17.2.05

Eleições

Pode parecer um insulto a alguns que leiam este texto, mas não consigo compreender que alguém inteligente, minimamente informado e não filiado, possa votar nos dois maiores partidos. Todos nos queixamos do desgoverno do país de há muitos anos para cá, todos nos insurgimos pela abundância de clientelas políticas e boys, todos nos queixamos da falta de ideias desta campanha – especialmente de dois partidos –, todos nos queixamos da falta de qualidade dos políticos, em especial dos possíveis primeiros-ministros. A quem se deve tudo isto?
Ainda assim há quem pense votar neles, com tudo isto ainda há quem fale em votos úteis, com tudo isto ainda há quem deixe de lado o voto convicto, com tudo isto eles continuam, e continuarão a ser, os donos e senhores do poder em Portugal.
Não conheço ninguém – fora dos partidos – capaz de ver quaisquer superiores qualidades em Sócrates ou Santana, no entanto sei que muitos votarão neles. No final, em frente ás urnas, insistem em dar o voto a quem, pelo menos eu assim acho, não o merece.
O voto em branco é sempre uma opção, por aqui muito apreciada. O protesto é dobrado em papel e expresso contra todos. Votar em branco é dizer que ninguém nos convenceu, que ninguém merece o nosso voto, mas que nos damos ao trabalho de nos deslocar para votar e mostrar o nosso desagrado. Agrada-me. Fora esta opção, tenho para mim que o voto inteligente e óbvio de alguém das direitas teria de passar pelo CDS. Nas esquerdas as opções até são mais vastas, desde a demagogia radical do BE ao comunismo humano do PCP de Jerónimo de Sousa, passando pelo sempre pertinente PCTP/MRPP de Garcia Pereira. Opções até não faltam, não fora a obsessão de todos quererem votar num primeiro-ministro não se contentando com um voto convicto para um parlamento, que, no fundo, é o que de facto estamos a eleger.

Breves de campanha (2)

O cenário do debate de terça-feira parecia saído de um talk-show dos anos oitenta, era tão mau que nem numa perspectiva kitch se aproveitava. Com um ambiente destes como é que querem que os políticos se inspirem.

Sócrates resumiu tudo sobre a sua candidatura a primeiro-ministro quando no debate disse (referindo-se à reforma da Segurança Social): “Mas nós não propomos nada, nós não propomos nada. Apenas propomos que se estude…”

Insisto que, à medida que a campanha avança, aumenta a minha simpatia por Jerónimo de Sousa. Acabemos depressa com este disparate.

Momento delicioso quando Paulo Portas apresentou no debate o esquema com bonequinhos sobre o sistema de saúde. Talvez este seja o caminho, apresentar as ideias políticas na forma de livros infantis, pelo menos seria menos enfadonho e mais esclarecedor.

Carmelinda Pereira ainda existe, assim como o POUS. Fantástico.

Inverno

A mulher-a-dias continua de gripe e o Charles é ainda uma figura imaginária. As eleições são no Domingo e continua a não chover. Talvez um disco do Caetano amanse a neura.

15.2.05

Este Inverno

A minha doença foi uma angústia que um pico na garganta ainda me traz à memória. Sonhei com o meu butler – que entretanto denominei de Charles – a trazer os remédios em bandeja de prata, enquanto S. Pedro, solidário com a minha presença em casa, enchia as ruas de uma chuva desalmada. Nada feito, nem o Charles nem a chuva que tanta falta faz.
Voltava eu à banalidade da minha vida, quando mais um desastre me sobressaltou a existência: a minha mulher-a-dias está de gripe. Não bastava eu, não bastavam alguns amigos, até a pobre da senhora tinha de cair de cama. Controlo os instintos mais egoístas e insensíveis e desejo sinceramente as melhoras. Claro que por dentro estou tão abalado como uma vara de vime: a pilha de roupa acumulada, o pó por limpar, a casa de pantanas. Como diria o desgraçado, e irritante, Calimero: E´ un´ingiustizia però!

14.2.05

Fumadores

A lei sobre os fumadores foi aprovada. Felizmente não foi tão longe quanto os fascistas o desejavam. Ainda assim há agora uma nova maneira de marcar restaurante: atendem e perguntamos “Desculpe o restaurante é para fumadores?” se a resposta for afirmativa podemos então fazer a clássica pergunta “É possível marcar mesa para hoje?”, no caso de nos ser dada uma nega podemos sempre dizer “Temos pena e passe uma muito boa tarde.” Resumindo, não bastavam os impostos sobre o tabaco como agora temos de gastar mais dinheiro com o telefone. Enfim, uma maçada.

.


La Granja de San Ildefonso, Segovia, 2002

10.2.05

Breves de campanha

A doença deixou-me calmo mas um pouco mais ácido – deve ser dos Nimed. Olho a campanha com uma sobranceria tal, que penso estar a ver um episódio da Rua Sésamo com o Santana a fazer de Bocas.
Desparazite-se o país. Comecemos pelos vírus da gripe e terminemos nos SS (Sócrates e Santana). Por uma questão de saúde pública.

As certezas na vida são poucas, mas eu agora tenho uma, absoluta. Vamos ter um mau primeiro-ministro a partir de 20 de Fevereiro. Por outras palavras: vamos ficar entregues (uma vez mais) à bicharada.

Votem meus amigos, votem. Agora não se enganem, as iniciais PS são de Puro Sacrilégio (mesmo que seguidas por outras letras).

A brigada SS vai-nos governar. Socorro.

A desgraça é tal que dou por mim a olhar com candura para Jerónimo de Sousa. Durasse a campanha muito mais tempo e auto interditava-me para não correr o risco de votar nele.

Agradecimentos

Na guerra viral uma batalha foi ganha, mas restam ainda alguns bichinhos que teimam em me deixar algum mal-estar. A agonia abrandou, um pouco, e ainda sonho com o meu mordomo inglês. O MacGuffin lembra simpaticamente Remains of the day e o espantoso mordomo interpretado por Antony Hopkins. Servia bem, muito bem mesmo. Eficaz e imperturbável. Competente e discreto. Coisas impossíveis num mordomo português.

O Impensável lembra Álvaro de Campos e deixa um seu poema para a Charlotte (as melhoras de quem passou – e acho que ainda está a passar – o mesmo) e para mim. Não é que alivie muito mas sempre ajuda. Hoje lembra o casamento do príncipe Carlos numa perspectiva que me agrada. Até consinto que não tenha sido um marido muito exemplar, mas transparece uma simpatia inegável. Gosto do seu ar vagamente aéreo, do que são as suas preocupações e do seu aparente alheamento. No mundo chato e taciturno de hoje é bom haver que não se leve demasiadamente a sério, especialmente quando teria todos os motivos para o fazer.

Humores

A doença faz de nós rabugentos, críticos implacáveis ao que não sejam remédios e mezinhas. Não me parece mal. Os outros talvez não pensem o mesmo, mas até gosto de estar indignado com o mundo em geral. Faz-me sentir lúcido e vivo.

6.2.05

.

Os últimos dias foram passados numa cápsula, numa estufa viral quase desligada do mundo. Os micróbios acharam-me bom e alojaram-se na minha garganta. A febre não via motivos para diminuir e lá se foi mantendo, só amansada por comprimidos regulares. Procurei manter o corpo activo – recusando a cama – em extenuantes mudanças de sofá ou arrastamentos à cozinha ou ao computador. Uma estafadeira que podia ser poupada, caso já me fosse possível concretizar um sonho: manter um discreto e eficiente mordomo inglês.

3.2.05

Anginas

Afinal não era gripe, eram anginas. Que sorte a minha, para além da febre e sonolência pareço ter duas bolas de ténis na garganta que arranham a qualquer passagem. A posologia até se manteve, acrescida de um indispensável antibiótico que espero me ressuscite para os inteiramente vivos a tempo do fim-de-semana. Com tudo isto até serei compelido a ver atentamente o debate Santana – Sócrates. Enfim, uma desgraça nunca vem só.

1.2.05

Gripe

Um bule de Orange Pekoe da Gorreana, cada chávena acompanhada por uma colher de chá de mel serrano de Urze. Torradinhas com manteiga e mel. Nimed em barda. Um sofá e uma manta, um DVD em “continuous play” de bons filmes. Daqui a bocado um sumo de tangerina acabado de espremer. Excelente maneira de passar a tarde, não fora a p… da gripe.

27.1.05

Auschwitz

Há 60 anos fechou-se um dos mais negros períodos da nossa história. Alguns homens tinham até então descido à inumanidade, tornando-se criaturas indefiníveis. Darwin não previu que a civilização pudesse regredir tanto quando já tinha chegado tão alto.
Deve ser lembrado que houve no mundo, há tão pouco tempo, gente capaz dos mais soezes massacres. Deve ser lembrado que o homem, animal aparentemente racional e civilizado, pode tornar-se num monstro sem que nada o faça prever. Deve ser lembrada a história, sempre um dos melhores meios para aprender e apreender a sociedade. Deve ser lembrado que naqueles campos foram chacinados homens, como qualquer um de nós, que apenas carregavam consigo estigmas rácicos e religiosos. Deve ser lembrado. Hoje. Sempre.

Ontem a Taça

Grande jogo mostrando que em Portugal o bom futebol pode não ser uma miragem no deserto. Não me lembro de um jogo entre equipas portuguesas tão bem jogado, tão emocionante, tão extraordinário. Os golos foram inesquecíveis, desde os petardos de Simão, Liedson e Viana, à jogada “maradonizante” de Paíto. Quanto ao resultado, BGRRRR! (leia-se: rosnar agressivo e de dentes bem afiados): merda para os penaltys!

P.S. A lamentar apenas a idiotia de João Pereira que merecia um castigo de alguns jogos – ao contrário da óbvia despenalização do Hugo Viana.

26.1.05

.


Dubrovnik, Croácia, 2002


Eleições II

Como céptico militante, já lá vão muitos anos em que insisti em não votar nos grandes partidos. Não por uma necessidade de afirmar a diferença, não por uma atitude obstinada em ser do contra, não para ser original. O voto é um direito que temos e o meu não é fácil de “sacar”, até porque simpatizo grandemente com o branco, numa perspectiva pouco virginal mas antes protestativa. Quando ninguém faz por merecer o meu voto recuso a utilidade, esse conceito desprezível de votar apenas em quem pode ganhar. A simples ideia de olhar para a vitória como um fim absoluto revolve-me as entranhas. Talvez seja o meu fair-play olímpico que ainda ache que participar com convicção é melhor muitas vezes que ganhar. Na política, a convicção devia valer qualquer coisa, pelo menos ainda vivo na vã esperança que assim seja.

Eleições I

Entre um Palhaço Triste – sempre com ar de vítima, mas pronto a fazer as maiores alarvidades – e uma réplica do Homem Invisível – que tudo faz para que ninguém dê por ele – teremos de escolher o nosso próximo primeiro-ministro. Eu obviamente já decidi, não escolho.

24.1.05

Debates

A falta de acordo quanto aos debates eleitorais tomou de assalto os jornais. Sócrates continua a cumprir o seu convicto e laico voto de silêncio e Santana, seguindo as teorias de Gomes da Silva, exige desesperadamente um contraditório. A Oeste nada de novo.

Curioso

Segundo Louçã, parece que uma mulher que tenha feito dez abortos, mas que não tenha nenhum filho, não tem legitimidade para ter opinião sobre o aborto.

20.1.05

A Praça

A magnífica Plaza Mayor, cruzamento de todos os caminhos pelas ruas e ruelas de Salamanca, o coração real de uma cidade que parece não dormir, o local sobre o qual se diz nunca estar vazio, seja a que horas e a que dia for.
Aqui tudo se pode passar e tudo se passa. O amanhecer com a chegada dos jornais aos quiosques e a preparação dos cafés e esplanadas para o pequeno-almoço. Os primeiros transeuntes que passam apressados em direcção ao trabalho ou ao pão. Um pouco mais tarde os estudante que fazem o caminho típico, cruzando a Praça na diagonal. A esta hora o bulício já é intenso, espectáculo para a plateia de esplanadas que, seja em que época for, sempre tem turistas ou locais como espectadores. A manhã passa e as pessoas também, uma certa acalmia vai tranquilizando as arcadas, quebrada inapelavelmente aquando da saída para almoço antecedida por uma tapa. O Cervantes atrai como íman gente para o seu primeiro andar com vista sobre a Praça, do Real sai, sempre que alguém abre a porta, um cheiro apetitoso que nos desafia a um “pincho-moruno”, a Praça torna-se frenética e no centro grupos de jovens sentam-se nos bancos ou no chão, desafiando o tempo em conversas intermináveis sempre observados pelas pedras brilhantes e camaleónicas que os rodeiam. A pouco e pouco todos vão almoçar e - durante a larga hora de pausa que inclui sesta - a Praça é quase abandonada aos turistas, que se espantam com o facto de a cidade inteira fechar para sesta, lojas incluídas. São eles que tomam conta do terreno, com as suas máquinas, as suas exclamações extasiadas, a sua rendição incondicional a uma beleza tão harmoniosa como esmagadora, tão serena como excitante. De repente, quase como se algum despertador tocasse, almas apressadas entram por todos os arcos e cruzam determinadas a Praça. A tarde de trabalho vai começar, ou as aulas como se vê por jovens de mochilas ou capas na mão. A partir daqui é um gradual crescendo em que senhoras de casaco de peles passam em direcção ás lojas ou ao café de meio da tarde e os estudantes vão a pouco e pouco reaparecendo. Tudo se encaminha para que por volta das oito horas a Praça seja um enorme concerto de almas andantes, quase todas em busca de um vinho e da tapa de fim de tarde, outros optando por um chá ou uma infusão mesmo ali ao lado no “La Regenta”. Os bares enchem-se e o barulho torna-se ensurdecedor. Cá fora, por entre os bancos, passa gente sem fim no carrossel do anoitecer da cidade. Após as tapas começa o regresso a casa generalizado, contrastado pelos que insistem em que o tempo não passe, alongando bebidas e conversas. Depois do jantar o ponto mais importante da Praça é o relógio, essa sentinela que durante o dia apenas guia o tempo, passa a ser o ponto de encontro de todos. Em Salamanca não se combina um sítio, combina-se uma hora, porque já se sabe que é por baixo do relógio. Tanto assim é que por vezes é difícil encontrar quem buscamos no meio de tanta gente. Daqui sai toda a gente para a noite, essa parte enorme da vida desta cidade. Aqui se cruzam pares de namorados, bêbados eufóricos cantando, aqui se sentam os desamparados. Aqui se dão românticos beijos e quentes abraços. Por aqui se regressa a casa, divertido, acompanhado, triste e deprimido, sóbrio ou cambaleante. Cedo ou tarde, cruzando já os olhares com quem limpa o chão ou traz os jornais com as notícias de um novo dia.
A Praça é mais que tudo uma vida, uma vida que são várias vidas, vários momentos. Alegrias, tristezas e euforias. Para além disso é bela, belíssima, e a sua pedra acompanha os movimentos das gentes mudando de cor conforme está sol ou uma neblina gelada de Inverno. Aqui a arte é o espaço, uma obra-prima que cruza a escultura com o urbanismo real e vivido, aqui a arte é vivida, é vida.


Inauguração de Salamanca 2002-Capital Europeia da Cultura
Els Comediants
Plaza Mayor, Salamanca, 2002