Tal como se previa o famoso túnel do Marquês começou a afundar. Ainda não no sentido mais real da palavra, para já apenas figurativamente. A suspensão das obras demonstra que Santana está, de facto, obcecado em fazer obras rápidas. O túnel do Marquês é um disparate mas, uma vez tendo sido decidido construí-lo, o mínimo é que a construção seguisse os trâmites legais e as básicas regras da prudência. Não estamos a falar de uma qualquer zona do país, falamos duma das mais emblemáticas zonas de Lisboa. Agora a obra está suspensa mas duvido que seja cancelada. O que espera os lisboetas são mais dias de caos no centro da cidade, tudo por culpa da incúria de quem os governa.
Quando os políticos começam a brincar com os Elementos teme-se o pior. Maus exemplos não faltam, quem se esqueceu de um metro que já devia estar pronto e continua a meter água. Construir uma cidade passa antes por compreendê-la e também para isso servem os Estudos de Impacte Ambiental. Perante tudo isto estou cada vez com mais medo de Monsanto. Será que o Hipódromo, a Feira Popular, e todas as outras diversões de Santana também vão ser feitas sem os devidos estudos?
29.4.04
27.4.04
Condecorações e a Liberdade
No nosso Portugal muita gente é condecorada por tudo e por nada. As consequências não serão graves para além da desvalorização de algo que poderia ser importante. Ontem o Presidente da República voltou ao ataque e enfaixou mais alguns. O assunto foi falado pela recusa do PP em permanecer à cerimónia em protesto com a condecoração da Dra. Isabel do Carmo. Realmente Portugal tem a característica de considerar que a liberdade é um exclusivo da esquerda, sendo a única luta válida pela liberdade a que levou à queda do Antigo Regime. Curiosa amnésia a que faz esquecer o que senhoras como esta fizeram em nome da liberdade, da sua liberdade. A grande lutadora da liberdade pertenceu a uma organização que bombeou o país já em regime democrático, por isso foi condecorada com a Ordem da Liberdade.
Após alguma reflexão percebi estarmos perante um delírio MonthyPhythoniano do senhor Presidente, afinal o seu sentido de humor inglês já é famoso. Só assim se explica esta extraordinária ideia, que foi aplaudida na plateia por outro grande defensor da Liberdade, Otelo. Assim vai esta democracia da Liberdade.
Após alguma reflexão percebi estarmos perante um delírio MonthyPhythoniano do senhor Presidente, afinal o seu sentido de humor inglês já é famoso. Só assim se explica esta extraordinária ideia, que foi aplaudida na plateia por outro grande defensor da Liberdade, Otelo. Assim vai esta democracia da Liberdade.
26.4.04
O meu 25 de Abril
Hoje muitas histórias são contadas sobre 25 de Abril de cada um. Sobre o de 1974 pouco tenho a acrescentar de experiência pessoal. A minha mente divagaria entre a preocupação esfomeada da premência de mais um biberão, ou sobre questões ambientais íntimas da troca de fraldas sujas. Nada disto impede que possa falar sobre o assunto, pelo menos terei a vantagem do distanciamento.
"Vivam os 25 e abaixo o 26 de Abril."
Esta frase poderia sintetizar o que penso sobre a revolução e o PREC. Portugal vivia em 1974 numa ditadura cinzenta e decadente, a revolução terminou com este suplício. No dia seguinte tudo se começou a coordenar para que uma nova ditadura fosse imposta, agora sob a cobertura de uma falsa liberdade marxista. Por isso não posso exultar com o PREC e com alguns dos denominados ideais de Abril. A liberdade, palavra que tanto se usa ao falar da revolução, apenas foi assegurada a 25 de Novembro. No meio fica um caminho que quase nos conduziu à desgraça, para além de ter conseguido atrasar mais - o que pareceria impossível - o país. Descolonização (inevitável mas irresponsável), Nacionalizações, Saneamentos, Intimidação. Não consigo ver nada de bom em tudo isto.
Comemoremos a revolução, mas não com gente pouco recomendável a ser louvada em público. Nada devo como português a Otelos e camaradas Vascos. Nada devo a quem nos quis levar para o fundo do poço. Acredito que a Europa e os EUA não nos deixassem cair no comunismo, mas assim a luta não se teria resumido a esta revolução de bananas que foi Abril. Comemoremos a liberdade, a evolução do país e a revolução, mas apenas ela, sem o que veio depois.
"Vivam os 25 e abaixo o 26 de Abril."
Esta frase poderia sintetizar o que penso sobre a revolução e o PREC. Portugal vivia em 1974 numa ditadura cinzenta e decadente, a revolução terminou com este suplício. No dia seguinte tudo se começou a coordenar para que uma nova ditadura fosse imposta, agora sob a cobertura de uma falsa liberdade marxista. Por isso não posso exultar com o PREC e com alguns dos denominados ideais de Abril. A liberdade, palavra que tanto se usa ao falar da revolução, apenas foi assegurada a 25 de Novembro. No meio fica um caminho que quase nos conduziu à desgraça, para além de ter conseguido atrasar mais - o que pareceria impossível - o país. Descolonização (inevitável mas irresponsável), Nacionalizações, Saneamentos, Intimidação. Não consigo ver nada de bom em tudo isto.
Comemoremos a revolução, mas não com gente pouco recomendável a ser louvada em público. Nada devo como português a Otelos e camaradas Vascos. Nada devo a quem nos quis levar para o fundo do poço. Acredito que a Europa e os EUA não nos deixassem cair no comunismo, mas assim a luta não se teria resumido a esta revolução de bananas que foi Abril. Comemoremos a liberdade, a evolução do país e a revolução, mas apenas ela, sem o que veio depois.
23.4.04
22.4.04
Filmes
Anteontem vejo a “Rapariga do Brinco de Pérola”, onde mais do que cinema, entranho-me pela pintura desse gigante que foi Vermeer. O filme é esteticamente deslumbrante, quer pela fotografia quer por Scarlett Johansson. Relembro os quadros já vistos ao vivo e cruzo essas cores poderosas e brilhantes que nos deixam em estado encantatório. Vermeer é dos meus preferidos e por isso gosto do filme. Pode não ser grande cinema, e não é, mas vale pela beleza, e não será suficiente?
Paixão
Ontem chego finalmente à "Paixão", o polémico e já tão falado filme de Mel Gibson. Não vou entrar nas questões religiosas, que guardarei para mim. O filme é no mínimo esmagador e esteticamente poderoso.
Por entre acusações de anti-semitismo e de violência gratuita um ponto importante se pode tirar do filme. O perigo das multidões, em particular quando acicatadas organizadamente. Não foram Os Judeus a entregar Jesus, foram aqueles homens, aquela multidão que, sim, era constituída por judeus. Isto faz toda a diferença, não foi um Povo a entregar Jesus, foi aquele povo naquele local. As multidões são assim, e o preocupante é pensar que ainda poderão ser assim, não para Jesus já sacrificado, mas para qualquer um de nós. Os grandes fenómenos fundamentalistas têm a sua génese neste ponto e é aqui que nasce a intolerância. As multidões são facilmente manipuláveis e, infelizmente, há muita gente a saber isso. Se para mais nada servir, pelo menos para reflectir sobre isto sirva o filme, a crentes e não-crentes.
Por entre acusações de anti-semitismo e de violência gratuita um ponto importante se pode tirar do filme. O perigo das multidões, em particular quando acicatadas organizadamente. Não foram Os Judeus a entregar Jesus, foram aqueles homens, aquela multidão que, sim, era constituída por judeus. Isto faz toda a diferença, não foi um Povo a entregar Jesus, foi aquele povo naquele local. As multidões são assim, e o preocupante é pensar que ainda poderão ser assim, não para Jesus já sacrificado, mas para qualquer um de nós. Os grandes fenómenos fundamentalistas têm a sua génese neste ponto e é aqui que nasce a intolerância. As multidões são facilmente manipuláveis e, infelizmente, há muita gente a saber isso. Se para mais nada servir, pelo menos para reflectir sobre isto sirva o filme, a crentes e não-crentes.
20.4.04
Futebol
Parece que uma série de gente ligada ao futebol, incluindo o inefável Major, está detida para inquérito judicial. Para quem segue - ainda que com um certo distanciamento - o futebol em Portugal, não causará estranheza. Aliás não é estranho que haja corrupção, o que será estranho é que isso esteja de facto a ser investigado. Talvez assim haja alguma vergonha em quem dirige o futebol e não surjam árbitros como o Sr. Paixão a arbitrar jogos importantes. É que errar é humano, mas tanto...
19.4.04
Al Qaeda 3 – Espanha 0
1-0 Atentados em vários comboios em Espanha causam centenas de mortos.
2-0 O PSOE ganha as eleições numa reviravolta inesperada causada pela reacção dúbia do governo PP à autoria dos atentados.
3-0 Zapatero manda retirar o contingente espanhol no Iraque.
Independentemente da justiça na intervenção no Iraque, a mudança da posição espanhola só vem provar uma coisa, o terrorismo pode ganhar. Zapatero terá as motivações mais certas e justas, mas recuar neste momento apenas mostra fraqueza. O terrorismo pode combater-se com guerra mas, mais importante, combate-se mantendo a normalidade, ainda que aparente, nas nossas vidas. Foi assim que o PP conseguiu reduzir a ETA a uma sombra do que já foi.
O PSOE era contra a intervenção no Iraque e estava no seu direito. O PSOE acha que a guerra devia acabar e está no seu direito. O que é tremendamente irresponsável e cobarde é abandonar um processo que ainda está a decorrer e no qual a normalidade está longe de ser estabelecida. O que Espanha mostra aqui é o total desprezo pela população iraquiana, abandonando-a à sua sorte.
Eu nem sequer sou um adepto incondicional da intervenção no Iraque, tenho até poucas certezas sobre este assunto, agora uma vez começado o processo não se pode sair dele em andamento. A responsabilidade de um governo e de um país vê-se em atitudes como esta e, aqui ao lado, podemos esperar o pior.
2-0 O PSOE ganha as eleições numa reviravolta inesperada causada pela reacção dúbia do governo PP à autoria dos atentados.
3-0 Zapatero manda retirar o contingente espanhol no Iraque.
Independentemente da justiça na intervenção no Iraque, a mudança da posição espanhola só vem provar uma coisa, o terrorismo pode ganhar. Zapatero terá as motivações mais certas e justas, mas recuar neste momento apenas mostra fraqueza. O terrorismo pode combater-se com guerra mas, mais importante, combate-se mantendo a normalidade, ainda que aparente, nas nossas vidas. Foi assim que o PP conseguiu reduzir a ETA a uma sombra do que já foi.
O PSOE era contra a intervenção no Iraque e estava no seu direito. O PSOE acha que a guerra devia acabar e está no seu direito. O que é tremendamente irresponsável e cobarde é abandonar um processo que ainda está a decorrer e no qual a normalidade está longe de ser estabelecida. O que Espanha mostra aqui é o total desprezo pela população iraquiana, abandonando-a à sua sorte.
Eu nem sequer sou um adepto incondicional da intervenção no Iraque, tenho até poucas certezas sobre este assunto, agora uma vez começado o processo não se pode sair dele em andamento. A responsabilidade de um governo e de um país vê-se em atitudes como esta e, aqui ao lado, podemos esperar o pior.
15.4.04
Viagem
Arrumo os papéis da última viagem, revejo o sempre incompleto bloco de notas, organizo as fotografias. Algumas imagens e palavras surgirão aqui no blogue. Não por ostentação, mas por uma vontade de partilhar esses cantos longínquos por onde os nossos antepassados andaram. Goa é uma experiência, um desafio aos nossos lusos sentidos, um encontro emotivo com o passado. Essa terra que foi nossa, essa terra onde deixámos marcas, por muito que estas se encontrem esbatidas pelo correr do tempo.
Panjim, Goa, 2004
Panjim, Goa 2004
Panjim, Goa, 2004
Panjim, Goa 2004
Blogosfera
Aproveito o reencontro com os blogues para actualizar os links, para saudar recém chegados, para dar parabéns. Alguns vão-se tornando realmente indispensáveis nestas viagens pela blogosfera.
13.4.04
Regresso
De volta a Portugal tudo na mesma. Percorro os jornais do costume e as notícias são iguais. Algo se mantem estável nos dias que correm.
O frio impressiona-me, as paragens distantes por onde alegremente passei a Páscoa queimaram-me os sentidos e penso estar numa qualquer Sibéria. A luz é ainda assim igual, a brilhante e pura luz de Lisboa que obsessivamente nos ilumina o espírito.
Navego um pouco pela blogosfera onde felizmente encontro os habitantes usuais. Ameaças de fecho de blogs em dia de mentiras e as habituais polémicas entre direitos e canhotos. O Iraque e Saramago causam no entanto algum enjoo, pode ser do jet-lag ou talvez não.
O trabalho chega, temível e aterrador, destronando a alegria insana que nos deixam as férias. Queixamo-nos, mas sem estes momentos penosos não teríamos o mesmo gozo em tempos de evasão. Pode ser uma grande mentira mas prefiro pensar assim, e pensar no destino da próxima viagem. Gosto de encarar a vida como uma sucessão de viagens entremeada por alguns momentos de trabalho. Gosto de escapar mas sempre de voltar. Portugal é um pequeno e mesquinho país mas - tal como com as mulheres - é impossível viver sem ele. Por isso é bom regressar mesmo pensando já em sair.
O frio impressiona-me, as paragens distantes por onde alegremente passei a Páscoa queimaram-me os sentidos e penso estar numa qualquer Sibéria. A luz é ainda assim igual, a brilhante e pura luz de Lisboa que obsessivamente nos ilumina o espírito.
Navego um pouco pela blogosfera onde felizmente encontro os habitantes usuais. Ameaças de fecho de blogs em dia de mentiras e as habituais polémicas entre direitos e canhotos. O Iraque e Saramago causam no entanto algum enjoo, pode ser do jet-lag ou talvez não.
O trabalho chega, temível e aterrador, destronando a alegria insana que nos deixam as férias. Queixamo-nos, mas sem estes momentos penosos não teríamos o mesmo gozo em tempos de evasão. Pode ser uma grande mentira mas prefiro pensar assim, e pensar no destino da próxima viagem. Gosto de encarar a vida como uma sucessão de viagens entremeada por alguns momentos de trabalho. Gosto de escapar mas sempre de voltar. Portugal é um pequeno e mesquinho país mas - tal como com as mulheres - é impossível viver sem ele. Por isso é bom regressar mesmo pensando já em sair.
26.3.04
Até já
A assiduidade esta semana não tem sido muita, o trabalho submergiu-me com uma voracidade avassaladora. Por esta vez os motivos são bons. Daqui a pouco parto em visita ao antigo Império, em puras e verdadeiras férias. Por duas inteiras semanas ausento-me, não sem uma ponta de saudade, desta já indispensável blogosfera.
Bons dias e boas noites para todos e até depois da Páscoa.
Bons dias e boas noites para todos e até depois da Páscoa.
22.3.04
Eva Cassidy
Todos temos os nossos cultos, aquelas coisas que inexplicavelmente nos arrebatam mais que quaisquer outras. Ouvi Eva Cassidy pela primeira vez por puro acaso. Vivia então em Espanha e, como era hábito se estivesse em casa, ouvia o programa da noite da Rádio 3. Por aqui passava alguma World Music, bom Jazz e improváveis registos. Subitamente uma voz angelical cantava "Fields of Gold" num timbre etéreo e com uma interpretação extraordinária. Esperei calmamente na esperança de ouvir o seu nome. Nada feito, seguiu-se uma música, e outra. Dias depois ouço de novo a mesma música e espero uma vez mais. Consegui saber mais do que o nome, soube, numa breve explicação do locutor, que era uma cantora americana que havia morrido há pouco tempo, ainda nova. Apenas editou um disco em vida e foi descoberta, por alguns eleitos, depois de morta, com a edição de alguns registos de originais. No dia seguinte corri à loja onde se encontravam os melhores discos tentando comprar o que houvesse. Consegui "Songbird" e "Time After Time", ambos colectâneas póstumas.
Descobri um culto, uma obsessão musical. Com estes discos apaixonei-me irremediavelmente por esta senhora loura e de ar cândido, infelizmente já desaparecida. As suas interpretações têm aquele toque indefinível que as faz únicas, que distingue um bom técnico de um grande artista. Basta ouvir a subtileza de "Over the Rainbow" ou "Anniversary Song" para não querer outra coisa.
A sua voz cantou do Jazz aos Blues, passando por "covers" de êxitos Pop adaptadas ao seu estilo sereno e melodioso. Músicas como "Autumn Leaves", "What a Wonderful World", "Tennessee Waltz", "Danny Boy" ou "Fever", dão-nos a conhecer uma voz única e inconfundível.
Recentemente, e motivo porque me lembrei de fazer esta posta, saiu mais um disco de inéditos: "American Tune". Talvez este seja o mais fraco de todos os seus discos, essencialmente pela má qualidade de algumas gravações, mas que ainda assim vale a pena pelas recriações de "True Colors" ou "Yesterday".
Ouçam, por certo não se vão arrepender. E não digam que vão daqui.
Descobri um culto, uma obsessão musical. Com estes discos apaixonei-me irremediavelmente por esta senhora loura e de ar cândido, infelizmente já desaparecida. As suas interpretações têm aquele toque indefinível que as faz únicas, que distingue um bom técnico de um grande artista. Basta ouvir a subtileza de "Over the Rainbow" ou "Anniversary Song" para não querer outra coisa.
A sua voz cantou do Jazz aos Blues, passando por "covers" de êxitos Pop adaptadas ao seu estilo sereno e melodioso. Músicas como "Autumn Leaves", "What a Wonderful World", "Tennessee Waltz", "Danny Boy" ou "Fever", dão-nos a conhecer uma voz única e inconfundível.
Recentemente, e motivo porque me lembrei de fazer esta posta, saiu mais um disco de inéditos: "American Tune". Talvez este seja o mais fraco de todos os seus discos, essencialmente pela má qualidade de algumas gravações, mas que ainda assim vale a pena pelas recriações de "True Colors" ou "Yesterday".
Ouçam, por certo não se vão arrepender. E não digam que vão daqui.
Chá
Num dia qualquer, algures neste mundo.
- Por favor, é um Earl Grey para mim e um Darjeeling para o Sr. Laden.- disse Mário, virando-se depois para o seu barbudo acompanhante - Pois é Bin, acho que esta conversa vai ser muito produtiva. Temos mesmo de conseguir negociar com os americanos, não pode continuar assim. Sabe, eu não gosto deles, mas também andar a matá-los parece um pouco excessivo.
- Mário, eu sei que você é um amigo da nossa causa, que tem defendido todas as nossas intervenções e que ainda odeia mais o Bush do que eu, mas nós trabalhamos assim.
- Mas concretamente o que é que vocês pretendem?
- Mário, Mário, isso nem eu sei. Queremos é matar todos os aliados do imperialismo americano, todos os opressores do povo árabe.
- Espere um pouco Bin, vem aí a minha amiga Ana.
- Olá Mário, finalmente conseguiu encontrar-se com o Sr. Laden.
- Ana, deixe-me apresentar-lhe o meu amigo Laden, estamos a negociar.
- Encantado minha senhora, tenho ouvido falar muito de si.
- Oh! Sr. Laden - disse Ana corando um pouco - o prazer é todo meu, não é todos os dias que encontramos alguém que passa à prática o nosso ódio pelos americanos imperialistas.
- Mas sente-se, tome um chá connosco. Penso que me vai ser muito útil, agora que vai para o parlamento europeu.
- É um chá de Tília para a Sra. Gomes. Por favor.
- Por favor, é um Earl Grey para mim e um Darjeeling para o Sr. Laden.- disse Mário, virando-se depois para o seu barbudo acompanhante - Pois é Bin, acho que esta conversa vai ser muito produtiva. Temos mesmo de conseguir negociar com os americanos, não pode continuar assim. Sabe, eu não gosto deles, mas também andar a matá-los parece um pouco excessivo.
- Mário, eu sei que você é um amigo da nossa causa, que tem defendido todas as nossas intervenções e que ainda odeia mais o Bush do que eu, mas nós trabalhamos assim.
- Mas concretamente o que é que vocês pretendem?
- Mário, Mário, isso nem eu sei. Queremos é matar todos os aliados do imperialismo americano, todos os opressores do povo árabe.
- Espere um pouco Bin, vem aí a minha amiga Ana.
- Olá Mário, finalmente conseguiu encontrar-se com o Sr. Laden.
- Ana, deixe-me apresentar-lhe o meu amigo Laden, estamos a negociar.
- Encantado minha senhora, tenho ouvido falar muito de si.
- Oh! Sr. Laden - disse Ana corando um pouco - o prazer é todo meu, não é todos os dias que encontramos alguém que passa à prática o nosso ódio pelos americanos imperialistas.
- Mas sente-se, tome um chá connosco. Penso que me vai ser muito útil, agora que vai para o parlamento europeu.
- É um chá de Tília para a Sra. Gomes. Por favor.
16.3.04
A Primavera ameaça a sua chegada. Lisboa mostra as suas formas numa luz brilhante, única e inimitável. Dias assim fazem acreditar no mito de que se trabalha mais no Norte do que no Sul. A luz, o calor, o brilho da rua convidam a tudo menos à presença fechada entre quatro paredes de um escritório. A preguiça nasceu a Sul, isso é definitivo.
15.3.04
Cavaco I
O Sr. Aníbal é nome ligado a muita coisa que abomino. A sua simples menção tem consequências devastadoras na minha pele, manifestadas por sintomas de urticária aguda ou erzipela. A minha geração cresceu com Cavaco e o cavaquismo, sendo por ele marcada a bem ou mal. Para alguns ele foi o salvador da pátria, o Messias da direita (sendo que nunca percebi que ele era de direita), o Homem que pôs o país em ordem. Na verdade no seu primeiro mandato - em boa hora minoritário - o Sr. realmente deu ordem a um país desgovernado desde a revolução. Tal como Salazar o fez após a desastrosa primeira República que deixou o país de pantanas. Mas isso não faz dele, tal como não faz de Salazar, um governante exemplar a idolatrar. Devemos reconhecer os méritos a quem os deve, incluindo a ditadores, mas daí a avaliar a sua prestação política apenas por iso...
Cavaco foi muito mais do que isso, aliás o muito mais é o que conta no seu caso. Durante dez anos de poder, exercidos de forma dura ao nível de algumas ditaduras democráticas, instalou-se uma clientela sem nível, surgia do vácuo, que passeou o seu poder por este país com uma sobranceria e arrogância a toda a prova. Nunca entendi as desculpabilizações de que o Sr. estava mal rodeado, que a culpa não era dele. Como se na altura Cavaco não tivesse todo o poder possível no partido para impor que quer que lhe desse na real gana. Parece que o Sr. era um ente superior, vagueando num limbo de virtudes, sem possibilidade de banir os incompetentes sedentos de poder que o rodeavam.
Cavaco marcou uma geração, especialmente na forma como projectou um país. Mais do que pequenas questiúnculas de propinas ou regalias de médicos. O que Cavaco criou foi uma mentalidade nova em Portugal, um quase Homem Novo à imagem do seu ideal. O que Cavaco criou, e isso eu não esqueço, foi uma cultura popular em que todos eram ricos e com poder de compra, que o endividamento era algo sem consequências e de que bens, até então quase de luxo - electrodomésticos de toda a espécie, carros novos e, particularmente, casa próprias novas - eram bens ao alcance de todos. Antes fossem.
O novo-riquismo que a conjuntura económica propiciou alastrou-se ás classes mais baixas e o país endividou-se. Tudo correria bem, não fosse uma questão óbvia, a economia tem ciclos e depois da bonança vem a tempestade. Hoje Portugal é um país endividado, com famílias a viver no limiar da pobreza à custa das prestações mensais. Todos temos legitimamente a vontade de viver bem, de ser ricos, mas temos de ter noção do que podemos comprar, do que o nosso dinheiro pode suportar. O que Cavaco criou foi um optimismo exacerbado na população que a fez crer rica, quando no fundo isso não passou de uma fase momentânea. O que Cavaco criou foi uma mentalidade generalizada que o dinheiro e o poder são algo fácil de conseguir, e que os bens acessórios são, afinal, algo atingível por todos. Ainda hoje nos ressentimos disto. Os governos PS foram maus, isso poucos questionarão, mas era impossível manter a economia como ela vinha detrás, pelo motivo simples de que em economia não dependemos só da nossa vontade e do nosso querer, dependemos de uma conjuntura internacional que não dominamos, e à qual nos temos de sujeitar.
Os governos cavaquistas foram como pais que não sabem educar os seus filhos, achando-se no entanto educadores natos. Cavaco inundou o povo português de presentes, mas quem veio depois não teve, obviamente, dinheiro para continuar a festa. Acredito que para muitos os anos laranjas foram de prosperidade e de boa vida, mas tenho a certeza que para uma imensa maioria os anos seguintes foram de grandes apertos.
Mais do que criticar medidas avulsas, o que detesto em Cavaco é esta irresponsabilidade que foi enganar o povo português durante anos, falando de miragens e de oásis. Hoje em Portugal até a sociedade pode ter em geral um nível de vida aceitável, mas não consegue, de forma alguma, ter dinheiro para sustentar o nível a que se julga de direito. Enganar um povo é grave e o grande responsável tem um nome, Aníbal Cavaco Silva.
O regresso de Cavaco ás bocas do país tem apenas uma vantagem, para quem escreve
ou pensa, é que voltamos a ter uma "bête noire" para desancar, sem dó nem piedade. "O Independente", que foi o jornal da minha geração, viveu muito em função desta criatura política, alimentando-se do seu regime para fazer o melhor jornal português que eu tenho memória. O meu único e solitário aplauso a um regresso de Cavaco é o de poder ter alguém de quem dizer mal, convictamente mal, por muito e muito tempo. Acho mesmo assim que o meu prazer individual não se deve sobrepor aos interesses do meu país, por isso, na dúvida, Professor fique em casa com a Sra. Maria, deixe-se estar a comer bolo-rei no Natal com a família e não perturbe, uma vez mais, o seu país. Obrigado.
Cavaco foi muito mais do que isso, aliás o muito mais é o que conta no seu caso. Durante dez anos de poder, exercidos de forma dura ao nível de algumas ditaduras democráticas, instalou-se uma clientela sem nível, surgia do vácuo, que passeou o seu poder por este país com uma sobranceria e arrogância a toda a prova. Nunca entendi as desculpabilizações de que o Sr. estava mal rodeado, que a culpa não era dele. Como se na altura Cavaco não tivesse todo o poder possível no partido para impor que quer que lhe desse na real gana. Parece que o Sr. era um ente superior, vagueando num limbo de virtudes, sem possibilidade de banir os incompetentes sedentos de poder que o rodeavam.
Cavaco marcou uma geração, especialmente na forma como projectou um país. Mais do que pequenas questiúnculas de propinas ou regalias de médicos. O que Cavaco criou foi uma mentalidade nova em Portugal, um quase Homem Novo à imagem do seu ideal. O que Cavaco criou, e isso eu não esqueço, foi uma cultura popular em que todos eram ricos e com poder de compra, que o endividamento era algo sem consequências e de que bens, até então quase de luxo - electrodomésticos de toda a espécie, carros novos e, particularmente, casa próprias novas - eram bens ao alcance de todos. Antes fossem.
O novo-riquismo que a conjuntura económica propiciou alastrou-se ás classes mais baixas e o país endividou-se. Tudo correria bem, não fosse uma questão óbvia, a economia tem ciclos e depois da bonança vem a tempestade. Hoje Portugal é um país endividado, com famílias a viver no limiar da pobreza à custa das prestações mensais. Todos temos legitimamente a vontade de viver bem, de ser ricos, mas temos de ter noção do que podemos comprar, do que o nosso dinheiro pode suportar. O que Cavaco criou foi um optimismo exacerbado na população que a fez crer rica, quando no fundo isso não passou de uma fase momentânea. O que Cavaco criou foi uma mentalidade generalizada que o dinheiro e o poder são algo fácil de conseguir, e que os bens acessórios são, afinal, algo atingível por todos. Ainda hoje nos ressentimos disto. Os governos PS foram maus, isso poucos questionarão, mas era impossível manter a economia como ela vinha detrás, pelo motivo simples de que em economia não dependemos só da nossa vontade e do nosso querer, dependemos de uma conjuntura internacional que não dominamos, e à qual nos temos de sujeitar.
Os governos cavaquistas foram como pais que não sabem educar os seus filhos, achando-se no entanto educadores natos. Cavaco inundou o povo português de presentes, mas quem veio depois não teve, obviamente, dinheiro para continuar a festa. Acredito que para muitos os anos laranjas foram de prosperidade e de boa vida, mas tenho a certeza que para uma imensa maioria os anos seguintes foram de grandes apertos.
Mais do que criticar medidas avulsas, o que detesto em Cavaco é esta irresponsabilidade que foi enganar o povo português durante anos, falando de miragens e de oásis. Hoje em Portugal até a sociedade pode ter em geral um nível de vida aceitável, mas não consegue, de forma alguma, ter dinheiro para sustentar o nível a que se julga de direito. Enganar um povo é grave e o grande responsável tem um nome, Aníbal Cavaco Silva.
O regresso de Cavaco ás bocas do país tem apenas uma vantagem, para quem escreve
ou pensa, é que voltamos a ter uma "bête noire" para desancar, sem dó nem piedade. "O Independente", que foi o jornal da minha geração, viveu muito em função desta criatura política, alimentando-se do seu regime para fazer o melhor jornal português que eu tenho memória. O meu único e solitário aplauso a um regresso de Cavaco é o de poder ter alguém de quem dizer mal, convictamente mal, por muito e muito tempo. Acho mesmo assim que o meu prazer individual não se deve sobrepor aos interesses do meu país, por isso, na dúvida, Professor fique em casa com a Sra. Maria, deixe-se estar a comer bolo-rei no Natal com a família e não perturbe, uma vez mais, o seu país. Obrigado.
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