Ontem chego finalmente à "Paixão", o polémico e já tão falado filme de Mel Gibson. Não vou entrar nas questões religiosas, que guardarei para mim. O filme é no mínimo esmagador e esteticamente poderoso.
Por entre acusações de anti-semitismo e de violência gratuita um ponto importante se pode tirar do filme. O perigo das multidões, em particular quando acicatadas organizadamente. Não foram Os Judeus a entregar Jesus, foram aqueles homens, aquela multidão que, sim, era constituída por judeus. Isto faz toda a diferença, não foi um Povo a entregar Jesus, foi aquele povo naquele local. As multidões são assim, e o preocupante é pensar que ainda poderão ser assim, não para Jesus já sacrificado, mas para qualquer um de nós. Os grandes fenómenos fundamentalistas têm a sua génese neste ponto e é aqui que nasce a intolerância. As multidões são facilmente manipuláveis e, infelizmente, há muita gente a saber isso. Se para mais nada servir, pelo menos para reflectir sobre isto sirva o filme, a crentes e não-crentes.
22.4.04
20.4.04
Futebol
Parece que uma série de gente ligada ao futebol, incluindo o inefável Major, está detida para inquérito judicial. Para quem segue - ainda que com um certo distanciamento - o futebol em Portugal, não causará estranheza. Aliás não é estranho que haja corrupção, o que será estranho é que isso esteja de facto a ser investigado. Talvez assim haja alguma vergonha em quem dirige o futebol e não surjam árbitros como o Sr. Paixão a arbitrar jogos importantes. É que errar é humano, mas tanto...
19.4.04
Al Qaeda 3 – Espanha 0
1-0 Atentados em vários comboios em Espanha causam centenas de mortos.
2-0 O PSOE ganha as eleições numa reviravolta inesperada causada pela reacção dúbia do governo PP à autoria dos atentados.
3-0 Zapatero manda retirar o contingente espanhol no Iraque.
Independentemente da justiça na intervenção no Iraque, a mudança da posição espanhola só vem provar uma coisa, o terrorismo pode ganhar. Zapatero terá as motivações mais certas e justas, mas recuar neste momento apenas mostra fraqueza. O terrorismo pode combater-se com guerra mas, mais importante, combate-se mantendo a normalidade, ainda que aparente, nas nossas vidas. Foi assim que o PP conseguiu reduzir a ETA a uma sombra do que já foi.
O PSOE era contra a intervenção no Iraque e estava no seu direito. O PSOE acha que a guerra devia acabar e está no seu direito. O que é tremendamente irresponsável e cobarde é abandonar um processo que ainda está a decorrer e no qual a normalidade está longe de ser estabelecida. O que Espanha mostra aqui é o total desprezo pela população iraquiana, abandonando-a à sua sorte.
Eu nem sequer sou um adepto incondicional da intervenção no Iraque, tenho até poucas certezas sobre este assunto, agora uma vez começado o processo não se pode sair dele em andamento. A responsabilidade de um governo e de um país vê-se em atitudes como esta e, aqui ao lado, podemos esperar o pior.
2-0 O PSOE ganha as eleições numa reviravolta inesperada causada pela reacção dúbia do governo PP à autoria dos atentados.
3-0 Zapatero manda retirar o contingente espanhol no Iraque.
Independentemente da justiça na intervenção no Iraque, a mudança da posição espanhola só vem provar uma coisa, o terrorismo pode ganhar. Zapatero terá as motivações mais certas e justas, mas recuar neste momento apenas mostra fraqueza. O terrorismo pode combater-se com guerra mas, mais importante, combate-se mantendo a normalidade, ainda que aparente, nas nossas vidas. Foi assim que o PP conseguiu reduzir a ETA a uma sombra do que já foi.
O PSOE era contra a intervenção no Iraque e estava no seu direito. O PSOE acha que a guerra devia acabar e está no seu direito. O que é tremendamente irresponsável e cobarde é abandonar um processo que ainda está a decorrer e no qual a normalidade está longe de ser estabelecida. O que Espanha mostra aqui é o total desprezo pela população iraquiana, abandonando-a à sua sorte.
Eu nem sequer sou um adepto incondicional da intervenção no Iraque, tenho até poucas certezas sobre este assunto, agora uma vez começado o processo não se pode sair dele em andamento. A responsabilidade de um governo e de um país vê-se em atitudes como esta e, aqui ao lado, podemos esperar o pior.
15.4.04
Viagem
Arrumo os papéis da última viagem, revejo o sempre incompleto bloco de notas, organizo as fotografias. Algumas imagens e palavras surgirão aqui no blogue. Não por ostentação, mas por uma vontade de partilhar esses cantos longínquos por onde os nossos antepassados andaram. Goa é uma experiência, um desafio aos nossos lusos sentidos, um encontro emotivo com o passado. Essa terra que foi nossa, essa terra onde deixámos marcas, por muito que estas se encontrem esbatidas pelo correr do tempo.
Panjim, Goa, 2004
Panjim, Goa 2004
Panjim, Goa, 2004
Panjim, Goa 2004
Blogosfera
Aproveito o reencontro com os blogues para actualizar os links, para saudar recém chegados, para dar parabéns. Alguns vão-se tornando realmente indispensáveis nestas viagens pela blogosfera.
13.4.04
Regresso
De volta a Portugal tudo na mesma. Percorro os jornais do costume e as notícias são iguais. Algo se mantem estável nos dias que correm.
O frio impressiona-me, as paragens distantes por onde alegremente passei a Páscoa queimaram-me os sentidos e penso estar numa qualquer Sibéria. A luz é ainda assim igual, a brilhante e pura luz de Lisboa que obsessivamente nos ilumina o espírito.
Navego um pouco pela blogosfera onde felizmente encontro os habitantes usuais. Ameaças de fecho de blogs em dia de mentiras e as habituais polémicas entre direitos e canhotos. O Iraque e Saramago causam no entanto algum enjoo, pode ser do jet-lag ou talvez não.
O trabalho chega, temível e aterrador, destronando a alegria insana que nos deixam as férias. Queixamo-nos, mas sem estes momentos penosos não teríamos o mesmo gozo em tempos de evasão. Pode ser uma grande mentira mas prefiro pensar assim, e pensar no destino da próxima viagem. Gosto de encarar a vida como uma sucessão de viagens entremeada por alguns momentos de trabalho. Gosto de escapar mas sempre de voltar. Portugal é um pequeno e mesquinho país mas - tal como com as mulheres - é impossível viver sem ele. Por isso é bom regressar mesmo pensando já em sair.
O frio impressiona-me, as paragens distantes por onde alegremente passei a Páscoa queimaram-me os sentidos e penso estar numa qualquer Sibéria. A luz é ainda assim igual, a brilhante e pura luz de Lisboa que obsessivamente nos ilumina o espírito.
Navego um pouco pela blogosfera onde felizmente encontro os habitantes usuais. Ameaças de fecho de blogs em dia de mentiras e as habituais polémicas entre direitos e canhotos. O Iraque e Saramago causam no entanto algum enjoo, pode ser do jet-lag ou talvez não.
O trabalho chega, temível e aterrador, destronando a alegria insana que nos deixam as férias. Queixamo-nos, mas sem estes momentos penosos não teríamos o mesmo gozo em tempos de evasão. Pode ser uma grande mentira mas prefiro pensar assim, e pensar no destino da próxima viagem. Gosto de encarar a vida como uma sucessão de viagens entremeada por alguns momentos de trabalho. Gosto de escapar mas sempre de voltar. Portugal é um pequeno e mesquinho país mas - tal como com as mulheres - é impossível viver sem ele. Por isso é bom regressar mesmo pensando já em sair.
26.3.04
Até já
A assiduidade esta semana não tem sido muita, o trabalho submergiu-me com uma voracidade avassaladora. Por esta vez os motivos são bons. Daqui a pouco parto em visita ao antigo Império, em puras e verdadeiras férias. Por duas inteiras semanas ausento-me, não sem uma ponta de saudade, desta já indispensável blogosfera.
Bons dias e boas noites para todos e até depois da Páscoa.
Bons dias e boas noites para todos e até depois da Páscoa.
22.3.04
Eva Cassidy
Todos temos os nossos cultos, aquelas coisas que inexplicavelmente nos arrebatam mais que quaisquer outras. Ouvi Eva Cassidy pela primeira vez por puro acaso. Vivia então em Espanha e, como era hábito se estivesse em casa, ouvia o programa da noite da Rádio 3. Por aqui passava alguma World Music, bom Jazz e improváveis registos. Subitamente uma voz angelical cantava "Fields of Gold" num timbre etéreo e com uma interpretação extraordinária. Esperei calmamente na esperança de ouvir o seu nome. Nada feito, seguiu-se uma música, e outra. Dias depois ouço de novo a mesma música e espero uma vez mais. Consegui saber mais do que o nome, soube, numa breve explicação do locutor, que era uma cantora americana que havia morrido há pouco tempo, ainda nova. Apenas editou um disco em vida e foi descoberta, por alguns eleitos, depois de morta, com a edição de alguns registos de originais. No dia seguinte corri à loja onde se encontravam os melhores discos tentando comprar o que houvesse. Consegui "Songbird" e "Time After Time", ambos colectâneas póstumas.
Descobri um culto, uma obsessão musical. Com estes discos apaixonei-me irremediavelmente por esta senhora loura e de ar cândido, infelizmente já desaparecida. As suas interpretações têm aquele toque indefinível que as faz únicas, que distingue um bom técnico de um grande artista. Basta ouvir a subtileza de "Over the Rainbow" ou "Anniversary Song" para não querer outra coisa.
A sua voz cantou do Jazz aos Blues, passando por "covers" de êxitos Pop adaptadas ao seu estilo sereno e melodioso. Músicas como "Autumn Leaves", "What a Wonderful World", "Tennessee Waltz", "Danny Boy" ou "Fever", dão-nos a conhecer uma voz única e inconfundível.
Recentemente, e motivo porque me lembrei de fazer esta posta, saiu mais um disco de inéditos: "American Tune". Talvez este seja o mais fraco de todos os seus discos, essencialmente pela má qualidade de algumas gravações, mas que ainda assim vale a pena pelas recriações de "True Colors" ou "Yesterday".
Ouçam, por certo não se vão arrepender. E não digam que vão daqui.
Descobri um culto, uma obsessão musical. Com estes discos apaixonei-me irremediavelmente por esta senhora loura e de ar cândido, infelizmente já desaparecida. As suas interpretações têm aquele toque indefinível que as faz únicas, que distingue um bom técnico de um grande artista. Basta ouvir a subtileza de "Over the Rainbow" ou "Anniversary Song" para não querer outra coisa.
A sua voz cantou do Jazz aos Blues, passando por "covers" de êxitos Pop adaptadas ao seu estilo sereno e melodioso. Músicas como "Autumn Leaves", "What a Wonderful World", "Tennessee Waltz", "Danny Boy" ou "Fever", dão-nos a conhecer uma voz única e inconfundível.
Recentemente, e motivo porque me lembrei de fazer esta posta, saiu mais um disco de inéditos: "American Tune". Talvez este seja o mais fraco de todos os seus discos, essencialmente pela má qualidade de algumas gravações, mas que ainda assim vale a pena pelas recriações de "True Colors" ou "Yesterday".
Ouçam, por certo não se vão arrepender. E não digam que vão daqui.
Chá
Num dia qualquer, algures neste mundo.
- Por favor, é um Earl Grey para mim e um Darjeeling para o Sr. Laden.- disse Mário, virando-se depois para o seu barbudo acompanhante - Pois é Bin, acho que esta conversa vai ser muito produtiva. Temos mesmo de conseguir negociar com os americanos, não pode continuar assim. Sabe, eu não gosto deles, mas também andar a matá-los parece um pouco excessivo.
- Mário, eu sei que você é um amigo da nossa causa, que tem defendido todas as nossas intervenções e que ainda odeia mais o Bush do que eu, mas nós trabalhamos assim.
- Mas concretamente o que é que vocês pretendem?
- Mário, Mário, isso nem eu sei. Queremos é matar todos os aliados do imperialismo americano, todos os opressores do povo árabe.
- Espere um pouco Bin, vem aí a minha amiga Ana.
- Olá Mário, finalmente conseguiu encontrar-se com o Sr. Laden.
- Ana, deixe-me apresentar-lhe o meu amigo Laden, estamos a negociar.
- Encantado minha senhora, tenho ouvido falar muito de si.
- Oh! Sr. Laden - disse Ana corando um pouco - o prazer é todo meu, não é todos os dias que encontramos alguém que passa à prática o nosso ódio pelos americanos imperialistas.
- Mas sente-se, tome um chá connosco. Penso que me vai ser muito útil, agora que vai para o parlamento europeu.
- É um chá de Tília para a Sra. Gomes. Por favor.
- Por favor, é um Earl Grey para mim e um Darjeeling para o Sr. Laden.- disse Mário, virando-se depois para o seu barbudo acompanhante - Pois é Bin, acho que esta conversa vai ser muito produtiva. Temos mesmo de conseguir negociar com os americanos, não pode continuar assim. Sabe, eu não gosto deles, mas também andar a matá-los parece um pouco excessivo.
- Mário, eu sei que você é um amigo da nossa causa, que tem defendido todas as nossas intervenções e que ainda odeia mais o Bush do que eu, mas nós trabalhamos assim.
- Mas concretamente o que é que vocês pretendem?
- Mário, Mário, isso nem eu sei. Queremos é matar todos os aliados do imperialismo americano, todos os opressores do povo árabe.
- Espere um pouco Bin, vem aí a minha amiga Ana.
- Olá Mário, finalmente conseguiu encontrar-se com o Sr. Laden.
- Ana, deixe-me apresentar-lhe o meu amigo Laden, estamos a negociar.
- Encantado minha senhora, tenho ouvido falar muito de si.
- Oh! Sr. Laden - disse Ana corando um pouco - o prazer é todo meu, não é todos os dias que encontramos alguém que passa à prática o nosso ódio pelos americanos imperialistas.
- Mas sente-se, tome um chá connosco. Penso que me vai ser muito útil, agora que vai para o parlamento europeu.
- É um chá de Tília para a Sra. Gomes. Por favor.
16.3.04
A Primavera ameaça a sua chegada. Lisboa mostra as suas formas numa luz brilhante, única e inimitável. Dias assim fazem acreditar no mito de que se trabalha mais no Norte do que no Sul. A luz, o calor, o brilho da rua convidam a tudo menos à presença fechada entre quatro paredes de um escritório. A preguiça nasceu a Sul, isso é definitivo.
15.3.04
Cavaco I
O Sr. Aníbal é nome ligado a muita coisa que abomino. A sua simples menção tem consequências devastadoras na minha pele, manifestadas por sintomas de urticária aguda ou erzipela. A minha geração cresceu com Cavaco e o cavaquismo, sendo por ele marcada a bem ou mal. Para alguns ele foi o salvador da pátria, o Messias da direita (sendo que nunca percebi que ele era de direita), o Homem que pôs o país em ordem. Na verdade no seu primeiro mandato - em boa hora minoritário - o Sr. realmente deu ordem a um país desgovernado desde a revolução. Tal como Salazar o fez após a desastrosa primeira República que deixou o país de pantanas. Mas isso não faz dele, tal como não faz de Salazar, um governante exemplar a idolatrar. Devemos reconhecer os méritos a quem os deve, incluindo a ditadores, mas daí a avaliar a sua prestação política apenas por iso...
Cavaco foi muito mais do que isso, aliás o muito mais é o que conta no seu caso. Durante dez anos de poder, exercidos de forma dura ao nível de algumas ditaduras democráticas, instalou-se uma clientela sem nível, surgia do vácuo, que passeou o seu poder por este país com uma sobranceria e arrogância a toda a prova. Nunca entendi as desculpabilizações de que o Sr. estava mal rodeado, que a culpa não era dele. Como se na altura Cavaco não tivesse todo o poder possível no partido para impor que quer que lhe desse na real gana. Parece que o Sr. era um ente superior, vagueando num limbo de virtudes, sem possibilidade de banir os incompetentes sedentos de poder que o rodeavam.
Cavaco marcou uma geração, especialmente na forma como projectou um país. Mais do que pequenas questiúnculas de propinas ou regalias de médicos. O que Cavaco criou foi uma mentalidade nova em Portugal, um quase Homem Novo à imagem do seu ideal. O que Cavaco criou, e isso eu não esqueço, foi uma cultura popular em que todos eram ricos e com poder de compra, que o endividamento era algo sem consequências e de que bens, até então quase de luxo - electrodomésticos de toda a espécie, carros novos e, particularmente, casa próprias novas - eram bens ao alcance de todos. Antes fossem.
O novo-riquismo que a conjuntura económica propiciou alastrou-se ás classes mais baixas e o país endividou-se. Tudo correria bem, não fosse uma questão óbvia, a economia tem ciclos e depois da bonança vem a tempestade. Hoje Portugal é um país endividado, com famílias a viver no limiar da pobreza à custa das prestações mensais. Todos temos legitimamente a vontade de viver bem, de ser ricos, mas temos de ter noção do que podemos comprar, do que o nosso dinheiro pode suportar. O que Cavaco criou foi um optimismo exacerbado na população que a fez crer rica, quando no fundo isso não passou de uma fase momentânea. O que Cavaco criou foi uma mentalidade generalizada que o dinheiro e o poder são algo fácil de conseguir, e que os bens acessórios são, afinal, algo atingível por todos. Ainda hoje nos ressentimos disto. Os governos PS foram maus, isso poucos questionarão, mas era impossível manter a economia como ela vinha detrás, pelo motivo simples de que em economia não dependemos só da nossa vontade e do nosso querer, dependemos de uma conjuntura internacional que não dominamos, e à qual nos temos de sujeitar.
Os governos cavaquistas foram como pais que não sabem educar os seus filhos, achando-se no entanto educadores natos. Cavaco inundou o povo português de presentes, mas quem veio depois não teve, obviamente, dinheiro para continuar a festa. Acredito que para muitos os anos laranjas foram de prosperidade e de boa vida, mas tenho a certeza que para uma imensa maioria os anos seguintes foram de grandes apertos.
Mais do que criticar medidas avulsas, o que detesto em Cavaco é esta irresponsabilidade que foi enganar o povo português durante anos, falando de miragens e de oásis. Hoje em Portugal até a sociedade pode ter em geral um nível de vida aceitável, mas não consegue, de forma alguma, ter dinheiro para sustentar o nível a que se julga de direito. Enganar um povo é grave e o grande responsável tem um nome, Aníbal Cavaco Silva.
O regresso de Cavaco ás bocas do país tem apenas uma vantagem, para quem escreve
ou pensa, é que voltamos a ter uma "bête noire" para desancar, sem dó nem piedade. "O Independente", que foi o jornal da minha geração, viveu muito em função desta criatura política, alimentando-se do seu regime para fazer o melhor jornal português que eu tenho memória. O meu único e solitário aplauso a um regresso de Cavaco é o de poder ter alguém de quem dizer mal, convictamente mal, por muito e muito tempo. Acho mesmo assim que o meu prazer individual não se deve sobrepor aos interesses do meu país, por isso, na dúvida, Professor fique em casa com a Sra. Maria, deixe-se estar a comer bolo-rei no Natal com a família e não perturbe, uma vez mais, o seu país. Obrigado.
Cavaco foi muito mais do que isso, aliás o muito mais é o que conta no seu caso. Durante dez anos de poder, exercidos de forma dura ao nível de algumas ditaduras democráticas, instalou-se uma clientela sem nível, surgia do vácuo, que passeou o seu poder por este país com uma sobranceria e arrogância a toda a prova. Nunca entendi as desculpabilizações de que o Sr. estava mal rodeado, que a culpa não era dele. Como se na altura Cavaco não tivesse todo o poder possível no partido para impor que quer que lhe desse na real gana. Parece que o Sr. era um ente superior, vagueando num limbo de virtudes, sem possibilidade de banir os incompetentes sedentos de poder que o rodeavam.
Cavaco marcou uma geração, especialmente na forma como projectou um país. Mais do que pequenas questiúnculas de propinas ou regalias de médicos. O que Cavaco criou foi uma mentalidade nova em Portugal, um quase Homem Novo à imagem do seu ideal. O que Cavaco criou, e isso eu não esqueço, foi uma cultura popular em que todos eram ricos e com poder de compra, que o endividamento era algo sem consequências e de que bens, até então quase de luxo - electrodomésticos de toda a espécie, carros novos e, particularmente, casa próprias novas - eram bens ao alcance de todos. Antes fossem.
O novo-riquismo que a conjuntura económica propiciou alastrou-se ás classes mais baixas e o país endividou-se. Tudo correria bem, não fosse uma questão óbvia, a economia tem ciclos e depois da bonança vem a tempestade. Hoje Portugal é um país endividado, com famílias a viver no limiar da pobreza à custa das prestações mensais. Todos temos legitimamente a vontade de viver bem, de ser ricos, mas temos de ter noção do que podemos comprar, do que o nosso dinheiro pode suportar. O que Cavaco criou foi um optimismo exacerbado na população que a fez crer rica, quando no fundo isso não passou de uma fase momentânea. O que Cavaco criou foi uma mentalidade generalizada que o dinheiro e o poder são algo fácil de conseguir, e que os bens acessórios são, afinal, algo atingível por todos. Ainda hoje nos ressentimos disto. Os governos PS foram maus, isso poucos questionarão, mas era impossível manter a economia como ela vinha detrás, pelo motivo simples de que em economia não dependemos só da nossa vontade e do nosso querer, dependemos de uma conjuntura internacional que não dominamos, e à qual nos temos de sujeitar.
Os governos cavaquistas foram como pais que não sabem educar os seus filhos, achando-se no entanto educadores natos. Cavaco inundou o povo português de presentes, mas quem veio depois não teve, obviamente, dinheiro para continuar a festa. Acredito que para muitos os anos laranjas foram de prosperidade e de boa vida, mas tenho a certeza que para uma imensa maioria os anos seguintes foram de grandes apertos.
Mais do que criticar medidas avulsas, o que detesto em Cavaco é esta irresponsabilidade que foi enganar o povo português durante anos, falando de miragens e de oásis. Hoje em Portugal até a sociedade pode ter em geral um nível de vida aceitável, mas não consegue, de forma alguma, ter dinheiro para sustentar o nível a que se julga de direito. Enganar um povo é grave e o grande responsável tem um nome, Aníbal Cavaco Silva.
O regresso de Cavaco ás bocas do país tem apenas uma vantagem, para quem escreve
ou pensa, é que voltamos a ter uma "bête noire" para desancar, sem dó nem piedade. "O Independente", que foi o jornal da minha geração, viveu muito em função desta criatura política, alimentando-se do seu regime para fazer o melhor jornal português que eu tenho memória. O meu único e solitário aplauso a um regresso de Cavaco é o de poder ter alguém de quem dizer mal, convictamente mal, por muito e muito tempo. Acho mesmo assim que o meu prazer individual não se deve sobrepor aos interesses do meu país, por isso, na dúvida, Professor fique em casa com a Sra. Maria, deixe-se estar a comer bolo-rei no Natal com a família e não perturbe, uma vez mais, o seu país. Obrigado.
Espanha
Os espanhóis surpreenderam no dia de ontem, optando pela mudança no governo e castigando o PP de forma implacável. Tudo foi estranho, mas a provar-se a ocultação de factos por parte do governo não podemos negar que o castigo terá sido justo. No entanto a manifestação de Sábado provou que os escrúpulos políticos não foram melhores do outro lado, ao aproveitar o dia de reflexão para a mais clara campanha eleitoral.
Tudo me fez confusão porque o atentado foi de enorme gravidade para o país e para a Europa e durante dois dias isso foi esquecido em nome de interesses eleitorais. Não compreendo os festejos do PSOE (como não compreenderia se fossem do PP) e acho da maior falta de gosto que se comemore em dias que deveriam ser de luto.
O PSOE ganhou porque o PP apoiou os Estados Unidos na guerra do Iraque. Será que com o PSOE a Espanha não teria apoiado a guerra? Lembremo-nos dos tempos de Felipe Gonzalez.
Tudo me fez confusão porque o atentado foi de enorme gravidade para o país e para a Europa e durante dois dias isso foi esquecido em nome de interesses eleitorais. Não compreendo os festejos do PSOE (como não compreenderia se fossem do PP) e acho da maior falta de gosto que se comemore em dias que deveriam ser de luto.
O PSOE ganhou porque o PP apoiou os Estados Unidos na guerra do Iraque. Será que com o PSOE a Espanha não teria apoiado a guerra? Lembremo-nos dos tempos de Felipe Gonzalez.
11.3.04
O Terrorismo Relativo
O mundo está de luto, pelo menos o mundo civilizado e os seres humanos dignos desse nome. Não são só os espanhóis, que sofrem obviamente mais, que estão chocados e revoltados. A civilização que tentamos construir não é esta.
Os paladinos de certas ideias irão relativizar este atentado com as tendências imperialistas do Reino de Espanha, acharão justa mais esta forma de protesto de um povo oprimido contra o país dominador? Desta vez foi aqui ao lado, com o Euro poderá ser aqui, dessa vez de quem será a culpa, quem será o infame que obrigará a mais um acto de revolta contra a opressão. Com o 11 de Setembro quase conseguiram justificar o deliberado assassinato terrorista de milhares de pessoas, agora foram 170, serão apenas estatísticas como dizia Estaline. Confirme-se a responsabilidade da ETA e talvez ainda hoje o reverendo do bloco e a pandilha do costume venham justificar a luta do povo Basco, talvez mandem o Professor Rosas contar a história manipulada como só ele é capaz. Confirme-se que o atentado partiu da Al Qaeda e logo virão dizer que é consequência directa da guerra do Iraque e do apoio dado por Espanha aos Estados Unidos. Talvez façam manifestações pelos direitos humanos das pessoas que venham a ser detidas, agora respeitar os mortos e perceber que os fins não justificam os meios e que em democracia isto vale tanto como um assassinato a sangue frio, isso não creio.
O relativismo moral em casos destes é igualmente criminoso, não falamos aqui de uma bomba num alvo estratégico com vítimas colaterais, falamos de matar deliberadamente seres humanos, de usar a morte em nome não se sabe bem de quê. Aqui a única relatividade vem do valor da vida humana, para uns ela vale tudo, para outros vale nada.
Os paladinos de certas ideias irão relativizar este atentado com as tendências imperialistas do Reino de Espanha, acharão justa mais esta forma de protesto de um povo oprimido contra o país dominador? Desta vez foi aqui ao lado, com o Euro poderá ser aqui, dessa vez de quem será a culpa, quem será o infame que obrigará a mais um acto de revolta contra a opressão. Com o 11 de Setembro quase conseguiram justificar o deliberado assassinato terrorista de milhares de pessoas, agora foram 170, serão apenas estatísticas como dizia Estaline. Confirme-se a responsabilidade da ETA e talvez ainda hoje o reverendo do bloco e a pandilha do costume venham justificar a luta do povo Basco, talvez mandem o Professor Rosas contar a história manipulada como só ele é capaz. Confirme-se que o atentado partiu da Al Qaeda e logo virão dizer que é consequência directa da guerra do Iraque e do apoio dado por Espanha aos Estados Unidos. Talvez façam manifestações pelos direitos humanos das pessoas que venham a ser detidas, agora respeitar os mortos e perceber que os fins não justificam os meios e que em democracia isto vale tanto como um assassinato a sangue frio, isso não creio.
O relativismo moral em casos destes é igualmente criminoso, não falamos aqui de uma bomba num alvo estratégico com vítimas colaterais, falamos de matar deliberadamente seres humanos, de usar a morte em nome não se sabe bem de quê. Aqui a única relatividade vem do valor da vida humana, para uns ela vale tudo, para outros vale nada.
10.3.04
Estalinismo
Portugal será um país democrático, mas há instituições muito respeitadas que não o são. A TSF lançou um CD com os melhores momentos da sua história. A ideia parece interessante e podemos ouvir os relatos, então em directo, de alguns dos mais importantes acontecimentos da nossa história recente. O que é estranho é o fortíssimo ataque de amnésia que os levou a esquecerem-se de um dos seus mais proeminentes jornalistas e ex-director: Carlos Andrade. Esta falha vem acompanhada pela ausência do momento em que a TSF mais visibilidade teve, aquele que, pelo menos para mim, é o marco da sua existência, a causa de Timor. Carlos Andrade uniu o país em torno de uma causa, tendo inclusivamente recebido distinções por isso. Como é possível a ausência de qualquer referência a isto no CD em causa.
Reescrever a história sempre foi uma tentação estalinista, que certa gente cultiva e onde continua a cair. Não percebo é como um facto deste passa despercebido aos nossos sempre tão democráticos jornalistas. Parece que os que se tomam por virgens puras da democracia são afinal prostitutas da liberdade.
Reescrever a história sempre foi uma tentação estalinista, que certa gente cultiva e onde continua a cair. Não percebo é como um facto deste passa despercebido aos nossos sempre tão democráticos jornalistas. Parece que os que se tomam por virgens puras da democracia são afinal prostitutas da liberdade.
Portugal é definitivamente um país curioso.
O Estado queixa-se que os portugueses não pagam os impostos e que as dívidas à Segurança Social são vastas e incobráveis. Facto. No meu caso numa semana consegui que me acontecesse exactamente o oposto. Enviei a declaração de IVA, por correio porque as declarações electrónicas estavam bloqueadas, e não consegui pagar por Multibanco. Motivos insondáveis levavam a que os pagamentos não estivessem disponíveis. Até aqui tudo mais ou menos normal, um problema de resolução a curto prazo, espero, e que voltará a funcionar como estou habituado.
Mais grave se passou com a Segurança Social, aqui tudo foi, e está a ser, muito pior. Há algum tempo deixei que os pagamentos da minha contribuição mensal fossem efectuados por transferência bancária. Tudo era para mim, e para o Estado, mais simples, evitando esquecimentos e atrasos. Para tal tinha uma conta específica onde coloquei o dinheiro necessário para alguns meses. Um dia resolvi ver quanto dinheiro me restava e constatei admirado que ainda tinha muito, mais do que era suposto. Deixei andar até que, uns meses depois, recebi uma carta da Segurança Social a dizer que tinham deixado de fazer cobrança por transferência bancária. Sugeriam o pagamento por Multibanco, para o qual enviaram instruções. Como precisei do dinheiro que tinha de parte na altura deixei andar sem pagar. Fui deixando de pagar, por atrasos em cobranças, até que quis voluntariamente pagar. Aí tudo se complicou!
Comecei por achar que, tendo alguns meses em atraso, teria de pagar directamente na tesouraria. Cheguei lá e informaram-me que não, que o melhor era ir ao Multibanco que assim não pagava juros de mora. Achei estranho, mas, no dia seguinte, lá fui até ao Multibanco. Depois de algumas tentativas disse que o número de beneficiário, que tinha no cartão na minha mão, era errado. Telefonei então e disseram-me que se calhar eu ainda não estava nos arquivos informáticos e teria de fazer o pagamento manualmente (isto apesar da carta que me enviaram para pagar no Multibanco).
Há dois dias entrei na Loja do Cidadão dos Restauradores pelas 11 horas e tirei uma senha, preparando-me para alguma demora. Olhei o meu número, olhei o número onde ia, e "apenas" faltavam 270 pessoas. Como tinha coisas para fazer, desisti e voltei ontem. Ao chegar consegui o número 411, sendo que ainda ia no 77. Passeei pela Baixa, almocei, subi ao Chiado, voltei, subi a Avenida da Liberdade, voltei, li o jornal e um livro e esperei calmamente a partir do 350 implorando por desistências. Afinal não esperei muito tempo, apenas 7 horas a que me sujeitei pela necessidade real de regularizar a minha situação. A senhora que me atendeu era de grande simpatia, o que me surpreendeu, e ao ouvir o meu caso começou por dizer que ali não aceitavam pagamentos. Ia desmaiando. Ao ver o meu ar assassino de súbito pânico a senhora acalmou-me e tentou resolver a situação. O melhor que conseguiu for dizer-me para ir à Tesouraria do Areeiro onde irei amanhã.
Tudo isto é extraordinário, eu quero pagar, quero realmente e de boa vontade pagar. Não estou a fugir mais dos meus atrasos, não me escondo esperando os 5 anos para ser amnistiado, eu quero pagar. Eu quero mas o Estado não facilita, e até não era preciso facilitar muito, bastava não criar um muro quase intransponível a quem quer pagar. Eu sei que pareço louco neste meu desejo, mas não tivesse mesmo de ter a situação legalmente resolvida e garanto que a Segurança Social não veria de mim nem mais um cêntimo. É que bolas, eu sabia que o Estado era mau pagador, agora que não nos deixava pagar!
Mais grave se passou com a Segurança Social, aqui tudo foi, e está a ser, muito pior. Há algum tempo deixei que os pagamentos da minha contribuição mensal fossem efectuados por transferência bancária. Tudo era para mim, e para o Estado, mais simples, evitando esquecimentos e atrasos. Para tal tinha uma conta específica onde coloquei o dinheiro necessário para alguns meses. Um dia resolvi ver quanto dinheiro me restava e constatei admirado que ainda tinha muito, mais do que era suposto. Deixei andar até que, uns meses depois, recebi uma carta da Segurança Social a dizer que tinham deixado de fazer cobrança por transferência bancária. Sugeriam o pagamento por Multibanco, para o qual enviaram instruções. Como precisei do dinheiro que tinha de parte na altura deixei andar sem pagar. Fui deixando de pagar, por atrasos em cobranças, até que quis voluntariamente pagar. Aí tudo se complicou!
Comecei por achar que, tendo alguns meses em atraso, teria de pagar directamente na tesouraria. Cheguei lá e informaram-me que não, que o melhor era ir ao Multibanco que assim não pagava juros de mora. Achei estranho, mas, no dia seguinte, lá fui até ao Multibanco. Depois de algumas tentativas disse que o número de beneficiário, que tinha no cartão na minha mão, era errado. Telefonei então e disseram-me que se calhar eu ainda não estava nos arquivos informáticos e teria de fazer o pagamento manualmente (isto apesar da carta que me enviaram para pagar no Multibanco).
Há dois dias entrei na Loja do Cidadão dos Restauradores pelas 11 horas e tirei uma senha, preparando-me para alguma demora. Olhei o meu número, olhei o número onde ia, e "apenas" faltavam 270 pessoas. Como tinha coisas para fazer, desisti e voltei ontem. Ao chegar consegui o número 411, sendo que ainda ia no 77. Passeei pela Baixa, almocei, subi ao Chiado, voltei, subi a Avenida da Liberdade, voltei, li o jornal e um livro e esperei calmamente a partir do 350 implorando por desistências. Afinal não esperei muito tempo, apenas 7 horas a que me sujeitei pela necessidade real de regularizar a minha situação. A senhora que me atendeu era de grande simpatia, o que me surpreendeu, e ao ouvir o meu caso começou por dizer que ali não aceitavam pagamentos. Ia desmaiando. Ao ver o meu ar assassino de súbito pânico a senhora acalmou-me e tentou resolver a situação. O melhor que conseguiu for dizer-me para ir à Tesouraria do Areeiro onde irei amanhã.
Tudo isto é extraordinário, eu quero pagar, quero realmente e de boa vontade pagar. Não estou a fugir mais dos meus atrasos, não me escondo esperando os 5 anos para ser amnistiado, eu quero pagar. Eu quero mas o Estado não facilita, e até não era preciso facilitar muito, bastava não criar um muro quase intransponível a quem quer pagar. Eu sei que pareço louco neste meu desejo, mas não tivesse mesmo de ter a situação legalmente resolvida e garanto que a Segurança Social não veria de mim nem mais um cêntimo. É que bolas, eu sabia que o Estado era mau pagador, agora que não nos deixava pagar!
8.3.04
Europa
Uma sondagem apareceu a desestabilizar os comentadores políticos e os jornalistas. Segundo a mesma, os portugueses preparam-se para se abster em 70% ás próximas eleições europeias. Não percebo o espanto.
Entrámos na Europa já faz um tempo e em teoria o povo deveria estar habituado a essa convivência. Nada mais errado, em vários anos de Europa, essa entidade abstracta e indefinível, nunca os políticos portugueses, do alto do seu pedestal, se incomodaram a explicar ás massas no que consistia de facto a Europa. Teria tido muita graça acompanhar esta sondagem com perguntas como: O que é a Europa? Qual o lugar de Portugal na Europa? Para que servem os deputados europeus que vamos eleger? Como é composta a Europa no que toca aos centros de decisão? Quais são os nossos direitos e deveres em relação à Europa? Aposto, singelo contra dobrado, que as respostas correctas não ultrapassariam os 5%. Mais interessante ainda seria repetir estas perguntas aos nossos deputados e políticos, com um ligeiro aumentar da percentagem ela não seria, ainda assim, brilhante.
Como é que esperam que o povo vote e se desloque a dar o seu contributo para algo que nem vagamente compreende. A Europa para o comum dos mortais portugueses não é mais do que uma abstracção que nos manda uma massas e que nos obriga a cumprir algumas normas (a maioria das quais idiotas). Se falarmos de Europa o que nos ocorre são os fundos estruturais, os "girassídios", os Range Rover comprados para modernizar a agricultura portuguesa, as alterações impostas aos nomes genuínos de tabacos (o triste caso do Português, agora não Suave) ou as tentativas de proibir os jaquinzinhos (como sobreviver a esta falta!). Ironias à parte, é claro que também nos trouxe coisas boas, só tenho mais dificuldade em me lembrar delas.
A nossa presença na Europa é inquestionável, agora a nossa posição relativa nunca foi discutida de forma perceptível, de forma que permitisse uma consulta popular efectiva. Mas afinal para que é preciso um referendo sobre a Europa, a taxa de abstenção nas eleições europeias não é mais do que isso, uma clara demonstração do desinteresse popular perante essa utopia federalista que é a Europa.
Entrámos na Europa já faz um tempo e em teoria o povo deveria estar habituado a essa convivência. Nada mais errado, em vários anos de Europa, essa entidade abstracta e indefinível, nunca os políticos portugueses, do alto do seu pedestal, se incomodaram a explicar ás massas no que consistia de facto a Europa. Teria tido muita graça acompanhar esta sondagem com perguntas como: O que é a Europa? Qual o lugar de Portugal na Europa? Para que servem os deputados europeus que vamos eleger? Como é composta a Europa no que toca aos centros de decisão? Quais são os nossos direitos e deveres em relação à Europa? Aposto, singelo contra dobrado, que as respostas correctas não ultrapassariam os 5%. Mais interessante ainda seria repetir estas perguntas aos nossos deputados e políticos, com um ligeiro aumentar da percentagem ela não seria, ainda assim, brilhante.
Como é que esperam que o povo vote e se desloque a dar o seu contributo para algo que nem vagamente compreende. A Europa para o comum dos mortais portugueses não é mais do que uma abstracção que nos manda uma massas e que nos obriga a cumprir algumas normas (a maioria das quais idiotas). Se falarmos de Europa o que nos ocorre são os fundos estruturais, os "girassídios", os Range Rover comprados para modernizar a agricultura portuguesa, as alterações impostas aos nomes genuínos de tabacos (o triste caso do Português, agora não Suave) ou as tentativas de proibir os jaquinzinhos (como sobreviver a esta falta!). Ironias à parte, é claro que também nos trouxe coisas boas, só tenho mais dificuldade em me lembrar delas.
A nossa presença na Europa é inquestionável, agora a nossa posição relativa nunca foi discutida de forma perceptível, de forma que permitisse uma consulta popular efectiva. Mas afinal para que é preciso um referendo sobre a Europa, a taxa de abstenção nas eleições europeias não é mais do que isso, uma clara demonstração do desinteresse popular perante essa utopia federalista que é a Europa.
Anos II (3 dias depois)
Pensei que chegar aqui fosse mais difícil, há tempos que consumo o espírito desejando que esta data tardasse a chegar. Imaginava o calendário a saltar o dia, sem traços que marcassem uma chegada indesejada. Não por ingratidão, mas porque há números que marcam, que nos fazem pensar, que nos fazem crer que tudo mudou. A outra escala foi o que se passou aos 18. Mas esta vez avizinhava-se mais dura, e foi, sendo que apesar de tudo foi muito melhor do que o esperado.
Sabemos que números nada dizem, que a idade, a verdadeira idade, permanece encerrada no espírito. Ainda assim custa, custa mudar de dezena, custa passar a um clube do qual não nos sentimos membros. A sensação é a de entrar numa festa sem ter sido convidado, sentimo-nos desconfortáveis, fora do "habitat".
Irrita-me saber que alguns disparates que faço, e espero continuar a fazer, sejam agora apontados como de outras idades, irrita-me que as roupas que visto sejam censuradas por questões etárias. No fundo é isto que custa porque a minha postura será exactamente a mesma.
Um problema supera os anteriores, o tempo jovem que sentimos não ter vivido, as coisas que queríamos ter feito, a sensação do tempo nos fugir das mãos como água. A vontade de voltar atrás, não para mudar as coisas, mas sim para as viver ainda mais, e ir mais além.
A idade não nos faz sentir velhos, mas há coisas que o fazem e muito. Já não falo da capacidade para aguentar um jogo de futebol ou outro exercício físico. Falo da constatação de haver depois de nós uma outra geração, ou mesmo outras. Gente que não vibrou com o "Verano Azul" assobiando em grupo a sua canção; que não esperava ansiosa pelos desenhos animados que o Vasco Granja nos trazia, chorando quando eles eram Checos ou Polacos; que o primeiro computador que teve não foi, seguramente, o Spectrum 48K, do qual nem sabe a existência; que liga Sá Carneiro só e apenas a Camarate; que não sabe que a Lois foi objecto de desejo há alguns anos e que os All Stars não são uma criação moderna.
Esta sensação de A Geração já não ser a nossa leva-nos a pensar que o mundo nos está a passar ao lado, e dou por mim a ter vontade de dizer o que sempre odiei ouvir: "no meu tempo é que era". Espero não o fazer, acho que não o vou fazer, afinal a resignação é uma virtude e eu vou tentando, com dificuldade, ser minimamente virtuoso.
Sabemos que números nada dizem, que a idade, a verdadeira idade, permanece encerrada no espírito. Ainda assim custa, custa mudar de dezena, custa passar a um clube do qual não nos sentimos membros. A sensação é a de entrar numa festa sem ter sido convidado, sentimo-nos desconfortáveis, fora do "habitat".
Irrita-me saber que alguns disparates que faço, e espero continuar a fazer, sejam agora apontados como de outras idades, irrita-me que as roupas que visto sejam censuradas por questões etárias. No fundo é isto que custa porque a minha postura será exactamente a mesma.
Um problema supera os anteriores, o tempo jovem que sentimos não ter vivido, as coisas que queríamos ter feito, a sensação do tempo nos fugir das mãos como água. A vontade de voltar atrás, não para mudar as coisas, mas sim para as viver ainda mais, e ir mais além.
A idade não nos faz sentir velhos, mas há coisas que o fazem e muito. Já não falo da capacidade para aguentar um jogo de futebol ou outro exercício físico. Falo da constatação de haver depois de nós uma outra geração, ou mesmo outras. Gente que não vibrou com o "Verano Azul" assobiando em grupo a sua canção; que não esperava ansiosa pelos desenhos animados que o Vasco Granja nos trazia, chorando quando eles eram Checos ou Polacos; que o primeiro computador que teve não foi, seguramente, o Spectrum 48K, do qual nem sabe a existência; que liga Sá Carneiro só e apenas a Camarate; que não sabe que a Lois foi objecto de desejo há alguns anos e que os All Stars não são uma criação moderna.
Esta sensação de A Geração já não ser a nossa leva-nos a pensar que o mundo nos está a passar ao lado, e dou por mim a ter vontade de dizer o que sempre odiei ouvir: "no meu tempo é que era". Espero não o fazer, acho que não o vou fazer, afinal a resignação é uma virtude e eu vou tentando, com dificuldade, ser minimamente virtuoso.
Anos (3 dias depois)
No dia em que o rei fez anos houve arraial e foguetes no ar.
No dia dos meus anos houve calma e paz. Desapareci.
No dia dos meus anos houve calma e paz. Desapareci.
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