa, deambular pela Rua Augusta. Subir ao Bairro Alto em busca de algo original, com passagem obrigatória na TonTon. Tudo isto a passar-se no dia 22, ou 23, ou mesmo 24. Sim , depois de tantas voltas ficam sempre as compras para o fim, para aquele último dia em que entro na FNAC e só de lá saio com todos os presentes cumpridos. Sejam livros de cozinha ou discos de música clássica, sejam vídeos da Walt Disney ou livros de contos tradicionais, sejam romances actuais ou biografias imprescindíveis. Aqui o caos é grande, neste dias, mas muito e muito distante de um Continente. As pessoas são razoavelmente civilizadas, não costumam trazer crianças, não gritam, não há carrinhos de compras obscenamente cheios a impedir o caminho, não há músicas do coro de Santo Amaro de Oeiras. Pode-se ir de Metro fugindo ao inenarrável trânsito desta época, pode-se ficar para jantar no Bairro Alto.
Ontem na FNAC perguntei se tinham o vídeo do segundo Harry Potter, responderam que não , só no Colombo ou então no fim da semana. Óbvio que voltarei no fim de semana, ir ao Colombo nesta época nem que me paguem, muito.
17.12.03
Imagens 3
A teimosia é uma característica minha, assumo.
Volto à carga com as fotografias, agora em novo "hospedeiro". Será desta?
Na senda da posta anterior: Será que só eu vejo o que estou a ver?
Volto à carga com as fotografias, agora em novo "hospedeiro". Será desta?
Na senda da posta anterior: Será que só eu vejo o que estou a ver?
16.12.03
Imagens 2
Afinal ontem nem tudo correu bem. Tenho as imagens num sítio hospedeiro mas, apesar de eu ontem as visualizar bem, parece que afinal as imagens não aparecem. Já tirei as postas onde só apareciam cruzes encarnadas. Resumi-me à insignificância dos meus conhecimentos informáticos, pelo menos para já terei de proseguir sem fotografias.
Não resisto a citar um comentário hoje recebido a este propósito:
"Não vejo as imagens - por vezes acontece, nós vemos, mas os outros não."
Não resisto a citar um comentário hoje recebido a este propósito:
"Não vejo as imagens - por vezes acontece, nós vemos, mas os outros não."
15.12.03
Imagens
Após as primeiras semanas de blog, achei que gostava de inserir no mesmo algumas fotografias minhas. Fui ao Blogspot saber como o podia fazer, vi os upgrades, e tentei. Durante semanas fui tentando e, nada.
Finalmente descobri que podia ir buscar imagens que estivessem alojadas noutros sítios da Net, com a vantagem de não ter de fazer upgrades. Foi assim que arranjei um "hospedeiro" para as minhas imagens que agora posso inserir no blog. A partir de hoje, na segunda fase deste blog, também com imagens.
Finalmente descobri que podia ir buscar imagens que estivessem alojadas noutros sítios da Net, com a vantagem de não ter de fazer upgrades. Foi assim que arranjei um "hospedeiro" para as minhas imagens que agora posso inserir no blog. A partir de hoje, na segunda fase deste blog, também com imagens.
Porquê um Blog?
Há dois meses que comecei este blog. Hoje pergunto-me porque me terei metido nisto, porque se metem as pessoas neste mundo da blogosfera.
No meu caso começou por puro acaso. De quando em vez, escrevia uns mails mais pensados e elaborados, que enviava para alguns amigos. Parece que eles se iam divertindo e, depois de um deles - curiosamente a primeira posta deste blog -, houve quem me sugerisse que fizesse um blog. Na altura confesso que pouco ou nada sabia de blogs, apenas tinha ouvido vagamente falar de alguns e do que era de facto um blog. Resolvi navegar um pouco e fui descobrindo - graças aos links dos blogs que primeiro consultei - uma série de gente interessante, a escrever bem, e com opiniões livres e não espartilhadas pela fortemente "engagée" comunicação social portuguesa. Por uma ou duas semanas iniciava o dia com uma leitura dos meus blogs favoritos. Pensei então que podia fazer o meu blog, mas no fundo porquê um blog? Talvez porque gosto de escrever, apesar de uma enorme preguiça para começar qualquer texto, gosto muito de escrever. O blog foi para mim uma maneira de disciplinar um pouco a escrita, de combater a irritante preguiça, de dizer algo, nem que seja para o ar ou para mim. Manter um blog arruma ideias, exercita o cérebro, faz-nos pensar com regularidade e escrever de forma mais expedita.
Há certamente algo de narcisista em escrever para os outros, em acharmos que temos algo para dizer e que haja quem nos queira ler. No meu caso há também um certo pudor, que me leva a que até hoje só um amigo (também blogger) conheça o meu blog. Com outros descaí-me a dizer que tinha um blog, mas resisti até hoje a dar o endereço. O meu pudor foi forçado a esbater-se porque, este Sábado, fui compelido a finalmente dizer o nome do meu blog. Cedi, e ainda hoje seguirá um mail para alguns amigos desvendando a identidade do meu blog.
Termina assim a primeira fase do AnarcoConservador, aquela em que entrei na blogosfera escrevendo para mim e para quem foi encontrando este blog pelas mais diversas razões. Durante dois meses tentei perceber que tipo de blog queria: se algo de mais sério, baseado em questões políticas e da actualidade; se algo pessoal, com reflexões e pensamentos sobre a vida; se algo mais corrosivo, tentando destruir na escrita as convenções de que não gosto.
Hoje acho que encontrei o rumo para este blog, ele será definido exactamente pela falta de rumo. Vou escrever, como aliás fiz até hoje, sobre aquilo que literalmente me apetece, sem preocupações de coerência. Falarei de política e de viagens, de situações e de livros, de filmes e de lugares. No fundo porei por escrito os assuntos em que for pensando, com a anarquia que caracteriza os meus pensamentos.
A partir de hoje, e com muito gosto, também para alguns amigos. Sejam bem vindos e espero que se divirtam.
No meu caso começou por puro acaso. De quando em vez, escrevia uns mails mais pensados e elaborados, que enviava para alguns amigos. Parece que eles se iam divertindo e, depois de um deles - curiosamente a primeira posta deste blog -, houve quem me sugerisse que fizesse um blog. Na altura confesso que pouco ou nada sabia de blogs, apenas tinha ouvido vagamente falar de alguns e do que era de facto um blog. Resolvi navegar um pouco e fui descobrindo - graças aos links dos blogs que primeiro consultei - uma série de gente interessante, a escrever bem, e com opiniões livres e não espartilhadas pela fortemente "engagée" comunicação social portuguesa. Por uma ou duas semanas iniciava o dia com uma leitura dos meus blogs favoritos. Pensei então que podia fazer o meu blog, mas no fundo porquê um blog? Talvez porque gosto de escrever, apesar de uma enorme preguiça para começar qualquer texto, gosto muito de escrever. O blog foi para mim uma maneira de disciplinar um pouco a escrita, de combater a irritante preguiça, de dizer algo, nem que seja para o ar ou para mim. Manter um blog arruma ideias, exercita o cérebro, faz-nos pensar com regularidade e escrever de forma mais expedita.
Há certamente algo de narcisista em escrever para os outros, em acharmos que temos algo para dizer e que haja quem nos queira ler. No meu caso há também um certo pudor, que me leva a que até hoje só um amigo (também blogger) conheça o meu blog. Com outros descaí-me a dizer que tinha um blog, mas resisti até hoje a dar o endereço. O meu pudor foi forçado a esbater-se porque, este Sábado, fui compelido a finalmente dizer o nome do meu blog. Cedi, e ainda hoje seguirá um mail para alguns amigos desvendando a identidade do meu blog.
Termina assim a primeira fase do AnarcoConservador, aquela em que entrei na blogosfera escrevendo para mim e para quem foi encontrando este blog pelas mais diversas razões. Durante dois meses tentei perceber que tipo de blog queria: se algo de mais sério, baseado em questões políticas e da actualidade; se algo pessoal, com reflexões e pensamentos sobre a vida; se algo mais corrosivo, tentando destruir na escrita as convenções de que não gosto.
Hoje acho que encontrei o rumo para este blog, ele será definido exactamente pela falta de rumo. Vou escrever, como aliás fiz até hoje, sobre aquilo que literalmente me apetece, sem preocupações de coerência. Falarei de política e de viagens, de situações e de livros, de filmes e de lugares. No fundo porei por escrito os assuntos em que for pensando, com a anarquia que caracteriza os meus pensamentos.
A partir de hoje, e com muito gosto, também para alguns amigos. Sejam bem vindos e espero que se divirtam.
12.12.03
Hoje
Acordei cedo e não estava mal disposto, para mim uma quase absoluta contradição. Abri as janelas e um sol brilhante adivinhava-se por detrás de uma neblina matinal. Vencido o frio do quarto despertei para um dia de trabalho que esperava não ser um arrastar penoso de minutos. Hoje tinha assuntos vários a tratar Alentejo adentro, e isso animava-me o espírito.
A calma estrada começou a ser vencida e o sol foi-se impondo ao branco nevoeiro. O pasto verde brilhava num tom quase ofensivo, as folhas baças dos sobreiros cediam o protagonismo ás silhuetas irregulares. Não gosto especialmente de guiar, mas estas estradas, nestes dias, são tapetes onde deambulamos vencidos pela beleza esmagadora da natureza.
O fim do dia chegou, no momento do regresso, com o brilhante sol a desaparecer. As cores sucediam-se por detrás dos troncos despidos ou dos esguios montados. Apetece parar o dia, o tempo, fixar estes momentos e usá-los, abusá-los. Dias destes reconciliam-nos connosco, com a beleza, com o mundo, até com o Homem que ainda não conseguiu destruir tudo. Ainda há dias e sítios assim. Felizmente.
A calma estrada começou a ser vencida e o sol foi-se impondo ao branco nevoeiro. O pasto verde brilhava num tom quase ofensivo, as folhas baças dos sobreiros cediam o protagonismo ás silhuetas irregulares. Não gosto especialmente de guiar, mas estas estradas, nestes dias, são tapetes onde deambulamos vencidos pela beleza esmagadora da natureza.
O fim do dia chegou, no momento do regresso, com o brilhante sol a desaparecer. As cores sucediam-se por detrás dos troncos despidos ou dos esguios montados. Apetece parar o dia, o tempo, fixar estes momentos e usá-los, abusá-los. Dias destes reconciliam-nos connosco, com a beleza, com o mundo, até com o Homem que ainda não conseguiu destruir tudo. Ainda há dias e sítios assim. Felizmente.
9.12.03
Telemarketing
Sábado de manhã, telemóvel desligado. O sono seguia profundo e retemperador. No corredor o telefone toca, levando ao meu desesperado despertar. A noite anterior tinha seguido longa até quase de madrugada. Enrolo-me para o outro lado, não quero acordar, não me apetece levantar. Adormeço. Um pouco mais tarde volto à realidade com mais um toque, que se foi sucedendo uma e outra vez. Vou conseguindo adormecer, a espaços, numa persistência por descanso. Consigo um pouco de sono profundo, do qual acordo um pouco menos mal disposto. Após o banho o telefone volta a soar e atendo, tentando decifrar quem persistentemente me incomodava em dia de descanso. Do outro lado uma voz feminina sobrepondo-se a algum ruído de fundo fez-me pensar em telemarketing. Passo a uma voz mais antipática, após identificação da criatura, perguntando se já me tinha tentado ligar. A resposta afirmativa fez despoletar em mim uma fúria agressiva, afinal tinha sido esta a culpada pelo agravar de uma ressaca já de si infame e poderosa. Comecei, com voz ainda vagamente ameaçadora, a perguntar à senhora se achava normal incomodar as pessoas a um Sábado de manhã. A sua insolente resposta acabou com as minha reservas, passando a descompô-la - ainda que educadamente - com toda a minha revolta. No fim de uma firme reprimenda, a senhora, que de mim nada conhecia, rematou com uma pérola que me fez definitivamente despedir com um seco "Boa tarde" seguido do desligar do telefone. Disse com voz ainda mais insolente, malandra e enervantemente bem disposta "Ah! Peço desculpa, já percebi que o senhor aproveitou para passar a manhã no ninho com a sua esposa".
Será preciso mais para declarar guerra ao telemarketing.
Será preciso mais para declarar guerra ao telemarketing.
Cultura
Nota avulsas acerca do Prós e Contras sobre cultura de ontem à noite.
1. Frente a frente o actual e o anterior Ministro da Cultura digladiam argumentos. Não são só duas correntes políticas que estão em causa, são duas formas diferentes de estar na política e na vida. O histriónico Carrilho, sempre tomado pela voracidade dos flashs e das câmaras; o sereno Roseta, sempre discreto e apagado.
Carrilho optou sempre pela demagogia, falando de metas estabelecidas (sobre o que Roseta lembrou a Casa da Música que devia ter estado pronta em 2001), lembrado com soberba tudo o que fez (ou diz que fez). Roseta respondeu objectivamente, sem se enlear em promessas, falando no que vai fazendo, no seu assumido "low profile".
Definitivamente em tudo são diferentes. Prefiro a seriedade de Roseta, não alinhando em festividades efémeras, falando do concreto, assumindo uma postura política absolutamente "fora de moda". Carrilho soa, quase sempre, a uma divagação aborrecida. Roseta não tem obra feita, mas deixemos que trabalhe e falemos daqui a uns anos, quero crer que o balanço será positivo.
2. Irrita-me ver o "Comendador" Berardo a surgir como mecenas florentino à escala portuguesa. Não discuto os méritos da colecção arquitectada por Francisco Capelo, pelo que conheço ela é de facto excelente. Simplesmente não tenho memória curta e recordo a minha dolorosa visita à Quinta da Bacalhoa por si adquirida. Esta Quinta, marca fulcral do Renascimento em Portugal, foi barbaramente assassinada por este senhor. Não o Palácio, mas os maravilhosos jardins. Nestes rebentou todo o extraordinário sistema hidráulico com uma enorme terraplanagem, deitou abaixo o pomar (imprescindível ao desenho do jardim) e uma grande quantidade de árvores centenárias (nomeadamente as que protegiam o palácio da Estrada Nacional). Não esqueço também o restauro de muros com cimento ou betão e os azulejos hispano-árabes que foram partidos sem clemência. O IPPAR assistiu impassível a este crime. O "Comendador" e "patrono das artes" foi devidamente avisado por especialistas do mal que estaria a fazer e continuou com a obra (antes fosse a ignorância a sua desculpa). Parece que a motivação estava ligada com a plantação de mais vinha e com a logística do casamento do seu filho.
Repito, não discuto o mérito das suas colecções, mas definitivamente não gosto da criatura e revolta-me o altar cultural em que o guardam. Cultura não é só o actual, o contemporâneo, é também o respeito pelo que nos foi legado pelos nossos antepassados.
3. No início fico espantado com um dos intervenientes, o que estará lá a fazer Zita Seabra? Há algum tempo que não aparecia e, confesso, quase não me lembrava da sua existência. Passado um pouco do debate compreendo a sua presença, perante a lucidez das suas intervenções, com as quais só consigo concordar. De todos os intervenientes destaca-se claramente, em particular no que diz respeito à fulcral ligação das políticas de Cultura e Educação.
4. O debate perdeu pela excessiva politização, pelo confronto entre este e o anterior governo, entre o fiz e o vou fazer, entre as visões da direita e da esquerda. Valeu mesmo assim a pena.
1. Frente a frente o actual e o anterior Ministro da Cultura digladiam argumentos. Não são só duas correntes políticas que estão em causa, são duas formas diferentes de estar na política e na vida. O histriónico Carrilho, sempre tomado pela voracidade dos flashs e das câmaras; o sereno Roseta, sempre discreto e apagado.
Carrilho optou sempre pela demagogia, falando de metas estabelecidas (sobre o que Roseta lembrou a Casa da Música que devia ter estado pronta em 2001), lembrado com soberba tudo o que fez (ou diz que fez). Roseta respondeu objectivamente, sem se enlear em promessas, falando no que vai fazendo, no seu assumido "low profile".
Definitivamente em tudo são diferentes. Prefiro a seriedade de Roseta, não alinhando em festividades efémeras, falando do concreto, assumindo uma postura política absolutamente "fora de moda". Carrilho soa, quase sempre, a uma divagação aborrecida. Roseta não tem obra feita, mas deixemos que trabalhe e falemos daqui a uns anos, quero crer que o balanço será positivo.
2. Irrita-me ver o "Comendador" Berardo a surgir como mecenas florentino à escala portuguesa. Não discuto os méritos da colecção arquitectada por Francisco Capelo, pelo que conheço ela é de facto excelente. Simplesmente não tenho memória curta e recordo a minha dolorosa visita à Quinta da Bacalhoa por si adquirida. Esta Quinta, marca fulcral do Renascimento em Portugal, foi barbaramente assassinada por este senhor. Não o Palácio, mas os maravilhosos jardins. Nestes rebentou todo o extraordinário sistema hidráulico com uma enorme terraplanagem, deitou abaixo o pomar (imprescindível ao desenho do jardim) e uma grande quantidade de árvores centenárias (nomeadamente as que protegiam o palácio da Estrada Nacional). Não esqueço também o restauro de muros com cimento ou betão e os azulejos hispano-árabes que foram partidos sem clemência. O IPPAR assistiu impassível a este crime. O "Comendador" e "patrono das artes" foi devidamente avisado por especialistas do mal que estaria a fazer e continuou com a obra (antes fosse a ignorância a sua desculpa). Parece que a motivação estava ligada com a plantação de mais vinha e com a logística do casamento do seu filho.
Repito, não discuto o mérito das suas colecções, mas definitivamente não gosto da criatura e revolta-me o altar cultural em que o guardam. Cultura não é só o actual, o contemporâneo, é também o respeito pelo que nos foi legado pelos nossos antepassados.
3. No início fico espantado com um dos intervenientes, o que estará lá a fazer Zita Seabra? Há algum tempo que não aparecia e, confesso, quase não me lembrava da sua existência. Passado um pouco do debate compreendo a sua presença, perante a lucidez das suas intervenções, com as quais só consigo concordar. De todos os intervenientes destaca-se claramente, em particular no que diz respeito à fulcral ligação das políticas de Cultura e Educação.
4. O debate perdeu pela excessiva politização, pelo confronto entre este e o anterior governo, entre o fiz e o vou fazer, entre as visões da direita e da esquerda. Valeu mesmo assim a pena.
4.12.03
Camarate
Lembro-me como se fosse hoje, numa recordação de infância perene. Estávamos em redor da braseira, como habitualmente nas frias noites de província. A emissão foi interrompida, um jornalista com ar grave anunciava que se tinha despenhado em Camarate o avião que transportava o Primeiro-Ministro Sá Carneiro, o Ministro Adelino Amaro da Costa e Patrício Gouveia. Na sala um silêncio sepulcral, os meus pais e as minhas irmãs entreolharam-se. A incredulidade deu lugar a algumas lágrimas de revolta. Ninguém queria acreditar que estes homens, em especial Sá Carneiro, tivessem morrido. Sentimos a sua morte como a de um parente de quem gostamos.
A esperança de um Portugal democrático e pacificado estava a solidificar-se com a crença neste homem. Meses antes, lembrava-me da praça da minha cidade completamente cheia para um comício da AD, acompanhado por uma audiência quase histérica. Como mais novo, acompanhava os meus irmãos nestes momentos, enchiam-me de autocolantes e eu empunhava feliz bandeiras ao som de palavras de ordem. Até hoje sobreviveram as bandeiras, o single com o hino, até alguns autocolantes. Foram tempos de esperança, de política vivida com convicção, sem votar em males menores, com intervenção real das pessoas.
Era então uma criança, mas a importância desses tempos, dessas pessoas, demostra-se ao lembrar-me ainda hoje, como se de ontem se tratasse, do dia em que caiu em Camarate esse avião, e com ele a esperança de muitos portugueses.
A esperança de um Portugal democrático e pacificado estava a solidificar-se com a crença neste homem. Meses antes, lembrava-me da praça da minha cidade completamente cheia para um comício da AD, acompanhado por uma audiência quase histérica. Como mais novo, acompanhava os meus irmãos nestes momentos, enchiam-me de autocolantes e eu empunhava feliz bandeiras ao som de palavras de ordem. Até hoje sobreviveram as bandeiras, o single com o hino, até alguns autocolantes. Foram tempos de esperança, de política vivida com convicção, sem votar em males menores, com intervenção real das pessoas.
Era então uma criança, mas a importância desses tempos, dessas pessoas, demostra-se ao lembrar-me ainda hoje, como se de ontem se tratasse, do dia em que caiu em Camarate esse avião, e com ele a esperança de muitos portugueses.
Arrendamento nas cidades
A propósito de uma excelente posta do Impensável, acerca do crédito mal parado para a habitação, cito:
"A política do arrendamento originou outras consequências catastróficas: os centros antigos das cidades não foram renovados e encontram-se em estado de ruína e despovoados: perderam-se memórias e modos de viver e um precioso património - já que não há dinheiro para a restauração dos imóveis."
A situação actual é profundamente hipócrita. O Estado, com medo da contestação e perda de votos, adia há anos a actualização das rendas. Hoje em dia, século XXI, há casas com rendas de 25€ (sim mensais, não é diários) em pleno centro das cidades. Alguém me convence que isto dá para mais do que para comprar o livro de recibos? Quando as obras são necessárias quem as paga, o senhorio ou o inquilino? O inquilino refugia-se na sua própria miséria, tendo por vezes a distinta lata de exigir obras. O senhorio obviamente recusa, já que ao fazê-lo entra na fase em que paga para ter um inquilino.
Em quase todos os países da Europa os jovens arrendam casas. Antes de casar, quando resolvem viver sozinhos, ou depois, numa primeira casa quando ainda não sabem o que a vida vai ser. Não compram directamente como em Portugal, por certo com uma taxa de casas próprias elevadíssima. Mas é compreensível, a mensalidade de um arrendamento é sensivelmente igual à prestação de um empréstimo. Assim, quem não prefere comprar em vez de alugar (claro que isto remete para a muito portuguesa forma de encarar a propriedade, mas isso fica para outra posta).
No nosso país o instrumento chave para reabilitar os centros urbanos é uma lei do arrendamento realmente eficaz. Que de uma vez por todas termine com a obrigatoriedade dos proprietários serem "Santas Casas da Misericórdia" dos seus inquilinos, mantendo, por vezes com prejuízo, as casas com rendas ridiculamente baixas. Como consequência lógica os edifícios degradam-se e os centros urbanos estão moribundos.
Sem isto não há decretos ou vontades que recuperem as cidades. A partir daqui sim, pode-se pensar em técnicas para atrair novos habitantes e para dinamizar os centros. Como se pode chamar, realmente e em número considerável, gente para os centros, sem que haja habitação condigna, segurança, comércio, em suma, movimento e vida? Ninguém quer ir para sítios mortos, não tranquilos ou sossegados, mas definitivamente mortos. Para aqui caminham os nossos centros, em particular o da nossa capital, espelho do país.
"A política do arrendamento originou outras consequências catastróficas: os centros antigos das cidades não foram renovados e encontram-se em estado de ruína e despovoados: perderam-se memórias e modos de viver e um precioso património - já que não há dinheiro para a restauração dos imóveis."
A situação actual é profundamente hipócrita. O Estado, com medo da contestação e perda de votos, adia há anos a actualização das rendas. Hoje em dia, século XXI, há casas com rendas de 25€ (sim mensais, não é diários) em pleno centro das cidades. Alguém me convence que isto dá para mais do que para comprar o livro de recibos? Quando as obras são necessárias quem as paga, o senhorio ou o inquilino? O inquilino refugia-se na sua própria miséria, tendo por vezes a distinta lata de exigir obras. O senhorio obviamente recusa, já que ao fazê-lo entra na fase em que paga para ter um inquilino.
Em quase todos os países da Europa os jovens arrendam casas. Antes de casar, quando resolvem viver sozinhos, ou depois, numa primeira casa quando ainda não sabem o que a vida vai ser. Não compram directamente como em Portugal, por certo com uma taxa de casas próprias elevadíssima. Mas é compreensível, a mensalidade de um arrendamento é sensivelmente igual à prestação de um empréstimo. Assim, quem não prefere comprar em vez de alugar (claro que isto remete para a muito portuguesa forma de encarar a propriedade, mas isso fica para outra posta).
No nosso país o instrumento chave para reabilitar os centros urbanos é uma lei do arrendamento realmente eficaz. Que de uma vez por todas termine com a obrigatoriedade dos proprietários serem "Santas Casas da Misericórdia" dos seus inquilinos, mantendo, por vezes com prejuízo, as casas com rendas ridiculamente baixas. Como consequência lógica os edifícios degradam-se e os centros urbanos estão moribundos.
Sem isto não há decretos ou vontades que recuperem as cidades. A partir daqui sim, pode-se pensar em técnicas para atrair novos habitantes e para dinamizar os centros. Como se pode chamar, realmente e em número considerável, gente para os centros, sem que haja habitação condigna, segurança, comércio, em suma, movimento e vida? Ninguém quer ir para sítios mortos, não tranquilos ou sossegados, mas definitivamente mortos. Para aqui caminham os nossos centros, em particular o da nossa capital, espelho do país.
3.12.03
1º de Dezembro
A abaixo citada gripe impediu que conseguisse fazer uma posta neste dia, que atrasada aqui vai.
Aos mais incautos o primeiro dia do último mês parece ser feriado por motivos de doença (não, não estou a voltar à posta anterior). O mundo tinha que dedicar este dia à enorme catástrofe que é a SIDA. A minha - já citada noutras postas - aversão aos "dias de..." agrava-se mais uma vez. (reconheço no entanto que este dia se justifica perante a dimensão desta calamitosa doença) Este dia é feriado em Portugal, e é o por motivos bem importantes.
Portugal é Portugal, um País, Livre (mais ou menos) e Independente (de forma "europeiamente" relativa) e não mais uma região dos reinos de Espanha. Para muitos isto pode nada querer dizer, para mim é importante. Há quem queira uma união ibérica, começando por vibrar com o casamento do príncipe com a jornalista e acabando em loas ao Rei (deles). Há quem queira uma Europa diluída de nações, em que cada uma conte um pouco tão pouco que é nada. Há quem se diga patriota sem resquícios de nacionalismos de pacotilha, e tenha orgulho em Portugal e nos portugueses, particularmente nos que deram de si para que sejamos hoje um País Livre e Independente.
Um país tem por base a história, a sua história, e é sobre ela que se constitui. Não tenho dúvidas que muitas dos problemas dos EUA são a sua falta de história, é por ela que a sociedade americana têm as características que tem. A esquerda moderna têm uma propensão, quase uma base de raciocínio, para limpar a história, para a seleccionar com bases ideológicas, em suma para a manipular. Para a esquerda a história é algo a esquecer, e quem a lembrar é, certamente, um perigoso nacionalista e, como tal, fascista. Por isso é politicamente correcto hoje em dia esquecer a história, as suas datas e os feitos antigos. Merda, é o que eu digo sobre isto.
Sou patriota, tenho curiosidade por conhecer a minha história, vontade de a lembrar e orgulho por ela. Posso reconhecer "pecados", fases em que estivemos mal, mas é com indisfarçado orgulho que recordo esses conjurados que no Palácio Almada se reuniram para que Portugal fosse de novo independente. Aos espanhóis Espanha, e mantenhamos com orgulho Portugal para Nós.
Aos mais incautos o primeiro dia do último mês parece ser feriado por motivos de doença (não, não estou a voltar à posta anterior). O mundo tinha que dedicar este dia à enorme catástrofe que é a SIDA. A minha - já citada noutras postas - aversão aos "dias de..." agrava-se mais uma vez. (reconheço no entanto que este dia se justifica perante a dimensão desta calamitosa doença) Este dia é feriado em Portugal, e é o por motivos bem importantes.
Portugal é Portugal, um País, Livre (mais ou menos) e Independente (de forma "europeiamente" relativa) e não mais uma região dos reinos de Espanha. Para muitos isto pode nada querer dizer, para mim é importante. Há quem queira uma união ibérica, começando por vibrar com o casamento do príncipe com a jornalista e acabando em loas ao Rei (deles). Há quem queira uma Europa diluída de nações, em que cada uma conte um pouco tão pouco que é nada. Há quem se diga patriota sem resquícios de nacionalismos de pacotilha, e tenha orgulho em Portugal e nos portugueses, particularmente nos que deram de si para que sejamos hoje um País Livre e Independente.
Um país tem por base a história, a sua história, e é sobre ela que se constitui. Não tenho dúvidas que muitas dos problemas dos EUA são a sua falta de história, é por ela que a sociedade americana têm as características que tem. A esquerda moderna têm uma propensão, quase uma base de raciocínio, para limpar a história, para a seleccionar com bases ideológicas, em suma para a manipular. Para a esquerda a história é algo a esquecer, e quem a lembrar é, certamente, um perigoso nacionalista e, como tal, fascista. Por isso é politicamente correcto hoje em dia esquecer a história, as suas datas e os feitos antigos. Merda, é o que eu digo sobre isto.
Sou patriota, tenho curiosidade por conhecer a minha história, vontade de a lembrar e orgulho por ela. Posso reconhecer "pecados", fases em que estivemos mal, mas é com indisfarçado orgulho que recordo esses conjurados que no Palácio Almada se reuniram para que Portugal fosse de novo independente. Aos espanhóis Espanha, e mantenhamos com orgulho Portugal para Nós.
Gripe
A cabeça vazia, como se um aspirador nos tivesse extraído as entranhas. Os ouvidos quase surdos, o som filtrado por forma estranha. O nariz aberto como uma torneira. A tosse esporádica mas avassaladora, com os pulmões tentando saltar, sustidos sem saber como. A febre, nem alta nem baixa, antes pelo contrário. A gripe, ou, na linguagem mais na moda, a virose.
Assim estou desde há dois ou três dias, resumido ás vantagens e desvantagens de casa. A um computador que não me apetece ligar, talvez pelo trabalho que dá sair da sala de estar, talvez pela excessiva informação que dele sairía. Os livros amontoados na mesa de cabeceira, uns a meio outros virgens, que a vontade é ter vontade de os arremessar pela janela - não fosse o enorme esforço de me ter de arrastar até ela, mantendo energias para os conseguir atirar. As revistas, vistas e revistas, especialmente nos seus artigos menos interessantes e estimulantes, numa tentativa de baixar o exercício cerebral ao mínimo possível.
A televisão surge como a solução final, a melhor companhia, não fosse o "zaping" um exercício fundamental mas perfeitamente inútil. Termino quase sempre a ver tele-vendas ou equivalentes do tipo programas da TVI. O vídeo seria a solução milagrosa - sim, ainda não aderi ao DVD e a minha televisão é mais pequena que o monitor do computador - não tivesse o meu, por certo por solidariedade, avariado a função de "rewind". Restam-me assim as cassetes que previamente tenha rebobinado, o que no meu caso são poucas, desgraçadamente poucas. Safam-se algumas, revejo assim "A Desaparecida" e "Notorious" do grande Hitchcock.
Apesar de todas as tentativas a agonia mantêm-se, não é esta afinal a maior característica da gripe, fazer com que nos sintamos tão indefinivelmente mal.
Assim estou desde há dois ou três dias, resumido ás vantagens e desvantagens de casa. A um computador que não me apetece ligar, talvez pelo trabalho que dá sair da sala de estar, talvez pela excessiva informação que dele sairía. Os livros amontoados na mesa de cabeceira, uns a meio outros virgens, que a vontade é ter vontade de os arremessar pela janela - não fosse o enorme esforço de me ter de arrastar até ela, mantendo energias para os conseguir atirar. As revistas, vistas e revistas, especialmente nos seus artigos menos interessantes e estimulantes, numa tentativa de baixar o exercício cerebral ao mínimo possível.
A televisão surge como a solução final, a melhor companhia, não fosse o "zaping" um exercício fundamental mas perfeitamente inútil. Termino quase sempre a ver tele-vendas ou equivalentes do tipo programas da TVI. O vídeo seria a solução milagrosa - sim, ainda não aderi ao DVD e a minha televisão é mais pequena que o monitor do computador - não tivesse o meu, por certo por solidariedade, avariado a função de "rewind". Restam-me assim as cassetes que previamente tenha rebobinado, o que no meu caso são poucas, desgraçadamente poucas. Safam-se algumas, revejo assim "A Desaparecida" e "Notorious" do grande Hitchcock.
Apesar de todas as tentativas a agonia mantêm-se, não é esta afinal a maior característica da gripe, fazer com que nos sintamos tão indefinivelmente mal.
28.11.03
Miséria
Noite miserável a de ontem. Por muito habituados que estejamos a sofrer, ele há coisas que ultrapassam os limites. Perder é uma óbvia consequência do jogo, mas contra um clube de aparentes amadores bem organizados!
A verdade é que quem é do Sporting só o é por ser, pelo menos um pouco, masoquista. Foram 18 anos seguidos sem uma alegria que não fosse ganhar ao Benfica e Porto. Depois habituámo-nos mal, ganhámos dois campeonatos e, com o novo estádio, esperamos decididos novas vitórias. Ontem foi dia de recordações, daquelas derrotas aparentemente impossíveis, da equipa a jogar algo apenas assemelhado a futebol. A época já se arrastava em jogos decididos, a favor ou desfavor, nos minutos finais. Neste jogo nem podemos apelar a uma vitória moral.
Enfim, espero que não voltemos a perus comidos antes de época e a Natais de trágico futebol, afinal a nossa cor é da esperança, e durante 18 anos foi isso que manteve o clube com gente no estádio. Saibamos uma vez mais, com grande pena, perder.
A verdade é que quem é do Sporting só o é por ser, pelo menos um pouco, masoquista. Foram 18 anos seguidos sem uma alegria que não fosse ganhar ao Benfica e Porto. Depois habituámo-nos mal, ganhámos dois campeonatos e, com o novo estádio, esperamos decididos novas vitórias. Ontem foi dia de recordações, daquelas derrotas aparentemente impossíveis, da equipa a jogar algo apenas assemelhado a futebol. A época já se arrastava em jogos decididos, a favor ou desfavor, nos minutos finais. Neste jogo nem podemos apelar a uma vitória moral.
Enfim, espero que não voltemos a perus comidos antes de época e a Natais de trágico futebol, afinal a nossa cor é da esperança, e durante 18 anos foi isso que manteve o clube com gente no estádio. Saibamos uma vez mais, com grande pena, perder.
27.11.03
A causa deles
Num único blog acumular Eduardo Prado Coelho e Vital Moreira poderia ser prenúncio de sono, mas eis que surge um casal histriónico, formado por Ana Gomes e Vicente Jorge Silva, para fazer companhia. Cedo á repulsa e entro, apenas por deferência ao recomendável Luís Osório. A blogosfera não voltará a ser a mesma, agora que a ela chegaram os gritos de Gomes.
26.11.03
Mystic River
Fim de tarde sem nada para fazer. Rumo resolutamente ao cinema para ver o último Clint Eastwood. Espero muito, espero mesmo o melhor deste filme, tal como de qualquer outro realizado por um dos melhores realizadores de cinema da actualidade. Numa pausa em que tento encontrar os melhores filmes estreados nos últimos anos, aparecem seguramente alguns de Eastwood.
Saio esmagado, sem ponta ou reminiscência de desilusão. Saio, com a certeza de ter visto um dos melhores filmes do ano, dos últimos anos. Poderoso e belo.
No meio disto o filme, o esmagador relato da história de três amigos de infância e do seu reencontro anos depois em circunstâncias trágicas, como trágico foi o seu último encontro enquanto Amigos de infância. Nesse dia em que Dave morreu e apenas voltou como um vampiro, vagueando pela vida sem sentido. Tim Robbins é absurdamente arrepiante nesta composição. As suas palavras são lâminas que nos ferem ao longo de todo filme. Lâminas com que apetece ferir quem no Portugal de hoje ainda relativiza o escândalo Casa Pia, desvalorizando os depoimentos dos "vampiros" hoje transformados em delinquentes. De visionamento obrigatório a quem queira falar deste escândalo que, nem por coincidência, "comemora" um ano de primeiras páginas nos jornais. A cena em que Dave confessa parte do passado à mulher é de perfeita antologia, com o fundo negro e a sua cara parcialmente iluminada, disparando feridas e assumindo fragilidades.
Sean Penn é Jimmy, um dos três amigos cuja amizade não voltou a ser a mesma desde o dia em que o carro se afastou e apenas se vislumbrava a silhueta da cabeça de Dave olhando para trás amedrontado. Tornou-se um criminoso, e apenas deixou essa vida por amor à sua filha, que vem a morrer brutalmente no assassínio que serve de motor a este filme. Sean Penn é devastador na sua raiva contida, no seu retrato de um homem à beira de um abismo, sempre controlando, ou tentando controlar, a realidade.
Sean é o terceiro amigo, o polícia que se vê a braços com a investigação do crime, numa altura em que a mulher o deixou, levando consigo a filha. Vive como os outros no fio da navalha, numa apenas aparente normalidade, recordando amargamente o passado. Kevin Bacon consegue aqui um sólido desempenho, talvez o seu melhor.
O filme é muito mais do que os três amigos, são outras personagens igualmente fortes num absoluto festival de interpretação. Um argumento soberbo, uma fotografia de uma beleza sóbria e uma montagem magnífica, alternando com saber os longos planos com passagens narrativas perfeitas, uma realização sensível mas com a precisão de um relógio suiço. Um ensaio sobre a natureza humana, sobre indivíduos e o lado sombrio de cada um, sobre o peso do passado. Um desenho sombrio do mundo de hoje, desapaixonado e cruel, relatado com uma beleza dura e intensa.
Saio esmagado, sem ponta ou reminiscência de desilusão. Saio, com a certeza de ter visto um dos melhores filmes do ano, dos últimos anos. Poderoso e belo.
No meio disto o filme, o esmagador relato da história de três amigos de infância e do seu reencontro anos depois em circunstâncias trágicas, como trágico foi o seu último encontro enquanto Amigos de infância. Nesse dia em que Dave morreu e apenas voltou como um vampiro, vagueando pela vida sem sentido. Tim Robbins é absurdamente arrepiante nesta composição. As suas palavras são lâminas que nos ferem ao longo de todo filme. Lâminas com que apetece ferir quem no Portugal de hoje ainda relativiza o escândalo Casa Pia, desvalorizando os depoimentos dos "vampiros" hoje transformados em delinquentes. De visionamento obrigatório a quem queira falar deste escândalo que, nem por coincidência, "comemora" um ano de primeiras páginas nos jornais. A cena em que Dave confessa parte do passado à mulher é de perfeita antologia, com o fundo negro e a sua cara parcialmente iluminada, disparando feridas e assumindo fragilidades.
Sean Penn é Jimmy, um dos três amigos cuja amizade não voltou a ser a mesma desde o dia em que o carro se afastou e apenas se vislumbrava a silhueta da cabeça de Dave olhando para trás amedrontado. Tornou-se um criminoso, e apenas deixou essa vida por amor à sua filha, que vem a morrer brutalmente no assassínio que serve de motor a este filme. Sean Penn é devastador na sua raiva contida, no seu retrato de um homem à beira de um abismo, sempre controlando, ou tentando controlar, a realidade.
Sean é o terceiro amigo, o polícia que se vê a braços com a investigação do crime, numa altura em que a mulher o deixou, levando consigo a filha. Vive como os outros no fio da navalha, numa apenas aparente normalidade, recordando amargamente o passado. Kevin Bacon consegue aqui um sólido desempenho, talvez o seu melhor.
O filme é muito mais do que os três amigos, são outras personagens igualmente fortes num absoluto festival de interpretação. Um argumento soberbo, uma fotografia de uma beleza sóbria e uma montagem magnífica, alternando com saber os longos planos com passagens narrativas perfeitas, uma realização sensível mas com a precisão de um relógio suiço. Um ensaio sobre a natureza humana, sobre indivíduos e o lado sombrio de cada um, sobre o peso do passado. Um desenho sombrio do mundo de hoje, desapaixonado e cruel, relatado com uma beleza dura e intensa.
25.11.03
O amor acontece
Já sinto o espírito de Natal. As ruas começam a encher-se e o frio ameaça chegar. Aproveito a tarde de Sábado para um calmo cinema. A Praça de Londres está radiosa com uma pequena multidão de peões a circular. Passo no Magnólia para um café e um bolo. Entro então no cinema onde me espera uma comédia, realizada por Richard Curtis, o argumentista de "Quatro Casamentos e um Funeral" e de "Notting Hill". Sou um fã confesso destes dois filmes, encontram-se mesmo na minha lista Prozac de filmes anti-depressivos. Parece moda dizer mal de comédias românticas, não é intelectualmente correcto. Para variar ignoro a correcção. Gosto porque sim. Imparcialmente recordo os grandes clássicos sem fazer comparações.
O filme não desmerece os anteriormente escritos por Curtis, falta-lhe talvez um pequeno suspiro de inspiração. Várias histórias encadeadas com algo em comum, o Amor. Sim esse sentimento tão difícil de ser descrito, em palavras ou imagens, sem cair num tom meloso, piroso. Mas aqui o nível não desce a esses patamares. O tom mantêm-se entre o drama e a comédia, sempre em volta do amor. Saímos bem dispostos, com o espírito natalício em alta, com a esperança de encontrar a mulher da nossa vida, se calhar num supermercado onde nos cruzemos, chocando, entre os vinhos e os queijos.
Sei que é um filme de fácil escárnio, especialmente pelos "machos latinos" incapazes de confessar fraquezas, ou, como diria o Pipi, coisas de rotos. Eu aconselho vivamente a quem queira passar um bom bocado e transformar um qualquer mau dia num dia de franca boa disposição e redenção com a vida.
O filme não desmerece os anteriormente escritos por Curtis, falta-lhe talvez um pequeno suspiro de inspiração. Várias histórias encadeadas com algo em comum, o Amor. Sim esse sentimento tão difícil de ser descrito, em palavras ou imagens, sem cair num tom meloso, piroso. Mas aqui o nível não desce a esses patamares. O tom mantêm-se entre o drama e a comédia, sempre em volta do amor. Saímos bem dispostos, com o espírito natalício em alta, com a esperança de encontrar a mulher da nossa vida, se calhar num supermercado onde nos cruzemos, chocando, entre os vinhos e os queijos.
Sei que é um filme de fácil escárnio, especialmente pelos "machos latinos" incapazes de confessar fraquezas, ou, como diria o Pipi, coisas de rotos. Eu aconselho vivamente a quem queira passar um bom bocado e transformar um qualquer mau dia num dia de franca boa disposição e redenção com a vida.
Feriado
Há muito, muito tempo, era eu uma criança, e uns senhores queriam sair de uma ditadura cinzenta para outra de tons encarnados. Eu por certo faria birras, inconsciente do perigo que corríamos em nos tornarmos uma coutada soviética. Mas eis que graças a alguns senhores o processo foi travado e Portugal tornou-se uma democracia. Pelo menos em teoria a liberdade passou a ser possível, sim, a liberdade, a real, a não condicionada ás ideologias, a que me permite dizer aquilo que me apetece.
Hoje devvia ser feriado, assim como no outro 25. Tão importante foi sair de uma ditadura como foi não entrar noutra. Assumamos finalmente os fantasmas da revolução e comemoremos o facto de Portugal ser livre. De não ser possível a um realizador português fazer um "Adeus Lenine" por manifesta falta da história que alguns quiseram para nós.
Deveria ser feriado, hoje sim deveria ser feriado.
Hoje devvia ser feriado, assim como no outro 25. Tão importante foi sair de uma ditadura como foi não entrar noutra. Assumamos finalmente os fantasmas da revolução e comemoremos o facto de Portugal ser livre. De não ser possível a um realizador português fazer um "Adeus Lenine" por manifesta falta da história que alguns quiseram para nós.
Deveria ser feriado, hoje sim deveria ser feriado.
19.11.03
Avante camarada Odete!
Afinal Santana estava a enganar-nos. A salvação do Parque Mayer não vem com o mercenário Ghery, mas sim com a Camarada Odete. Perplexo? Nada mais simples, a Camarada estreou-se na revista, e logo no Parque Mayer.
Corramos todos a ver
A camarada a cantar
Rir do que vai dizer
Sair de lá a dançar.
O partido é minha via
Aos camaradas o diz
Deputada pelo dia
Pela noite actriz.
Sim, sei que são muito maus os versos, mas era essa a ideia, a la revista. Realmente entrei em delírio com esta visionária acção de Santana. Agora percebo porque não pestanejava com os valores do arquitecto. O projecto vai ao ar, e em seu lugar (bolas peguei na rima) vamos ter a Companhia de Teatro do PC a animar o Parque com as noites proletárias, por entre as quase ruínas dos teatros. Anima-se a zona e cria-se um ícone cultural para Lisboa, o Comunismo ao vivo, já tínhamos o Oceanário, agora temos uma reminiscência do Parque Jurássico. Ao Parque e em força.
Corramos todos a ver
A camarada a cantar
Rir do que vai dizer
Sair de lá a dançar.
O partido é minha via
Aos camaradas o diz
Deputada pelo dia
Pela noite actriz.
Sim, sei que são muito maus os versos, mas era essa a ideia, a la revista. Realmente entrei em delírio com esta visionária acção de Santana. Agora percebo porque não pestanejava com os valores do arquitecto. O projecto vai ao ar, e em seu lugar (bolas peguei na rima) vamos ter a Companhia de Teatro do PC a animar o Parque com as noites proletárias, por entre as quase ruínas dos teatros. Anima-se a zona e cria-se um ícone cultural para Lisboa, o Comunismo ao vivo, já tínhamos o Oceanário, agora temos uma reminiscência do Parque Jurássico. Ao Parque e em força.
18.11.03
Dia de...
Parece que hoje é Dia Mundial do Não Fumador. Irritam-me particularmente os dia mundiais ou nacionais. Chegámos a um ponto que tudo justifica um dia de... Sejam os doentes de colesterol ou as lésbicas loiras vítimas de assédio sexual. Vale tudo. Basta um pouco de "lobbying" e lá vem mais um dia.
Hoje falamos de não fumadores nos quais não me incluo. Sim, fumo, sou assumidamente fumador. Cobarde porém, já que apenas me fico por cinco ou seis cigarros em dias normais e num maço devorado ostensivamente em dias de saída nocturna. Não me incluo no grupo dos profissionais, daqueles que nunca se ficam por menos de uns dois maços por dia. Daqueles que fumam marcas sérias, tipo SG Filtro ou Ventil, ou ainda os potentes Ritz. Desses empedernidos que se levantam e, ainda na cama, começam a sua série diária de cigarros bem puxados e melhor travados.
A esta altura muita gente já me julgará louco, defensor demente do vício ou corruptor da sociedade. Nada mais errado, apenas me manifesto a favor da liberdade das pessoas, mesmo que a mesma vá contra o que o politicamente correcto julgou adequado. Óbvio que o tabaco faz mal, mas não saberemos nós já o suficiente sobre isto. Eu fumo e sei que me faz mal, como me faz mal beber doze Wiskeys numa noite, ou comer uma sopinha de Cação seguida de uns secretos de porco preto rematados com leite creme queimado. Tudo faz mal em excesso, até a saúde.
Que se informe sobre os males advindos do tabaco, tudo bem. Que se transformem os fumadores em marginais e seres anti-sociais, isso é que não. O nosso país, por enquanto, é tolerante com o fumo, mas surgem já fascistas consciências a quererem-nos apontar o dedo. Citando João Pereira Coutinho em post de hoje: "As campanhas contra o tabaco, na sua versão moderna e aparentemente «consensual», são apenas um pretexto - recorrente e tragicamente humano - para humilhar alguém sob a capa da legitimidade higiénica."
O velho chavão diz que a nossa liberdade acaba onde começa a dos outros. Se o fumo que a minha liberdade me permite fumar incomoda alguém, que haja uma alternativa que me permita fumar sem o incomodar. E que a mesma não seja ir para a rua no pino do inverno ou nem aí poder fumar (EUA), ou ficar fechado num minúsculo cubo de vidro com tal fumo que entramos a pensar encontrar D. Sebastião (Aeroporto de Heathrow). Pelos direitos dos fumadores, sim também temos direitos, criem nos locais onde não se pode fumar zonas dignas para fumadores. Dignas, simplesmente dignas.
Hoje falamos de não fumadores nos quais não me incluo. Sim, fumo, sou assumidamente fumador. Cobarde porém, já que apenas me fico por cinco ou seis cigarros em dias normais e num maço devorado ostensivamente em dias de saída nocturna. Não me incluo no grupo dos profissionais, daqueles que nunca se ficam por menos de uns dois maços por dia. Daqueles que fumam marcas sérias, tipo SG Filtro ou Ventil, ou ainda os potentes Ritz. Desses empedernidos que se levantam e, ainda na cama, começam a sua série diária de cigarros bem puxados e melhor travados.
A esta altura muita gente já me julgará louco, defensor demente do vício ou corruptor da sociedade. Nada mais errado, apenas me manifesto a favor da liberdade das pessoas, mesmo que a mesma vá contra o que o politicamente correcto julgou adequado. Óbvio que o tabaco faz mal, mas não saberemos nós já o suficiente sobre isto. Eu fumo e sei que me faz mal, como me faz mal beber doze Wiskeys numa noite, ou comer uma sopinha de Cação seguida de uns secretos de porco preto rematados com leite creme queimado. Tudo faz mal em excesso, até a saúde.
Que se informe sobre os males advindos do tabaco, tudo bem. Que se transformem os fumadores em marginais e seres anti-sociais, isso é que não. O nosso país, por enquanto, é tolerante com o fumo, mas surgem já fascistas consciências a quererem-nos apontar o dedo. Citando João Pereira Coutinho em post de hoje: "As campanhas contra o tabaco, na sua versão moderna e aparentemente «consensual», são apenas um pretexto - recorrente e tragicamente humano - para humilhar alguém sob a capa da legitimidade higiénica."
O velho chavão diz que a nossa liberdade acaba onde começa a dos outros. Se o fumo que a minha liberdade me permite fumar incomoda alguém, que haja uma alternativa que me permita fumar sem o incomodar. E que a mesma não seja ir para a rua no pino do inverno ou nem aí poder fumar (EUA), ou ficar fechado num minúsculo cubo de vidro com tal fumo que entramos a pensar encontrar D. Sebastião (Aeroporto de Heathrow). Pelos direitos dos fumadores, sim também temos direitos, criem nos locais onde não se pode fumar zonas dignas para fumadores. Dignas, simplesmente dignas.
13.11.03
Ao espelho
Porque insistes, espelho permanente?
Porque duplicas, misterioso irmão,
O menor movimento desta mão?
Porquê o teu reflexo de repente?
És o outro eu de que falou o grego
E espreitas desde sempre. Na lisura
Da água incerta ou do cristal que dura
Procuras-me e é inútil eu estar cego.
O não te ver, mas o saber que existes
Acrescenta-me horror, poder com que ousas
Multiplicar o número das coisas
Que somos e as nossas sinas tristes.
Quando eu morrer, vais copiar um outro
E depois outro, outro, outro, outro...
Jorge Luís Borges
Porque duplicas, misterioso irmão,
O menor movimento desta mão?
Porquê o teu reflexo de repente?
És o outro eu de que falou o grego
E espreitas desde sempre. Na lisura
Da água incerta ou do cristal que dura
Procuras-me e é inútil eu estar cego.
O não te ver, mas o saber que existes
Acrescenta-me horror, poder com que ousas
Multiplicar o número das coisas
Que somos e as nossas sinas tristes.
Quando eu morrer, vais copiar um outro
E depois outro, outro, outro, outro...
Jorge Luís Borges
Ódios de estimação: Mariza
Há algo de irracional nos nosso ódios de estimação. Não é fácil de explicar o porquê de alguém nos irritar ao limite da urticária. A cara, a voz, os tiques, qualquer coisa serve para que algo, ou alguém, por nós seja odiado visceralmente.
Hoje apetece-me falar de Mariza - a nova "diva" do fado - a propósito de notícias do seu recente concerto no CCB. Não é só a voz que está aqui em causa e muito menos a pessoa, que não conheço (esta frase é demasiado politicamente correcta, mas vou deixar estar). Pode parecer estranho num cantor, mas não é só pela qualidade vocal da senhora que ela me faz urticária.
Ouço o seu primeiro disco e, para além de uma boa técnica vocal, o que chama a atenção é uma desmedida intenção de colar a sua voz e modo de cantar ao de Amália. Os fados escolhidos todos os cantou a Amália. Os maneirismos são os mesmos e a sua personalidade musical quase nula. O segundo disco é francamente melhor, ao ser de interpretação mais livre. No entanto, não me entusiasma muito.
Para além da voz - que ainda me permite ouvi-la em disco - claramente era incapaz de assistir a um concerto seu. A visão daquele "look" de girafa cibernética é mais do que o tolerável para conseguir ouvir alguém cantar. É evidente que o seu visual mais não é que uma boa campanha de marketing, original (muitíssimo original mesmo) e capaz de chamar a atenção de qualquer pessoa aqui ou no estrangeiro. O penteado louro em estradinhas arranjadas qual doce de ovos mas de aspecto incomestível. O pescoço, já de si fino, ainda mais acentuado e ridículo devido aos adereços. Os fatos espantosos, fazendo hesitar entre um gigantesco papel de rebuçado amarrotado e um repolho alongado. Gostava de conhecer a inspiração do suposto costureiro para fazer algo tão positivamente feio. Se eu tivesse a ideia de criar um visual com o intuito de ser o pior possível, ele não andaria longe disto.
Voltando à voz concordo com José Miguel Tavares em artigo no DN de ontem: "Mas se Mariza já é uma grande artista, ela continua a não ser uma grande fadista". Fado não é só afinação e potência na voz, é alma, a alma de um povo. Pode Mariza ser das grandes cantoras que temos. Não gosto, mas admito. Agora o grande fado não passa por aqui. Felizmente que vai passando por outros vozes, menos exuberantes na forma mas francamente mais importantes no conteúdo.
Hoje apetece-me falar de Mariza - a nova "diva" do fado - a propósito de notícias do seu recente concerto no CCB. Não é só a voz que está aqui em causa e muito menos a pessoa, que não conheço (esta frase é demasiado politicamente correcta, mas vou deixar estar). Pode parecer estranho num cantor, mas não é só pela qualidade vocal da senhora que ela me faz urticária.
Ouço o seu primeiro disco e, para além de uma boa técnica vocal, o que chama a atenção é uma desmedida intenção de colar a sua voz e modo de cantar ao de Amália. Os fados escolhidos todos os cantou a Amália. Os maneirismos são os mesmos e a sua personalidade musical quase nula. O segundo disco é francamente melhor, ao ser de interpretação mais livre. No entanto, não me entusiasma muito.
Para além da voz - que ainda me permite ouvi-la em disco - claramente era incapaz de assistir a um concerto seu. A visão daquele "look" de girafa cibernética é mais do que o tolerável para conseguir ouvir alguém cantar. É evidente que o seu visual mais não é que uma boa campanha de marketing, original (muitíssimo original mesmo) e capaz de chamar a atenção de qualquer pessoa aqui ou no estrangeiro. O penteado louro em estradinhas arranjadas qual doce de ovos mas de aspecto incomestível. O pescoço, já de si fino, ainda mais acentuado e ridículo devido aos adereços. Os fatos espantosos, fazendo hesitar entre um gigantesco papel de rebuçado amarrotado e um repolho alongado. Gostava de conhecer a inspiração do suposto costureiro para fazer algo tão positivamente feio. Se eu tivesse a ideia de criar um visual com o intuito de ser o pior possível, ele não andaria longe disto.
Voltando à voz concordo com José Miguel Tavares em artigo no DN de ontem: "Mas se Mariza já é uma grande artista, ela continua a não ser uma grande fadista". Fado não é só afinação e potência na voz, é alma, a alma de um povo. Pode Mariza ser das grandes cantoras que temos. Não gosto, mas admito. Agora o grande fado não passa por aqui. Felizmente que vai passando por outros vozes, menos exuberantes na forma mas francamente mais importantes no conteúdo.
Caminho final
Euforia no vazio, viagem.
Sono alegre pelo espaço, fugiste no labirinto da vida.
Formiga rebelde escolheste a deriva, o rumo perdido.
O tempo levou-te, não o viste passar.
Tomaste o expresso directo para nunca mais.
Branco como o céu foi teu destino.
Caminho de um sentido só.
Seguiste sem medo, na esperança de chegar ao fim, ao ponto azul do teu céu.
Negro o viste sem o sentir.
Chegaste mais depressa do que pensaste, ao centro do alvo eterno.
Sono alegre pelo espaço, fugiste no labirinto da vida.
Formiga rebelde escolheste a deriva, o rumo perdido.
O tempo levou-te, não o viste passar.
Tomaste o expresso directo para nunca mais.
Branco como o céu foi teu destino.
Caminho de um sentido só.
Seguiste sem medo, na esperança de chegar ao fim, ao ponto azul do teu céu.
Negro o viste sem o sentir.
Chegaste mais depressa do que pensaste, ao centro do alvo eterno.
Santana e Lisboa
Os receios vão-se confirmando. Apesar da esperança de novas ideias e dinâmica para Lisboa, Santana tem vindo a optar pelo "show off".
1. Sobre a polémica de Gehry muito tem sido dito. A opção é legítima e estritamente política, Gehry é hoje mais do que um arquitecto e a sua influencia nas cidades onde projectou trespassa as questões estéticas. Não gosto do seu estilo enquanto arquitectura, duvido mesmo que o seja. Encontro-o mais como uma escultura de provocação pós moderna. O exemplo de Bilbau é particularmente feliz, mas o enquadramento urbano é totalmente diferente. Tenho as minha dúvidas quanto ao projecto do Parque Mayer. Não sendo um opositor à partida, espero para ver o projecto concreto.
Acho que esta opção (de construção) é pouco arrojada, seria muito mais estimulante e definitivamente arriscado (politicamente) prever naquela zona uma área pública que passasse por um jardim/praça pública. A ligação ao jardim botânico permitiria uma obra de ruptura com o habitual de hoje em dia, criando, finalmente, uma área verde nova no centro de Lisboa. Oportunidades destas não se vão repetir, na cada vez mais apertada malha urbana de Lisboa.
A muito discutida questão dos honorários nada tem a ver com arquitectura. O montante é estratosférico e injustificável no que à arquitectura diz respeito. Do que aqui se fala é de um enorme investimento em marketing para a cidade de Lisboa e para o seu turismo. Neste prisma a justificação só pode ser encontrada no terreno da economia.
2. A escandalosa poluição dos outdoors que pululam pela cidade ofende a alma. Em tempos em que devíamos tentar acabar com estas formas de poluição, é a própria Câmara que avança em força nesta forma de publicidade. O que me choca já nem é o dinheiro gasto (se não fosse aqui seria noutras formas de publicidade) mas sim o desastroso impacto na cidade.
3. Quanto ás flores na Avenida da Liberdade, o que se pode questionar é a desmedida verba empregue. Esteticamente não gosto da solução, mas subscrevo a ideia base. Hoje esta Avenida é mais apelativa, especialmente para os turistas que nela encontram a veia central da cidade.
4. A face mais negra vem, no entanto, da ideia peregrina de fazer o túnel do Marquês. O grave problema é não se perceber qual é a ideia para a cidade. Não é normal que ao mesmo tempo se tire o trânsito de algumas zonas da cidade, para depois fazer obras que facilitem, e estimulem, a entrada de mais carros na cidade.
Ao mesmo tempo é anunciada a construção de silos em zonas históricas. Nada tenho contra o estacionamento em altura. Parece-me que conceptualmente os projectos até são interessantes, aproveitando o arrojo da Experimenta Design. Mantenho algumas dúvidas sobre o enquadramento nas zonas em questão, mas mais uma vez é esperar para ver.
5. Como conclusão, o que Lisboa precisa não é de uma série de ideias avulsas, umas boas outras nem por isso, mas sim de uma política coerente que consiga promover a qualidade de vida das pessoas. Não temos uma capital caótica como o México, mas podemos melhorar, e muito, a vida dos lisboetas. O centro arrasta-se numa morte lenta da qual parece difícil de sanar. Não chegam as boas intenções, é precisa muita coerência e isso, a meu ver, é o que tem faltado a Santana Lopes.
1. Sobre a polémica de Gehry muito tem sido dito. A opção é legítima e estritamente política, Gehry é hoje mais do que um arquitecto e a sua influencia nas cidades onde projectou trespassa as questões estéticas. Não gosto do seu estilo enquanto arquitectura, duvido mesmo que o seja. Encontro-o mais como uma escultura de provocação pós moderna. O exemplo de Bilbau é particularmente feliz, mas o enquadramento urbano é totalmente diferente. Tenho as minha dúvidas quanto ao projecto do Parque Mayer. Não sendo um opositor à partida, espero para ver o projecto concreto.
Acho que esta opção (de construção) é pouco arrojada, seria muito mais estimulante e definitivamente arriscado (politicamente) prever naquela zona uma área pública que passasse por um jardim/praça pública. A ligação ao jardim botânico permitiria uma obra de ruptura com o habitual de hoje em dia, criando, finalmente, uma área verde nova no centro de Lisboa. Oportunidades destas não se vão repetir, na cada vez mais apertada malha urbana de Lisboa.
A muito discutida questão dos honorários nada tem a ver com arquitectura. O montante é estratosférico e injustificável no que à arquitectura diz respeito. Do que aqui se fala é de um enorme investimento em marketing para a cidade de Lisboa e para o seu turismo. Neste prisma a justificação só pode ser encontrada no terreno da economia.
2. A escandalosa poluição dos outdoors que pululam pela cidade ofende a alma. Em tempos em que devíamos tentar acabar com estas formas de poluição, é a própria Câmara que avança em força nesta forma de publicidade. O que me choca já nem é o dinheiro gasto (se não fosse aqui seria noutras formas de publicidade) mas sim o desastroso impacto na cidade.
3. Quanto ás flores na Avenida da Liberdade, o que se pode questionar é a desmedida verba empregue. Esteticamente não gosto da solução, mas subscrevo a ideia base. Hoje esta Avenida é mais apelativa, especialmente para os turistas que nela encontram a veia central da cidade.
4. A face mais negra vem, no entanto, da ideia peregrina de fazer o túnel do Marquês. O grave problema é não se perceber qual é a ideia para a cidade. Não é normal que ao mesmo tempo se tire o trânsito de algumas zonas da cidade, para depois fazer obras que facilitem, e estimulem, a entrada de mais carros na cidade.
Ao mesmo tempo é anunciada a construção de silos em zonas históricas. Nada tenho contra o estacionamento em altura. Parece-me que conceptualmente os projectos até são interessantes, aproveitando o arrojo da Experimenta Design. Mantenho algumas dúvidas sobre o enquadramento nas zonas em questão, mas mais uma vez é esperar para ver.
5. Como conclusão, o que Lisboa precisa não é de uma série de ideias avulsas, umas boas outras nem por isso, mas sim de uma política coerente que consiga promover a qualidade de vida das pessoas. Não temos uma capital caótica como o México, mas podemos melhorar, e muito, a vida dos lisboetas. O centro arrasta-se numa morte lenta da qual parece difícil de sanar. Não chegam as boas intenções, é precisa muita coerência e isso, a meu ver, é o que tem faltado a Santana Lopes.
12.11.03
Ferro e Baker
Na RTP o Dr. Ferro volta a falar da Casa Pia. Desligo, já não há paciência.
Ponho a minha última aquisição - "Baby Breeze" de Chet Baker - na aparelhagem. Simplesmente genial este disco em que Baker alterna a voz com o sopro, sem nunca perder a irrepreensível qualidade. "Born to be blue" é na sua voz uma delícia etérea. Ouvir Chet Baker faz-nos sentir definitivamente "cool". As noites tornam-se mais simples, calmas e felizes. Quem consegue pensar em Ferro Rodrigues com este som.
Ponho a minha última aquisição - "Baby Breeze" de Chet Baker - na aparelhagem. Simplesmente genial este disco em que Baker alterna a voz com o sopro, sem nunca perder a irrepreensível qualidade. "Born to be blue" é na sua voz uma delícia etérea. Ouvir Chet Baker faz-nos sentir definitivamente "cool". As noites tornam-se mais simples, calmas e felizes. Quem consegue pensar em Ferro Rodrigues com este som.
6.11.03
Estupefação
Notícia TVI: fenómenos anormais nas rodagens de "O teu olhar". Monitores ficam encarnados e Patrícia Tavares fica possuída começando a falar com voz de Homem. A produção chamou um padre para averiguação. Tudo se passa na Igreja do Castelo de Montemor.
Inês de Castro voltou, no local onde foi condenada, para assombrar a existência de uma novela. Estará tudo louco. Até a Manuela Moura Guedes esboçou um sorriso. A TVI está capaz de tudo perante o fracasso do Big Brother.
Inês de Castro voltou, no local onde foi condenada, para assombrar a existência de uma novela. Estará tudo louco. Até a Manuela Moura Guedes esboçou um sorriso. A TVI está capaz de tudo perante o fracasso do Big Brother.
Oposição
Onde está a oposição, qual é o seu futuro e o que podemos esperar dela?
Do inefável Dr. Louçã podemos esperar que continue a cumprir o papel de Stallone, disparando sempre e em todas as direcções. A todo o momento descobrirá uma nova minoria à qual irá buscar o voto. Talvez aos defensores dos direitos da formiga branca ou ao grupo armado de defesa dos sobreiros contra os capitalistas da cortiça.
Do moribundo PC (que ontem até deu sinais de existência, talvez num último suspiro) apenas podemos esperar poemas declamados pela camarada Odete, intervenções surrealistas do camarada Bernardino, gritos estridentes da senhora de "Os verdes" ou a sempiterna Festa do Avante.
Temos ainda o Dr. Monteiro do qual nunca sabemos o que esperar. Apenas que será contra e que as posições mais duras serão defendidas pelo indescritível Dr. Ferreira. Aguardemos por esse vazio ideológico que apropriadamente se chama Nova Democracia. De facto a democracia anda mesmo pelas ruas da amargura.
Chegamos finalmente ao maior partido da oposição, pelo menos em número de votos e por enquanto. O PS é cada vez mais um equívoco. A todos os níveis. Um líder que ninguém sabe muito bem o que anda a fazer, numa pose cada vez mais distante e seráfica. Lembrando um pouco o Tonecas dos últimos tempos, vago, pensativo, quase etéreo. Será que no Largo do Rato distribuem comprimidos para a alienação? Imagino o Dr. Ferro gritando: "Ó Costa, traz-me um Alienex duplo."
No meio desta desorientação geral surge agora o persistente JS. Sim, a Juventude Soarista, que na falta do pai - agora mais preocupado no combate diário aos EUA e ao seu Império do Mal - corre decidida para o poder socialista. A confirmar-se, podemos esperar mais oposição, apenas duvido que seja melhor.
Se JS seguir o estilo da sua última campanha em Lisboa já imagino Vasco Lourenço na vice presidência para as relações externas. A família Soares em repetidas marchas contra o fascismo português - seja ele o que for - acusando todo o governo de salazarismo e de retorno ao passado. Dissertando em estudos comparativos sobre o curriculum anti-fascista dos membros do governo. A palavra chave será ressuscitar, os fantasmas e ódios que - passados quase trinta anos - já deviam estar sanados e esquecidos. (Imagino já uma retribuição à altura do governo, questionando a descolonização do pai Soares). A ILGA será por certo convidada para a pasta da família no governo sombra. Quanto a coligações podemos esperar o pior. Numa desesperada tentativa de unir a esquerda, decerto construirá um Albergue da Rosa Vermelha, ressuscitando (outra vez a palavra chave) os espantosos POUS, MDP, PC (R) e outros afins. A este se juntará o Albergue da Esquerda Caviar (BE) e o Partido da Imutabilidade Comunista (PCP).
Por certo será mais animado, mas será prudente apesar disso que mudem de repente de líder? A verdade é que o governo precisa de oposição. Não porque esteja a governar particularmente mal, mas também está longe de ser brilhante. Precisa de ser espevitado para ir ao sítio, para acordar o Dr. Barroso, para estancar os erros de casting sucessivos. No fundo, para conseguir implantar realmente as boas intenções que tem. Haja oposição.
Do inefável Dr. Louçã podemos esperar que continue a cumprir o papel de Stallone, disparando sempre e em todas as direcções. A todo o momento descobrirá uma nova minoria à qual irá buscar o voto. Talvez aos defensores dos direitos da formiga branca ou ao grupo armado de defesa dos sobreiros contra os capitalistas da cortiça.
Do moribundo PC (que ontem até deu sinais de existência, talvez num último suspiro) apenas podemos esperar poemas declamados pela camarada Odete, intervenções surrealistas do camarada Bernardino, gritos estridentes da senhora de "Os verdes" ou a sempiterna Festa do Avante.
Temos ainda o Dr. Monteiro do qual nunca sabemos o que esperar. Apenas que será contra e que as posições mais duras serão defendidas pelo indescritível Dr. Ferreira. Aguardemos por esse vazio ideológico que apropriadamente se chama Nova Democracia. De facto a democracia anda mesmo pelas ruas da amargura.
Chegamos finalmente ao maior partido da oposição, pelo menos em número de votos e por enquanto. O PS é cada vez mais um equívoco. A todos os níveis. Um líder que ninguém sabe muito bem o que anda a fazer, numa pose cada vez mais distante e seráfica. Lembrando um pouco o Tonecas dos últimos tempos, vago, pensativo, quase etéreo. Será que no Largo do Rato distribuem comprimidos para a alienação? Imagino o Dr. Ferro gritando: "Ó Costa, traz-me um Alienex duplo."
No meio desta desorientação geral surge agora o persistente JS. Sim, a Juventude Soarista, que na falta do pai - agora mais preocupado no combate diário aos EUA e ao seu Império do Mal - corre decidida para o poder socialista. A confirmar-se, podemos esperar mais oposição, apenas duvido que seja melhor.
Se JS seguir o estilo da sua última campanha em Lisboa já imagino Vasco Lourenço na vice presidência para as relações externas. A família Soares em repetidas marchas contra o fascismo português - seja ele o que for - acusando todo o governo de salazarismo e de retorno ao passado. Dissertando em estudos comparativos sobre o curriculum anti-fascista dos membros do governo. A palavra chave será ressuscitar, os fantasmas e ódios que - passados quase trinta anos - já deviam estar sanados e esquecidos. (Imagino já uma retribuição à altura do governo, questionando a descolonização do pai Soares). A ILGA será por certo convidada para a pasta da família no governo sombra. Quanto a coligações podemos esperar o pior. Numa desesperada tentativa de unir a esquerda, decerto construirá um Albergue da Rosa Vermelha, ressuscitando (outra vez a palavra chave) os espantosos POUS, MDP, PC (R) e outros afins. A este se juntará o Albergue da Esquerda Caviar (BE) e o Partido da Imutabilidade Comunista (PCP).
Por certo será mais animado, mas será prudente apesar disso que mudem de repente de líder? A verdade é que o governo precisa de oposição. Não porque esteja a governar particularmente mal, mas também está longe de ser brilhante. Precisa de ser espevitado para ir ao sítio, para acordar o Dr. Barroso, para estancar os erros de casting sucessivos. No fundo, para conseguir implantar realmente as boas intenções que tem. Haja oposição.
O Homem de Cera e o Fóssil Milionário
Ouço na SIC que José Castelo Branco (assim se intitula), o Homem de Cera e Betty Graffstein, o Fóssil Milionário, foram presos no aeroporto de Lisboa. Motivo: Contrabando de jóias.
A cena terá sido de antologia. Betty com o seu ar esfíngico falando tranquilamente em inglês. "Xossé, o que se passa. O que querem estes senhores? Fale com eles." José - recordando os seus idos tempos de Trumps - armando uma peixeirada digna do Bolhão. "Não me toquem, está-me a sujar a camisa Versace. Não me enxovalhe as calças Gaultier. Parece que não sabem quem sou eu, sou o José Castelo Branco. Acham que eu era capaz de contrabando. O Sr. Agente, sim, o senhor de corpo musculado, quer revistar-me? Essas jóias são da Betty, tirando aqueles 14 colares de pérolas que são meus. São para os meus shows. Acho que vou falar à Lili, ela deve conhecer alguém que me tire daqui. O quê? Querem levar-me para a prisão onde está o Bibi? Ah! Pronto, será que ainda consigo falar com ele hoje."
Imagino o regabofe que terá sido no Serviço de Estrangeiros e Fronteiras. Adorava ter visto este ser ridículo e arrogante a ser exposto ao...ridículo.
A cena terá sido de antologia. Betty com o seu ar esfíngico falando tranquilamente em inglês. "Xossé, o que se passa. O que querem estes senhores? Fale com eles." José - recordando os seus idos tempos de Trumps - armando uma peixeirada digna do Bolhão. "Não me toquem, está-me a sujar a camisa Versace. Não me enxovalhe as calças Gaultier. Parece que não sabem quem sou eu, sou o José Castelo Branco. Acham que eu era capaz de contrabando. O Sr. Agente, sim, o senhor de corpo musculado, quer revistar-me? Essas jóias são da Betty, tirando aqueles 14 colares de pérolas que são meus. São para os meus shows. Acho que vou falar à Lili, ela deve conhecer alguém que me tire daqui. O quê? Querem levar-me para a prisão onde está o Bibi? Ah! Pronto, será que ainda consigo falar com ele hoje."
Imagino o regabofe que terá sido no Serviço de Estrangeiros e Fronteiras. Adorava ter visto este ser ridículo e arrogante a ser exposto ao...ridículo.
4.11.03
Estações de Comboio
Vou esperar um amigo a Santa Apolónia. Passou algum tempo desde que me rendi à escravatura do carro. Pouco tenho usado o comboio e das últimas vezes já o fiz na bela pós-modernidade do Oriente.
Para variar o comboio atrasa. Melhor assim. Aproveito para uns minutos de melancólica observação. Lembro os tempos de estudante em que aos fins de semana este espaço ocupava uma parte importante da minha vida. Tempos de ida a casa para junto da família após uma "dura" semana de aulas.
Há um misticismo estranho nas gares. As paredes cansadas pelo tempo, o chão desgastado pelas passagens velozes dos atrasados. As velhas de negro, com caras sulcadas, sempre transportando cestas de verga cheias sabe-se lá de quê. Os estudantes de grandes mochilas, ora animados e ansiosos, ora pensativos. Senhoras, com o ar despreocupado de quem não guia nem quer guiar, comprando revistas de decoração. O apito estridente de uma locomotiva a sair. O inconfundível cheiro que inunda o ar. Os "agarrados" e vagabundos mendigando moedas e cigarros, ou buscando vítimas fáceis para furtos breves.
As chegadas apressadas em busca de táxi ou de um abraço de acolhimento.
Com grande pena minha nunca fiz Inter Rail. Não por um fascínio de percorrer quilómetros de mochila ás costas mas sim pelo inata sensação de liberdade e desprendimento. Sentir por dias e dias o ambiente de gares imponentes ou miseráveis. Repousar em bancos de madeira para fugir ao frio do exterior. Usar este meio de transporte de lirismo só superado pelos veleiros.
Para variar o comboio atrasa. Melhor assim. Aproveito para uns minutos de melancólica observação. Lembro os tempos de estudante em que aos fins de semana este espaço ocupava uma parte importante da minha vida. Tempos de ida a casa para junto da família após uma "dura" semana de aulas.
Há um misticismo estranho nas gares. As paredes cansadas pelo tempo, o chão desgastado pelas passagens velozes dos atrasados. As velhas de negro, com caras sulcadas, sempre transportando cestas de verga cheias sabe-se lá de quê. Os estudantes de grandes mochilas, ora animados e ansiosos, ora pensativos. Senhoras, com o ar despreocupado de quem não guia nem quer guiar, comprando revistas de decoração. O apito estridente de uma locomotiva a sair. O inconfundível cheiro que inunda o ar. Os "agarrados" e vagabundos mendigando moedas e cigarros, ou buscando vítimas fáceis para furtos breves.
As chegadas apressadas em busca de táxi ou de um abraço de acolhimento.
Com grande pena minha nunca fiz Inter Rail. Não por um fascínio de percorrer quilómetros de mochila ás costas mas sim pelo inata sensação de liberdade e desprendimento. Sentir por dias e dias o ambiente de gares imponentes ou miseráveis. Repousar em bancos de madeira para fugir ao frio do exterior. Usar este meio de transporte de lirismo só superado pelos veleiros.
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