31.3.05

Iogurtes

Ontem foi dia de passagem no supermercado. No decorrer do abastecimento corrente resolvo comprar uns iogurtes, algo que durante anos deixei de consumir mas que agora voltei esporadicamente a comprar. Olho em volta e um suave terror me invade, a variedade é tanta que bloqueio. Há uns anos, quando os iogurtes eram banais lá em casa, a escolha quase se resumia aos Yoplait, variando entre morango ou pêssego, os naturais (que sempre achei desenxabidos) ou os exóticos de coco. A mãe, de vez em quando, lá dava uso à iogurteira e tentava que a produção caseira desse vazão para o gasto. Até que eram comestíveis, se lhes juntássemos mel ou algo para dar graça. A chegada do “Pecado dos Anjos” foi acontecimento, e de pronto se tornaram imprescindíveis. Lembro também os Adágio, com compota no fundo do boião e que se misturava à colher. Foi aí que deixei os iogurtes. Ontem, como em outros dias recentes, a escolha ia dos “light” aos com “bifidus activo” (que mais irão inventar), dos líquidos com chá verde e ginseng aos energéticos com guaraná. Parecia um laboratório em que o difícil é encontrar algo normal. Depois de um bloqueio, lá passei calmamente os olhos pelas prateleiras até encontrar uns frascos de iogurte líquido, normal, de morango. No meio do caos lá veio a simplicidade. O mundo de hoje não facilita a tarefa de quem procura coisas simples, tentem comprar iogurtes e logo verão.

30.3.05

Referendos II

Segundo as sondagens, o referendo sobre a Constituição Europeia corre o risco de não passar em França. Para além de uma custosa identificação com o povo francês fica uma dúvida: o que irão os burocrato-ditadores de Bruxelas fazer para “obrigar” à aprovação da Constituição? Referendos consecutivos como na Dinamarca há uns anos atrás? Para Bruxelas a ideia de Europa é algo de inquestionável, e os referendos meros pró-formas para iludir a populaça. Esperarei para ver, agora com alguma esperança num povo que poucos motivos de agrado me costuma dar.

Referendos I

Portugal prepara-se para dar prioridade ao referendo do aborto sobre o referendo à Constituição Europeia. Há medidas que dizem bem do país em que vivemos.

Diálogos Imaginários

– Charles, hoje gostava de lanchar na varanda. Pode trazer chá na mesma, mas queria também água fresca.
– Com certeza menino.

28.3.05

Parabéns

O Fora do Mundo faz um ano. Parabéns a três dos mais interessantes bloggers portugueses.

Páscoa passada

Fim-de-semana na terra. A Páscoa assim o obriga, sempre que possível.
Sexta-feira
Chegada a tempo da tradicional procissão do enterro, cada vez mais humilde mas sempre emocionante. Este ano sem o barulho das matracas que abriam o cortejo, avisando o povo que ia passar, que o enterro de Cristo ia passar. As matracas que em pequeno temia e me deixavam quase em êxtase reverencial perante a passagem da procissão. Os tempos mudam. Permanece a espera silenciosa, respeitosa, acendendo velas ás janelas. A passagem da procissão, com os seus cantos tristes, com a solenidade devida ao momento. Para quem não crê, talvez só as procissões majestáticas de Sevilha possam despertar algo, para quem crê, um momento simples de devoção pode ser suficiente para deixar algo.
Sábado
Acto de insanidade, resolvo arrumar gavetas e armários atulhados. Animadamente vou juntando postais ou selos de colecções esquecidas, encontrando papéis que me remetem para tempos passados. Espanto-me com a quantidade de coisas que podem estar numa gaveta, nas memórias que se guardam sob as mais variadas formas. A meio da tarde grito sozinho, em volta o caos está instalado e começo a recear que afinal vou acabar a atirar tudo para os armários sem ordem nem arrumação. Sustenho o desespero e lá consigo melhorar o estado das coisas. Sou um desarrumado por excelência e só concebo arrumações radicais, do estilo tirar tudo e ser forçado a organizar, custe o que custar.
Domingo
Descanso sereno. A província deixa o tempo ser arrastado com calma, muita calma. O jantar será o habitual caos familiar, a tarde um vagabundear pela casa tranquila.

23.3.05

Televisão

Dou ás vezes por mim a grunhir por causa da má programação da televisão. São demasiadas as vezes em que o furioso “zapping” pelos inúmeros canais de cabo se revela infrutífero. Estrebucho até que começo a sorrir, sim, nada melhor que nos faltar o hipnótico habitual para fazer coisas mais produtivas como ler um livro, ouvir boa música, escolher um DVD ou até, em desespero, arrumar o escritório. A televisão é um Prozac com substitutos, o problema é que nos esquecemos disso vezes demais.

O Tempo

Ando por aqui a falar muito do tempo. Reparo que a uma posta chamada “Sol” se seguiu uma chamada “A chuva”. Falta de assunto? Talvez a modorra momentânea do país nos chame para temas mais comezinhos, ou será a preguiça de escrever sobre coisas que dêem mais trabalho, ou talvez as duas coisas.

Parabéns

Os parabéns – atrasados “comme d’habitude” – ao Contra Corrente pelos dois anos de blogosfera. É obra. Esperemos que continue e que não se farte pois faria falta.

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Clonmacnoise, Irlanda, 2000

21.3.05

A chuva

Desejada, qual D. Sebastião. Finalmente a chuva. Lá fora o ruído deslizante das rodas sobre o molhado. As gotas sobre a poças que as anteriores formaram. A chuva cai e a terra grita de alegria tentando-a absorver. A chuva, finalmente.

17.3.05

Sol

De consciência pesada um sol de Primavera. O país está seco – e também um bocadinho seca – e dou por mim a olhar agradado o sol pela janela ao som de Brahms. O que é bom terá necessariamente de fazer mal? Agora até um simples estado de alma é meio caminho para a culpabilização. Apetece dizer que se lixe o país, mas como é que vão ser os campos alentejanos em Abril, onde vão estar as cores que neles brilham sob os sobreiros. No distanciamento da minha janela é fácil ironizar, mas o caso é mais sério do que a socratização do país, essa talvez cause menos danos do que a falta de chuva.

16.3.05

Cuidado

Santana desfez finalmente o tabu, afinal regressa à Câmara de Lisboa. Discute-se agora a legitimidade desta opção: legalmente penso ser incontestada, afinal ele nada teve de fazer para voltar à autarquia, a lei assim o designou; politicamente há um facto – aquele que foi apontado para que a mesma pessoa não tivesse legitimidade para chefiar o governo – indesmentível, o senhor foi eleito para esse cargo e apenas volta para o concluir; eticamente a coisa pia mais fino, afinal o senhor foi a votos – apesar de ser em legislativas que não é, obviamente, a mesma coisa – e levou com uma derrota estrondosa (em particular em Lisboa).
Santana parece envolto numa qualquer loucura, que hesito a atribuir a álcool ou drogas, desde que se tornou Presidente da Câmara de Lisboa. As suas decisões são erráticas, incompreensíveis, disparatadas. Obviamente que se deveria remeter a um silêncio cauteloso e a deixar o tempo passar. Assim não quis. Pagará Lisboa, pois com apenas alguns meses de mandato – até a uma provável recandidatura – vão-se avolumar as medidas em cima do joelho, as tontarias mediáticas, os outdoors a crescerem como cogumelos. Lisboa pagará, pois é a vítima mais fácil para que a Vítima se vingue que quem o vitimizou. O Guerreiro-Menino precisa de guerra e a capital irá ser um belo palco de batalha. Vamos esperar avisados, começando já a estruturar guerrilhas urbanas para impedir torres em Alcântara e mais túneis disparatados, e a criar uma brigada anti-outdoor com o objectivo de dar um prémio a quem mais outdoors conseguir deitar abaixo.

14.3.05

Bom sinal

Segundo o Expresso, Edite Estrela e Ana Gomes criticam o novo governo. O motivo é indiferente, algo que reúna a crítica destas duas senhoras torna-se logo num sinal de esperança.

Regresso

Após umas merecidas férias de quase isolamento do mundo, o regresso.
O nosso país está diferente, com um novo governo PS a tomar posse com Freitas do Amaral como ministro e com o Porto a perder em casa 4-0 (vou alegar amnésia para não falar do jogo de ontem em Alvalade). O sol primaveril continua e a seca ameaça ser longa e catastrófica. Falando em ameaças, parece possível que Santana volte à Câmara de Lisboa e fala-se num referendo sobre o enorme buraco do Marquês.

Diálogos Imaginários

– Olá Charles.
– Como está menino? As férias foram boas?
– Excelentes Charles, excelentes.
– Deixe ver as malas para tratar das suas coisas
– Obrigado Charles, bem sabe que odeio desfazer malas.

Coisas da Vida Boa

Férias.

4.3.05

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Igreja de S. Francisco, Porto, 2002

Férias

A próxima semana é de férias. Talvez por aqui passe ou talvez não. Até lá que todos passem bem, eu pelo menos vou fazer por isso, para que eu passe bem.

Diálogos Imaginários

– Já tenho toda a sua roupa ordenada no quarto de vestir. Quer confirmar se está tudo bem?
– Não é necessário Charles, confio em si. Pode fechar as malas.

2.3.05

Coisas da Vida Boa

Um pequeno-almoço tranquilo, em frente ao computador e em passeio pela blogosfera. Na mesa um Kousmichoff Prince Wladimir bem quente e umas torradinhas de pão saloio com manteiga e queijo da Ilha. A ser assim, o começo de um dia até pode ser uma actividade suportável.

Diálogos imaginários

- Menino, onde ponho os jornais e o dicionário Houaiss que saiu hoje no Diário de Notícias.
- Deixe ai ao lado Charles, quando acabar o pequeno-almoço já os vou ler.

1.3.05

Masoquismo

Acho que todos teremos um pouco saudável de masoquista, pelo menos assim o espero. Ao ver a quantidade de gente que estava ontem em Alvalade, percebo que rapidamente esgotaríamos todos os psiquiatras de Portugal e Espanha se assim não fosse: saudável, apesar de masoquismo. Até a alma se me gelou. Ao menos foram quatro golos e lá voltámos ao primeiro lugar.

Blogosfera

Actualizações aqui ao lado. Boas vindas a novos blogs. Agradecimentos ao Insurgente e ao Lobi do Chá pelos respectivos links. Ao segundo aproveito para invejar o nome, isto enquanto decido entre um Darjeeling (segunda colheita) e um Assam.

28.2.05

Clint

Ontem o grande vencedor dos Óscares foi Clint Eastwood por “Million Dollar Baby”. Ontem o canal Hollywood fez o favor de passar “Meia-noite no Jardim do Bem e do Mal”. Obrigado Clint.
Não gosto de boxe, torna-se-me mesmo difícil de perceber como se pode gostar deste desporto. Talvez por isso tenha ido com a minha profunda fé Eastwoodiana um pouco abalada ver “Million Dollar Baby”. Claro que deveria saber que a fé, quando existe, devia ser quase inabalável. O filme é um prodígio e, quanto ao Clint, acho que se devia aprovar a clonagem para perpetuar o seu talento. O argumento levava a prever um lacrimal espectáculo indicado para donas de casa urbanas, de vidas frustradas, poderem carpir a sua vida ao longo do filme. Claro que isto se passaria caso fosse entregue a outro realizador, nas mãos de Eastwood transforma-se em pura magia. Para além de muito mais méritos que se lhe podem apontar, há um que o distingue: a capacidade de fazer um filme inteiro na corda bamba do emocional e do lacrimal, sem que nunca caia para o lado lamechas; basta lembrar “Um Mundo Perfeito” e “As Pontes de Madison County”.
Ao rever “Meia-noite no Jardim do Bem e do Mal” lembrei-me de que este filme, ao contrário do que ontem triunfou, conseguiu dividir opiniões que oscilaram entre o excelente e o chatíssimo. Confesso que o acho magnífico, uma subtil crítica social ás pequenas cidades onde tudo pode o que pode acontecer, de facto acontece, mesmo que não se saiba. Aqui Clint não moralizou e deixou um ambíguo final onde pensamos se o mal triunfou, ou se realmente era mal, ou se estávamos na meia-noite que separa o mal do bem.

Óscares

Sobre Eastwood não será preciso dizer mais nada, quanto a Scorsese é pena que ainda não tenha sido desta, mas com esta concorrência…
Para o melhor actor a vitória foi óbvia, digo isto sem ter visto o filme, mas para saber quem ganhava não era preciso, a Academia é muito previsível nestas coisas.
Pena que o argumento de “Before Sunset” não tenha ganho, sempre era uma menção honrosa para esse filme maravilhoso.

Diálogos Imaginários

- Charles, por favor ponha manteiga e mel nos croissants.
- Com certeza menino, e faço sumo de tangerina ou fica só pelo chá.

Coisas da Vida Boa

Um sofá confortável, muitos jornais, comando de televisão. É Domingo e o telefone não toca.

24.2.05

Presente

Nas notícias só se fala em futuros, sejam governos ou líderes de partidos. O presente é por vezes mais agradável, ao som de Rosa Passos e com um bule de chá indiano à frente. A chuva parece querer aparecer, ainda que por tímidos e escassos borrifos. As ruas estão calmas, sem altifalantes partidários e com as gentes de volta aos habituais passos resignados. A vida torna-se mais suportável sem os incómodos que nos maçavam desde há algum tempo.

21.2.05

Fim-de-semana em curtas

A deslocação “à terra” foi brindada por um sol radioso. Os jantares de família e as discussões pré-eleitorais aqueceram o gelo. As conversas prolongaram-se noite dentro por entre a quietude provinciana.

Ontem falou-se muito de emigração. Sugestões de uma ilha comprada colectivamente no Brasil ou uma proposta de sociedade para abrir uma livraria de viagens em Bath ou Brighton. Claro que tudo se manterá, pelo menos por agora, como uma vaga miragem a que falta a necessária dinâmica para concretizar.

Portugal foi embalado no vácuo. Lentamente abriremos a embalagem e então vamos perceber o que nos espera. Começou ontem no discurso de vitória, se continuar assim prevejo o pior.

A vitória do PS foi retumbante, incontestável, arrasadora. As comemorações modorrentas e tristes. Em Lisboa costa que umas centenas passaram no Rato, na minha terra duas fugazes buzinas interromperam o silêncio da noite. Lembro que há uns anos – nas vitórias de Cavaco – as ruas foram entupidas por aglomerações de milhares de pessoas e caravanas intermináveis.

A noite passada foi intranquila devido a uma crise de asia, fica por perceber se devido aos resultados das eleições ou ao whisky com Castelo, ou talvez a ambos.

17.2.05

Eleições

Pode parecer um insulto a alguns que leiam este texto, mas não consigo compreender que alguém inteligente, minimamente informado e não filiado, possa votar nos dois maiores partidos. Todos nos queixamos do desgoverno do país de há muitos anos para cá, todos nos insurgimos pela abundância de clientelas políticas e boys, todos nos queixamos da falta de ideias desta campanha – especialmente de dois partidos –, todos nos queixamos da falta de qualidade dos políticos, em especial dos possíveis primeiros-ministros. A quem se deve tudo isto?
Ainda assim há quem pense votar neles, com tudo isto ainda há quem fale em votos úteis, com tudo isto ainda há quem deixe de lado o voto convicto, com tudo isto eles continuam, e continuarão a ser, os donos e senhores do poder em Portugal.
Não conheço ninguém – fora dos partidos – capaz de ver quaisquer superiores qualidades em Sócrates ou Santana, no entanto sei que muitos votarão neles. No final, em frente ás urnas, insistem em dar o voto a quem, pelo menos eu assim acho, não o merece.
O voto em branco é sempre uma opção, por aqui muito apreciada. O protesto é dobrado em papel e expresso contra todos. Votar em branco é dizer que ninguém nos convenceu, que ninguém merece o nosso voto, mas que nos damos ao trabalho de nos deslocar para votar e mostrar o nosso desagrado. Agrada-me. Fora esta opção, tenho para mim que o voto inteligente e óbvio de alguém das direitas teria de passar pelo CDS. Nas esquerdas as opções até são mais vastas, desde a demagogia radical do BE ao comunismo humano do PCP de Jerónimo de Sousa, passando pelo sempre pertinente PCTP/MRPP de Garcia Pereira. Opções até não faltam, não fora a obsessão de todos quererem votar num primeiro-ministro não se contentando com um voto convicto para um parlamento, que, no fundo, é o que de facto estamos a eleger.

Breves de campanha (2)

O cenário do debate de terça-feira parecia saído de um talk-show dos anos oitenta, era tão mau que nem numa perspectiva kitch se aproveitava. Com um ambiente destes como é que querem que os políticos se inspirem.

Sócrates resumiu tudo sobre a sua candidatura a primeiro-ministro quando no debate disse (referindo-se à reforma da Segurança Social): “Mas nós não propomos nada, nós não propomos nada. Apenas propomos que se estude…”

Insisto que, à medida que a campanha avança, aumenta a minha simpatia por Jerónimo de Sousa. Acabemos depressa com este disparate.

Momento delicioso quando Paulo Portas apresentou no debate o esquema com bonequinhos sobre o sistema de saúde. Talvez este seja o caminho, apresentar as ideias políticas na forma de livros infantis, pelo menos seria menos enfadonho e mais esclarecedor.

Carmelinda Pereira ainda existe, assim como o POUS. Fantástico.

Inverno

A mulher-a-dias continua de gripe e o Charles é ainda uma figura imaginária. As eleições são no Domingo e continua a não chover. Talvez um disco do Caetano amanse a neura.

15.2.05

Este Inverno

A minha doença foi uma angústia que um pico na garganta ainda me traz à memória. Sonhei com o meu butler – que entretanto denominei de Charles – a trazer os remédios em bandeja de prata, enquanto S. Pedro, solidário com a minha presença em casa, enchia as ruas de uma chuva desalmada. Nada feito, nem o Charles nem a chuva que tanta falta faz.
Voltava eu à banalidade da minha vida, quando mais um desastre me sobressaltou a existência: a minha mulher-a-dias está de gripe. Não bastava eu, não bastavam alguns amigos, até a pobre da senhora tinha de cair de cama. Controlo os instintos mais egoístas e insensíveis e desejo sinceramente as melhoras. Claro que por dentro estou tão abalado como uma vara de vime: a pilha de roupa acumulada, o pó por limpar, a casa de pantanas. Como diria o desgraçado, e irritante, Calimero: E´ un´ingiustizia però!

14.2.05

Fumadores

A lei sobre os fumadores foi aprovada. Felizmente não foi tão longe quanto os fascistas o desejavam. Ainda assim há agora uma nova maneira de marcar restaurante: atendem e perguntamos “Desculpe o restaurante é para fumadores?” se a resposta for afirmativa podemos então fazer a clássica pergunta “É possível marcar mesa para hoje?”, no caso de nos ser dada uma nega podemos sempre dizer “Temos pena e passe uma muito boa tarde.” Resumindo, não bastavam os impostos sobre o tabaco como agora temos de gastar mais dinheiro com o telefone. Enfim, uma maçada.

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La Granja de San Ildefonso, Segovia, 2002

10.2.05

Breves de campanha

A doença deixou-me calmo mas um pouco mais ácido – deve ser dos Nimed. Olho a campanha com uma sobranceria tal, que penso estar a ver um episódio da Rua Sésamo com o Santana a fazer de Bocas.
Desparazite-se o país. Comecemos pelos vírus da gripe e terminemos nos SS (Sócrates e Santana). Por uma questão de saúde pública.

As certezas na vida são poucas, mas eu agora tenho uma, absoluta. Vamos ter um mau primeiro-ministro a partir de 20 de Fevereiro. Por outras palavras: vamos ficar entregues (uma vez mais) à bicharada.

Votem meus amigos, votem. Agora não se enganem, as iniciais PS são de Puro Sacrilégio (mesmo que seguidas por outras letras).

A brigada SS vai-nos governar. Socorro.

A desgraça é tal que dou por mim a olhar com candura para Jerónimo de Sousa. Durasse a campanha muito mais tempo e auto interditava-me para não correr o risco de votar nele.

Agradecimentos

Na guerra viral uma batalha foi ganha, mas restam ainda alguns bichinhos que teimam em me deixar algum mal-estar. A agonia abrandou, um pouco, e ainda sonho com o meu mordomo inglês. O MacGuffin lembra simpaticamente Remains of the day e o espantoso mordomo interpretado por Antony Hopkins. Servia bem, muito bem mesmo. Eficaz e imperturbável. Competente e discreto. Coisas impossíveis num mordomo português.

O Impensável lembra Álvaro de Campos e deixa um seu poema para a Charlotte (as melhoras de quem passou – e acho que ainda está a passar – o mesmo) e para mim. Não é que alivie muito mas sempre ajuda. Hoje lembra o casamento do príncipe Carlos numa perspectiva que me agrada. Até consinto que não tenha sido um marido muito exemplar, mas transparece uma simpatia inegável. Gosto do seu ar vagamente aéreo, do que são as suas preocupações e do seu aparente alheamento. No mundo chato e taciturno de hoje é bom haver que não se leve demasiadamente a sério, especialmente quando teria todos os motivos para o fazer.

Humores

A doença faz de nós rabugentos, críticos implacáveis ao que não sejam remédios e mezinhas. Não me parece mal. Os outros talvez não pensem o mesmo, mas até gosto de estar indignado com o mundo em geral. Faz-me sentir lúcido e vivo.

6.2.05

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Os últimos dias foram passados numa cápsula, numa estufa viral quase desligada do mundo. Os micróbios acharam-me bom e alojaram-se na minha garganta. A febre não via motivos para diminuir e lá se foi mantendo, só amansada por comprimidos regulares. Procurei manter o corpo activo – recusando a cama – em extenuantes mudanças de sofá ou arrastamentos à cozinha ou ao computador. Uma estafadeira que podia ser poupada, caso já me fosse possível concretizar um sonho: manter um discreto e eficiente mordomo inglês.

3.2.05

Anginas

Afinal não era gripe, eram anginas. Que sorte a minha, para além da febre e sonolência pareço ter duas bolas de ténis na garganta que arranham a qualquer passagem. A posologia até se manteve, acrescida de um indispensável antibiótico que espero me ressuscite para os inteiramente vivos a tempo do fim-de-semana. Com tudo isto até serei compelido a ver atentamente o debate Santana – Sócrates. Enfim, uma desgraça nunca vem só.

1.2.05

Gripe

Um bule de Orange Pekoe da Gorreana, cada chávena acompanhada por uma colher de chá de mel serrano de Urze. Torradinhas com manteiga e mel. Nimed em barda. Um sofá e uma manta, um DVD em “continuous play” de bons filmes. Daqui a bocado um sumo de tangerina acabado de espremer. Excelente maneira de passar a tarde, não fora a p… da gripe.

27.1.05

Auschwitz

Há 60 anos fechou-se um dos mais negros períodos da nossa história. Alguns homens tinham até então descido à inumanidade, tornando-se criaturas indefiníveis. Darwin não previu que a civilização pudesse regredir tanto quando já tinha chegado tão alto.
Deve ser lembrado que houve no mundo, há tão pouco tempo, gente capaz dos mais soezes massacres. Deve ser lembrado que o homem, animal aparentemente racional e civilizado, pode tornar-se num monstro sem que nada o faça prever. Deve ser lembrada a história, sempre um dos melhores meios para aprender e apreender a sociedade. Deve ser lembrado que naqueles campos foram chacinados homens, como qualquer um de nós, que apenas carregavam consigo estigmas rácicos e religiosos. Deve ser lembrado. Hoje. Sempre.

Ontem a Taça

Grande jogo mostrando que em Portugal o bom futebol pode não ser uma miragem no deserto. Não me lembro de um jogo entre equipas portuguesas tão bem jogado, tão emocionante, tão extraordinário. Os golos foram inesquecíveis, desde os petardos de Simão, Liedson e Viana, à jogada “maradonizante” de Paíto. Quanto ao resultado, BGRRRR! (leia-se: rosnar agressivo e de dentes bem afiados): merda para os penaltys!

P.S. A lamentar apenas a idiotia de João Pereira que merecia um castigo de alguns jogos – ao contrário da óbvia despenalização do Hugo Viana.

26.1.05

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Dubrovnik, Croácia, 2002


Eleições II

Como céptico militante, já lá vão muitos anos em que insisti em não votar nos grandes partidos. Não por uma necessidade de afirmar a diferença, não por uma atitude obstinada em ser do contra, não para ser original. O voto é um direito que temos e o meu não é fácil de “sacar”, até porque simpatizo grandemente com o branco, numa perspectiva pouco virginal mas antes protestativa. Quando ninguém faz por merecer o meu voto recuso a utilidade, esse conceito desprezível de votar apenas em quem pode ganhar. A simples ideia de olhar para a vitória como um fim absoluto revolve-me as entranhas. Talvez seja o meu fair-play olímpico que ainda ache que participar com convicção é melhor muitas vezes que ganhar. Na política, a convicção devia valer qualquer coisa, pelo menos ainda vivo na vã esperança que assim seja.

Eleições I

Entre um Palhaço Triste – sempre com ar de vítima, mas pronto a fazer as maiores alarvidades – e uma réplica do Homem Invisível – que tudo faz para que ninguém dê por ele – teremos de escolher o nosso próximo primeiro-ministro. Eu obviamente já decidi, não escolho.

24.1.05

Debates

A falta de acordo quanto aos debates eleitorais tomou de assalto os jornais. Sócrates continua a cumprir o seu convicto e laico voto de silêncio e Santana, seguindo as teorias de Gomes da Silva, exige desesperadamente um contraditório. A Oeste nada de novo.

Curioso

Segundo Louçã, parece que uma mulher que tenha feito dez abortos, mas que não tenha nenhum filho, não tem legitimidade para ter opinião sobre o aborto.

20.1.05

A Praça

A magnífica Plaza Mayor, cruzamento de todos os caminhos pelas ruas e ruelas de Salamanca, o coração real de uma cidade que parece não dormir, o local sobre o qual se diz nunca estar vazio, seja a que horas e a que dia for.
Aqui tudo se pode passar e tudo se passa. O amanhecer com a chegada dos jornais aos quiosques e a preparação dos cafés e esplanadas para o pequeno-almoço. Os primeiros transeuntes que passam apressados em direcção ao trabalho ou ao pão. Um pouco mais tarde os estudante que fazem o caminho típico, cruzando a Praça na diagonal. A esta hora o bulício já é intenso, espectáculo para a plateia de esplanadas que, seja em que época for, sempre tem turistas ou locais como espectadores. A manhã passa e as pessoas também, uma certa acalmia vai tranquilizando as arcadas, quebrada inapelavelmente aquando da saída para almoço antecedida por uma tapa. O Cervantes atrai como íman gente para o seu primeiro andar com vista sobre a Praça, do Real sai, sempre que alguém abre a porta, um cheiro apetitoso que nos desafia a um “pincho-moruno”, a Praça torna-se frenética e no centro grupos de jovens sentam-se nos bancos ou no chão, desafiando o tempo em conversas intermináveis sempre observados pelas pedras brilhantes e camaleónicas que os rodeiam. A pouco e pouco todos vão almoçar e - durante a larga hora de pausa que inclui sesta - a Praça é quase abandonada aos turistas, que se espantam com o facto de a cidade inteira fechar para sesta, lojas incluídas. São eles que tomam conta do terreno, com as suas máquinas, as suas exclamações extasiadas, a sua rendição incondicional a uma beleza tão harmoniosa como esmagadora, tão serena como excitante. De repente, quase como se algum despertador tocasse, almas apressadas entram por todos os arcos e cruzam determinadas a Praça. A tarde de trabalho vai começar, ou as aulas como se vê por jovens de mochilas ou capas na mão. A partir daqui é um gradual crescendo em que senhoras de casaco de peles passam em direcção ás lojas ou ao café de meio da tarde e os estudantes vão a pouco e pouco reaparecendo. Tudo se encaminha para que por volta das oito horas a Praça seja um enorme concerto de almas andantes, quase todas em busca de um vinho e da tapa de fim de tarde, outros optando por um chá ou uma infusão mesmo ali ao lado no “La Regenta”. Os bares enchem-se e o barulho torna-se ensurdecedor. Cá fora, por entre os bancos, passa gente sem fim no carrossel do anoitecer da cidade. Após as tapas começa o regresso a casa generalizado, contrastado pelos que insistem em que o tempo não passe, alongando bebidas e conversas. Depois do jantar o ponto mais importante da Praça é o relógio, essa sentinela que durante o dia apenas guia o tempo, passa a ser o ponto de encontro de todos. Em Salamanca não se combina um sítio, combina-se uma hora, porque já se sabe que é por baixo do relógio. Tanto assim é que por vezes é difícil encontrar quem buscamos no meio de tanta gente. Daqui sai toda a gente para a noite, essa parte enorme da vida desta cidade. Aqui se cruzam pares de namorados, bêbados eufóricos cantando, aqui se sentam os desamparados. Aqui se dão românticos beijos e quentes abraços. Por aqui se regressa a casa, divertido, acompanhado, triste e deprimido, sóbrio ou cambaleante. Cedo ou tarde, cruzando já os olhares com quem limpa o chão ou traz os jornais com as notícias de um novo dia.
A Praça é mais que tudo uma vida, uma vida que são várias vidas, vários momentos. Alegrias, tristezas e euforias. Para além disso é bela, belíssima, e a sua pedra acompanha os movimentos das gentes mudando de cor conforme está sol ou uma neblina gelada de Inverno. Aqui a arte é o espaço, uma obra-prima que cruza a escultura com o urbanismo real e vivido, aqui a arte é vivida, é vida.


Inauguração de Salamanca 2002-Capital Europeia da Cultura
Els Comediants
Plaza Mayor, Salamanca, 2002

19.1.05

Campanha

Santana tenta dar a volta ao país em inaugurações. Sócrates diz três palavras e foge rapidamente dos jornalistas como se estes tivessem sarna. Portas prepara-se para engordar furiosamente a avaliar pela sucessão de jantares. Jerónimo de Sousa tem sido Jerónimo de Sousa. Enfim, à excepção da estranha calma do Bloco e de Manuel Monteiro, tudo segue segundo o previsto.

17.1.05

Paula Rego

O eminente fim da exposição de Paula Rego na Fundação de Serralves foi o pretexto necessário para uma escapadela de fim-de-semana ao Porto. Não que sejam precisos motivos para passear, mas ás vezes só mesmo por um motivo que agite a imobilidade invernal aceitamos o movimento.
A melhor forma de seriamente ver uma exposição é com mais uma ou duas pessoas, preferencialmente com os mesmos interesses. Não foi o caso, mas também é divertido dessacralizar os museus e ir acompanhado por um grupo improvável. Vale a pena ouvir “bocas” de quem não entende, não se esforça por entender e faz ainda gala disso. Talvez espicace um pouco as nossas análises, nos obrigue a ir mais além na abordagem ao que vimos, apesar de que com isso se calhar perdemos alguns quadros ou nos envolvemos em estéreis discussões. Divirto-me então em exagerar os meus comentários e estabelecer teorias e análises que extravasam qualquer realidade. A exposição torna-se um divertido duelo de elaboradas expressões assumidamente pretensiosas e alarvidades inenarráveis ditas em voz alta, gerando uma enorme discussão entre amigos. Quem melhor que Paula Rego com a sua arte forte e incomodativa, incapaz de consensos, para se passar uma óptima tarde sempre a oscilar entre a séria visita a uma exposição e uma desconcertante desconversa com um grupo que se conhece bem. Lembro expressões como “não abordas a temática de uma forma construtiva”, em resposta a um “mas o que é isto, nuns quadros a cegonha tem o bico dentro da cabeça e noutros trespassa e saem miolos”, ou a um “é doentio, a velha (avó) está a dar beijos na boca à neta” entre outras pérolas que acabaram num definitivo “tens a sensibilidade de um rinoceronte”. Pode não ter sido brilhante para uma visão mais séria, mas foi infinitamente mais divertido.
Já agora a exposição era muito boa quanto aos conteúdos mas estava arrumada de forma um pouco…desarrumada e com um critério – se é que o houve – pouco compreensível. Valeu pela qualidade dos quadros e da obra de uma artista que não deixa indiferença por onde passa.

14.1.05

Before

Aqui ouve-se Julie Delpy, talvez procurando manter o espírito sonhador de “Before Sunrise”- “Antes do Amanhecer”, revisto após “Before Sunset”-“Até ao anoitecer”. Dois filmes simples, mas simplesmente deliciosos. Porque se procura tanta vez o bizarro e o elaborado quando um excelente argumento, dois bons actores e um realizador inspirado são suficientes para nos deixar a sonhar acordados.

P.S: Estes filmes deviam ser de visão obrigatória nas nossas escolas de cinema, talvez ajudassem a que o nosso cinema não fosse simples, mas de uma forma geral simplesmente detestável por pretensioso.

Odisseias

Continuo a insistir em manter uma má relação com os serviços públicos. Manias minhas, certamente em nada devidas ao seu mau funcionamento. Insisto assim em que prepare cada necessária deslocação ás Finanças ou Segurança Social com tal antecedência que, invariavelmente, acabo a pagar as mais absurdas multas (aliás coimas) ou juros de mora. São expressões muito aqui de casa estas duas, e o trauma vai a tal ponto que até quando não me tenho de deslocar aos locais, mas simplesmente preencher um papel e enviar por correio, a passagem de prazo é uma constante. Vem ao caso que há umas semanas enviei – fora de prazo, como é evidente – uma declaração de IVA. Ora, ao tentar o seu pagamento via Multibanco o mesmo foi recusado pois a declaração fora enviada fora de prazo. Pânico, tinha então de me deslocar à própria repartição de Finanças. A proximidade do Natal obrigou-me a não estragar a felicidade da época com uma viagem tão traumática, foi assim já este ano que, resoluto, rumei a meio da manhã – pequeno-almoço forte, café forte – com a decisão de resolver o problema, nem que para tal fosse necessário insultar, bater ou espezinhar alguém. (A decisão empenhada deve-se em parte a já ter recebido em casa - aquando de um outro atraso semelhante - um carta em tom de tal forma ameaçador – falando em execuções fiscais e processos – que julguei ter por destino as grades ou a penhora do meu humilde Polo.)
Antes da deslocação consegui – após quase hora e meia de tentativas, e vários números errados – falar com o serviço informativo que me disse ter simplesmente de preencher o Modelo 2, pagando em seguida o valor. Entrei assim directo no R/C, onde se situa a tesouraria, que estranhamente estava vazia. Expliquei a minha situação à senhora e ela, ao ver que não era a minha repartição e estava fora de prazo, logo me disse simpaticamente: “Tem de ir ao primeiro andar”. Pronto, lá teria de ser. Subi as escadas e comecei a entrar na neura típica – uma fila que se previa para meia hora. Esperei, estoicamente e sem fumar, e chegando a minha vez expus, outra vez, a minha situação. Resposta pronta: “Se o senhor não é esta repartição não está aqui a fazer nada”. Explosão sustida, respirar fundo: “Tem a certeza?”. Ao ver que não me ia embora com facilidade: “Vou ali perguntar a uma colega”. E foi, e também deve ter perguntado como estava a família e se tinha dormido bem. Ao chegar: “Tem de ir ao andar de cima ás execuções fiscais, aí consegue resolver o assunto”. Respirar fundo, e aí vou para mais um lance de escadas e… uma outra fila de mais de meia hora. Aqui penso: fumo ou não fumo. Opto pela segunda, afinal ainda era de manhã. Quando chego ao balcão um funcionário novo e simpático – sem ironias – ouve a minha explicação – sempre podia ter gravado uma cassete –, vai ao telefone falar com a minha repartição, e chega com a sentença final: “Só tem de ir à tesouraria pagar, depois a sua repartição vai ter acesso ao pagamento e envia-lhe a coima.” Agradeci, apesar de que enquanto descia as escadas não ter a certeza de o dever ter feito. Afinal sempre paguei, rapidamente, só com uma pessoa à minha frente. Algo que poderia ter feito quase duas horas atrás, sem ter que conhecer todos os departamentos da repartição, sem perder quase uma manhã inteira no Portugal real. Bom seria que a esquerda percebesse que isto é terceiro mundo, muito mais do que as viagens do Ministro Sarmento a São Tomé. Podemos fazer o que quisermos, mas enquanto o serviço público não funcionar neste país, tudo o resto não vai melhorar o suficiente. Afinal era só mudar um funcionário para fazer triagem à entrada, agora o que diriam os sindicatos de mudar um Técnico de Atendimento Personalizado e Específico para o cargo de Técnico Atendimento e Triagem. Um ultraje, um cercear dos direitos dos trabalhadores, um abuso da entidade patronal, um desrespeito pelas atribuições técnicas do lugar.

13.1.05

Realidade

O mundo que nos rodeia está miserável, cheio de dor e tristeza. Olho à volta e tudo me parece uma etapa para o Purgatório, ou para um Juízo Final inclemente. Nos dias em que desço ao realismo mais perturbante, subitamente acordo, e volto para o cínico – apesar de lúcido – autismo do meu casulo. Não o faço por egoísmo, apenas por uma clara noção de impotência perante a realidade. A existência é cada vez mais experiência alienante, marcada por um distanciamento perturbador.

12.1.05

Vá lá

Haja alguém nesta barafunda a ter alguma sensatez. O Ministro da Saúde lá recuou – se bem que diga que não – nas propostas de fascismo higiénico com que nos queria brindar. Afinal poderemos continuar a fumar em restaurantes, bares e discotecas. O Ministro usou até a mesma expressão com que gosto de definir a minha posição em relação ao tabaco, a proibição não deve abranger “locais onde as pessoas escolhem ir”. Parece que já não vou entrar em neura a pensar como me ia tornar um clandestino dos meus prazeres.

Família

"No puede decirse que conozcas a una familia porque conozcas a sus miembros. Es la conjunción de todos ellos, su sociedad, lo que les otorga un sentido"

David Trueba, "Abierto toda la noche"

10.1.05

O Saco de Plástico

Cada vez que tento libertar-me do Expresso algo surge que me mantêm, ainda que contrariado, como seu leitor. Nestes tempos, em que aos Sábados o tento roubar por minutos – poucos, apesar dos quilos de papel – para ler apenas o que me interessa – que vai sendo pouco –, eis que a direcção faz uma contratação relâmpago de uma estrela de Inverno. A Bomba juntou-se ao João Pereira Coutinho, talvez para em pequenas guerrilhas começar a minar a enervante linha editorial do pastelão de referência. Que assim seja, porque vão tendo tão má companhia à sua volta que agora até se lhes juntou o Manuel Serrão – suponho que a escrever de futebol se bem que me recuse a confirmá-lo.

Sábado

Há pouco tempo eram menos oito pontos, agora já são mais dois. O destino é por vezes estranho. Neste Sábado, no Alvalade XXI, o resultado só deixará dúvidas aos cegos. Uma equipa sempre a querer ganhar, mesmo a jogar com menos um, outra numa tranquilidade de quem apenas quer empatar, numa atitude à Gil Vicente ou afins. Se Sábado definisse o resto do campeonato já podíamos ir para a rua comemorar, mas afinal o destino é estranho e o melhor é esperar para ver.

7.1.05

A Dream of Death

I dreamed that one had died in a stange place
Near no accustomed hand;
And they had nailed the boards above her face
The peasants of that land,
And, wondering, planted by her solitude
A cypress and a yew:
I came, and wrote upon a cross of wood,
Man had no more to do:
She was more beautiful than thy first love,
The lady by the trees:
And gazed upon the mournful stars above,
And heard the mournful breeze.

William Butler Yeats

Os meus livros

Os meus livros (que não sabem que existo)
São uma parte de mim, como este rosto
De têmporas e olhos já cinzentos
Que em vão vou procurando nos espelhos
E que percorro com a minha mão côncava.
Não sem alguma lógica amargura
Entendo que as palavras essenciais,
As que exprimem, estarão nessas folhas
Que não sabem quem sou, não nas que escrevo.
Mais vale assim. As vozes desses mortos
Dir-me-ão para sempre.

Jorge Luís Borges


4.1.05

Novo Parlamento

Há imagens de sonho que me acorrem ao olhar as listas a deputados para as próximas eleições. Pensar ter na Assembleia da República o mau fadista Nuno da Câmara Pereira, esse asno andante que persiste em dizes inanidades sobre todos os assuntos e a quem Santana deu a mão, é uma visão do inferno. Já agora gostava de poder sugerir a Santana os nomes de Artur Garcia e de Maria José Valério, é que já que estamos em maré de incompetências e disparates, ao menos tornemos o parlamento num local divertido. Assim até se podem fazer teatrinhos tipo Quinta das Alarvidades com a Odete Santos e o cortejo revisteiro do PSD. Aproveitando a onda até Sócrates pode repescar alguns elementos como Roberto Leal, Mónica Sintra ou Ana Gomes. O Bloco para não se ficar atrás, e na onda da protecção das minorias, podia arranjar um travesti para fazer playbacks do género “I Will Survive”. O PP pode continuar a colaboração com a Dina, que já vejo a cantar para Mota Amaral: “Peguei trinquei, meti-te na cesta…”.
Já que vai ser mau, ao menos era original conseguir um parlamento Kitsch à séria.


Timoneiro de quem?

Cavaco recusou aparecer num cartaz eleitoral do PSD em que apareciam todos os primeiros-ministros do partido. Tem todo o direito a isso. O que talvez seja estranho é que foi com este partido, do qual tantas vezes parece manifestamente não gostar, que chegou e se manteve no poder. Os laranjas insistem em admirar cegamente quem mais fez por destruir o seu partido com cenas como o tabu – que ajudou a massacrar Nogueira e entregou o poder de mão beijada a Guterres –, o demolidor artigo no Expresso – que foi mais um motivo para Sampaio dissolver o parlamento –, e esta recusa. Será que o partido ainda venera alguém que o despreza e apenas olha para o próprio umbigo? Merecerá Cavaco o apoio do PSD a uma candidatura presidencial? Eu não sou laranja – excepto no que à Ucrânia concerne –, mas tenho dúvidas. A arrogância moral de Cavaco lembra a postura de uma certa esquerda que se julga dona e senhora da moral, que se sente uma ilha de virtudes no meio de um pântano de defeitos. A verdade é que o nosso país é cada vez mais um bar pouco frequentável e com bebidas maradas, mas não me parece que a arrogância distante seja a melhor forma de o melhorar.


3.1.05

Reviver o Passado em Salamanca

A entrada no novo ano serviu para um regresso, sempre muito querido, a uma das “minhas” cidades. Por ali vivi quase um ano que me traz boas recordações de pessoas, e de uma cidade capaz de apaixonar de forma definitiva quem lá passa. O mundo real passou ao lado destes dias em que entre amigos, tapas e copos, me despedi de 2004 – de poucas gratas recordações – para acolher o novo ano que chegou.
Claustro de Las Dueñas (Vista para a Catedral Nova), Salamanca 2004

Sem Arrependimento

Ano novo igual a alguns quilos a mais, e os culpados são:
Jamón Ibérico, Payo del Lomo, Pinchos morunos, Tapas, Batatas bravas, Palomas con ensalada, Tortillas con calabacín, Pimientos Rellenos, Lechazo, Solomillos de Morucha, Chuletones de Ternera, Pesquera, Emilio Moro, Cacique-Cola, Vodka-Tónico e outros tantos.
Culpados de um crime assumido, o de gostar mesmo de comer e beber. Afinal para que serve a vida senão para os pequenos prazeres e que melhor forma de atravessar a fronteira entre dois anos do que a comer e beber bem.

Ásia

A desgraça causada pelo terramoto na Indonésia passou ao lado das postas deste blogue, não por indiferença, mas porque perante o sucedido todas as palavras são escassas, inconsequentes e inúteis.

29.12.04

Novo Ano

Não me apetece fazer balanços ou listas dos melhores do ano. Quanto aos blogues, são certamente os que estão aqui ao lado, os que mais gosto, os que mais leio. Quanto ao resto, tenho boas memórias do ano, só que o trabalho que dava pensar e alinhar os melhores é suplantado por este frio fim de tarde e por um Kousmichoff bem quente. Quanto ao próximo ano, o ideal era que fosse melhor que todos os que já passaram, mas num assomo religioso, que seja como Deus quiser. Um Bom Ano para todos.

Dias Provincianos

Por estes dias festivos “fui à terra”, expressão que me agrada apesar de tantas vezes ridicularizada. A nossa terra é mais do que o lugar onde nascemos ou vivemos, é a terra de onde vimos e para onde voltaremos. Aqui somos um carvalho em lento crescimento, com o passar dos anos marcado num tronco tortuoso e nas folhas que vão caindo.
Gosto destes dias, em que deixo que o tempo seja um apêndice de uma existência completa e visceral com o que nos pertence, afectivamente. O frio cortante mas familiar, que nos obriga à recolha em redor de braseiras ou olhando a lenha a desaparecer nas lareiras. As cartas interrompidas por conversas dispersas, onde se salta subtilmente do último divórcio para o défice, da mais recente criança para os indescritíveis horrores do último terramoto. Os passeios na rua entre cumprimentos de quem não nos lembramos e a passagem pelas poucas lojas da nossa infância que sobreviveram à voracidade da globalização. Aqui sentimos uma aura de protecção, uma alienação quase infantil do mundo.
Amanhã a terra será outra, e no país aqui ao lado espero saltar para um novo ano com boas tapas e uns Riberas, com mais optimismo do que é possível neste comboio descarrilado que se tornou Portugal. O pior será a volta, mas pode ser que a ressaca me impeça de ver o óbvio e que acorde segunda-feira num novo ano sem descer à realidade que nos rodeia.

26.12.04

Outro Natal

Ruas desertas, o fumo das lareiras sobe o céu de Lisboa. Pelas janelas saem gargalhadas e burburinho, e luz, muita luz. Os carros recolheram e são poucos os que passam, velozes, num alegre balanço entre duas casas. A fonte parou, e nas arcadas a tosse cavada de uns cruza o ressonar de outros. O edifício impõe o seu silêncio de betão. Aqui só há abrigo, nas paredes húmidas das arcadas, no chão sujo de couves e óleo, nos papéis de embrulho dos outros, dos outros que somos nós.

Feliz Natal



O Anarcoconservador espera que o Natal dos seus leitores tenha sido excelente e deseja uma continução de Boas Festas para todos.

22.12.04

Natal I

Chego a dia 22 e acho que talvez seja tempo de pensar em comprar alguns presentes. Até agora já tenho um decidido, o que até nem é mau para quem tem vasta família com muitas crianças. Começo a desenhar o meu itinerário do dia com início no Príncipe Real, descida até ao Chiado com incursões no Bairro Alto e, se for necessário e houver tempo, passagem pela Baixa. Para o caminho – a parte de carro porque o itinerário será, obviamente, percorrido a pé – preparo os meus CD’s de Natal que ainda não ouvi este ano e que são fundamentais ao meu espírito natalício, a saber: “Silent Night – A Christmas in Rome” com a Orquestra do Vaticano e Paddy Moloney a juntarem clássicas canções de Natal com um toque celta, e não só, que me agrada; e “Sinatra Rarities – The CBS Years” que não sendo, de todo, um disco de Natal, me deixa submerso no espírito da época, vá-se lá saber porque insondáveis motivos.

No Apocalipse Now

I love the smell of tea in the morning.

21.12.04

Fair-Play

A saga das cadeiras voadoras ou, como alguém teve a distinta lata de dizer, atitudes normais de uma massa associativa efusiva. Ontem, em Guimarães.

20.12.04

Uma ideia

Sócrates finalmente falou e prometeu prosseguir com o processo da co-inceneração. Uma ideia, uma medida, Sócrates abandonou o longo e proveitoso silêncio a que se tinha remetido desde que o PS se lhe ajoelhou aos pés. Pode ser temível, é que se começar a concretizar ideias os portugueses vão descobrir o seu real valor e então…

Domingo

A sorte de não trabalhar para um grande empresa leva a que não tenha de suportar os célebres, famigerados e temidos, jantares de Natal de empresa. Essa figura que obriga à comparência, a conversas circunstanciais, a tolerar – ao abrigo do espírito natalício – "colegas" de trabalho cuja mera presença nos leva a – em situações normais – sair imediatamente da sala. Sobram assim, nos dias que antecedem o Natal, jantares e almoços de amigos nos quais o Natal é mero pretexto para um encontro. Assim foi este fim-de-semana, culminando com um Domingo mesmo Domingo, em que a mera possibilidade de raciocinar se manifestava intolerável. Nestes dias o "Cavaco" – comando de televisão em linguagem cá de casa – é arrebatado quase ao acordar e acompanha o lento e pausado arrastar do corpo pela casa. O dia prolonga-se com o monte de jornais e revistas estrategicamente ao lado do sofá e, por vezes, em destemidos actos, até uns livros são folheados. Uma saída para café, mais um jornal para o monte, e o prolongar de uma quase inexistência ao longo do dia. Enfim, não será um programa fascinante, mas para um Domingo não imagino muitos outros, especialmente junto ao Natal, época em que as ruas, as lojas, os cafés, enfim, os sítios onde poderíamos ir estão invadidas por gente. Pior que um Domingo, só um Domingo com gente, e pior ainda só mesmo um Domingo activo no meio de gente, muita gente.

Re-linque

Com covinhas na cara e um rubor embaraçado, reparo que a Grande Senhora me contradisse e não só não me ostracizou como me re-lincou. Resta-me agradecer, comovido, este meu primeiro re-linque. A posta sobre o deslinque já me valeu uma acusação de choradeira pouco digna por um blogger amigo, fico então num misto de alegria e vergonha, sem saber se me arrependa ou não da mesma. Enfim, como diria o nosso Fugitivo I (novo cognome a usar para primeiros-ministros que fogem): é a vida…

17.12.04

Deslinque

A Grande Senhora da blogosfera deslincou-me. A notícia foi acolhida com choros convulsivos e soluços incomodativos que quase me levaram a afogar a tristeza com uma garrafita de Tullamore Dew bebida com voracidade, algo que a tempo evitei. Esta posta pode parecer um miserável implorar para que volte atrás, no entanto é mais um carpir de mágoas em tom de mea culpa e uma divagação em torno do deslinque, palavra inexistente que até tem direito a verbo – deslincar – numa liberdade blogosférica.
O acto de deslincar é firme, ás vezes ainda mais firme do que o lincar, ás vezes mais fundamentado. Dá trabalho deslincar, só se dá a esse trabalho quem acha que vale a pena. O deslinque é um cartão amarelo, que só não é vermelho porque se pode voltar atrás e re-lincar, algo muito raro. Não conheço re-linques, acho que normalmente quando se deslinca se vota ao desprezo mais profundo o blogue em causa, numa consequência óbvia da desilusão.
A primeira reacção a um deslique é a indignação, a segunda, mais pensada, é a humilhação. Particularmente quando o deslincador é alguém que admiramos, e respeitamos, o deslinque é esmagador, e aí percebemos que a culpa tem mesmo de ser nossa. Para ser deslincado por certo defraudámos um leitor, mais, um leitor do qual somos leitores, mais, um leitor na opinião do qual confiamos. Algo está mal, mas é connosco. Estaremos a escrever pior, a ser chatos e desinteressantes, a ter pouca regularidade? Se calhar tudo isto, se calhar o blogue está mesmo a transformar-se numa merda, se calhar o melhor é fechar para balanço. Aí percebemos que não é bem assim - ou melhor até é, mas negamos a realidade – e então mandamos os deslinques para as urtigas e decidimos continuar. Afinal o blogue só serve para me divertir e esticar os dedos no teclado e não vai ser um simples deslinque – apesar de vir de uma Senhora – a estragar tudo isto.
Como acho que no meio de tudo isto a culpa não é da deslincadora – e tenho de me vingar em qualquer coisa –, vou também deslincar, alguém tem de pagar. Opto então pela versão irónica do Barnabé, que entretanto parece ter acabado. Ele é que paga, e a Grande Senhora continuará aqui ao lado – com a urbanidade aqui apregoada –, pelo menos até ao dia em que acorde como…Ana Gomes.

16.12.04

Já agora

Por aqui ouve-se agora uma senhora de nome Lhasa de Sela. Pelo que me parece não será um exemplo de artista bem comportada e conservadora, apesar disso, imagine-se a loucura, recomenda-se a sua audição para quem não a conheça.

Arte

Vale a pena ler (ou reler uma vez que é uma re-postagem) esta posta, e também esta que a gerou. Todo o seu conteúdo me soa tão familiar. Quantas vezes me apontaram com incongruente só porque, sendo conservador, gostava do Bairro Alto, ou de ir ao Lux, ou de ouvir Chico Buarque, ou de tanta e tanta música, cinema, pintura ou escrita, conotadas com a esquerda, que não vou enumerar especialmente por um factor: nem me lembro em que lado da barricada estão, conquanto goste, esse é um pormenor de somenos. A arte, quando é realmente boa, não o é pela sua pátria, nem credo, nem ideologia. Alguém terá coragem de negar a qualidade artística de Leni Riefensthal independentemente dos propósitos para que essa qualidade serviu?

15.12.04

Jura de Natal

Não comprarás nenhum presente nas chamadas “grandes superfícies”.

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Com o sol que está e o caos em que estamos, mandemos o povo e os políticos para a rua, para fotossintetizar. Talvez melhorem.

14.12.04

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Soltar palavras e divagar, num narcisismo de acharmos que temos importância, que alguém nos vai ler. A recompensa surge se uma, apenas uma e solitária pessoa, gostar.
Não é fácil mudar o mundo com palavras, mas mudar alguém é, nas suas idiossincrasias, muito mais importante. A força das palavras é difícil de definir, mas existe sempre, queiramos ou não.

Definitivamente Insanidade

Em Canas de Senhorim uma repórter da SIC indaga os populares sobre a sua luta e o bloqueio que fizeram a uma estrada, ouço então várias pessoas a compararem o seu caso com a luta do povo de Timor. Depois disto todo o conceito de sanidade mental de um povo é posto em causa, estaremos a entrar definitivamente na “Twilight Zone”? Terei a certeza que sim se Santana Lopes fizer o milagre de ganhar as eleições.

13.12.04

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Atenas, 2004

Tremores de sono

Consta que a terra hoje tremeu, talvez por isso tenha embalado até horas obscenas para um dia de semana. Acordei na dúvida se era Domingo, olhando incrédulo para o despertador que não tinha ligado. O humor negro pode levar a pensar que os Lexotans podiam ser substituídos por uns abalozinhos de terra. Apesar de não consumir, acho que era grave que assim fosse, é que com as insónias que andam por aí a terra mexer-se-ia ao ritmo de um Techno bem agressivo.

9.12.04

Insanidades VI

O nosso presidente já deu a Assembleia por dissolvida, mas devido à urgência desta atitude, apesar dos motivos desconhecidos, ainda não consultou quem tem por lei de consultar. Seria tão urgente dissolver que não pudesse esperar por estas reuniões consultivas para o anunciar? Aquando da partida do “Fugitivo” (vulgo Barroso) Sampaio consultou este país e o outro, arrastou a decisão por dias e dias. Agora, em que realmente optou pela decisão mais drástica, decidiu sem perguntar nada a ninguém, mesmo a quem é obrigado a fazê-lo. Entretanto, o país - independentemente do alívio pelo travão posto ao desgoverno de Santana - aguarda inquieto o porquê da dissolução, uma vez que os motivos permanecem ocultos. Será assim tão difícil ser sensato neste país?

Por causa dos rebuçados

Num qualquer café de bairro vislumbro, por entre o balcão, uma taça com rebuçados familiares. A embalagem branca faz-me recuar anos, àqueles felizes e inconscientes anos da infância, de vida singela e provinciana.
O Sr. Pombo era uma mercearia mínima, daquelas em que o arroz se equilibra instavelmente sobre a farinha e o detergente da roupa, em que cada milímetro é ocupado pelos mais diversos produtos, em que é difícil movermo-nos sem atirar as alfaces para cima dos rabanetes. Esta não era a nossa mercearia de mão – saudoso Sr. António –, mas aqui comprava-se, inquestionavelmente, o fiambre. A marca era importante, mas mais do que isso o que o tornava especial era o corte, as lâminas finíssimas de bom fiambre, com a gordura transparente, tudo embrulhado em papel vegetal. Para mim este factor era importante – tinha de pensar nas tostas mistas –, mas aquilo que me fazia rejubilar quando a senhora minha mãe me incumbia da tarefa do fiambre, era uma fantástica vitrina rotativa cheia de rebuçados. Lá em casa os rebuçados não eram unânimes, minha mãe pedia sempre um embrulhinho em papel pardo cheio dos mais caramelizados Santo Onofre, enquanto eu enchia os bolsos com os anizados Dr. Bayard. Ambos eram, e felizmente ainda são, excelentes, longe dos concentrados de corantes e conservantes que inundam as grandes superfícies de hoje. Graças ao Dr. Bayard, a sempre odiada tarefa de fazer recados aos pais era aqui um gosto, talvez por isso tantas memórias me tenham chegado ao ver a taça destes rebuçados naquele café de bairro, talvez por isso mais uma vez tenha enchido gulosamente os bolsos de rebuçados.

2.12.04

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O mais normal é um duelo Sócrates-Santana em Fevereiro: “entre les deux mon coeur ne balance pas, il se reste moribond“.

Insanidades V

(Esta posta já estava alinhavada antes da decisão de Sampaio sobre a dissolução)
Os imbecis que nos governavam queriam proibir de fumar em espaços públicos, nos quais incluíam restaurantes, bares ou discotecas. Será que temos esperança de que com a queda do governo esta inanidade não vá em frente?
Que país magnífico é o nosso, com tanta coisa em que se preocuparem, os políticos resolveram decretar guerra aos fumadores. O ministro da Saúde (agora ex-), que continua sem resolver as filas de espera nos hospitais, que continua ás apalpadelas sobre os sistemas de gestão hospitalar a usar, resolveu aparecer, e que boa maneira de o fazer.
Esclarecendo já, sou fumador. Compreendo todo o incómodo que o fumo causa a quem não fuma. Acho que os não fumadores têm todo o direito a espaços livres de fumo.
O que está em causa é o direito de opção. Todos os locais onde a população em geral se tenha de deslocar devem ser livres de fumo na sua generalidade, mas também devem, sempre que possível, ter zonas de fumadores desde que as mesmas estejam devidamente delimitadas e assinaladas. Restaurantes, bares ou discotecas não são sítios de presença obrigatória dos cidadãos, ninguém é obrigado a levar com fumo, basta escolher um restaurante com zona de não fumadores – não há muitos, mas lembro os McDonalds e os Tibetanos. O que o Estado deveria fazer, se realmente quer fazer algo pelos não fumadores, é estabelecer a classificação obrigatória dos restaurantes, bares ou discotecas em fumadores, não fumadores e fumadores, ou estritamente não fumadores. Assim toda a gente poderia escolher o que mais lhe conviesse sem incomodar os outros. Isto sim era uma medida de um regime de liberdade. O que este governo queria era aderir à tendência fascizante do um certo mundo de hoje, colhendo com os ensinamentos dessa estranha sociedade norte-americana que já tem cidades onde nem na rua se pode fumar.
Hittler quis criar o ser perfeito, a raça pura ariana, saudável e bela. Teremos nós que aceitar que nos imponham uma visão semelhante na sociedade de hoje? Os gordos são olhados de lado, os feios ignorados, agora são os fumadores. Será possível sonhar com uma sociedade tolerante em que o Estado não insista em se meter na vida das pessoas?

Insanidades IV

O primeiro-ministro foge, a meio de um mandato legítimo de quatro anos, para um cargo de prestígio unicamente pessoal, disfarçando a ambição com o suposto interesse para o país de ter um presidente da Comissão Europeia. O Presidente da República ouve metade da população portuguesa e decide manter a Assembleia e a maioria, chamando-a a formar governo. O Presidente da Câmara de Lisboa, que começava a dar sinais de desgaste do cargo, é surpreendentemente chamado a dirigir os destinos da nação. A “inteligentzia” entra em epilepsia e esgota os adjectivos e insultos contra o senhor. O governo toma posse e o líder do segundo partido da coligação não esconde o espanto ao saber no próprio dia que tem de gerir o Mar. Mal toma posse o governo tem de se haver com fogos, mesmo aqueles que nada tem a ver consigo. A Ministra da Educação herda um programa de colocação de professores com o qual nada tem a ver, no entanto consegue gerir a situação crítica com uma subtileza e capacidade política que terão deixado engasgado até o primeiro-ministro. Há uma explosão numa refinaria e o Ministro do Ambiente anuncia as conclusões da investigação sobre o caso com dados comprometedores sobre a empresa – muito bem –, o ancião Ministro da Economia não gosta e o ambiente gela. O Ministro “de qualquer coisa” Gomes da Silva (por acaso amigo pessoal de Santana) exige contraditório a um comentador político, esse comentador por acaso é Marcelo, que apesar de ser do PSD é dos que mais arrasa a desgovernação de Santana. Marcelo sai por alegadas pressões censórias sobre a TVI. Abre-se uma crise sobre a liberdade de expressão que se agrava com a tentativa de criação de uma central informativa do governo. O gabinete do primeiro-ministro resolve desmentir uma notícia sobre uma sesta, dando um relevo interessante ao facto. Chega a hora de apresentar o orçamento e, num dia os impostos descem, no outro não, os salários vão subir, talvez não, Santana e Baião dizem e desdizem durante uns dias, ninguém sabe o que se passa e como vai ser de facto o orçamento. No fim os impostos descem, os salários e as pensões sobem e é um orçamento de contenção? O ministro “de qualquer coisa” Chaves (por acaso amigo pessoal de Santana) diz, aquando de uma remodelação que o abrange, que tinha trabalho a mais que era bom redistribuir tarefas dentro do governo, dias depois (apenas quatro) diz que não gostou da remodelação e da forma como foi conduzida, diz que não o deixaram trabalhar na coordenação do governo e que no fundo nada fazia e faz críticas ferozes quando se demite. Parece que outro Ministro (Arnaud) também estaria de saída e que estaria em confronto com o ancião Ministro da Economia. O primeiro-ministro adia a tomada de posse porque tem de assistir ao casamento da filha da sua chefe de gabinete. Como uma gota que transborda o copo o Presidente resolve dissolver a Assembleia. Parece que o argumento será a instabilidade económica, mas a Assembleia só será dissolvida após aprovar o orçamento...
Apenas passaram quatro meses e tudo isto se passou – e mais algumas coisas que me esqueci –, até com o Verão pelo meio! Alguém que não vivesse em Portugal e lesse estas linhas pensaria tratar-se de um romance político passado numa República de Bananas…

26.11.04

Insanidades III

O presidente da Câmara de Lisboa, apesar da figura cinzenta que ostenta, trazia consigo uma certa imagem de competência. Não obstante ser amigo de Santana, as suas passagens por Câmara e Governo deixaram um rasto do mínimo de sensatez. Mero engano!
Foi anunciada a transferência da Feira Popular para o Jardim do Tabaco. Pobre Jardim do Tabaco, já o ameaçaram com um Casino, já deitaram armazéns abaixo, e agora querem lá pôr o antro do barulho e do néon.
Eu sei muito bem onde é que mandava o Presidente meter a Feira Popular, era até no mesmo sítio onde o mandava meter o túnel do Marquês, claro que se completaria isto com um açoitamento na praça pública e imediato exílio compulsivo.
Primeiro foi Monsanto, essa réstia verde sobre a qual pairam ameaças constantes e para onde os gulosos olhares de Santana e desta criatura não param de se virar. Até lá porem qualquer coisa não vão descansar, se não for a feira vai ser o Jockey, se não for o Jockey hão-de arranjar uma Torre do Siza, se não for a Torre…se calhar ainda propõem uma gigantesca estátua do Timoneiro Santana, erguida pela cidade em agradecimento à iluminada criatura.
Voltando ao Jardim – que para o tabaco haverá outra posta – é melhor o presidente não me aparecer à frente. Outrora um pacifista, dia a dia a minha furiosa esquizofrenia leva-me a instintos agressivos – conquanto ainda não homicidas. Pois bem, a Feira Popular mesmo junto ao rio, os belíssimos néons reflectidos na água, as magníficas músicas dos carrosséis, uma noite feérica em versão de qualidade – segundo a criatura, queira isso dizer o que queira. Será que ele não conhece Alfama, será que o animal nunca foi ao Miradouro de Santa Luzia, ou a Santo Estêvão, será que animal não percebe que Alfama é, na sua genuinidade, a Lisboa mais pura que temos e que as suas vistas sobre o rio são dos melhores cartões de visita que a cidade pode apresentar. Será que o animal não vê que quase todos os turistas passam e adoram Alfama, será que o animal ainda não percebeu o que vai ser a vista de S. Vicente de Fora com “Rodas Gigantes e o Poço da Morte”, será que o animal não percebe a vista nocturna de luzes roxas e verdes reflectidas por entre o fumo das castanhas, será que o animal não percebe que uma estrutura como a feira popular tem que estar numa zona fora do centro histórico e de preferência moderna, será que o animal acha possível aproveitar o Champ-du-Mars (junto à Torre Eiffel em Paris) para roullotes de minis e diversões ruidosas. Que país é este em que inconscientes e idiotas conseguem ser presidentes da Câmara da capital.
Aproveito até para lhe dar mais uma ideia de aproveitamento, vejo o Terreiro do Paço tão desocupado que até se podia aproveitar para lá instalar a pista de carrinhos de choque, com uma ligação ao Jardim do Tabaco em passadeira rolante sobrelevada junto ao rio! E nem me apetece falar do túnel do Marqués, o que até é bom para não partir directamente para o insulto.


Sanidade

Assusto-me a pensar se não me vou tornar um Guevarista, a nossa magnífica direita obriga-me a questionar todo o meu pensamento. Por isso nunca poderei estar num partido, como é que estando no PSD ou no CDS eu poderia dizer maravilhas deste governo, só com a ajuda de muitos químicos. Felizmente vai havendo mais alguém como eu, fiel aos seus princípios, mas com a capacidade crítica de arrasar os que nos deveriam estar politicamente mais próximos. Vale a pena ler o Pedro Mexia e a sua defesa aos infames ataque da direita cega, que depois de aceitar Santana como timoneiro canta loas até aos seus maiores disparates. É aqui.

Insanidades II

A pergunta que as luminárias que nos governam resolveram aprovar para o referendo é absurdamente brilhante. Se fosse um quadro era de Dali, surrealista e cheio de segundos sentidos. Infelizmente falamos de política, infelizmente falamos da única vez que nós portugueses poderemos referendar a Europa. Muita Europa já nos foi imposta, subtilmente, em pezinhos de lã, mas agora os burocratas mores de Bruxelas resolveram que era tempo de referendo.
As mulas da maioria parlamentar, assustadas com a mera hipótese de o “Não” ter votos – apesar de apenas os partidos da extrema-esquerda terem esta posição – criaram um delírio frásico que nem os próprios entenderão. Continuo ingenuamente a acreditar que Democracia é o poder do povo, claro que as mulas não. Fazer uma pergunta tão europeia – aqui louvemos a coerência burocrática – implica que apenas estritas elites a possam responder em consciência, o que faz do referendo uma total inutilidade. Para decidir em “petit comité” decidam os deputados como o têm feito até agora em relação à “maravilhosa Europa”.
Imaginem só os habitantes de Carqueijas-de-cima – que já dificilmente percebem o que é a Europa – a votar na “regra das votações por maioria qualificada” – “Oh! Menina, maioria eu sê o que é, agora qualificada só me alembra do mê clube na Taça. O que é que isso têm a ver com Europa”
A alucinação tomou conta do parlamento e, ou eles enlouqueceram, ou perderam toda a vergonha de manipular a opinião pública, ou andam a distribuir erva da boa pelos corredores de São Bento.
Aqui vai-se votar não, independentemente da pergunta esta gente tem de ter um sinal. Como diriam os nossos revolucionários “Há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz Não”.

Insanidades I

Os dias passam e a sensação de que enlouqueço a olhos vistos, numa vertigem esquizofrénica, assalta-me. Atinjo aquela sensação de não conseguir perceber se é o mundo que me rodeia que se desconstrói em absurdos, se serei eu que me passo de vez.
As duas últimas semanas trouxeram consigo uma alucinante sucessão de disparates que me fazem duvidar sobre uma revolução “Monthy Phythoniana” no nosso país. Antes assim fosse pois seria inconsequente e muito mais divertida.
A tontaria é tanta que nem a consigo resumir numa posta, segue-se então uma série sobre o que me leva a olhar para uma clínica de repouso na Suiça como uma solução para mim, ou para “os outros”.

18.11.04

Sítios

A propósito de uma conversa sobre sítios e objectos e a sua importância nas nossas vidas, tida numa longa noite outonal de lareira, recebi um texto de uma amiga, então presente, que aqui reproduzo.
“Hoje presenciei o enterro de alguém que nasceu, viveu e morreu numa casa velha.
A velhice das casas embora seja muito incómoda tem o seu significado e daí a sua felicidade.
A estética, a vivência e os cheiros de uma casa velha não se explicam, sentem-se, saboreiam-se e vivem-se.
Eu também tenho a sorte de ter uma casa velha, onde a passaram os meus bisavós, avós, tios e mãe, e onde ainda posso encontrar vestígios da sua presença e da sua maneira de ser.
Mas esse alguém cujo enterro presenciei teve outra grande felicidade, a sua morte foi celebrada numa igreja velha e com as vozes dos seus irmãos e sobrinhos.
Não imaginam o amor e a ternura que pode transparecer dumas paredes velhas com caliça a cair.
Não há de facto sítio com melhor acústica.
Na verdade até as tomadas já nem deixam entrar as fichas dos aquecedores modernos que ajudei a arrumar para que não sentíssemos o frio e a humidade daquele sítio velho.
Quando morrer espero que ainda hajam igrejas velhas para poderem celebrar a minha morte, e vozes da minha família para cantarem a subida da minha alma ao céu (ou ao inferno!).”

Lenços de pano

Acredito que esta posta e a anterior sirvam para um imediato carimbar da minha pessoa como um perigoso reaccionário provinciano de cinquenta e tal anos. Tudo errado, mas enfim!
Continuo persistentemente a usar lenços de pano, acho mais bonito, mais agradável ao assoar, mais personalizado nos seus monogramas. Hoje já percorri várias cores, desde os usuais brancos até aos mais esporádicos azuis, recorri ainda a um verde militar de tamanho XL usado quando o desespero surge. O problema é quando as constipações ou ataques de rinite alérgica chegam em força. No caso de agora, em que começo a desesperar pois o monte que está na gaveta começa a descer impiedosamente, mais, tenho de começar a usar os de algodão mais áspero, aqueles que se evitam até ao fim devido aos perigosos efeitos secundários que envolvem narizes ardidos e uma espécie de cieiro nasal que dura como uma pilha Duracell. Usar lenços de papel, pois sim, de vez em quando e com nariz quase em sangue lá cedo, mas só mesmo de vez em quando. Qual Velho do Restelo não abdico das minhas idiossincrasias, e – desculpem, mas tenho de ir buscar mais um pois a torneira nasal reabriu - assim insisto neste hábito que já vai sendo visto de soslaio, como um resquício de viveres arcaicos e desadequados.


Feiras

Outrora um reduto das populações região, as feiras e romarias estão a sofrer uma, provavelmente irreversível, massificação e descaracterização. Males das democracias e igualdades. No passado fim-de-semana passou mais uma feira da Golegã, talvez a maior vítima destas invasões bárbaras a que a proximidade de Lisboa não será alheia.
Cedo me habituei a dividir o ano em etapas, em marcos que pautavam o avanço do tempo, isto no tempo em que ainda queríamos que o tempo corresse. O verão na Figueira e o S. Martinho na Golegã eram em definitivo o ameaço de um Natal próximo, do final de mais um ano. Não sendo criatura de grandes hábitos, pontualidades ou rigores, respeito ainda hoje estes marcos, que como outros me ajudam a passar o ano, a dividi-lo não em meses mas em acontecimentos, não na científica medida dos dias mas em horas passadas em locais previsíveis e de maneiras repetitivas.
Voltando ao fim de semana e voltando, uma vez mais, à Golegã, a minha romaria foi a habitual. Em redor a costumeira multidão, mas onde dantes passeavam cavalos e trajes curtos, agora surgem adolescentes cambaleando ao ritmo do álcool. Sempre foi local de copos, de grandes e históricas bebedeiras, de confusões e pancadarias, mas entre poucos, sempre os mesmos. Os cavalos, afinal sempre o motivo da feira, são cada vez menos, cada vez mais mal montados, rareando como o oxigénio. A feira de vaidades que começou há uns anos, com a praga incontrolável dos acolchoados, encerados e afins, foi hoje substituída por um generalizado estilo desportivo e uma réstia de clássicos capotes e samarras. Agora invasão é outra, depois dos novos-ricos de Lisboa que achavam necessária a sua presença – mesmo sem saberem o que é um cavalo – que deambulavam com os seus trajes de campo, como imagens tiradas de caçadas retratadas nas “Holas” do momento, novos, sempre novos pois apenas eram usados nesta ocasião. Demasiado campestres e populares para outras ocasiões. Os “magníficos” anos do cavaquismo trouxeram esta fase da Golegã, a fase em que a “manga” mais parecia uma passerelle em que senhoras de penas de perdiz em chapéus de feltro e casacos austríacos passeavam enquanto olhavam visivelmente enojadas com a presença de cavalos que, incomodativos, teimavam e circular pelas ruas e, imagine-se a indignidade, atreviam-se a sujá-las. O desprezo de alguns pelo evento começou aqui, e compreende-se.
Hoje são os bárbaros “teenagers”, fartos das noites citadinas, que sobem ao campo com o digno, e edificante, propósito de beber até à morte, ou, sem exagero, até cair. Onde antes pontuavam forcados provocadores e quantas vezes violentos, estão hoje “pseudo-surfistas”, “dreads” ou “skaters” num aparente erro de “casting”.
Pouco democrática é o que parecerá a alguns toda esta verborreia. Não será essa a ideia, mas para quem se habitua a certos rituais e os olha como assumido conservador, o destruir do nosso imaginário é sempre algo que nos revolta. Acho muito bem que todos possam fazer o que lhes apetece, agora reservo-me o direito de não gostar que essa liberdade choque com a minha, assumo que restritiva, liberdade. Claro que apesar de tudo isto teimo em cumprir o ritual, em reencontrar amigos muitas vezes esquecidos, em passar divertidas noites com longas conversas regadas a água-pé (quando se descobre alguma boa) por entre a neblina das castanhas assadas, em ver belos cavalos passeando na manga, em ver – quando consigo – a derriba na festa de campo, em passar horas de genuína diversão, em ver magníficas meninas de samarra e com ar desempoeirado isto, é claro, apesar das invasões dos bárbaros.

17.11.04

Cabala

Ontem o país acordou com a revelação, por quase todos os meios de comunicação, de que a coligação estava em crise e em vias de terminar. Curiosamente ainda não ouvi falar de cabala. Fosse a notícia sobre a esquerda e aposto que a palavra já teria soado com estrondo.

15.11.04

S. Martinho

Diz povo que devemos estar agora a provar o vinho, dizem os enólogos que não, que nem pensar em tamanho disparate. Na dúvida temos sempre o genuíno e popular abafadinho para acompanhar umas castanhas estupidamente assadas. De preferência dentro de uma lareira e com um frio fim de tarde pela frente.