Atenas, 2004
em Portugal
O presidente da Câmara de Lisboa, apesar da figura cinzenta que ostenta, trazia consigo uma certa imagem de competência. Não obstante ser amigo de Santana, as suas passagens por Câmara e Governo deixaram um rasto do mínimo de sensatez. Mero engano!
Foi anunciada a transferência da Feira Popular para o Jardim do Tabaco. Pobre Jardim do Tabaco, já o ameaçaram com um Casino, já deitaram armazéns abaixo, e agora querem lá pôr o antro do barulho e do néon.
Eu sei muito bem onde é que mandava o Presidente meter a Feira Popular, era até no mesmo sítio onde o mandava meter o túnel do Marquês, claro que se completaria isto com um açoitamento na praça pública e imediato exílio compulsivo.
Primeiro foi Monsanto, essa réstia verde sobre a qual pairam ameaças constantes e para onde os gulosos olhares de Santana e desta criatura não param de se virar. Até lá porem qualquer coisa não vão descansar, se não for a feira vai ser o Jockey, se não for o Jockey hão-de arranjar uma Torre do Siza, se não for a Torre…se calhar ainda propõem uma gigantesca estátua do Timoneiro Santana, erguida pela cidade em agradecimento à iluminada criatura.
Voltando ao Jardim – que para o tabaco haverá outra posta – é melhor o presidente não me aparecer à frente. Outrora um pacifista, dia a dia a minha furiosa esquizofrenia leva-me a instintos agressivos – conquanto ainda não homicidas. Pois bem, a Feira Popular mesmo junto ao rio, os belíssimos néons reflectidos na água, as magníficas músicas dos carrosséis, uma noite feérica em versão de qualidade – segundo a criatura, queira isso dizer o que queira. Será que ele não conhece Alfama, será que o animal nunca foi ao Miradouro de Santa Luzia, ou a Santo Estêvão, será que animal não percebe que Alfama é, na sua genuinidade, a Lisboa mais pura que temos e que as suas vistas sobre o rio são dos melhores cartões de visita que a cidade pode apresentar. Será que o animal não vê que quase todos os turistas passam e adoram Alfama, será que o animal ainda não percebeu o que vai ser a vista de S. Vicente de Fora com “Rodas Gigantes e o Poço da Morte”, será que o animal não percebe a vista nocturna de luzes roxas e verdes reflectidas por entre o fumo das castanhas, será que o animal não percebe que uma estrutura como a feira popular tem que estar numa zona fora do centro histórico e de preferência moderna, será que o animal acha possível aproveitar o Champ-du-Mars (junto à Torre Eiffel em Paris) para roullotes de minis e diversões ruidosas. Que país é este em que inconscientes e idiotas conseguem ser presidentes da Câmara da capital.
Aproveito até para lhe dar mais uma ideia de aproveitamento, vejo o Terreiro do Paço tão desocupado que até se podia aproveitar para lá instalar a pista de carrinhos de choque, com uma ligação ao Jardim do Tabaco em passadeira rolante sobrelevada junto ao rio! E nem me apetece falar do túnel do Marqués, o que até é bom para não partir directamente para o insulto.
Acredito que esta posta e a anterior sirvam para um imediato carimbar da minha pessoa como um perigoso reaccionário provinciano de cinquenta e tal anos. Tudo errado, mas enfim!
Continuo persistentemente a usar lenços de pano, acho mais bonito, mais agradável ao assoar, mais personalizado nos seus monogramas. Hoje já percorri várias cores, desde os usuais brancos até aos mais esporádicos azuis, recorri ainda a um verde militar de tamanho XL usado quando o desespero surge. O problema é quando as constipações ou ataques de rinite alérgica chegam em força. No caso de agora, em que começo a desesperar pois o monte que está na gaveta começa a descer impiedosamente, mais, tenho de começar a usar os de algodão mais áspero, aqueles que se evitam até ao fim devido aos perigosos efeitos secundários que envolvem narizes ardidos e uma espécie de cieiro nasal que dura como uma pilha Duracell. Usar lenços de papel, pois sim, de vez em quando e com nariz quase em sangue lá cedo, mas só mesmo de vez em quando. Qual Velho do Restelo não abdico das minhas idiossincrasias, e – desculpem, mas tenho de ir buscar mais um pois a torneira nasal reabriu - assim insisto neste hábito que já vai sendo visto de soslaio, como um resquício de viveres arcaicos e desadequados.
Consta que o Sporting jogou ontem nas Antas (perdão, no Dragão). Não dei por isso. Houve de facto uma equipa de verde e branco que se passeou com calma e aparente serenidade pelo relvado, sem garra. Houve uma equipa que olhou impotente para um claro domínio dos azuis. Não me parece no entanto que fosse o Sporting.
Sempre achei que a negação era uma forma fácil de não ficarmos irritados.