10.8.04

Crónicas da Figueira IV

Os dias vão passando e já estou em casa. A chuva apareceu e obrigou a passeios entre livros na sempre eterna Casa Havanesa, um snooker no velho Europa e um deambular por cafés e petiscos. Não é assim tão mau quando chove, obriga-nos a largar esta rotina da praia e gozar a cidade.
O mar zangou-se e fez lembrar velhos tempos. Na praia apenas destemidos - e conhecidos - lobos-do-mar e alguns adolescentes inconscientes ousaram um mergulho, na espuma e entre a areia, como convém. A Figueira é assim, entre velhos conhecidos e a modorra da rotina, por isso gosto dela.

6.8.04

Crónicas da Figueira III

As deslocações épicas por entre camionetas atulhadas de tudo, como se uma mudança anual nos transportara para outra dimensão, para outro país ou continente, para uma outra existência. A etapa de Agosto partia o ano, quebrava uma apatia provinciana que se arrastava por meses, sempre com o desejo e a meta do verão. Hoje tudo é diferente, em vidas por vezes frenéticas e anónimas em que é difícil encontrar locais em que o tempo custa a passar e nos quais nos sentimos irremedialmente em casa. A romagem anual devolve-nos a outras vivências que abundantemente esquecemos, a uma inocência a que regressamos com saudade, com este sentimento de não poder, nem querer, recuar, mas sim de recordar e, porque não, reviver.

Crónicas da Figueira II

Tudo mudou com o correr dos anos, mas a imutabilidade das pessoas, em que apenas as rugas nos acordam para a realidade, faz destes sítios os nossos sítios.
Faz-me falta o cheiro das bolachas dos cones dos gelados do Tamariz, ali na esplanada junto à praia, onde passava de mão dada com o meu pai, quando ainda concebia e praticava a praia pela manhã. Relembro a máquina de marionetas na Luna, onde passei longos minutos a dançar ao ritmo do Pinóquio - olhando temeroso para a maldosa bruxa que agitava a vassoura -, e que perdurou enquanto o fazia com primos ou sobrinhos, quando a bruxa mais não era que um emaralhado de madeira e tecido e a sua expressão apenas risível. Até ao ano em que desapareceu, como desaparecem tantas coisas da vida, sem aviso nem notícia deixando o lugar vazio e apenas perdurando nas memórias de caturras que teimam em viver de braço dado com o passado.
A nostalgia toma conta destas crónicas ao ritmo que as memórias assaltam o pensamento, olhando o mar calmo e morno, pensando nos tempos de mares temíveis e ondas que transportavam consigo a cólera sempre bela do mar.

3.8.04

Crónicas da Figueira I

Este blogue - ou seja, eu - mudou-se de armas e bagagens para a Figueira da Foz. Romagem anual com tantos anos quanto a minha vida, ainda possível graças aos efeitos benéficos de uma profissão liberal que me permite tranferir-me na companhia do indispensável portátil. Férias ou talvez não, ou pelo menos a consciência tranquila de não abusar das benesses advindas da ausência de um patrão carrancudo e implacável.
O blogue seguirá ao ritmo das nortadas ou dos dias maravilhosos como o de hoje - não é ironia, o país está debaixo de água e eu só agora saí da praia - conforme este microclima permita. A assiduidade será essa, imprevisível, lutando entre crónicas de Verão e a preguiça de fins de tarde luminosos e longos.

29.7.04

Estreias

Entre Michael Moore e Harry Potter escolho o segundo, sem dúvidas . Num cinema perto de mim em dia próximo.

28.7.04

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Hospederia La Parra, Feria, 2004

Fogos III

Como resolver este problema crónico é algo que ninguém sabe com certeza, até porque enquanto houver floresta vamos ter fogos, o que se pode é conseguir que a sua extensão seja menor, que os estragos sejam minorados, que se extingam em tempo útil e não quando o que resta é deixar arder pois já não há mão neles. Toda esta realidade escapa aos burocratas que nos governam. O principal responsável por tudo isto mais não é do que a política de Desordenamento do Território que Portugal tem seguido em anos e anos seguidos, atravessando governos e presidentes de Câmara mais preocupados em saber onde podem construir mais casas ou estradas, onde vão por a próxima barragem ou o seguinte campo de futebol. Não é possível fazer frente aos fogos com um país retalhado a betão e em que os agricultores ou silvicultores são considerados exóticos, apenas seres alucinados que insistem em viver da terra. Um país onde é sempre possível construir, nem que seja em RAN ou REN (independentemente de estas serem questionáveis são dos poucos instrumentos que dispomos).
Os campos sujos, rastilho de quase todos os fogos, e o errado planeamento florestal, cada vez mais assente no milagroso eucalipto, em muito contribuem para o desastre. Os proprietários são também responsáveis, assim como já se fazem obras coercivas por decisão das câmaras, o mesmo deviam fazer no que à limpeza dos campos e à realização de aceiros diz respeito. Os proprietários choram dizendo que não têm dinheiro para limpar o mato, mas são os primeiros a correr ao subsídio mesmo que com a falta de limpeza tenham ajudado a arruinar os vizinhos. Não conseguem por mesquinhez compreender que a limpeza custa X, mas se um fogo passar terão prejuízos de 100X, continuando numa mentalidade retrógrada que tanto tem ajudado a arruinar a exploração do espaço rural português.
Os bombeiros, os pobres bombeiros que sempre servem de bode expiatório, seja por demorarem a chegar, seja não saberem combater os fogos, seja por estarem descoordenados, seja por falta de meios. Os bombeiros são talvez a profissão que mais admiro, em especial os voluntários que estão ali a dar a vida – sim, quantos morrem a cada ano que passa – não pelo dinheiro, não por uma carreira, não por promoção social, apenas para nos ajudar, para ajudar um país que não os ajuda, que continua a preferir comprar F16 a comprar mais Cannadair, que prefere metralhadoras, apesar de obsoletas, a mangueiras, que prefere carros topo de gama todos os anos para os directores gerais e em que não há dinheiro para auto-tanques (não, não é uma divagação demagoga de esquerda, é a realidade). Todo o dinheiro seria pouco para pagar um corpo de bombeiros a sério em que, mais do que a (enorme) boa vontade dos bombeiros, os meios fossem pelo menos em metade da qualidade das pessoas. Claro que erram, mas quantas vezes por uma desorganização dos comandos que têm nas mãos ás dezenas de corporações. Continua a ser ridículo que os militares não patrulhem as florestas, não digo apagar os fogos pois isso requer conhecimento e excede as suas competências, mas fazer patrulhas por esse país ajudando a detectar prontamente fogos em vez de brincarem aos tiros nos quartéis fingindo que matam inimigos imaginários com G3 ferrugentas e boas para o caixote do lixo.
Portugal enquanto não tomar os incêndios como a sua guerra e se perder em jogos florais de submarinos e ordenamento selvagem será irremediavelmente um país do terceiro mundo. Fogos sempre houve e continuarão a haver, haja calor e criminosos acendedores, o que podemos e devemos por obrigação moral é fazer com que sejam detectados e apagados de pronto, minorando assim a devastação que por vezes se dá por atrasos de minutos.

27.7.04

Fogos II

Por várias vezes estive junto a fogos, sentindo de perto a ângustia e o pânico que rodeiam estas situações. Lembro-me de apagar de balde um pequeno fogo com origem numa fagulha proveniente de uma frente a uns 200 metros da casa, casa essa que, sem o esforço de quem estava, por certo seria devorada por essa pequena fagulha que logo tomou conta do prado e do Olival procurando crescer à custa deles.
No ano passado estava numa quinta cercada por três frentes, que os caprichos dos ventos afastaram, mas que vistas do alto de uma encosta faziam o inferno de Dante parecer uma canção para embalar crianças. Tudo isto enquanto impotentes apenas podíamos retirar as botijas de gás, regar a envolvente da casa e esperar, esperar numa angústia de quem pode de um momento para o outro perder o que uma vida construiu. E aqui todos os valores se misturam, o económico mas também o afectivo das pequenas coisas cercadas pela fome voraz de um fogo com origem sabe-se lá onde.
Foram muitas as histórias de amigos que, no malfadado incêndio na Chamusca que no verão passado em escassas horas cercou a vila, tudo perderam. Também me lembro de quem apenas salvou a casa destruindo um anexo com um tractor – impedindo assim o fogo de alastrar – ajudado por ter uma piscina, mas que viu a casa ficar como que suspensa no campo negro, todo ele consumido, desde as hortas aos arbustos junto à casa.
Chorar de nada vale quando no dia seguinte o que há é que reconstruir, procurar as ajudas que sempre surgem, mobilizar a família e os amigos e olhar de frente, quando um peso nos puxa a cabeça para baixo querendo desanimar e entregar tudo ao inferno que venceu, como quase sempre vence quando usa destes argumentos.

26.7.04

Fogos I

Chega o verão e o calor desperta o inferno latente que durante meses hibernou em terras de Portugal. O tempo é de notícias de fogos, de devastação, de povoações em perigo, de bombeiros sem meios, de números incríveis de hectares ardidos por esse país fora. Todos lamentamos, mas ano após ano a área ardida aumenta, os danos são mais graves, a floresta continua essa espiral de desaparecimento a que custa pôr fim. De Lisboa vem pena, comiseração por quem tudo perdeu, pelos danos tantas vezes irreversíveis em áreas naturais da maior beleza. Tudo isto num distanciamento que magoa a emoção que se tem de estar ao vivo defronte de uma floresta em altas chamas. Não que não sejam genuínos os sentimentos citadinos, mas é difícil, estando à distância, compreender o que são os fogos para quem vive no interior, por entre vastas e belas florestas das quais depende a sua sobrevivência. Perceber a impotência encolerizante que é ver o fogo avançar pelos campos como se numa corrida se encontrasse, deixando sempre um rasto negro, macabro e devastador.

Conversa entre bloggers

- Então vai tirar férias do blog?
- Vou, tem de ser, ainda por cima não tenho portátil para levar comigo.
Uns segundos depois desatámos a rir em simultâneo com o ridículo da pergunta.

Fresco

Ontem senti um prazer maldoso, quase pecaminoso. O país derretia sob este céu opaco e abrasivo e chegavam notícias de uma Lisboa acima dos 40 graus. Placidamente estava na praia, uma forte brisa soprava tirando a vontade de entrar na água. O calor parecia algo de distante e vago. O país queixava-se e eu, refrescado, passeava no areal ou abancava em frente de um fresquinho vinho branco. As praias do Norte não são para todos, não são em definitivo para quem gosta de se sentir um lagarto e suar em cima da toalha. Ontem a velha Figueira era um paraíso nas nossas terras. Aqui foi possível estar na praia e duvidar da credibilidade das notícias do calor. Acredito que nem todos gostem, a mim o dia de ontem soube-me a pato, a um belo e suculento “magret” de pato com molho agridoce. O resto será conversa, mas o que me custou mesmo foi ter de voltar a esta gigantesca estufa em que se transformou Lisboa. O que vale é que só faltam uns dias para voltar, e agora para ficar para umas calmas férias.

22.7.04

Pré-época

O Porto ganhou a Liga dos Campeões e com isso ganhou muito dinheiro. Depois vendeu, e por bom dinheiro, Deco e Paulo Ferreira. Com isso contratou excelentes jogadores e um treinador italiano para disciplinar o conjunto. Aparentemente é o mais óbvio candidato ao título.
O Benfica comprou, e comprou, e ainda parece que vai comprar. Apenas saiu Tiago e a equipa caminha para a maravilha habitual, até já Luís Filipe Vieira joga à bola. O treinador escolhido foi Trappatoni, um Jackpot com um treinador simpático e vencedor mas que faz equipas chatas, mas chatas. Claro que é candidato a todas as competições em que joga.
O Sporting, até há dois dias era uma pobre equipa, que não comprava jogadores, que deixava fugir os que lhe interessavam para o Porto, que modestamente seria quanto muito candidata ao terceiro lugar. A SAD era já uma cambada de incompetentes que parecia que andavam a dormir. Em dois dias tudo parece ter mudado, a tal SAD adormecida apareceu com três reforços e parece que ainda não acabou. Hugo Viana apareceu a dizer o que Quaresma devia ter sentido: “para Portugal só o Sporting, o resto foi especulação”. Esperemos que continuem a achar esta, uma equipa de coitadinhos, eu por mim vou comprar outra vez o bilhete de época e depois veremos.

Frase do dia

Quem tramou Teresa Caeiro?

21.7.04

Medo

Santana conseguiu deixar, em apenas dois anos, um buraco de 100 milhões de Euros na Câmara de Lisboa. É isto que me faz ter medo de Santana, particularmente quando os gastos foram empregues, na sua maior parte, no buraco (em todos os sentidos) do Marquês e na publicidade em "outdoors".

20.7.04

A/C

Não gosto de ar condicionado, é talvez uma mania e teimosia minha mas, não gosto. Especialmente não gosto de entrar em casas ou carros de pessoas que, pelos vistos, pretendem recriar o habitat natural da Islândia em Janeiro. Isto quando lá fora estão trinta graus e em que, mal entro, o choque térmico acorda a minha rinite adormecida e me leva a convulsivos e intermináveis ataques de desesperados espirros. Assim como não gosto de que o meu nariz seque qual deserto do Sahara, levando a que, para tentar manter os mínimos níveis de educação, me contorça com vontade de “catar macacos secos” como quem colhe laranjas da árvore (mas sem comer, é evidente). Como não gosto de respirar esse ar artificial em que a garganta começa a ficar sensível e a incrementar um mau estar em que nem apetece falar.
Mas ontem, ao fazer uma viagem com um calor insuportável, em que tinha de manter, pelo menos um mínimo, das janelas abertas na auto-estrada e em que o ruído do vento se cruzava com a telefonia em altos berros para que algo fosse audível, aí tive alguma vontade de me auto-martirizar por não ter um carro com ar condicionado. Mas pensei um pouco e imaginei-me com o nariz a pingar, a respirar um ar horroroso, a fumar e deixar o carro numa nuvem espessa. Enfim, se calhar o sofrimento seria igual, mas sinto-me melhor a sofrer sem essa inovação, no meu carro já respeitável de idade (para os padrões actuais, pois para os do meu tempo de criança é ainda uma novidade) do que a utilizar modernices que resolvem uns problemas mas que não nos deixam necessariamente melhores.

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Jardim Botânico da Ajuda


Governo

Claro que teria de falar do novo governo numas curtas notas:
Pontos positivos
ESPERANÇA - No primeiro-ministro pela sua dinâmica e coragem, que me levam a acreditar em algumas reformas importantes.
INDEPENDÊNCIA - O elevado número de pessoas com carreiras feitas na sociedade civil. (que obviamente a oposição usou para atacar a sua falta de prática política, se fosse ao contrário seria obviamente um governo carreirista)
QUALIDADE - A qualidade de boa parte dos nomes (surpreendendo que achava que seria um governo de yes-men).
FINANÇAS - Bagão Félix pela sua seriedade, competência e preocupação social.
CULTURA - Maria João Bustorff que, pelo seu trabalho numa importante fundação, pode dar mais esperança ao património português (e talvez menos a filmes feitos para o umbigo e que ninguém vê)
 
Pontos negativos
MEDO - O primeiro-ministro pela sua inconsequência e irresponsabilidade que me levam a ter algum medo da sua actuação.
PERIGO - A delirante nomeação de Nobre Guedes para o ambiente.
DEPRESSÃO - Com a divisão entre Ordenamento do Território e Planeamento será de esperar o pior para este país já desordenado.
ESCURO - José Luís Arnaud nas Cidades, depois da recolha de fundos nas construtoras para o partido, agora a distribuição de fundos para as Câmaras (onde tanto ganham as construtoras).
CONFUSÃO - A incompreensível mudança de nomes nas pastas, que vai levar meses até que tudo esteja organizado, uma irresponsabilidade de quem apenas tem 2 anos para governar.
CAPITAL - O Trabalho no Ministério da Economia, numa medida de ultra-liberalismo com que não posso concordar.


16.7.04

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Palácio dos Marqueses de Fronteira

Curta

Perante a hipótese de ir aos Jogos Olímpicos, Simão Sabrosa disse que primeiro estava o Benfica. Aparentemente as boas lições do Euro não foram compreendidas por todos, ás vezes umas reguadas à antiga...

15.7.04

Curtas

António José Seguro não se vai candidatar a secretário-geral do PS, afinal parece que ainda lhe restou um pouco de bom senso.
A escolha de Bagão Félix para Ministro das Finanças foi veementemente criticada por Carvalho da Silva, óptimo sinal para ter esperança no seu trabalho.