29.12.04

Dias Provincianos

Por estes dias festivos “fui à terra”, expressão que me agrada apesar de tantas vezes ridicularizada. A nossa terra é mais do que o lugar onde nascemos ou vivemos, é a terra de onde vimos e para onde voltaremos. Aqui somos um carvalho em lento crescimento, com o passar dos anos marcado num tronco tortuoso e nas folhas que vão caindo.
Gosto destes dias, em que deixo que o tempo seja um apêndice de uma existência completa e visceral com o que nos pertence, afectivamente. O frio cortante mas familiar, que nos obriga à recolha em redor de braseiras ou olhando a lenha a desaparecer nas lareiras. As cartas interrompidas por conversas dispersas, onde se salta subtilmente do último divórcio para o défice, da mais recente criança para os indescritíveis horrores do último terramoto. Os passeios na rua entre cumprimentos de quem não nos lembramos e a passagem pelas poucas lojas da nossa infância que sobreviveram à voracidade da globalização. Aqui sentimos uma aura de protecção, uma alienação quase infantil do mundo.
Amanhã a terra será outra, e no país aqui ao lado espero saltar para um novo ano com boas tapas e uns Riberas, com mais optimismo do que é possível neste comboio descarrilado que se tornou Portugal. O pior será a volta, mas pode ser que a ressaca me impeça de ver o óbvio e que acorde segunda-feira num novo ano sem descer à realidade que nos rodeia.

26.12.04

Outro Natal

Ruas desertas, o fumo das lareiras sobe o céu de Lisboa. Pelas janelas saem gargalhadas e burburinho, e luz, muita luz. Os carros recolheram e são poucos os que passam, velozes, num alegre balanço entre duas casas. A fonte parou, e nas arcadas a tosse cavada de uns cruza o ressonar de outros. O edifício impõe o seu silêncio de betão. Aqui só há abrigo, nas paredes húmidas das arcadas, no chão sujo de couves e óleo, nos papéis de embrulho dos outros, dos outros que somos nós.

Feliz Natal



O Anarcoconservador espera que o Natal dos seus leitores tenha sido excelente e deseja uma continução de Boas Festas para todos.

22.12.04

Natal I

Chego a dia 22 e acho que talvez seja tempo de pensar em comprar alguns presentes. Até agora já tenho um decidido, o que até nem é mau para quem tem vasta família com muitas crianças. Começo a desenhar o meu itinerário do dia com início no Príncipe Real, descida até ao Chiado com incursões no Bairro Alto e, se for necessário e houver tempo, passagem pela Baixa. Para o caminho – a parte de carro porque o itinerário será, obviamente, percorrido a pé – preparo os meus CD’s de Natal que ainda não ouvi este ano e que são fundamentais ao meu espírito natalício, a saber: “Silent Night – A Christmas in Rome” com a Orquestra do Vaticano e Paddy Moloney a juntarem clássicas canções de Natal com um toque celta, e não só, que me agrada; e “Sinatra Rarities – The CBS Years” que não sendo, de todo, um disco de Natal, me deixa submerso no espírito da época, vá-se lá saber porque insondáveis motivos.

No Apocalipse Now

I love the smell of tea in the morning.

21.12.04

Fair-Play

A saga das cadeiras voadoras ou, como alguém teve a distinta lata de dizer, atitudes normais de uma massa associativa efusiva. Ontem, em Guimarães.

20.12.04

Uma ideia

Sócrates finalmente falou e prometeu prosseguir com o processo da co-inceneração. Uma ideia, uma medida, Sócrates abandonou o longo e proveitoso silêncio a que se tinha remetido desde que o PS se lhe ajoelhou aos pés. Pode ser temível, é que se começar a concretizar ideias os portugueses vão descobrir o seu real valor e então…

Domingo

A sorte de não trabalhar para um grande empresa leva a que não tenha de suportar os célebres, famigerados e temidos, jantares de Natal de empresa. Essa figura que obriga à comparência, a conversas circunstanciais, a tolerar – ao abrigo do espírito natalício – "colegas" de trabalho cuja mera presença nos leva a – em situações normais – sair imediatamente da sala. Sobram assim, nos dias que antecedem o Natal, jantares e almoços de amigos nos quais o Natal é mero pretexto para um encontro. Assim foi este fim-de-semana, culminando com um Domingo mesmo Domingo, em que a mera possibilidade de raciocinar se manifestava intolerável. Nestes dias o "Cavaco" – comando de televisão em linguagem cá de casa – é arrebatado quase ao acordar e acompanha o lento e pausado arrastar do corpo pela casa. O dia prolonga-se com o monte de jornais e revistas estrategicamente ao lado do sofá e, por vezes, em destemidos actos, até uns livros são folheados. Uma saída para café, mais um jornal para o monte, e o prolongar de uma quase inexistência ao longo do dia. Enfim, não será um programa fascinante, mas para um Domingo não imagino muitos outros, especialmente junto ao Natal, época em que as ruas, as lojas, os cafés, enfim, os sítios onde poderíamos ir estão invadidas por gente. Pior que um Domingo, só um Domingo com gente, e pior ainda só mesmo um Domingo activo no meio de gente, muita gente.

Re-linque

Com covinhas na cara e um rubor embaraçado, reparo que a Grande Senhora me contradisse e não só não me ostracizou como me re-lincou. Resta-me agradecer, comovido, este meu primeiro re-linque. A posta sobre o deslinque já me valeu uma acusação de choradeira pouco digna por um blogger amigo, fico então num misto de alegria e vergonha, sem saber se me arrependa ou não da mesma. Enfim, como diria o nosso Fugitivo I (novo cognome a usar para primeiros-ministros que fogem): é a vida…

17.12.04

Deslinque

A Grande Senhora da blogosfera deslincou-me. A notícia foi acolhida com choros convulsivos e soluços incomodativos que quase me levaram a afogar a tristeza com uma garrafita de Tullamore Dew bebida com voracidade, algo que a tempo evitei. Esta posta pode parecer um miserável implorar para que volte atrás, no entanto é mais um carpir de mágoas em tom de mea culpa e uma divagação em torno do deslinque, palavra inexistente que até tem direito a verbo – deslincar – numa liberdade blogosférica.
O acto de deslincar é firme, ás vezes ainda mais firme do que o lincar, ás vezes mais fundamentado. Dá trabalho deslincar, só se dá a esse trabalho quem acha que vale a pena. O deslinque é um cartão amarelo, que só não é vermelho porque se pode voltar atrás e re-lincar, algo muito raro. Não conheço re-linques, acho que normalmente quando se deslinca se vota ao desprezo mais profundo o blogue em causa, numa consequência óbvia da desilusão.
A primeira reacção a um deslique é a indignação, a segunda, mais pensada, é a humilhação. Particularmente quando o deslincador é alguém que admiramos, e respeitamos, o deslinque é esmagador, e aí percebemos que a culpa tem mesmo de ser nossa. Para ser deslincado por certo defraudámos um leitor, mais, um leitor do qual somos leitores, mais, um leitor na opinião do qual confiamos. Algo está mal, mas é connosco. Estaremos a escrever pior, a ser chatos e desinteressantes, a ter pouca regularidade? Se calhar tudo isto, se calhar o blogue está mesmo a transformar-se numa merda, se calhar o melhor é fechar para balanço. Aí percebemos que não é bem assim - ou melhor até é, mas negamos a realidade – e então mandamos os deslinques para as urtigas e decidimos continuar. Afinal o blogue só serve para me divertir e esticar os dedos no teclado e não vai ser um simples deslinque – apesar de vir de uma Senhora – a estragar tudo isto.
Como acho que no meio de tudo isto a culpa não é da deslincadora – e tenho de me vingar em qualquer coisa –, vou também deslincar, alguém tem de pagar. Opto então pela versão irónica do Barnabé, que entretanto parece ter acabado. Ele é que paga, e a Grande Senhora continuará aqui ao lado – com a urbanidade aqui apregoada –, pelo menos até ao dia em que acorde como…Ana Gomes.

16.12.04

Já agora

Por aqui ouve-se agora uma senhora de nome Lhasa de Sela. Pelo que me parece não será um exemplo de artista bem comportada e conservadora, apesar disso, imagine-se a loucura, recomenda-se a sua audição para quem não a conheça.

Arte

Vale a pena ler (ou reler uma vez que é uma re-postagem) esta posta, e também esta que a gerou. Todo o seu conteúdo me soa tão familiar. Quantas vezes me apontaram com incongruente só porque, sendo conservador, gostava do Bairro Alto, ou de ir ao Lux, ou de ouvir Chico Buarque, ou de tanta e tanta música, cinema, pintura ou escrita, conotadas com a esquerda, que não vou enumerar especialmente por um factor: nem me lembro em que lado da barricada estão, conquanto goste, esse é um pormenor de somenos. A arte, quando é realmente boa, não o é pela sua pátria, nem credo, nem ideologia. Alguém terá coragem de negar a qualidade artística de Leni Riefensthal independentemente dos propósitos para que essa qualidade serviu?

15.12.04

Jura de Natal

Não comprarás nenhum presente nas chamadas “grandes superfícies”.

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Com o sol que está e o caos em que estamos, mandemos o povo e os políticos para a rua, para fotossintetizar. Talvez melhorem.

14.12.04

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Soltar palavras e divagar, num narcisismo de acharmos que temos importância, que alguém nos vai ler. A recompensa surge se uma, apenas uma e solitária pessoa, gostar.
Não é fácil mudar o mundo com palavras, mas mudar alguém é, nas suas idiossincrasias, muito mais importante. A força das palavras é difícil de definir, mas existe sempre, queiramos ou não.

Definitivamente Insanidade

Em Canas de Senhorim uma repórter da SIC indaga os populares sobre a sua luta e o bloqueio que fizeram a uma estrada, ouço então várias pessoas a compararem o seu caso com a luta do povo de Timor. Depois disto todo o conceito de sanidade mental de um povo é posto em causa, estaremos a entrar definitivamente na “Twilight Zone”? Terei a certeza que sim se Santana Lopes fizer o milagre de ganhar as eleições.

13.12.04

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Atenas, 2004

Tremores de sono

Consta que a terra hoje tremeu, talvez por isso tenha embalado até horas obscenas para um dia de semana. Acordei na dúvida se era Domingo, olhando incrédulo para o despertador que não tinha ligado. O humor negro pode levar a pensar que os Lexotans podiam ser substituídos por uns abalozinhos de terra. Apesar de não consumir, acho que era grave que assim fosse, é que com as insónias que andam por aí a terra mexer-se-ia ao ritmo de um Techno bem agressivo.

9.12.04

Insanidades VI

O nosso presidente já deu a Assembleia por dissolvida, mas devido à urgência desta atitude, apesar dos motivos desconhecidos, ainda não consultou quem tem por lei de consultar. Seria tão urgente dissolver que não pudesse esperar por estas reuniões consultivas para o anunciar? Aquando da partida do “Fugitivo” (vulgo Barroso) Sampaio consultou este país e o outro, arrastou a decisão por dias e dias. Agora, em que realmente optou pela decisão mais drástica, decidiu sem perguntar nada a ninguém, mesmo a quem é obrigado a fazê-lo. Entretanto, o país - independentemente do alívio pelo travão posto ao desgoverno de Santana - aguarda inquieto o porquê da dissolução, uma vez que os motivos permanecem ocultos. Será assim tão difícil ser sensato neste país?

Por causa dos rebuçados

Num qualquer café de bairro vislumbro, por entre o balcão, uma taça com rebuçados familiares. A embalagem branca faz-me recuar anos, àqueles felizes e inconscientes anos da infância, de vida singela e provinciana.
O Sr. Pombo era uma mercearia mínima, daquelas em que o arroz se equilibra instavelmente sobre a farinha e o detergente da roupa, em que cada milímetro é ocupado pelos mais diversos produtos, em que é difícil movermo-nos sem atirar as alfaces para cima dos rabanetes. Esta não era a nossa mercearia de mão – saudoso Sr. António –, mas aqui comprava-se, inquestionavelmente, o fiambre. A marca era importante, mas mais do que isso o que o tornava especial era o corte, as lâminas finíssimas de bom fiambre, com a gordura transparente, tudo embrulhado em papel vegetal. Para mim este factor era importante – tinha de pensar nas tostas mistas –, mas aquilo que me fazia rejubilar quando a senhora minha mãe me incumbia da tarefa do fiambre, era uma fantástica vitrina rotativa cheia de rebuçados. Lá em casa os rebuçados não eram unânimes, minha mãe pedia sempre um embrulhinho em papel pardo cheio dos mais caramelizados Santo Onofre, enquanto eu enchia os bolsos com os anizados Dr. Bayard. Ambos eram, e felizmente ainda são, excelentes, longe dos concentrados de corantes e conservantes que inundam as grandes superfícies de hoje. Graças ao Dr. Bayard, a sempre odiada tarefa de fazer recados aos pais era aqui um gosto, talvez por isso tantas memórias me tenham chegado ao ver a taça destes rebuçados naquele café de bairro, talvez por isso mais uma vez tenha enchido gulosamente os bolsos de rebuçados.