4.4.05
Parabéns
Jacinto chiclana(1965)
Me acuerdo. Fue en Balvanera,
en una noche lejana
que alguien dejo caer el nombre
de un tal Jacinto Chiclana.
Algo se dijo también
de una esquina y un cuchillo;
los años no dejan ver
el entrevero y el brillo
Quién sabe por qué razón
me anda buscando ese nombre;
me gustaría saber
cómo habrá sido aquél hombre.
Alto lo veo y cabal,
con el alma comedida,
capaz de no alzar la voz
y de jugarse la vida.
Nadie con paso mas firme
habrá pisado la tierra;
nadie habrá habido como el
en el amor y en la guerra.
Sobre la huerta y el patio
las torres de Balvanera
y aquella muerte casual
en una esquina cualquiera.
Sólo Dios puede saber
la laya fiel de aquel hombre;
señores, yo estoy cantando
lo que se cifra en el nombre.
Siempre el coraje es mejor,
la esperanza nunca es vana;
vaya pues esta milonga
para Jacinto Chiclana.
1.4.05
Coisas da vida boa
Coisas da vida boa
31.3.05
Iogurtes
30.3.05
Referendos II
Referendos I
Diálogos Imaginários
– Com certeza menino.
28.3.05
Páscoa passada
Sexta-feira
Chegada a tempo da tradicional procissão do enterro, cada vez mais humilde mas sempre emocionante. Este ano sem o barulho das matracas que abriam o cortejo, avisando o povo que ia passar, que o enterro de Cristo ia passar. As matracas que em pequeno temia e me deixavam quase em êxtase reverencial perante a passagem da procissão. Os tempos mudam. Permanece a espera silenciosa, respeitosa, acendendo velas ás janelas. A passagem da procissão, com os seus cantos tristes, com a solenidade devida ao momento. Para quem não crê, talvez só as procissões majestáticas de Sevilha possam despertar algo, para quem crê, um momento simples de devoção pode ser suficiente para deixar algo.
Sábado
Acto de insanidade, resolvo arrumar gavetas e armários atulhados. Animadamente vou juntando postais ou selos de colecções esquecidas, encontrando papéis que me remetem para tempos passados. Espanto-me com a quantidade de coisas que podem estar numa gaveta, nas memórias que se guardam sob as mais variadas formas. A meio da tarde grito sozinho, em volta o caos está instalado e começo a recear que afinal vou acabar a atirar tudo para os armários sem ordem nem arrumação. Sustenho o desespero e lá consigo melhorar o estado das coisas. Sou um desarrumado por excelência e só concebo arrumações radicais, do estilo tirar tudo e ser forçado a organizar, custe o que custar.
Domingo
Descanso sereno. A província deixa o tempo ser arrastado com calma, muita calma. O jantar será o habitual caos familiar, a tarde um vagabundear pela casa tranquila.
23.3.05
Televisão
O Tempo
Parabéns
21.3.05
A chuva
17.3.05
Sol
16.3.05
Cuidado
Santana parece envolto numa qualquer loucura, que hesito a atribuir a álcool ou drogas, desde que se tornou Presidente da Câmara de Lisboa. As suas decisões são erráticas, incompreensíveis, disparatadas. Obviamente que se deveria remeter a um silêncio cauteloso e a deixar o tempo passar. Assim não quis. Pagará Lisboa, pois com apenas alguns meses de mandato – até a uma provável recandidatura – vão-se avolumar as medidas em cima do joelho, as tontarias mediáticas, os outdoors a crescerem como cogumelos. Lisboa pagará, pois é a vítima mais fácil para que a Vítima se vingue que quem o vitimizou. O Guerreiro-Menino precisa de guerra e a capital irá ser um belo palco de batalha. Vamos esperar avisados, começando já a estruturar guerrilhas urbanas para impedir torres em Alcântara e mais túneis disparatados, e a criar uma brigada anti-outdoor com o objectivo de dar um prémio a quem mais outdoors conseguir deitar abaixo.
14.3.05
Bom sinal
Regresso
O nosso país está diferente, com um novo governo PS a tomar posse com Freitas do Amaral como ministro e com o Porto a perder em casa 4-0 (vou alegar amnésia para não falar do jogo de ontem em Alvalade). O sol primaveril continua e a seca ameaça ser longa e catastrófica. Falando em ameaças, parece possível que Santana volte à Câmara de Lisboa e fala-se num referendo sobre o enorme buraco do Marquês.
Diálogos Imaginários
– Como está menino? As férias foram boas?
– Excelentes Charles, excelentes.
– Deixe ver as malas para tratar das suas coisas
– Obrigado Charles, bem sabe que odeio desfazer malas.
4.3.05
Férias
Diálogos Imaginários
– Não é necessário Charles, confio em si. Pode fechar as malas.
2.3.05
Coisas da Vida Boa
Um pequeno-almoço tranquilo, em frente ao computador e em passeio pela blogosfera. Na mesa um Kousmichoff Prince Wladimir bem quente e umas torradinhas de pão saloio com manteiga e queijo da Ilha. A ser assim, o começo de um dia até pode ser uma actividade suportável.
Diálogos imaginários
- Deixe ai ao lado Charles, quando acabar o pequeno-almoço já os vou ler.
1.3.05
Masoquismo
Acho que todos teremos um pouco saudável de masoquista, pelo menos assim o espero. Ao ver a quantidade de gente que estava ontem em Alvalade, percebo que rapidamente esgotaríamos todos os psiquiatras de Portugal e Espanha se assim não fosse: saudável, apesar de masoquismo. Até a alma se me gelou. Ao menos foram quatro golos e lá voltámos ao primeiro lugar.
Blogosfera
Actualizações aqui ao lado. Boas vindas a novos blogs. Agradecimentos ao Insurgente e ao Lobi do Chá pelos respectivos links. Ao segundo aproveito para invejar o nome, isto enquanto decido entre um Darjeeling (segunda colheita) e um Assam.
28.2.05
Clint
Ontem o grande vencedor dos Óscares foi Clint Eastwood por “Million Dollar Baby”. Ontem o canal Hollywood fez o favor de passar “Meia-noite no Jardim do Bem e do Mal”. Obrigado Clint.
Não gosto de boxe, torna-se-me mesmo difícil de perceber como se pode gostar deste desporto. Talvez por isso tenha ido com a minha profunda fé Eastwoodiana um pouco abalada ver “Million Dollar Baby”. Claro que deveria saber que a fé, quando existe, devia ser quase inabalável. O filme é um prodígio e, quanto ao Clint, acho que se devia aprovar a clonagem para perpetuar o seu talento. O argumento levava a prever um lacrimal espectáculo indicado para donas de casa urbanas, de vidas frustradas, poderem carpir a sua vida ao longo do filme. Claro que isto se passaria caso fosse entregue a outro realizador, nas mãos de Eastwood transforma-se em pura magia. Para além de muito mais méritos que se lhe podem apontar, há um que o distingue: a capacidade de fazer um filme inteiro na corda bamba do emocional e do lacrimal, sem que nunca caia para o lado lamechas; basta lembrar “Um Mundo Perfeito” e “As Pontes de Madison County”.
Ao rever “Meia-noite no Jardim do Bem e do Mal” lembrei-me de que este filme, ao contrário do que ontem triunfou, conseguiu dividir opiniões que oscilaram entre o excelente e o chatíssimo. Confesso que o acho magnífico, uma subtil crítica social ás pequenas cidades onde tudo pode o que pode acontecer, de facto acontece, mesmo que não se saiba. Aqui Clint não moralizou e deixou um ambíguo final onde pensamos se o mal triunfou, ou se realmente era mal, ou se estávamos na meia-noite que separa o mal do bem.
Óscares
Para o melhor actor a vitória foi óbvia, digo isto sem ter visto o filme, mas para saber quem ganhava não era preciso, a Academia é muito previsível nestas coisas.
Pena que o argumento de “Before Sunset” não tenha ganho, sempre era uma menção honrosa para esse filme maravilhoso.
Diálogos Imaginários
- Com certeza menino, e faço sumo de tangerina ou fica só pelo chá.
Coisas da Vida Boa
24.2.05
Presente
22.2.05
Blogs
21.2.05
Fim-de-semana em curtas
Ontem falou-se muito de emigração. Sugestões de uma ilha comprada colectivamente no Brasil ou uma proposta de sociedade para abrir uma livraria de viagens em Bath ou Brighton. Claro que tudo se manterá, pelo menos por agora, como uma vaga miragem a que falta a necessária dinâmica para concretizar.
Portugal foi embalado no vácuo. Lentamente abriremos a embalagem e então vamos perceber o que nos espera. Começou ontem no discurso de vitória, se continuar assim prevejo o pior.
A vitória do PS foi retumbante, incontestável, arrasadora. As comemorações modorrentas e tristes. Em Lisboa costa que umas centenas passaram no Rato, na minha terra duas fugazes buzinas interromperam o silêncio da noite. Lembro que há uns anos – nas vitórias de Cavaco – as ruas foram entupidas por aglomerações de milhares de pessoas e caravanas intermináveis.
A noite passada foi intranquila devido a uma crise de asia, fica por perceber se devido aos resultados das eleições ou ao whisky com Castelo, ou talvez a ambos.
17.2.05
Eleições
Ainda assim há quem pense votar neles, com tudo isto ainda há quem fale em votos úteis, com tudo isto ainda há quem deixe de lado o voto convicto, com tudo isto eles continuam, e continuarão a ser, os donos e senhores do poder em Portugal.
Não conheço ninguém – fora dos partidos – capaz de ver quaisquer superiores qualidades em Sócrates ou Santana, no entanto sei que muitos votarão neles. No final, em frente ás urnas, insistem em dar o voto a quem, pelo menos eu assim acho, não o merece.
O voto em branco é sempre uma opção, por aqui muito apreciada. O protesto é dobrado em papel e expresso contra todos. Votar em branco é dizer que ninguém nos convenceu, que ninguém merece o nosso voto, mas que nos damos ao trabalho de nos deslocar para votar e mostrar o nosso desagrado. Agrada-me. Fora esta opção, tenho para mim que o voto inteligente e óbvio de alguém das direitas teria de passar pelo CDS. Nas esquerdas as opções até são mais vastas, desde a demagogia radical do BE ao comunismo humano do PCP de Jerónimo de Sousa, passando pelo sempre pertinente PCTP/MRPP de Garcia Pereira. Opções até não faltam, não fora a obsessão de todos quererem votar num primeiro-ministro não se contentando com um voto convicto para um parlamento, que, no fundo, é o que de facto estamos a eleger.
Breves de campanha (2)
Sócrates resumiu tudo sobre a sua candidatura a primeiro-ministro quando no debate disse (referindo-se à reforma da Segurança Social): “Mas nós não propomos nada, nós não propomos nada. Apenas propomos que se estude…”
Insisto que, à medida que a campanha avança, aumenta a minha simpatia por Jerónimo de Sousa. Acabemos depressa com este disparate.
Momento delicioso quando Paulo Portas apresentou no debate o esquema com bonequinhos sobre o sistema de saúde. Talvez este seja o caminho, apresentar as ideias políticas na forma de livros infantis, pelo menos seria menos enfadonho e mais esclarecedor.
Carmelinda Pereira ainda existe, assim como o POUS. Fantástico.
Inverno
15.2.05
Este Inverno
Voltava eu à banalidade da minha vida, quando mais um desastre me sobressaltou a existência: a minha mulher-a-dias está de gripe. Não bastava eu, não bastavam alguns amigos, até a pobre da senhora tinha de cair de cama. Controlo os instintos mais egoístas e insensíveis e desejo sinceramente as melhoras. Claro que por dentro estou tão abalado como uma vara de vime: a pilha de roupa acumulada, o pó por limpar, a casa de pantanas. Como diria o desgraçado, e irritante, Calimero: E´ un´ingiustizia però!
14.2.05
Fumadores
10.2.05
Breves de campanha
As certezas na vida são poucas, mas eu agora tenho uma, absoluta. Vamos ter um mau primeiro-ministro a partir de 20 de Fevereiro. Por outras palavras: vamos ficar entregues (uma vez mais) à bicharada.
Votem meus amigos, votem. Agora não se enganem, as iniciais PS são de Puro Sacrilégio (mesmo que seguidas por outras letras).
A brigada SS vai-nos governar. Socorro.
A desgraça é tal que dou por mim a olhar com candura para Jerónimo de Sousa. Durasse a campanha muito mais tempo e auto interditava-me para não correr o risco de votar nele.
Agradecimentos
O Impensável lembra Álvaro de Campos e deixa um seu poema para a Charlotte (as melhoras de quem passou – e acho que ainda está a passar – o mesmo) e para mim. Não é que alivie muito mas sempre ajuda. Hoje lembra o casamento do príncipe Carlos numa perspectiva que me agrada. Até consinto que não tenha sido um marido muito exemplar, mas transparece uma simpatia inegável. Gosto do seu ar vagamente aéreo, do que são as suas preocupações e do seu aparente alheamento. No mundo chato e taciturno de hoje é bom haver que não se leve demasiadamente a sério, especialmente quando teria todos os motivos para o fazer.
Humores
6.2.05
.
3.2.05
Anginas
1.2.05
Gripe
27.1.05
Auschwitz
Deve ser lembrado que houve no mundo, há tão pouco tempo, gente capaz dos mais soezes massacres. Deve ser lembrado que o homem, animal aparentemente racional e civilizado, pode tornar-se num monstro sem que nada o faça prever. Deve ser lembrada a história, sempre um dos melhores meios para aprender e apreender a sociedade. Deve ser lembrado que naqueles campos foram chacinados homens, como qualquer um de nós, que apenas carregavam consigo estigmas rácicos e religiosos. Deve ser lembrado. Hoje. Sempre.
Ontem a Taça
P.S. A lamentar apenas a idiotia de João Pereira que merecia um castigo de alguns jogos – ao contrário da óbvia despenalização do Hugo Viana.
26.1.05
Eleições II
Como céptico militante, já lá vão muitos anos em que insisti em não votar nos grandes partidos. Não por uma necessidade de afirmar a diferença, não por uma atitude obstinada em ser do contra, não para ser original. O voto é um direito que temos e o meu não é fácil de “sacar”, até porque simpatizo grandemente com o branco, numa perspectiva pouco virginal mas antes protestativa. Quando ninguém faz por merecer o meu voto recuso a utilidade, esse conceito desprezível de votar apenas em quem pode ganhar. A simples ideia de olhar para a vitória como um fim absoluto revolve-me as entranhas. Talvez seja o meu fair-play olímpico que ainda ache que participar com convicção é melhor muitas vezes que ganhar. Na política, a convicção devia valer qualquer coisa, pelo menos ainda vivo na vã esperança que assim seja.
Eleições I
Entre um Palhaço Triste – sempre com ar de vítima, mas pronto a fazer as maiores alarvidades – e uma réplica do Homem Invisível – que tudo faz para que ninguém dê por ele – teremos de escolher o nosso próximo primeiro-ministro. Eu obviamente já decidi, não escolho.
24.1.05
Debates
Curioso
20.1.05
A Praça
Aqui tudo se pode passar e tudo se passa. O amanhecer com a chegada dos jornais aos quiosques e a preparação dos cafés e esplanadas para o pequeno-almoço. Os primeiros transeuntes que passam apressados em direcção ao trabalho ou ao pão. Um pouco mais tarde os estudante que fazem o caminho típico, cruzando a Praça na diagonal. A esta hora o bulício já é intenso, espectáculo para a plateia de esplanadas que, seja em que época for, sempre tem turistas ou locais como espectadores. A manhã passa e as pessoas também, uma certa acalmia vai tranquilizando as arcadas, quebrada inapelavelmente aquando da saída para almoço antecedida por uma tapa. O Cervantes atrai como íman gente para o seu primeiro andar com vista sobre a Praça, do Real sai, sempre que alguém abre a porta, um cheiro apetitoso que nos desafia a um “pincho-moruno”, a Praça torna-se frenética e no centro grupos de jovens sentam-se nos bancos ou no chão, desafiando o tempo em conversas intermináveis sempre observados pelas pedras brilhantes e camaleónicas que os rodeiam. A pouco e pouco todos vão almoçar e - durante a larga hora de pausa que inclui sesta - a Praça é quase abandonada aos turistas, que se espantam com o facto de a cidade inteira fechar para sesta, lojas incluídas. São eles que tomam conta do terreno, com as suas máquinas, as suas exclamações extasiadas, a sua rendição incondicional a uma beleza tão harmoniosa como esmagadora, tão serena como excitante. De repente, quase como se algum despertador tocasse, almas apressadas entram por todos os arcos e cruzam determinadas a Praça. A tarde de trabalho vai começar, ou as aulas como se vê por jovens de mochilas ou capas na mão. A partir daqui é um gradual crescendo em que senhoras de casaco de peles passam em direcção ás lojas ou ao café de meio da tarde e os estudantes vão a pouco e pouco reaparecendo. Tudo se encaminha para que por volta das oito horas a Praça seja um enorme concerto de almas andantes, quase todas em busca de um vinho e da tapa de fim de tarde, outros optando por um chá ou uma infusão mesmo ali ao lado no “La Regenta”. Os bares enchem-se e o barulho torna-se ensurdecedor. Cá fora, por entre os bancos, passa gente sem fim no carrossel do anoitecer da cidade. Após as tapas começa o regresso a casa generalizado, contrastado pelos que insistem em que o tempo não passe, alongando bebidas e conversas. Depois do jantar o ponto mais importante da Praça é o relógio, essa sentinela que durante o dia apenas guia o tempo, passa a ser o ponto de encontro de todos. Em Salamanca não se combina um sítio, combina-se uma hora, porque já se sabe que é por baixo do relógio. Tanto assim é que por vezes é difícil encontrar quem buscamos no meio de tanta gente. Daqui sai toda a gente para a noite, essa parte enorme da vida desta cidade. Aqui se cruzam pares de namorados, bêbados eufóricos cantando, aqui se sentam os desamparados. Aqui se dão românticos beijos e quentes abraços. Por aqui se regressa a casa, divertido, acompanhado, triste e deprimido, sóbrio ou cambaleante. Cedo ou tarde, cruzando já os olhares com quem limpa o chão ou traz os jornais com as notícias de um novo dia.
A Praça é mais que tudo uma vida, uma vida que são várias vidas, vários momentos. Alegrias, tristezas e euforias. Para além disso é bela, belíssima, e a sua pedra acompanha os movimentos das gentes mudando de cor conforme está sol ou uma neblina gelada de Inverno. Aqui a arte é o espaço, uma obra-prima que cruza a escultura com o urbanismo real e vivido, aqui a arte é vivida, é vida.
Inauguração de Salamanca 2002-Capital Europeia da Cultura
Els Comediants
Plaza Mayor, Salamanca, 2002
19.1.05
Campanha
17.1.05
Paula Rego
A melhor forma de seriamente ver uma exposição é com mais uma ou duas pessoas, preferencialmente com os mesmos interesses. Não foi o caso, mas também é divertido dessacralizar os museus e ir acompanhado por um grupo improvável. Vale a pena ouvir “bocas” de quem não entende, não se esforça por entender e faz ainda gala disso. Talvez espicace um pouco as nossas análises, nos obrigue a ir mais além na abordagem ao que vimos, apesar de que com isso se calhar perdemos alguns quadros ou nos envolvemos em estéreis discussões. Divirto-me então em exagerar os meus comentários e estabelecer teorias e análises que extravasam qualquer realidade. A exposição torna-se um divertido duelo de elaboradas expressões assumidamente pretensiosas e alarvidades inenarráveis ditas em voz alta, gerando uma enorme discussão entre amigos. Quem melhor que Paula Rego com a sua arte forte e incomodativa, incapaz de consensos, para se passar uma óptima tarde sempre a oscilar entre a séria visita a uma exposição e uma desconcertante desconversa com um grupo que se conhece bem. Lembro expressões como “não abordas a temática de uma forma construtiva”, em resposta a um “mas o que é isto, nuns quadros a cegonha tem o bico dentro da cabeça e noutros trespassa e saem miolos”, ou a um “é doentio, a velha (avó) está a dar beijos na boca à neta” entre outras pérolas que acabaram num definitivo “tens a sensibilidade de um rinoceronte”. Pode não ter sido brilhante para uma visão mais séria, mas foi infinitamente mais divertido.
Já agora a exposição era muito boa quanto aos conteúdos mas estava arrumada de forma um pouco…desarrumada e com um critério – se é que o houve – pouco compreensível. Valeu pela qualidade dos quadros e da obra de uma artista que não deixa indiferença por onde passa.
14.1.05
Before
Aqui ouve-se Julie Delpy, talvez procurando manter o espírito sonhador de “Before Sunrise”- “Antes do Amanhecer”, revisto após “Before Sunset”-“Até ao anoitecer”. Dois filmes simples, mas simplesmente deliciosos. Porque se procura tanta vez o bizarro e o elaborado quando um excelente argumento, dois bons actores e um realizador inspirado são suficientes para nos deixar a sonhar acordados.
P.S: Estes filmes deviam ser de visão obrigatória nas nossas escolas de cinema, talvez ajudassem a que o nosso cinema não fosse simples, mas de uma forma geral simplesmente detestável por pretensioso.
Odisseias
Antes da deslocação consegui – após quase hora e meia de tentativas, e vários números errados – falar com o serviço informativo que me disse ter simplesmente de preencher o Modelo 2, pagando em seguida o valor. Entrei assim directo no R/C, onde se situa a tesouraria, que estranhamente estava vazia. Expliquei a minha situação à senhora e ela, ao ver que não era a minha repartição e estava fora de prazo, logo me disse simpaticamente: “Tem de ir ao primeiro andar”. Pronto, lá teria de ser. Subi as escadas e comecei a entrar na neura típica – uma fila que se previa para meia hora. Esperei, estoicamente e sem fumar, e chegando a minha vez expus, outra vez, a minha situação. Resposta pronta: “Se o senhor não é esta repartição não está aqui a fazer nada”. Explosão sustida, respirar fundo: “Tem a certeza?”. Ao ver que não me ia embora com facilidade: “Vou ali perguntar a uma colega”. E foi, e também deve ter perguntado como estava a família e se tinha dormido bem. Ao chegar: “Tem de ir ao andar de cima ás execuções fiscais, aí consegue resolver o assunto”. Respirar fundo, e aí vou para mais um lance de escadas e… uma outra fila de mais de meia hora. Aqui penso: fumo ou não fumo. Opto pela segunda, afinal ainda era de manhã. Quando chego ao balcão um funcionário novo e simpático – sem ironias – ouve a minha explicação – sempre podia ter gravado uma cassete –, vai ao telefone falar com a minha repartição, e chega com a sentença final: “Só tem de ir à tesouraria pagar, depois a sua repartição vai ter acesso ao pagamento e envia-lhe a coima.” Agradeci, apesar de que enquanto descia as escadas não ter a certeza de o dever ter feito. Afinal sempre paguei, rapidamente, só com uma pessoa à minha frente. Algo que poderia ter feito quase duas horas atrás, sem ter que conhecer todos os departamentos da repartição, sem perder quase uma manhã inteira no Portugal real. Bom seria que a esquerda percebesse que isto é terceiro mundo, muito mais do que as viagens do Ministro Sarmento a São Tomé. Podemos fazer o que quisermos, mas enquanto o serviço público não funcionar neste país, tudo o resto não vai melhorar o suficiente. Afinal era só mudar um funcionário para fazer triagem à entrada, agora o que diriam os sindicatos de mudar um Técnico de Atendimento Personalizado e Específico para o cargo de Técnico Atendimento e Triagem. Um ultraje, um cercear dos direitos dos trabalhadores, um abuso da entidade patronal, um desrespeito pelas atribuições técnicas do lugar.
13.1.05
Realidade
O mundo que nos rodeia está miserável, cheio de dor e tristeza. Olho à volta e tudo me parece uma etapa para o Purgatório, ou para um Juízo Final inclemente. Nos dias em que desço ao realismo mais perturbante, subitamente acordo, e volto para o cínico – apesar de lúcido – autismo do meu casulo. Não o faço por egoísmo, apenas por uma clara noção de impotência perante a realidade. A existência é cada vez mais experiência alienante, marcada por um distanciamento perturbador.
12.1.05
Vá lá
Família
David Trueba, "Abierto toda la noche"
10.1.05
O Saco de Plástico
Sábado
7.1.05
A Dream of Death
Near no accustomed hand;
And they had nailed the boards above her face
The peasants of that land,
And, wondering, planted by her solitude
A cypress and a yew:
I came, and wrote upon a cross of wood,
Man had no more to do:
She was more beautiful than thy first love,
The lady by the trees:
And gazed upon the mournful stars above,
And heard the mournful breeze.
William Butler Yeats
Os meus livros
Os meus livros (que não sabem que existo)
São uma parte de mim, como este rosto
De têmporas e olhos já cinzentos
Que em vão vou procurando nos espelhos
E que percorro com a minha mão côncava.
Não sem alguma lógica amargura
Entendo que as palavras essenciais,
As que exprimem, estarão nessas folhas
Que não sabem quem sou, não nas que escrevo.
Mais vale assim. As vozes desses mortos
Dir-me-ão para sempre.
Jorge Luís Borges
4.1.05
Novo Parlamento
Há imagens de sonho que me acorrem ao olhar as listas a deputados para as próximas eleições. Pensar ter na Assembleia da República o mau fadista Nuno da Câmara Pereira, esse asno andante que persiste em dizes inanidades sobre todos os assuntos e a quem Santana deu a mão, é uma visão do inferno. Já agora gostava de poder sugerir a Santana os nomes de Artur Garcia e de Maria José Valério, é que já que estamos em maré de incompetências e disparates, ao menos tornemos o parlamento num local divertido. Assim até se podem fazer teatrinhos tipo Quinta das Alarvidades com a Odete Santos e o cortejo revisteiro do PSD. Aproveitando a onda até Sócrates pode repescar alguns elementos como Roberto Leal, Mónica Sintra ou Ana Gomes. O Bloco para não se ficar atrás, e na onda da protecção das minorias, podia arranjar um travesti para fazer playbacks do género “I Will Survive”. O PP pode continuar a colaboração com a Dina, que já vejo a cantar para Mota Amaral: “Peguei trinquei, meti-te na cesta…”.
Já que vai ser mau, ao menos era original conseguir um parlamento Kitsch à séria.
Timoneiro de quem?
Cavaco recusou aparecer num cartaz eleitoral do PSD em que apareciam todos os primeiros-ministros do partido. Tem todo o direito a isso. O que talvez seja estranho é que foi com este partido, do qual tantas vezes parece manifestamente não gostar, que chegou e se manteve no poder. Os laranjas insistem em admirar cegamente quem mais fez por destruir o seu partido com cenas como o tabu – que ajudou a massacrar Nogueira e entregou o poder de mão beijada a Guterres –, o demolidor artigo no Expresso – que foi mais um motivo para Sampaio dissolver o parlamento –, e esta recusa. Será que o partido ainda venera alguém que o despreza e apenas olha para o próprio umbigo? Merecerá Cavaco o apoio do PSD a uma candidatura presidencial? Eu não sou laranja – excepto no que à Ucrânia concerne –, mas tenho dúvidas. A arrogância moral de Cavaco lembra a postura de uma certa esquerda que se julga dona e senhora da moral, que se sente uma ilha de virtudes no meio de um pântano de defeitos. A verdade é que o nosso país é cada vez mais um bar pouco frequentável e com bebidas maradas, mas não me parece que a arrogância distante seja a melhor forma de o melhorar.
3.1.05
Reviver o Passado em Salamanca

Sem Arrependimento
Jamón Ibérico, Payo del Lomo, Pinchos morunos, Tapas, Batatas bravas, Palomas con ensalada, Tortillas con calabacín, Pimientos Rellenos, Lechazo, Solomillos de Morucha, Chuletones de Ternera, Pesquera, Emilio Moro, Cacique-Cola, Vodka-Tónico e outros tantos.
Culpados de um crime assumido, o de gostar mesmo de comer e beber. Afinal para que serve a vida senão para os pequenos prazeres e que melhor forma de atravessar a fronteira entre dois anos do que a comer e beber bem.
Ásia
A desgraça causada pelo terramoto na Indonésia passou ao lado das postas deste blogue, não por indiferença, mas porque perante o sucedido todas as palavras são escassas, inconsequentes e inúteis.
29.12.04
Novo Ano
Não me apetece fazer balanços ou listas dos melhores do ano. Quanto aos blogues, são certamente os que estão aqui ao lado, os que mais gosto, os que mais leio. Quanto ao resto, tenho boas memórias do ano, só que o trabalho que dava pensar e alinhar os melhores é suplantado por este frio fim de tarde e por um Kousmichoff bem quente. Quanto ao próximo ano, o ideal era que fosse melhor que todos os que já passaram, mas num assomo religioso, que seja como Deus quiser. Um Bom Ano para todos.
Dias Provincianos
Gosto destes dias, em que deixo que o tempo seja um apêndice de uma existência completa e visceral com o que nos pertence, afectivamente. O frio cortante mas familiar, que nos obriga à recolha em redor de braseiras ou olhando a lenha a desaparecer nas lareiras. As cartas interrompidas por conversas dispersas, onde se salta subtilmente do último divórcio para o défice, da mais recente criança para os indescritíveis horrores do último terramoto. Os passeios na rua entre cumprimentos de quem não nos lembramos e a passagem pelas poucas lojas da nossa infância que sobreviveram à voracidade da globalização. Aqui sentimos uma aura de protecção, uma alienação quase infantil do mundo.
Amanhã a terra será outra, e no país aqui ao lado espero saltar para um novo ano com boas tapas e uns Riberas, com mais optimismo do que é possível neste comboio descarrilado que se tornou Portugal. O pior será a volta, mas pode ser que a ressaca me impeça de ver o óbvio e que acorde segunda-feira num novo ano sem descer à realidade que nos rodeia.
26.12.04
Outro Natal
Feliz Natal
O Anarcoconservador espera que o Natal dos seus leitores tenha sido excelente e deseja uma continução de Boas Festas para todos.
22.12.04
Natal I
21.12.04
Fair-Play
20.12.04
Uma ideia
Domingo
Re-linque
Com covinhas na cara e um rubor embaraçado, reparo que a Grande Senhora me contradisse e não só não me ostracizou como me re-lincou. Resta-me agradecer, comovido, este meu primeiro re-linque. A posta sobre o deslinque já me valeu uma acusação de choradeira pouco digna por um blogger amigo, fico então num misto de alegria e vergonha, sem saber se me arrependa ou não da mesma. Enfim, como diria o nosso Fugitivo I (novo cognome a usar para primeiros-ministros que fogem): é a vida…
17.12.04
Deslinque
O acto de deslincar é firme, ás vezes ainda mais firme do que o lincar, ás vezes mais fundamentado. Dá trabalho deslincar, só se dá a esse trabalho quem acha que vale a pena. O deslinque é um cartão amarelo, que só não é vermelho porque se pode voltar atrás e re-lincar, algo muito raro. Não conheço re-linques, acho que normalmente quando se deslinca se vota ao desprezo mais profundo o blogue em causa, numa consequência óbvia da desilusão.
A primeira reacção a um deslique é a indignação, a segunda, mais pensada, é a humilhação. Particularmente quando o deslincador é alguém que admiramos, e respeitamos, o deslinque é esmagador, e aí percebemos que a culpa tem mesmo de ser nossa. Para ser deslincado por certo defraudámos um leitor, mais, um leitor do qual somos leitores, mais, um leitor na opinião do qual confiamos. Algo está mal, mas é connosco. Estaremos a escrever pior, a ser chatos e desinteressantes, a ter pouca regularidade? Se calhar tudo isto, se calhar o blogue está mesmo a transformar-se numa merda, se calhar o melhor é fechar para balanço. Aí percebemos que não é bem assim - ou melhor até é, mas negamos a realidade – e então mandamos os deslinques para as urtigas e decidimos continuar. Afinal o blogue só serve para me divertir e esticar os dedos no teclado e não vai ser um simples deslinque – apesar de vir de uma Senhora – a estragar tudo isto.
Como acho que no meio de tudo isto a culpa não é da deslincadora – e tenho de me vingar em qualquer coisa –, vou também deslincar, alguém tem de pagar. Opto então pela versão irónica do Barnabé, que entretanto parece ter acabado. Ele é que paga, e a Grande Senhora continuará aqui ao lado – com a urbanidade aqui apregoada –, pelo menos até ao dia em que acorde como…Ana Gomes.
16.12.04
Já agora

Arte
15.12.04
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14.12.04
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Não é fácil mudar o mundo com palavras, mas mudar alguém é, nas suas idiossincrasias, muito mais importante. A força das palavras é difícil de definir, mas existe sempre, queiramos ou não.
Definitivamente Insanidade
13.12.04
Tremores de sono
9.12.04
Insanidades VI
Por causa dos rebuçados
O Sr. Pombo era uma mercearia mínima, daquelas em que o arroz se equilibra instavelmente sobre a farinha e o detergente da roupa, em que cada milímetro é ocupado pelos mais diversos produtos, em que é difícil movermo-nos sem atirar as alfaces para cima dos rabanetes. Esta não era a nossa mercearia de mão – saudoso Sr. António –, mas aqui comprava-se, inquestionavelmente, o fiambre. A marca era importante, mas mais do que isso o que o tornava especial era o corte, as lâminas finíssimas de bom fiambre, com a gordura transparente, tudo embrulhado em papel vegetal. Para mim este factor era importante – tinha de pensar nas tostas mistas –, mas aquilo que me fazia rejubilar quando a senhora minha mãe me incumbia da tarefa do fiambre, era uma fantástica vitrina rotativa cheia de rebuçados. Lá em casa os rebuçados não eram unânimes, minha mãe pedia sempre um embrulhinho em papel pardo cheio dos mais caramelizados Santo Onofre, enquanto eu enchia os bolsos com os anizados Dr. Bayard. Ambos eram, e felizmente ainda são, excelentes, longe dos concentrados de corantes e conservantes que inundam as grandes superfícies de hoje. Graças ao Dr. Bayard, a sempre odiada tarefa de fazer recados aos pais era aqui um gosto, talvez por isso tantas memórias me tenham chegado ao ver a taça destes rebuçados naquele café de bairro, talvez por isso mais uma vez tenha enchido gulosamente os bolsos de rebuçados.
2.12.04
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Insanidades V
Os imbecis que nos governavam queriam proibir de fumar em espaços públicos, nos quais incluíam restaurantes, bares ou discotecas. Será que temos esperança de que com a queda do governo esta inanidade não vá em frente?
Que país magnífico é o nosso, com tanta coisa em que se preocuparem, os políticos resolveram decretar guerra aos fumadores. O ministro da Saúde (agora ex-), que continua sem resolver as filas de espera nos hospitais, que continua ás apalpadelas sobre os sistemas de gestão hospitalar a usar, resolveu aparecer, e que boa maneira de o fazer.
Esclarecendo já, sou fumador. Compreendo todo o incómodo que o fumo causa a quem não fuma. Acho que os não fumadores têm todo o direito a espaços livres de fumo.
O que está em causa é o direito de opção. Todos os locais onde a população em geral se tenha de deslocar devem ser livres de fumo na sua generalidade, mas também devem, sempre que possível, ter zonas de fumadores desde que as mesmas estejam devidamente delimitadas e assinaladas. Restaurantes, bares ou discotecas não são sítios de presença obrigatória dos cidadãos, ninguém é obrigado a levar com fumo, basta escolher um restaurante com zona de não fumadores – não há muitos, mas lembro os McDonalds e os Tibetanos. O que o Estado deveria fazer, se realmente quer fazer algo pelos não fumadores, é estabelecer a classificação obrigatória dos restaurantes, bares ou discotecas em fumadores, não fumadores e fumadores, ou estritamente não fumadores. Assim toda a gente poderia escolher o que mais lhe conviesse sem incomodar os outros. Isto sim era uma medida de um regime de liberdade. O que este governo queria era aderir à tendência fascizante do um certo mundo de hoje, colhendo com os ensinamentos dessa estranha sociedade norte-americana que já tem cidades onde nem na rua se pode fumar.
Hittler quis criar o ser perfeito, a raça pura ariana, saudável e bela. Teremos nós que aceitar que nos imponham uma visão semelhante na sociedade de hoje? Os gordos são olhados de lado, os feios ignorados, agora são os fumadores. Será possível sonhar com uma sociedade tolerante em que o Estado não insista em se meter na vida das pessoas?
Insanidades IV
26.11.04
Insanidades III
O presidente da Câmara de Lisboa, apesar da figura cinzenta que ostenta, trazia consigo uma certa imagem de competência. Não obstante ser amigo de Santana, as suas passagens por Câmara e Governo deixaram um rasto do mínimo de sensatez. Mero engano!
Foi anunciada a transferência da Feira Popular para o Jardim do Tabaco. Pobre Jardim do Tabaco, já o ameaçaram com um Casino, já deitaram armazéns abaixo, e agora querem lá pôr o antro do barulho e do néon.
Eu sei muito bem onde é que mandava o Presidente meter a Feira Popular, era até no mesmo sítio onde o mandava meter o túnel do Marquês, claro que se completaria isto com um açoitamento na praça pública e imediato exílio compulsivo.
Primeiro foi Monsanto, essa réstia verde sobre a qual pairam ameaças constantes e para onde os gulosos olhares de Santana e desta criatura não param de se virar. Até lá porem qualquer coisa não vão descansar, se não for a feira vai ser o Jockey, se não for o Jockey hão-de arranjar uma Torre do Siza, se não for a Torre…se calhar ainda propõem uma gigantesca estátua do Timoneiro Santana, erguida pela cidade em agradecimento à iluminada criatura.
Voltando ao Jardim – que para o tabaco haverá outra posta – é melhor o presidente não me aparecer à frente. Outrora um pacifista, dia a dia a minha furiosa esquizofrenia leva-me a instintos agressivos – conquanto ainda não homicidas. Pois bem, a Feira Popular mesmo junto ao rio, os belíssimos néons reflectidos na água, as magníficas músicas dos carrosséis, uma noite feérica em versão de qualidade – segundo a criatura, queira isso dizer o que queira. Será que ele não conhece Alfama, será que o animal nunca foi ao Miradouro de Santa Luzia, ou a Santo Estêvão, será que animal não percebe que Alfama é, na sua genuinidade, a Lisboa mais pura que temos e que as suas vistas sobre o rio são dos melhores cartões de visita que a cidade pode apresentar. Será que o animal não vê que quase todos os turistas passam e adoram Alfama, será que o animal ainda não percebeu o que vai ser a vista de S. Vicente de Fora com “Rodas Gigantes e o Poço da Morte”, será que o animal não percebe a vista nocturna de luzes roxas e verdes reflectidas por entre o fumo das castanhas, será que o animal não percebe que uma estrutura como a feira popular tem que estar numa zona fora do centro histórico e de preferência moderna, será que o animal acha possível aproveitar o Champ-du-Mars (junto à Torre Eiffel em Paris) para roullotes de minis e diversões ruidosas. Que país é este em que inconscientes e idiotas conseguem ser presidentes da Câmara da capital.
Aproveito até para lhe dar mais uma ideia de aproveitamento, vejo o Terreiro do Paço tão desocupado que até se podia aproveitar para lá instalar a pista de carrinhos de choque, com uma ligação ao Jardim do Tabaco em passadeira rolante sobrelevada junto ao rio! E nem me apetece falar do túnel do Marqués, o que até é bom para não partir directamente para o insulto.
Sanidade
Insanidades II
As mulas da maioria parlamentar, assustadas com a mera hipótese de o “Não” ter votos – apesar de apenas os partidos da extrema-esquerda terem esta posição – criaram um delírio frásico que nem os próprios entenderão. Continuo ingenuamente a acreditar que Democracia é o poder do povo, claro que as mulas não. Fazer uma pergunta tão europeia – aqui louvemos a coerência burocrática – implica que apenas estritas elites a possam responder em consciência, o que faz do referendo uma total inutilidade. Para decidir em “petit comité” decidam os deputados como o têm feito até agora em relação à “maravilhosa Europa”.
Imaginem só os habitantes de Carqueijas-de-cima – que já dificilmente percebem o que é a Europa – a votar na “regra das votações por maioria qualificada” – “Oh! Menina, maioria eu sê o que é, agora qualificada só me alembra do mê clube na Taça. O que é que isso têm a ver com Europa”
A alucinação tomou conta do parlamento e, ou eles enlouqueceram, ou perderam toda a vergonha de manipular a opinião pública, ou andam a distribuir erva da boa pelos corredores de São Bento.
Aqui vai-se votar não, independentemente da pergunta esta gente tem de ter um sinal. Como diriam os nossos revolucionários “Há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz Não”.
Insanidades I
As duas últimas semanas trouxeram consigo uma alucinante sucessão de disparates que me fazem duvidar sobre uma revolução “Monthy Phythoniana” no nosso país. Antes assim fosse pois seria inconsequente e muito mais divertida.
A tontaria é tanta que nem a consigo resumir numa posta, segue-se então uma série sobre o que me leva a olhar para uma clínica de repouso na Suiça como uma solução para mim, ou para “os outros”.
18.11.04
Sítios
“Hoje presenciei o enterro de alguém que nasceu, viveu e morreu numa casa velha.
A velhice das casas embora seja muito incómoda tem o seu significado e daí a sua felicidade.
A estética, a vivência e os cheiros de uma casa velha não se explicam, sentem-se, saboreiam-se e vivem-se.
Eu também tenho a sorte de ter uma casa velha, onde a passaram os meus bisavós, avós, tios e mãe, e onde ainda posso encontrar vestígios da sua presença e da sua maneira de ser.
Mas esse alguém cujo enterro presenciei teve outra grande felicidade, a sua morte foi celebrada numa igreja velha e com as vozes dos seus irmãos e sobrinhos.
Não imaginam o amor e a ternura que pode transparecer dumas paredes velhas com caliça a cair.
Não há de facto sítio com melhor acústica.
Na verdade até as tomadas já nem deixam entrar as fichas dos aquecedores modernos que ajudei a arrumar para que não sentíssemos o frio e a humidade daquele sítio velho.
Quando morrer espero que ainda hajam igrejas velhas para poderem celebrar a minha morte, e vozes da minha família para cantarem a subida da minha alma ao céu (ou ao inferno!).”



