16.8.04

Crónicas da Figueira VII

Apetece-me praguejar com toda a força e convicção. Não há direito de, no meio de um mês agradável e prazenteiro como este Agosto, surgir uma impertinente gripe - de força poderosa - que me estrague a existência durante um fim-de-semana. Não há pachorra perante tamanha falta de respeito. As doenças já não são o que eram, nos tempos em que surgiam no Inverno, em dias cinzentos e desagradáveis em que até nem nos importávamos de ficar em casa. Agora no Verão, com o sol a brilhar intenso pela janela, com as alegres vozes a penentrearem os nossos ouvidos quando regressam de um magnífico dia de praia! Um nojo, definitivamente um nojo.

11.8.04

Crónicas da Figueira VI

Longe do quotidiano não conseguimos fugir das más notícias, elas sempre chegam. Um conhecido - hesito sempre em usar a palavra amigo - de alguma proximidade está em coma. Esse estado que sempre nos leva a temer o pior. Forcado, foi em praça que assim ficou, cabeça no estribo após investida do toiro. Sorte malvada. Pode dizer-se que brincava com a morte ao entrar na arena para agarrar um toiro, mas são essas as regras da toirada. O toiro ganhou.
Revolta sempre, o simples facto de pensar numa vida curta em risco de terminar - abruptamente. Tornam-se vãs as palavras perante o espanto, perante a tristeza.

Crónicas da Figueira V

Ano após ano na mesma esquina. Mais que uma escultura de ferro ou bronze esta senhora faz parte do picadeiro, ela e a sua banca ambulante, de madeira, à antiga. Sempre a visitei. Em criança para um pirolito, daqueles de caramelo sem corantes nem conservantes, com a cor e o aspecto do caramelo - tal como ele é -, enrolado em papel pardo. Mais tarde fui virando progressivamente para as pevides, os tremoços ou os amendoins. Ao fim da tarde com imperiais, a meio da noite também com imperiais. Um dia surgiram os exóticos pistachios, hoje banais, no seu verde absinto que se estranha antes de entranhar. Foi novidade, foi notícia. Também o foram os amendoins descascados - salgados ou picantes -, as pastilhas Gorila ou Pirata, os recentes Chupa-Chups.
E ela continua, sempre a cumprimentar educadamente, sejam três da tarde ou quatro da manhã em fins-de-semana. Há mais vendedores das mesmas tentações junto a ela, mas aquela esquina é a minha, como em todos os hábitos duradouros que não se tornam vício. Nunca soube o seu nome, prefiro mesmo não saber, mas continuarei no entanto a passar e a comprar, a vê-la encher a medida e completar o saco com mais alguns a vulso. A reconhecer-me quando o mês começa, sem saber o meu nome, ano após ano.

10.8.04

Crónicas da Figueira IV

Os dias vão passando e já estou em casa. A chuva apareceu e obrigou a passeios entre livros na sempre eterna Casa Havanesa, um snooker no velho Europa e um deambular por cafés e petiscos. Não é assim tão mau quando chove, obriga-nos a largar esta rotina da praia e gozar a cidade.
O mar zangou-se e fez lembrar velhos tempos. Na praia apenas destemidos - e conhecidos - lobos-do-mar e alguns adolescentes inconscientes ousaram um mergulho, na espuma e entre a areia, como convém. A Figueira é assim, entre velhos conhecidos e a modorra da rotina, por isso gosto dela.

6.8.04

Crónicas da Figueira III

As deslocações épicas por entre camionetas atulhadas de tudo, como se uma mudança anual nos transportara para outra dimensão, para outro país ou continente, para uma outra existência. A etapa de Agosto partia o ano, quebrava uma apatia provinciana que se arrastava por meses, sempre com o desejo e a meta do verão. Hoje tudo é diferente, em vidas por vezes frenéticas e anónimas em que é difícil encontrar locais em que o tempo custa a passar e nos quais nos sentimos irremedialmente em casa. A romagem anual devolve-nos a outras vivências que abundantemente esquecemos, a uma inocência a que regressamos com saudade, com este sentimento de não poder, nem querer, recuar, mas sim de recordar e, porque não, reviver.

Crónicas da Figueira II

Tudo mudou com o correr dos anos, mas a imutabilidade das pessoas, em que apenas as rugas nos acordam para a realidade, faz destes sítios os nossos sítios.
Faz-me falta o cheiro das bolachas dos cones dos gelados do Tamariz, ali na esplanada junto à praia, onde passava de mão dada com o meu pai, quando ainda concebia e praticava a praia pela manhã. Relembro a máquina de marionetas na Luna, onde passei longos minutos a dançar ao ritmo do Pinóquio - olhando temeroso para a maldosa bruxa que agitava a vassoura -, e que perdurou enquanto o fazia com primos ou sobrinhos, quando a bruxa mais não era que um emaralhado de madeira e tecido e a sua expressão apenas risível. Até ao ano em que desapareceu, como desaparecem tantas coisas da vida, sem aviso nem notícia deixando o lugar vazio e apenas perdurando nas memórias de caturras que teimam em viver de braço dado com o passado.
A nostalgia toma conta destas crónicas ao ritmo que as memórias assaltam o pensamento, olhando o mar calmo e morno, pensando nos tempos de mares temíveis e ondas que transportavam consigo a cólera sempre bela do mar.

3.8.04

Crónicas da Figueira I

Este blogue - ou seja, eu - mudou-se de armas e bagagens para a Figueira da Foz. Romagem anual com tantos anos quanto a minha vida, ainda possível graças aos efeitos benéficos de uma profissão liberal que me permite tranferir-me na companhia do indispensável portátil. Férias ou talvez não, ou pelo menos a consciência tranquila de não abusar das benesses advindas da ausência de um patrão carrancudo e implacável.
O blogue seguirá ao ritmo das nortadas ou dos dias maravilhosos como o de hoje - não é ironia, o país está debaixo de água e eu só agora saí da praia - conforme este microclima permita. A assiduidade será essa, imprevisível, lutando entre crónicas de Verão e a preguiça de fins de tarde luminosos e longos.

29.7.04

Estreias

Entre Michael Moore e Harry Potter escolho o segundo, sem dúvidas . Num cinema perto de mim em dia próximo.

28.7.04

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Hospederia La Parra, Feria, 2004

Fogos III

Como resolver este problema crónico é algo que ninguém sabe com certeza, até porque enquanto houver floresta vamos ter fogos, o que se pode é conseguir que a sua extensão seja menor, que os estragos sejam minorados, que se extingam em tempo útil e não quando o que resta é deixar arder pois já não há mão neles. Toda esta realidade escapa aos burocratas que nos governam. O principal responsável por tudo isto mais não é do que a política de Desordenamento do Território que Portugal tem seguido em anos e anos seguidos, atravessando governos e presidentes de Câmara mais preocupados em saber onde podem construir mais casas ou estradas, onde vão por a próxima barragem ou o seguinte campo de futebol. Não é possível fazer frente aos fogos com um país retalhado a betão e em que os agricultores ou silvicultores são considerados exóticos, apenas seres alucinados que insistem em viver da terra. Um país onde é sempre possível construir, nem que seja em RAN ou REN (independentemente de estas serem questionáveis são dos poucos instrumentos que dispomos).
Os campos sujos, rastilho de quase todos os fogos, e o errado planeamento florestal, cada vez mais assente no milagroso eucalipto, em muito contribuem para o desastre. Os proprietários são também responsáveis, assim como já se fazem obras coercivas por decisão das câmaras, o mesmo deviam fazer no que à limpeza dos campos e à realização de aceiros diz respeito. Os proprietários choram dizendo que não têm dinheiro para limpar o mato, mas são os primeiros a correr ao subsídio mesmo que com a falta de limpeza tenham ajudado a arruinar os vizinhos. Não conseguem por mesquinhez compreender que a limpeza custa X, mas se um fogo passar terão prejuízos de 100X, continuando numa mentalidade retrógrada que tanto tem ajudado a arruinar a exploração do espaço rural português.
Os bombeiros, os pobres bombeiros que sempre servem de bode expiatório, seja por demorarem a chegar, seja não saberem combater os fogos, seja por estarem descoordenados, seja por falta de meios. Os bombeiros são talvez a profissão que mais admiro, em especial os voluntários que estão ali a dar a vida – sim, quantos morrem a cada ano que passa – não pelo dinheiro, não por uma carreira, não por promoção social, apenas para nos ajudar, para ajudar um país que não os ajuda, que continua a preferir comprar F16 a comprar mais Cannadair, que prefere metralhadoras, apesar de obsoletas, a mangueiras, que prefere carros topo de gama todos os anos para os directores gerais e em que não há dinheiro para auto-tanques (não, não é uma divagação demagoga de esquerda, é a realidade). Todo o dinheiro seria pouco para pagar um corpo de bombeiros a sério em que, mais do que a (enorme) boa vontade dos bombeiros, os meios fossem pelo menos em metade da qualidade das pessoas. Claro que erram, mas quantas vezes por uma desorganização dos comandos que têm nas mãos ás dezenas de corporações. Continua a ser ridículo que os militares não patrulhem as florestas, não digo apagar os fogos pois isso requer conhecimento e excede as suas competências, mas fazer patrulhas por esse país ajudando a detectar prontamente fogos em vez de brincarem aos tiros nos quartéis fingindo que matam inimigos imaginários com G3 ferrugentas e boas para o caixote do lixo.
Portugal enquanto não tomar os incêndios como a sua guerra e se perder em jogos florais de submarinos e ordenamento selvagem será irremediavelmente um país do terceiro mundo. Fogos sempre houve e continuarão a haver, haja calor e criminosos acendedores, o que podemos e devemos por obrigação moral é fazer com que sejam detectados e apagados de pronto, minorando assim a devastação que por vezes se dá por atrasos de minutos.

27.7.04

Fogos II

Por várias vezes estive junto a fogos, sentindo de perto a ângustia e o pânico que rodeiam estas situações. Lembro-me de apagar de balde um pequeno fogo com origem numa fagulha proveniente de uma frente a uns 200 metros da casa, casa essa que, sem o esforço de quem estava, por certo seria devorada por essa pequena fagulha que logo tomou conta do prado e do Olival procurando crescer à custa deles.
No ano passado estava numa quinta cercada por três frentes, que os caprichos dos ventos afastaram, mas que vistas do alto de uma encosta faziam o inferno de Dante parecer uma canção para embalar crianças. Tudo isto enquanto impotentes apenas podíamos retirar as botijas de gás, regar a envolvente da casa e esperar, esperar numa angústia de quem pode de um momento para o outro perder o que uma vida construiu. E aqui todos os valores se misturam, o económico mas também o afectivo das pequenas coisas cercadas pela fome voraz de um fogo com origem sabe-se lá onde.
Foram muitas as histórias de amigos que, no malfadado incêndio na Chamusca que no verão passado em escassas horas cercou a vila, tudo perderam. Também me lembro de quem apenas salvou a casa destruindo um anexo com um tractor – impedindo assim o fogo de alastrar – ajudado por ter uma piscina, mas que viu a casa ficar como que suspensa no campo negro, todo ele consumido, desde as hortas aos arbustos junto à casa.
Chorar de nada vale quando no dia seguinte o que há é que reconstruir, procurar as ajudas que sempre surgem, mobilizar a família e os amigos e olhar de frente, quando um peso nos puxa a cabeça para baixo querendo desanimar e entregar tudo ao inferno que venceu, como quase sempre vence quando usa destes argumentos.

26.7.04

Fogos I

Chega o verão e o calor desperta o inferno latente que durante meses hibernou em terras de Portugal. O tempo é de notícias de fogos, de devastação, de povoações em perigo, de bombeiros sem meios, de números incríveis de hectares ardidos por esse país fora. Todos lamentamos, mas ano após ano a área ardida aumenta, os danos são mais graves, a floresta continua essa espiral de desaparecimento a que custa pôr fim. De Lisboa vem pena, comiseração por quem tudo perdeu, pelos danos tantas vezes irreversíveis em áreas naturais da maior beleza. Tudo isto num distanciamento que magoa a emoção que se tem de estar ao vivo defronte de uma floresta em altas chamas. Não que não sejam genuínos os sentimentos citadinos, mas é difícil, estando à distância, compreender o que são os fogos para quem vive no interior, por entre vastas e belas florestas das quais depende a sua sobrevivência. Perceber a impotência encolerizante que é ver o fogo avançar pelos campos como se numa corrida se encontrasse, deixando sempre um rasto negro, macabro e devastador.

Conversa entre bloggers

- Então vai tirar férias do blog?
- Vou, tem de ser, ainda por cima não tenho portátil para levar comigo.
Uns segundos depois desatámos a rir em simultâneo com o ridículo da pergunta.

Fresco

Ontem senti um prazer maldoso, quase pecaminoso. O país derretia sob este céu opaco e abrasivo e chegavam notícias de uma Lisboa acima dos 40 graus. Placidamente estava na praia, uma forte brisa soprava tirando a vontade de entrar na água. O calor parecia algo de distante e vago. O país queixava-se e eu, refrescado, passeava no areal ou abancava em frente de um fresquinho vinho branco. As praias do Norte não são para todos, não são em definitivo para quem gosta de se sentir um lagarto e suar em cima da toalha. Ontem a velha Figueira era um paraíso nas nossas terras. Aqui foi possível estar na praia e duvidar da credibilidade das notícias do calor. Acredito que nem todos gostem, a mim o dia de ontem soube-me a pato, a um belo e suculento “magret” de pato com molho agridoce. O resto será conversa, mas o que me custou mesmo foi ter de voltar a esta gigantesca estufa em que se transformou Lisboa. O que vale é que só faltam uns dias para voltar, e agora para ficar para umas calmas férias.

22.7.04

Pré-época

O Porto ganhou a Liga dos Campeões e com isso ganhou muito dinheiro. Depois vendeu, e por bom dinheiro, Deco e Paulo Ferreira. Com isso contratou excelentes jogadores e um treinador italiano para disciplinar o conjunto. Aparentemente é o mais óbvio candidato ao título.
O Benfica comprou, e comprou, e ainda parece que vai comprar. Apenas saiu Tiago e a equipa caminha para a maravilha habitual, até já Luís Filipe Vieira joga à bola. O treinador escolhido foi Trappatoni, um Jackpot com um treinador simpático e vencedor mas que faz equipas chatas, mas chatas. Claro que é candidato a todas as competições em que joga.
O Sporting, até há dois dias era uma pobre equipa, que não comprava jogadores, que deixava fugir os que lhe interessavam para o Porto, que modestamente seria quanto muito candidata ao terceiro lugar. A SAD era já uma cambada de incompetentes que parecia que andavam a dormir. Em dois dias tudo parece ter mudado, a tal SAD adormecida apareceu com três reforços e parece que ainda não acabou. Hugo Viana apareceu a dizer o que Quaresma devia ter sentido: “para Portugal só o Sporting, o resto foi especulação”. Esperemos que continuem a achar esta, uma equipa de coitadinhos, eu por mim vou comprar outra vez o bilhete de época e depois veremos.

Frase do dia

Quem tramou Teresa Caeiro?

21.7.04

Medo

Santana conseguiu deixar, em apenas dois anos, um buraco de 100 milhões de Euros na Câmara de Lisboa. É isto que me faz ter medo de Santana, particularmente quando os gastos foram empregues, na sua maior parte, no buraco (em todos os sentidos) do Marquês e na publicidade em "outdoors".

20.7.04

A/C

Não gosto de ar condicionado, é talvez uma mania e teimosia minha mas, não gosto. Especialmente não gosto de entrar em casas ou carros de pessoas que, pelos vistos, pretendem recriar o habitat natural da Islândia em Janeiro. Isto quando lá fora estão trinta graus e em que, mal entro, o choque térmico acorda a minha rinite adormecida e me leva a convulsivos e intermináveis ataques de desesperados espirros. Assim como não gosto de que o meu nariz seque qual deserto do Sahara, levando a que, para tentar manter os mínimos níveis de educação, me contorça com vontade de “catar macacos secos” como quem colhe laranjas da árvore (mas sem comer, é evidente). Como não gosto de respirar esse ar artificial em que a garganta começa a ficar sensível e a incrementar um mau estar em que nem apetece falar.
Mas ontem, ao fazer uma viagem com um calor insuportável, em que tinha de manter, pelo menos um mínimo, das janelas abertas na auto-estrada e em que o ruído do vento se cruzava com a telefonia em altos berros para que algo fosse audível, aí tive alguma vontade de me auto-martirizar por não ter um carro com ar condicionado. Mas pensei um pouco e imaginei-me com o nariz a pingar, a respirar um ar horroroso, a fumar e deixar o carro numa nuvem espessa. Enfim, se calhar o sofrimento seria igual, mas sinto-me melhor a sofrer sem essa inovação, no meu carro já respeitável de idade (para os padrões actuais, pois para os do meu tempo de criança é ainda uma novidade) do que a utilizar modernices que resolvem uns problemas mas que não nos deixam necessariamente melhores.

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Jardim Botânico da Ajuda


Governo

Claro que teria de falar do novo governo numas curtas notas:
Pontos positivos
ESPERANÇA - No primeiro-ministro pela sua dinâmica e coragem, que me levam a acreditar em algumas reformas importantes.
INDEPENDÊNCIA - O elevado número de pessoas com carreiras feitas na sociedade civil. (que obviamente a oposição usou para atacar a sua falta de prática política, se fosse ao contrário seria obviamente um governo carreirista)
QUALIDADE - A qualidade de boa parte dos nomes (surpreendendo que achava que seria um governo de yes-men).
FINANÇAS - Bagão Félix pela sua seriedade, competência e preocupação social.
CULTURA - Maria João Bustorff que, pelo seu trabalho numa importante fundação, pode dar mais esperança ao património português (e talvez menos a filmes feitos para o umbigo e que ninguém vê)
 
Pontos negativos
MEDO - O primeiro-ministro pela sua inconsequência e irresponsabilidade que me levam a ter algum medo da sua actuação.
PERIGO - A delirante nomeação de Nobre Guedes para o ambiente.
DEPRESSÃO - Com a divisão entre Ordenamento do Território e Planeamento será de esperar o pior para este país já desordenado.
ESCURO - José Luís Arnaud nas Cidades, depois da recolha de fundos nas construtoras para o partido, agora a distribuição de fundos para as Câmaras (onde tanto ganham as construtoras).
CONFUSÃO - A incompreensível mudança de nomes nas pastas, que vai levar meses até que tudo esteja organizado, uma irresponsabilidade de quem apenas tem 2 anos para governar.
CAPITAL - O Trabalho no Ministério da Economia, numa medida de ultra-liberalismo com que não posso concordar.


16.7.04

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Palácio dos Marqueses de Fronteira

Curta

Perante a hipótese de ir aos Jogos Olímpicos, Simão Sabrosa disse que primeiro estava o Benfica. Aparentemente as boas lições do Euro não foram compreendidas por todos, ás vezes umas reguadas à antiga...

15.7.04

Curtas

António José Seguro não se vai candidatar a secretário-geral do PS, afinal parece que ainda lhe restou um pouco de bom senso.
A escolha de Bagão Félix para Ministro das Finanças foi veementemente criticada por Carvalho da Silva, óptimo sinal para ter esperança no seu trabalho.

Televisão

Ontem estava decidido a passar a noite a ver tranquilamente televisão. Pura esperança perante o desastroso zapping por entre os canais de cabo. A salvação chegou uma vez mais pelos DVD, ontem com o quarto e quinto episódio de “Reviver o passado em Brideshead”. Cada vez vejo menos televisão, mas há dias em que mais do que um livro, o que apetece é a posição horizontal sobre o sofá e um hipnótico ecran em frente.

14.7.04

PS

Vitorino optou por não avançar e com isso o PS perde o seu D. Sebastião. A opção mais certa será Sócrates, porta-voz do neo-guterrismo com laivos populistas. Os debates da RTP vão então transferir-se para a ribalta da política portuguesa. O PS ganhará argúcia e popularidade, quanto a consistência...o tempo o dirá.

P.S. Terá António José Seguro a distinta lata de se candidatar?

13.7.04

Governo

A formação do governo de Santana ameaça contornos de semelhança com as últimas pré-épocas do Benfica. Explico. O clube da Luz começa todos os anos com uma enorme lista de estrelas que, putativamente, estarão prestes a assinar pelo clube. Com o correr do tempo sobram alguns nomes que, de facto, assinam pelo clube. Os que chegam, a juntar-se ao que permanecem, formam sempre uma equipa maravilha que, seguramente, levará o clube aos tempos idos de Eusébio e Coluna.
Sobre Santana começa por se falar de grandes nomes como Ernâni Lopes, o messiânico António Borges ou António Lobo Xavier. Esperemos que ninguém comece a chamar o futuro governo de "dream-time", é que os resultados dos últimos anos do Benfica estiveram longe de serem bons.

12.7.04

Decisão

Sampaio finalmente decidiu e resolveu chamar o diabólico Santana ao poder. A esquerda radical e populista revolve-se guinchando contra a democraticidade da decisão. Ferro Rodrigues aproveita a boleia e escapa-se ao pântano em que transformou o PS. Ana Gomes - que eu já julgava em Bruxelas - esteve no seu melhor, praticamente ameaçando Sampaio de um par de estalos ou pior. Miguel Veiga – que a generalidade dos portugueses deve perguntar: quem é Miguel Veiga? – voltou a manifestar-se contra a sucessão de Durão. Santana, em entrevista à SIC, aparece com a pose para o futuro, um ar levemente enfadado e um fato “a la” Paulo Portas. A coligação será ao que tudo indica um embrulho de invólucro “Conservative” e acção populista. Espero algo de bom mas temo o pior. Espero por um Santana mais à moda da Figueira do que à moda de Lisboa. Veremos. Nada vai ser igual, o que até poderá ser divertido

9.7.04

Preocupado

Ainda não fui chamado para a audiência com o Sr. Presidente da República. Estou preocupado, como poderá decidir o Sr. Sampaio sem a minha imprescindível opinião?

Centrão

Diz muita gente que politicamente se deve dissolver a Assembleia da República porque na prática se vota em pessoas e não em partidos. Mais uma vez se me eriçam os pelos pois se a lei eleitoral que existe não foi mudada de quem é a culpa? Claro que é dos dois irritantes partidos do centrão que sempre se esforçam por parecer querer mudar, mas que no fundo não mudam nada. De facto votamos em partidos, é assim que vem no boletim de voto, não é uma fotografia de Ferro Rodrigues, é mesmo a rosa ou punho do PS. Insistirão que politicamente não é assim, mas se acham que devia ser mudem a lei. O que a realidade diz é que, infelizmente, votamos sempre em partidos excepto nas presidenciais. O resto é conversa usada quando convém e esquecida quando não interessa. Assim funciona o “centrão”, usando os seus erros como virtudes ou omissões conforme as circunstâncias. Por isso voto cada vez menos.

8.7.04

A importância de se chamar Europa

O nosso ex-primeiro-ministro resolveu fugir, achou por bem abandonar o país que governava por um suposto interesse maior, a Europa.
No Euro o país saiu à rua, inundando-se de bandeiras portuguesas entre as quais o único azul descortinável era o de algumas bandeiras monárquicas que surgiram de braço dado com o encarnado e verde. Bandeiras da Europa nem sinal, nem umas fugazes estrelinhas surgiram senão em alinhamentos oficiais de bandeiras.
Durão achou a Europa mais importante, os portugueses não. Talvez o Euro tenha sido padrasto para os europeístas, demonstrando que ainda existimos como país. Assim o foi para Durão, após o fumo inicial que cobriu a sua saída com uma suposta aura de orgulho nacional, agora todos começamos a estar certos do egoísmo da decisão, apenas tomada por vaidades e interesses pessoais.
Ainda há quem argumente com o que Portugal irá ganhar com o novo cargo de Durão, para eles uma pergunta, ganhou algo a Itália nos últimos anos por Romano Prodi ser o Presidente da Comissão Europeia? Que Europa será a nossa em que os cargos de decisão não são neutrais em relação aos países? Durão tem a obrigação de ser o que nós exigimos que sejam os outros comissários: isento. Não acreditar nisto – e eu não digo que acredite – é não acreditar no funcionamento da Europa – que eu de facto não acredito.
Como português, acuso Durão de falta de patriotismo e de não olhar o interesse nacional, apenas desculpável se, atacado por uma crise de humildade, achasse que o seu trabalho estava a ser mau e que o melhor era ser substituído – ou seja remodelado. Claro que não acredito nesta versão até pelos emproados discursos que se seguiram.
Posso até pensar que para o país será melhor que ele vá para Bruxelas, não pelo que poderá fazer lá, mas pelo que não irá fazer cá. Talvez ganhemos um melhor governo, mas, em abstracto, a fuga foi anti-patriótica demonstrando que já há quem ponha a Europa à frente de Portugal e isso é muito, mas muito, perigoso.

7.7.04

De besta a bestial

Falar de Manuela Ferreira Leite era, há uns dias atrás, falar do demónio. Ela era a criatura que empurrava Portugal para a estagnação económica, para a contenção desmedida, para a desigualdade social. O "Monstro do Pântano" seria o mínimo que qualquer opositor do governo lhe chamaria.
Hoje, que Santana como primeiro-ministro é uma possibilidade, o que dizem estas pessoas? Que o presidente não pode chamar um novo governo sem eleições porque se porá em causa a política económica do governo. Com Santana virá o fim da contenção, contra a qual gritaram durante meses a fio, e aumentará o investimento público.
Extraordinário como alguém passa de besta a bestial sem mudar uma linha na postura e pelos mesmos motivos.

P.S. Será que ainda se lembram do famoso choque fiscal que fazia parte do programa de Governo?

De bestial a besta

Os actuais tempos no futebol deixaram de fora bonitos conceitos como o amor à camisola, dando lugar à crua linguagem do dinheiro. Mas ontem, ao ver a apresentação de Quaresma como jogador do Porto, esqueci-me desse facto. Por isso o bestial jogador que era Quaresma passou a ser mais uma besta que, tendo começado no Sporting, ousou voltar para Portugal para outro clube. A racionalidade que vá ás malvas porque depois do jogo com os Greg.. tenho de passar a raiva para alguém.

6.7.04

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Igreja do Bom Jesus, Velha Goa, Goa, 2004

Realidade

Tento a custo voltar à realidade do dia a dia. O Euro, para o bem ou para o mal, mudou o nosso quotidiano deixando aquele sentimento pós-férias de difícil convivência.

5.7.04

Pátria

Numa entrevista de rua:
Está na rua porquê? O que é que ganhámos?
Ganhámos uma pátria.

Passe o exagero, porque pátria já temos há muito tempo, o Euro devolveu aos portugueses esse conceito de patriotismo que parecia estar apenas no país aqui ao lado.
A absurda, e abundante, confusão entre patriotismo e nacionalismo pode ser agora destrinçada, podemos todos dizer de mão no peito que somos patriotas sem que logo venham os guardiões da liberdade de dedo apontado acusando-nos de fascismo.

Obrigado

Aos jogadores por terem feito o seu melhor para que fossemos campeões.
A Scolari por ter feito uma equipa de um conjunto de jogadores.
Aos organizadores do Euro por transformarem um país desorganizado no responsável pelo melhor Euro de sempre com uma impecável festa de quase um mês.
Aos portugueses por me terem feito de novo acreditar que podemos continuar um país apesar da Europa.

Selecção

Por uma vez, apenas um punhado de idiotas persistiu em “clubizar” a selecção, falando apenas dos jogadores do seu clube e verberando Scolari por esta ou outra convocatória. Hoje já li quem falasse de novo da estrutura do Porto, de que o mérito passa por aí, insistindo em que a selecção é do F.C.P. e que a eles devemos o sucesso de chegar à final. A quem interessa isso, para quê esticarem os bicos dos pés para que se fale do seu clube, para quê aproveitar a selecção?
Quem jogou foram os jogadores de Portugal, sejam de que clube forem jogaram por Portugal, não jogaram por Mourinho, Pinto da Costa, Dias da Cunha ou Vieira. Por isso se uniu o país. Por isso apenas uma minoria de fanáticos pensa assim. Por isso foi bom este europeu.

Política

Perdemos a final e o Euro acabou. Teremos de voltar a falar de política. Apetece de facto chorar ao som de um triste fado de Amália.

1.7.04

Democracia relativa

Fosse outro o vice-presidente do PSD e as vozes que clamam por um congresso não estariam caladas?
Os laranjas que se indignam com Santana não farão parte da lista em congresso aprovada na qual ele ficou número 2 de Durão?

Consequências

Uma voz que faz parecer Tom Waits um cantor de voz límpida qual Crystal Gayle.
Uma preguiça desmesurada com um tentáculo gigante que me tenta puxar para a praia.
Uma segura noção de que os portugueses estão possuídos por um vírus de patriotismo inimaginável, e a muitos difícil de engolir.
Uma certeza que Figo é um dos melhores do mundo por muito que haja quem teime em não concordar.
Um agradecimento a Scolari que realmente só pode ter muita sorte ao ganhar tanta vez.
Um enorme gozo em poder entrar na festa louca em que este país se entrou.
Um total esquecimento, até há uns minutos, de que não temos primeiro-ministro e governo.

Alvalade XXI

Entrada civilizada, conversa com holandeses, fila para comer, descobrir o lugar, à frente portugueses, atrás ingleses, à direita uma concentrada mancha de Sun-Quick, à esquerda a central de vermelho e verde, cânticos, entrada das equipas, Portugal! Portugal! Portugal!, hino cantado a uma só voz com a letra completa por muitas mil pessoas – de arrepiar, Frisk apita, mau começo, nervos, cigarros, golo do Ronaldo, festa, Portugal! Portugal! Portugal!, boas jogadas, domínio luso, bom jogo, Frisk apita, saída dos jogadores sob palmas, Portugal! Portugal! Portugal!, intervalo, entram os jogadores, Portugal! Portugal! Portugal!, jogo rápido, Holanda pressiona, cigarros, inacreditável golo de Maniche, saltos, saltos, Portugal! Portugal! Portugal!, saltos, jogo controlado, auto golo de Jorge Andrade, jogo descontrolado, cigarros, pressão holandesa, cigarros, falhanços portugueses, cigarros, o jogo não acaba, cigarros, pressão, sofrimento, Frisk apita, saltos, Portugal! Portugal! Portugal!, saltos gritos, palmas, Figo o melhor do jogo, saltos, Portugal! Portugal! Portugal!, saída rápida a cantar, metro, Portugal! Portugal! Portugal!, comer qualquer coisa e cerveja com álcool, a festa agora é nossa.

30.6.04

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Jardins do Palácio de Fronteira, Lisboa

Inveja

Tentei, a seu tempo, comprar bilhetes para três jogos do Euro, um dos quais era a Meia-final onde iria o vencedor do nosso grupo, numa clara ilusão de esperança de ver Portugal jogar ou, o mais certo, ver um bom jogo de futebol. Só consegui bilhetes para um jogo, por isso hoje lá rumarei ao meu bem conhecido Alvalade XXI, onde espero que as semelhanças com os jogos do Sporting se fiquem pelo jogo de abertura com o Manchester (lembra-te e repete Cristiano Ronaldo) e não pelo resto de miserável época.
Não, não está à venda, apesar de a partir de 500 contos ser possível sentar-me a uma esplanada a ver o Tejo numa dura negociação que me privaria de um grande jogo mas permitiria uns bons dias de férias e um écran de plasma. Mas não, o dinheiro não compra tudo e apetece-me mesmo ir ver o jogo. A quem não tem bilhete, temos pena! (desculpem a crueldade, deve ser do calor)

29.6.04

Melhor que o silêncio

Relembro as palavras de Caetano ao ouvir o último disco de João Gilberto: "Melhor que o silêncio só João".
O disco "João Gilberto in Tokyo" é mais do mesmo, e ainda bem. João é genial porque a sua voz é única e as suas interpretações sempre diferentes, este "in Tokyo" repete várias músicas do "in Montreaux" mas a igualdade fica por aí. João é um génio na música e vive a vida como génio, daí os seus caprichos como a lendária entrada em palco em Portugal onde deu dois acordes e saiu do palco por o som não estar do seu agrado. Claro que tudo tem graça quando não nos toca, por isso a minha pequena raiva de ter tido - durante seis longos meses - bilhetes para um concerto seu no Coliseu, duas vezes adiado e por fim cancelado. As datas eram próximas deste concerto em Tóquio. Grr!!!

28.6.04

Duas costelas

Este blogue – ou seja eu – junta no nome duas costelas aparentemente antagónicas: a conservadora e a anárquica. A actual situação do país provocou uma divisão interna neste blogue que tenta desesperadamente ter uma posição.
A costela conservadora leva-me neste momento a achar que Durão devia ter ficado em nome da estabilidade, a duvidar da legitimidade de outro Primeiro-ministro tomar posse sem eleições, a assustar-me com Santana pela sua enorme inconsequência e a achar tudo isto uma maçada que só vem perturbar o meu quotidiano e o Euro 2004. Tremo ao pensar em túneis que esburaquem o país inteiro levando a irresponsabilidade até ao mais recôndito interior. Acho incrível que a Kapital venha a ser declarada local de interesse cultural (até porque os seus tempos já eram) e poder utilizar o navio escola Sagres para os seus cruzeiros a Ibiza. Ver o Gerês transformado em Parque Temático para atrair espanhóis ou a Serra da Estrela com um projecto de Montanhas Tropicais parece-me demais. Tenho medo, muito medo, que Santana escreva a Camões convidando-o para Ministro da Justiça ou a Eça de Queiroz para a pasta das Ciências.
A costela mais anárquica acha que Durão era um chato que faz bem em ir para terra do ditos (Bruxelas) e que eleições antecipadas seriam um bom prolongamento da festa do Euro. Acha também que a substituição por Santana tornaria Portugal num país infinitamente mais divertido e decorativo (venham a nós as "Santanettes"). Tenho já um gozo delicioso ao ver os intelectuais a revolverem-se qual epilépticos com a mera hipótese de Santana ser primeiro-ministro, comparando-o a Bush ou Hittler como um louco perigoso que tornaria Portugal numa República de Bananas desgovernada. Sonho já com um Portugal sempre em festa, nem que seja a organizar concursos de "Miss Sul da Europa", "Galas de Cantoras Louras" e "Festivais de Teatro Feminino do Novo Leste Europeu". Regozijo-me com a incorrecção política que Santana traria a este país onde quase todos os políticos são medíocres, chatos, desinteressantes e incompetentes. (a Santana ninguém poderá chamar chato ou desinteressante)
Este blogue está rasgado ao pelo meio de duas costelas e apetecia-lhe, já agora, comer uma costoletinhas de borrego panadas que são bem mais unânimes e pacíficas.

25.6.04

Remodelling Durão

Como diz Vítor Cunha no Independente de hoje, Durão está prestes a tornar-se genial e não se ficará por uma simples remodelação, remodelar-se-á a si próprio. Nem o Bloco se atreveria a tanto.

Thank You

A sempre fundamental Bomba destaca este blogue, sinceramente obrigado pela referência, vinda de quem vem faz-me corar de prazer.

The Game

Sem entrar em análises futebolísticas, para as quais não estou preparado, apenas algumas notas.
Bravo Scolari, por ter os tom.... de substituir daquela maneira, de trocar o trinco e o lateral direito por avançados, de tirar o exausto Figo, de mandar tudo para a frente. Quantos treinadores portugueses ousariam isto?
Bravo Postiga, pelo golo e pelo inadjectivável penalty, a bola a saltitar para o meio da baliza é digna do próprio Marques de Sade.
Bravo Rui Costa pelo golo, o fabuloso remate quase me fez bater com a cabeça no tecto com o salto que me obrigou a dar.
Bravo Ricardo, pela defesa sem luvas e pelo golo de raiva e convicção que mandou os ingleses para casa. Alguém ainda se lembra de Baía?
Bravo a todos pelo fantástico jogo que fizeram. Bravo e obrigado.

Heart Attack

A melhor maneira de falar do jogo de ontem será compará-lo a um electrocardiograma de esforço. Foram mais de duas horas em que o coração teimava em querer sair pela boca e era empurrado para dentro por cervejas e cigarros em barda. Nem as tostinhas com Palhais e os cajus impediam o estômago de se tentar enlear em nós cegos. Scolari e os seus jogadores têm de ser sádicos, dois jogos destes seguidos e deixaram todo um país em estado de transe com sintomas próximos de anginas de peito.
Claro que tanto sofrimento teria de ter uma consequente explosão de alegria que levou todos para a rua entupindo as cidades com buzinas, bandeiras e gritos. Mas não foi só em Portugal, comovente mesmo foi ver hoje imagens de alegria em Timor ou Moçambique, lembrando-nos que ainda há quem goste de nós, e vibre por nós, e festeje connosco.
Lisboa ontem parecia dominada por uma loucura colectiva, à qual obviamente aderi. Confesso que sou muito português e que, como tal, gosto muito de festa, de comemorar, de sair, de me divertir. Vale a pena ver uma cidade em festa e ainda mais por bons motivos. Se é necessário o futebol para alegrar um povo e para que haja algum patriotismo, então aproveite-se o futebol. Ao menos que haja algo que nos desperte da modorra que são estes dias de Europa cinzenta e de mentalidades politicamente correctas.

Day-after

Só a estas horas foi possível escrever algo, depois de uma Água da Pedras ao acordar – que isto de fazer noites a cerveja sempre se revelou fatal no dia seguinte –, de um almoço leve seguido de café e do abastecimento apropriado de jornais (Independente, Sábado, Diário de Notícias e, claro, o Record). Sim, as vantagens de não ter patrão permitem estes pequenos luxos de antecipar fins-de-semana com um leve trabalho feito em casa.

23.6.04

Há uns meses

Ontem saiu uma notícia sobre a possibilidade de Durão Barroso seguir para a presidência da Comissão Europeia.
Há uns meses atrás não se imaginaria que Portugal poderia passar a ser governado por um José Luís Arnaud saído em ombros após o sucesso do Euro ou pelo sempre truculento Morais Sarmento, e Santana Lopes, que anda em pré-campanha Presidencial, nunca pensaria ser primeiro-ministro de Portugal. Qualquer uma destas possibilidades seria aparentemente viável pelo actual posicionamento destes senhores no Governo e no partido, tudo depende da decisão de Durão e dos parceiros europeus.
Há uns meses todos sorriam perante a hipótese de ter Ferro Rodrigues como credível líder da oposição com possibilidades de ganhar eleições, hoje, apesar da anunciada concorrência, tudo se encaminha para a realidade.
Há uns meses estaríamos esquecidos de Freitas do Amaral, hoje é lançado pelo candidato à liderança do PS, João Soares, como candidato presidencial. A mera sugestão de um embate entre Freitas e Cavaco, aliado ás especulações acima expressas, aumenta em mim a hipótese de emigrar, e Espanha aqui tão perto.
Não sei se é do Euro ou se o nosso país foi invadido por alguém com um sentido de humor demasiado Monthy-Pythoniano, é que na televisão é uma coisa, já na realidade...

21.6.04

Aljubarrota XXI

Não sei porque foi preciso que a pressão tomasse conta da nossa selecção para que finalmente jogassem; não sei porque foi preciso um jogo miserável para Scolari acordar (mas acordou, Uff!); não sei porque até com a Rússia pouco jogamos; não sei porque em Portugal se teima em ter medo da juventude (ver o exemplo de Ricardo Carvalho e Cristiano Ronaldo); não sei porque só conseguimos jogar a sério e quando é imperativo ganhar; não sei se os jogadores se transcenderam por um dia ou se o bom futebol veio para ficar; não sei se foi uma reacção à fúria espanhola e um reviver da Aljubarrota de boa memória; não sei porque há gente que teima em ter medo da palavra patriotismo; não sei porque há meses todos se insurgiram contra o Ministro Portas por querer ensinar o hino e o significado da bandeira e hoje ser mais fácil encontrar bandeiras do que mosquitos e ouvir a Portuguesa do que um qualquer grupo pimba; não sei muito de futebol mas sei o que vi ontem, e gostei.
O que sei é que aquilo que há muito se esperava que já tivesse acontecido surgiu ontem em Aljubarrota (perdão Alvalade); o que sei é que foram várias cervejas e muitos cigarros numa adrenalina permanente ao longo dos 90 minutos; o que sei é que foi uma irracional explosão de alegria individual e colectiva; o que sei é que o povo português perdeu a cabeça e saiu para a rua cantando o hino que muitos queriam que ninguém soubesse; o que sei é que o Marquês estava cheio e a Avenida da Liberdade se descia agradavelmente com os carros parados a buzinar; o que sei é que vi japoneses atónitos perante esta festa; o que sei é que no Rossio se tomava banho como se de uma piscina se tratasse; o que sei é que dizem que não somos patriotas (ui! serei já acusado de Nacionalismo) mas bastava ir ontem à rua para ver o contrário; o que sei é que se fosse uma selecção da Europa ninguém sairia sequer à janela; o que sei é que o Figo ainda é grande; o que sei é que me deu um enorme prazer ganhar e passear alegremente por Lisboa; o que sei é que na quinta-feira vou estar ansioso a desejar que joguemos como ontem e depois, depois logo se verá.

17.6.04

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Vulcão dos Capelinhos, Faial, Açores, 2003

Lá ganhámos

O senhor Scolari pensou um pouco e escolheu para ontem a equipa que já deveria ter jogado contra a Grécia (pronto, também devia ter jogado o Ronaldo mas, não podemos querer tudo ao mesmo tempo). Ganhámos facilmente com dois golos excelentes, apesar de não jogarmos muito. Agora teremos de ganhar à Espanha num jogo que se prevê escaldante, para o qual recomendo uns Inderal antes do início.
Curioso mesmo foi a saída desmesurada do povo para as ruas, fazendo com que um "alien" que ontem aterrasse em Lisboa nos julgasse campeões da Europa. A verdade é que o país não tem tido muito para comemorar, mas entupir o Rossio após uma singela e normal vitória parece-me um pouco excessivo. Mas é disto que o meu povo gosta e, depois do Santo António e antes do São João, há que arranjar pretextos para mais umas bebedeiras (como se para actividade tão nobre fossem precisos motivos).
No Domingo relembremos Aljubarrota e marchemos com boa táctica, a do quadrado talvez já tenha passado de moda, e com a vontade de derrotar os espanhóis que nos devia correr no sangue há muitos e muitos anos. Pelo vermelho da nossa bandeira.
(E depois desta tirada nacionalista me vou, antes que a brigada da esquerda politicamente correcta me apanhe e me apedreje com acusações de fascista).

14.6.04

1,2,3

Apetece meter a "nossa selecção" numa "1,2,3" e reduzir tudo a um belo bife tártaro. Talvez assim algumas estrelas acordassem e Scolari se lembrasse de juntar alguma pimenta a este bife servido duro e requentado.

Porque não votei

A culpa da minha convicta abstenção deve-se por inteiro ao sol de Sagres. Aqui, nesta ponta de Portugal, o Algarve parece Alentejo, felizmente. As praias são fabulosas e a vila pequena e familiar. Ontem que bem se estava na praia, estendido na areia por entre conversas atiradas ao vento e pilhas de revistas e jornais. O mar estava límpido e fresco como sempre deveria estar. Com este cenário quem se lembraria de votar, ou mesmo que estávamos em dia de eleições. A culpa da minha abstenção é toda do sol de Sagres, e de Sagres, e destes pedaços de Portugal que a voragem do betão ainda não consumiu e de, na realidade, me estar marimbando para as eleições.
Claro que a minha abstenção se poderia dever ao facto das eleições serem europeias. Durante a campanha pouco se falou de Europa, agora, como sempre, os políticos ignoram olimpicamente qualquer explicação ao povo sobre o que se passa na Europa, e sobre o que lá se decide quanto ao nosso futuro. Há anos que estamos na Europa e duvido que um qualquer inquérito consiga mais de 3 ou 4% de respostas correctas sobre qual o nosso papel na Europa, quais as competências do Parlamento Europeu, o que foram os Tratados de Maastricht e de Nice e o que poderá vir a ser a constituição europeia. A posição dos partidos do "centrão" é igual e talvez resida aí a pouca democraticidade que sempre rodeou a nossa integração na Europa. Para quê explicar ao povo, é que se souberem o que é poderão ser contra, assim é mais fácil enganá-los. Por muitas correcções de posição que os partidos tenham feito eu permaneço um pouco Euro-céptico. Não sou, hoje, contra estarmos na Europa, mas continuo com muitas dúvidas que nenhum partido se esforçou por esclarecer. Com tudo isto ninguém fez por merecer o meu voto, mas claro que isto não interessa nada, a culpa foi do sol de Sagres onde me apetecia estar agora.

10.6.04

Fim-de-Semana

Estou oficialmente de fim-de-semana, a única ponte do ano será aproveitada para uns dias de amnésia de trabalho. Praia (sem filas na ponte), jornais (muitos já comprados), passagens por livros (dois ou três para não pesarem na mala), cervejas de fim de tarde (com umas amêijoas ou percebes), alguns copos de noite (de preferência ao ar livre), e Sábado a estreia da selecção no Euro (vista em na praia em ecrã a condizer). Não me parece um mau programa para passar o tempo. O blog também estará parado, derretido pelo calor que está lá fora. No Domingo temos eleições ás quais ainda não decidi comparecer, a dúvida sobre se vale a pena ir e em quem votar assola-me até à indecisão. Logo se verá. Até segunda-feira e bom fim-de-semana.

Lusíadas

Não mais musa, não mais, que a Lira tenho
destemperada e a voz enrouquecida,
e não do canto, mas de ver que venho
cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho
não no dá a Pátria, não que está metida
no gosto da cobiça e na rudeza
duma austera, apagada e vil tristeza.
E não sei por que influxo de destino
não tem um ledo orgulho e geral gosto,
que os ânimos levanta de contino
a ter para vós, o Rei, que por posto,
olhai que sois (e vede as outras gentes)
Senhor só de vassalos excelentes…
Fazei, Senhor, que nunca, os admirados
alemães, galos, ítalos e ingleses,
possam dizer que são para mandados,
mais que para mandar, os Portugueses.
Mas eu que falo, humilde, baixo e rudo,
de vós não conhecido nem sonhado?
Da boca dos pequenos sei, contudo,
que o louvor sai às vezes acabado.

Luís Vaz de Camões, “Os Lusíadas”, Canto X

9.6.04

Norah Jones

Por um acaso do destino vieram ontem parar-me ás mãos dois bilhetes para o concerto de Norah Jones. A primeira tentativa foi vendê-los, mas os sucessivos mails enviados não deram efeito. Optei então por aproveitar para ir ao concerto na companhia de uma amiga que sabia gostar da sua música.
A primeira tentação seria dizer que me senti fechado num elevador durante quase duas horas. Ou na sala de espera de um qualquer consultório, ou no lobby de um hotel. Não seria totalmente injusto, mas um pouco cruel. O concerto foi de facto um longo bocejo, a música de Jones fica sempre num indefinível limbo entre um pseudo-jazz, o easy-listening e uns pozinhos de country. A banda, que até não era má, estava espartilhada e dava a constante sensação de que queria, e ia, explodir. Ficava no entanto numa interpretação tão exageradamente cool e tão suave que perdia qualquer interesse.
A menina Jones destacou-se pela sua simpatia e simplicidade, dizendo constantes graças bem dispostas para a audiência, no que foi o seu ponto mais alto. Este e quando abandonou o seu piano delicodoce e, em pé, cantou algumas música mais country onde o timbre da sua voz se encontra mais livre e com mais força interpretativa.
Passaram duas horas e saí como entrei, com a interrogação de como é que uma música tão sonífera consegue atrair tanta gente e vender tantos discos.

3.6.04

Dentistas

Sonho um dia ter dinheiro para que, após anestesia geral, me tirem todos os dentes e os substituam por algo bem morto e que não dê dores. Poucas coisas me deprimem tanto como a aproximação a uma consulta de dentista. Uma vez lá dentro o meu pensamento é sair, destruir toda a maquinaria e com a broca, ainda a funcionar, furar toda a testa de um médico atónito. Ao longo da vida já tive vários suplícios, agravados por uma sucessão de más escolhas de médicos. Agora penso ter descoberto um ideal, uma amiga que me trata bem e, após alongada descrição dos meus traumas, faz o impossível para que eu não me queixe. Tudo seria bom se os dentes não tivessem caprichos, como o imbecil que hoje ao ser extraído se recusava a sair, partindo-se em várias partes até sobrar uma teimosa raiz. Esta insistia em não sair e a minha boca, aberta durante uma hora e meia, começava a ter cãibras. No final, por entre recomendações, implorei por analgésicos à medida que a anestesia se ia embora. Prevejo um fim-de-semana infernal, por entre overdoses de Clonix, abstinência do álcool (via antibiótico) e tentativas para ler os jornais.

2.6.04

Liberdade de Expressão
Outro blogue que abandona. Os blogues pioneiros começam a abandonar a blogosfera, é pena para quem ainda anda por aqui.

1.6.04

Dicionário do Diabo

O Dicionário do Diabo acabou e com ele acaba um dos blogues da minha preferência. Sentirei a falta do Pedro Mexia mas continuarei a ler as suas contribuições para o Fora do Mundo e para a Grande Reportagem. Até sempre.

Marginal

Vir de Cascais para Lisboa ao fim de um bonito dia é um longo momento de prazer. A Marginal continua belíssima, apesar das continuadas tentativas para adulterar a sua paisagem, e apetece que o caminho se prolongue. Demorei o dobro do tempo que em teoria demoraria pela auto-estrada, mas cheguei de alma lavada, com os olhos a acompanhar o brilho do rio. O entardecer comove-me e este rio-mar que é o Tejo espelha apenas o que de bom queremos ver.

Campanha

Consta que está a decorrer uma campanha eleitoral para as eleições europeias. Estranho, ainda não tinha dado por isso. Aquilo com que me tenho deparado é uma ronda pelo país de pessoas dos partidos, uns louvando o governo e outros arrasando a coligação do poder. Não me parece que seja isso que vai a votos, por isso é que as eleições me passarão ao lado.

2

Branco, opaco.
Luz ténue, quebrada.
Fogo fátuo e efémero.
Indefinível claridade que passa o tempo.
Eternidade volátil.
Motor da vida.
Elemento.

27.5.04

Parabéns

Sou especialista em me esquecer dos dias de anos de toda a gente. Uma família grande em muito contribui para isso, já que a profusão de crianças me leva a uma insistente confusão de datas. Ontem esqueci-me de dar os parabéns a um dos meus sobrinhos, felizmente o mais novo que para o qual o meu telefonema seria apenas um interrupção entre uma devastadora corrida pela casa e uma sessão de saltos em cima do sofá.
Serve a ocasião para saudar a sucessão de comemorações por entre os blogues pioneiros que já fazem um ano. Destaco aqueles que mais companhia me fazem e que, por esse motivo, já figuram na coluna do lado. Parabéns atrasados para a Bomba, o Almocreve, o Jaquinzinhos, o Mar Salgado, o Quinto dos Impérios, o Crítico e para todos aqueles de que me continuo a esquecer.

Camisa-de-forças

Por vezes devia sair à rua com uma camisa-de-forças, não por aparentar uma loucura evidente ou uma tendência para a agressividade, o meu problema é entrar numa feira do livro ou em qualquer boa livraria. Ontem dei o meu primeiro passeio - e a minha bolsa espera que último - pelo Parque Eduardo VII, por entre um sol maravilhoso e uma vista soberba sobre Lisboa. Ao meu lado sucediam-se bancas com apetitosos livros e, com descuido evidente, fui vendo, folheando e, com displicência, comprando. A volta até não foi muito grande mas o suficiente para os braços se tornarem dormentes e as costas se queixarem do esforço. Não fiz contas, aliás em dias de loucura consumista prefiro mesmo ignorá-las, mas um peso na consciência abala-me qual ressaca mal curada. Talvez a Camisa-de-Forças seja excessiva, mas devia encontrar algum mecanismo - bloqueio do Multibanco, declaração de incapacidade, proibição de compra - que me impedisse de me exceder, não só em feiras - das quais até não sou grande adepto - mas em qualquer livraria (acrescento também as diabólicas lojas de discos). A minha sanidade mental poderia queixar-se mas a bolsa e o espaço da minha casa agradeceriam aliviados.

Marxismos (dos bons)

"A televisão parece-me muito educativa. Cada vez que alguém a acende, retiro-me para outra sala e leio um livro."
Groucho Marx

F.C.Porto

Um grande F.C.Porto esmagou o Mónaco e ganhou a Liga dos Campeões. Parabéns ao Porto.

25.5.04

Benfica

Não quero passar para um segundo lugar que o meu clube não merece, mas adivinho desde já que o caso da inscrição de Ricardo Rocha não vai dar em nada. É que a memória não é curta e ainda me lembro de ameaças de descida de divisão por dívidas ao fisco que acabaram em beijos e abraços. Temos o país que temos e a ditadura da maioria é cada vez mais marcante, alguém teria coragem de penalizar o Benfica?
Quanto à extraordinária entrada do presidente do Benfica num programa em directo distribuindo ameaças e insultos a toda a gente, apenas um comentário: "É disto que o meu povo gosta".

Globos de Ouro

Ao passar ontem pela SIC ainda pensei ouvir Herman José a anunciar com ar descomprometido: "e o Globo de Ouro para o melhor programa de entretenimento vai para o Caso Casa Pia, recebe o prémio Carlos Cruz".

Fim-de-semana

O congresso do PSD correu de feição a Durão Barroso, um Valium prolongado de que toda a gente se esqueceu perante o casamento real em Espanha. Boa escolha de data, parece que cada vez mais os políticos querem passar desapercebidos, basta confirmar a data das eleições europeias.
Por terras de Espanha o casamento chamou todas as atenções, lembro Natália Correia que dizia ser monárquica por razões estéticas (a confirmar perante o vestido da nossa primeira dama). Eu acrescentaria mais algumas, mas agora sinceramente não me apetece. A ver uma posta imparcial no Blasfémias.

21.5.04

Positivo

Depois de ter escrito a posta anterior, e ao navegar pela rede, descobri que hoje era o dia P, de Positivo, para o movimento Portugal Positivo. Acho muito saudável que haja quem queira levantar a moral do país, levar para cima a nossa alma e criar uma onda de optimismo. Não poderão no entanto contar comigo. O que seria de mim se abdicasse desse gene lusitano que consiste em dizer sempre mal de nós próprios, que sensaboria se tornaria a vida sem a maledicência lusa sobre tudo o que fazemos. Claro que hoje em dia estamos a exagerar um pouco e já nada é bom em Portugal, por isso concordo com esta iniciativa, só não adiro a ela e permaneço no meu pessimismo egoísta. E deixem-me assim, sossegado.

Substituição

O Ministro do Ambiente foi substituído, parece que um tal de Amílcar Theias era detentor desta pasta há algum tempo e foi agora substituído por Arlindo Cunha. Entre um economista especialista em finanças e um economista especialista em agricultura talvez o segundo seja mais adequado a este ministério.
Continuam insondáveis os motivos que levam Durão Barroso a surpreender na escolha dos seus ministros, parece que escolhe as pessoas e depois faz um jogo de cadeiras à volta da mesa do Conselho de Ministros, é que são tantas as trocas e os erros de casting.

18.5.04

Comentários

O novo template permite comentários, deixo assim algum do meu autismo blogosférico e sujeito-me à crítica, para o bem e para o mal.

Scolari

Scolari revelou os convocados para o Euro sem nenhuma surpresa de maior. Apenas o regozijo por Rui Jorge poder estar entre eles, realmente no dopping - como na vida - não devemos ser mais papistas que o Papa. A minha solidariedade é ainda maior ao compartir com ele os mesmos problemas respiratórios, para além do mesmo salvador Pulmicort.
Baía obviamente não foi convocado, para quem ainda não tinha percebido – por burrice ou obstinação – a sua ausência não se deve a questões técnicas, claramente os problemas são outros, talvez advindos da "maravilhosa" campanha no último mundial. Scolari foi coerente com as escolhas anteriores e assume a total responsabilidade pelos resultados, um bom exemplo para os portugueses tão habituados a culpas sem culpados.

Rumsfeld

Há dias em que a minha proverbial calma foge para paragens desconhecidas. Hoje penso se não se poderia mandar Rumsfeld para uma qualquer prisão árabe. Continuo sem certezas nesta guerra, continuo a desconfiar das motivações assim como das contraposições. Encontro-me numa rara zona cinzenta, mas cada vez me incomoda mais a postura do senhor Rumsfeld, mas também a do senhor Moore. Talvez um combate de boxe tailandês entre os dois me desse algum ânimo.

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Silêncio atonal, latido de um cão. Tempo e vida a passo.

14.5.04


Panjim, Goa, 2004

Irrita-me profundamente a intolerância, perante manifestações de fé, de supostos arautos da liberdade, e a chacota contra quem conscientemente acredita em algo não necessariamente tangível. A liberdade é não para todos segundo eles, e quem tem o azar de ser católico sofre o estigma de não poder manifestar a sua fé sem que isso seja motivo de gozo e humilhação. Com senhores como estes no poder teríamos um país religiosamente tolerante como o Irão ou o Afeganistão dos talibãs. Aliás, penso que alguns são os mesmos que condenaram a intervenção no Afeganistão. Parece que ainda há quem pense que há religiões mais toleráveis que outras. Eu tenho cada vez menos paciência para a arrogância intelectual e para a falta de respeito. Como diz uma amiga minha: Logo eu que não posso com gente estúpida.

Madredeus

"A poesia da saudade em Portugal concebeu um lugar maior para o sentimento universal da melancolia, da nostalgia, da recordação do outro. Porque a saudade é um prazer – é o prazer de estar triste mediante a aceitação das suas razões. A saudade é algo que o sujeito gosta de viver porque o mantém perto do seu estado amoroso, é uma recordação que mantém o coração vivo. Esta alegria em estar triste é uma ideia extraordinária e terapêutica para a humanidade inteira, mas em Portugal apenas foi vivida nuns cadernos de poesia. Na origem dos Madredeus está o interesse em criar uma música em português com essa mensagem."
Excerto de uma entrevista a Pedro Ayres de Magalhães no DN Música, a propósito do novo disco dos Madredeus. Pelas suas palavras percebemos porque são os Madredeus o projecto mais interessante e consistente da actual música portuguesa. Poucas vezes a alma portuguesa foi expressa com tanta genuinidade como através dos acordes destes senhores e da voz de Teresa Salgueiro. Ainda não ouvi o novo disco - algo que conto fazer em breve - mas agora, depois de escrever estas linhas, vou substituir o "Koln Concert" de Keith Jarrett pelo "Espírito da Paz". Apetece-me alguma alma para enfrentar o resto da tarde.

Petição

Recebo por e-mail uma petição e, para variar, resolvo ver o que é. Ao deparar com a referência a Monsanto e à tentativa de travar os delírios "santanistas" de esventrar este espaço de Lisboa, assino. Para Santana, o Monsanto ideal é o Monsanto sem putas mas cheio de feiras, cavalos e tudo o que lhe cheire a festa. Gosto de diversão, mas deixem Monsanto em paz e arranjem outro sítio para as putas desta vida.
Confiram e assinem aqui.

Panjim, Goa, 2004

Primavera

Finalmente o cheiro e o sol da primavera, o algodão já cai dos choupos e as flores inundam os campos. Sinto este clima bucólico e tento esquecer os céus plúmbeos e os ventos cortantes que nos devastavam o humor.

13.5.04

Primavera-Verão

Com a chegada do bom tempo (será que é desta?) o anarcoconservador (ou seja eu) resolveu mudar a sua imagem para cores mais de acordo com a época. Esta é a primeira tentativa, a ver se ficará ou não.

11.5.04

Sintra

Ao passar hoje na zona de Sintra fiquei tomado por um impulso artístico, sim, também eu quero fazer instalações, já tenho até uma primeira obra hoje imaginada no dito passeio. Num sítio bem visível do concelho Sintra, uma plataforma com uma trave e várias cordas. Em cada corda, com nó de enforcado, todos os últimos presidentes da Câmara da vila. Na impossibilidade humanitária de recorrer aos intérpretes reais, poderia utilizar réplicas em tamanho natural, sobre as quais a população tinha o direito de exprimir os mais profundos sentimentos. A interactividade da obra permitiria ao povo retribuir tudo o que os seus presidentes fizeram por ele. O problema maior está em encontrar verbas adequadas, já que penso que os manequins teriam de ser substituídos diariamente. Só de me lembrar de Massamá ou Barcarena…

Europeias

Consta que as próximas eleições serão europeias, até há quem diga que serão no dia 13 de Junho. Quem ao passear na rua reparar nos cartazes do PS e do BE terá quase a certeza de estarmos quase em legislativas. Ambos lançam palavras de ordem contra o desemprego e a guerra. Que eu saiba os deputados europeus não têm papel activo nas políticas de combate ao desemprego em cada país. Que eu saiba serão representantes do país na Europa, defendendo logicamente as posições políticas dos seus partidos. O que é que isso tem a ver com o desemprego. São cartazes destes que me abrem dúvidas sobre a minha quase certa abstenção.

10.5.04

Imagem

O Blogger mudou a imagem e deixou-nos com mais funcionalidades, isto merece um tempinho para explorar. Os posts seguem mais tarde.

5.5.04


Panjim, Goa, 2004

FCP

O FCP vai à final da Liga dos Campeões, para além das felicitações um reparo, é de toda a justiça que lá esteja. Ontem o FCP mostrou como se pode dominar uma equipa em teoria superior, dando um banho de bola ao Deportivo. Bravo. Pena não ver o Sporting a jogar assim.

Notas de viagem - Índia

"Ao chegar a Deli conhecemos o cheiro a Índia, essa mistura de calor, humidade e especiarias, tão própria e única. Apanhamos um táxi para o hotel. Somos então tomados por uma vertigem alucinante, o trânsito de Deli dava tema para um ensaio. A condução à esquerda já daria para nos baralhar, mas isto não é nada comparado com o constante slalom por entre camiões e motas. É noite e tudo deveria estar calmo, apenas estranhamos a quantidade de camiões e as buzinadelas. A buzina é o instrumento preferido aqui, os piscas tornam-se acessórios, suplantados por estratégicas buzinadelas. Chega ao ponto de os camiões terem pintado atrás "Horn Please".
O motorista deambula em S's por entre os carros, sempre impávido perante tangentes micrométricas a tudo o que passa. Isto é a Índia, e no dia seguinte iremos perceber isto maximizado por um trânsito intenso e caótico. A segurança do volante só é compreendida após horas em trânsito, de facto a placidez dos motoristas é justificada. Tudo funciona numa anarquia organizada. Como se do caos surgisse uma incompreensível ordem por todos assumida."

3.5.04

Televisão

Ontem entro a meio do programa de Maria João Avillez na Sic Notícias. Como convidados estavam Pedro Burmester, Mário Laginha e Bernardo Sassetti, ou seja três dos melhores pianistas portugueses. O programa foi um exemplo de que a cultura não têm de ser maçadora e restritiva, que pode ser, se não para todos, pelo menos para muitos. A conversa era quebrada quando os convidados se dirigiam ao piano para interpretar pequenos trechos. A harmonia entre tudo isto resultou em momentos televisivos bem agradáveis. Na TVI estava a passar o Fear Factor e na SIC o programa do Herman, a escolha não foi difícil.

Sporting

Última deslocação da época a Alvalade. Vejo o Sporting fazer uma primeira parte a um nível não atingido nesta época, no entanto golos nem vê-los. Na segunda parte a equipa quebra e Fernando Santos parece dormir sobre o assunto. O Benfica recupera e acaba por marcar um grande golo. A vitória moral não chega, o Sporting teve o jogo na mão e, inacreditavelmente, deixou-o fugir. Cá nos vamos habituando a isto, ás derrotas de cabeça erguida. Em tempos de Euro espero que não se contagie à selecção, como espero que não se contagie aos adeptos estrangeiros a inacreditável actuação da Juve Leo.
Para o ano há mais, e espero que melhor.

29.4.04

O buraco de Santana

Tal como se previa o famoso túnel do Marquês começou a afundar. Ainda não no sentido mais real da palavra, para já apenas figurativamente. A suspensão das obras demonstra que Santana está, de facto, obcecado em fazer obras rápidas. O túnel do Marquês é um disparate mas, uma vez tendo sido decidido construí-lo, o mínimo é que a construção seguisse os trâmites legais e as básicas regras da prudência. Não estamos a falar de uma qualquer zona do país, falamos duma das mais emblemáticas zonas de Lisboa. Agora a obra está suspensa mas duvido que seja cancelada. O que espera os lisboetas são mais dias de caos no centro da cidade, tudo por culpa da incúria de quem os governa.
Quando os políticos começam a brincar com os Elementos teme-se o pior. Maus exemplos não faltam, quem se esqueceu de um metro que já devia estar pronto e continua a meter água. Construir uma cidade passa antes por compreendê-la e também para isso servem os Estudos de Impacte Ambiental. Perante tudo isto estou cada vez com mais medo de Monsanto. Será que o Hipódromo, a Feira Popular, e todas as outras diversões de Santana também vão ser feitas sem os devidos estudos?

27.4.04

Condecorações e a Liberdade

No nosso Portugal muita gente é condecorada por tudo e por nada. As consequências não serão graves para além da desvalorização de algo que poderia ser importante. Ontem o Presidente da República voltou ao ataque e enfaixou mais alguns. O assunto foi falado pela recusa do PP em permanecer à cerimónia em protesto com a condecoração da Dra. Isabel do Carmo. Realmente Portugal tem a característica de considerar que a liberdade é um exclusivo da esquerda, sendo a única luta válida pela liberdade a que levou à queda do Antigo Regime. Curiosa amnésia a que faz esquecer o que senhoras como esta fizeram em nome da liberdade, da sua liberdade. A grande lutadora da liberdade pertenceu a uma organização que bombeou o país já em regime democrático, por isso foi condecorada com a Ordem da Liberdade.
Após alguma reflexão percebi estarmos perante um delírio MonthyPhythoniano do senhor Presidente, afinal o seu sentido de humor inglês já é famoso. Só assim se explica esta extraordinária ideia, que foi aplaudida na plateia por outro grande defensor da Liberdade, Otelo. Assim vai esta democracia da Liberdade.
O branco omnipresente não é opressivo. Podia ser, era mesmo natural que o fosse, mas não. A claridade brilhante ao sol, o céu azul de cenário, o irreal feito possível. E a água corre contínua, viva.

26.4.04

O Abril dele

Imprescindível o ensaio de Vasco Pulido Valente no DN de Domingo.

O meu 25 de Abril

Hoje muitas histórias são contadas sobre 25 de Abril de cada um. Sobre o de 1974 pouco tenho a acrescentar de experiência pessoal. A minha mente divagaria entre a preocupação esfomeada da premência de mais um biberão, ou sobre questões ambientais íntimas da troca de fraldas sujas. Nada disto impede que possa falar sobre o assunto, pelo menos terei a vantagem do distanciamento.
"Vivam os 25 e abaixo o 26 de Abril."
Esta frase poderia sintetizar o que penso sobre a revolução e o PREC. Portugal vivia em 1974 numa ditadura cinzenta e decadente, a revolução terminou com este suplício. No dia seguinte tudo se começou a coordenar para que uma nova ditadura fosse imposta, agora sob a cobertura de uma falsa liberdade marxista. Por isso não posso exultar com o PREC e com alguns dos denominados ideais de Abril. A liberdade, palavra que tanto se usa ao falar da revolução, apenas foi assegurada a 25 de Novembro. No meio fica um caminho que quase nos conduziu à desgraça, para além de ter conseguido atrasar mais - o que pareceria impossível - o país. Descolonização (inevitável mas irresponsável), Nacionalizações, Saneamentos, Intimidação. Não consigo ver nada de bom em tudo isto.
Comemoremos a revolução, mas não com gente pouco recomendável a ser louvada em público. Nada devo como português a Otelos e camaradas Vascos. Nada devo a quem nos quis levar para o fundo do poço. Acredito que a Europa e os EUA não nos deixassem cair no comunismo, mas assim a luta não se teria resumido a esta revolução de bananas que foi Abril. Comemoremos a liberdade, a evolução do país e a revolução, mas apenas ela, sem o que veio depois.

23.4.04

Por entre a calma um burburinho atravessa-me. Não me atinge na tranquilidade firme em que me encontro. Há momentos transparentes em que uma couraça invisível nos isola, e protege. Ficamos suspensos, mais perto do céu.