18.5.04
Comentários
O novo template permite comentários, deixo assim algum do meu autismo blogosférico e sujeito-me à crítica, para o bem e para o mal.
Scolari
Scolari revelou os convocados para o Euro sem nenhuma surpresa de maior. Apenas o regozijo por Rui Jorge poder estar entre eles, realmente no dopping - como na vida - não devemos ser mais papistas que o Papa. A minha solidariedade é ainda maior ao compartir com ele os mesmos problemas respiratórios, para além do mesmo salvador Pulmicort.
Baía obviamente não foi convocado, para quem ainda não tinha percebido – por burrice ou obstinação – a sua ausência não se deve a questões técnicas, claramente os problemas são outros, talvez advindos da "maravilhosa" campanha no último mundial. Scolari foi coerente com as escolhas anteriores e assume a total responsabilidade pelos resultados, um bom exemplo para os portugueses tão habituados a culpas sem culpados.
Baía obviamente não foi convocado, para quem ainda não tinha percebido – por burrice ou obstinação – a sua ausência não se deve a questões técnicas, claramente os problemas são outros, talvez advindos da "maravilhosa" campanha no último mundial. Scolari foi coerente com as escolhas anteriores e assume a total responsabilidade pelos resultados, um bom exemplo para os portugueses tão habituados a culpas sem culpados.
Rumsfeld
Há dias em que a minha proverbial calma foge para paragens desconhecidas. Hoje penso se não se poderia mandar Rumsfeld para uma qualquer prisão árabe. Continuo sem certezas nesta guerra, continuo a desconfiar das motivações assim como das contraposições. Encontro-me numa rara zona cinzenta, mas cada vez me incomoda mais a postura do senhor Rumsfeld, mas também a do senhor Moore. Talvez um combate de boxe tailandês entre os dois me desse algum ânimo.
14.5.04
Fé
Irrita-me profundamente a intolerância, perante manifestações de fé, de supostos arautos da liberdade, e a chacota contra quem conscientemente acredita em algo não necessariamente tangível. A liberdade é não para todos segundo eles, e quem tem o azar de ser católico sofre o estigma de não poder manifestar a sua fé sem que isso seja motivo de gozo e humilhação. Com senhores como estes no poder teríamos um país religiosamente tolerante como o Irão ou o Afeganistão dos talibãs. Aliás, penso que alguns são os mesmos que condenaram a intervenção no Afeganistão. Parece que ainda há quem pense que há religiões mais toleráveis que outras. Eu tenho cada vez menos paciência para a arrogância intelectual e para a falta de respeito. Como diz uma amiga minha: Logo eu que não posso com gente estúpida.
Madredeus
"A poesia da saudade em Portugal concebeu um lugar maior para o sentimento universal da melancolia, da nostalgia, da recordação do outro. Porque a saudade é um prazer – é o prazer de estar triste mediante a aceitação das suas razões. A saudade é algo que o sujeito gosta de viver porque o mantém perto do seu estado amoroso, é uma recordação que mantém o coração vivo. Esta alegria em estar triste é uma ideia extraordinária e terapêutica para a humanidade inteira, mas em Portugal apenas foi vivida nuns cadernos de poesia. Na origem dos Madredeus está o interesse em criar uma música em português com essa mensagem."
Excerto de uma entrevista a Pedro Ayres de Magalhães no DN Música, a propósito do novo disco dos Madredeus. Pelas suas palavras percebemos porque são os Madredeus o projecto mais interessante e consistente da actual música portuguesa. Poucas vezes a alma portuguesa foi expressa com tanta genuinidade como através dos acordes destes senhores e da voz de Teresa Salgueiro. Ainda não ouvi o novo disco - algo que conto fazer em breve - mas agora, depois de escrever estas linhas, vou substituir o "Koln Concert" de Keith Jarrett pelo "Espírito da Paz". Apetece-me alguma alma para enfrentar o resto da tarde.
Excerto de uma entrevista a Pedro Ayres de Magalhães no DN Música, a propósito do novo disco dos Madredeus. Pelas suas palavras percebemos porque são os Madredeus o projecto mais interessante e consistente da actual música portuguesa. Poucas vezes a alma portuguesa foi expressa com tanta genuinidade como através dos acordes destes senhores e da voz de Teresa Salgueiro. Ainda não ouvi o novo disco - algo que conto fazer em breve - mas agora, depois de escrever estas linhas, vou substituir o "Koln Concert" de Keith Jarrett pelo "Espírito da Paz". Apetece-me alguma alma para enfrentar o resto da tarde.
Petição
Recebo por e-mail uma petição e, para variar, resolvo ver o que é. Ao deparar com a referência a Monsanto e à tentativa de travar os delírios "santanistas" de esventrar este espaço de Lisboa, assino. Para Santana, o Monsanto ideal é o Monsanto sem putas mas cheio de feiras, cavalos e tudo o que lhe cheire a festa. Gosto de diversão, mas deixem Monsanto em paz e arranjem outro sítio para as putas desta vida.
Confiram e assinem aqui.
Confiram e assinem aqui.
Primavera
Finalmente o cheiro e o sol da primavera, o algodão já cai dos choupos e as flores inundam os campos. Sinto este clima bucólico e tento esquecer os céus plúmbeos e os ventos cortantes que nos devastavam o humor.
13.5.04
Primavera-Verão
Com a chegada do bom tempo (será que é desta?) o anarcoconservador (ou seja eu) resolveu mudar a sua imagem para cores mais de acordo com a época. Esta é a primeira tentativa, a ver se ficará ou não.
11.5.04
Sintra
Ao passar hoje na zona de Sintra fiquei tomado por um impulso artístico, sim, também eu quero fazer instalações, já tenho até uma primeira obra hoje imaginada no dito passeio. Num sítio bem visível do concelho Sintra, uma plataforma com uma trave e várias cordas. Em cada corda, com nó de enforcado, todos os últimos presidentes da Câmara da vila. Na impossibilidade humanitária de recorrer aos intérpretes reais, poderia utilizar réplicas em tamanho natural, sobre as quais a população tinha o direito de exprimir os mais profundos sentimentos. A interactividade da obra permitiria ao povo retribuir tudo o que os seus presidentes fizeram por ele. O problema maior está em encontrar verbas adequadas, já que penso que os manequins teriam de ser substituídos diariamente. Só de me lembrar de Massamá ou Barcarena…
Europeias
Consta que as próximas eleições serão europeias, até há quem diga que serão no dia 13 de Junho. Quem ao passear na rua reparar nos cartazes do PS e do BE terá quase a certeza de estarmos quase em legislativas. Ambos lançam palavras de ordem contra o desemprego e a guerra. Que eu saiba os deputados europeus não têm papel activo nas políticas de combate ao desemprego em cada país. Que eu saiba serão representantes do país na Europa, defendendo logicamente as posições políticas dos seus partidos. O que é que isso tem a ver com o desemprego. São cartazes destes que me abrem dúvidas sobre a minha quase certa abstenção.
10.5.04
Imagem
O Blogger mudou a imagem e deixou-nos com mais funcionalidades, isto merece um tempinho para explorar. Os posts seguem mais tarde.
5.5.04
FCP
O FCP vai à final da Liga dos Campeões, para além das felicitações um reparo, é de toda a justiça que lá esteja. Ontem o FCP mostrou como se pode dominar uma equipa em teoria superior, dando um banho de bola ao Deportivo. Bravo. Pena não ver o Sporting a jogar assim.
Notas de viagem - Índia
"Ao chegar a Deli conhecemos o cheiro a Índia, essa mistura de calor, humidade e especiarias, tão própria e única. Apanhamos um táxi para o hotel. Somos então tomados por uma vertigem alucinante, o trânsito de Deli dava tema para um ensaio. A condução à esquerda já daria para nos baralhar, mas isto não é nada comparado com o constante slalom por entre camiões e motas. É noite e tudo deveria estar calmo, apenas estranhamos a quantidade de camiões e as buzinadelas. A buzina é o instrumento preferido aqui, os piscas tornam-se acessórios, suplantados por estratégicas buzinadelas. Chega ao ponto de os camiões terem pintado atrás "Horn Please".
O motorista deambula em S's por entre os carros, sempre impávido perante tangentes micrométricas a tudo o que passa. Isto é a Índia, e no dia seguinte iremos perceber isto maximizado por um trânsito intenso e caótico. A segurança do volante só é compreendida após horas em trânsito, de facto a placidez dos motoristas é justificada. Tudo funciona numa anarquia organizada. Como se do caos surgisse uma incompreensível ordem por todos assumida."
O motorista deambula em S's por entre os carros, sempre impávido perante tangentes micrométricas a tudo o que passa. Isto é a Índia, e no dia seguinte iremos perceber isto maximizado por um trânsito intenso e caótico. A segurança do volante só é compreendida após horas em trânsito, de facto a placidez dos motoristas é justificada. Tudo funciona numa anarquia organizada. Como se do caos surgisse uma incompreensível ordem por todos assumida."
3.5.04
Televisão
Ontem entro a meio do programa de Maria João Avillez na Sic Notícias. Como convidados estavam Pedro Burmester, Mário Laginha e Bernardo Sassetti, ou seja três dos melhores pianistas portugueses. O programa foi um exemplo de que a cultura não têm de ser maçadora e restritiva, que pode ser, se não para todos, pelo menos para muitos. A conversa era quebrada quando os convidados se dirigiam ao piano para interpretar pequenos trechos. A harmonia entre tudo isto resultou em momentos televisivos bem agradáveis. Na TVI estava a passar o Fear Factor e na SIC o programa do Herman, a escolha não foi difícil.
Sporting
Última deslocação da época a Alvalade. Vejo o Sporting fazer uma primeira parte a um nível não atingido nesta época, no entanto golos nem vê-los. Na segunda parte a equipa quebra e Fernando Santos parece dormir sobre o assunto. O Benfica recupera e acaba por marcar um grande golo. A vitória moral não chega, o Sporting teve o jogo na mão e, inacreditavelmente, deixou-o fugir. Cá nos vamos habituando a isto, ás derrotas de cabeça erguida. Em tempos de Euro espero que não se contagie à selecção, como espero que não se contagie aos adeptos estrangeiros a inacreditável actuação da Juve Leo.
Para o ano há mais, e espero que melhor.
Para o ano há mais, e espero que melhor.
29.4.04
O buraco de Santana
Tal como se previa o famoso túnel do Marquês começou a afundar. Ainda não no sentido mais real da palavra, para já apenas figurativamente. A suspensão das obras demonstra que Santana está, de facto, obcecado em fazer obras rápidas. O túnel do Marquês é um disparate mas, uma vez tendo sido decidido construí-lo, o mínimo é que a construção seguisse os trâmites legais e as básicas regras da prudência. Não estamos a falar de uma qualquer zona do país, falamos duma das mais emblemáticas zonas de Lisboa. Agora a obra está suspensa mas duvido que seja cancelada. O que espera os lisboetas são mais dias de caos no centro da cidade, tudo por culpa da incúria de quem os governa.
Quando os políticos começam a brincar com os Elementos teme-se o pior. Maus exemplos não faltam, quem se esqueceu de um metro que já devia estar pronto e continua a meter água. Construir uma cidade passa antes por compreendê-la e também para isso servem os Estudos de Impacte Ambiental. Perante tudo isto estou cada vez com mais medo de Monsanto. Será que o Hipódromo, a Feira Popular, e todas as outras diversões de Santana também vão ser feitas sem os devidos estudos?
Quando os políticos começam a brincar com os Elementos teme-se o pior. Maus exemplos não faltam, quem se esqueceu de um metro que já devia estar pronto e continua a meter água. Construir uma cidade passa antes por compreendê-la e também para isso servem os Estudos de Impacte Ambiental. Perante tudo isto estou cada vez com mais medo de Monsanto. Será que o Hipódromo, a Feira Popular, e todas as outras diversões de Santana também vão ser feitas sem os devidos estudos?
27.4.04
Condecorações e a Liberdade
No nosso Portugal muita gente é condecorada por tudo e por nada. As consequências não serão graves para além da desvalorização de algo que poderia ser importante. Ontem o Presidente da República voltou ao ataque e enfaixou mais alguns. O assunto foi falado pela recusa do PP em permanecer à cerimónia em protesto com a condecoração da Dra. Isabel do Carmo. Realmente Portugal tem a característica de considerar que a liberdade é um exclusivo da esquerda, sendo a única luta válida pela liberdade a que levou à queda do Antigo Regime. Curiosa amnésia a que faz esquecer o que senhoras como esta fizeram em nome da liberdade, da sua liberdade. A grande lutadora da liberdade pertenceu a uma organização que bombeou o país já em regime democrático, por isso foi condecorada com a Ordem da Liberdade.
Após alguma reflexão percebi estarmos perante um delírio MonthyPhythoniano do senhor Presidente, afinal o seu sentido de humor inglês já é famoso. Só assim se explica esta extraordinária ideia, que foi aplaudida na plateia por outro grande defensor da Liberdade, Otelo. Assim vai esta democracia da Liberdade.
Após alguma reflexão percebi estarmos perante um delírio MonthyPhythoniano do senhor Presidente, afinal o seu sentido de humor inglês já é famoso. Só assim se explica esta extraordinária ideia, que foi aplaudida na plateia por outro grande defensor da Liberdade, Otelo. Assim vai esta democracia da Liberdade.
26.4.04
O meu 25 de Abril
Hoje muitas histórias são contadas sobre 25 de Abril de cada um. Sobre o de 1974 pouco tenho a acrescentar de experiência pessoal. A minha mente divagaria entre a preocupação esfomeada da premência de mais um biberão, ou sobre questões ambientais íntimas da troca de fraldas sujas. Nada disto impede que possa falar sobre o assunto, pelo menos terei a vantagem do distanciamento.
"Vivam os 25 e abaixo o 26 de Abril."
Esta frase poderia sintetizar o que penso sobre a revolução e o PREC. Portugal vivia em 1974 numa ditadura cinzenta e decadente, a revolução terminou com este suplício. No dia seguinte tudo se começou a coordenar para que uma nova ditadura fosse imposta, agora sob a cobertura de uma falsa liberdade marxista. Por isso não posso exultar com o PREC e com alguns dos denominados ideais de Abril. A liberdade, palavra que tanto se usa ao falar da revolução, apenas foi assegurada a 25 de Novembro. No meio fica um caminho que quase nos conduziu à desgraça, para além de ter conseguido atrasar mais - o que pareceria impossível - o país. Descolonização (inevitável mas irresponsável), Nacionalizações, Saneamentos, Intimidação. Não consigo ver nada de bom em tudo isto.
Comemoremos a revolução, mas não com gente pouco recomendável a ser louvada em público. Nada devo como português a Otelos e camaradas Vascos. Nada devo a quem nos quis levar para o fundo do poço. Acredito que a Europa e os EUA não nos deixassem cair no comunismo, mas assim a luta não se teria resumido a esta revolução de bananas que foi Abril. Comemoremos a liberdade, a evolução do país e a revolução, mas apenas ela, sem o que veio depois.
"Vivam os 25 e abaixo o 26 de Abril."
Esta frase poderia sintetizar o que penso sobre a revolução e o PREC. Portugal vivia em 1974 numa ditadura cinzenta e decadente, a revolução terminou com este suplício. No dia seguinte tudo se começou a coordenar para que uma nova ditadura fosse imposta, agora sob a cobertura de uma falsa liberdade marxista. Por isso não posso exultar com o PREC e com alguns dos denominados ideais de Abril. A liberdade, palavra que tanto se usa ao falar da revolução, apenas foi assegurada a 25 de Novembro. No meio fica um caminho que quase nos conduziu à desgraça, para além de ter conseguido atrasar mais - o que pareceria impossível - o país. Descolonização (inevitável mas irresponsável), Nacionalizações, Saneamentos, Intimidação. Não consigo ver nada de bom em tudo isto.
Comemoremos a revolução, mas não com gente pouco recomendável a ser louvada em público. Nada devo como português a Otelos e camaradas Vascos. Nada devo a quem nos quis levar para o fundo do poço. Acredito que a Europa e os EUA não nos deixassem cair no comunismo, mas assim a luta não se teria resumido a esta revolução de bananas que foi Abril. Comemoremos a liberdade, a evolução do país e a revolução, mas apenas ela, sem o que veio depois.
23.4.04
22.4.04
Filmes
Anteontem vejo a “Rapariga do Brinco de Pérola”, onde mais do que cinema, entranho-me pela pintura desse gigante que foi Vermeer. O filme é esteticamente deslumbrante, quer pela fotografia quer por Scarlett Johansson. Relembro os quadros já vistos ao vivo e cruzo essas cores poderosas e brilhantes que nos deixam em estado encantatório. Vermeer é dos meus preferidos e por isso gosto do filme. Pode não ser grande cinema, e não é, mas vale pela beleza, e não será suficiente?
Paixão
Ontem chego finalmente à "Paixão", o polémico e já tão falado filme de Mel Gibson. Não vou entrar nas questões religiosas, que guardarei para mim. O filme é no mínimo esmagador e esteticamente poderoso.
Por entre acusações de anti-semitismo e de violência gratuita um ponto importante se pode tirar do filme. O perigo das multidões, em particular quando acicatadas organizadamente. Não foram Os Judeus a entregar Jesus, foram aqueles homens, aquela multidão que, sim, era constituída por judeus. Isto faz toda a diferença, não foi um Povo a entregar Jesus, foi aquele povo naquele local. As multidões são assim, e o preocupante é pensar que ainda poderão ser assim, não para Jesus já sacrificado, mas para qualquer um de nós. Os grandes fenómenos fundamentalistas têm a sua génese neste ponto e é aqui que nasce a intolerância. As multidões são facilmente manipuláveis e, infelizmente, há muita gente a saber isso. Se para mais nada servir, pelo menos para reflectir sobre isto sirva o filme, a crentes e não-crentes.
Por entre acusações de anti-semitismo e de violência gratuita um ponto importante se pode tirar do filme. O perigo das multidões, em particular quando acicatadas organizadamente. Não foram Os Judeus a entregar Jesus, foram aqueles homens, aquela multidão que, sim, era constituída por judeus. Isto faz toda a diferença, não foi um Povo a entregar Jesus, foi aquele povo naquele local. As multidões são assim, e o preocupante é pensar que ainda poderão ser assim, não para Jesus já sacrificado, mas para qualquer um de nós. Os grandes fenómenos fundamentalistas têm a sua génese neste ponto e é aqui que nasce a intolerância. As multidões são facilmente manipuláveis e, infelizmente, há muita gente a saber isso. Se para mais nada servir, pelo menos para reflectir sobre isto sirva o filme, a crentes e não-crentes.
20.4.04
Futebol
Parece que uma série de gente ligada ao futebol, incluindo o inefável Major, está detida para inquérito judicial. Para quem segue - ainda que com um certo distanciamento - o futebol em Portugal, não causará estranheza. Aliás não é estranho que haja corrupção, o que será estranho é que isso esteja de facto a ser investigado. Talvez assim haja alguma vergonha em quem dirige o futebol e não surjam árbitros como o Sr. Paixão a arbitrar jogos importantes. É que errar é humano, mas tanto...
19.4.04
Al Qaeda 3 – Espanha 0
1-0 Atentados em vários comboios em Espanha causam centenas de mortos.
2-0 O PSOE ganha as eleições numa reviravolta inesperada causada pela reacção dúbia do governo PP à autoria dos atentados.
3-0 Zapatero manda retirar o contingente espanhol no Iraque.
Independentemente da justiça na intervenção no Iraque, a mudança da posição espanhola só vem provar uma coisa, o terrorismo pode ganhar. Zapatero terá as motivações mais certas e justas, mas recuar neste momento apenas mostra fraqueza. O terrorismo pode combater-se com guerra mas, mais importante, combate-se mantendo a normalidade, ainda que aparente, nas nossas vidas. Foi assim que o PP conseguiu reduzir a ETA a uma sombra do que já foi.
O PSOE era contra a intervenção no Iraque e estava no seu direito. O PSOE acha que a guerra devia acabar e está no seu direito. O que é tremendamente irresponsável e cobarde é abandonar um processo que ainda está a decorrer e no qual a normalidade está longe de ser estabelecida. O que Espanha mostra aqui é o total desprezo pela população iraquiana, abandonando-a à sua sorte.
Eu nem sequer sou um adepto incondicional da intervenção no Iraque, tenho até poucas certezas sobre este assunto, agora uma vez começado o processo não se pode sair dele em andamento. A responsabilidade de um governo e de um país vê-se em atitudes como esta e, aqui ao lado, podemos esperar o pior.
2-0 O PSOE ganha as eleições numa reviravolta inesperada causada pela reacção dúbia do governo PP à autoria dos atentados.
3-0 Zapatero manda retirar o contingente espanhol no Iraque.
Independentemente da justiça na intervenção no Iraque, a mudança da posição espanhola só vem provar uma coisa, o terrorismo pode ganhar. Zapatero terá as motivações mais certas e justas, mas recuar neste momento apenas mostra fraqueza. O terrorismo pode combater-se com guerra mas, mais importante, combate-se mantendo a normalidade, ainda que aparente, nas nossas vidas. Foi assim que o PP conseguiu reduzir a ETA a uma sombra do que já foi.
O PSOE era contra a intervenção no Iraque e estava no seu direito. O PSOE acha que a guerra devia acabar e está no seu direito. O que é tremendamente irresponsável e cobarde é abandonar um processo que ainda está a decorrer e no qual a normalidade está longe de ser estabelecida. O que Espanha mostra aqui é o total desprezo pela população iraquiana, abandonando-a à sua sorte.
Eu nem sequer sou um adepto incondicional da intervenção no Iraque, tenho até poucas certezas sobre este assunto, agora uma vez começado o processo não se pode sair dele em andamento. A responsabilidade de um governo e de um país vê-se em atitudes como esta e, aqui ao lado, podemos esperar o pior.
15.4.04
Viagem
Arrumo os papéis da última viagem, revejo o sempre incompleto bloco de notas, organizo as fotografias. Algumas imagens e palavras surgirão aqui no blogue. Não por ostentação, mas por uma vontade de partilhar esses cantos longínquos por onde os nossos antepassados andaram. Goa é uma experiência, um desafio aos nossos lusos sentidos, um encontro emotivo com o passado. Essa terra que foi nossa, essa terra onde deixámos marcas, por muito que estas se encontrem esbatidas pelo correr do tempo.
Panjim, Goa, 2004
Panjim, Goa 2004
Panjim, Goa, 2004
Panjim, Goa 2004
Blogosfera
Aproveito o reencontro com os blogues para actualizar os links, para saudar recém chegados, para dar parabéns. Alguns vão-se tornando realmente indispensáveis nestas viagens pela blogosfera.
13.4.04
Regresso
De volta a Portugal tudo na mesma. Percorro os jornais do costume e as notícias são iguais. Algo se mantem estável nos dias que correm.
O frio impressiona-me, as paragens distantes por onde alegremente passei a Páscoa queimaram-me os sentidos e penso estar numa qualquer Sibéria. A luz é ainda assim igual, a brilhante e pura luz de Lisboa que obsessivamente nos ilumina o espírito.
Navego um pouco pela blogosfera onde felizmente encontro os habitantes usuais. Ameaças de fecho de blogs em dia de mentiras e as habituais polémicas entre direitos e canhotos. O Iraque e Saramago causam no entanto algum enjoo, pode ser do jet-lag ou talvez não.
O trabalho chega, temível e aterrador, destronando a alegria insana que nos deixam as férias. Queixamo-nos, mas sem estes momentos penosos não teríamos o mesmo gozo em tempos de evasão. Pode ser uma grande mentira mas prefiro pensar assim, e pensar no destino da próxima viagem. Gosto de encarar a vida como uma sucessão de viagens entremeada por alguns momentos de trabalho. Gosto de escapar mas sempre de voltar. Portugal é um pequeno e mesquinho país mas - tal como com as mulheres - é impossível viver sem ele. Por isso é bom regressar mesmo pensando já em sair.
O frio impressiona-me, as paragens distantes por onde alegremente passei a Páscoa queimaram-me os sentidos e penso estar numa qualquer Sibéria. A luz é ainda assim igual, a brilhante e pura luz de Lisboa que obsessivamente nos ilumina o espírito.
Navego um pouco pela blogosfera onde felizmente encontro os habitantes usuais. Ameaças de fecho de blogs em dia de mentiras e as habituais polémicas entre direitos e canhotos. O Iraque e Saramago causam no entanto algum enjoo, pode ser do jet-lag ou talvez não.
O trabalho chega, temível e aterrador, destronando a alegria insana que nos deixam as férias. Queixamo-nos, mas sem estes momentos penosos não teríamos o mesmo gozo em tempos de evasão. Pode ser uma grande mentira mas prefiro pensar assim, e pensar no destino da próxima viagem. Gosto de encarar a vida como uma sucessão de viagens entremeada por alguns momentos de trabalho. Gosto de escapar mas sempre de voltar. Portugal é um pequeno e mesquinho país mas - tal como com as mulheres - é impossível viver sem ele. Por isso é bom regressar mesmo pensando já em sair.
26.3.04
Até já
A assiduidade esta semana não tem sido muita, o trabalho submergiu-me com uma voracidade avassaladora. Por esta vez os motivos são bons. Daqui a pouco parto em visita ao antigo Império, em puras e verdadeiras férias. Por duas inteiras semanas ausento-me, não sem uma ponta de saudade, desta já indispensável blogosfera.
Bons dias e boas noites para todos e até depois da Páscoa.
Bons dias e boas noites para todos e até depois da Páscoa.
22.3.04
Eva Cassidy
Todos temos os nossos cultos, aquelas coisas que inexplicavelmente nos arrebatam mais que quaisquer outras. Ouvi Eva Cassidy pela primeira vez por puro acaso. Vivia então em Espanha e, como era hábito se estivesse em casa, ouvia o programa da noite da Rádio 3. Por aqui passava alguma World Music, bom Jazz e improváveis registos. Subitamente uma voz angelical cantava "Fields of Gold" num timbre etéreo e com uma interpretação extraordinária. Esperei calmamente na esperança de ouvir o seu nome. Nada feito, seguiu-se uma música, e outra. Dias depois ouço de novo a mesma música e espero uma vez mais. Consegui saber mais do que o nome, soube, numa breve explicação do locutor, que era uma cantora americana que havia morrido há pouco tempo, ainda nova. Apenas editou um disco em vida e foi descoberta, por alguns eleitos, depois de morta, com a edição de alguns registos de originais. No dia seguinte corri à loja onde se encontravam os melhores discos tentando comprar o que houvesse. Consegui "Songbird" e "Time After Time", ambos colectâneas póstumas.
Descobri um culto, uma obsessão musical. Com estes discos apaixonei-me irremediavelmente por esta senhora loura e de ar cândido, infelizmente já desaparecida. As suas interpretações têm aquele toque indefinível que as faz únicas, que distingue um bom técnico de um grande artista. Basta ouvir a subtileza de "Over the Rainbow" ou "Anniversary Song" para não querer outra coisa.
A sua voz cantou do Jazz aos Blues, passando por "covers" de êxitos Pop adaptadas ao seu estilo sereno e melodioso. Músicas como "Autumn Leaves", "What a Wonderful World", "Tennessee Waltz", "Danny Boy" ou "Fever", dão-nos a conhecer uma voz única e inconfundível.
Recentemente, e motivo porque me lembrei de fazer esta posta, saiu mais um disco de inéditos: "American Tune". Talvez este seja o mais fraco de todos os seus discos, essencialmente pela má qualidade de algumas gravações, mas que ainda assim vale a pena pelas recriações de "True Colors" ou "Yesterday".
Ouçam, por certo não se vão arrepender. E não digam que vão daqui.
Descobri um culto, uma obsessão musical. Com estes discos apaixonei-me irremediavelmente por esta senhora loura e de ar cândido, infelizmente já desaparecida. As suas interpretações têm aquele toque indefinível que as faz únicas, que distingue um bom técnico de um grande artista. Basta ouvir a subtileza de "Over the Rainbow" ou "Anniversary Song" para não querer outra coisa.
A sua voz cantou do Jazz aos Blues, passando por "covers" de êxitos Pop adaptadas ao seu estilo sereno e melodioso. Músicas como "Autumn Leaves", "What a Wonderful World", "Tennessee Waltz", "Danny Boy" ou "Fever", dão-nos a conhecer uma voz única e inconfundível.
Recentemente, e motivo porque me lembrei de fazer esta posta, saiu mais um disco de inéditos: "American Tune". Talvez este seja o mais fraco de todos os seus discos, essencialmente pela má qualidade de algumas gravações, mas que ainda assim vale a pena pelas recriações de "True Colors" ou "Yesterday".
Ouçam, por certo não se vão arrepender. E não digam que vão daqui.
Chá
Num dia qualquer, algures neste mundo.
- Por favor, é um Earl Grey para mim e um Darjeeling para o Sr. Laden.- disse Mário, virando-se depois para o seu barbudo acompanhante - Pois é Bin, acho que esta conversa vai ser muito produtiva. Temos mesmo de conseguir negociar com os americanos, não pode continuar assim. Sabe, eu não gosto deles, mas também andar a matá-los parece um pouco excessivo.
- Mário, eu sei que você é um amigo da nossa causa, que tem defendido todas as nossas intervenções e que ainda odeia mais o Bush do que eu, mas nós trabalhamos assim.
- Mas concretamente o que é que vocês pretendem?
- Mário, Mário, isso nem eu sei. Queremos é matar todos os aliados do imperialismo americano, todos os opressores do povo árabe.
- Espere um pouco Bin, vem aí a minha amiga Ana.
- Olá Mário, finalmente conseguiu encontrar-se com o Sr. Laden.
- Ana, deixe-me apresentar-lhe o meu amigo Laden, estamos a negociar.
- Encantado minha senhora, tenho ouvido falar muito de si.
- Oh! Sr. Laden - disse Ana corando um pouco - o prazer é todo meu, não é todos os dias que encontramos alguém que passa à prática o nosso ódio pelos americanos imperialistas.
- Mas sente-se, tome um chá connosco. Penso que me vai ser muito útil, agora que vai para o parlamento europeu.
- É um chá de Tília para a Sra. Gomes. Por favor.
- Por favor, é um Earl Grey para mim e um Darjeeling para o Sr. Laden.- disse Mário, virando-se depois para o seu barbudo acompanhante - Pois é Bin, acho que esta conversa vai ser muito produtiva. Temos mesmo de conseguir negociar com os americanos, não pode continuar assim. Sabe, eu não gosto deles, mas também andar a matá-los parece um pouco excessivo.
- Mário, eu sei que você é um amigo da nossa causa, que tem defendido todas as nossas intervenções e que ainda odeia mais o Bush do que eu, mas nós trabalhamos assim.
- Mas concretamente o que é que vocês pretendem?
- Mário, Mário, isso nem eu sei. Queremos é matar todos os aliados do imperialismo americano, todos os opressores do povo árabe.
- Espere um pouco Bin, vem aí a minha amiga Ana.
- Olá Mário, finalmente conseguiu encontrar-se com o Sr. Laden.
- Ana, deixe-me apresentar-lhe o meu amigo Laden, estamos a negociar.
- Encantado minha senhora, tenho ouvido falar muito de si.
- Oh! Sr. Laden - disse Ana corando um pouco - o prazer é todo meu, não é todos os dias que encontramos alguém que passa à prática o nosso ódio pelos americanos imperialistas.
- Mas sente-se, tome um chá connosco. Penso que me vai ser muito útil, agora que vai para o parlamento europeu.
- É um chá de Tília para a Sra. Gomes. Por favor.
16.3.04
A Primavera ameaça a sua chegada. Lisboa mostra as suas formas numa luz brilhante, única e inimitável. Dias assim fazem acreditar no mito de que se trabalha mais no Norte do que no Sul. A luz, o calor, o brilho da rua convidam a tudo menos à presença fechada entre quatro paredes de um escritório. A preguiça nasceu a Sul, isso é definitivo.
15.3.04
Cavaco I
O Sr. Aníbal é nome ligado a muita coisa que abomino. A sua simples menção tem consequências devastadoras na minha pele, manifestadas por sintomas de urticária aguda ou erzipela. A minha geração cresceu com Cavaco e o cavaquismo, sendo por ele marcada a bem ou mal. Para alguns ele foi o salvador da pátria, o Messias da direita (sendo que nunca percebi que ele era de direita), o Homem que pôs o país em ordem. Na verdade no seu primeiro mandato - em boa hora minoritário - o Sr. realmente deu ordem a um país desgovernado desde a revolução. Tal como Salazar o fez após a desastrosa primeira República que deixou o país de pantanas. Mas isso não faz dele, tal como não faz de Salazar, um governante exemplar a idolatrar. Devemos reconhecer os méritos a quem os deve, incluindo a ditadores, mas daí a avaliar a sua prestação política apenas por iso...
Cavaco foi muito mais do que isso, aliás o muito mais é o que conta no seu caso. Durante dez anos de poder, exercidos de forma dura ao nível de algumas ditaduras democráticas, instalou-se uma clientela sem nível, surgia do vácuo, que passeou o seu poder por este país com uma sobranceria e arrogância a toda a prova. Nunca entendi as desculpabilizações de que o Sr. estava mal rodeado, que a culpa não era dele. Como se na altura Cavaco não tivesse todo o poder possível no partido para impor que quer que lhe desse na real gana. Parece que o Sr. era um ente superior, vagueando num limbo de virtudes, sem possibilidade de banir os incompetentes sedentos de poder que o rodeavam.
Cavaco marcou uma geração, especialmente na forma como projectou um país. Mais do que pequenas questiúnculas de propinas ou regalias de médicos. O que Cavaco criou foi uma mentalidade nova em Portugal, um quase Homem Novo à imagem do seu ideal. O que Cavaco criou, e isso eu não esqueço, foi uma cultura popular em que todos eram ricos e com poder de compra, que o endividamento era algo sem consequências e de que bens, até então quase de luxo - electrodomésticos de toda a espécie, carros novos e, particularmente, casa próprias novas - eram bens ao alcance de todos. Antes fossem.
O novo-riquismo que a conjuntura económica propiciou alastrou-se ás classes mais baixas e o país endividou-se. Tudo correria bem, não fosse uma questão óbvia, a economia tem ciclos e depois da bonança vem a tempestade. Hoje Portugal é um país endividado, com famílias a viver no limiar da pobreza à custa das prestações mensais. Todos temos legitimamente a vontade de viver bem, de ser ricos, mas temos de ter noção do que podemos comprar, do que o nosso dinheiro pode suportar. O que Cavaco criou foi um optimismo exacerbado na população que a fez crer rica, quando no fundo isso não passou de uma fase momentânea. O que Cavaco criou foi uma mentalidade generalizada que o dinheiro e o poder são algo fácil de conseguir, e que os bens acessórios são, afinal, algo atingível por todos. Ainda hoje nos ressentimos disto. Os governos PS foram maus, isso poucos questionarão, mas era impossível manter a economia como ela vinha detrás, pelo motivo simples de que em economia não dependemos só da nossa vontade e do nosso querer, dependemos de uma conjuntura internacional que não dominamos, e à qual nos temos de sujeitar.
Os governos cavaquistas foram como pais que não sabem educar os seus filhos, achando-se no entanto educadores natos. Cavaco inundou o povo português de presentes, mas quem veio depois não teve, obviamente, dinheiro para continuar a festa. Acredito que para muitos os anos laranjas foram de prosperidade e de boa vida, mas tenho a certeza que para uma imensa maioria os anos seguintes foram de grandes apertos.
Mais do que criticar medidas avulsas, o que detesto em Cavaco é esta irresponsabilidade que foi enganar o povo português durante anos, falando de miragens e de oásis. Hoje em Portugal até a sociedade pode ter em geral um nível de vida aceitável, mas não consegue, de forma alguma, ter dinheiro para sustentar o nível a que se julga de direito. Enganar um povo é grave e o grande responsável tem um nome, Aníbal Cavaco Silva.
O regresso de Cavaco ás bocas do país tem apenas uma vantagem, para quem escreve
ou pensa, é que voltamos a ter uma "bête noire" para desancar, sem dó nem piedade. "O Independente", que foi o jornal da minha geração, viveu muito em função desta criatura política, alimentando-se do seu regime para fazer o melhor jornal português que eu tenho memória. O meu único e solitário aplauso a um regresso de Cavaco é o de poder ter alguém de quem dizer mal, convictamente mal, por muito e muito tempo. Acho mesmo assim que o meu prazer individual não se deve sobrepor aos interesses do meu país, por isso, na dúvida, Professor fique em casa com a Sra. Maria, deixe-se estar a comer bolo-rei no Natal com a família e não perturbe, uma vez mais, o seu país. Obrigado.
Cavaco foi muito mais do que isso, aliás o muito mais é o que conta no seu caso. Durante dez anos de poder, exercidos de forma dura ao nível de algumas ditaduras democráticas, instalou-se uma clientela sem nível, surgia do vácuo, que passeou o seu poder por este país com uma sobranceria e arrogância a toda a prova. Nunca entendi as desculpabilizações de que o Sr. estava mal rodeado, que a culpa não era dele. Como se na altura Cavaco não tivesse todo o poder possível no partido para impor que quer que lhe desse na real gana. Parece que o Sr. era um ente superior, vagueando num limbo de virtudes, sem possibilidade de banir os incompetentes sedentos de poder que o rodeavam.
Cavaco marcou uma geração, especialmente na forma como projectou um país. Mais do que pequenas questiúnculas de propinas ou regalias de médicos. O que Cavaco criou foi uma mentalidade nova em Portugal, um quase Homem Novo à imagem do seu ideal. O que Cavaco criou, e isso eu não esqueço, foi uma cultura popular em que todos eram ricos e com poder de compra, que o endividamento era algo sem consequências e de que bens, até então quase de luxo - electrodomésticos de toda a espécie, carros novos e, particularmente, casa próprias novas - eram bens ao alcance de todos. Antes fossem.
O novo-riquismo que a conjuntura económica propiciou alastrou-se ás classes mais baixas e o país endividou-se. Tudo correria bem, não fosse uma questão óbvia, a economia tem ciclos e depois da bonança vem a tempestade. Hoje Portugal é um país endividado, com famílias a viver no limiar da pobreza à custa das prestações mensais. Todos temos legitimamente a vontade de viver bem, de ser ricos, mas temos de ter noção do que podemos comprar, do que o nosso dinheiro pode suportar. O que Cavaco criou foi um optimismo exacerbado na população que a fez crer rica, quando no fundo isso não passou de uma fase momentânea. O que Cavaco criou foi uma mentalidade generalizada que o dinheiro e o poder são algo fácil de conseguir, e que os bens acessórios são, afinal, algo atingível por todos. Ainda hoje nos ressentimos disto. Os governos PS foram maus, isso poucos questionarão, mas era impossível manter a economia como ela vinha detrás, pelo motivo simples de que em economia não dependemos só da nossa vontade e do nosso querer, dependemos de uma conjuntura internacional que não dominamos, e à qual nos temos de sujeitar.
Os governos cavaquistas foram como pais que não sabem educar os seus filhos, achando-se no entanto educadores natos. Cavaco inundou o povo português de presentes, mas quem veio depois não teve, obviamente, dinheiro para continuar a festa. Acredito que para muitos os anos laranjas foram de prosperidade e de boa vida, mas tenho a certeza que para uma imensa maioria os anos seguintes foram de grandes apertos.
Mais do que criticar medidas avulsas, o que detesto em Cavaco é esta irresponsabilidade que foi enganar o povo português durante anos, falando de miragens e de oásis. Hoje em Portugal até a sociedade pode ter em geral um nível de vida aceitável, mas não consegue, de forma alguma, ter dinheiro para sustentar o nível a que se julga de direito. Enganar um povo é grave e o grande responsável tem um nome, Aníbal Cavaco Silva.
O regresso de Cavaco ás bocas do país tem apenas uma vantagem, para quem escreve
ou pensa, é que voltamos a ter uma "bête noire" para desancar, sem dó nem piedade. "O Independente", que foi o jornal da minha geração, viveu muito em função desta criatura política, alimentando-se do seu regime para fazer o melhor jornal português que eu tenho memória. O meu único e solitário aplauso a um regresso de Cavaco é o de poder ter alguém de quem dizer mal, convictamente mal, por muito e muito tempo. Acho mesmo assim que o meu prazer individual não se deve sobrepor aos interesses do meu país, por isso, na dúvida, Professor fique em casa com a Sra. Maria, deixe-se estar a comer bolo-rei no Natal com a família e não perturbe, uma vez mais, o seu país. Obrigado.
Espanha
Os espanhóis surpreenderam no dia de ontem, optando pela mudança no governo e castigando o PP de forma implacável. Tudo foi estranho, mas a provar-se a ocultação de factos por parte do governo não podemos negar que o castigo terá sido justo. No entanto a manifestação de Sábado provou que os escrúpulos políticos não foram melhores do outro lado, ao aproveitar o dia de reflexão para a mais clara campanha eleitoral.
Tudo me fez confusão porque o atentado foi de enorme gravidade para o país e para a Europa e durante dois dias isso foi esquecido em nome de interesses eleitorais. Não compreendo os festejos do PSOE (como não compreenderia se fossem do PP) e acho da maior falta de gosto que se comemore em dias que deveriam ser de luto.
O PSOE ganhou porque o PP apoiou os Estados Unidos na guerra do Iraque. Será que com o PSOE a Espanha não teria apoiado a guerra? Lembremo-nos dos tempos de Felipe Gonzalez.
Tudo me fez confusão porque o atentado foi de enorme gravidade para o país e para a Europa e durante dois dias isso foi esquecido em nome de interesses eleitorais. Não compreendo os festejos do PSOE (como não compreenderia se fossem do PP) e acho da maior falta de gosto que se comemore em dias que deveriam ser de luto.
O PSOE ganhou porque o PP apoiou os Estados Unidos na guerra do Iraque. Será que com o PSOE a Espanha não teria apoiado a guerra? Lembremo-nos dos tempos de Felipe Gonzalez.
11.3.04
O Terrorismo Relativo
O mundo está de luto, pelo menos o mundo civilizado e os seres humanos dignos desse nome. Não são só os espanhóis, que sofrem obviamente mais, que estão chocados e revoltados. A civilização que tentamos construir não é esta.
Os paladinos de certas ideias irão relativizar este atentado com as tendências imperialistas do Reino de Espanha, acharão justa mais esta forma de protesto de um povo oprimido contra o país dominador? Desta vez foi aqui ao lado, com o Euro poderá ser aqui, dessa vez de quem será a culpa, quem será o infame que obrigará a mais um acto de revolta contra a opressão. Com o 11 de Setembro quase conseguiram justificar o deliberado assassinato terrorista de milhares de pessoas, agora foram 170, serão apenas estatísticas como dizia Estaline. Confirme-se a responsabilidade da ETA e talvez ainda hoje o reverendo do bloco e a pandilha do costume venham justificar a luta do povo Basco, talvez mandem o Professor Rosas contar a história manipulada como só ele é capaz. Confirme-se que o atentado partiu da Al Qaeda e logo virão dizer que é consequência directa da guerra do Iraque e do apoio dado por Espanha aos Estados Unidos. Talvez façam manifestações pelos direitos humanos das pessoas que venham a ser detidas, agora respeitar os mortos e perceber que os fins não justificam os meios e que em democracia isto vale tanto como um assassinato a sangue frio, isso não creio.
O relativismo moral em casos destes é igualmente criminoso, não falamos aqui de uma bomba num alvo estratégico com vítimas colaterais, falamos de matar deliberadamente seres humanos, de usar a morte em nome não se sabe bem de quê. Aqui a única relatividade vem do valor da vida humana, para uns ela vale tudo, para outros vale nada.
Os paladinos de certas ideias irão relativizar este atentado com as tendências imperialistas do Reino de Espanha, acharão justa mais esta forma de protesto de um povo oprimido contra o país dominador? Desta vez foi aqui ao lado, com o Euro poderá ser aqui, dessa vez de quem será a culpa, quem será o infame que obrigará a mais um acto de revolta contra a opressão. Com o 11 de Setembro quase conseguiram justificar o deliberado assassinato terrorista de milhares de pessoas, agora foram 170, serão apenas estatísticas como dizia Estaline. Confirme-se a responsabilidade da ETA e talvez ainda hoje o reverendo do bloco e a pandilha do costume venham justificar a luta do povo Basco, talvez mandem o Professor Rosas contar a história manipulada como só ele é capaz. Confirme-se que o atentado partiu da Al Qaeda e logo virão dizer que é consequência directa da guerra do Iraque e do apoio dado por Espanha aos Estados Unidos. Talvez façam manifestações pelos direitos humanos das pessoas que venham a ser detidas, agora respeitar os mortos e perceber que os fins não justificam os meios e que em democracia isto vale tanto como um assassinato a sangue frio, isso não creio.
O relativismo moral em casos destes é igualmente criminoso, não falamos aqui de uma bomba num alvo estratégico com vítimas colaterais, falamos de matar deliberadamente seres humanos, de usar a morte em nome não se sabe bem de quê. Aqui a única relatividade vem do valor da vida humana, para uns ela vale tudo, para outros vale nada.
10.3.04
Estalinismo
Portugal será um país democrático, mas há instituições muito respeitadas que não o são. A TSF lançou um CD com os melhores momentos da sua história. A ideia parece interessante e podemos ouvir os relatos, então em directo, de alguns dos mais importantes acontecimentos da nossa história recente. O que é estranho é o fortíssimo ataque de amnésia que os levou a esquecerem-se de um dos seus mais proeminentes jornalistas e ex-director: Carlos Andrade. Esta falha vem acompanhada pela ausência do momento em que a TSF mais visibilidade teve, aquele que, pelo menos para mim, é o marco da sua existência, a causa de Timor. Carlos Andrade uniu o país em torno de uma causa, tendo inclusivamente recebido distinções por isso. Como é possível a ausência de qualquer referência a isto no CD em causa.
Reescrever a história sempre foi uma tentação estalinista, que certa gente cultiva e onde continua a cair. Não percebo é como um facto deste passa despercebido aos nossos sempre tão democráticos jornalistas. Parece que os que se tomam por virgens puras da democracia são afinal prostitutas da liberdade.
Reescrever a história sempre foi uma tentação estalinista, que certa gente cultiva e onde continua a cair. Não percebo é como um facto deste passa despercebido aos nossos sempre tão democráticos jornalistas. Parece que os que se tomam por virgens puras da democracia são afinal prostitutas da liberdade.
Portugal é definitivamente um país curioso.
O Estado queixa-se que os portugueses não pagam os impostos e que as dívidas à Segurança Social são vastas e incobráveis. Facto. No meu caso numa semana consegui que me acontecesse exactamente o oposto. Enviei a declaração de IVA, por correio porque as declarações electrónicas estavam bloqueadas, e não consegui pagar por Multibanco. Motivos insondáveis levavam a que os pagamentos não estivessem disponíveis. Até aqui tudo mais ou menos normal, um problema de resolução a curto prazo, espero, e que voltará a funcionar como estou habituado.
Mais grave se passou com a Segurança Social, aqui tudo foi, e está a ser, muito pior. Há algum tempo deixei que os pagamentos da minha contribuição mensal fossem efectuados por transferência bancária. Tudo era para mim, e para o Estado, mais simples, evitando esquecimentos e atrasos. Para tal tinha uma conta específica onde coloquei o dinheiro necessário para alguns meses. Um dia resolvi ver quanto dinheiro me restava e constatei admirado que ainda tinha muito, mais do que era suposto. Deixei andar até que, uns meses depois, recebi uma carta da Segurança Social a dizer que tinham deixado de fazer cobrança por transferência bancária. Sugeriam o pagamento por Multibanco, para o qual enviaram instruções. Como precisei do dinheiro que tinha de parte na altura deixei andar sem pagar. Fui deixando de pagar, por atrasos em cobranças, até que quis voluntariamente pagar. Aí tudo se complicou!
Comecei por achar que, tendo alguns meses em atraso, teria de pagar directamente na tesouraria. Cheguei lá e informaram-me que não, que o melhor era ir ao Multibanco que assim não pagava juros de mora. Achei estranho, mas, no dia seguinte, lá fui até ao Multibanco. Depois de algumas tentativas disse que o número de beneficiário, que tinha no cartão na minha mão, era errado. Telefonei então e disseram-me que se calhar eu ainda não estava nos arquivos informáticos e teria de fazer o pagamento manualmente (isto apesar da carta que me enviaram para pagar no Multibanco).
Há dois dias entrei na Loja do Cidadão dos Restauradores pelas 11 horas e tirei uma senha, preparando-me para alguma demora. Olhei o meu número, olhei o número onde ia, e "apenas" faltavam 270 pessoas. Como tinha coisas para fazer, desisti e voltei ontem. Ao chegar consegui o número 411, sendo que ainda ia no 77. Passeei pela Baixa, almocei, subi ao Chiado, voltei, subi a Avenida da Liberdade, voltei, li o jornal e um livro e esperei calmamente a partir do 350 implorando por desistências. Afinal não esperei muito tempo, apenas 7 horas a que me sujeitei pela necessidade real de regularizar a minha situação. A senhora que me atendeu era de grande simpatia, o que me surpreendeu, e ao ouvir o meu caso começou por dizer que ali não aceitavam pagamentos. Ia desmaiando. Ao ver o meu ar assassino de súbito pânico a senhora acalmou-me e tentou resolver a situação. O melhor que conseguiu for dizer-me para ir à Tesouraria do Areeiro onde irei amanhã.
Tudo isto é extraordinário, eu quero pagar, quero realmente e de boa vontade pagar. Não estou a fugir mais dos meus atrasos, não me escondo esperando os 5 anos para ser amnistiado, eu quero pagar. Eu quero mas o Estado não facilita, e até não era preciso facilitar muito, bastava não criar um muro quase intransponível a quem quer pagar. Eu sei que pareço louco neste meu desejo, mas não tivesse mesmo de ter a situação legalmente resolvida e garanto que a Segurança Social não veria de mim nem mais um cêntimo. É que bolas, eu sabia que o Estado era mau pagador, agora que não nos deixava pagar!
Mais grave se passou com a Segurança Social, aqui tudo foi, e está a ser, muito pior. Há algum tempo deixei que os pagamentos da minha contribuição mensal fossem efectuados por transferência bancária. Tudo era para mim, e para o Estado, mais simples, evitando esquecimentos e atrasos. Para tal tinha uma conta específica onde coloquei o dinheiro necessário para alguns meses. Um dia resolvi ver quanto dinheiro me restava e constatei admirado que ainda tinha muito, mais do que era suposto. Deixei andar até que, uns meses depois, recebi uma carta da Segurança Social a dizer que tinham deixado de fazer cobrança por transferência bancária. Sugeriam o pagamento por Multibanco, para o qual enviaram instruções. Como precisei do dinheiro que tinha de parte na altura deixei andar sem pagar. Fui deixando de pagar, por atrasos em cobranças, até que quis voluntariamente pagar. Aí tudo se complicou!
Comecei por achar que, tendo alguns meses em atraso, teria de pagar directamente na tesouraria. Cheguei lá e informaram-me que não, que o melhor era ir ao Multibanco que assim não pagava juros de mora. Achei estranho, mas, no dia seguinte, lá fui até ao Multibanco. Depois de algumas tentativas disse que o número de beneficiário, que tinha no cartão na minha mão, era errado. Telefonei então e disseram-me que se calhar eu ainda não estava nos arquivos informáticos e teria de fazer o pagamento manualmente (isto apesar da carta que me enviaram para pagar no Multibanco).
Há dois dias entrei na Loja do Cidadão dos Restauradores pelas 11 horas e tirei uma senha, preparando-me para alguma demora. Olhei o meu número, olhei o número onde ia, e "apenas" faltavam 270 pessoas. Como tinha coisas para fazer, desisti e voltei ontem. Ao chegar consegui o número 411, sendo que ainda ia no 77. Passeei pela Baixa, almocei, subi ao Chiado, voltei, subi a Avenida da Liberdade, voltei, li o jornal e um livro e esperei calmamente a partir do 350 implorando por desistências. Afinal não esperei muito tempo, apenas 7 horas a que me sujeitei pela necessidade real de regularizar a minha situação. A senhora que me atendeu era de grande simpatia, o que me surpreendeu, e ao ouvir o meu caso começou por dizer que ali não aceitavam pagamentos. Ia desmaiando. Ao ver o meu ar assassino de súbito pânico a senhora acalmou-me e tentou resolver a situação. O melhor que conseguiu for dizer-me para ir à Tesouraria do Areeiro onde irei amanhã.
Tudo isto é extraordinário, eu quero pagar, quero realmente e de boa vontade pagar. Não estou a fugir mais dos meus atrasos, não me escondo esperando os 5 anos para ser amnistiado, eu quero pagar. Eu quero mas o Estado não facilita, e até não era preciso facilitar muito, bastava não criar um muro quase intransponível a quem quer pagar. Eu sei que pareço louco neste meu desejo, mas não tivesse mesmo de ter a situação legalmente resolvida e garanto que a Segurança Social não veria de mim nem mais um cêntimo. É que bolas, eu sabia que o Estado era mau pagador, agora que não nos deixava pagar!
8.3.04
Europa
Uma sondagem apareceu a desestabilizar os comentadores políticos e os jornalistas. Segundo a mesma, os portugueses preparam-se para se abster em 70% ás próximas eleições europeias. Não percebo o espanto.
Entrámos na Europa já faz um tempo e em teoria o povo deveria estar habituado a essa convivência. Nada mais errado, em vários anos de Europa, essa entidade abstracta e indefinível, nunca os políticos portugueses, do alto do seu pedestal, se incomodaram a explicar ás massas no que consistia de facto a Europa. Teria tido muita graça acompanhar esta sondagem com perguntas como: O que é a Europa? Qual o lugar de Portugal na Europa? Para que servem os deputados europeus que vamos eleger? Como é composta a Europa no que toca aos centros de decisão? Quais são os nossos direitos e deveres em relação à Europa? Aposto, singelo contra dobrado, que as respostas correctas não ultrapassariam os 5%. Mais interessante ainda seria repetir estas perguntas aos nossos deputados e políticos, com um ligeiro aumentar da percentagem ela não seria, ainda assim, brilhante.
Como é que esperam que o povo vote e se desloque a dar o seu contributo para algo que nem vagamente compreende. A Europa para o comum dos mortais portugueses não é mais do que uma abstracção que nos manda uma massas e que nos obriga a cumprir algumas normas (a maioria das quais idiotas). Se falarmos de Europa o que nos ocorre são os fundos estruturais, os "girassídios", os Range Rover comprados para modernizar a agricultura portuguesa, as alterações impostas aos nomes genuínos de tabacos (o triste caso do Português, agora não Suave) ou as tentativas de proibir os jaquinzinhos (como sobreviver a esta falta!). Ironias à parte, é claro que também nos trouxe coisas boas, só tenho mais dificuldade em me lembrar delas.
A nossa presença na Europa é inquestionável, agora a nossa posição relativa nunca foi discutida de forma perceptível, de forma que permitisse uma consulta popular efectiva. Mas afinal para que é preciso um referendo sobre a Europa, a taxa de abstenção nas eleições europeias não é mais do que isso, uma clara demonstração do desinteresse popular perante essa utopia federalista que é a Europa.
Entrámos na Europa já faz um tempo e em teoria o povo deveria estar habituado a essa convivência. Nada mais errado, em vários anos de Europa, essa entidade abstracta e indefinível, nunca os políticos portugueses, do alto do seu pedestal, se incomodaram a explicar ás massas no que consistia de facto a Europa. Teria tido muita graça acompanhar esta sondagem com perguntas como: O que é a Europa? Qual o lugar de Portugal na Europa? Para que servem os deputados europeus que vamos eleger? Como é composta a Europa no que toca aos centros de decisão? Quais são os nossos direitos e deveres em relação à Europa? Aposto, singelo contra dobrado, que as respostas correctas não ultrapassariam os 5%. Mais interessante ainda seria repetir estas perguntas aos nossos deputados e políticos, com um ligeiro aumentar da percentagem ela não seria, ainda assim, brilhante.
Como é que esperam que o povo vote e se desloque a dar o seu contributo para algo que nem vagamente compreende. A Europa para o comum dos mortais portugueses não é mais do que uma abstracção que nos manda uma massas e que nos obriga a cumprir algumas normas (a maioria das quais idiotas). Se falarmos de Europa o que nos ocorre são os fundos estruturais, os "girassídios", os Range Rover comprados para modernizar a agricultura portuguesa, as alterações impostas aos nomes genuínos de tabacos (o triste caso do Português, agora não Suave) ou as tentativas de proibir os jaquinzinhos (como sobreviver a esta falta!). Ironias à parte, é claro que também nos trouxe coisas boas, só tenho mais dificuldade em me lembrar delas.
A nossa presença na Europa é inquestionável, agora a nossa posição relativa nunca foi discutida de forma perceptível, de forma que permitisse uma consulta popular efectiva. Mas afinal para que é preciso um referendo sobre a Europa, a taxa de abstenção nas eleições europeias não é mais do que isso, uma clara demonstração do desinteresse popular perante essa utopia federalista que é a Europa.
Anos II (3 dias depois)
Pensei que chegar aqui fosse mais difícil, há tempos que consumo o espírito desejando que esta data tardasse a chegar. Imaginava o calendário a saltar o dia, sem traços que marcassem uma chegada indesejada. Não por ingratidão, mas porque há números que marcam, que nos fazem pensar, que nos fazem crer que tudo mudou. A outra escala foi o que se passou aos 18. Mas esta vez avizinhava-se mais dura, e foi, sendo que apesar de tudo foi muito melhor do que o esperado.
Sabemos que números nada dizem, que a idade, a verdadeira idade, permanece encerrada no espírito. Ainda assim custa, custa mudar de dezena, custa passar a um clube do qual não nos sentimos membros. A sensação é a de entrar numa festa sem ter sido convidado, sentimo-nos desconfortáveis, fora do "habitat".
Irrita-me saber que alguns disparates que faço, e espero continuar a fazer, sejam agora apontados como de outras idades, irrita-me que as roupas que visto sejam censuradas por questões etárias. No fundo é isto que custa porque a minha postura será exactamente a mesma.
Um problema supera os anteriores, o tempo jovem que sentimos não ter vivido, as coisas que queríamos ter feito, a sensação do tempo nos fugir das mãos como água. A vontade de voltar atrás, não para mudar as coisas, mas sim para as viver ainda mais, e ir mais além.
A idade não nos faz sentir velhos, mas há coisas que o fazem e muito. Já não falo da capacidade para aguentar um jogo de futebol ou outro exercício físico. Falo da constatação de haver depois de nós uma outra geração, ou mesmo outras. Gente que não vibrou com o "Verano Azul" assobiando em grupo a sua canção; que não esperava ansiosa pelos desenhos animados que o Vasco Granja nos trazia, chorando quando eles eram Checos ou Polacos; que o primeiro computador que teve não foi, seguramente, o Spectrum 48K, do qual nem sabe a existência; que liga Sá Carneiro só e apenas a Camarate; que não sabe que a Lois foi objecto de desejo há alguns anos e que os All Stars não são uma criação moderna.
Esta sensação de A Geração já não ser a nossa leva-nos a pensar que o mundo nos está a passar ao lado, e dou por mim a ter vontade de dizer o que sempre odiei ouvir: "no meu tempo é que era". Espero não o fazer, acho que não o vou fazer, afinal a resignação é uma virtude e eu vou tentando, com dificuldade, ser minimamente virtuoso.
Sabemos que números nada dizem, que a idade, a verdadeira idade, permanece encerrada no espírito. Ainda assim custa, custa mudar de dezena, custa passar a um clube do qual não nos sentimos membros. A sensação é a de entrar numa festa sem ter sido convidado, sentimo-nos desconfortáveis, fora do "habitat".
Irrita-me saber que alguns disparates que faço, e espero continuar a fazer, sejam agora apontados como de outras idades, irrita-me que as roupas que visto sejam censuradas por questões etárias. No fundo é isto que custa porque a minha postura será exactamente a mesma.
Um problema supera os anteriores, o tempo jovem que sentimos não ter vivido, as coisas que queríamos ter feito, a sensação do tempo nos fugir das mãos como água. A vontade de voltar atrás, não para mudar as coisas, mas sim para as viver ainda mais, e ir mais além.
A idade não nos faz sentir velhos, mas há coisas que o fazem e muito. Já não falo da capacidade para aguentar um jogo de futebol ou outro exercício físico. Falo da constatação de haver depois de nós uma outra geração, ou mesmo outras. Gente que não vibrou com o "Verano Azul" assobiando em grupo a sua canção; que não esperava ansiosa pelos desenhos animados que o Vasco Granja nos trazia, chorando quando eles eram Checos ou Polacos; que o primeiro computador que teve não foi, seguramente, o Spectrum 48K, do qual nem sabe a existência; que liga Sá Carneiro só e apenas a Camarate; que não sabe que a Lois foi objecto de desejo há alguns anos e que os All Stars não são uma criação moderna.
Esta sensação de A Geração já não ser a nossa leva-nos a pensar que o mundo nos está a passar ao lado, e dou por mim a ter vontade de dizer o que sempre odiei ouvir: "no meu tempo é que era". Espero não o fazer, acho que não o vou fazer, afinal a resignação é uma virtude e eu vou tentando, com dificuldade, ser minimamente virtuoso.
Anos (3 dias depois)
No dia em que o rei fez anos houve arraial e foguetes no ar.
No dia dos meus anos houve calma e paz. Desapareci.
No dia dos meus anos houve calma e paz. Desapareci.
4.3.04
Surpresas de Lisboa
Ou como um simples jantar de semana se transforma numa noite argentina e divertidíssima.
Ontem, estava eu num pacato jantar de semana no "El Ultimo Tango", quando o inesperado aconteceu. A conversa corria animada e fomos prolongando um pouco o jantar ao ritmo de um ou dois Whiskeys. Estávamos nisto, com restaurante já vazio - à parte dos empregados, dos donos, e um ou dois amigos -, quando entra um rapaz de "bandoneón" ás costas. Na mesa ao lado conversavam animadamente com ele, enquanto nós pedíamos mais um Whiskey. A dona chegou à mesa e disse que estavam de saída para um concerto de tangos no Frágil, e que o rapaz era muito bom. Sugeriu que também fossemos e nós, bem dispostos, acedemos.
A partir daqui foi uma noite inesperada que teve como único problema o acordar na manhã de hoje. O rapaz - Walter Hidalgo - tocava mesmo bem e a onda familiar criou o que o tango - assim como o fado - necessita, ambiente. O sentimento sul-americano contagiou os poucos, mas animados, espectadores que embalaram para horas de diversão ao som dos tangos argentinos.
Lisboa é realmente uma cidade cheia de surpresas, tantas que ontem se transvestiu de Buenos Aires durante umas fugazes horas. Sorte a minha, sorte a dos outros que assim se puderam divertir numa supostamente pacata noite de semana. As melhores noites são sempre estas, as que não planeamos e das quais pouco esperamos.
Ontem, estava eu num pacato jantar de semana no "El Ultimo Tango", quando o inesperado aconteceu. A conversa corria animada e fomos prolongando um pouco o jantar ao ritmo de um ou dois Whiskeys. Estávamos nisto, com restaurante já vazio - à parte dos empregados, dos donos, e um ou dois amigos -, quando entra um rapaz de "bandoneón" ás costas. Na mesa ao lado conversavam animadamente com ele, enquanto nós pedíamos mais um Whiskey. A dona chegou à mesa e disse que estavam de saída para um concerto de tangos no Frágil, e que o rapaz era muito bom. Sugeriu que também fossemos e nós, bem dispostos, acedemos.
A partir daqui foi uma noite inesperada que teve como único problema o acordar na manhã de hoje. O rapaz - Walter Hidalgo - tocava mesmo bem e a onda familiar criou o que o tango - assim como o fado - necessita, ambiente. O sentimento sul-americano contagiou os poucos, mas animados, espectadores que embalaram para horas de diversão ao som dos tangos argentinos.
Lisboa é realmente uma cidade cheia de surpresas, tantas que ontem se transvestiu de Buenos Aires durante umas fugazes horas. Sorte a minha, sorte a dos outros que assim se puderam divertir numa supostamente pacata noite de semana. As melhores noites são sempre estas, as que não planeamos e das quais pouco esperamos.
Erros
Errar todos erramos, graças a Deus. O mundo sem erros seria uma miserável sucessão de comportamentos previsíveis. Aprender ou não com eles, isso depende da liberdade de cada um.
3.3.04
Debate de hoje
No Parlamento mais uma vez se discutiu o aborto. A esquerda apresentando projectos para descriminalizar o aborto, outros para realizar um novo referendo. A esquerda dizendo pérolas como que "as mulheres são livres de ter a sua sexualidade", considerando que a liberdade vai até utilizar o aborto como método contraceptivo. A direita recorrendo ao referendo já efectuado para não alterar a lei. A esquerda invocando que as "mulheres são donas do seu ventre", curiosamente a mesma esquerda que se junta em patéticas manifestações em Barrancos ou noutros locais, verberando contra quem mata animais. (Aqui bate um ponto importante, uma sociedade onde se defendem mais os animais do que o próprio Homem é uma sociedade perigosa.) A direita tem agora um desafio pela frente, tomar medidas concretas para diminuir os abortos. A ver vamos.
No final de um debate aparentemente civilizado, um fim em grande. O público, incentivado por uma deputada do Bloco de Esquerda (Ana Drago no seu melhor), gritava a "luta continua", relembrando tempos arcaicos do PREC, só faltando os gritos de abaixo o fascismo. Com deputadas assim, que nem respeitam a instituição onde representam o povo, o país pode chorar pelos seus políticos. A falta de noção de Ana Drago é tanta que, se algum dia a insultarem das bancadas do hemiciclo, terá que aceitar placidamente pois já deu esse exemplo. A ideia é tentadora, talvez um dia valha a pena a deslocação.
No final de um debate aparentemente civilizado, um fim em grande. O público, incentivado por uma deputada do Bloco de Esquerda (Ana Drago no seu melhor), gritava a "luta continua", relembrando tempos arcaicos do PREC, só faltando os gritos de abaixo o fascismo. Com deputadas assim, que nem respeitam a instituição onde representam o povo, o país pode chorar pelos seus políticos. A falta de noção de Ana Drago é tanta que, se algum dia a insultarem das bancadas do hemiciclo, terá que aceitar placidamente pois já deu esse exemplo. A ideia é tentadora, talvez um dia valha a pena a deslocação.
Aborto
Hoje discute-se na Assembleia da República a descriminalização do Aborto. Por motivos quanto a mim oportunistas, um assunto referendado há seis anos, e na altura refutado pela maioria dos votantes, volta à actualidade. Na altura não dei o meu voto, por comodidade e por achar que o "Sim" ganharia. Mas essencialmente porque a campanha tomou contornos abjectos de parte a parte, com a "inteligentzia" a bramir pelos direitos da mulher (com meninas bonitas dizerem-se donas do seu ventre) e os adeptos do "Não" com gritos histéricos pela vida. O assunto é sério demais para ser discutido assim, a campanha levou-me a não querer dar razões a ninguém. Não votei.
Sobre o assunto deixo aqui algumas notas dispersas e desorganizadas:
- Tivemos um referendo há muito pouco tempo. Parece-me elementar que se respeite a vontade da população. Democracia é isto, é aceitar a vontade do "povo" expressa nas urnas, seja a nossa ou não. A esquerda parece esquecer-se disso com demasiada frequência, surgindo com a habitual arrogância moral de quem se julga detentor de verdades absolutas.
- Sendo proibido, o aborto é feito em Portugal. Ninguém questiona, mas também há maus tratos, tráfico de droga, violações, pedofilia e não pensamos em legalizá-los por existirem. Este argumento, tantas e tantas vezes utilizado, não faz sentido. Os governos não podem legislar indo atrás de tudo o que ocorre numa sociedade. Algo por existir não nos pode levar forçosamente a aceitá-lo.
- Um aborto é tirar uma vida, ainda em estado de gestação, mas uma vida. Não podemos, como sociedade, descartar vidas em nome de comodidades ou conveniências. Não aceito o aborto como método contraceptivo.
- O sexo não tem, obviamente, que existir apenas com o fito da reprodução. Mas deve ser responsável, ou em caso contrário a responsabilidade deve ser assumida pelos intervenientes. O "combate" deve ser feito antes da fecundação do óvulo, esta – em alguns casos - nem sequer se deve dar, aí é que o Estado pode, e deve, intervir na formação e educação das pessoas. Prevenir sempre foi melhor do que remediar.
- O aborto é uma questão moral. Mas também é uma questão social. O aborto implica uma postura do Estado.
- Não me parece que descriminalizar melhore a situação. Quem vai ter dinheiro para pagar a multa são os mesmos que tem dinheiro para ir a Espanha. Falsa questão.
- Dizer que a legalização do aborto vai melhorar as condições das mulheres que os fazem não me parece real. O estigma ligado ao aborto impedirá, de um modo geral, as mulheres de recorrerem aos hospitais públicos, particularmente em meios pequenos. Os abortos de vão de escadas não vão acabar, acreditar que sim é de enorme ingenuidade.
Apesar de todas estas observações não consigo ter uma ideia absoluta sobre o assunto. Obviamente que não consigo, nem conseguirei, apontar o dedo a qualquer mulher que faça um aborto. Ainda assim acho que o Estado não deve permitir algo que se deve evitar e combater. O que está em causa é mais do que uma luta entre esquerda e direita, é uma questão social e civilizacional. Podemos acreditar numa determinada sociedade ou noutra, eu acredito numa sociedade em que o aborto não é legal mas que é, dentro do possível, eficazmente combatido.
Sobre o assunto deixo aqui algumas notas dispersas e desorganizadas:
- Tivemos um referendo há muito pouco tempo. Parece-me elementar que se respeite a vontade da população. Democracia é isto, é aceitar a vontade do "povo" expressa nas urnas, seja a nossa ou não. A esquerda parece esquecer-se disso com demasiada frequência, surgindo com a habitual arrogância moral de quem se julga detentor de verdades absolutas.
- Sendo proibido, o aborto é feito em Portugal. Ninguém questiona, mas também há maus tratos, tráfico de droga, violações, pedofilia e não pensamos em legalizá-los por existirem. Este argumento, tantas e tantas vezes utilizado, não faz sentido. Os governos não podem legislar indo atrás de tudo o que ocorre numa sociedade. Algo por existir não nos pode levar forçosamente a aceitá-lo.
- Um aborto é tirar uma vida, ainda em estado de gestação, mas uma vida. Não podemos, como sociedade, descartar vidas em nome de comodidades ou conveniências. Não aceito o aborto como método contraceptivo.
- O sexo não tem, obviamente, que existir apenas com o fito da reprodução. Mas deve ser responsável, ou em caso contrário a responsabilidade deve ser assumida pelos intervenientes. O "combate" deve ser feito antes da fecundação do óvulo, esta – em alguns casos - nem sequer se deve dar, aí é que o Estado pode, e deve, intervir na formação e educação das pessoas. Prevenir sempre foi melhor do que remediar.
- O aborto é uma questão moral. Mas também é uma questão social. O aborto implica uma postura do Estado.
- Não me parece que descriminalizar melhore a situação. Quem vai ter dinheiro para pagar a multa são os mesmos que tem dinheiro para ir a Espanha. Falsa questão.
- Dizer que a legalização do aborto vai melhorar as condições das mulheres que os fazem não me parece real. O estigma ligado ao aborto impedirá, de um modo geral, as mulheres de recorrerem aos hospitais públicos, particularmente em meios pequenos. Os abortos de vão de escadas não vão acabar, acreditar que sim é de enorme ingenuidade.
Apesar de todas estas observações não consigo ter uma ideia absoluta sobre o assunto. Obviamente que não consigo, nem conseguirei, apontar o dedo a qualquer mulher que faça um aborto. Ainda assim acho que o Estado não deve permitir algo que se deve evitar e combater. O que está em causa é mais do que uma luta entre esquerda e direita, é uma questão social e civilizacional. Podemos acreditar numa determinada sociedade ou noutra, eu acredito numa sociedade em que o aborto não é legal mas que é, dentro do possível, eficazmente combatido.
1.3.04
Frio
Por entre o frio que nos congela espero uma réstia de fogo. Sempre gostei de neve, normalmente até gosto do frio, mas dias há em que me parece absurdo que o tempo gele sem que uns farrapos brancos caiam calmamente do céu. Acendo a lareira, que não tenho, e estendo-me com um bom livro ouvindo o ranger dos troncos que se consomem. Lá fora o bulício do fim do dia agita gentes frenéticas e geladas. Eu fico, sem lareira, sem um bom livro, apenas o monitor e a necessidade de trabalhar. Porque é que as coisas não podem ser mais simples.
A Oeste nada de novo
Parece que padeço do mesmo mal que alguns bloggers, tento ver todos os anos os Óscares e fatalmente adormeço no meio dos documentários de curta-metragem ou guarda-roupa. Ontem mantive a tradição, apenas consegui, e já achei muito, chegar até ao Argumento Adaptado.
Não fosse o Billy Cristal e amaldiçoaria as horas de sono perdido. Nenhuma surpresa, nenhum realizador de extrema-esquerda a "envergonhar" Bush, choros pouco sentidos, nenhum estrangeiro a saltar as cadeiras…
A Nova Zelândia foi realmente recorrente e aborrecida. O Senhor dos Anéis é esmagador, uma poderosa adaptação da obra que deliciou a minha adolescência. Só tenho pena que não tenha ganho antes, é que o terceiro é o menos bom de todos, o mais xaroposo.
Nos actores "Mystic River" teve o prémio merecido, as fabulosas interpretações de Sean Penn e Tim Robbins foram justamente vencedoras. (caso ganhasse Bill Murray também não se poderia falar de injustiça)
Enfim, menos interessante do que é normal, sem uma surpresa para animar a noite, menos injusto que noutros anos, o glamour de sempre.
Não fosse o Billy Cristal e amaldiçoaria as horas de sono perdido. Nenhuma surpresa, nenhum realizador de extrema-esquerda a "envergonhar" Bush, choros pouco sentidos, nenhum estrangeiro a saltar as cadeiras…
A Nova Zelândia foi realmente recorrente e aborrecida. O Senhor dos Anéis é esmagador, uma poderosa adaptação da obra que deliciou a minha adolescência. Só tenho pena que não tenha ganho antes, é que o terceiro é o menos bom de todos, o mais xaroposo.
Nos actores "Mystic River" teve o prémio merecido, as fabulosas interpretações de Sean Penn e Tim Robbins foram justamente vencedoras. (caso ganhasse Bill Murray também não se poderia falar de injustiça)
Enfim, menos interessante do que é normal, sem uma surpresa para animar a noite, menos injusto que noutros anos, o glamour de sempre.
27.2.04
25.2.04
Quarta Feira de Cinzas
Hoje começa a Quaresma. Preparemo-nos para a Páscoa que se avizinha. Para variar, e a título excepcional, gostava hoje de estar nos Estados Unidos. Estreia o novo filme de Mel Gibson. Uma visão das últimas horas de Cristo filmada, segundo quem já viu, de forma brutal e hiper realista. Um acto de coragem de Gibson que, contra tudo e contra todos, filmou em aramaico e sem concessões ao politicamente correcto. Poderá não ser grande cinema, mas certamente irei a correr quando estrear em Portugal.
Carnaval
Passou outro Carnaval. Foi como uma brisa matinal, fez-se notar mas foi fugaz. Aderi à depressão colectiva e não tentei exorcizá-la. Deixei-me estar, aproveitando os dias numa placidez melancólica. O Carnaval passou, e então?
Comboio
Há algo de fascinante num comboio com a noite a entrar pelas janelas. As presenças fugazes que povoam a atmosfera de conversas vagas e vazias, num significado nunca profundo. São conversas reveladoras na sua insignificância, são caracteres escondidos que se antevêem entre palavras.
O exercício fantástico de olhar em volta e pensar como são as nossas companhias de viagem. Olhar a roupa, a cara, os modos, detectar cicatrizes - físicas ou da vida. Imaginar as suas casas e famílias, deixarmo-nos enredar pelo seu olhar com o tempo a passar. Não se pode conhecer ninguém só pelo olhar, é no entanto curioso tentar.
E tudo passa, o tempo, a paisagem, a viagem. Viagem e paisagem, a rima não é ocasional, é embrionária e fatal, complementar.
O exercício fantástico de olhar em volta e pensar como são as nossas companhias de viagem. Olhar a roupa, a cara, os modos, detectar cicatrizes - físicas ou da vida. Imaginar as suas casas e famílias, deixarmo-nos enredar pelo seu olhar com o tempo a passar. Não se pode conhecer ninguém só pelo olhar, é no entanto curioso tentar.
E tudo passa, o tempo, a paisagem, a viagem. Viagem e paisagem, a rima não é ocasional, é embrionária e fatal, complementar.
Links
Os links aqui do lado foram actualizados. Novas companhias, entretanto encontradas, foram adicionadas.
D. Sebastião, Rei de Portugal
Louco, sim, louco, porque quis grandeza
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.
Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?
Fernando Pessoa in “Mensagem”
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.
Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?
Fernando Pessoa in “Mensagem”
20.2.04
17.2.04
Santana e Marcelo
Ataques e Contra-Ataques. A política portuguesa anima-se em duelos e este promete. A seguir com interesse e, mais do que isso, com diversão. Na falta de conteúdo ao menos que haja show-off. Na falta discussão política que os políticos se estimulem com ataques e, com sorte, com insultos. Assim talvez passemos da depressão para a agressão.
Branco
Chegou a neve branca, alva, fria.
Via-te de olhos abertos, bem abertos.
Abertos à luz da lua, depois à luz do sol.
Fugiste, não eras tu.
Deslizando no branco, saltaste num belo salto de anjo.
Chegando à água ela era turva, um pântano.
No alto da colina nós víamos-te, longe demais para te estender a mão pois tu não procuravas as árvores para subir.
É duro, triste, olhar o pântano sobrevoado de abutres que esperam carne.
Assim te vi partir.
Levado por abutres, destruído pelo cansaço.
Não quiseste lutar na hora certa, perdeste a corda para a colina.
A montanha da vida é alta, escarpada e fria, e tu não quiseste subir.
Via-te de olhos abertos, bem abertos.
Abertos à luz da lua, depois à luz do sol.
Fugiste, não eras tu.
Deslizando no branco, saltaste num belo salto de anjo.
Chegando à água ela era turva, um pântano.
No alto da colina nós víamos-te, longe demais para te estender a mão pois tu não procuravas as árvores para subir.
É duro, triste, olhar o pântano sobrevoado de abutres que esperam carne.
Assim te vi partir.
Levado por abutres, destruído pelo cansaço.
Não quiseste lutar na hora certa, perdeste a corda para a colina.
A montanha da vida é alta, escarpada e fria, e tu não quiseste subir.
13.2.04
Que dia!
Gosto por norma de sextas-feiras 13. Não ligo muito a superstições - tirando uma ou duas que não vou referir - e divirto-me com a forma com que as pessoas olham estes dias. Hoje, no entanto, vai ser uma excepção, a manhã não promete nada de bom e não sei o que ainda aí virá.
Acordo com a TSF, comme d’habitude, e subitamente quase tenho uma convulsão em plena cama. A voz de Vasco Gonçalves leva-me a duvidar se estou acordado ou num qualquer limbo existencial. Belisco-me, sem muita força, e continuo a ouvir essa voz acusando o actual governo de ser de extrema-direita. Afinal é real, esta múmia está viva e, ao contrário do que eu pensava, não está internada numa qualquer clínica para doentes mentais. Ouço o restante depoimento em que diz que o 25 de Novembro foi culpa dos reaccionários liderados por Mário Soares, senhor que prestou um mau serviço ao país interrompendo o brilhante processo revolucionário.
Divido-me, não sei se deva estar feliz por confirmar que este senhor continua parado num tempo distante (confirmando o que dele pensava), ou se deva temer por um país que deixa alguém neste estado sem um tratamento psiquiátrico adequado. Espero que, nestes tempos em que se fala de mudanças, o PCP não se lembre de reciclar este ex-primeiro ministro para a direcção do partido. Já o imagino em pleno parlamento vociferando, ao mesmo tempo que gesticulava furiosamente quase dando um estalo ao seu vizinho de bancada Francisco Louça: "Não há terceira via, ou se é pela revolução, ou se é contra a revolução."
Como já disse em anterior posta não sou da geração de Abril. A revolução e o PREC são acontecimentos por mim conhecidos através de documentários e comentários, de livros e de pessoas. O companheiro Vasco era alguém que eu quando criança julgava ser um grande actor cómico, senhor de uma mímica prodigiosa e um portento da comédia física. O problema foi quando descobri que ele era um louco furioso que, por motivos estranhos, liderou uns governos provisórios e foi herói de certa esquerda. Só em Portugal alguém que quase arruinou o país continua a ter palavra viva e, imagino eu, a ser ouvido por alguma esquerda que se diz inteligente.
Bolas!!! Acordar assim já era mau mas além disso olho à janela e só vejo branco, branco e o parapeito da varanda. Terá Lisboa desaparecido ou estará o companheiro Vasco a tomar São Bento e esta é a sua muralha de Aço?
Acordo com a TSF, comme d’habitude, e subitamente quase tenho uma convulsão em plena cama. A voz de Vasco Gonçalves leva-me a duvidar se estou acordado ou num qualquer limbo existencial. Belisco-me, sem muita força, e continuo a ouvir essa voz acusando o actual governo de ser de extrema-direita. Afinal é real, esta múmia está viva e, ao contrário do que eu pensava, não está internada numa qualquer clínica para doentes mentais. Ouço o restante depoimento em que diz que o 25 de Novembro foi culpa dos reaccionários liderados por Mário Soares, senhor que prestou um mau serviço ao país interrompendo o brilhante processo revolucionário.
Divido-me, não sei se deva estar feliz por confirmar que este senhor continua parado num tempo distante (confirmando o que dele pensava), ou se deva temer por um país que deixa alguém neste estado sem um tratamento psiquiátrico adequado. Espero que, nestes tempos em que se fala de mudanças, o PCP não se lembre de reciclar este ex-primeiro ministro para a direcção do partido. Já o imagino em pleno parlamento vociferando, ao mesmo tempo que gesticulava furiosamente quase dando um estalo ao seu vizinho de bancada Francisco Louça: "Não há terceira via, ou se é pela revolução, ou se é contra a revolução."
Como já disse em anterior posta não sou da geração de Abril. A revolução e o PREC são acontecimentos por mim conhecidos através de documentários e comentários, de livros e de pessoas. O companheiro Vasco era alguém que eu quando criança julgava ser um grande actor cómico, senhor de uma mímica prodigiosa e um portento da comédia física. O problema foi quando descobri que ele era um louco furioso que, por motivos estranhos, liderou uns governos provisórios e foi herói de certa esquerda. Só em Portugal alguém que quase arruinou o país continua a ter palavra viva e, imagino eu, a ser ouvido por alguma esquerda que se diz inteligente.
Bolas!!! Acordar assim já era mau mas além disso olho à janela e só vejo branco, branco e o parapeito da varanda. Terá Lisboa desaparecido ou estará o companheiro Vasco a tomar São Bento e esta é a sua muralha de Aço?
M.A.D.N.
O dia dos namorados é já amanhã e nesta irritante data temos de nos unir para acabar com esta palhaçada. As importações americanas invadem-nos e o pobre são Valentim deve estar a dar voltas na tumba.
Basta! Chega de corações pendurados e de montras cor-de-rosa apelando a um consumo desenfreado em tempos de contenção. Acabem com esses sorrisos idiotas de felicidade que inundarão as ruas.
Malvado dia este em que jantar fora é impossível, com os restaurantes cheios de mesas com parezinhos à luz de velas a falar de modo delicodoce e a ocupar os lugares que nós precisamos para jantar com os amigos.
E as rádios, é um pesadelo, só se ouve Michael Bolton e Céline Dion, com intervalos para declarações de amor de namorados...um nojo. A programação da televisão ainda não vi, mas imagino que à noite passem "O Senhor das Marés", "Vai onde te leva coração" ou sucedâneos do género lamechas de pior ou menos má qualidade.
Pobres livrarias sérias que só conseguem vender Susanas Tamaros e Margaridas Rebelos Pintos.
O mundo não é cor-de-rosa, eu nem sequer gosto do cor-de-rosa.
Fundemos o Movimento Anti Dia dos Namorados - MADN.
Não me dirijo só aos solteiros, todos temos de nos unir, esta história de decretar que cada par de namorados têm de comemorar no mesmo dia é totalitária e anti-democrática. Deixem cada um comemorar quando quer, no dia em que se conheceram, no dia em que começaram, no dia em que...Ao menos assim incomodam menos aqueles que não têm nada para comemorar.
Ao menos criem o Dia do Divorciado, Dia das Amantes, o Dia dos Unidos de Facto, o Dia dos Solteiros e até o Dia dos Viúvos. Lutemos contra a globalização dos dias de.
A este ritmo qualquer dia vamos ter dias de tudo, já imagino por exemplo: o Dia das Pessoas Doentes com Rinite Alérgica com Menos de 35 Anos (este eu podia comemorar), o Dia das Loiras com Olhos Azuis que Gostam de Arroz de Pato, o Dia das Mulheres Trabalhadoras com Mais de 2 Filhas com o nome Maria, o Dia dos Casais que Namoraram Menos de 1 Ano antes de Casarem
O leque de possibilidades é infinito, mas julgo que a realidade sempre o vai superar.
Juntos venceremos. Temos agora um ano pela frente para conseguirmos, no próximo 14 de Fevereiro, organizar uma gigantesca manifestação anti DN num qualquer bar civilizado deste país, no qual seja proibida a entrada a corações, objectos cor de rosas e gigantescos ramos de flores.
Basta! Chega de corações pendurados e de montras cor-de-rosa apelando a um consumo desenfreado em tempos de contenção. Acabem com esses sorrisos idiotas de felicidade que inundarão as ruas.
Malvado dia este em que jantar fora é impossível, com os restaurantes cheios de mesas com parezinhos à luz de velas a falar de modo delicodoce e a ocupar os lugares que nós precisamos para jantar com os amigos.
E as rádios, é um pesadelo, só se ouve Michael Bolton e Céline Dion, com intervalos para declarações de amor de namorados...um nojo. A programação da televisão ainda não vi, mas imagino que à noite passem "O Senhor das Marés", "Vai onde te leva coração" ou sucedâneos do género lamechas de pior ou menos má qualidade.
Pobres livrarias sérias que só conseguem vender Susanas Tamaros e Margaridas Rebelos Pintos.
O mundo não é cor-de-rosa, eu nem sequer gosto do cor-de-rosa.
Fundemos o Movimento Anti Dia dos Namorados - MADN.
Não me dirijo só aos solteiros, todos temos de nos unir, esta história de decretar que cada par de namorados têm de comemorar no mesmo dia é totalitária e anti-democrática. Deixem cada um comemorar quando quer, no dia em que se conheceram, no dia em que começaram, no dia em que...Ao menos assim incomodam menos aqueles que não têm nada para comemorar.
Ao menos criem o Dia do Divorciado, Dia das Amantes, o Dia dos Unidos de Facto, o Dia dos Solteiros e até o Dia dos Viúvos. Lutemos contra a globalização dos dias de.
A este ritmo qualquer dia vamos ter dias de tudo, já imagino por exemplo: o Dia das Pessoas Doentes com Rinite Alérgica com Menos de 35 Anos (este eu podia comemorar), o Dia das Loiras com Olhos Azuis que Gostam de Arroz de Pato, o Dia das Mulheres Trabalhadoras com Mais de 2 Filhas com o nome Maria, o Dia dos Casais que Namoraram Menos de 1 Ano antes de Casarem
O leque de possibilidades é infinito, mas julgo que a realidade sempre o vai superar.
Juntos venceremos. Temos agora um ano pela frente para conseguirmos, no próximo 14 de Fevereiro, organizar uma gigantesca manifestação anti DN num qualquer bar civilizado deste país, no qual seja proibida a entrada a corações, objectos cor de rosas e gigantescos ramos de flores.
Porto
Depois de Portugal o Porto. A depressão ao que parece está a ser mais sentida pelo Norte. A "Grande Reportagem" de Sábado trazia artigo de fundo sobre a depressão portista, ontem um encontro discutiu estes problemas.
O Porto sofre, há muito, de algum complexo de inferioridade. Certo que é a segunda metrópole (que não cidade) do país, mas a sua insistência - para além do normal - em colar-se a Lisboa sempre me levou à seguinte pergunta: Deverão Coimbra, ou Braga, reclamar para se aproximarem do Porto? A dúvida é entre bipolarizar na primeira cidade ou na segunda. Custa-me que num país tão pequeno se questione a existência de uma capital destacada, querendo à força que a segunda cidade esteja ao seu nível.
Até aqui poderia parecer um ataque cerrado ao Porto, nada mais errado. O Porto é uma cidade muito particular, na sua arquitectura e clima, nas suas gentes. Gosto do Porto, gosto particularmente por ver nele uma quase antítese de Lisboa, uma complementaridade. O que me leva a mim, e alguns outros mais, a vociferar contra um certo Porto, é a postura adoptada por energúmenos como Pinto da Costa ou Fernando Gomes, sempre ao ataque contra Lisboa como se ela fosse a cidade do inferno. Tudo ao Sul é mau, contra eles, contra um Porto perfeito, contra a capital da virtude. Sempre me irritei com superioridades morais (daí me irritar com certa esquerda) e esta é repugnante. Não confundo estes senhores com o Porto, nem com as gentes do Porto, mas infelizmente há quem confunda. A regionalização foi disso exemplo, no dia de boa memória do referendo. Não duvidemos que a derrota da regionalização teve por base o Porto e a sua atitude interesseira de querer criar um segundo centralismo. Sim, alguém terá dúvidas que os Ayatholas do Norte queriam uma capital centralizadora do Tejo para cima? A regionalização não ia descentralizar, ia centralizar em mais locais, apenas isso.
Enquanto do Porto se ouvir "querer ver Lisboa arder" com a anuência de pessoas com responsabilidades, Lisboa nunca os verá muito a sério, e o país também não.
O Porto sofre, há muito, de algum complexo de inferioridade. Certo que é a segunda metrópole (que não cidade) do país, mas a sua insistência - para além do normal - em colar-se a Lisboa sempre me levou à seguinte pergunta: Deverão Coimbra, ou Braga, reclamar para se aproximarem do Porto? A dúvida é entre bipolarizar na primeira cidade ou na segunda. Custa-me que num país tão pequeno se questione a existência de uma capital destacada, querendo à força que a segunda cidade esteja ao seu nível.
Até aqui poderia parecer um ataque cerrado ao Porto, nada mais errado. O Porto é uma cidade muito particular, na sua arquitectura e clima, nas suas gentes. Gosto do Porto, gosto particularmente por ver nele uma quase antítese de Lisboa, uma complementaridade. O que me leva a mim, e alguns outros mais, a vociferar contra um certo Porto, é a postura adoptada por energúmenos como Pinto da Costa ou Fernando Gomes, sempre ao ataque contra Lisboa como se ela fosse a cidade do inferno. Tudo ao Sul é mau, contra eles, contra um Porto perfeito, contra a capital da virtude. Sempre me irritei com superioridades morais (daí me irritar com certa esquerda) e esta é repugnante. Não confundo estes senhores com o Porto, nem com as gentes do Porto, mas infelizmente há quem confunda. A regionalização foi disso exemplo, no dia de boa memória do referendo. Não duvidemos que a derrota da regionalização teve por base o Porto e a sua atitude interesseira de querer criar um segundo centralismo. Sim, alguém terá dúvidas que os Ayatholas do Norte queriam uma capital centralizadora do Tejo para cima? A regionalização não ia descentralizar, ia centralizar em mais locais, apenas isso.
Enquanto do Porto se ouvir "querer ver Lisboa arder" com a anuência de pessoas com responsabilidades, Lisboa nunca os verá muito a sério, e o país também não.
11.2.04
Anatomia de um Crime
As maravilhas dos DVD permitem isto, a revisitação dos clássicos em noites paradas e calmas. Ontem foi a vez de "Anatomia de um Crime" de Otto Preminger. Um filme de moral duvidosa, mesmo amoral, em que a distinção entre bem e mal é ténue.
O filme narra a história de um advogado (James Stewart) que se depara com a defesa de um homem (Bem Gazzara) que matou o suposto violador da sua mulher (Lee Remick). Entre dúvidas sobre a efectiva violação, a motivação do crime, a defesa de um criminoso ou a libertação de um inocente, vagueamos por entre um belíssimo filme.
James Stewart está, como sempre, irrepreensível. Lee Remick é um poço de sedução inocente, ou talvez não. Bem Gazzara um enigmático criminoso. A banda sonora é de antologia e compra, ou gravação, obrigatória, Mr. Duke Ellington no seu melhor.
O filme narra a história de um advogado (James Stewart) que se depara com a defesa de um homem (Bem Gazzara) que matou o suposto violador da sua mulher (Lee Remick). Entre dúvidas sobre a efectiva violação, a motivação do crime, a defesa de um criminoso ou a libertação de um inocente, vagueamos por entre um belíssimo filme.
James Stewart está, como sempre, irrepreensível. Lee Remick é um poço de sedução inocente, ou talvez não. Bem Gazzara um enigmático criminoso. A banda sonora é de antologia e compra, ou gravação, obrigatória, Mr. Duke Ellington no seu melhor.
Curtas
O PS está cada vez melhor. Jorge Coelho e João Soares disponibilizaram-se para a liderança do partido. Carrilho e Mega discutem para a Câmara de Lisboa. Tanta disponibilidade é estranha, será uma cabala?
O Ministério da Educação anunciou que vai criar cursos de Medicina nos Açores e na Madeira. A concretizar-se esta intenção está dado um passo real e efectivo uma descentralização e para o aumento das vagas em Medicina. Bravo.
O Ministério da Educação anunciou que vai criar cursos de Medicina nos Açores e na Madeira. A concretizar-se esta intenção está dado um passo real e efectivo uma descentralização e para o aumento das vagas em Medicina. Bravo.
9.2.04
Reverendo Marcelo
Ontem em jantar de família, enquanto debicava uma empadinhas, dei por mim quase só na casa de jantar. Como o jantar era informal segui até à sala para ver o que se passava. A televisão ligada surgia como que sobre um altar, e dentro dela saía a missa semanal do Professor Marcelo. Tentei perguntar algo mas logo me mandaram calar. Os Domingos ganham assim contornos de insanidade, pois sou católico e missas para mim são na igreja e com padre. Não reconheço ao Professor o estatuto de sacerdote e os sermões dominicais são, de semana para semana, mais vácuos e desinteressantes. Hoje já não me lembro de nada que o Professor tenha falado, excepto talvez a referência a um livro sobre o parto ou o pós-parto.
5.2.04
País deprimido
A queixa é generalizada, Portugal é um país de pedófilos, não tem auto-estima, está deprimido. Devo ser dos poucos que acham que o momento é bom. Todos os escândalos de pedofilia remontam há alguns anos, todos percorreram várias governações. Foram agora descobertos e investigados, porque nos há de deprimir este facto. Claro que é deprimente que tudo isto exista, mas devemos estar felizes, muito felizes, por se estar a investigar, a combater, a descobrir e, esperemos, a castigar. Foi uma impunidade de muitos anos mas agora podemos exultar, tudo está a ser desmascarado. Não partilho da visão pessimista (no que me estranho) generalizada, Portugal está num bom momento. Até o sol está a brilhar.
Amália
Finalmente comprei a reedição em CD do mítico "Busto". Como "brinde" temos também direito a "For your delight" e a um single com ensaios de Amália com Alain Oulman. Tudo o que penso sobre Amália está aqui provado e comprovado. Amália foi o grande nome do Fado, aquele que o tornou universal e erudito, que o passeou pelas melhores salas do mundo. Trouxe Portugal na voz e cantou o país como ninguém.
Mas Amália é muito mais do que isto, que já não é pouco. Amália esteve para além do Fado, foi uma voz inigualável, por muitas tentativas de clonagem que se tentem. Mostrou quão longe pode ir a interpretação musical - muito para além da técnica -, em que uma nota é um choro, um trinado um lamento, uma pausa o sofrimento. E isto, por muito que eu goste de Fado, não é um exclusivo do Fado.
Por isso é tão bom ouvir Amália, redescobrir a sua música, o seu mundo, a sua voz. A música, como arte que é, tem esta capacidade de emocionar, de arrebatar. Ouçamos música, ouçamos Amália.
Mas Amália é muito mais do que isto, que já não é pouco. Amália esteve para além do Fado, foi uma voz inigualável, por muitas tentativas de clonagem que se tentem. Mostrou quão longe pode ir a interpretação musical - muito para além da técnica -, em que uma nota é um choro, um trinado um lamento, uma pausa o sofrimento. E isto, por muito que eu goste de Fado, não é um exclusivo do Fado.
Por isso é tão bom ouvir Amália, redescobrir a sua música, o seu mundo, a sua voz. A música, como arte que é, tem esta capacidade de emocionar, de arrebatar. Ouçamos música, ouçamos Amália.
3.2.04
Empate
Já foi há 3 dias mas só agora posso escrever sobre ele. Uma crónica de desporto será para mim uma originalidade, para alguns uma seca, enfim aqui vamos. Tinta, muita tinta já fez correr este jogo e as promessas são que continue assim. Um polémico Sporting-Porto a deixar as gentes à beira de um ataque de nervos.
Foi um grande jogo de futebol, talvez o melhor deste ano entre nós, quase sempre bem jogado, emotivo e disputado. Pela minha parte passei a segunda parte mais tempo em pé do que sentado, "comendo" avidamente cigarros enquanto gritava pelo meu clube. Uma tensão mantida até ao apito final, altura em que deu lugar à frustração. Alguém terá sinceras dúvidas que o Sporting mereceu ganhar o jogo? Não é facciosismo é a realidade do jogo. Gostei mesmo de ver o Sporting jogar no Sábado, mostrou que tem equipa e que o Porto está, neste momento, ao seu nível. Um jogo de campeões.
Até aqui tudo normal, como normal foi todo o jogo. Pequenos casos, uma ou outra dúvida de arbitragem, nada trágico ou comprometedor (os dois penaltis existem, se bem que o segundo possa ter sido forçado por Liedson; Baía e Deco podiam ter sido expulsos). Afinal para que serve falar insistentemente da arbitragem, falemos antes de futebol, pelo menos quando ele existe, e Sábado ele existiu e foi bom.
Chegamos então ao ponto fatal, com toda esta normalidade, apesar do resultado injusto, o que é que tornou este jogo polémico?
O Sr. Mourinho (será que merece que o trate por Senhor?) esteve igual a si próprio. Arrogante, mal-criado, prepotente, com mau perder, mal-educado, em suma intragável. Mas também criativo. Não é fácil inventar inimigos em todos os jogos, cabalas e combinações, justificações exóticas para a falta de vitórias. Percebo toda esta agitação, Mourinho é bom treinador, mas um menino mimado que só sabe ganhar, que se julga o melhor. Esta época habituou-se a um FCP super dominador, sem problemas para ganhar, passeando a sua superioridade pela Super Liga. Até Sábado isso foi verdade, mas em Alvalade o Porto tremeu, percebeu que, apesar de não perder não era inexpugnável, que tinha um adversário à altura. O titubeante Sporting do início do campeonato deu lugar a uma equipa sólida, que entra em campo destemidamente para ganhar. O Porto não esperava isto, Mourinho não sonhou que a passagem por Lisboa mostrasse em certas fases do jogo um Porto encolhido na defesa, quase massacrado pelo adversário. Assim Mourinho amuou, e com o amuo veio a agressividade, e com ela as indescritíveis reacções a uma jogada perfeitamente normal. João Pinto estava a ser atendido e é verdade que de imediato todos os jogadores se acercaram preocupados. Os médicos prosseguiam o seu trabalho, fora do campo, e junto do jogador já só estavam Rui Jorge com a bola na mão e Jorge Costa à frente do jogador do Sporting (basta ver a repetição para confirmar). O árbitro apitou e, além disso, gesticulou para o Sporting repor a bola em jogo. Rui Jorge cumpre as ordens e passa a bola a Liedson que é carregado. Algo de estranho? Em nenhum país do mundo isto seria estranho. Mourinho é mentiroso com todas as letras, não estão vários jogadores em volta de João Pinto, não estão fora do campo e da jogada, está um jogador, Jorge Costa, a cobrir a reposição da bola em jogo. Depois disto Mourinho disparou pérolas como as patetices após o golo do Porto (ainda hoje não percebo a que se refere), insultos a Rui Jorge e Liedson (é certo que fez teatro mas não é caso para tanto) e um chorrilho de impropérios. Únicas palavras sábias, as de que em Portugal ninguém gosta dele e o choro mimado a Pinto da Costa para o deixar sair. Num clube civilizado ou pedia desculpa ou era despedido com justa causa, no Porto tem o aplauso do Sr. Costa, que por certo ainda o incita a mais disparates. Deixem-no ir, estou a imaginar a repercussão de declarações destas em países civilizados como a Inglaterra (despedimento ou irradiação da Liga). Aposto que Mourinho lá fora será um cordeirinho, ou então terá de voltar para cá.
O corolário desta inspiração Mourinhiana terá sido o rasgar da camisola de Rui Jorge, dizendo que gostava de o ver morrer em campo, no que teve o apoio do Sr. Costa. O FCP desmentiu, o Sporting diz que tem provas, a novela continua. A ser verdade esta triste cena, as palavras faltam para descrever estas criaturas. Uma semana depois de um jogador morrer em campo é de uma total e absoluta falta de tudo dizer estas palavras. Quanto ao rasgar da camisola já acho mais normal, afinal estamos a falar de Mourinho. A provarem-se estes acontecimentos apenas espero pela reacção da Liga. Também não sei porquê, o futebol em Portugal é um antro de impunidade.
José Bettencourt da SAD do Sporting também se excedeu nos comentários, fugindo à sua postura habitual. Mas será que a ser verdade o que se diz isto não é normal?
Foi um grande jogo de futebol, talvez o melhor deste ano entre nós, quase sempre bem jogado, emotivo e disputado. Pela minha parte passei a segunda parte mais tempo em pé do que sentado, "comendo" avidamente cigarros enquanto gritava pelo meu clube. Uma tensão mantida até ao apito final, altura em que deu lugar à frustração. Alguém terá sinceras dúvidas que o Sporting mereceu ganhar o jogo? Não é facciosismo é a realidade do jogo. Gostei mesmo de ver o Sporting jogar no Sábado, mostrou que tem equipa e que o Porto está, neste momento, ao seu nível. Um jogo de campeões.
Até aqui tudo normal, como normal foi todo o jogo. Pequenos casos, uma ou outra dúvida de arbitragem, nada trágico ou comprometedor (os dois penaltis existem, se bem que o segundo possa ter sido forçado por Liedson; Baía e Deco podiam ter sido expulsos). Afinal para que serve falar insistentemente da arbitragem, falemos antes de futebol, pelo menos quando ele existe, e Sábado ele existiu e foi bom.
Chegamos então ao ponto fatal, com toda esta normalidade, apesar do resultado injusto, o que é que tornou este jogo polémico?
O Sr. Mourinho (será que merece que o trate por Senhor?) esteve igual a si próprio. Arrogante, mal-criado, prepotente, com mau perder, mal-educado, em suma intragável. Mas também criativo. Não é fácil inventar inimigos em todos os jogos, cabalas e combinações, justificações exóticas para a falta de vitórias. Percebo toda esta agitação, Mourinho é bom treinador, mas um menino mimado que só sabe ganhar, que se julga o melhor. Esta época habituou-se a um FCP super dominador, sem problemas para ganhar, passeando a sua superioridade pela Super Liga. Até Sábado isso foi verdade, mas em Alvalade o Porto tremeu, percebeu que, apesar de não perder não era inexpugnável, que tinha um adversário à altura. O titubeante Sporting do início do campeonato deu lugar a uma equipa sólida, que entra em campo destemidamente para ganhar. O Porto não esperava isto, Mourinho não sonhou que a passagem por Lisboa mostrasse em certas fases do jogo um Porto encolhido na defesa, quase massacrado pelo adversário. Assim Mourinho amuou, e com o amuo veio a agressividade, e com ela as indescritíveis reacções a uma jogada perfeitamente normal. João Pinto estava a ser atendido e é verdade que de imediato todos os jogadores se acercaram preocupados. Os médicos prosseguiam o seu trabalho, fora do campo, e junto do jogador já só estavam Rui Jorge com a bola na mão e Jorge Costa à frente do jogador do Sporting (basta ver a repetição para confirmar). O árbitro apitou e, além disso, gesticulou para o Sporting repor a bola em jogo. Rui Jorge cumpre as ordens e passa a bola a Liedson que é carregado. Algo de estranho? Em nenhum país do mundo isto seria estranho. Mourinho é mentiroso com todas as letras, não estão vários jogadores em volta de João Pinto, não estão fora do campo e da jogada, está um jogador, Jorge Costa, a cobrir a reposição da bola em jogo. Depois disto Mourinho disparou pérolas como as patetices após o golo do Porto (ainda hoje não percebo a que se refere), insultos a Rui Jorge e Liedson (é certo que fez teatro mas não é caso para tanto) e um chorrilho de impropérios. Únicas palavras sábias, as de que em Portugal ninguém gosta dele e o choro mimado a Pinto da Costa para o deixar sair. Num clube civilizado ou pedia desculpa ou era despedido com justa causa, no Porto tem o aplauso do Sr. Costa, que por certo ainda o incita a mais disparates. Deixem-no ir, estou a imaginar a repercussão de declarações destas em países civilizados como a Inglaterra (despedimento ou irradiação da Liga). Aposto que Mourinho lá fora será um cordeirinho, ou então terá de voltar para cá.
O corolário desta inspiração Mourinhiana terá sido o rasgar da camisola de Rui Jorge, dizendo que gostava de o ver morrer em campo, no que teve o apoio do Sr. Costa. O FCP desmentiu, o Sporting diz que tem provas, a novela continua. A ser verdade esta triste cena, as palavras faltam para descrever estas criaturas. Uma semana depois de um jogador morrer em campo é de uma total e absoluta falta de tudo dizer estas palavras. Quanto ao rasgar da camisola já acho mais normal, afinal estamos a falar de Mourinho. A provarem-se estes acontecimentos apenas espero pela reacção da Liga. Também não sei porquê, o futebol em Portugal é um antro de impunidade.
José Bettencourt da SAD do Sporting também se excedeu nos comentários, fugindo à sua postura habitual. Mas será que a ser verdade o que se diz isto não é normal?
31.1.04
Ai!
Navego pela blogosfera a fazer tempo para o Sporting – Porto no Alvalade XXI. Daqui a três horas espero estar já bem sentado, de cachecol verde a gritar pelo meu clube, ansiando pelo apito inicial. A esperança para este ano mantêm-se, mas depende em muito deste jogo. Hesito entre um Xanax ou um Inderal, é que tudo isto vai ser muito duro para os nervos.
Que ganhe o melhor e que o melhor seja o Sporting.
Que ganhe o melhor e que o melhor seja o Sporting.
VPV
Vasco Pulido Valente voltou a escrever no DN. Que bom ter de novo uma dose de pessimismo e lucidez ao fim de semana, particularmente quando ela é tão bem escrita. O difícil acordar de Sábado é assim mais suportável.
29.1.04
Pornografia Emocional
O assunto é recorrente, e ao longo desta semana tornou-se inevitável. Depois de ontem o ter referido por boas razões, hoje o sentimento é contrário. Ontem, esperando já o circo mediático dos privados, acompanhei o Telejornal da RTP1 em busca de informação mais sóbria. Erro crasso. A reportagem do nosso canal privado excedeu, em tudo, os piores receios. No velório no Estádio da Luz o repórter parecia ter encarnado em comentador social, da Caras ou afins, mas em versão macabra. Debitava o nome dos presentes pouco faltando para lhes comentar as roupas, fazia perguntas quase do tipo "como é que se sente neste momento", esqueceu de forma inacreditável que o acontecimento que cobria era um velório, onde deve haver respeito e contenção, e não uma qualquer festa do Jet Oito português. Mas isto não bastou. A equipa de reportagem seguiu até à Hungria para seguir o enterro de Feher, onde manteve o nível, agravado por comentários acerca da expressão da mãe perante o caixão do filho e outras alarvidades do género. O único qualificativo que me lembro para esta ignomínia é mesmo o de pornografia emocional, tudo o que se diga de menos é de uma condescendência inaplicável a este caso.
O nosso canal público tem dado sinais de melhora, mas parece difícil combater algumas mentalidades que ainda não perceberam a diferença entre informar e agredir. Estas peças passaram ás oito da noite, hora em que as crianças estão em frente à televisão com a família. Não tenho filhos, mas seria muito difícil – caso os tivesse – comentar esta invasão brutal da privacidade e intimidade, esta exposição cruel dos sentimentos da família e amigos de alguém a quem o destino pregou uma enorme e trágica partida.
O nosso canal público tem dado sinais de melhora, mas parece difícil combater algumas mentalidades que ainda não perceberam a diferença entre informar e agredir. Estas peças passaram ás oito da noite, hora em que as crianças estão em frente à televisão com a família. Não tenho filhos, mas seria muito difícil – caso os tivesse – comentar esta invasão brutal da privacidade e intimidade, esta exposição cruel dos sentimentos da família e amigos de alguém a quem o destino pregou uma enorme e trágica partida.
28.1.04
Decência
Os últimos dias foram marcados por uma voragem informativa das nossas televisões, desrespeitando o que deveria ser o pudor natural perante o acontecimento chocante de Domingo passado. Os principais canais passaram com exaustão as "imagens vivas da morte", sem o mínimo respeito pela situação.
No meio desta - infelizmente normal - falta de noção resta-nos um sinal positivo. Segundo o DN de hoje, Ricardo Espírito Santo - realizador da Sport TV que fazia a cobertura do jogo de má memória - teve ao seu dispor imagens francamente mais brutais, de pormenores da cara do jogador, num presumível espelho da morte e das desesperadas tentativas de reanimação. Logo mandou parar com os primeiros planos e suspender o que poderia ser um acto de refinado sadismo. Claro que ao que parece houve estações de televisão a tentar comprar - a todo o preço - estas imagens, a Sport TV, numa posição de enorme dignidade, recusou terminantemente a sua venda.
Felizmente ainda há em Portugal gente decente, incapaz de corromper os seus princípios e de massacrar um país com imagens chocantes que em nada contribuiriam para um melhor entendimento da situação. Felizmente ainda há jornalistas capazes de exercer a sua profissão como tal, e não como um filme de terror das misérias humanas. Felizmente há ainda quem tenha respeito pela intimidade dos outros, e haverá algo mais íntimo do que a morte. Felizmente que o realizador desse jogo era Ricardo Espírito Santo e a televisão que o emitiu a Sport TV. Felizmente que há quem ainda me dê esperança num mundo, e em particular num Portugal, mais civilizado e respeitador do ser humano.
No meio desta - infelizmente normal - falta de noção resta-nos um sinal positivo. Segundo o DN de hoje, Ricardo Espírito Santo - realizador da Sport TV que fazia a cobertura do jogo de má memória - teve ao seu dispor imagens francamente mais brutais, de pormenores da cara do jogador, num presumível espelho da morte e das desesperadas tentativas de reanimação. Logo mandou parar com os primeiros planos e suspender o que poderia ser um acto de refinado sadismo. Claro que ao que parece houve estações de televisão a tentar comprar - a todo o preço - estas imagens, a Sport TV, numa posição de enorme dignidade, recusou terminantemente a sua venda.
Felizmente ainda há em Portugal gente decente, incapaz de corromper os seus princípios e de massacrar um país com imagens chocantes que em nada contribuiriam para um melhor entendimento da situação. Felizmente ainda há jornalistas capazes de exercer a sua profissão como tal, e não como um filme de terror das misérias humanas. Felizmente há ainda quem tenha respeito pela intimidade dos outros, e haverá algo mais íntimo do que a morte. Felizmente que o realizador desse jogo era Ricardo Espírito Santo e a televisão que o emitiu a Sport TV. Felizmente que há quem ainda me dê esperança num mundo, e em particular num Portugal, mais civilizado e respeitador do ser humano.
26.1.04
Enviado Especial
Nos tempos cinzentos que correm é com enorme prazer que se pode ler este livro. Após ter lido "Reviver o Passado em Brideshead" e "Declínio e Queda" surgiu-me - em passeio por uma livraria - este "Enviado Especial" de Evelyn Waugh.
Ao comprá-lo não imaginava o grau de diversão que me esperava. Os outros dois livros não são, claramente, livros hilariantes. Este é. Ao fim de algumas páginas dei por mim a ser atingido por imparáveis ataques de riso, ao ponto da minha sanidade mental ser discutida aqui por casa. Os trocadilhos iniciais começaram a abrir perspectivas de um glorioso divertimento. A magnífica descrição de Magna Boot, da deliciosa família Boot na sua vida provinciana e antiquada, com a sua horda de "nanies", mordomos e criados, quase todos inválidos e a viver com eles. A absurda escolha de um impagável "enviado especial" para relatar a eminente guerra na Ismaélia, que escolhe incríveis "gadgets", levando canoas desmontáveis e tacos de golfe para um distante e desconhecido país.
O livro segue depois em ritmo corrosivo, relatando as peripécias - e podem crer que são muitas - de Boot na Ismaélia. A guerra afinal revela-se uma fraude mas assim não o relatam os restantes jornalistas. Gostaria de poder aconselhar este livro a muitos pseudo jornalistas que por aí andam, talvez assim melhor percebessem o ridículo de algumas notícias que divulgam.
No final uma mensagem particularmente actual e politicamente incorrecta. William despreza o dinheiro, as honrarias, a fama, preferindo a sua recatada e monótona vida de província, continuando a escrever bucólicas crónicas sobre agricultura e animais. No mundo de hoje quantos de nós seguiríamos este caminho, quantos de nós negaríamos o sucesso, trocando-o por uma tranquila e anónima vida familiar de província?
Ao comprá-lo não imaginava o grau de diversão que me esperava. Os outros dois livros não são, claramente, livros hilariantes. Este é. Ao fim de algumas páginas dei por mim a ser atingido por imparáveis ataques de riso, ao ponto da minha sanidade mental ser discutida aqui por casa. Os trocadilhos iniciais começaram a abrir perspectivas de um glorioso divertimento. A magnífica descrição de Magna Boot, da deliciosa família Boot na sua vida provinciana e antiquada, com a sua horda de "nanies", mordomos e criados, quase todos inválidos e a viver com eles. A absurda escolha de um impagável "enviado especial" para relatar a eminente guerra na Ismaélia, que escolhe incríveis "gadgets", levando canoas desmontáveis e tacos de golfe para um distante e desconhecido país.
O livro segue depois em ritmo corrosivo, relatando as peripécias - e podem crer que são muitas - de Boot na Ismaélia. A guerra afinal revela-se uma fraude mas assim não o relatam os restantes jornalistas. Gostaria de poder aconselhar este livro a muitos pseudo jornalistas que por aí andam, talvez assim melhor percebessem o ridículo de algumas notícias que divulgam.
No final uma mensagem particularmente actual e politicamente incorrecta. William despreza o dinheiro, as honrarias, a fama, preferindo a sua recatada e monótona vida de província, continuando a escrever bucólicas crónicas sobre agricultura e animais. No mundo de hoje quantos de nós seguiríamos este caminho, quantos de nós negaríamos o sucesso, trocando-o por uma tranquila e anónima vida familiar de província?
Feher
A noite de ontem foi marcada pela morte, por uma tragédia seguida quase em directo. Uma situação impressionante em que a morte súbita nos fez dar graças à vida. Um momento que nos redimimos com a vida que tantas vezes menosprezamos, criticamos, ridicularizamos. Tudo perde o sentido quando nos deparamos com finais assim, repentinos, inesperados.
Todas estas palavras são já muitas. As imagens que vimos - assim como as reflexões que despertaram - foram mais do que suficientes. Paz à sua alma.
Todas estas palavras são já muitas. As imagens que vimos - assim como as reflexões que despertaram - foram mais do que suficientes. Paz à sua alma.
23.1.04
PCP
O Secretário-geral do PCP anunciou ontem que o partido estava em crescimento. Parece que em 2003 aderiram 1450 novos camaradas, dos quais 40% com menos de 30 anos (para além de 1017 novos filiados da JCP).
Será que há neste país um surto de loucura que leve gente nova, e supostamente de ideias um pouquinho mais modernas, a aderirem a um fóssil cada vez menos vivo?
O modo como o PCP continua a manter-se, e até a cativar jovens, é algo que me transcende. Os dirigentes actuais primam por uma dinâmica capaz de adormecer o mais hiperactivo - Dra. Odete à parte, mas também ela agora anda mais pelo Parque Mayer.
Portugal é realmente um país estranho.
Será que há neste país um surto de loucura que leve gente nova, e supostamente de ideias um pouquinho mais modernas, a aderirem a um fóssil cada vez menos vivo?
O modo como o PCP continua a manter-se, e até a cativar jovens, é algo que me transcende. Os dirigentes actuais primam por uma dinâmica capaz de adormecer o mais hiperactivo - Dra. Odete à parte, mas também ela agora anda mais pelo Parque Mayer.
Portugal é realmente um país estranho.
21.1.04
O tom do Governo
Ainda é cedo para saber se este é um bom ou mau governo. Já teve a sua quota-parte de escândalos, demissões, Ministros fantoche e invisíveis. A remodelação, há muito pedida, vai sendo adiada. Tudo isto contribuiria para a crítica imediata, para o escárnio. Não o consigo fazer mas não sei porquê. Acho que é do tom.
O que gosto neste governo é do tom, da sóbria firmeza que tem mostrado, da vontade de mudar, do diálogo em doses q.b. Já tive de aturar a prepotência, a arrogância e o autismo do nosso "ditador democrático". Já tive de adormecer perante um insistente diálogo, desesperar com a ineficiência e com o imobilismo do nosso "Engenheiro do sorriso perene". Temos agora outro estilo, ou pelo menos vários estilos no mesmo governo mas que se complementam.
Acredito que este não seja um grande governo, tenho aliás vários motivos de crítica, mas o tom agrada-me. Acho que pelo menos é um governo como o deve ser numa normal democracia: dialogante mas firme, tentando o consenso mas agindo, com convicções mas sem paixões.
Tudo isto é verdade, mas irrita-me apenas uma coisa, falta-me o despropósito do cavaquismo para poder ter alvos do meu verberar. Ás vezes faz falta um boneco para bombardear com bolas. Bolas!
O que gosto neste governo é do tom, da sóbria firmeza que tem mostrado, da vontade de mudar, do diálogo em doses q.b. Já tive de aturar a prepotência, a arrogância e o autismo do nosso "ditador democrático". Já tive de adormecer perante um insistente diálogo, desesperar com a ineficiência e com o imobilismo do nosso "Engenheiro do sorriso perene". Temos agora outro estilo, ou pelo menos vários estilos no mesmo governo mas que se complementam.
Acredito que este não seja um grande governo, tenho aliás vários motivos de crítica, mas o tom agrada-me. Acho que pelo menos é um governo como o deve ser numa normal democracia: dialogante mas firme, tentando o consenso mas agindo, com convicções mas sem paixões.
Tudo isto é verdade, mas irrita-me apenas uma coisa, falta-me o despropósito do cavaquismo para poder ter alvos do meu verberar. Ás vezes faz falta um boneco para bombardear com bolas. Bolas!
20.1.04
19.1.04
16.1.04
História de Província
Num jornal de província, H. escrevia semanalmente a sua coluna. Como em qualquer meio pequeno, era por todos conhecido e respeitado. Há alguns anos que escrevia nos jornais, sempre com opiniões frontais, descomprometidas e independentes. Escrevia bem, numa prosa escorreita e irónica, com um estilo muito próprio.
A Câmara Municipal actual, de um partido do lado oposto do seu, era agora o seu alvo favorito. As ligações obscuras à construção civil iam sendo denunciadas, ora claramente, ora de forma subtil para evitar processos. A carga era semanal e a C.M., sem tremer pelo forte apoio popular que tinha, temia a sua coluna.
No mesmo jornal escreviam apoiantes da C.M. com opiniões quase sempre opostas ás de H. Certo dia uma forte polémica foi desencadeada com um seu colega de jornal. Sucederam-se as semanas e a polémica ia em crescendo, atingindo tons viscerais e quase agressivos. Curiosamente outros dois colunistas do mesmo jornal alimentavam uma polémica distinta e um outro era quase insultado periodicamente no correio dos leitores. O jornal era neste momento absolutamente imperdível. Como se pode imaginar, numa pequena cidade as notícia correm depressa e não se falava de outra coisa.
A polémica arrefeceu um pouco e H. foi-se dedicando a outros assuntos. Num artigo subtil alegou ligações pouco claras da C.M. com o pequeno clube de futebol local. Uma semana depois deixou de escrever para o jornal. O director do jornal, ligado de qualquer forma ao clube, dispensou os seus textos.
Portugal é um país realmente curioso. Pode-se verberar contra as instituições (e ainda bem porque, afinal, ainda somos uma democracia), pode-se entrar em polémicas pessoais e mesmo insultar (para isso há a lei e os processos por difamação), agora falar mal do futebol...
A Câmara Municipal actual, de um partido do lado oposto do seu, era agora o seu alvo favorito. As ligações obscuras à construção civil iam sendo denunciadas, ora claramente, ora de forma subtil para evitar processos. A carga era semanal e a C.M., sem tremer pelo forte apoio popular que tinha, temia a sua coluna.
No mesmo jornal escreviam apoiantes da C.M. com opiniões quase sempre opostas ás de H. Certo dia uma forte polémica foi desencadeada com um seu colega de jornal. Sucederam-se as semanas e a polémica ia em crescendo, atingindo tons viscerais e quase agressivos. Curiosamente outros dois colunistas do mesmo jornal alimentavam uma polémica distinta e um outro era quase insultado periodicamente no correio dos leitores. O jornal era neste momento absolutamente imperdível. Como se pode imaginar, numa pequena cidade as notícia correm depressa e não se falava de outra coisa.
A polémica arrefeceu um pouco e H. foi-se dedicando a outros assuntos. Num artigo subtil alegou ligações pouco claras da C.M. com o pequeno clube de futebol local. Uma semana depois deixou de escrever para o jornal. O director do jornal, ligado de qualquer forma ao clube, dispensou os seus textos.
Portugal é um país realmente curioso. Pode-se verberar contra as instituições (e ainda bem porque, afinal, ainda somos uma democracia), pode-se entrar em polémicas pessoais e mesmo insultar (para isso há a lei e os processos por difamação), agora falar mal do futebol...
15.1.04
Um filme
Na calma noite de ontem optei pela companhia de um clássico: "O Vale era Verde" de John Ford. Escolha muito difícil de superar.
Este é um filme em que perfeição é a palavra-chave. O argumento é extraordinário, não apenas na história, mas particularmente na forma como esta é escrita. Os diálogos são belíssimos. A encenação quase operática, magnificente, realçada por um preto e branco pleno de contrastes. Os actores em perfeita encarnação no espírito da história. Um realismo assombroso sem que se perca a fortíssima, e dificilmente igualável, noção estética.
Os momentos de antologia abundam, desde os confrontos familiares em redor da greve ás cenas que abrem e fecham o filme. Inesquecível o último sermão do reverendo em que põe a nu a cobardia dos fariseus.
Que bom seria que o Cinema fosse mais vezes assim.
Este é um filme em que perfeição é a palavra-chave. O argumento é extraordinário, não apenas na história, mas particularmente na forma como esta é escrita. Os diálogos são belíssimos. A encenação quase operática, magnificente, realçada por um preto e branco pleno de contrastes. Os actores em perfeita encarnação no espírito da história. Um realismo assombroso sem que se perca a fortíssima, e dificilmente igualável, noção estética.
Os momentos de antologia abundam, desde os confrontos familiares em redor da greve ás cenas que abrem e fecham o filme. Inesquecível o último sermão do reverendo em que põe a nu a cobardia dos fariseus.
Que bom seria que o Cinema fosse mais vezes assim.
Uma exposição
Uma sugestão ainda atempada (até 21 de Janeiro) para uma exposição a não perder: "Francisco Caldeira Cabral e a Primeira Geração de Arquitectos Paisagistas: 1940-1970".
A justa, mas tardia, homenagem ao "Pai" da Arquitectura Paisagista em Portugal, que muitos desconhecem. A sua obra vasta obra inclui o projecto para o Estádio Nacional e muitos espaços urbanos em Lisboa. Tão importante, ou mais, do que a sua obra é o legado que deixou e que permanece até hoje nos Arquitectos Paisagistas portugueses. O curso "nasceu" em Portugal com ele e desta primeira geração faz parte, entre outros, Gonçalo Ribeiro Telles que, nomeadamente pela sua actividade política, se tornou o porta-estandarte "desta Arquitectura" tantas vezes ignorada.
Na exposição percorremos os projectos deste "Mestre" e dos seus discípulos culminando na obra-prima dos jardins da Fundação Gulbenkian, local onde decorre a exposição. O catálogo é excelente e vale, definitivamente, o preço.
Destaco ainda um vídeo da inauguração do Estádio Nacional que, com o devido distanciamento, se torna uma irresistível peça de humor. O comentador em voz solene anunciando a entrada de Salazar como "campeão dos campeões" e a adjectivação pomposa de toda a peça transforma-a numa peça de arqueologia social. Uma delícia vista à distância, sem a magnificência de Leni Riefensthal é ainda assim um belíssimo exemplo de Propaganda.
A justa, mas tardia, homenagem ao "Pai" da Arquitectura Paisagista em Portugal, que muitos desconhecem. A sua obra vasta obra inclui o projecto para o Estádio Nacional e muitos espaços urbanos em Lisboa. Tão importante, ou mais, do que a sua obra é o legado que deixou e que permanece até hoje nos Arquitectos Paisagistas portugueses. O curso "nasceu" em Portugal com ele e desta primeira geração faz parte, entre outros, Gonçalo Ribeiro Telles que, nomeadamente pela sua actividade política, se tornou o porta-estandarte "desta Arquitectura" tantas vezes ignorada.
Na exposição percorremos os projectos deste "Mestre" e dos seus discípulos culminando na obra-prima dos jardins da Fundação Gulbenkian, local onde decorre a exposição. O catálogo é excelente e vale, definitivamente, o preço.
Destaco ainda um vídeo da inauguração do Estádio Nacional que, com o devido distanciamento, se torna uma irresistível peça de humor. O comentador em voz solene anunciando a entrada de Salazar como "campeão dos campeões" e a adjectivação pomposa de toda a peça transforma-a numa peça de arqueologia social. Uma delícia vista à distância, sem a magnificência de Leni Riefensthal é ainda assim um belíssimo exemplo de Propaganda.
13.1.04
O Capote Alentejano
Gosto muito de capotes alentejanos, acho-os bonitos e um dos traços de genuinidade de uma região. Talvez seja dos poucos trajes típicos portugueses, a par da prima samarra, com uso mais ou menos corrente. Não vivesse eu em Lisboa, onde de facto nunca faz frio à séria, e já teria cobiçado o de meu Pai. Teria, digo bem, teria.
Desde que Saramago - o José - fez sair a sua sempre carrancuda e zangada com o mundo cabeça por entre a pele de raposa que fiquei de pé atrás. Depois...
Hoje acendo a televisão para as notícias da tarde e assusto-me. A omnipresente Ana Gomes aparece de capote alentejano, ás portas da Assembleia, vociferando (quase rugindo) contra os hipócritas que não permitem o aborto. (Chegado aqui pergunto, não vão as organizações de defesa dos animais, tradicionalmente de esquerda, manifestar-se contra o uso de peles de raposa?) Sim, os hipócritas, como eu, que respeitam a vontade expressa pelo povo português de forma democrática. Repito democrática. Claro que a vontade do povo pode mudar, mas não se deve dar um pouco mais de tempo antes de fazer mais uma consulta sobre o tema? Será possível fazer uma recolha de assinaturas para que não haja referendo?
Acho que temos o direito de viver em democracia, mesmo contra a arrogância moral da esquerda, mesmo contra a falta respeito que a esquerda têm quando a vontade povo não é a sua.
Por estas e por outras é que o capote continua no baú, mal por mal vou usando a canadiana, é menos nacionalista mas pelo menos não me traz más imagens.
Desde que Saramago - o José - fez sair a sua sempre carrancuda e zangada com o mundo cabeça por entre a pele de raposa que fiquei de pé atrás. Depois...
Hoje acendo a televisão para as notícias da tarde e assusto-me. A omnipresente Ana Gomes aparece de capote alentejano, ás portas da Assembleia, vociferando (quase rugindo) contra os hipócritas que não permitem o aborto. (Chegado aqui pergunto, não vão as organizações de defesa dos animais, tradicionalmente de esquerda, manifestar-se contra o uso de peles de raposa?) Sim, os hipócritas, como eu, que respeitam a vontade expressa pelo povo português de forma democrática. Repito democrática. Claro que a vontade do povo pode mudar, mas não se deve dar um pouco mais de tempo antes de fazer mais uma consulta sobre o tema? Será possível fazer uma recolha de assinaturas para que não haja referendo?
Acho que temos o direito de viver em democracia, mesmo contra a arrogância moral da esquerda, mesmo contra a falta respeito que a esquerda têm quando a vontade povo não é a sua.
Por estas e por outras é que o capote continua no baú, mal por mal vou usando a canadiana, é menos nacionalista mas pelo menos não me traz más imagens.
12.1.04
Sítios
As vidas são marcadas por sítios, por lugares onde passámos, onde tudo aconteceu e acontece. As memórias levam-nos sempre à rua ou casa onde algo se passou. Nas deambulações nostálgicas há sítios recorrentes, onde regressamos com gosto, nem que só em pensamento. São os lugares especiais por momentos vividos, pela sua estética ou por motivos imperceptíveis. Por este ano fora espero passar em alguns desses lugares, em pensamento, na realidade e - porque não - no imaginário deste blogue.
8.1.04
Centros
Os centros urbanos parecem, depois do fecho das lojas, autênticas cidades fantasma. As cidades são feitas de gente, que nelas dorme e trabalha, se desloca e vive. É essencial que no centro haja movimento, moradores entrando e saindo de casa, entrando nos cafés de bairro após jantar.
A Baixa, centro oficioso de Lisboa, é, depois das oito horas, um deserto perigoso. Na última vez em que nela me passeava com os meus pais, detive-me numa montra e logo me ofereceram haxixe ou outras drogas e depois uma máquina fotográfica, obviamente roubada. Assim não dá.
O movimento dos habitantes, a certeza de que um grito é ouvido por alguém, que o vizinho de cima pode tomar conta da casa na nossa ausência. No fundo a sensação provinciana de viver numa comunidade que cada vez mais se perde nas grandes metrópoles. Em Lisboa ainda há zonas assim, como Campo de Ourique. Alfama e Graça são outro exemplo, onde o espírito ainda existe, talvez na sua forma mais pura, mas a degradação urbana toma, nalguns casos, proporções inacreditáveis. A reformulação urbana não se faz por decreto. Faz-se proporcionando o restauro dos edifícios, de preferência de forma rigorosa e respeitosa com a arquitectura dos mesmos. Não creio na transformação de bairros tradicionais nem em zonas "very typical" de matronas batendo em crianças à porta de casas miseráveis, nem em locais absurdamente caros que deturpam o conceito de bairro.
Parece utópico mas a cidade em que acredito é esta, com bairros mais caros e mais baratos, mas com uma alegre mistura, sem fronteiras rígidas, sem guettos falsos ou reais. Sem os condomínios fechados, que mais não são do que isto, falsos édenes, que em nada contribuem para a vida comunitária e que parecem uma versão capitalista de comunas fechadas ao mundo. Ainda não temos, felizmente, a criminalidade do Rio de Janeiro, essa sim justifica estes guettos. Lisboa foi assim, uma cidade de bairros, de pequenos provincianismos e saudáveis bairrismos, e pode voltar a sê-lo. A Graça sempre alternou casas populares com belos palácios, e Alfama, e a Madragoa. O bairro típico de Lisboa é assim, uma confusão de gentes e culturas. Assim se consiga manter o pouco que existe, sem estagnamos numa visão miserabilista de conservação degradada, ou embarcarmos em devaneios de construção em zonas sensíveis como estas.
A Baixa, centro oficioso de Lisboa, é, depois das oito horas, um deserto perigoso. Na última vez em que nela me passeava com os meus pais, detive-me numa montra e logo me ofereceram haxixe ou outras drogas e depois uma máquina fotográfica, obviamente roubada. Assim não dá.
O movimento dos habitantes, a certeza de que um grito é ouvido por alguém, que o vizinho de cima pode tomar conta da casa na nossa ausência. No fundo a sensação provinciana de viver numa comunidade que cada vez mais se perde nas grandes metrópoles. Em Lisboa ainda há zonas assim, como Campo de Ourique. Alfama e Graça são outro exemplo, onde o espírito ainda existe, talvez na sua forma mais pura, mas a degradação urbana toma, nalguns casos, proporções inacreditáveis. A reformulação urbana não se faz por decreto. Faz-se proporcionando o restauro dos edifícios, de preferência de forma rigorosa e respeitosa com a arquitectura dos mesmos. Não creio na transformação de bairros tradicionais nem em zonas "very typical" de matronas batendo em crianças à porta de casas miseráveis, nem em locais absurdamente caros que deturpam o conceito de bairro.
Parece utópico mas a cidade em que acredito é esta, com bairros mais caros e mais baratos, mas com uma alegre mistura, sem fronteiras rígidas, sem guettos falsos ou reais. Sem os condomínios fechados, que mais não são do que isto, falsos édenes, que em nada contribuem para a vida comunitária e que parecem uma versão capitalista de comunas fechadas ao mundo. Ainda não temos, felizmente, a criminalidade do Rio de Janeiro, essa sim justifica estes guettos. Lisboa foi assim, uma cidade de bairros, de pequenos provincianismos e saudáveis bairrismos, e pode voltar a sê-lo. A Graça sempre alternou casas populares com belos palácios, e Alfama, e a Madragoa. O bairro típico de Lisboa é assim, uma confusão de gentes e culturas. Assim se consiga manter o pouco que existe, sem estagnamos numa visão miserabilista de conservação degradada, ou embarcarmos em devaneios de construção em zonas sensíveis como estas.
7.1.04
Máquina Nova
Para este novo ano prometi-me um presente.
O meu computador, a que carinhosamente chamo "O fóssil", arrastava-se penosamente desactualizado desde há longos tempos atrás. Apesar do carinho que habitualmente ganho aos objectos, por este nada conseguia sentir. Aliás, senti por muitas, demasiadas, vezes uma quase irreprimível vontade de o arremessar pela janela. Monitor incluído, sim, esse que agora tinha imagem baça e de vez em quando flashava (não, não ando a tomar ácidos) sem aparente motivo.
Foi então com enorme satisfação que anteontem fui buscar o meu novo companheiro, preto, sem fios e, especialmente, actualizado e com um enorme ecrã. Parece que entrei numa nova dimensão informática, rápida e mais eficaz. Até o Blogger está diferente, agora que uso o Windows XP.
Acabei o dia a rever, na máquina nova, o belíssimo filme de Woody Allen "Toda a gente diz que te amo". Que boa maneira de começar o ano.
O meu computador, a que carinhosamente chamo "O fóssil", arrastava-se penosamente desactualizado desde há longos tempos atrás. Apesar do carinho que habitualmente ganho aos objectos, por este nada conseguia sentir. Aliás, senti por muitas, demasiadas, vezes uma quase irreprimível vontade de o arremessar pela janela. Monitor incluído, sim, esse que agora tinha imagem baça e de vez em quando flashava (não, não ando a tomar ácidos) sem aparente motivo.
Foi então com enorme satisfação que anteontem fui buscar o meu novo companheiro, preto, sem fios e, especialmente, actualizado e com um enorme ecrã. Parece que entrei numa nova dimensão informática, rápida e mais eficaz. Até o Blogger está diferente, agora que uso o Windows XP.
Acabei o dia a rever, na máquina nova, o belíssimo filme de Woody Allen "Toda a gente diz que te amo". Que boa maneira de começar o ano.
6.1.04
Sporting
Anteontem o Sporting resolveu, pelo menos por uma vez, jogar futebol com garra e alguma qualidade. O Engenheiro, também por uma vez, jogou ao ataque e sem receios, acertando nas substituições.
Conclusão, ganhámos na Luz e o título ainda não uma total miragem.
Bom início de 2004 para as bandas de Alvalade. Ainda bem.
Conclusão, ganhámos na Luz e o título ainda não uma total miragem.
Bom início de 2004 para as bandas de Alvalade. Ainda bem.
2004 Versão optimista
No 2004 dos meus pensamentos mais insanamente optimistas, isto é o que se vai passar.
O caso Casa Pia será resolvido, de forma inquestionável, e os culpados serão severamente punidos. Não me interessa se são os que estão presos, se estes e outros, se somente outros. O povo respirará de alívo e acreditará por uma vez na justiça da justiça em Portugal.
O governo contornará a crise e todos poderemos alargar ostensivamente o cinto. A Ministra das Finanças estará ao longo do ano com invejáveis índices de popularidade, sendo aclamada efusivamente pela população em qualquer local que passe.
O Sporting será campeão nacional, depois de uma série de dezassete jogos sem perder. Fernando Santos cumprirá a promessa de fazer a pé uma digressão pelos dez estádios do Euro, finalizada com um retiro de uma semana em Fátima.
Scolari será agraciado com a Ordem do Infante, depois de levar a nossa selecção à vitória no Euro 2004. Invicta e praticando um futebol de sonho, Portugal deslumbra o mundo, tornando-se campeão incontestado do campeonato que organizou. Os árbitros passam discretos e Baía fica no Porto a ver os jogos pela televisão. Consta que Pinto da Costa comeu um chapéu, devido à promessa de que o faria se Scolari fosse campeão sem jogar com Baía.
Mário Soares contrai uma estranha fobia que o impede de dar entrevistas a televisões, rádios e jornais. A doença é aparentemente contagiosa e Freitas do Amaral e Manuel Monteiro são contaminados.
O Rock in Rio cria um palco intimista, para o qual programa Chico Buarque, João Gilberto, Caetano Veloso, Maria Rita e Marisa Monte. No registo mais mexido os U2 confirmam a sua presença.
George Bush resigna por motivos desconhecidos e é sucedido por um representante da ala anti militarista do Partido Republicano.
Ana Gomes é nomeada embaixatriz no Burundi, com ordens expressas de não estabelecer contactos com o país de origem.
O grupo Media Capital, baseado num aturado estudo de marketing de uma empresa estrangeira, transforma os conteúdos dos seus canais num sucedâneo do ARTE.
Manuel de Oliveira realiza um filme de acção que é nomeado para o Óscar do melhor filme estrangeiro e ganha. Leonor Silveira acompanha-o a Los Angeles e é descoberta por Hollywood. A cerimónia dos óscares decorre de forma inédita com o empate nos Óscares de melhor filme e de melhor realizador entre Clint Eastwood por "Mystic River" e Peter Jackson por "Senhor dos Anéis: O Regresso do Rei."
Santana Lopes tem uma visão e desiste da candidatura à Presidência da República. Concentra-se em Lisboa e começa, de facto, a fazer qualquer coisa pelos alfacinhas. Os ministérios são expulsos, com apoio das massas, do Terreiro do Paço ao som de gritos "Terreiro para os lisboetas, burocratas para a Alta de Lisboa."
O Bloco de Esquerda assume a sua postura de "esquerda caviar", ao comemorar o seu aniversário num jantar na Bica do Sapato, seguido de restrita festa no Lux.
A esquerda tem um ataque de humildade e percebe que os portugueses já exprimiram a sua discordância com o aborto. O assunto cai no esquecimento.
O Iraque pacifica-se e Bin Laden é capturado com umas barbas ainda maiores do que as de Sadham. Israel e a Palestina entendem-se de forma aparentemente milagrosa, dando início a um sólido processo de paz.
Infelizmente não sou optimista.
O caso Casa Pia será resolvido, de forma inquestionável, e os culpados serão severamente punidos. Não me interessa se são os que estão presos, se estes e outros, se somente outros. O povo respirará de alívo e acreditará por uma vez na justiça da justiça em Portugal.
O governo contornará a crise e todos poderemos alargar ostensivamente o cinto. A Ministra das Finanças estará ao longo do ano com invejáveis índices de popularidade, sendo aclamada efusivamente pela população em qualquer local que passe.
O Sporting será campeão nacional, depois de uma série de dezassete jogos sem perder. Fernando Santos cumprirá a promessa de fazer a pé uma digressão pelos dez estádios do Euro, finalizada com um retiro de uma semana em Fátima.
Scolari será agraciado com a Ordem do Infante, depois de levar a nossa selecção à vitória no Euro 2004. Invicta e praticando um futebol de sonho, Portugal deslumbra o mundo, tornando-se campeão incontestado do campeonato que organizou. Os árbitros passam discretos e Baía fica no Porto a ver os jogos pela televisão. Consta que Pinto da Costa comeu um chapéu, devido à promessa de que o faria se Scolari fosse campeão sem jogar com Baía.
Mário Soares contrai uma estranha fobia que o impede de dar entrevistas a televisões, rádios e jornais. A doença é aparentemente contagiosa e Freitas do Amaral e Manuel Monteiro são contaminados.
O Rock in Rio cria um palco intimista, para o qual programa Chico Buarque, João Gilberto, Caetano Veloso, Maria Rita e Marisa Monte. No registo mais mexido os U2 confirmam a sua presença.
George Bush resigna por motivos desconhecidos e é sucedido por um representante da ala anti militarista do Partido Republicano.
Ana Gomes é nomeada embaixatriz no Burundi, com ordens expressas de não estabelecer contactos com o país de origem.
O grupo Media Capital, baseado num aturado estudo de marketing de uma empresa estrangeira, transforma os conteúdos dos seus canais num sucedâneo do ARTE.
Manuel de Oliveira realiza um filme de acção que é nomeado para o Óscar do melhor filme estrangeiro e ganha. Leonor Silveira acompanha-o a Los Angeles e é descoberta por Hollywood. A cerimónia dos óscares decorre de forma inédita com o empate nos Óscares de melhor filme e de melhor realizador entre Clint Eastwood por "Mystic River" e Peter Jackson por "Senhor dos Anéis: O Regresso do Rei."
Santana Lopes tem uma visão e desiste da candidatura à Presidência da República. Concentra-se em Lisboa e começa, de facto, a fazer qualquer coisa pelos alfacinhas. Os ministérios são expulsos, com apoio das massas, do Terreiro do Paço ao som de gritos "Terreiro para os lisboetas, burocratas para a Alta de Lisboa."
O Bloco de Esquerda assume a sua postura de "esquerda caviar", ao comemorar o seu aniversário num jantar na Bica do Sapato, seguido de restrita festa no Lux.
A esquerda tem um ataque de humildade e percebe que os portugueses já exprimiram a sua discordância com o aborto. O assunto cai no esquecimento.
O Iraque pacifica-se e Bin Laden é capturado com umas barbas ainda maiores do que as de Sadham. Israel e a Palestina entendem-se de forma aparentemente milagrosa, dando início a um sólido processo de paz.
Infelizmente não sou optimista.
3.1.04
Intermitência festiva
A época é de calma, de vindas esporádicas à Net, de preguiça na escrita.
O recolher ao porto de abrigo provinciano, o viver calmo e frio. As tardes perdidas em passeios iluminados pelos raios brilhantes de sol de Inverno. Os lanches de fim de tarde, chá e torradas, já à braseira. As noites passadas em serões provincianos que ainda existem. O gélido sair de casa com o vento cortante, embrulhado em cachecóis, em direcção à casa de alguém. A entrada direito à lareira, tentando aquecer o corpo. As conversas longas, quantas vezes sem sentido, quantas vezes do tipo paisagem. As ceias ás três da manhã, ainda no meio da noite, com sugestões de seguir em jogos de cartas ou DVD's. O tempo diferente, quantas vezes esquecido na vida em Lisboa.
A tudo isto acresce a época festiva, o burburinho da família junta. As crianças amuando. Os doces comidos compulsivamente, levando o colesterol a saltos estratosféricos. O egoísta ignorar do mundo lá fora, criando uma muralha em redor da casa. Assim se passa, assim se passou e passará por mais um fim de semana. Segunda-feira tudo voltará ao normal, e este blog também terá uma maior regularidade. Até lá, ou talvez até antes, um bom fim de semana.
O recolher ao porto de abrigo provinciano, o viver calmo e frio. As tardes perdidas em passeios iluminados pelos raios brilhantes de sol de Inverno. Os lanches de fim de tarde, chá e torradas, já à braseira. As noites passadas em serões provincianos que ainda existem. O gélido sair de casa com o vento cortante, embrulhado em cachecóis, em direcção à casa de alguém. A entrada direito à lareira, tentando aquecer o corpo. As conversas longas, quantas vezes sem sentido, quantas vezes do tipo paisagem. As ceias ás três da manhã, ainda no meio da noite, com sugestões de seguir em jogos de cartas ou DVD's. O tempo diferente, quantas vezes esquecido na vida em Lisboa.
A tudo isto acresce a época festiva, o burburinho da família junta. As crianças amuando. Os doces comidos compulsivamente, levando o colesterol a saltos estratosféricos. O egoísta ignorar do mundo lá fora, criando uma muralha em redor da casa. Assim se passa, assim se passou e passará por mais um fim de semana. Segunda-feira tudo voltará ao normal, e este blog também terá uma maior regularidade. Até lá, ou talvez até antes, um bom fim de semana.
Casa Pia
A telenovela voltou. Até o tempo permitir a escrita de uma posta decente sobre o assunto, recomendo o que vai escrevendo na Grande Loja (link ao lado).
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