Ainda não fui chamado para a audiência com o Sr. Presidente da República. Estou preocupado, como poderá decidir o Sr. Sampaio sem a minha imprescindível opinião?
9.7.04
Centrão
Diz muita gente que politicamente se deve dissolver a Assembleia da República porque na prática se vota em pessoas e não em partidos. Mais uma vez se me eriçam os pelos pois se a lei eleitoral que existe não foi mudada de quem é a culpa? Claro que é dos dois irritantes partidos do centrão que sempre se esforçam por parecer querer mudar, mas que no fundo não mudam nada. De facto votamos em partidos, é assim que vem no boletim de voto, não é uma fotografia de Ferro Rodrigues, é mesmo a rosa ou punho do PS. Insistirão que politicamente não é assim, mas se acham que devia ser mudem a lei. O que a realidade diz é que, infelizmente, votamos sempre em partidos excepto nas presidenciais. O resto é conversa usada quando convém e esquecida quando não interessa. Assim funciona o “centrão”, usando os seus erros como virtudes ou omissões conforme as circunstâncias. Por isso voto cada vez menos.
8.7.04
A importância de se chamar Europa
O nosso ex-primeiro-ministro resolveu fugir, achou por bem abandonar o país que governava por um suposto interesse maior, a Europa.
No Euro o país saiu à rua, inundando-se de bandeiras portuguesas entre as quais o único azul descortinável era o de algumas bandeiras monárquicas que surgiram de braço dado com o encarnado e verde. Bandeiras da Europa nem sinal, nem umas fugazes estrelinhas surgiram senão em alinhamentos oficiais de bandeiras.
Durão achou a Europa mais importante, os portugueses não. Talvez o Euro tenha sido padrasto para os europeístas, demonstrando que ainda existimos como país. Assim o foi para Durão, após o fumo inicial que cobriu a sua saída com uma suposta aura de orgulho nacional, agora todos começamos a estar certos do egoísmo da decisão, apenas tomada por vaidades e interesses pessoais.
Ainda há quem argumente com o que Portugal irá ganhar com o novo cargo de Durão, para eles uma pergunta, ganhou algo a Itália nos últimos anos por Romano Prodi ser o Presidente da Comissão Europeia? Que Europa será a nossa em que os cargos de decisão não são neutrais em relação aos países? Durão tem a obrigação de ser o que nós exigimos que sejam os outros comissários: isento. Não acreditar nisto – e eu não digo que acredite – é não acreditar no funcionamento da Europa – que eu de facto não acredito.
Como português, acuso Durão de falta de patriotismo e de não olhar o interesse nacional, apenas desculpável se, atacado por uma crise de humildade, achasse que o seu trabalho estava a ser mau e que o melhor era ser substituído – ou seja remodelado. Claro que não acredito nesta versão até pelos emproados discursos que se seguiram.
Posso até pensar que para o país será melhor que ele vá para Bruxelas, não pelo que poderá fazer lá, mas pelo que não irá fazer cá. Talvez ganhemos um melhor governo, mas, em abstracto, a fuga foi anti-patriótica demonstrando que já há quem ponha a Europa à frente de Portugal e isso é muito, mas muito, perigoso.
No Euro o país saiu à rua, inundando-se de bandeiras portuguesas entre as quais o único azul descortinável era o de algumas bandeiras monárquicas que surgiram de braço dado com o encarnado e verde. Bandeiras da Europa nem sinal, nem umas fugazes estrelinhas surgiram senão em alinhamentos oficiais de bandeiras.
Durão achou a Europa mais importante, os portugueses não. Talvez o Euro tenha sido padrasto para os europeístas, demonstrando que ainda existimos como país. Assim o foi para Durão, após o fumo inicial que cobriu a sua saída com uma suposta aura de orgulho nacional, agora todos começamos a estar certos do egoísmo da decisão, apenas tomada por vaidades e interesses pessoais.
Ainda há quem argumente com o que Portugal irá ganhar com o novo cargo de Durão, para eles uma pergunta, ganhou algo a Itália nos últimos anos por Romano Prodi ser o Presidente da Comissão Europeia? Que Europa será a nossa em que os cargos de decisão não são neutrais em relação aos países? Durão tem a obrigação de ser o que nós exigimos que sejam os outros comissários: isento. Não acreditar nisto – e eu não digo que acredite – é não acreditar no funcionamento da Europa – que eu de facto não acredito.
Como português, acuso Durão de falta de patriotismo e de não olhar o interesse nacional, apenas desculpável se, atacado por uma crise de humildade, achasse que o seu trabalho estava a ser mau e que o melhor era ser substituído – ou seja remodelado. Claro que não acredito nesta versão até pelos emproados discursos que se seguiram.
Posso até pensar que para o país será melhor que ele vá para Bruxelas, não pelo que poderá fazer lá, mas pelo que não irá fazer cá. Talvez ganhemos um melhor governo, mas, em abstracto, a fuga foi anti-patriótica demonstrando que já há quem ponha a Europa à frente de Portugal e isso é muito, mas muito, perigoso.
7.7.04
De besta a bestial
Falar de Manuela Ferreira Leite era, há uns dias atrás, falar do demónio. Ela era a criatura que empurrava Portugal para a estagnação económica, para a contenção desmedida, para a desigualdade social. O "Monstro do Pântano" seria o mínimo que qualquer opositor do governo lhe chamaria.
Hoje, que Santana como primeiro-ministro é uma possibilidade, o que dizem estas pessoas? Que o presidente não pode chamar um novo governo sem eleições porque se porá em causa a política económica do governo. Com Santana virá o fim da contenção, contra a qual gritaram durante meses a fio, e aumentará o investimento público.
Extraordinário como alguém passa de besta a bestial sem mudar uma linha na postura e pelos mesmos motivos.
P.S. Será que ainda se lembram do famoso choque fiscal que fazia parte do programa de Governo?
Hoje, que Santana como primeiro-ministro é uma possibilidade, o que dizem estas pessoas? Que o presidente não pode chamar um novo governo sem eleições porque se porá em causa a política económica do governo. Com Santana virá o fim da contenção, contra a qual gritaram durante meses a fio, e aumentará o investimento público.
Extraordinário como alguém passa de besta a bestial sem mudar uma linha na postura e pelos mesmos motivos.
P.S. Será que ainda se lembram do famoso choque fiscal que fazia parte do programa de Governo?
De bestial a besta
Os actuais tempos no futebol deixaram de fora bonitos conceitos como o amor à camisola, dando lugar à crua linguagem do dinheiro. Mas ontem, ao ver a apresentação de Quaresma como jogador do Porto, esqueci-me desse facto. Por isso o bestial jogador que era Quaresma passou a ser mais uma besta que, tendo começado no Sporting, ousou voltar para Portugal para outro clube. A racionalidade que vá ás malvas porque depois do jogo com os Greg.. tenho de passar a raiva para alguém.
6.7.04
5.7.04
Pátria
Numa entrevista de rua:
Está na rua porquê? O que é que ganhámos?
Ganhámos uma pátria.
Passe o exagero, porque pátria já temos há muito tempo, o Euro devolveu aos portugueses esse conceito de patriotismo que parecia estar apenas no país aqui ao lado.
A absurda, e abundante, confusão entre patriotismo e nacionalismo pode ser agora destrinçada, podemos todos dizer de mão no peito que somos patriotas sem que logo venham os guardiões da liberdade de dedo apontado acusando-nos de fascismo.
Está na rua porquê? O que é que ganhámos?
Ganhámos uma pátria.
Passe o exagero, porque pátria já temos há muito tempo, o Euro devolveu aos portugueses esse conceito de patriotismo que parecia estar apenas no país aqui ao lado.
A absurda, e abundante, confusão entre patriotismo e nacionalismo pode ser agora destrinçada, podemos todos dizer de mão no peito que somos patriotas sem que logo venham os guardiões da liberdade de dedo apontado acusando-nos de fascismo.
Obrigado
Aos jogadores por terem feito o seu melhor para que fossemos campeões.
A Scolari por ter feito uma equipa de um conjunto de jogadores.
Aos organizadores do Euro por transformarem um país desorganizado no responsável pelo melhor Euro de sempre com uma impecável festa de quase um mês.
Aos portugueses por me terem feito de novo acreditar que podemos continuar um país apesar da Europa.
A Scolari por ter feito uma equipa de um conjunto de jogadores.
Aos organizadores do Euro por transformarem um país desorganizado no responsável pelo melhor Euro de sempre com uma impecável festa de quase um mês.
Aos portugueses por me terem feito de novo acreditar que podemos continuar um país apesar da Europa.
Selecção
Por uma vez, apenas um punhado de idiotas persistiu em “clubizar” a selecção, falando apenas dos jogadores do seu clube e verberando Scolari por esta ou outra convocatória. Hoje já li quem falasse de novo da estrutura do Porto, de que o mérito passa por aí, insistindo em que a selecção é do F.C.P. e que a eles devemos o sucesso de chegar à final. A quem interessa isso, para quê esticarem os bicos dos pés para que se fale do seu clube, para quê aproveitar a selecção?
Quem jogou foram os jogadores de Portugal, sejam de que clube forem jogaram por Portugal, não jogaram por Mourinho, Pinto da Costa, Dias da Cunha ou Vieira. Por isso se uniu o país. Por isso apenas uma minoria de fanáticos pensa assim. Por isso foi bom este europeu.
Quem jogou foram os jogadores de Portugal, sejam de que clube forem jogaram por Portugal, não jogaram por Mourinho, Pinto da Costa, Dias da Cunha ou Vieira. Por isso se uniu o país. Por isso apenas uma minoria de fanáticos pensa assim. Por isso foi bom este europeu.
Política
Perdemos a final e o Euro acabou. Teremos de voltar a falar de política. Apetece de facto chorar ao som de um triste fado de Amália.
1.7.04
Democracia relativa
Fosse outro o vice-presidente do PSD e as vozes que clamam por um congresso não estariam caladas?
Os laranjas que se indignam com Santana não farão parte da lista em congresso aprovada na qual ele ficou número 2 de Durão?
Os laranjas que se indignam com Santana não farão parte da lista em congresso aprovada na qual ele ficou número 2 de Durão?
Consequências
Uma voz que faz parecer Tom Waits um cantor de voz límpida qual Crystal Gayle.
Uma preguiça desmesurada com um tentáculo gigante que me tenta puxar para a praia.
Uma segura noção de que os portugueses estão possuídos por um vírus de patriotismo inimaginável, e a muitos difícil de engolir.
Uma certeza que Figo é um dos melhores do mundo por muito que haja quem teime em não concordar.
Um agradecimento a Scolari que realmente só pode ter muita sorte ao ganhar tanta vez.
Um enorme gozo em poder entrar na festa louca em que este país se entrou.
Um total esquecimento, até há uns minutos, de que não temos primeiro-ministro e governo.
Uma preguiça desmesurada com um tentáculo gigante que me tenta puxar para a praia.
Uma segura noção de que os portugueses estão possuídos por um vírus de patriotismo inimaginável, e a muitos difícil de engolir.
Uma certeza que Figo é um dos melhores do mundo por muito que haja quem teime em não concordar.
Um agradecimento a Scolari que realmente só pode ter muita sorte ao ganhar tanta vez.
Um enorme gozo em poder entrar na festa louca em que este país se entrou.
Um total esquecimento, até há uns minutos, de que não temos primeiro-ministro e governo.
Alvalade XXI
Entrada civilizada, conversa com holandeses, fila para comer, descobrir o lugar, à frente portugueses, atrás ingleses, à direita uma concentrada mancha de Sun-Quick, à esquerda a central de vermelho e verde, cânticos, entrada das equipas, Portugal! Portugal! Portugal!, hino cantado a uma só voz com a letra completa por muitas mil pessoas – de arrepiar, Frisk apita, mau começo, nervos, cigarros, golo do Ronaldo, festa, Portugal! Portugal! Portugal!, boas jogadas, domínio luso, bom jogo, Frisk apita, saída dos jogadores sob palmas, Portugal! Portugal! Portugal!, intervalo, entram os jogadores, Portugal! Portugal! Portugal!, jogo rápido, Holanda pressiona, cigarros, inacreditável golo de Maniche, saltos, saltos, Portugal! Portugal! Portugal!, saltos, jogo controlado, auto golo de Jorge Andrade, jogo descontrolado, cigarros, pressão holandesa, cigarros, falhanços portugueses, cigarros, o jogo não acaba, cigarros, pressão, sofrimento, Frisk apita, saltos, Portugal! Portugal! Portugal!, saltos gritos, palmas, Figo o melhor do jogo, saltos, Portugal! Portugal! Portugal!, saída rápida a cantar, metro, Portugal! Portugal! Portugal!, comer qualquer coisa e cerveja com álcool, a festa agora é nossa.
30.6.04
Inveja
Tentei, a seu tempo, comprar bilhetes para três jogos do Euro, um dos quais era a Meia-final onde iria o vencedor do nosso grupo, numa clara ilusão de esperança de ver Portugal jogar ou, o mais certo, ver um bom jogo de futebol. Só consegui bilhetes para um jogo, por isso hoje lá rumarei ao meu bem conhecido Alvalade XXI, onde espero que as semelhanças com os jogos do Sporting se fiquem pelo jogo de abertura com o Manchester (lembra-te e repete Cristiano Ronaldo) e não pelo resto de miserável época.
Não, não está à venda, apesar de a partir de 500 contos ser possível sentar-me a uma esplanada a ver o Tejo numa dura negociação que me privaria de um grande jogo mas permitiria uns bons dias de férias e um écran de plasma. Mas não, o dinheiro não compra tudo e apetece-me mesmo ir ver o jogo. A quem não tem bilhete, temos pena! (desculpem a crueldade, deve ser do calor)
Não, não está à venda, apesar de a partir de 500 contos ser possível sentar-me a uma esplanada a ver o Tejo numa dura negociação que me privaria de um grande jogo mas permitiria uns bons dias de férias e um écran de plasma. Mas não, o dinheiro não compra tudo e apetece-me mesmo ir ver o jogo. A quem não tem bilhete, temos pena! (desculpem a crueldade, deve ser do calor)
29.6.04
Melhor que o silêncio
Relembro as palavras de Caetano ao ouvir o último disco de João Gilberto: "Melhor que o silêncio só João".
O disco "João Gilberto in Tokyo" é mais do mesmo, e ainda bem. João é genial porque a sua voz é única e as suas interpretações sempre diferentes, este "in Tokyo" repete várias músicas do "in Montreaux" mas a igualdade fica por aí. João é um génio na música e vive a vida como génio, daí os seus caprichos como a lendária entrada em palco em Portugal onde deu dois acordes e saiu do palco por o som não estar do seu agrado. Claro que tudo tem graça quando não nos toca, por isso a minha pequena raiva de ter tido - durante seis longos meses - bilhetes para um concerto seu no Coliseu, duas vezes adiado e por fim cancelado. As datas eram próximas deste concerto em Tóquio. Grr!!!
O disco "João Gilberto in Tokyo" é mais do mesmo, e ainda bem. João é genial porque a sua voz é única e as suas interpretações sempre diferentes, este "in Tokyo" repete várias músicas do "in Montreaux" mas a igualdade fica por aí. João é um génio na música e vive a vida como génio, daí os seus caprichos como a lendária entrada em palco em Portugal onde deu dois acordes e saiu do palco por o som não estar do seu agrado. Claro que tudo tem graça quando não nos toca, por isso a minha pequena raiva de ter tido - durante seis longos meses - bilhetes para um concerto seu no Coliseu, duas vezes adiado e por fim cancelado. As datas eram próximas deste concerto em Tóquio. Grr!!!
28.6.04
Duas costelas
Este blogue – ou seja eu – junta no nome duas costelas aparentemente antagónicas: a conservadora e a anárquica. A actual situação do país provocou uma divisão interna neste blogue que tenta desesperadamente ter uma posição.
A costela conservadora leva-me neste momento a achar que Durão devia ter ficado em nome da estabilidade, a duvidar da legitimidade de outro Primeiro-ministro tomar posse sem eleições, a assustar-me com Santana pela sua enorme inconsequência e a achar tudo isto uma maçada que só vem perturbar o meu quotidiano e o Euro 2004. Tremo ao pensar em túneis que esburaquem o país inteiro levando a irresponsabilidade até ao mais recôndito interior. Acho incrível que a Kapital venha a ser declarada local de interesse cultural (até porque os seus tempos já eram) e poder utilizar o navio escola Sagres para os seus cruzeiros a Ibiza. Ver o Gerês transformado em Parque Temático para atrair espanhóis ou a Serra da Estrela com um projecto de Montanhas Tropicais parece-me demais. Tenho medo, muito medo, que Santana escreva a Camões convidando-o para Ministro da Justiça ou a Eça de Queiroz para a pasta das Ciências.
A costela mais anárquica acha que Durão era um chato que faz bem em ir para terra do ditos (Bruxelas) e que eleições antecipadas seriam um bom prolongamento da festa do Euro. Acha também que a substituição por Santana tornaria Portugal num país infinitamente mais divertido e decorativo (venham a nós as "Santanettes"). Tenho já um gozo delicioso ao ver os intelectuais a revolverem-se qual epilépticos com a mera hipótese de Santana ser primeiro-ministro, comparando-o a Bush ou Hittler como um louco perigoso que tornaria Portugal numa República de Bananas desgovernada. Sonho já com um Portugal sempre em festa, nem que seja a organizar concursos de "Miss Sul da Europa", "Galas de Cantoras Louras" e "Festivais de Teatro Feminino do Novo Leste Europeu". Regozijo-me com a incorrecção política que Santana traria a este país onde quase todos os políticos são medíocres, chatos, desinteressantes e incompetentes. (a Santana ninguém poderá chamar chato ou desinteressante)
Este blogue está rasgado ao pelo meio de duas costelas e apetecia-lhe, já agora, comer uma costoletinhas de borrego panadas que são bem mais unânimes e pacíficas.
A costela conservadora leva-me neste momento a achar que Durão devia ter ficado em nome da estabilidade, a duvidar da legitimidade de outro Primeiro-ministro tomar posse sem eleições, a assustar-me com Santana pela sua enorme inconsequência e a achar tudo isto uma maçada que só vem perturbar o meu quotidiano e o Euro 2004. Tremo ao pensar em túneis que esburaquem o país inteiro levando a irresponsabilidade até ao mais recôndito interior. Acho incrível que a Kapital venha a ser declarada local de interesse cultural (até porque os seus tempos já eram) e poder utilizar o navio escola Sagres para os seus cruzeiros a Ibiza. Ver o Gerês transformado em Parque Temático para atrair espanhóis ou a Serra da Estrela com um projecto de Montanhas Tropicais parece-me demais. Tenho medo, muito medo, que Santana escreva a Camões convidando-o para Ministro da Justiça ou a Eça de Queiroz para a pasta das Ciências.
A costela mais anárquica acha que Durão era um chato que faz bem em ir para terra do ditos (Bruxelas) e que eleições antecipadas seriam um bom prolongamento da festa do Euro. Acha também que a substituição por Santana tornaria Portugal num país infinitamente mais divertido e decorativo (venham a nós as "Santanettes"). Tenho já um gozo delicioso ao ver os intelectuais a revolverem-se qual epilépticos com a mera hipótese de Santana ser primeiro-ministro, comparando-o a Bush ou Hittler como um louco perigoso que tornaria Portugal numa República de Bananas desgovernada. Sonho já com um Portugal sempre em festa, nem que seja a organizar concursos de "Miss Sul da Europa", "Galas de Cantoras Louras" e "Festivais de Teatro Feminino do Novo Leste Europeu". Regozijo-me com a incorrecção política que Santana traria a este país onde quase todos os políticos são medíocres, chatos, desinteressantes e incompetentes. (a Santana ninguém poderá chamar chato ou desinteressante)
Este blogue está rasgado ao pelo meio de duas costelas e apetecia-lhe, já agora, comer uma costoletinhas de borrego panadas que são bem mais unânimes e pacíficas.
25.6.04
Remodelling Durão
Como diz Vítor Cunha no Independente de hoje, Durão está prestes a tornar-se genial e não se ficará por uma simples remodelação, remodelar-se-á a si próprio. Nem o Bloco se atreveria a tanto.
The Game
Sem entrar em análises futebolísticas, para as quais não estou preparado, apenas algumas notas.
Bravo Scolari, por ter os tom.... de substituir daquela maneira, de trocar o trinco e o lateral direito por avançados, de tirar o exausto Figo, de mandar tudo para a frente. Quantos treinadores portugueses ousariam isto?
Bravo Postiga, pelo golo e pelo inadjectivável penalty, a bola a saltitar para o meio da baliza é digna do próprio Marques de Sade.
Bravo Rui Costa pelo golo, o fabuloso remate quase me fez bater com a cabeça no tecto com o salto que me obrigou a dar.
Bravo Ricardo, pela defesa sem luvas e pelo golo de raiva e convicção que mandou os ingleses para casa. Alguém ainda se lembra de Baía?
Bravo a todos pelo fantástico jogo que fizeram. Bravo e obrigado.
Bravo Scolari, por ter os tom.... de substituir daquela maneira, de trocar o trinco e o lateral direito por avançados, de tirar o exausto Figo, de mandar tudo para a frente. Quantos treinadores portugueses ousariam isto?
Bravo Postiga, pelo golo e pelo inadjectivável penalty, a bola a saltitar para o meio da baliza é digna do próprio Marques de Sade.
Bravo Rui Costa pelo golo, o fabuloso remate quase me fez bater com a cabeça no tecto com o salto que me obrigou a dar.
Bravo Ricardo, pela defesa sem luvas e pelo golo de raiva e convicção que mandou os ingleses para casa. Alguém ainda se lembra de Baía?
Bravo a todos pelo fantástico jogo que fizeram. Bravo e obrigado.
Heart Attack
A melhor maneira de falar do jogo de ontem será compará-lo a um electrocardiograma de esforço. Foram mais de duas horas em que o coração teimava em querer sair pela boca e era empurrado para dentro por cervejas e cigarros em barda. Nem as tostinhas com Palhais e os cajus impediam o estômago de se tentar enlear em nós cegos. Scolari e os seus jogadores têm de ser sádicos, dois jogos destes seguidos e deixaram todo um país em estado de transe com sintomas próximos de anginas de peito.
Claro que tanto sofrimento teria de ter uma consequente explosão de alegria que levou todos para a rua entupindo as cidades com buzinas, bandeiras e gritos. Mas não foi só em Portugal, comovente mesmo foi ver hoje imagens de alegria em Timor ou Moçambique, lembrando-nos que ainda há quem goste de nós, e vibre por nós, e festeje connosco.
Lisboa ontem parecia dominada por uma loucura colectiva, à qual obviamente aderi. Confesso que sou muito português e que, como tal, gosto muito de festa, de comemorar, de sair, de me divertir. Vale a pena ver uma cidade em festa e ainda mais por bons motivos. Se é necessário o futebol para alegrar um povo e para que haja algum patriotismo, então aproveite-se o futebol. Ao menos que haja algo que nos desperte da modorra que são estes dias de Europa cinzenta e de mentalidades politicamente correctas.
Claro que tanto sofrimento teria de ter uma consequente explosão de alegria que levou todos para a rua entupindo as cidades com buzinas, bandeiras e gritos. Mas não foi só em Portugal, comovente mesmo foi ver hoje imagens de alegria em Timor ou Moçambique, lembrando-nos que ainda há quem goste de nós, e vibre por nós, e festeje connosco.
Lisboa ontem parecia dominada por uma loucura colectiva, à qual obviamente aderi. Confesso que sou muito português e que, como tal, gosto muito de festa, de comemorar, de sair, de me divertir. Vale a pena ver uma cidade em festa e ainda mais por bons motivos. Se é necessário o futebol para alegrar um povo e para que haja algum patriotismo, então aproveite-se o futebol. Ao menos que haja algo que nos desperte da modorra que são estes dias de Europa cinzenta e de mentalidades politicamente correctas.
Day-after
Só a estas horas foi possível escrever algo, depois de uma Água da Pedras ao acordar – que isto de fazer noites a cerveja sempre se revelou fatal no dia seguinte –, de um almoço leve seguido de café e do abastecimento apropriado de jornais (Independente, Sábado, Diário de Notícias e, claro, o Record). Sim, as vantagens de não ter patrão permitem estes pequenos luxos de antecipar fins-de-semana com um leve trabalho feito em casa.
23.6.04
Há uns meses
Ontem saiu uma notícia sobre a possibilidade de Durão Barroso seguir para a presidência da Comissão Europeia.
Há uns meses atrás não se imaginaria que Portugal poderia passar a ser governado por um José Luís Arnaud saído em ombros após o sucesso do Euro ou pelo sempre truculento Morais Sarmento, e Santana Lopes, que anda em pré-campanha Presidencial, nunca pensaria ser primeiro-ministro de Portugal. Qualquer uma destas possibilidades seria aparentemente viável pelo actual posicionamento destes senhores no Governo e no partido, tudo depende da decisão de Durão e dos parceiros europeus.
Há uns meses todos sorriam perante a hipótese de ter Ferro Rodrigues como credível líder da oposição com possibilidades de ganhar eleições, hoje, apesar da anunciada concorrência, tudo se encaminha para a realidade.
Há uns meses estaríamos esquecidos de Freitas do Amaral, hoje é lançado pelo candidato à liderança do PS, João Soares, como candidato presidencial. A mera sugestão de um embate entre Freitas e Cavaco, aliado ás especulações acima expressas, aumenta em mim a hipótese de emigrar, e Espanha aqui tão perto.
Não sei se é do Euro ou se o nosso país foi invadido por alguém com um sentido de humor demasiado Monthy-Pythoniano, é que na televisão é uma coisa, já na realidade...
Há uns meses atrás não se imaginaria que Portugal poderia passar a ser governado por um José Luís Arnaud saído em ombros após o sucesso do Euro ou pelo sempre truculento Morais Sarmento, e Santana Lopes, que anda em pré-campanha Presidencial, nunca pensaria ser primeiro-ministro de Portugal. Qualquer uma destas possibilidades seria aparentemente viável pelo actual posicionamento destes senhores no Governo e no partido, tudo depende da decisão de Durão e dos parceiros europeus.
Há uns meses todos sorriam perante a hipótese de ter Ferro Rodrigues como credível líder da oposição com possibilidades de ganhar eleições, hoje, apesar da anunciada concorrência, tudo se encaminha para a realidade.
Há uns meses estaríamos esquecidos de Freitas do Amaral, hoje é lançado pelo candidato à liderança do PS, João Soares, como candidato presidencial. A mera sugestão de um embate entre Freitas e Cavaco, aliado ás especulações acima expressas, aumenta em mim a hipótese de emigrar, e Espanha aqui tão perto.
Não sei se é do Euro ou se o nosso país foi invadido por alguém com um sentido de humor demasiado Monthy-Pythoniano, é que na televisão é uma coisa, já na realidade...
21.6.04
Aljubarrota XXI
Não sei porque foi preciso que a pressão tomasse conta da nossa selecção para que finalmente jogassem; não sei porque foi preciso um jogo miserável para Scolari acordar (mas acordou, Uff!); não sei porque até com a Rússia pouco jogamos; não sei porque em Portugal se teima em ter medo da juventude (ver o exemplo de Ricardo Carvalho e Cristiano Ronaldo); não sei porque só conseguimos jogar a sério e quando é imperativo ganhar; não sei se os jogadores se transcenderam por um dia ou se o bom futebol veio para ficar; não sei se foi uma reacção à fúria espanhola e um reviver da Aljubarrota de boa memória; não sei porque há gente que teima em ter medo da palavra patriotismo; não sei porque há meses todos se insurgiram contra o Ministro Portas por querer ensinar o hino e o significado da bandeira e hoje ser mais fácil encontrar bandeiras do que mosquitos e ouvir a Portuguesa do que um qualquer grupo pimba; não sei muito de futebol mas sei o que vi ontem, e gostei.
O que sei é que aquilo que há muito se esperava que já tivesse acontecido surgiu ontem em Aljubarrota (perdão Alvalade); o que sei é que foram várias cervejas e muitos cigarros numa adrenalina permanente ao longo dos 90 minutos; o que sei é que foi uma irracional explosão de alegria individual e colectiva; o que sei é que o povo português perdeu a cabeça e saiu para a rua cantando o hino que muitos queriam que ninguém soubesse; o que sei é que o Marquês estava cheio e a Avenida da Liberdade se descia agradavelmente com os carros parados a buzinar; o que sei é que vi japoneses atónitos perante esta festa; o que sei é que no Rossio se tomava banho como se de uma piscina se tratasse; o que sei é que dizem que não somos patriotas (ui! serei já acusado de Nacionalismo) mas bastava ir ontem à rua para ver o contrário; o que sei é que se fosse uma selecção da Europa ninguém sairia sequer à janela; o que sei é que o Figo ainda é grande; o que sei é que me deu um enorme prazer ganhar e passear alegremente por Lisboa; o que sei é que na quinta-feira vou estar ansioso a desejar que joguemos como ontem e depois, depois logo se verá.
O que sei é que aquilo que há muito se esperava que já tivesse acontecido surgiu ontem em Aljubarrota (perdão Alvalade); o que sei é que foram várias cervejas e muitos cigarros numa adrenalina permanente ao longo dos 90 minutos; o que sei é que foi uma irracional explosão de alegria individual e colectiva; o que sei é que o povo português perdeu a cabeça e saiu para a rua cantando o hino que muitos queriam que ninguém soubesse; o que sei é que o Marquês estava cheio e a Avenida da Liberdade se descia agradavelmente com os carros parados a buzinar; o que sei é que vi japoneses atónitos perante esta festa; o que sei é que no Rossio se tomava banho como se de uma piscina se tratasse; o que sei é que dizem que não somos patriotas (ui! serei já acusado de Nacionalismo) mas bastava ir ontem à rua para ver o contrário; o que sei é que se fosse uma selecção da Europa ninguém sairia sequer à janela; o que sei é que o Figo ainda é grande; o que sei é que me deu um enorme prazer ganhar e passear alegremente por Lisboa; o que sei é que na quinta-feira vou estar ansioso a desejar que joguemos como ontem e depois, depois logo se verá.
17.6.04
Lá ganhámos
O senhor Scolari pensou um pouco e escolheu para ontem a equipa que já deveria ter jogado contra a Grécia (pronto, também devia ter jogado o Ronaldo mas, não podemos querer tudo ao mesmo tempo). Ganhámos facilmente com dois golos excelentes, apesar de não jogarmos muito. Agora teremos de ganhar à Espanha num jogo que se prevê escaldante, para o qual recomendo uns Inderal antes do início.
Curioso mesmo foi a saída desmesurada do povo para as ruas, fazendo com que um "alien" que ontem aterrasse em Lisboa nos julgasse campeões da Europa. A verdade é que o país não tem tido muito para comemorar, mas entupir o Rossio após uma singela e normal vitória parece-me um pouco excessivo. Mas é disto que o meu povo gosta e, depois do Santo António e antes do São João, há que arranjar pretextos para mais umas bebedeiras (como se para actividade tão nobre fossem precisos motivos).
No Domingo relembremos Aljubarrota e marchemos com boa táctica, a do quadrado talvez já tenha passado de moda, e com a vontade de derrotar os espanhóis que nos devia correr no sangue há muitos e muitos anos. Pelo vermelho da nossa bandeira.
(E depois desta tirada nacionalista me vou, antes que a brigada da esquerda politicamente correcta me apanhe e me apedreje com acusações de fascista).
Curioso mesmo foi a saída desmesurada do povo para as ruas, fazendo com que um "alien" que ontem aterrasse em Lisboa nos julgasse campeões da Europa. A verdade é que o país não tem tido muito para comemorar, mas entupir o Rossio após uma singela e normal vitória parece-me um pouco excessivo. Mas é disto que o meu povo gosta e, depois do Santo António e antes do São João, há que arranjar pretextos para mais umas bebedeiras (como se para actividade tão nobre fossem precisos motivos).
No Domingo relembremos Aljubarrota e marchemos com boa táctica, a do quadrado talvez já tenha passado de moda, e com a vontade de derrotar os espanhóis que nos devia correr no sangue há muitos e muitos anos. Pelo vermelho da nossa bandeira.
(E depois desta tirada nacionalista me vou, antes que a brigada da esquerda politicamente correcta me apanhe e me apedreje com acusações de fascista).
14.6.04
1,2,3
Apetece meter a "nossa selecção" numa "1,2,3" e reduzir tudo a um belo bife tártaro. Talvez assim algumas estrelas acordassem e Scolari se lembrasse de juntar alguma pimenta a este bife servido duro e requentado.
Porque não votei
A culpa da minha convicta abstenção deve-se por inteiro ao sol de Sagres. Aqui, nesta ponta de Portugal, o Algarve parece Alentejo, felizmente. As praias são fabulosas e a vila pequena e familiar. Ontem que bem se estava na praia, estendido na areia por entre conversas atiradas ao vento e pilhas de revistas e jornais. O mar estava límpido e fresco como sempre deveria estar. Com este cenário quem se lembraria de votar, ou mesmo que estávamos em dia de eleições. A culpa da minha abstenção é toda do sol de Sagres, e de Sagres, e destes pedaços de Portugal que a voragem do betão ainda não consumiu e de, na realidade, me estar marimbando para as eleições.
Claro que a minha abstenção se poderia dever ao facto das eleições serem europeias. Durante a campanha pouco se falou de Europa, agora, como sempre, os políticos ignoram olimpicamente qualquer explicação ao povo sobre o que se passa na Europa, e sobre o que lá se decide quanto ao nosso futuro. Há anos que estamos na Europa e duvido que um qualquer inquérito consiga mais de 3 ou 4% de respostas correctas sobre qual o nosso papel na Europa, quais as competências do Parlamento Europeu, o que foram os Tratados de Maastricht e de Nice e o que poderá vir a ser a constituição europeia. A posição dos partidos do "centrão" é igual e talvez resida aí a pouca democraticidade que sempre rodeou a nossa integração na Europa. Para quê explicar ao povo, é que se souberem o que é poderão ser contra, assim é mais fácil enganá-los. Por muitas correcções de posição que os partidos tenham feito eu permaneço um pouco Euro-céptico. Não sou, hoje, contra estarmos na Europa, mas continuo com muitas dúvidas que nenhum partido se esforçou por esclarecer. Com tudo isto ninguém fez por merecer o meu voto, mas claro que isto não interessa nada, a culpa foi do sol de Sagres onde me apetecia estar agora.
Claro que a minha abstenção se poderia dever ao facto das eleições serem europeias. Durante a campanha pouco se falou de Europa, agora, como sempre, os políticos ignoram olimpicamente qualquer explicação ao povo sobre o que se passa na Europa, e sobre o que lá se decide quanto ao nosso futuro. Há anos que estamos na Europa e duvido que um qualquer inquérito consiga mais de 3 ou 4% de respostas correctas sobre qual o nosso papel na Europa, quais as competências do Parlamento Europeu, o que foram os Tratados de Maastricht e de Nice e o que poderá vir a ser a constituição europeia. A posição dos partidos do "centrão" é igual e talvez resida aí a pouca democraticidade que sempre rodeou a nossa integração na Europa. Para quê explicar ao povo, é que se souberem o que é poderão ser contra, assim é mais fácil enganá-los. Por muitas correcções de posição que os partidos tenham feito eu permaneço um pouco Euro-céptico. Não sou, hoje, contra estarmos na Europa, mas continuo com muitas dúvidas que nenhum partido se esforçou por esclarecer. Com tudo isto ninguém fez por merecer o meu voto, mas claro que isto não interessa nada, a culpa foi do sol de Sagres onde me apetecia estar agora.
10.6.04
Fim-de-Semana
Estou oficialmente de fim-de-semana, a única ponte do ano será aproveitada para uns dias de amnésia de trabalho. Praia (sem filas na ponte), jornais (muitos já comprados), passagens por livros (dois ou três para não pesarem na mala), cervejas de fim de tarde (com umas amêijoas ou percebes), alguns copos de noite (de preferência ao ar livre), e Sábado a estreia da selecção no Euro (vista em na praia em ecrã a condizer). Não me parece um mau programa para passar o tempo. O blog também estará parado, derretido pelo calor que está lá fora. No Domingo temos eleições ás quais ainda não decidi comparecer, a dúvida sobre se vale a pena ir e em quem votar assola-me até à indecisão. Logo se verá. Até segunda-feira e bom fim-de-semana.
Lusíadas
Não mais musa, não mais, que a Lira tenho
destemperada e a voz enrouquecida,
e não do canto, mas de ver que venho
cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho
não no dá a Pátria, não que está metida
no gosto da cobiça e na rudeza
duma austera, apagada e vil tristeza.
E não sei por que influxo de destino
não tem um ledo orgulho e geral gosto,
que os ânimos levanta de contino
a ter para vós, o Rei, que por posto,
olhai que sois (e vede as outras gentes)
Senhor só de vassalos excelentes…
Fazei, Senhor, que nunca, os admirados
alemães, galos, ítalos e ingleses,
possam dizer que são para mandados,
mais que para mandar, os Portugueses.
Mas eu que falo, humilde, baixo e rudo,
de vós não conhecido nem sonhado?
Da boca dos pequenos sei, contudo,
que o louvor sai às vezes acabado.
Luís Vaz de Camões, “Os Lusíadas”, Canto X
destemperada e a voz enrouquecida,
e não do canto, mas de ver que venho
cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho
não no dá a Pátria, não que está metida
no gosto da cobiça e na rudeza
duma austera, apagada e vil tristeza.
E não sei por que influxo de destino
não tem um ledo orgulho e geral gosto,
que os ânimos levanta de contino
a ter para vós, o Rei, que por posto,
olhai que sois (e vede as outras gentes)
Senhor só de vassalos excelentes…
Fazei, Senhor, que nunca, os admirados
alemães, galos, ítalos e ingleses,
possam dizer que são para mandados,
mais que para mandar, os Portugueses.
Mas eu que falo, humilde, baixo e rudo,
de vós não conhecido nem sonhado?
Da boca dos pequenos sei, contudo,
que o louvor sai às vezes acabado.
Luís Vaz de Camões, “Os Lusíadas”, Canto X
9.6.04
Norah Jones
Por um acaso do destino vieram ontem parar-me ás mãos dois bilhetes para o concerto de Norah Jones. A primeira tentativa foi vendê-los, mas os sucessivos mails enviados não deram efeito. Optei então por aproveitar para ir ao concerto na companhia de uma amiga que sabia gostar da sua música.
A primeira tentação seria dizer que me senti fechado num elevador durante quase duas horas. Ou na sala de espera de um qualquer consultório, ou no lobby de um hotel. Não seria totalmente injusto, mas um pouco cruel. O concerto foi de facto um longo bocejo, a música de Jones fica sempre num indefinível limbo entre um pseudo-jazz, o easy-listening e uns pozinhos de country. A banda, que até não era má, estava espartilhada e dava a constante sensação de que queria, e ia, explodir. Ficava no entanto numa interpretação tão exageradamente cool e tão suave que perdia qualquer interesse.
A menina Jones destacou-se pela sua simpatia e simplicidade, dizendo constantes graças bem dispostas para a audiência, no que foi o seu ponto mais alto. Este e quando abandonou o seu piano delicodoce e, em pé, cantou algumas música mais country onde o timbre da sua voz se encontra mais livre e com mais força interpretativa.
Passaram duas horas e saí como entrei, com a interrogação de como é que uma música tão sonífera consegue atrair tanta gente e vender tantos discos.
A primeira tentação seria dizer que me senti fechado num elevador durante quase duas horas. Ou na sala de espera de um qualquer consultório, ou no lobby de um hotel. Não seria totalmente injusto, mas um pouco cruel. O concerto foi de facto um longo bocejo, a música de Jones fica sempre num indefinível limbo entre um pseudo-jazz, o easy-listening e uns pozinhos de country. A banda, que até não era má, estava espartilhada e dava a constante sensação de que queria, e ia, explodir. Ficava no entanto numa interpretação tão exageradamente cool e tão suave que perdia qualquer interesse.
A menina Jones destacou-se pela sua simpatia e simplicidade, dizendo constantes graças bem dispostas para a audiência, no que foi o seu ponto mais alto. Este e quando abandonou o seu piano delicodoce e, em pé, cantou algumas música mais country onde o timbre da sua voz se encontra mais livre e com mais força interpretativa.
Passaram duas horas e saí como entrei, com a interrogação de como é que uma música tão sonífera consegue atrair tanta gente e vender tantos discos.
3.6.04
Dentistas
Sonho um dia ter dinheiro para que, após anestesia geral, me tirem todos os dentes e os substituam por algo bem morto e que não dê dores. Poucas coisas me deprimem tanto como a aproximação a uma consulta de dentista. Uma vez lá dentro o meu pensamento é sair, destruir toda a maquinaria e com a broca, ainda a funcionar, furar toda a testa de um médico atónito. Ao longo da vida já tive vários suplícios, agravados por uma sucessão de más escolhas de médicos. Agora penso ter descoberto um ideal, uma amiga que me trata bem e, após alongada descrição dos meus traumas, faz o impossível para que eu não me queixe. Tudo seria bom se os dentes não tivessem caprichos, como o imbecil que hoje ao ser extraído se recusava a sair, partindo-se em várias partes até sobrar uma teimosa raiz. Esta insistia em não sair e a minha boca, aberta durante uma hora e meia, começava a ter cãibras. No final, por entre recomendações, implorei por analgésicos à medida que a anestesia se ia embora. Prevejo um fim-de-semana infernal, por entre overdoses de Clonix, abstinência do álcool (via antibiótico) e tentativas para ler os jornais.
2.6.04
Liberdade de Expressão
Outro blogue que abandona. Os blogues pioneiros começam a abandonar a blogosfera, é pena para quem ainda anda por aqui.
Outro blogue que abandona. Os blogues pioneiros começam a abandonar a blogosfera, é pena para quem ainda anda por aqui.
1.6.04
Dicionário do Diabo
O Dicionário do Diabo acabou e com ele acaba um dos blogues da minha preferência. Sentirei a falta do Pedro Mexia mas continuarei a ler as suas contribuições para o Fora do Mundo e para a Grande Reportagem. Até sempre.
Marginal
Vir de Cascais para Lisboa ao fim de um bonito dia é um longo momento de prazer. A Marginal continua belíssima, apesar das continuadas tentativas para adulterar a sua paisagem, e apetece que o caminho se prolongue. Demorei o dobro do tempo que em teoria demoraria pela auto-estrada, mas cheguei de alma lavada, com os olhos a acompanhar o brilho do rio. O entardecer comove-me e este rio-mar que é o Tejo espelha apenas o que de bom queremos ver.
Campanha
Consta que está a decorrer uma campanha eleitoral para as eleições europeias. Estranho, ainda não tinha dado por isso. Aquilo com que me tenho deparado é uma ronda pelo país de pessoas dos partidos, uns louvando o governo e outros arrasando a coligação do poder. Não me parece que seja isso que vai a votos, por isso é que as eleições me passarão ao lado.
2
Branco, opaco.
Luz ténue, quebrada.
Fogo fátuo e efémero.
Indefinível claridade que passa o tempo.
Eternidade volátil.
Motor da vida.
Elemento.
Luz ténue, quebrada.
Fogo fátuo e efémero.
Indefinível claridade que passa o tempo.
Eternidade volátil.
Motor da vida.
Elemento.
27.5.04
Parabéns
Sou especialista em me esquecer dos dias de anos de toda a gente. Uma família grande em muito contribui para isso, já que a profusão de crianças me leva a uma insistente confusão de datas. Ontem esqueci-me de dar os parabéns a um dos meus sobrinhos, felizmente o mais novo que para o qual o meu telefonema seria apenas um interrupção entre uma devastadora corrida pela casa e uma sessão de saltos em cima do sofá.
Serve a ocasião para saudar a sucessão de comemorações por entre os blogues pioneiros que já fazem um ano. Destaco aqueles que mais companhia me fazem e que, por esse motivo, já figuram na coluna do lado. Parabéns atrasados para a Bomba, o Almocreve, o Jaquinzinhos, o Mar Salgado, o Quinto dos Impérios, o Crítico e para todos aqueles de que me continuo a esquecer.
Serve a ocasião para saudar a sucessão de comemorações por entre os blogues pioneiros que já fazem um ano. Destaco aqueles que mais companhia me fazem e que, por esse motivo, já figuram na coluna do lado. Parabéns atrasados para a Bomba, o Almocreve, o Jaquinzinhos, o Mar Salgado, o Quinto dos Impérios, o Crítico e para todos aqueles de que me continuo a esquecer.
Camisa-de-forças
Por vezes devia sair à rua com uma camisa-de-forças, não por aparentar uma loucura evidente ou uma tendência para a agressividade, o meu problema é entrar numa feira do livro ou em qualquer boa livraria. Ontem dei o meu primeiro passeio - e a minha bolsa espera que último - pelo Parque Eduardo VII, por entre um sol maravilhoso e uma vista soberba sobre Lisboa. Ao meu lado sucediam-se bancas com apetitosos livros e, com descuido evidente, fui vendo, folheando e, com displicência, comprando. A volta até não foi muito grande mas o suficiente para os braços se tornarem dormentes e as costas se queixarem do esforço. Não fiz contas, aliás em dias de loucura consumista prefiro mesmo ignorá-las, mas um peso na consciência abala-me qual ressaca mal curada. Talvez a Camisa-de-Forças seja excessiva, mas devia encontrar algum mecanismo - bloqueio do Multibanco, declaração de incapacidade, proibição de compra - que me impedisse de me exceder, não só em feiras - das quais até não sou grande adepto - mas em qualquer livraria (acrescento também as diabólicas lojas de discos). A minha sanidade mental poderia queixar-se mas a bolsa e o espaço da minha casa agradeceriam aliviados.
Marxismos (dos bons)
"A televisão parece-me muito educativa. Cada vez que alguém a acende, retiro-me para outra sala e leio um livro."
Groucho Marx
Groucho Marx
25.5.04
Benfica
Não quero passar para um segundo lugar que o meu clube não merece, mas adivinho desde já que o caso da inscrição de Ricardo Rocha não vai dar em nada. É que a memória não é curta e ainda me lembro de ameaças de descida de divisão por dívidas ao fisco que acabaram em beijos e abraços. Temos o país que temos e a ditadura da maioria é cada vez mais marcante, alguém teria coragem de penalizar o Benfica?
Quanto à extraordinária entrada do presidente do Benfica num programa em directo distribuindo ameaças e insultos a toda a gente, apenas um comentário: "É disto que o meu povo gosta".
Quanto à extraordinária entrada do presidente do Benfica num programa em directo distribuindo ameaças e insultos a toda a gente, apenas um comentário: "É disto que o meu povo gosta".
Globos de Ouro
Ao passar ontem pela SIC ainda pensei ouvir Herman José a anunciar com ar descomprometido: "e o Globo de Ouro para o melhor programa de entretenimento vai para o Caso Casa Pia, recebe o prémio Carlos Cruz".
Fim-de-semana
O congresso do PSD correu de feição a Durão Barroso, um Valium prolongado de que toda a gente se esqueceu perante o casamento real em Espanha. Boa escolha de data, parece que cada vez mais os políticos querem passar desapercebidos, basta confirmar a data das eleições europeias.
Por terras de Espanha o casamento chamou todas as atenções, lembro Natália Correia que dizia ser monárquica por razões estéticas (a confirmar perante o vestido da nossa primeira dama). Eu acrescentaria mais algumas, mas agora sinceramente não me apetece. A ver uma posta imparcial no Blasfémias.
Por terras de Espanha o casamento chamou todas as atenções, lembro Natália Correia que dizia ser monárquica por razões estéticas (a confirmar perante o vestido da nossa primeira dama). Eu acrescentaria mais algumas, mas agora sinceramente não me apetece. A ver uma posta imparcial no Blasfémias.
21.5.04
Positivo
Depois de ter escrito a posta anterior, e ao navegar pela rede, descobri que hoje era o dia P, de Positivo, para o movimento Portugal Positivo. Acho muito saudável que haja quem queira levantar a moral do país, levar para cima a nossa alma e criar uma onda de optimismo. Não poderão no entanto contar comigo. O que seria de mim se abdicasse desse gene lusitano que consiste em dizer sempre mal de nós próprios, que sensaboria se tornaria a vida sem a maledicência lusa sobre tudo o que fazemos. Claro que hoje em dia estamos a exagerar um pouco e já nada é bom em Portugal, por isso concordo com esta iniciativa, só não adiro a ela e permaneço no meu pessimismo egoísta. E deixem-me assim, sossegado.
Substituição
O Ministro do Ambiente foi substituído, parece que um tal de Amílcar Theias era detentor desta pasta há algum tempo e foi agora substituído por Arlindo Cunha. Entre um economista especialista em finanças e um economista especialista em agricultura talvez o segundo seja mais adequado a este ministério.
Continuam insondáveis os motivos que levam Durão Barroso a surpreender na escolha dos seus ministros, parece que escolhe as pessoas e depois faz um jogo de cadeiras à volta da mesa do Conselho de Ministros, é que são tantas as trocas e os erros de casting.
Continuam insondáveis os motivos que levam Durão Barroso a surpreender na escolha dos seus ministros, parece que escolhe as pessoas e depois faz um jogo de cadeiras à volta da mesa do Conselho de Ministros, é que são tantas as trocas e os erros de casting.
18.5.04
Comentários
O novo template permite comentários, deixo assim algum do meu autismo blogosférico e sujeito-me à crítica, para o bem e para o mal.
Scolari
Scolari revelou os convocados para o Euro sem nenhuma surpresa de maior. Apenas o regozijo por Rui Jorge poder estar entre eles, realmente no dopping - como na vida - não devemos ser mais papistas que o Papa. A minha solidariedade é ainda maior ao compartir com ele os mesmos problemas respiratórios, para além do mesmo salvador Pulmicort.
Baía obviamente não foi convocado, para quem ainda não tinha percebido – por burrice ou obstinação – a sua ausência não se deve a questões técnicas, claramente os problemas são outros, talvez advindos da "maravilhosa" campanha no último mundial. Scolari foi coerente com as escolhas anteriores e assume a total responsabilidade pelos resultados, um bom exemplo para os portugueses tão habituados a culpas sem culpados.
Baía obviamente não foi convocado, para quem ainda não tinha percebido – por burrice ou obstinação – a sua ausência não se deve a questões técnicas, claramente os problemas são outros, talvez advindos da "maravilhosa" campanha no último mundial. Scolari foi coerente com as escolhas anteriores e assume a total responsabilidade pelos resultados, um bom exemplo para os portugueses tão habituados a culpas sem culpados.
Rumsfeld
Há dias em que a minha proverbial calma foge para paragens desconhecidas. Hoje penso se não se poderia mandar Rumsfeld para uma qualquer prisão árabe. Continuo sem certezas nesta guerra, continuo a desconfiar das motivações assim como das contraposições. Encontro-me numa rara zona cinzenta, mas cada vez me incomoda mais a postura do senhor Rumsfeld, mas também a do senhor Moore. Talvez um combate de boxe tailandês entre os dois me desse algum ânimo.
14.5.04
Fé
Irrita-me profundamente a intolerância, perante manifestações de fé, de supostos arautos da liberdade, e a chacota contra quem conscientemente acredita em algo não necessariamente tangível. A liberdade é não para todos segundo eles, e quem tem o azar de ser católico sofre o estigma de não poder manifestar a sua fé sem que isso seja motivo de gozo e humilhação. Com senhores como estes no poder teríamos um país religiosamente tolerante como o Irão ou o Afeganistão dos talibãs. Aliás, penso que alguns são os mesmos que condenaram a intervenção no Afeganistão. Parece que ainda há quem pense que há religiões mais toleráveis que outras. Eu tenho cada vez menos paciência para a arrogância intelectual e para a falta de respeito. Como diz uma amiga minha: Logo eu que não posso com gente estúpida.
Madredeus
"A poesia da saudade em Portugal concebeu um lugar maior para o sentimento universal da melancolia, da nostalgia, da recordação do outro. Porque a saudade é um prazer – é o prazer de estar triste mediante a aceitação das suas razões. A saudade é algo que o sujeito gosta de viver porque o mantém perto do seu estado amoroso, é uma recordação que mantém o coração vivo. Esta alegria em estar triste é uma ideia extraordinária e terapêutica para a humanidade inteira, mas em Portugal apenas foi vivida nuns cadernos de poesia. Na origem dos Madredeus está o interesse em criar uma música em português com essa mensagem."
Excerto de uma entrevista a Pedro Ayres de Magalhães no DN Música, a propósito do novo disco dos Madredeus. Pelas suas palavras percebemos porque são os Madredeus o projecto mais interessante e consistente da actual música portuguesa. Poucas vezes a alma portuguesa foi expressa com tanta genuinidade como através dos acordes destes senhores e da voz de Teresa Salgueiro. Ainda não ouvi o novo disco - algo que conto fazer em breve - mas agora, depois de escrever estas linhas, vou substituir o "Koln Concert" de Keith Jarrett pelo "Espírito da Paz". Apetece-me alguma alma para enfrentar o resto da tarde.
Excerto de uma entrevista a Pedro Ayres de Magalhães no DN Música, a propósito do novo disco dos Madredeus. Pelas suas palavras percebemos porque são os Madredeus o projecto mais interessante e consistente da actual música portuguesa. Poucas vezes a alma portuguesa foi expressa com tanta genuinidade como através dos acordes destes senhores e da voz de Teresa Salgueiro. Ainda não ouvi o novo disco - algo que conto fazer em breve - mas agora, depois de escrever estas linhas, vou substituir o "Koln Concert" de Keith Jarrett pelo "Espírito da Paz". Apetece-me alguma alma para enfrentar o resto da tarde.
Petição
Recebo por e-mail uma petição e, para variar, resolvo ver o que é. Ao deparar com a referência a Monsanto e à tentativa de travar os delírios "santanistas" de esventrar este espaço de Lisboa, assino. Para Santana, o Monsanto ideal é o Monsanto sem putas mas cheio de feiras, cavalos e tudo o que lhe cheire a festa. Gosto de diversão, mas deixem Monsanto em paz e arranjem outro sítio para as putas desta vida.
Confiram e assinem aqui.
Confiram e assinem aqui.
Primavera
Finalmente o cheiro e o sol da primavera, o algodão já cai dos choupos e as flores inundam os campos. Sinto este clima bucólico e tento esquecer os céus plúmbeos e os ventos cortantes que nos devastavam o humor.
13.5.04
Primavera-Verão
Com a chegada do bom tempo (será que é desta?) o anarcoconservador (ou seja eu) resolveu mudar a sua imagem para cores mais de acordo com a época. Esta é a primeira tentativa, a ver se ficará ou não.
11.5.04
Sintra
Ao passar hoje na zona de Sintra fiquei tomado por um impulso artístico, sim, também eu quero fazer instalações, já tenho até uma primeira obra hoje imaginada no dito passeio. Num sítio bem visível do concelho Sintra, uma plataforma com uma trave e várias cordas. Em cada corda, com nó de enforcado, todos os últimos presidentes da Câmara da vila. Na impossibilidade humanitária de recorrer aos intérpretes reais, poderia utilizar réplicas em tamanho natural, sobre as quais a população tinha o direito de exprimir os mais profundos sentimentos. A interactividade da obra permitiria ao povo retribuir tudo o que os seus presidentes fizeram por ele. O problema maior está em encontrar verbas adequadas, já que penso que os manequins teriam de ser substituídos diariamente. Só de me lembrar de Massamá ou Barcarena…
Europeias
Consta que as próximas eleições serão europeias, até há quem diga que serão no dia 13 de Junho. Quem ao passear na rua reparar nos cartazes do PS e do BE terá quase a certeza de estarmos quase em legislativas. Ambos lançam palavras de ordem contra o desemprego e a guerra. Que eu saiba os deputados europeus não têm papel activo nas políticas de combate ao desemprego em cada país. Que eu saiba serão representantes do país na Europa, defendendo logicamente as posições políticas dos seus partidos. O que é que isso tem a ver com o desemprego. São cartazes destes que me abrem dúvidas sobre a minha quase certa abstenção.
10.5.04
Imagem
O Blogger mudou a imagem e deixou-nos com mais funcionalidades, isto merece um tempinho para explorar. Os posts seguem mais tarde.
5.5.04
FCP
O FCP vai à final da Liga dos Campeões, para além das felicitações um reparo, é de toda a justiça que lá esteja. Ontem o FCP mostrou como se pode dominar uma equipa em teoria superior, dando um banho de bola ao Deportivo. Bravo. Pena não ver o Sporting a jogar assim.
Notas de viagem - Índia
"Ao chegar a Deli conhecemos o cheiro a Índia, essa mistura de calor, humidade e especiarias, tão própria e única. Apanhamos um táxi para o hotel. Somos então tomados por uma vertigem alucinante, o trânsito de Deli dava tema para um ensaio. A condução à esquerda já daria para nos baralhar, mas isto não é nada comparado com o constante slalom por entre camiões e motas. É noite e tudo deveria estar calmo, apenas estranhamos a quantidade de camiões e as buzinadelas. A buzina é o instrumento preferido aqui, os piscas tornam-se acessórios, suplantados por estratégicas buzinadelas. Chega ao ponto de os camiões terem pintado atrás "Horn Please".
O motorista deambula em S's por entre os carros, sempre impávido perante tangentes micrométricas a tudo o que passa. Isto é a Índia, e no dia seguinte iremos perceber isto maximizado por um trânsito intenso e caótico. A segurança do volante só é compreendida após horas em trânsito, de facto a placidez dos motoristas é justificada. Tudo funciona numa anarquia organizada. Como se do caos surgisse uma incompreensível ordem por todos assumida."
O motorista deambula em S's por entre os carros, sempre impávido perante tangentes micrométricas a tudo o que passa. Isto é a Índia, e no dia seguinte iremos perceber isto maximizado por um trânsito intenso e caótico. A segurança do volante só é compreendida após horas em trânsito, de facto a placidez dos motoristas é justificada. Tudo funciona numa anarquia organizada. Como se do caos surgisse uma incompreensível ordem por todos assumida."
3.5.04
Televisão
Ontem entro a meio do programa de Maria João Avillez na Sic Notícias. Como convidados estavam Pedro Burmester, Mário Laginha e Bernardo Sassetti, ou seja três dos melhores pianistas portugueses. O programa foi um exemplo de que a cultura não têm de ser maçadora e restritiva, que pode ser, se não para todos, pelo menos para muitos. A conversa era quebrada quando os convidados se dirigiam ao piano para interpretar pequenos trechos. A harmonia entre tudo isto resultou em momentos televisivos bem agradáveis. Na TVI estava a passar o Fear Factor e na SIC o programa do Herman, a escolha não foi difícil.
Sporting
Última deslocação da época a Alvalade. Vejo o Sporting fazer uma primeira parte a um nível não atingido nesta época, no entanto golos nem vê-los. Na segunda parte a equipa quebra e Fernando Santos parece dormir sobre o assunto. O Benfica recupera e acaba por marcar um grande golo. A vitória moral não chega, o Sporting teve o jogo na mão e, inacreditavelmente, deixou-o fugir. Cá nos vamos habituando a isto, ás derrotas de cabeça erguida. Em tempos de Euro espero que não se contagie à selecção, como espero que não se contagie aos adeptos estrangeiros a inacreditável actuação da Juve Leo.
Para o ano há mais, e espero que melhor.
Para o ano há mais, e espero que melhor.
29.4.04
O buraco de Santana
Tal como se previa o famoso túnel do Marquês começou a afundar. Ainda não no sentido mais real da palavra, para já apenas figurativamente. A suspensão das obras demonstra que Santana está, de facto, obcecado em fazer obras rápidas. O túnel do Marquês é um disparate mas, uma vez tendo sido decidido construí-lo, o mínimo é que a construção seguisse os trâmites legais e as básicas regras da prudência. Não estamos a falar de uma qualquer zona do país, falamos duma das mais emblemáticas zonas de Lisboa. Agora a obra está suspensa mas duvido que seja cancelada. O que espera os lisboetas são mais dias de caos no centro da cidade, tudo por culpa da incúria de quem os governa.
Quando os políticos começam a brincar com os Elementos teme-se o pior. Maus exemplos não faltam, quem se esqueceu de um metro que já devia estar pronto e continua a meter água. Construir uma cidade passa antes por compreendê-la e também para isso servem os Estudos de Impacte Ambiental. Perante tudo isto estou cada vez com mais medo de Monsanto. Será que o Hipódromo, a Feira Popular, e todas as outras diversões de Santana também vão ser feitas sem os devidos estudos?
Quando os políticos começam a brincar com os Elementos teme-se o pior. Maus exemplos não faltam, quem se esqueceu de um metro que já devia estar pronto e continua a meter água. Construir uma cidade passa antes por compreendê-la e também para isso servem os Estudos de Impacte Ambiental. Perante tudo isto estou cada vez com mais medo de Monsanto. Será que o Hipódromo, a Feira Popular, e todas as outras diversões de Santana também vão ser feitas sem os devidos estudos?
27.4.04
Condecorações e a Liberdade
No nosso Portugal muita gente é condecorada por tudo e por nada. As consequências não serão graves para além da desvalorização de algo que poderia ser importante. Ontem o Presidente da República voltou ao ataque e enfaixou mais alguns. O assunto foi falado pela recusa do PP em permanecer à cerimónia em protesto com a condecoração da Dra. Isabel do Carmo. Realmente Portugal tem a característica de considerar que a liberdade é um exclusivo da esquerda, sendo a única luta válida pela liberdade a que levou à queda do Antigo Regime. Curiosa amnésia a que faz esquecer o que senhoras como esta fizeram em nome da liberdade, da sua liberdade. A grande lutadora da liberdade pertenceu a uma organização que bombeou o país já em regime democrático, por isso foi condecorada com a Ordem da Liberdade.
Após alguma reflexão percebi estarmos perante um delírio MonthyPhythoniano do senhor Presidente, afinal o seu sentido de humor inglês já é famoso. Só assim se explica esta extraordinária ideia, que foi aplaudida na plateia por outro grande defensor da Liberdade, Otelo. Assim vai esta democracia da Liberdade.
Após alguma reflexão percebi estarmos perante um delírio MonthyPhythoniano do senhor Presidente, afinal o seu sentido de humor inglês já é famoso. Só assim se explica esta extraordinária ideia, que foi aplaudida na plateia por outro grande defensor da Liberdade, Otelo. Assim vai esta democracia da Liberdade.
26.4.04
O meu 25 de Abril
Hoje muitas histórias são contadas sobre 25 de Abril de cada um. Sobre o de 1974 pouco tenho a acrescentar de experiência pessoal. A minha mente divagaria entre a preocupação esfomeada da premência de mais um biberão, ou sobre questões ambientais íntimas da troca de fraldas sujas. Nada disto impede que possa falar sobre o assunto, pelo menos terei a vantagem do distanciamento.
"Vivam os 25 e abaixo o 26 de Abril."
Esta frase poderia sintetizar o que penso sobre a revolução e o PREC. Portugal vivia em 1974 numa ditadura cinzenta e decadente, a revolução terminou com este suplício. No dia seguinte tudo se começou a coordenar para que uma nova ditadura fosse imposta, agora sob a cobertura de uma falsa liberdade marxista. Por isso não posso exultar com o PREC e com alguns dos denominados ideais de Abril. A liberdade, palavra que tanto se usa ao falar da revolução, apenas foi assegurada a 25 de Novembro. No meio fica um caminho que quase nos conduziu à desgraça, para além de ter conseguido atrasar mais - o que pareceria impossível - o país. Descolonização (inevitável mas irresponsável), Nacionalizações, Saneamentos, Intimidação. Não consigo ver nada de bom em tudo isto.
Comemoremos a revolução, mas não com gente pouco recomendável a ser louvada em público. Nada devo como português a Otelos e camaradas Vascos. Nada devo a quem nos quis levar para o fundo do poço. Acredito que a Europa e os EUA não nos deixassem cair no comunismo, mas assim a luta não se teria resumido a esta revolução de bananas que foi Abril. Comemoremos a liberdade, a evolução do país e a revolução, mas apenas ela, sem o que veio depois.
"Vivam os 25 e abaixo o 26 de Abril."
Esta frase poderia sintetizar o que penso sobre a revolução e o PREC. Portugal vivia em 1974 numa ditadura cinzenta e decadente, a revolução terminou com este suplício. No dia seguinte tudo se começou a coordenar para que uma nova ditadura fosse imposta, agora sob a cobertura de uma falsa liberdade marxista. Por isso não posso exultar com o PREC e com alguns dos denominados ideais de Abril. A liberdade, palavra que tanto se usa ao falar da revolução, apenas foi assegurada a 25 de Novembro. No meio fica um caminho que quase nos conduziu à desgraça, para além de ter conseguido atrasar mais - o que pareceria impossível - o país. Descolonização (inevitável mas irresponsável), Nacionalizações, Saneamentos, Intimidação. Não consigo ver nada de bom em tudo isto.
Comemoremos a revolução, mas não com gente pouco recomendável a ser louvada em público. Nada devo como português a Otelos e camaradas Vascos. Nada devo a quem nos quis levar para o fundo do poço. Acredito que a Europa e os EUA não nos deixassem cair no comunismo, mas assim a luta não se teria resumido a esta revolução de bananas que foi Abril. Comemoremos a liberdade, a evolução do país e a revolução, mas apenas ela, sem o que veio depois.
23.4.04
22.4.04
Filmes
Anteontem vejo a “Rapariga do Brinco de Pérola”, onde mais do que cinema, entranho-me pela pintura desse gigante que foi Vermeer. O filme é esteticamente deslumbrante, quer pela fotografia quer por Scarlett Johansson. Relembro os quadros já vistos ao vivo e cruzo essas cores poderosas e brilhantes que nos deixam em estado encantatório. Vermeer é dos meus preferidos e por isso gosto do filme. Pode não ser grande cinema, e não é, mas vale pela beleza, e não será suficiente?
Paixão
Ontem chego finalmente à "Paixão", o polémico e já tão falado filme de Mel Gibson. Não vou entrar nas questões religiosas, que guardarei para mim. O filme é no mínimo esmagador e esteticamente poderoso.
Por entre acusações de anti-semitismo e de violência gratuita um ponto importante se pode tirar do filme. O perigo das multidões, em particular quando acicatadas organizadamente. Não foram Os Judeus a entregar Jesus, foram aqueles homens, aquela multidão que, sim, era constituída por judeus. Isto faz toda a diferença, não foi um Povo a entregar Jesus, foi aquele povo naquele local. As multidões são assim, e o preocupante é pensar que ainda poderão ser assim, não para Jesus já sacrificado, mas para qualquer um de nós. Os grandes fenómenos fundamentalistas têm a sua génese neste ponto e é aqui que nasce a intolerância. As multidões são facilmente manipuláveis e, infelizmente, há muita gente a saber isso. Se para mais nada servir, pelo menos para reflectir sobre isto sirva o filme, a crentes e não-crentes.
Por entre acusações de anti-semitismo e de violência gratuita um ponto importante se pode tirar do filme. O perigo das multidões, em particular quando acicatadas organizadamente. Não foram Os Judeus a entregar Jesus, foram aqueles homens, aquela multidão que, sim, era constituída por judeus. Isto faz toda a diferença, não foi um Povo a entregar Jesus, foi aquele povo naquele local. As multidões são assim, e o preocupante é pensar que ainda poderão ser assim, não para Jesus já sacrificado, mas para qualquer um de nós. Os grandes fenómenos fundamentalistas têm a sua génese neste ponto e é aqui que nasce a intolerância. As multidões são facilmente manipuláveis e, infelizmente, há muita gente a saber isso. Se para mais nada servir, pelo menos para reflectir sobre isto sirva o filme, a crentes e não-crentes.
20.4.04
Futebol
Parece que uma série de gente ligada ao futebol, incluindo o inefável Major, está detida para inquérito judicial. Para quem segue - ainda que com um certo distanciamento - o futebol em Portugal, não causará estranheza. Aliás não é estranho que haja corrupção, o que será estranho é que isso esteja de facto a ser investigado. Talvez assim haja alguma vergonha em quem dirige o futebol e não surjam árbitros como o Sr. Paixão a arbitrar jogos importantes. É que errar é humano, mas tanto...
19.4.04
Al Qaeda 3 – Espanha 0
1-0 Atentados em vários comboios em Espanha causam centenas de mortos.
2-0 O PSOE ganha as eleições numa reviravolta inesperada causada pela reacção dúbia do governo PP à autoria dos atentados.
3-0 Zapatero manda retirar o contingente espanhol no Iraque.
Independentemente da justiça na intervenção no Iraque, a mudança da posição espanhola só vem provar uma coisa, o terrorismo pode ganhar. Zapatero terá as motivações mais certas e justas, mas recuar neste momento apenas mostra fraqueza. O terrorismo pode combater-se com guerra mas, mais importante, combate-se mantendo a normalidade, ainda que aparente, nas nossas vidas. Foi assim que o PP conseguiu reduzir a ETA a uma sombra do que já foi.
O PSOE era contra a intervenção no Iraque e estava no seu direito. O PSOE acha que a guerra devia acabar e está no seu direito. O que é tremendamente irresponsável e cobarde é abandonar um processo que ainda está a decorrer e no qual a normalidade está longe de ser estabelecida. O que Espanha mostra aqui é o total desprezo pela população iraquiana, abandonando-a à sua sorte.
Eu nem sequer sou um adepto incondicional da intervenção no Iraque, tenho até poucas certezas sobre este assunto, agora uma vez começado o processo não se pode sair dele em andamento. A responsabilidade de um governo e de um país vê-se em atitudes como esta e, aqui ao lado, podemos esperar o pior.
2-0 O PSOE ganha as eleições numa reviravolta inesperada causada pela reacção dúbia do governo PP à autoria dos atentados.
3-0 Zapatero manda retirar o contingente espanhol no Iraque.
Independentemente da justiça na intervenção no Iraque, a mudança da posição espanhola só vem provar uma coisa, o terrorismo pode ganhar. Zapatero terá as motivações mais certas e justas, mas recuar neste momento apenas mostra fraqueza. O terrorismo pode combater-se com guerra mas, mais importante, combate-se mantendo a normalidade, ainda que aparente, nas nossas vidas. Foi assim que o PP conseguiu reduzir a ETA a uma sombra do que já foi.
O PSOE era contra a intervenção no Iraque e estava no seu direito. O PSOE acha que a guerra devia acabar e está no seu direito. O que é tremendamente irresponsável e cobarde é abandonar um processo que ainda está a decorrer e no qual a normalidade está longe de ser estabelecida. O que Espanha mostra aqui é o total desprezo pela população iraquiana, abandonando-a à sua sorte.
Eu nem sequer sou um adepto incondicional da intervenção no Iraque, tenho até poucas certezas sobre este assunto, agora uma vez começado o processo não se pode sair dele em andamento. A responsabilidade de um governo e de um país vê-se em atitudes como esta e, aqui ao lado, podemos esperar o pior.
15.4.04
Viagem
Arrumo os papéis da última viagem, revejo o sempre incompleto bloco de notas, organizo as fotografias. Algumas imagens e palavras surgirão aqui no blogue. Não por ostentação, mas por uma vontade de partilhar esses cantos longínquos por onde os nossos antepassados andaram. Goa é uma experiência, um desafio aos nossos lusos sentidos, um encontro emotivo com o passado. Essa terra que foi nossa, essa terra onde deixámos marcas, por muito que estas se encontrem esbatidas pelo correr do tempo.
Panjim, Goa, 2004
Panjim, Goa 2004
Panjim, Goa, 2004
Panjim, Goa 2004
Blogosfera
Aproveito o reencontro com os blogues para actualizar os links, para saudar recém chegados, para dar parabéns. Alguns vão-se tornando realmente indispensáveis nestas viagens pela blogosfera.
13.4.04
Regresso
De volta a Portugal tudo na mesma. Percorro os jornais do costume e as notícias são iguais. Algo se mantem estável nos dias que correm.
O frio impressiona-me, as paragens distantes por onde alegremente passei a Páscoa queimaram-me os sentidos e penso estar numa qualquer Sibéria. A luz é ainda assim igual, a brilhante e pura luz de Lisboa que obsessivamente nos ilumina o espírito.
Navego um pouco pela blogosfera onde felizmente encontro os habitantes usuais. Ameaças de fecho de blogs em dia de mentiras e as habituais polémicas entre direitos e canhotos. O Iraque e Saramago causam no entanto algum enjoo, pode ser do jet-lag ou talvez não.
O trabalho chega, temível e aterrador, destronando a alegria insana que nos deixam as férias. Queixamo-nos, mas sem estes momentos penosos não teríamos o mesmo gozo em tempos de evasão. Pode ser uma grande mentira mas prefiro pensar assim, e pensar no destino da próxima viagem. Gosto de encarar a vida como uma sucessão de viagens entremeada por alguns momentos de trabalho. Gosto de escapar mas sempre de voltar. Portugal é um pequeno e mesquinho país mas - tal como com as mulheres - é impossível viver sem ele. Por isso é bom regressar mesmo pensando já em sair.
O frio impressiona-me, as paragens distantes por onde alegremente passei a Páscoa queimaram-me os sentidos e penso estar numa qualquer Sibéria. A luz é ainda assim igual, a brilhante e pura luz de Lisboa que obsessivamente nos ilumina o espírito.
Navego um pouco pela blogosfera onde felizmente encontro os habitantes usuais. Ameaças de fecho de blogs em dia de mentiras e as habituais polémicas entre direitos e canhotos. O Iraque e Saramago causam no entanto algum enjoo, pode ser do jet-lag ou talvez não.
O trabalho chega, temível e aterrador, destronando a alegria insana que nos deixam as férias. Queixamo-nos, mas sem estes momentos penosos não teríamos o mesmo gozo em tempos de evasão. Pode ser uma grande mentira mas prefiro pensar assim, e pensar no destino da próxima viagem. Gosto de encarar a vida como uma sucessão de viagens entremeada por alguns momentos de trabalho. Gosto de escapar mas sempre de voltar. Portugal é um pequeno e mesquinho país mas - tal como com as mulheres - é impossível viver sem ele. Por isso é bom regressar mesmo pensando já em sair.
26.3.04
Até já
A assiduidade esta semana não tem sido muita, o trabalho submergiu-me com uma voracidade avassaladora. Por esta vez os motivos são bons. Daqui a pouco parto em visita ao antigo Império, em puras e verdadeiras férias. Por duas inteiras semanas ausento-me, não sem uma ponta de saudade, desta já indispensável blogosfera.
Bons dias e boas noites para todos e até depois da Páscoa.
Bons dias e boas noites para todos e até depois da Páscoa.
22.3.04
Eva Cassidy
Todos temos os nossos cultos, aquelas coisas que inexplicavelmente nos arrebatam mais que quaisquer outras. Ouvi Eva Cassidy pela primeira vez por puro acaso. Vivia então em Espanha e, como era hábito se estivesse em casa, ouvia o programa da noite da Rádio 3. Por aqui passava alguma World Music, bom Jazz e improváveis registos. Subitamente uma voz angelical cantava "Fields of Gold" num timbre etéreo e com uma interpretação extraordinária. Esperei calmamente na esperança de ouvir o seu nome. Nada feito, seguiu-se uma música, e outra. Dias depois ouço de novo a mesma música e espero uma vez mais. Consegui saber mais do que o nome, soube, numa breve explicação do locutor, que era uma cantora americana que havia morrido há pouco tempo, ainda nova. Apenas editou um disco em vida e foi descoberta, por alguns eleitos, depois de morta, com a edição de alguns registos de originais. No dia seguinte corri à loja onde se encontravam os melhores discos tentando comprar o que houvesse. Consegui "Songbird" e "Time After Time", ambos colectâneas póstumas.
Descobri um culto, uma obsessão musical. Com estes discos apaixonei-me irremediavelmente por esta senhora loura e de ar cândido, infelizmente já desaparecida. As suas interpretações têm aquele toque indefinível que as faz únicas, que distingue um bom técnico de um grande artista. Basta ouvir a subtileza de "Over the Rainbow" ou "Anniversary Song" para não querer outra coisa.
A sua voz cantou do Jazz aos Blues, passando por "covers" de êxitos Pop adaptadas ao seu estilo sereno e melodioso. Músicas como "Autumn Leaves", "What a Wonderful World", "Tennessee Waltz", "Danny Boy" ou "Fever", dão-nos a conhecer uma voz única e inconfundível.
Recentemente, e motivo porque me lembrei de fazer esta posta, saiu mais um disco de inéditos: "American Tune". Talvez este seja o mais fraco de todos os seus discos, essencialmente pela má qualidade de algumas gravações, mas que ainda assim vale a pena pelas recriações de "True Colors" ou "Yesterday".
Ouçam, por certo não se vão arrepender. E não digam que vão daqui.
Descobri um culto, uma obsessão musical. Com estes discos apaixonei-me irremediavelmente por esta senhora loura e de ar cândido, infelizmente já desaparecida. As suas interpretações têm aquele toque indefinível que as faz únicas, que distingue um bom técnico de um grande artista. Basta ouvir a subtileza de "Over the Rainbow" ou "Anniversary Song" para não querer outra coisa.
A sua voz cantou do Jazz aos Blues, passando por "covers" de êxitos Pop adaptadas ao seu estilo sereno e melodioso. Músicas como "Autumn Leaves", "What a Wonderful World", "Tennessee Waltz", "Danny Boy" ou "Fever", dão-nos a conhecer uma voz única e inconfundível.
Recentemente, e motivo porque me lembrei de fazer esta posta, saiu mais um disco de inéditos: "American Tune". Talvez este seja o mais fraco de todos os seus discos, essencialmente pela má qualidade de algumas gravações, mas que ainda assim vale a pena pelas recriações de "True Colors" ou "Yesterday".
Ouçam, por certo não se vão arrepender. E não digam que vão daqui.
Chá
Num dia qualquer, algures neste mundo.
- Por favor, é um Earl Grey para mim e um Darjeeling para o Sr. Laden.- disse Mário, virando-se depois para o seu barbudo acompanhante - Pois é Bin, acho que esta conversa vai ser muito produtiva. Temos mesmo de conseguir negociar com os americanos, não pode continuar assim. Sabe, eu não gosto deles, mas também andar a matá-los parece um pouco excessivo.
- Mário, eu sei que você é um amigo da nossa causa, que tem defendido todas as nossas intervenções e que ainda odeia mais o Bush do que eu, mas nós trabalhamos assim.
- Mas concretamente o que é que vocês pretendem?
- Mário, Mário, isso nem eu sei. Queremos é matar todos os aliados do imperialismo americano, todos os opressores do povo árabe.
- Espere um pouco Bin, vem aí a minha amiga Ana.
- Olá Mário, finalmente conseguiu encontrar-se com o Sr. Laden.
- Ana, deixe-me apresentar-lhe o meu amigo Laden, estamos a negociar.
- Encantado minha senhora, tenho ouvido falar muito de si.
- Oh! Sr. Laden - disse Ana corando um pouco - o prazer é todo meu, não é todos os dias que encontramos alguém que passa à prática o nosso ódio pelos americanos imperialistas.
- Mas sente-se, tome um chá connosco. Penso que me vai ser muito útil, agora que vai para o parlamento europeu.
- É um chá de Tília para a Sra. Gomes. Por favor.
- Por favor, é um Earl Grey para mim e um Darjeeling para o Sr. Laden.- disse Mário, virando-se depois para o seu barbudo acompanhante - Pois é Bin, acho que esta conversa vai ser muito produtiva. Temos mesmo de conseguir negociar com os americanos, não pode continuar assim. Sabe, eu não gosto deles, mas também andar a matá-los parece um pouco excessivo.
- Mário, eu sei que você é um amigo da nossa causa, que tem defendido todas as nossas intervenções e que ainda odeia mais o Bush do que eu, mas nós trabalhamos assim.
- Mas concretamente o que é que vocês pretendem?
- Mário, Mário, isso nem eu sei. Queremos é matar todos os aliados do imperialismo americano, todos os opressores do povo árabe.
- Espere um pouco Bin, vem aí a minha amiga Ana.
- Olá Mário, finalmente conseguiu encontrar-se com o Sr. Laden.
- Ana, deixe-me apresentar-lhe o meu amigo Laden, estamos a negociar.
- Encantado minha senhora, tenho ouvido falar muito de si.
- Oh! Sr. Laden - disse Ana corando um pouco - o prazer é todo meu, não é todos os dias que encontramos alguém que passa à prática o nosso ódio pelos americanos imperialistas.
- Mas sente-se, tome um chá connosco. Penso que me vai ser muito útil, agora que vai para o parlamento europeu.
- É um chá de Tília para a Sra. Gomes. Por favor.
16.3.04
A Primavera ameaça a sua chegada. Lisboa mostra as suas formas numa luz brilhante, única e inimitável. Dias assim fazem acreditar no mito de que se trabalha mais no Norte do que no Sul. A luz, o calor, o brilho da rua convidam a tudo menos à presença fechada entre quatro paredes de um escritório. A preguiça nasceu a Sul, isso é definitivo.
15.3.04
Cavaco I
O Sr. Aníbal é nome ligado a muita coisa que abomino. A sua simples menção tem consequências devastadoras na minha pele, manifestadas por sintomas de urticária aguda ou erzipela. A minha geração cresceu com Cavaco e o cavaquismo, sendo por ele marcada a bem ou mal. Para alguns ele foi o salvador da pátria, o Messias da direita (sendo que nunca percebi que ele era de direita), o Homem que pôs o país em ordem. Na verdade no seu primeiro mandato - em boa hora minoritário - o Sr. realmente deu ordem a um país desgovernado desde a revolução. Tal como Salazar o fez após a desastrosa primeira República que deixou o país de pantanas. Mas isso não faz dele, tal como não faz de Salazar, um governante exemplar a idolatrar. Devemos reconhecer os méritos a quem os deve, incluindo a ditadores, mas daí a avaliar a sua prestação política apenas por iso...
Cavaco foi muito mais do que isso, aliás o muito mais é o que conta no seu caso. Durante dez anos de poder, exercidos de forma dura ao nível de algumas ditaduras democráticas, instalou-se uma clientela sem nível, surgia do vácuo, que passeou o seu poder por este país com uma sobranceria e arrogância a toda a prova. Nunca entendi as desculpabilizações de que o Sr. estava mal rodeado, que a culpa não era dele. Como se na altura Cavaco não tivesse todo o poder possível no partido para impor que quer que lhe desse na real gana. Parece que o Sr. era um ente superior, vagueando num limbo de virtudes, sem possibilidade de banir os incompetentes sedentos de poder que o rodeavam.
Cavaco marcou uma geração, especialmente na forma como projectou um país. Mais do que pequenas questiúnculas de propinas ou regalias de médicos. O que Cavaco criou foi uma mentalidade nova em Portugal, um quase Homem Novo à imagem do seu ideal. O que Cavaco criou, e isso eu não esqueço, foi uma cultura popular em que todos eram ricos e com poder de compra, que o endividamento era algo sem consequências e de que bens, até então quase de luxo - electrodomésticos de toda a espécie, carros novos e, particularmente, casa próprias novas - eram bens ao alcance de todos. Antes fossem.
O novo-riquismo que a conjuntura económica propiciou alastrou-se ás classes mais baixas e o país endividou-se. Tudo correria bem, não fosse uma questão óbvia, a economia tem ciclos e depois da bonança vem a tempestade. Hoje Portugal é um país endividado, com famílias a viver no limiar da pobreza à custa das prestações mensais. Todos temos legitimamente a vontade de viver bem, de ser ricos, mas temos de ter noção do que podemos comprar, do que o nosso dinheiro pode suportar. O que Cavaco criou foi um optimismo exacerbado na população que a fez crer rica, quando no fundo isso não passou de uma fase momentânea. O que Cavaco criou foi uma mentalidade generalizada que o dinheiro e o poder são algo fácil de conseguir, e que os bens acessórios são, afinal, algo atingível por todos. Ainda hoje nos ressentimos disto. Os governos PS foram maus, isso poucos questionarão, mas era impossível manter a economia como ela vinha detrás, pelo motivo simples de que em economia não dependemos só da nossa vontade e do nosso querer, dependemos de uma conjuntura internacional que não dominamos, e à qual nos temos de sujeitar.
Os governos cavaquistas foram como pais que não sabem educar os seus filhos, achando-se no entanto educadores natos. Cavaco inundou o povo português de presentes, mas quem veio depois não teve, obviamente, dinheiro para continuar a festa. Acredito que para muitos os anos laranjas foram de prosperidade e de boa vida, mas tenho a certeza que para uma imensa maioria os anos seguintes foram de grandes apertos.
Mais do que criticar medidas avulsas, o que detesto em Cavaco é esta irresponsabilidade que foi enganar o povo português durante anos, falando de miragens e de oásis. Hoje em Portugal até a sociedade pode ter em geral um nível de vida aceitável, mas não consegue, de forma alguma, ter dinheiro para sustentar o nível a que se julga de direito. Enganar um povo é grave e o grande responsável tem um nome, Aníbal Cavaco Silva.
O regresso de Cavaco ás bocas do país tem apenas uma vantagem, para quem escreve
ou pensa, é que voltamos a ter uma "bête noire" para desancar, sem dó nem piedade. "O Independente", que foi o jornal da minha geração, viveu muito em função desta criatura política, alimentando-se do seu regime para fazer o melhor jornal português que eu tenho memória. O meu único e solitário aplauso a um regresso de Cavaco é o de poder ter alguém de quem dizer mal, convictamente mal, por muito e muito tempo. Acho mesmo assim que o meu prazer individual não se deve sobrepor aos interesses do meu país, por isso, na dúvida, Professor fique em casa com a Sra. Maria, deixe-se estar a comer bolo-rei no Natal com a família e não perturbe, uma vez mais, o seu país. Obrigado.
Cavaco foi muito mais do que isso, aliás o muito mais é o que conta no seu caso. Durante dez anos de poder, exercidos de forma dura ao nível de algumas ditaduras democráticas, instalou-se uma clientela sem nível, surgia do vácuo, que passeou o seu poder por este país com uma sobranceria e arrogância a toda a prova. Nunca entendi as desculpabilizações de que o Sr. estava mal rodeado, que a culpa não era dele. Como se na altura Cavaco não tivesse todo o poder possível no partido para impor que quer que lhe desse na real gana. Parece que o Sr. era um ente superior, vagueando num limbo de virtudes, sem possibilidade de banir os incompetentes sedentos de poder que o rodeavam.
Cavaco marcou uma geração, especialmente na forma como projectou um país. Mais do que pequenas questiúnculas de propinas ou regalias de médicos. O que Cavaco criou foi uma mentalidade nova em Portugal, um quase Homem Novo à imagem do seu ideal. O que Cavaco criou, e isso eu não esqueço, foi uma cultura popular em que todos eram ricos e com poder de compra, que o endividamento era algo sem consequências e de que bens, até então quase de luxo - electrodomésticos de toda a espécie, carros novos e, particularmente, casa próprias novas - eram bens ao alcance de todos. Antes fossem.
O novo-riquismo que a conjuntura económica propiciou alastrou-se ás classes mais baixas e o país endividou-se. Tudo correria bem, não fosse uma questão óbvia, a economia tem ciclos e depois da bonança vem a tempestade. Hoje Portugal é um país endividado, com famílias a viver no limiar da pobreza à custa das prestações mensais. Todos temos legitimamente a vontade de viver bem, de ser ricos, mas temos de ter noção do que podemos comprar, do que o nosso dinheiro pode suportar. O que Cavaco criou foi um optimismo exacerbado na população que a fez crer rica, quando no fundo isso não passou de uma fase momentânea. O que Cavaco criou foi uma mentalidade generalizada que o dinheiro e o poder são algo fácil de conseguir, e que os bens acessórios são, afinal, algo atingível por todos. Ainda hoje nos ressentimos disto. Os governos PS foram maus, isso poucos questionarão, mas era impossível manter a economia como ela vinha detrás, pelo motivo simples de que em economia não dependemos só da nossa vontade e do nosso querer, dependemos de uma conjuntura internacional que não dominamos, e à qual nos temos de sujeitar.
Os governos cavaquistas foram como pais que não sabem educar os seus filhos, achando-se no entanto educadores natos. Cavaco inundou o povo português de presentes, mas quem veio depois não teve, obviamente, dinheiro para continuar a festa. Acredito que para muitos os anos laranjas foram de prosperidade e de boa vida, mas tenho a certeza que para uma imensa maioria os anos seguintes foram de grandes apertos.
Mais do que criticar medidas avulsas, o que detesto em Cavaco é esta irresponsabilidade que foi enganar o povo português durante anos, falando de miragens e de oásis. Hoje em Portugal até a sociedade pode ter em geral um nível de vida aceitável, mas não consegue, de forma alguma, ter dinheiro para sustentar o nível a que se julga de direito. Enganar um povo é grave e o grande responsável tem um nome, Aníbal Cavaco Silva.
O regresso de Cavaco ás bocas do país tem apenas uma vantagem, para quem escreve
ou pensa, é que voltamos a ter uma "bête noire" para desancar, sem dó nem piedade. "O Independente", que foi o jornal da minha geração, viveu muito em função desta criatura política, alimentando-se do seu regime para fazer o melhor jornal português que eu tenho memória. O meu único e solitário aplauso a um regresso de Cavaco é o de poder ter alguém de quem dizer mal, convictamente mal, por muito e muito tempo. Acho mesmo assim que o meu prazer individual não se deve sobrepor aos interesses do meu país, por isso, na dúvida, Professor fique em casa com a Sra. Maria, deixe-se estar a comer bolo-rei no Natal com a família e não perturbe, uma vez mais, o seu país. Obrigado.
Espanha
Os espanhóis surpreenderam no dia de ontem, optando pela mudança no governo e castigando o PP de forma implacável. Tudo foi estranho, mas a provar-se a ocultação de factos por parte do governo não podemos negar que o castigo terá sido justo. No entanto a manifestação de Sábado provou que os escrúpulos políticos não foram melhores do outro lado, ao aproveitar o dia de reflexão para a mais clara campanha eleitoral.
Tudo me fez confusão porque o atentado foi de enorme gravidade para o país e para a Europa e durante dois dias isso foi esquecido em nome de interesses eleitorais. Não compreendo os festejos do PSOE (como não compreenderia se fossem do PP) e acho da maior falta de gosto que se comemore em dias que deveriam ser de luto.
O PSOE ganhou porque o PP apoiou os Estados Unidos na guerra do Iraque. Será que com o PSOE a Espanha não teria apoiado a guerra? Lembremo-nos dos tempos de Felipe Gonzalez.
Tudo me fez confusão porque o atentado foi de enorme gravidade para o país e para a Europa e durante dois dias isso foi esquecido em nome de interesses eleitorais. Não compreendo os festejos do PSOE (como não compreenderia se fossem do PP) e acho da maior falta de gosto que se comemore em dias que deveriam ser de luto.
O PSOE ganhou porque o PP apoiou os Estados Unidos na guerra do Iraque. Será que com o PSOE a Espanha não teria apoiado a guerra? Lembremo-nos dos tempos de Felipe Gonzalez.
11.3.04
O Terrorismo Relativo
O mundo está de luto, pelo menos o mundo civilizado e os seres humanos dignos desse nome. Não são só os espanhóis, que sofrem obviamente mais, que estão chocados e revoltados. A civilização que tentamos construir não é esta.
Os paladinos de certas ideias irão relativizar este atentado com as tendências imperialistas do Reino de Espanha, acharão justa mais esta forma de protesto de um povo oprimido contra o país dominador? Desta vez foi aqui ao lado, com o Euro poderá ser aqui, dessa vez de quem será a culpa, quem será o infame que obrigará a mais um acto de revolta contra a opressão. Com o 11 de Setembro quase conseguiram justificar o deliberado assassinato terrorista de milhares de pessoas, agora foram 170, serão apenas estatísticas como dizia Estaline. Confirme-se a responsabilidade da ETA e talvez ainda hoje o reverendo do bloco e a pandilha do costume venham justificar a luta do povo Basco, talvez mandem o Professor Rosas contar a história manipulada como só ele é capaz. Confirme-se que o atentado partiu da Al Qaeda e logo virão dizer que é consequência directa da guerra do Iraque e do apoio dado por Espanha aos Estados Unidos. Talvez façam manifestações pelos direitos humanos das pessoas que venham a ser detidas, agora respeitar os mortos e perceber que os fins não justificam os meios e que em democracia isto vale tanto como um assassinato a sangue frio, isso não creio.
O relativismo moral em casos destes é igualmente criminoso, não falamos aqui de uma bomba num alvo estratégico com vítimas colaterais, falamos de matar deliberadamente seres humanos, de usar a morte em nome não se sabe bem de quê. Aqui a única relatividade vem do valor da vida humana, para uns ela vale tudo, para outros vale nada.
Os paladinos de certas ideias irão relativizar este atentado com as tendências imperialistas do Reino de Espanha, acharão justa mais esta forma de protesto de um povo oprimido contra o país dominador? Desta vez foi aqui ao lado, com o Euro poderá ser aqui, dessa vez de quem será a culpa, quem será o infame que obrigará a mais um acto de revolta contra a opressão. Com o 11 de Setembro quase conseguiram justificar o deliberado assassinato terrorista de milhares de pessoas, agora foram 170, serão apenas estatísticas como dizia Estaline. Confirme-se a responsabilidade da ETA e talvez ainda hoje o reverendo do bloco e a pandilha do costume venham justificar a luta do povo Basco, talvez mandem o Professor Rosas contar a história manipulada como só ele é capaz. Confirme-se que o atentado partiu da Al Qaeda e logo virão dizer que é consequência directa da guerra do Iraque e do apoio dado por Espanha aos Estados Unidos. Talvez façam manifestações pelos direitos humanos das pessoas que venham a ser detidas, agora respeitar os mortos e perceber que os fins não justificam os meios e que em democracia isto vale tanto como um assassinato a sangue frio, isso não creio.
O relativismo moral em casos destes é igualmente criminoso, não falamos aqui de uma bomba num alvo estratégico com vítimas colaterais, falamos de matar deliberadamente seres humanos, de usar a morte em nome não se sabe bem de quê. Aqui a única relatividade vem do valor da vida humana, para uns ela vale tudo, para outros vale nada.
10.3.04
Estalinismo
Portugal será um país democrático, mas há instituições muito respeitadas que não o são. A TSF lançou um CD com os melhores momentos da sua história. A ideia parece interessante e podemos ouvir os relatos, então em directo, de alguns dos mais importantes acontecimentos da nossa história recente. O que é estranho é o fortíssimo ataque de amnésia que os levou a esquecerem-se de um dos seus mais proeminentes jornalistas e ex-director: Carlos Andrade. Esta falha vem acompanhada pela ausência do momento em que a TSF mais visibilidade teve, aquele que, pelo menos para mim, é o marco da sua existência, a causa de Timor. Carlos Andrade uniu o país em torno de uma causa, tendo inclusivamente recebido distinções por isso. Como é possível a ausência de qualquer referência a isto no CD em causa.
Reescrever a história sempre foi uma tentação estalinista, que certa gente cultiva e onde continua a cair. Não percebo é como um facto deste passa despercebido aos nossos sempre tão democráticos jornalistas. Parece que os que se tomam por virgens puras da democracia são afinal prostitutas da liberdade.
Reescrever a história sempre foi uma tentação estalinista, que certa gente cultiva e onde continua a cair. Não percebo é como um facto deste passa despercebido aos nossos sempre tão democráticos jornalistas. Parece que os que se tomam por virgens puras da democracia são afinal prostitutas da liberdade.
Portugal é definitivamente um país curioso.
O Estado queixa-se que os portugueses não pagam os impostos e que as dívidas à Segurança Social são vastas e incobráveis. Facto. No meu caso numa semana consegui que me acontecesse exactamente o oposto. Enviei a declaração de IVA, por correio porque as declarações electrónicas estavam bloqueadas, e não consegui pagar por Multibanco. Motivos insondáveis levavam a que os pagamentos não estivessem disponíveis. Até aqui tudo mais ou menos normal, um problema de resolução a curto prazo, espero, e que voltará a funcionar como estou habituado.
Mais grave se passou com a Segurança Social, aqui tudo foi, e está a ser, muito pior. Há algum tempo deixei que os pagamentos da minha contribuição mensal fossem efectuados por transferência bancária. Tudo era para mim, e para o Estado, mais simples, evitando esquecimentos e atrasos. Para tal tinha uma conta específica onde coloquei o dinheiro necessário para alguns meses. Um dia resolvi ver quanto dinheiro me restava e constatei admirado que ainda tinha muito, mais do que era suposto. Deixei andar até que, uns meses depois, recebi uma carta da Segurança Social a dizer que tinham deixado de fazer cobrança por transferência bancária. Sugeriam o pagamento por Multibanco, para o qual enviaram instruções. Como precisei do dinheiro que tinha de parte na altura deixei andar sem pagar. Fui deixando de pagar, por atrasos em cobranças, até que quis voluntariamente pagar. Aí tudo se complicou!
Comecei por achar que, tendo alguns meses em atraso, teria de pagar directamente na tesouraria. Cheguei lá e informaram-me que não, que o melhor era ir ao Multibanco que assim não pagava juros de mora. Achei estranho, mas, no dia seguinte, lá fui até ao Multibanco. Depois de algumas tentativas disse que o número de beneficiário, que tinha no cartão na minha mão, era errado. Telefonei então e disseram-me que se calhar eu ainda não estava nos arquivos informáticos e teria de fazer o pagamento manualmente (isto apesar da carta que me enviaram para pagar no Multibanco).
Há dois dias entrei na Loja do Cidadão dos Restauradores pelas 11 horas e tirei uma senha, preparando-me para alguma demora. Olhei o meu número, olhei o número onde ia, e "apenas" faltavam 270 pessoas. Como tinha coisas para fazer, desisti e voltei ontem. Ao chegar consegui o número 411, sendo que ainda ia no 77. Passeei pela Baixa, almocei, subi ao Chiado, voltei, subi a Avenida da Liberdade, voltei, li o jornal e um livro e esperei calmamente a partir do 350 implorando por desistências. Afinal não esperei muito tempo, apenas 7 horas a que me sujeitei pela necessidade real de regularizar a minha situação. A senhora que me atendeu era de grande simpatia, o que me surpreendeu, e ao ouvir o meu caso começou por dizer que ali não aceitavam pagamentos. Ia desmaiando. Ao ver o meu ar assassino de súbito pânico a senhora acalmou-me e tentou resolver a situação. O melhor que conseguiu for dizer-me para ir à Tesouraria do Areeiro onde irei amanhã.
Tudo isto é extraordinário, eu quero pagar, quero realmente e de boa vontade pagar. Não estou a fugir mais dos meus atrasos, não me escondo esperando os 5 anos para ser amnistiado, eu quero pagar. Eu quero mas o Estado não facilita, e até não era preciso facilitar muito, bastava não criar um muro quase intransponível a quem quer pagar. Eu sei que pareço louco neste meu desejo, mas não tivesse mesmo de ter a situação legalmente resolvida e garanto que a Segurança Social não veria de mim nem mais um cêntimo. É que bolas, eu sabia que o Estado era mau pagador, agora que não nos deixava pagar!
Mais grave se passou com a Segurança Social, aqui tudo foi, e está a ser, muito pior. Há algum tempo deixei que os pagamentos da minha contribuição mensal fossem efectuados por transferência bancária. Tudo era para mim, e para o Estado, mais simples, evitando esquecimentos e atrasos. Para tal tinha uma conta específica onde coloquei o dinheiro necessário para alguns meses. Um dia resolvi ver quanto dinheiro me restava e constatei admirado que ainda tinha muito, mais do que era suposto. Deixei andar até que, uns meses depois, recebi uma carta da Segurança Social a dizer que tinham deixado de fazer cobrança por transferência bancária. Sugeriam o pagamento por Multibanco, para o qual enviaram instruções. Como precisei do dinheiro que tinha de parte na altura deixei andar sem pagar. Fui deixando de pagar, por atrasos em cobranças, até que quis voluntariamente pagar. Aí tudo se complicou!
Comecei por achar que, tendo alguns meses em atraso, teria de pagar directamente na tesouraria. Cheguei lá e informaram-me que não, que o melhor era ir ao Multibanco que assim não pagava juros de mora. Achei estranho, mas, no dia seguinte, lá fui até ao Multibanco. Depois de algumas tentativas disse que o número de beneficiário, que tinha no cartão na minha mão, era errado. Telefonei então e disseram-me que se calhar eu ainda não estava nos arquivos informáticos e teria de fazer o pagamento manualmente (isto apesar da carta que me enviaram para pagar no Multibanco).
Há dois dias entrei na Loja do Cidadão dos Restauradores pelas 11 horas e tirei uma senha, preparando-me para alguma demora. Olhei o meu número, olhei o número onde ia, e "apenas" faltavam 270 pessoas. Como tinha coisas para fazer, desisti e voltei ontem. Ao chegar consegui o número 411, sendo que ainda ia no 77. Passeei pela Baixa, almocei, subi ao Chiado, voltei, subi a Avenida da Liberdade, voltei, li o jornal e um livro e esperei calmamente a partir do 350 implorando por desistências. Afinal não esperei muito tempo, apenas 7 horas a que me sujeitei pela necessidade real de regularizar a minha situação. A senhora que me atendeu era de grande simpatia, o que me surpreendeu, e ao ouvir o meu caso começou por dizer que ali não aceitavam pagamentos. Ia desmaiando. Ao ver o meu ar assassino de súbito pânico a senhora acalmou-me e tentou resolver a situação. O melhor que conseguiu for dizer-me para ir à Tesouraria do Areeiro onde irei amanhã.
Tudo isto é extraordinário, eu quero pagar, quero realmente e de boa vontade pagar. Não estou a fugir mais dos meus atrasos, não me escondo esperando os 5 anos para ser amnistiado, eu quero pagar. Eu quero mas o Estado não facilita, e até não era preciso facilitar muito, bastava não criar um muro quase intransponível a quem quer pagar. Eu sei que pareço louco neste meu desejo, mas não tivesse mesmo de ter a situação legalmente resolvida e garanto que a Segurança Social não veria de mim nem mais um cêntimo. É que bolas, eu sabia que o Estado era mau pagador, agora que não nos deixava pagar!
8.3.04
Europa
Uma sondagem apareceu a desestabilizar os comentadores políticos e os jornalistas. Segundo a mesma, os portugueses preparam-se para se abster em 70% ás próximas eleições europeias. Não percebo o espanto.
Entrámos na Europa já faz um tempo e em teoria o povo deveria estar habituado a essa convivência. Nada mais errado, em vários anos de Europa, essa entidade abstracta e indefinível, nunca os políticos portugueses, do alto do seu pedestal, se incomodaram a explicar ás massas no que consistia de facto a Europa. Teria tido muita graça acompanhar esta sondagem com perguntas como: O que é a Europa? Qual o lugar de Portugal na Europa? Para que servem os deputados europeus que vamos eleger? Como é composta a Europa no que toca aos centros de decisão? Quais são os nossos direitos e deveres em relação à Europa? Aposto, singelo contra dobrado, que as respostas correctas não ultrapassariam os 5%. Mais interessante ainda seria repetir estas perguntas aos nossos deputados e políticos, com um ligeiro aumentar da percentagem ela não seria, ainda assim, brilhante.
Como é que esperam que o povo vote e se desloque a dar o seu contributo para algo que nem vagamente compreende. A Europa para o comum dos mortais portugueses não é mais do que uma abstracção que nos manda uma massas e que nos obriga a cumprir algumas normas (a maioria das quais idiotas). Se falarmos de Europa o que nos ocorre são os fundos estruturais, os "girassídios", os Range Rover comprados para modernizar a agricultura portuguesa, as alterações impostas aos nomes genuínos de tabacos (o triste caso do Português, agora não Suave) ou as tentativas de proibir os jaquinzinhos (como sobreviver a esta falta!). Ironias à parte, é claro que também nos trouxe coisas boas, só tenho mais dificuldade em me lembrar delas.
A nossa presença na Europa é inquestionável, agora a nossa posição relativa nunca foi discutida de forma perceptível, de forma que permitisse uma consulta popular efectiva. Mas afinal para que é preciso um referendo sobre a Europa, a taxa de abstenção nas eleições europeias não é mais do que isso, uma clara demonstração do desinteresse popular perante essa utopia federalista que é a Europa.
Entrámos na Europa já faz um tempo e em teoria o povo deveria estar habituado a essa convivência. Nada mais errado, em vários anos de Europa, essa entidade abstracta e indefinível, nunca os políticos portugueses, do alto do seu pedestal, se incomodaram a explicar ás massas no que consistia de facto a Europa. Teria tido muita graça acompanhar esta sondagem com perguntas como: O que é a Europa? Qual o lugar de Portugal na Europa? Para que servem os deputados europeus que vamos eleger? Como é composta a Europa no que toca aos centros de decisão? Quais são os nossos direitos e deveres em relação à Europa? Aposto, singelo contra dobrado, que as respostas correctas não ultrapassariam os 5%. Mais interessante ainda seria repetir estas perguntas aos nossos deputados e políticos, com um ligeiro aumentar da percentagem ela não seria, ainda assim, brilhante.
Como é que esperam que o povo vote e se desloque a dar o seu contributo para algo que nem vagamente compreende. A Europa para o comum dos mortais portugueses não é mais do que uma abstracção que nos manda uma massas e que nos obriga a cumprir algumas normas (a maioria das quais idiotas). Se falarmos de Europa o que nos ocorre são os fundos estruturais, os "girassídios", os Range Rover comprados para modernizar a agricultura portuguesa, as alterações impostas aos nomes genuínos de tabacos (o triste caso do Português, agora não Suave) ou as tentativas de proibir os jaquinzinhos (como sobreviver a esta falta!). Ironias à parte, é claro que também nos trouxe coisas boas, só tenho mais dificuldade em me lembrar delas.
A nossa presença na Europa é inquestionável, agora a nossa posição relativa nunca foi discutida de forma perceptível, de forma que permitisse uma consulta popular efectiva. Mas afinal para que é preciso um referendo sobre a Europa, a taxa de abstenção nas eleições europeias não é mais do que isso, uma clara demonstração do desinteresse popular perante essa utopia federalista que é a Europa.
Anos II (3 dias depois)
Pensei que chegar aqui fosse mais difícil, há tempos que consumo o espírito desejando que esta data tardasse a chegar. Imaginava o calendário a saltar o dia, sem traços que marcassem uma chegada indesejada. Não por ingratidão, mas porque há números que marcam, que nos fazem pensar, que nos fazem crer que tudo mudou. A outra escala foi o que se passou aos 18. Mas esta vez avizinhava-se mais dura, e foi, sendo que apesar de tudo foi muito melhor do que o esperado.
Sabemos que números nada dizem, que a idade, a verdadeira idade, permanece encerrada no espírito. Ainda assim custa, custa mudar de dezena, custa passar a um clube do qual não nos sentimos membros. A sensação é a de entrar numa festa sem ter sido convidado, sentimo-nos desconfortáveis, fora do "habitat".
Irrita-me saber que alguns disparates que faço, e espero continuar a fazer, sejam agora apontados como de outras idades, irrita-me que as roupas que visto sejam censuradas por questões etárias. No fundo é isto que custa porque a minha postura será exactamente a mesma.
Um problema supera os anteriores, o tempo jovem que sentimos não ter vivido, as coisas que queríamos ter feito, a sensação do tempo nos fugir das mãos como água. A vontade de voltar atrás, não para mudar as coisas, mas sim para as viver ainda mais, e ir mais além.
A idade não nos faz sentir velhos, mas há coisas que o fazem e muito. Já não falo da capacidade para aguentar um jogo de futebol ou outro exercício físico. Falo da constatação de haver depois de nós uma outra geração, ou mesmo outras. Gente que não vibrou com o "Verano Azul" assobiando em grupo a sua canção; que não esperava ansiosa pelos desenhos animados que o Vasco Granja nos trazia, chorando quando eles eram Checos ou Polacos; que o primeiro computador que teve não foi, seguramente, o Spectrum 48K, do qual nem sabe a existência; que liga Sá Carneiro só e apenas a Camarate; que não sabe que a Lois foi objecto de desejo há alguns anos e que os All Stars não são uma criação moderna.
Esta sensação de A Geração já não ser a nossa leva-nos a pensar que o mundo nos está a passar ao lado, e dou por mim a ter vontade de dizer o que sempre odiei ouvir: "no meu tempo é que era". Espero não o fazer, acho que não o vou fazer, afinal a resignação é uma virtude e eu vou tentando, com dificuldade, ser minimamente virtuoso.
Sabemos que números nada dizem, que a idade, a verdadeira idade, permanece encerrada no espírito. Ainda assim custa, custa mudar de dezena, custa passar a um clube do qual não nos sentimos membros. A sensação é a de entrar numa festa sem ter sido convidado, sentimo-nos desconfortáveis, fora do "habitat".
Irrita-me saber que alguns disparates que faço, e espero continuar a fazer, sejam agora apontados como de outras idades, irrita-me que as roupas que visto sejam censuradas por questões etárias. No fundo é isto que custa porque a minha postura será exactamente a mesma.
Um problema supera os anteriores, o tempo jovem que sentimos não ter vivido, as coisas que queríamos ter feito, a sensação do tempo nos fugir das mãos como água. A vontade de voltar atrás, não para mudar as coisas, mas sim para as viver ainda mais, e ir mais além.
A idade não nos faz sentir velhos, mas há coisas que o fazem e muito. Já não falo da capacidade para aguentar um jogo de futebol ou outro exercício físico. Falo da constatação de haver depois de nós uma outra geração, ou mesmo outras. Gente que não vibrou com o "Verano Azul" assobiando em grupo a sua canção; que não esperava ansiosa pelos desenhos animados que o Vasco Granja nos trazia, chorando quando eles eram Checos ou Polacos; que o primeiro computador que teve não foi, seguramente, o Spectrum 48K, do qual nem sabe a existência; que liga Sá Carneiro só e apenas a Camarate; que não sabe que a Lois foi objecto de desejo há alguns anos e que os All Stars não são uma criação moderna.
Esta sensação de A Geração já não ser a nossa leva-nos a pensar que o mundo nos está a passar ao lado, e dou por mim a ter vontade de dizer o que sempre odiei ouvir: "no meu tempo é que era". Espero não o fazer, acho que não o vou fazer, afinal a resignação é uma virtude e eu vou tentando, com dificuldade, ser minimamente virtuoso.
Anos (3 dias depois)
No dia em que o rei fez anos houve arraial e foguetes no ar.
No dia dos meus anos houve calma e paz. Desapareci.
No dia dos meus anos houve calma e paz. Desapareci.
4.3.04
Surpresas de Lisboa
Ou como um simples jantar de semana se transforma numa noite argentina e divertidíssima.
Ontem, estava eu num pacato jantar de semana no "El Ultimo Tango", quando o inesperado aconteceu. A conversa corria animada e fomos prolongando um pouco o jantar ao ritmo de um ou dois Whiskeys. Estávamos nisto, com restaurante já vazio - à parte dos empregados, dos donos, e um ou dois amigos -, quando entra um rapaz de "bandoneón" ás costas. Na mesa ao lado conversavam animadamente com ele, enquanto nós pedíamos mais um Whiskey. A dona chegou à mesa e disse que estavam de saída para um concerto de tangos no Frágil, e que o rapaz era muito bom. Sugeriu que também fossemos e nós, bem dispostos, acedemos.
A partir daqui foi uma noite inesperada que teve como único problema o acordar na manhã de hoje. O rapaz - Walter Hidalgo - tocava mesmo bem e a onda familiar criou o que o tango - assim como o fado - necessita, ambiente. O sentimento sul-americano contagiou os poucos, mas animados, espectadores que embalaram para horas de diversão ao som dos tangos argentinos.
Lisboa é realmente uma cidade cheia de surpresas, tantas que ontem se transvestiu de Buenos Aires durante umas fugazes horas. Sorte a minha, sorte a dos outros que assim se puderam divertir numa supostamente pacata noite de semana. As melhores noites são sempre estas, as que não planeamos e das quais pouco esperamos.
Ontem, estava eu num pacato jantar de semana no "El Ultimo Tango", quando o inesperado aconteceu. A conversa corria animada e fomos prolongando um pouco o jantar ao ritmo de um ou dois Whiskeys. Estávamos nisto, com restaurante já vazio - à parte dos empregados, dos donos, e um ou dois amigos -, quando entra um rapaz de "bandoneón" ás costas. Na mesa ao lado conversavam animadamente com ele, enquanto nós pedíamos mais um Whiskey. A dona chegou à mesa e disse que estavam de saída para um concerto de tangos no Frágil, e que o rapaz era muito bom. Sugeriu que também fossemos e nós, bem dispostos, acedemos.
A partir daqui foi uma noite inesperada que teve como único problema o acordar na manhã de hoje. O rapaz - Walter Hidalgo - tocava mesmo bem e a onda familiar criou o que o tango - assim como o fado - necessita, ambiente. O sentimento sul-americano contagiou os poucos, mas animados, espectadores que embalaram para horas de diversão ao som dos tangos argentinos.
Lisboa é realmente uma cidade cheia de surpresas, tantas que ontem se transvestiu de Buenos Aires durante umas fugazes horas. Sorte a minha, sorte a dos outros que assim se puderam divertir numa supostamente pacata noite de semana. As melhores noites são sempre estas, as que não planeamos e das quais pouco esperamos.
Erros
Errar todos erramos, graças a Deus. O mundo sem erros seria uma miserável sucessão de comportamentos previsíveis. Aprender ou não com eles, isso depende da liberdade de cada um.
3.3.04
Debate de hoje
No Parlamento mais uma vez se discutiu o aborto. A esquerda apresentando projectos para descriminalizar o aborto, outros para realizar um novo referendo. A esquerda dizendo pérolas como que "as mulheres são livres de ter a sua sexualidade", considerando que a liberdade vai até utilizar o aborto como método contraceptivo. A direita recorrendo ao referendo já efectuado para não alterar a lei. A esquerda invocando que as "mulheres são donas do seu ventre", curiosamente a mesma esquerda que se junta em patéticas manifestações em Barrancos ou noutros locais, verberando contra quem mata animais. (Aqui bate um ponto importante, uma sociedade onde se defendem mais os animais do que o próprio Homem é uma sociedade perigosa.) A direita tem agora um desafio pela frente, tomar medidas concretas para diminuir os abortos. A ver vamos.
No final de um debate aparentemente civilizado, um fim em grande. O público, incentivado por uma deputada do Bloco de Esquerda (Ana Drago no seu melhor), gritava a "luta continua", relembrando tempos arcaicos do PREC, só faltando os gritos de abaixo o fascismo. Com deputadas assim, que nem respeitam a instituição onde representam o povo, o país pode chorar pelos seus políticos. A falta de noção de Ana Drago é tanta que, se algum dia a insultarem das bancadas do hemiciclo, terá que aceitar placidamente pois já deu esse exemplo. A ideia é tentadora, talvez um dia valha a pena a deslocação.
No final de um debate aparentemente civilizado, um fim em grande. O público, incentivado por uma deputada do Bloco de Esquerda (Ana Drago no seu melhor), gritava a "luta continua", relembrando tempos arcaicos do PREC, só faltando os gritos de abaixo o fascismo. Com deputadas assim, que nem respeitam a instituição onde representam o povo, o país pode chorar pelos seus políticos. A falta de noção de Ana Drago é tanta que, se algum dia a insultarem das bancadas do hemiciclo, terá que aceitar placidamente pois já deu esse exemplo. A ideia é tentadora, talvez um dia valha a pena a deslocação.
Aborto
Hoje discute-se na Assembleia da República a descriminalização do Aborto. Por motivos quanto a mim oportunistas, um assunto referendado há seis anos, e na altura refutado pela maioria dos votantes, volta à actualidade. Na altura não dei o meu voto, por comodidade e por achar que o "Sim" ganharia. Mas essencialmente porque a campanha tomou contornos abjectos de parte a parte, com a "inteligentzia" a bramir pelos direitos da mulher (com meninas bonitas dizerem-se donas do seu ventre) e os adeptos do "Não" com gritos histéricos pela vida. O assunto é sério demais para ser discutido assim, a campanha levou-me a não querer dar razões a ninguém. Não votei.
Sobre o assunto deixo aqui algumas notas dispersas e desorganizadas:
- Tivemos um referendo há muito pouco tempo. Parece-me elementar que se respeite a vontade da população. Democracia é isto, é aceitar a vontade do "povo" expressa nas urnas, seja a nossa ou não. A esquerda parece esquecer-se disso com demasiada frequência, surgindo com a habitual arrogância moral de quem se julga detentor de verdades absolutas.
- Sendo proibido, o aborto é feito em Portugal. Ninguém questiona, mas também há maus tratos, tráfico de droga, violações, pedofilia e não pensamos em legalizá-los por existirem. Este argumento, tantas e tantas vezes utilizado, não faz sentido. Os governos não podem legislar indo atrás de tudo o que ocorre numa sociedade. Algo por existir não nos pode levar forçosamente a aceitá-lo.
- Um aborto é tirar uma vida, ainda em estado de gestação, mas uma vida. Não podemos, como sociedade, descartar vidas em nome de comodidades ou conveniências. Não aceito o aborto como método contraceptivo.
- O sexo não tem, obviamente, que existir apenas com o fito da reprodução. Mas deve ser responsável, ou em caso contrário a responsabilidade deve ser assumida pelos intervenientes. O "combate" deve ser feito antes da fecundação do óvulo, esta – em alguns casos - nem sequer se deve dar, aí é que o Estado pode, e deve, intervir na formação e educação das pessoas. Prevenir sempre foi melhor do que remediar.
- O aborto é uma questão moral. Mas também é uma questão social. O aborto implica uma postura do Estado.
- Não me parece que descriminalizar melhore a situação. Quem vai ter dinheiro para pagar a multa são os mesmos que tem dinheiro para ir a Espanha. Falsa questão.
- Dizer que a legalização do aborto vai melhorar as condições das mulheres que os fazem não me parece real. O estigma ligado ao aborto impedirá, de um modo geral, as mulheres de recorrerem aos hospitais públicos, particularmente em meios pequenos. Os abortos de vão de escadas não vão acabar, acreditar que sim é de enorme ingenuidade.
Apesar de todas estas observações não consigo ter uma ideia absoluta sobre o assunto. Obviamente que não consigo, nem conseguirei, apontar o dedo a qualquer mulher que faça um aborto. Ainda assim acho que o Estado não deve permitir algo que se deve evitar e combater. O que está em causa é mais do que uma luta entre esquerda e direita, é uma questão social e civilizacional. Podemos acreditar numa determinada sociedade ou noutra, eu acredito numa sociedade em que o aborto não é legal mas que é, dentro do possível, eficazmente combatido.
Sobre o assunto deixo aqui algumas notas dispersas e desorganizadas:
- Tivemos um referendo há muito pouco tempo. Parece-me elementar que se respeite a vontade da população. Democracia é isto, é aceitar a vontade do "povo" expressa nas urnas, seja a nossa ou não. A esquerda parece esquecer-se disso com demasiada frequência, surgindo com a habitual arrogância moral de quem se julga detentor de verdades absolutas.
- Sendo proibido, o aborto é feito em Portugal. Ninguém questiona, mas também há maus tratos, tráfico de droga, violações, pedofilia e não pensamos em legalizá-los por existirem. Este argumento, tantas e tantas vezes utilizado, não faz sentido. Os governos não podem legislar indo atrás de tudo o que ocorre numa sociedade. Algo por existir não nos pode levar forçosamente a aceitá-lo.
- Um aborto é tirar uma vida, ainda em estado de gestação, mas uma vida. Não podemos, como sociedade, descartar vidas em nome de comodidades ou conveniências. Não aceito o aborto como método contraceptivo.
- O sexo não tem, obviamente, que existir apenas com o fito da reprodução. Mas deve ser responsável, ou em caso contrário a responsabilidade deve ser assumida pelos intervenientes. O "combate" deve ser feito antes da fecundação do óvulo, esta – em alguns casos - nem sequer se deve dar, aí é que o Estado pode, e deve, intervir na formação e educação das pessoas. Prevenir sempre foi melhor do que remediar.
- O aborto é uma questão moral. Mas também é uma questão social. O aborto implica uma postura do Estado.
- Não me parece que descriminalizar melhore a situação. Quem vai ter dinheiro para pagar a multa são os mesmos que tem dinheiro para ir a Espanha. Falsa questão.
- Dizer que a legalização do aborto vai melhorar as condições das mulheres que os fazem não me parece real. O estigma ligado ao aborto impedirá, de um modo geral, as mulheres de recorrerem aos hospitais públicos, particularmente em meios pequenos. Os abortos de vão de escadas não vão acabar, acreditar que sim é de enorme ingenuidade.
Apesar de todas estas observações não consigo ter uma ideia absoluta sobre o assunto. Obviamente que não consigo, nem conseguirei, apontar o dedo a qualquer mulher que faça um aborto. Ainda assim acho que o Estado não deve permitir algo que se deve evitar e combater. O que está em causa é mais do que uma luta entre esquerda e direita, é uma questão social e civilizacional. Podemos acreditar numa determinada sociedade ou noutra, eu acredito numa sociedade em que o aborto não é legal mas que é, dentro do possível, eficazmente combatido.
1.3.04
Frio
Por entre o frio que nos congela espero uma réstia de fogo. Sempre gostei de neve, normalmente até gosto do frio, mas dias há em que me parece absurdo que o tempo gele sem que uns farrapos brancos caiam calmamente do céu. Acendo a lareira, que não tenho, e estendo-me com um bom livro ouvindo o ranger dos troncos que se consomem. Lá fora o bulício do fim do dia agita gentes frenéticas e geladas. Eu fico, sem lareira, sem um bom livro, apenas o monitor e a necessidade de trabalhar. Porque é que as coisas não podem ser mais simples.
A Oeste nada de novo
Parece que padeço do mesmo mal que alguns bloggers, tento ver todos os anos os Óscares e fatalmente adormeço no meio dos documentários de curta-metragem ou guarda-roupa. Ontem mantive a tradição, apenas consegui, e já achei muito, chegar até ao Argumento Adaptado.
Não fosse o Billy Cristal e amaldiçoaria as horas de sono perdido. Nenhuma surpresa, nenhum realizador de extrema-esquerda a "envergonhar" Bush, choros pouco sentidos, nenhum estrangeiro a saltar as cadeiras…
A Nova Zelândia foi realmente recorrente e aborrecida. O Senhor dos Anéis é esmagador, uma poderosa adaptação da obra que deliciou a minha adolescência. Só tenho pena que não tenha ganho antes, é que o terceiro é o menos bom de todos, o mais xaroposo.
Nos actores "Mystic River" teve o prémio merecido, as fabulosas interpretações de Sean Penn e Tim Robbins foram justamente vencedoras. (caso ganhasse Bill Murray também não se poderia falar de injustiça)
Enfim, menos interessante do que é normal, sem uma surpresa para animar a noite, menos injusto que noutros anos, o glamour de sempre.
Não fosse o Billy Cristal e amaldiçoaria as horas de sono perdido. Nenhuma surpresa, nenhum realizador de extrema-esquerda a "envergonhar" Bush, choros pouco sentidos, nenhum estrangeiro a saltar as cadeiras…
A Nova Zelândia foi realmente recorrente e aborrecida. O Senhor dos Anéis é esmagador, uma poderosa adaptação da obra que deliciou a minha adolescência. Só tenho pena que não tenha ganho antes, é que o terceiro é o menos bom de todos, o mais xaroposo.
Nos actores "Mystic River" teve o prémio merecido, as fabulosas interpretações de Sean Penn e Tim Robbins foram justamente vencedoras. (caso ganhasse Bill Murray também não se poderia falar de injustiça)
Enfim, menos interessante do que é normal, sem uma surpresa para animar a noite, menos injusto que noutros anos, o glamour de sempre.
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