9.12.04

Por causa dos rebuçados

Num qualquer café de bairro vislumbro, por entre o balcão, uma taça com rebuçados familiares. A embalagem branca faz-me recuar anos, àqueles felizes e inconscientes anos da infância, de vida singela e provinciana.
O Sr. Pombo era uma mercearia mínima, daquelas em que o arroz se equilibra instavelmente sobre a farinha e o detergente da roupa, em que cada milímetro é ocupado pelos mais diversos produtos, em que é difícil movermo-nos sem atirar as alfaces para cima dos rabanetes. Esta não era a nossa mercearia de mão – saudoso Sr. António –, mas aqui comprava-se, inquestionavelmente, o fiambre. A marca era importante, mas mais do que isso o que o tornava especial era o corte, as lâminas finíssimas de bom fiambre, com a gordura transparente, tudo embrulhado em papel vegetal. Para mim este factor era importante – tinha de pensar nas tostas mistas –, mas aquilo que me fazia rejubilar quando a senhora minha mãe me incumbia da tarefa do fiambre, era uma fantástica vitrina rotativa cheia de rebuçados. Lá em casa os rebuçados não eram unânimes, minha mãe pedia sempre um embrulhinho em papel pardo cheio dos mais caramelizados Santo Onofre, enquanto eu enchia os bolsos com os anizados Dr. Bayard. Ambos eram, e felizmente ainda são, excelentes, longe dos concentrados de corantes e conservantes que inundam as grandes superfícies de hoje. Graças ao Dr. Bayard, a sempre odiada tarefa de fazer recados aos pais era aqui um gosto, talvez por isso tantas memórias me tenham chegado ao ver a taça destes rebuçados naquele café de bairro, talvez por isso mais uma vez tenha enchido gulosamente os bolsos de rebuçados.

2.12.04

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O mais normal é um duelo Sócrates-Santana em Fevereiro: “entre les deux mon coeur ne balance pas, il se reste moribond“.

Insanidades V

(Esta posta já estava alinhavada antes da decisão de Sampaio sobre a dissolução)
Os imbecis que nos governavam queriam proibir de fumar em espaços públicos, nos quais incluíam restaurantes, bares ou discotecas. Será que temos esperança de que com a queda do governo esta inanidade não vá em frente?
Que país magnífico é o nosso, com tanta coisa em que se preocuparem, os políticos resolveram decretar guerra aos fumadores. O ministro da Saúde (agora ex-), que continua sem resolver as filas de espera nos hospitais, que continua ás apalpadelas sobre os sistemas de gestão hospitalar a usar, resolveu aparecer, e que boa maneira de o fazer.
Esclarecendo já, sou fumador. Compreendo todo o incómodo que o fumo causa a quem não fuma. Acho que os não fumadores têm todo o direito a espaços livres de fumo.
O que está em causa é o direito de opção. Todos os locais onde a população em geral se tenha de deslocar devem ser livres de fumo na sua generalidade, mas também devem, sempre que possível, ter zonas de fumadores desde que as mesmas estejam devidamente delimitadas e assinaladas. Restaurantes, bares ou discotecas não são sítios de presença obrigatória dos cidadãos, ninguém é obrigado a levar com fumo, basta escolher um restaurante com zona de não fumadores – não há muitos, mas lembro os McDonalds e os Tibetanos. O que o Estado deveria fazer, se realmente quer fazer algo pelos não fumadores, é estabelecer a classificação obrigatória dos restaurantes, bares ou discotecas em fumadores, não fumadores e fumadores, ou estritamente não fumadores. Assim toda a gente poderia escolher o que mais lhe conviesse sem incomodar os outros. Isto sim era uma medida de um regime de liberdade. O que este governo queria era aderir à tendência fascizante do um certo mundo de hoje, colhendo com os ensinamentos dessa estranha sociedade norte-americana que já tem cidades onde nem na rua se pode fumar.
Hittler quis criar o ser perfeito, a raça pura ariana, saudável e bela. Teremos nós que aceitar que nos imponham uma visão semelhante na sociedade de hoje? Os gordos são olhados de lado, os feios ignorados, agora são os fumadores. Será possível sonhar com uma sociedade tolerante em que o Estado não insista em se meter na vida das pessoas?

Insanidades IV

O primeiro-ministro foge, a meio de um mandato legítimo de quatro anos, para um cargo de prestígio unicamente pessoal, disfarçando a ambição com o suposto interesse para o país de ter um presidente da Comissão Europeia. O Presidente da República ouve metade da população portuguesa e decide manter a Assembleia e a maioria, chamando-a a formar governo. O Presidente da Câmara de Lisboa, que começava a dar sinais de desgaste do cargo, é surpreendentemente chamado a dirigir os destinos da nação. A “inteligentzia” entra em epilepsia e esgota os adjectivos e insultos contra o senhor. O governo toma posse e o líder do segundo partido da coligação não esconde o espanto ao saber no próprio dia que tem de gerir o Mar. Mal toma posse o governo tem de se haver com fogos, mesmo aqueles que nada tem a ver consigo. A Ministra da Educação herda um programa de colocação de professores com o qual nada tem a ver, no entanto consegue gerir a situação crítica com uma subtileza e capacidade política que terão deixado engasgado até o primeiro-ministro. Há uma explosão numa refinaria e o Ministro do Ambiente anuncia as conclusões da investigação sobre o caso com dados comprometedores sobre a empresa – muito bem –, o ancião Ministro da Economia não gosta e o ambiente gela. O Ministro “de qualquer coisa” Gomes da Silva (por acaso amigo pessoal de Santana) exige contraditório a um comentador político, esse comentador por acaso é Marcelo, que apesar de ser do PSD é dos que mais arrasa a desgovernação de Santana. Marcelo sai por alegadas pressões censórias sobre a TVI. Abre-se uma crise sobre a liberdade de expressão que se agrava com a tentativa de criação de uma central informativa do governo. O gabinete do primeiro-ministro resolve desmentir uma notícia sobre uma sesta, dando um relevo interessante ao facto. Chega a hora de apresentar o orçamento e, num dia os impostos descem, no outro não, os salários vão subir, talvez não, Santana e Baião dizem e desdizem durante uns dias, ninguém sabe o que se passa e como vai ser de facto o orçamento. No fim os impostos descem, os salários e as pensões sobem e é um orçamento de contenção? O ministro “de qualquer coisa” Chaves (por acaso amigo pessoal de Santana) diz, aquando de uma remodelação que o abrange, que tinha trabalho a mais que era bom redistribuir tarefas dentro do governo, dias depois (apenas quatro) diz que não gostou da remodelação e da forma como foi conduzida, diz que não o deixaram trabalhar na coordenação do governo e que no fundo nada fazia e faz críticas ferozes quando se demite. Parece que outro Ministro (Arnaud) também estaria de saída e que estaria em confronto com o ancião Ministro da Economia. O primeiro-ministro adia a tomada de posse porque tem de assistir ao casamento da filha da sua chefe de gabinete. Como uma gota que transborda o copo o Presidente resolve dissolver a Assembleia. Parece que o argumento será a instabilidade económica, mas a Assembleia só será dissolvida após aprovar o orçamento...
Apenas passaram quatro meses e tudo isto se passou – e mais algumas coisas que me esqueci –, até com o Verão pelo meio! Alguém que não vivesse em Portugal e lesse estas linhas pensaria tratar-se de um romance político passado numa República de Bananas…

26.11.04

Insanidades III

O presidente da Câmara de Lisboa, apesar da figura cinzenta que ostenta, trazia consigo uma certa imagem de competência. Não obstante ser amigo de Santana, as suas passagens por Câmara e Governo deixaram um rasto do mínimo de sensatez. Mero engano!
Foi anunciada a transferência da Feira Popular para o Jardim do Tabaco. Pobre Jardim do Tabaco, já o ameaçaram com um Casino, já deitaram armazéns abaixo, e agora querem lá pôr o antro do barulho e do néon.
Eu sei muito bem onde é que mandava o Presidente meter a Feira Popular, era até no mesmo sítio onde o mandava meter o túnel do Marquês, claro que se completaria isto com um açoitamento na praça pública e imediato exílio compulsivo.
Primeiro foi Monsanto, essa réstia verde sobre a qual pairam ameaças constantes e para onde os gulosos olhares de Santana e desta criatura não param de se virar. Até lá porem qualquer coisa não vão descansar, se não for a feira vai ser o Jockey, se não for o Jockey hão-de arranjar uma Torre do Siza, se não for a Torre…se calhar ainda propõem uma gigantesca estátua do Timoneiro Santana, erguida pela cidade em agradecimento à iluminada criatura.
Voltando ao Jardim – que para o tabaco haverá outra posta – é melhor o presidente não me aparecer à frente. Outrora um pacifista, dia a dia a minha furiosa esquizofrenia leva-me a instintos agressivos – conquanto ainda não homicidas. Pois bem, a Feira Popular mesmo junto ao rio, os belíssimos néons reflectidos na água, as magníficas músicas dos carrosséis, uma noite feérica em versão de qualidade – segundo a criatura, queira isso dizer o que queira. Será que ele não conhece Alfama, será que o animal nunca foi ao Miradouro de Santa Luzia, ou a Santo Estêvão, será que animal não percebe que Alfama é, na sua genuinidade, a Lisboa mais pura que temos e que as suas vistas sobre o rio são dos melhores cartões de visita que a cidade pode apresentar. Será que o animal não vê que quase todos os turistas passam e adoram Alfama, será que o animal ainda não percebeu o que vai ser a vista de S. Vicente de Fora com “Rodas Gigantes e o Poço da Morte”, será que o animal não percebe a vista nocturna de luzes roxas e verdes reflectidas por entre o fumo das castanhas, será que o animal não percebe que uma estrutura como a feira popular tem que estar numa zona fora do centro histórico e de preferência moderna, será que o animal acha possível aproveitar o Champ-du-Mars (junto à Torre Eiffel em Paris) para roullotes de minis e diversões ruidosas. Que país é este em que inconscientes e idiotas conseguem ser presidentes da Câmara da capital.
Aproveito até para lhe dar mais uma ideia de aproveitamento, vejo o Terreiro do Paço tão desocupado que até se podia aproveitar para lá instalar a pista de carrinhos de choque, com uma ligação ao Jardim do Tabaco em passadeira rolante sobrelevada junto ao rio! E nem me apetece falar do túnel do Marqués, o que até é bom para não partir directamente para o insulto.


Sanidade

Assusto-me a pensar se não me vou tornar um Guevarista, a nossa magnífica direita obriga-me a questionar todo o meu pensamento. Por isso nunca poderei estar num partido, como é que estando no PSD ou no CDS eu poderia dizer maravilhas deste governo, só com a ajuda de muitos químicos. Felizmente vai havendo mais alguém como eu, fiel aos seus princípios, mas com a capacidade crítica de arrasar os que nos deveriam estar politicamente mais próximos. Vale a pena ler o Pedro Mexia e a sua defesa aos infames ataque da direita cega, que depois de aceitar Santana como timoneiro canta loas até aos seus maiores disparates. É aqui.

Insanidades II

A pergunta que as luminárias que nos governam resolveram aprovar para o referendo é absurdamente brilhante. Se fosse um quadro era de Dali, surrealista e cheio de segundos sentidos. Infelizmente falamos de política, infelizmente falamos da única vez que nós portugueses poderemos referendar a Europa. Muita Europa já nos foi imposta, subtilmente, em pezinhos de lã, mas agora os burocratas mores de Bruxelas resolveram que era tempo de referendo.
As mulas da maioria parlamentar, assustadas com a mera hipótese de o “Não” ter votos – apesar de apenas os partidos da extrema-esquerda terem esta posição – criaram um delírio frásico que nem os próprios entenderão. Continuo ingenuamente a acreditar que Democracia é o poder do povo, claro que as mulas não. Fazer uma pergunta tão europeia – aqui louvemos a coerência burocrática – implica que apenas estritas elites a possam responder em consciência, o que faz do referendo uma total inutilidade. Para decidir em “petit comité” decidam os deputados como o têm feito até agora em relação à “maravilhosa Europa”.
Imaginem só os habitantes de Carqueijas-de-cima – que já dificilmente percebem o que é a Europa – a votar na “regra das votações por maioria qualificada” – “Oh! Menina, maioria eu sê o que é, agora qualificada só me alembra do mê clube na Taça. O que é que isso têm a ver com Europa”
A alucinação tomou conta do parlamento e, ou eles enlouqueceram, ou perderam toda a vergonha de manipular a opinião pública, ou andam a distribuir erva da boa pelos corredores de São Bento.
Aqui vai-se votar não, independentemente da pergunta esta gente tem de ter um sinal. Como diriam os nossos revolucionários “Há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz Não”.

Insanidades I

Os dias passam e a sensação de que enlouqueço a olhos vistos, numa vertigem esquizofrénica, assalta-me. Atinjo aquela sensação de não conseguir perceber se é o mundo que me rodeia que se desconstrói em absurdos, se serei eu que me passo de vez.
As duas últimas semanas trouxeram consigo uma alucinante sucessão de disparates que me fazem duvidar sobre uma revolução “Monthy Phythoniana” no nosso país. Antes assim fosse pois seria inconsequente e muito mais divertida.
A tontaria é tanta que nem a consigo resumir numa posta, segue-se então uma série sobre o que me leva a olhar para uma clínica de repouso na Suiça como uma solução para mim, ou para “os outros”.

18.11.04

Sítios

A propósito de uma conversa sobre sítios e objectos e a sua importância nas nossas vidas, tida numa longa noite outonal de lareira, recebi um texto de uma amiga, então presente, que aqui reproduzo.
“Hoje presenciei o enterro de alguém que nasceu, viveu e morreu numa casa velha.
A velhice das casas embora seja muito incómoda tem o seu significado e daí a sua felicidade.
A estética, a vivência e os cheiros de uma casa velha não se explicam, sentem-se, saboreiam-se e vivem-se.
Eu também tenho a sorte de ter uma casa velha, onde a passaram os meus bisavós, avós, tios e mãe, e onde ainda posso encontrar vestígios da sua presença e da sua maneira de ser.
Mas esse alguém cujo enterro presenciei teve outra grande felicidade, a sua morte foi celebrada numa igreja velha e com as vozes dos seus irmãos e sobrinhos.
Não imaginam o amor e a ternura que pode transparecer dumas paredes velhas com caliça a cair.
Não há de facto sítio com melhor acústica.
Na verdade até as tomadas já nem deixam entrar as fichas dos aquecedores modernos que ajudei a arrumar para que não sentíssemos o frio e a humidade daquele sítio velho.
Quando morrer espero que ainda hajam igrejas velhas para poderem celebrar a minha morte, e vozes da minha família para cantarem a subida da minha alma ao céu (ou ao inferno!).”

Lenços de pano

Acredito que esta posta e a anterior sirvam para um imediato carimbar da minha pessoa como um perigoso reaccionário provinciano de cinquenta e tal anos. Tudo errado, mas enfim!
Continuo persistentemente a usar lenços de pano, acho mais bonito, mais agradável ao assoar, mais personalizado nos seus monogramas. Hoje já percorri várias cores, desde os usuais brancos até aos mais esporádicos azuis, recorri ainda a um verde militar de tamanho XL usado quando o desespero surge. O problema é quando as constipações ou ataques de rinite alérgica chegam em força. No caso de agora, em que começo a desesperar pois o monte que está na gaveta começa a descer impiedosamente, mais, tenho de começar a usar os de algodão mais áspero, aqueles que se evitam até ao fim devido aos perigosos efeitos secundários que envolvem narizes ardidos e uma espécie de cieiro nasal que dura como uma pilha Duracell. Usar lenços de papel, pois sim, de vez em quando e com nariz quase em sangue lá cedo, mas só mesmo de vez em quando. Qual Velho do Restelo não abdico das minhas idiossincrasias, e – desculpem, mas tenho de ir buscar mais um pois a torneira nasal reabriu - assim insisto neste hábito que já vai sendo visto de soslaio, como um resquício de viveres arcaicos e desadequados.


Feiras

Outrora um reduto das populações região, as feiras e romarias estão a sofrer uma, provavelmente irreversível, massificação e descaracterização. Males das democracias e igualdades. No passado fim-de-semana passou mais uma feira da Golegã, talvez a maior vítima destas invasões bárbaras a que a proximidade de Lisboa não será alheia.
Cedo me habituei a dividir o ano em etapas, em marcos que pautavam o avanço do tempo, isto no tempo em que ainda queríamos que o tempo corresse. O verão na Figueira e o S. Martinho na Golegã eram em definitivo o ameaço de um Natal próximo, do final de mais um ano. Não sendo criatura de grandes hábitos, pontualidades ou rigores, respeito ainda hoje estes marcos, que como outros me ajudam a passar o ano, a dividi-lo não em meses mas em acontecimentos, não na científica medida dos dias mas em horas passadas em locais previsíveis e de maneiras repetitivas.
Voltando ao fim de semana e voltando, uma vez mais, à Golegã, a minha romaria foi a habitual. Em redor a costumeira multidão, mas onde dantes passeavam cavalos e trajes curtos, agora surgem adolescentes cambaleando ao ritmo do álcool. Sempre foi local de copos, de grandes e históricas bebedeiras, de confusões e pancadarias, mas entre poucos, sempre os mesmos. Os cavalos, afinal sempre o motivo da feira, são cada vez menos, cada vez mais mal montados, rareando como o oxigénio. A feira de vaidades que começou há uns anos, com a praga incontrolável dos acolchoados, encerados e afins, foi hoje substituída por um generalizado estilo desportivo e uma réstia de clássicos capotes e samarras. Agora invasão é outra, depois dos novos-ricos de Lisboa que achavam necessária a sua presença – mesmo sem saberem o que é um cavalo – que deambulavam com os seus trajes de campo, como imagens tiradas de caçadas retratadas nas “Holas” do momento, novos, sempre novos pois apenas eram usados nesta ocasião. Demasiado campestres e populares para outras ocasiões. Os “magníficos” anos do cavaquismo trouxeram esta fase da Golegã, a fase em que a “manga” mais parecia uma passerelle em que senhoras de penas de perdiz em chapéus de feltro e casacos austríacos passeavam enquanto olhavam visivelmente enojadas com a presença de cavalos que, incomodativos, teimavam e circular pelas ruas e, imagine-se a indignidade, atreviam-se a sujá-las. O desprezo de alguns pelo evento começou aqui, e compreende-se.
Hoje são os bárbaros “teenagers”, fartos das noites citadinas, que sobem ao campo com o digno, e edificante, propósito de beber até à morte, ou, sem exagero, até cair. Onde antes pontuavam forcados provocadores e quantas vezes violentos, estão hoje “pseudo-surfistas”, “dreads” ou “skaters” num aparente erro de “casting”.
Pouco democrática é o que parecerá a alguns toda esta verborreia. Não será essa a ideia, mas para quem se habitua a certos rituais e os olha como assumido conservador, o destruir do nosso imaginário é sempre algo que nos revolta. Acho muito bem que todos possam fazer o que lhes apetece, agora reservo-me o direito de não gostar que essa liberdade choque com a minha, assumo que restritiva, liberdade. Claro que apesar de tudo isto teimo em cumprir o ritual, em reencontrar amigos muitas vezes esquecidos, em passar divertidas noites com longas conversas regadas a água-pé (quando se descobre alguma boa) por entre a neblina das castanhas assadas, em ver belos cavalos passeando na manga, em ver – quando consigo – a derriba na festa de campo, em passar horas de genuína diversão, em ver magníficas meninas de samarra e com ar desempoeirado isto, é claro, apesar das invasões dos bárbaros.

17.11.04

Cabala

Ontem o país acordou com a revelação, por quase todos os meios de comunicação, de que a coligação estava em crise e em vias de terminar. Curiosamente ainda não ouvi falar de cabala. Fosse a notícia sobre a esquerda e aposto que a palavra já teria soado com estrondo.

15.11.04

S. Martinho

Diz povo que devemos estar agora a provar o vinho, dizem os enólogos que não, que nem pensar em tamanho disparate. Na dúvida temos sempre o genuíno e popular abafadinho para acompanhar umas castanhas estupidamente assadas. De preferência dentro de uma lareira e com um frio fim de tarde pela frente.

Sporting II

Há uns dias dei conta do boato sobre um certo jogo no Porto, aquele onde dizem que jogou o meu clube. Ontem pude comprovar que afinal o Sporting ainda existe e que até se deu ao trabalho de humilhar o Boavista em Alvalade. Valeu a pena ir ao estádio para, ao menos por um dia, achar que podemos até ter uma boa equipa. Ontem tivemos.

11.11.04

Tarde

Lisboa está radiosa. O sol brilhando sobre as colinas altivas, o vento frio e cortante do Inverno a chegar. O Tejo assiste de baixo e verga-se a olhar para a beleza serena, espalhando a luz ainda branca, mas colorida, da cidade.

9.11.04

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Atenas, 2004

Sporting

Consta que o Sporting jogou ontem nas Antas (perdão, no Dragão). Não dei por isso. Houve de facto uma equipa de verde e branco que se passeou com calma e aparente serenidade pelo relvado, sem garra. Houve uma equipa que olhou impotente para um claro domínio dos azuis. Não me parece no entanto que fosse o Sporting.
Sempre achei que a negação era uma forma fácil de não ficarmos irritados.

5.11.04

Bush

Ao contrário do que os politicamente correctos desejavam, Bush ganhou (ou talvez tenha sido Kerry a perder, mas isso é outra questão). A notícia não me deixa satisfeito, mas pode permitir, isso sim, perceber que a democracia é de facto o poder do povo e não dos analistas, comentadores ou opinion-makers. Pelo mundo fora - em especial na Europa, é certo – a grande maioria dos meios de comunicação vociferaram até a exaustão contra a “Grande Besta”. Poucos comentadores sobreviveram à unanimidade (pronto, Luís Delgado não é de facto um comentador, mas sim um publicitário), mas quem decide, quem tem de decidir em democracia, que é o povo (essa entidade tão indefinível), votou Bush, mais, aumentou em muito a sua votação nas últimas eleições.
O mundo pode indignar-se, mas a democracia mostrou que apesar de tudo não é assim tão manipulável e que o Quarto Poder ás vezes é fraco. No outro dia, José Manuel Fernandes perguntava em entrevista a António Barreto se ele se sentia – como comentador – mais poderoso do que um Ministro, a resposta de Barreto foi negativa. Os americanos nestas eleições responderam também negativamente a essa mesma questão. Podemos gostar ou não, concordar ou não, mas as eleições americanas foram uma vitória dos eleitores simples contra a Opinião politicamente correcta.
A Europa tem medo de Bush, e para a Europa o problema era entre Bush ou Kerry. As eleições americanas têm de facto uma influência indesmentível no mundo actual. Para mim no entanto a questão não era entre os dois candidatos, ou o perigo de Bush, a questão era como é que deixámos que o mundo seja tão dependente dos americanos que encaramos umas eleições nacionais como um problema mundial. A questão é pensar porque é que os E.U.A. são hoje de facto a “Grande Potência Mundial” e pensar se é isso que de facto queremos. Porque se calhar o ideal era que as eleições americanas mais não fossem que um distante fait-divers político nacional.

Esta semana

Pouco tempo e paciência durante esta semana para escrever. Como diria, se ainda vivesse, o nosso grande poeta:
Que bom é ter um blogue para escrever e não o fazer.

28.10.04

Parabéns

O Rua da Judiaria faz um ano e daqui, com o atraso costumeiro, vão calorosas felicitações e agradecimentos.