8.7.05

O Nojo

Ontem, mais uma vez, algumas criaturas tentaram relativizar – embora dizendo que não o faziam – os atentados. Tenho em mim um nojo profundo ao ouvir sempre um “mas” quando falam de terrorismo, acabando sempre a referir o Iraque ou o Afeganistão, a pobreza ou a opressão. Claro que há várias causas, mas para os exterminadores elas não são sequer necessárias, a maior causa é o desprezo e ódio com que olham a sociedade ocidental. Isso é suficiente para que matem indiscriminadamente inocentes e isso, isso não tem nem o mais remoto “mas”.

Combate

O maior combate aos terroristas é não nos deixarmos submeter ao terror. Hoje, vivesse eu em Londres, o Metro era o meu transporte.

Gente

Sexta-feira, à porta do Lux. Uma velha, de ar andrajoso e por quem o tempo passara, destoa de tudo o resto. No meio do bulício da noite faz o seu estranho caminho, passo lento, tranquilo, estranhamente decidido. Enquanto espero alguém sigo-a com o olhar. O lenço na cabeça, colorido, os sapatos antigos como ela. Dirigiu-se à porta. Ao longe, na impossibilidade de me transformar em mosca, imaginava conversas delirantes com o porteiro; Quereria entrar? Pediria para ir à casa de banho? Estaria a perguntar por alguma informação? Seria definitivamente louca? Nada compreendi, apenas a vi voltar a fazer o mesmo caminho em sentido contrário, no mesmo passo tranquilo, pausado mas decidido. Como diria uma amiga minha “Quem seria esta velha que ousou entrar nas brumas da noite?”

7.7.05

Londres

Ia escrever sobre os Jogos Olímpicos e sobre a vitória de Londres sobre Paris, ou melhor, da Inglaterra sobre a França. Ontem a boa arrogância britânica deixou os altivos franceses a chuchar no dedo. A actualidade precipitou-se e agora o motivo passou ao luto, a infame Al Qaeda voltou a atacar. Os assassinos escolheram Londres para um novo round de bombas. O mundo é, cada vez mais, um lugar perigoso.

5.7.05

Investimentos

O governo apresentou o “Grande Pacote” de investimento do Estado. Nada de novo, o betão continua a ser o destino messiânico dos nossos dinheiros e as obras públicas continuam a ser a fuga para a frente para ir resolvendo, provisoriamente, a economia e o desemprego. Teremos o que merecemos, depois das auto-estradas de Cavaco, agora o aeroporto da Ota. Talvez no futuro mais duas pontes em Lisboa e uma grande auto-estrada a ligar Vila Real de Santo António a Bragança. Enquanto isto a economia continua estagnada, a indústria decadente e o choque tecnológico vai sendo uma miragem.

4.7.05

Gente

Entrou com a manhã. Com voz rouca pediu um café, e um bagaço. Cumprimentou as caras familiares em seu redor. Os seus olhos traziam restos de vida, de muitas vidas passadas e queimadas. As mãos eram rugosas, com sulcos de dor. Estaria a começar ou a acabar o dia?

Compras Imaginárias

Sair directo para a FNAC e encher sacos sem fim com livros, discos e DVD. Alucinar publicamente e chegar à caixa num gaguejar nervoso perante a estupefacção da menina que hesita em chamar o segurança ou começar o longo registar das compras.

Coisas que maçam

Ainda não ter saído o segundo volume de DVD’s do “Verano Azul”.

30.6.05

.

Se uma gaivota viesse,
Trazer-me o céu de Lisboa
(...)
Alexandre O'Neill

Pergunta

Ainda não percebi se, caso ganhe o referendo, os abortos serão feitos em hospitais públicos e à custa dos contribuintes? Claro que em caso de resposta afirmativa isso não deverá preocupar o Ministro da Saúde.

29.6.05

Coisas que irritam

As repetições das “Desperate Housewives” de terça-feira estarem atrasadas em relação aos episódios de Domingo.

Prioridades

Na blogosfera só se fala da saída de Daniel Oliveira do Barnabé. O governo, após os erros do orçamento, resolveu insistir no referendo ao aborto até ao fim do ano. Enfim, cada qual com as suas prioridades. Em dias assim sinto-me, de facto, fora do mundo.

28.6.05

Carrilho e Santana. Separados à nascença?

Manuel Maria Carrilho sente repulsa por Santana e por tudo o que ele representa, numa relação de quase obsessão. No entanto vejamos:
Santana teve a pasta da Cultura, Carrilho também.
Santana é presidente da Câmara de Lisboa, Carrilho é candidato.
Santana foi Primeiro-ministro, Carrilho ambiciona ser.
Santana é um enfant-terrible no partido, Carrilho também.
Santana sempre teve relações crispadas com a imprensa, Carrilho anda agora a insultar jornalistas.
Santana sempre casou e namorou com mulheres bonitas, Carrilho tem uma mulher bonita.
Santana era o rei da noite lisboeta (em particular da Kapital), Carrilho não lhe fica atrás (apesar de preferir o Lux).
Santana é uma vedeta do jet-set e aparece amiúde em revistas cor-de-rosa, Carrilho – com Bárbara e Diniz – está a tentar destronar José Castelo-Branco (em capas e disparates ditos).
No fim disto tudo uma pequena diferença, de facto Santana não é culto e admito que Carrilho o seja. Não serão no entanto muitas semelhanças? Depois do populismo genuíno de Santana, o populismo rive-gauche de Carrilho.

Coisas da Vida Boa

Casamentos de Amigos. Apesar de uma inegável e leve sensação de perda.

23.6.05

O que é Portugal?

Depois do Presidente pedir autorização a um Embaixador para fazer uma visita dentro do país, agora veio a Ministra da Educação dizer – por outras palavras – que os Açores não fazem parte da República Portuguesa. Qualquer dia para comprar caril no Martim Moniz precisamos de visto do governo indiano.

Greves

Depois das odes a Cunhal e ao inenarrável Vasco, veio o Presidente atirar-se aos bancos. Agora seguem-se as greves. Portugal entrou num tranquilo PREC do qual veremos como vai sair. Se é que vai sair.

Bach

Apesar de o Impensado me recomendar Haedel, parece que refrescou mesmo. Talvez não tenha sido pelos Concertos de Brandenburgo, mas ontem, após Bach, consegui sair à rua sem a sensação de sufoco. Como até nem desgosto do verão, acho que vou deixar o Handel sossegado, afinal ficar com frio em Junho também seria de mais. Voltarei, como em tantas vezes, aos concertos para piano de Rachmaninov interpretados pelo próprio.

21.6.05

Saudações

Daqui saúdo o Exmo. Sr. Ministro da Saúde pela excelente saúde do próprio e de todos os que lhe são próximos, para além da boa capacidade financeira dos mesmos que lhes permite consultar os melhores médicos fora do Serviço Nacional de Saúde. Só isto pode explicar que ache as filas de espera para operações em Portugal um assunto sem interesse.

Hoje

O ar lá fora está irrespirável. Aqui dentro o som de Jack Johnson faz lembrar calor, mas em fins de tarde depois de um dia de praia. Na areia uma guitarra e umas cervejas, em redor bonitas sufistas regressam após a última onda, ao fundo o sol vai-se pondo e o tempo é uma ilusão.

20.6.05

República das Bananas

Jorge Sampaio, por um qualquer acaso Presidente da República Portuguesa, perguntou ao Embaixador de Cabo Verde se era seguro fazer no Sábado a aparatosa visita ao Bairro da Cova da Moura, por acaso situada em território português. Será isto normal?

Coisas da Vida Boa

“Desperate Housewives” na SIC.

Diálogos Imaginários

– Charles, por favor faça uma limonada fresca com açúcar e uma sanduíche de pão de centeio com queijo fresco.
– Com certeza menino, é só um momento.

Portugal no seu pior


Guimarães, 2005

17.6.05

Sonhar

Fim de tarde, quase noite, e o fresco verde em redor transmite calma. A estrada segue ondulando e desemboca numa pequena povoação. Abro a porta e os frescos dezanove graus obrigam a levar uma camisola para a noite. Entro no Pub e, apesar da falta de fumo, o ambiente convida-me a ficar. Peço um “pint” de Guiness e espero o frio anoitecer. A Irlanda é imagem recorrente em tempos de calor insuportável.

Humor negríssimo

(Há dois dias o trânsito em Lisboa estava insuportável, ruas cortadas em redor da Avenida da Liberdade e da Praça do Chile e engarrafamentos por todo o lado.)
Cunhal foi, de facto, sempre incómodo.

O DN de Quarta-feira tinha capa dupla com Álvaro Cunhal de um lado e Eugénio de Andrade do outro. Nos quiosques a que fui era a imagem do poeta que estava por cima. Será que anda uma onda reaccionária pelos vendedores de jornais?

15.6.05

Geração Hippie

Ouço Joan Baez e recuo para um passado para mim mais do que longínquo. Será que, caso fosse mais velho, teria virado Hippie?

Monsanto, 2003

14.6.05

Verano Azul

(Passa um loira estupenda pela praia)
Tito (em resposta a um comentário de Piranha): “Demasiado para mi body”

Fim-de-semana

Calor tropical e arrastões. Bom para não ir à praia. Assim foi.

7.6.05

Bravo

Para Pacheco Pereira no “Prós e Contras” de ontem. Entre a enervante desonestidade intelectual de Vital Moreira e o seu particular despique com Sérgio Ribeiro e a falta de coragem de dizer o que realmente pensa de Ribeiro e Castro, passando pelo legalismo de Jorge Miranda e as “boutades” divertidas mas inconsequentes de Miguel Beleza, Pacheco foi a voz da lucidez e aquele que mais contribuiu para o esclarecimento das pessoas sobre o Tratado Constitucional Europeu. Haja alguém.

6.6.05

Meteorologia

Estado Líquido. A canícula chegou.

Telemóvel

Ontem fui obrigado a largar o meu pequeno e levemente arcaico telemóvel. O estúpido deu em desligar a qualquer toque, comportando-se como uma jovem menina virgem e frígida perante um perigoso predador. Enfim, não há pachorra para esses filmes e só espero poder ressuscitá-lo para tirar alguma informação que ficou lá. Com a compra de um novo, entrei na modernidade do MMS (que acho que nunca vou usar) e da câmara fotográfica (para a qual tenho dificuldade em encontrar uso). Reconheço que o visor a cores é mais agradável, mas faz-me sentir com um complexo de novo-rico que ainda não sei como vou resolver.

2.6.05

Nee

Saiam tulipas em cascata neste quente dia de Primavera. Mais um “Não”.
E agora, qual será a desculpa? Mais uma vez o descontentamento com o governo? Excesso de haxixe? Demasiado tempo de exposição a quadros de Van Gogh? Falta de montanhas? Será óbvio que assumir democraticamente o “Não” como um simples Não é algo que não passará pela cabeça dos anjos democráticos de Bruxelas.

31.5.05

Pergunta

O nosso Presidente da República diz que – mesmo com o “Não” francês – a Europa não pode parar.
Humildemente pergunto: e porquê?

Coisas da Vida Boa

A nova caixa de DVD’s do “Verano Azul”. Esperam-me agora algumas horas da mais pura nostalgia. Que bom!

30.5.05

Desonestidade

As interpretações delirantes sobre os motivos do voto Não.

Estranheza

Estar feliz por culpa dos franceses.

Não

Sai uma garrafinha de Bollinger e um Foie para comemorar!

Provocação

Sempre gostei de Setúbal. E do Setúbal. E de verde e branco.

Diálogos Imaginários

– Menino, o que se passou na semana passada que quase não escreveu no seu blog?
– Falta de tempo, Charles. Falta de tempo.

24.5.05

Não

Este blog é tendencialmente pelo Não. Quanto ao referendo sobre a Constituição Europeia, não restam dúvidas, este blog é pelo Não. Por isso aqui fica o link para o percursor blog dinamizado por Pacheco Pereira: o Sítio do Não. Para breve mais postas sobre o assunto.

19.5.05

Treinador de Bancada

Para o Sporting, e para mim, a época acabou. Nem quero saber que ainda há um jogo por fazer. No balanço foi uma época do quase e em que numa semana tudo foi ao ar. Nada a que não estejamos habituados, mas este ano podíamos ter chegado ao céu e…foi quase.
Peseiro conseguiu, é certo que só a partir de meio do campeonato, que a equipa jogasse bom futebol, sem dúvida o melhor de Portugal. Fraco consolo. Mais do que a equipa, quem falhou nestes dois jogos foi Peseiro que, depois de conseguir quase tudo, borrou a pintura com asneiras incompreensíveis.
No jogo da Luz entra sem ponta de lança, supostamente deixando Sá Pinto – que não entendo como ainda pode ser titular regular no Sporting – como jogador mais avançado. Claro que não resultou e o Sporting foi absolutamente inofensivo. Até admito que se jogue para o empate, mas pode-se, e deve-se, segurar o jogo de outra forma sem permitir que a outra equipa ganhe confiança e avance no terreno. Foi frango do Ricardo? Claro que foi. Foi falta? Talvez sim, mas não censuro o árbitro por não a marcar. Perdemos bem contra um equipa miserável que sem saber como – mas com vários apoios – ainda vai acabar campeã.
Ontem Peseiro voltou a inventar na equipa inicial. Enakarhire - que até é o melhor central do Sporting - vem de uma lesão e o normal era não ter ritmo de jogo – o que bem se notou na segunda parte –, enquanto Polga, que até já se cansou de disparatar, estava a jogar bem melhor. Tello é dos jogadores em melhor forma, seria justificado remetê-lo a defesa esquerdo? Os russos tinham como maior perigo o contra ataque, facto que até eu que não estudei a equipa sabia, não seria de ter isso em conta? Em todos os cantos ou livres ficava Enakarhire sozinho contra o Love, claro que não podia dar bom resultado e no estádio foi fácil adiantar dois dos golos antes deles acontecerem. Foi confrangedor ver no estádio que equipa teve o jogo na mão e entrou na segunda parte a vir a menos, ao mesmo tempo que Peseiro impassível no banco nada fazia. Parecia óbvio a todos que Custódio devia ter entrado para segurar o jogo pois Rochemback – para mim o melhor em campo – não podia ter pernas para aguentar o ritmo no ataque e na defesa. Lá à frente Sá Pinto foi um total zero durante todo o jogo e só saiu aos 71 minutos. Barbosa não estava em dia sim – e quando assim é já se sabe que é de esperar só meio tempo –, mas Peseiro parece que não viu e ele ficou até ao fim. Douala é – apesar de trapalhão – o desequilibrador do banco do Sporting e só entrou quando tudo estava praticamente perdido.
Peseiro transmite para o público, e imagino que também para os jogadores, uma imagem de nervos e de medo como se o mundo estivesse em vias de acabar. Peseiro teve um trabalho meritório durante a época mas mostrou numa semana aquilo que é, um treinador competente e esforçado, mas sem a garra e o rasgo de um Grande Treinador. Peseiro mostrou que com mediocridade não se chega lá, ficamos quase…

UEFA


Sete da tarde e o telefone toca. Bilhete de última hora – sem encargos adicionais – e apenas três quartos de hora para ir ao Rossio buscar o bilhete e chegar ao estádio. Condução frenética por entre um trânsito louco. Correria alucinada rumo ao metro e do metro ao estádio, o coração ameaçava sair em desespero pelos olhos. Chegada aos dez minutos de jogo. O estádio estava magnífico e só esperei vinte minutos para saltar como um possesso quase caindo bancada abaixo. Até ao fim da primeira parte foi preciso conter a euforia com garrafas de água e cigarros. Depois, enfim, foi a desilusão, a total e absoluta desilusão.

18.5.05

Agradecimentos I

Ao Bernardo Pires de Lima, d' O Sinédrio, pela referência que fez abrir as covinhas do meu sorriso embaraçado e aumentar as contas do Sitemeter. Aproveito para dizer que acho mal que divulguem a saída próxima do “Verano Azul” em DVD, eu já sabia e ando a esconder de forma egoísta porque acho que vai esgotar logo e não queria estar em filas para conseguir comprar. Agora estragaram tudo, já me imagino ao encontrão e à estalada Rua Garrett abaixo para chegar a esse pedaço de nostalgia, revendo depois a Júlia e o Chanquete, o Piraña e o Javi. A música do Verano Azul – que até já foi o meu toque de telemóvel – é o mais directo caminho para o início da minha adolescência e para os tempos em que os finais da manhã de Domingo, para além de existirem, eram momentos imprescindíveis do dia.

Agradecimentos II

Ao Ilhas pelas simpáticas citações de postas aqui do blog.

Agradecimentos III

Ao SG Buiça pelo link para este blog.

Alvalade

Ai hoje! O que será, que será, que acontecerá hoje, à noite por lá?

Delírio

Ontem foi o Dia do Iogurte. Os iogurtes são muito importantes, são mesmo um elemento essencial ao mundo, fundador do mesmo. O que seria de nós sem iogurtes. Sócrates é nosso primeiro-ministro por causa do Iogurte. O Iogurte é como a Força da Guerra das Estrelas, algo de indefinível e poderoso. Eu comemorei o dia do Iogurte, fiz até um desmedido esforço por encontrar Iogurtes, apenas os preferi trocar, mesmo quando os encontrei, por outros produtos. Sou um pouco anarca e não quis seguir a onda, apesar de saber que ontem todos os portugueses comeram Iogurte, aparecendo mesmo brigadas nas escolas a controlar se o Iogurte era ou não comido. Proponho até criar um verbo Iogurtar – Eu Iogurto, Tu Iogurtas, Ele Iogurta, Nós Iogurtamos, Vós Iogurtais, Eles Iogurtam – que se aplicaria à acção de criar factos (vulgo dias) idiotas a pretexto de tudo e de nada: por exemplo, alguém propõe que haja (se é que já não há) o dia da mulher que sofre maus tratos físicos de maridos mais velhos do que as mesmas e com o recurso ás mãos, eu logo responderia estás a Iogurtar!

15.5.05

Campeonato

O Futebol não passou ontem pela Luz. A primeira parte só dificilmente se distinguiria de um Solteiros contra Casados jogado em Alguidares da Beira, a segunda, um pouco melhor, poderia ser um Olivais e Moscavide – Sintrense da Zona Sul da Terceira Divisão. Era o jogo do título, o jogo do ano. Ganhou o Benfica que arrastou por toda a época um futebol miserável, com um oásis no jogo com Sporting para a Taça de Portugal. Perdeu o Sporting porque resolveu ir jogar para o empate – algo que só resulta nas equipas italianas ou na selecção grega – entrando com Sá Pinto e Douala e deixando no banco Niculae e Pinilla. Peseiro merecia ser açoitado na via pública por uma legião de adeptos, no meio dos quais eu surgiria a espalhar sal sobre as suas costas. Escrevi aqui que o Sporting e Peseiro podiam passar de bestiais a bestas em apenas uma semana, neste momento estão bestas, resta quarta-feira para melhorar a desgraça.

13.5.05

Coisas da Vida Boa

Porto Vintage 2002 da Quinta do Vale Dona Maria, cigarros e boa conversa. Ao sair, a brisa nocturna da primavera traz os cheiros de um jardim próximo.

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Monsanto, 2003

Angústia

O jogo é já amanhã. O primeiro de três que me darão cabo dos nervos.

11.5.05

Diálogos Imaginários

– Charles, apesar do tempo enublado acho que está na altura de mudar para as roupas de verão. Podia por favor fazer as trocas deixando algumas coisas de meia estação?
– Com certeza, menino.

Sobreiros

Sinto-me bem ao ver escândalos, como o da Portucale, a vir ao de cima. Todos sabemos que eles existem, afinal alguém tem de pagar as caríssimas campanhas eleitorais. O meu regozijo não advém de uma mórbida vontade de ver gente a ser presa, apenas gosto ter uma leve sensação de justiça. Além disso, se em causa estão dois mil e tal sobreiros, provavelmente mais velhos que os arguidos, que a averiguar-se a culpabilidade sejam condenados, e bem condenados.

9.5.05

Teste

Recebo via “O Quietista” o desafio de responder ao teste de leitura que vem circulando pela blogosfera. Aqui vai:
1-Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?
O “Livro em Branco”.
2-Já alguma vez ficaste apanhado por um personagem de ficção?
Por Corto Maltese, em especial na “Balada do Mar Salgado”.
3-Qual foi o último livro que compraste?
“El Viajero Sedentario” de Raphael Chirbes, “La Deshumanización del Arte y otros Ensayos de Estética” de José Ortega y Gasset, “Harry Potter and the Half-Blod Prince” de J.K.Rowling (encomendado).
4-Qual o último que leste?
“A Handful of Dust” de Evelyn Waugh
5-Que livros estás a ler?
“A Loja do Ourives” de Karol Wojtyla (Andrzej Jawien), “Por Tierras de Portugal y de España” de Miguel de Unamuno.
6-Que 5 livros levarias para uma ilha deserta?
A “Bíblia”, “Antologia Poética “ de Vinicius de Moraes,”Toda a Mafalda” de Quino, os "Lusíadas" de Luís Vaz de Camões e a “Cidade e as Serras” de Eça de Queiroz.
Ou, na perspectiva de livros que SÓ leria numa ilha deserta: “Ensaio sobre a Cegueira” de José Saramago, “Anjos e Demónios” de Dan Brown, “O Zahír” de Paulo Coelho, “Querido Papá” de Danielle Steel, o “Manifesto Eleitoral do Bloco de Esquerda”.
7-A que 3 pessoas vais passar este testemunho?
Não vou passar, sempre gostei de romper estas cadeias.

Ontem III

Após uma derrota, um empate que sabe bem. Vamos ver se hoje é dia de vitória para os lados de Alvalade.

Ontem II

A malta charro juntou-se para proclamar que é o único partido decente em Portugal. A humildade não passa por lá e a presunção abunda. Enfim, a habitual superioridade moral da extrema-esquerda.

Ontem

Passaram 60 anos da libertação da Europa. Talvez muito, talvez pouco tempo. O suficiente para que a Europa deva olhar para o passado e ser prudente nas Uniões de hoje.

6.5.05

Pergunta

Será que agora em vez dos problemas sérios do país se vai falar de futebol? Ao menos seria mais interessante do que falar obsessivamente sobre o aborto.

Grande Sporting

Pelo menos a final já é nossa. Para variar ontem foi um jogo para matar, duas horas de sofrimento para poder explodir em saltos e gritos no último minuto. Não há necessidade de ser assim. Claro que no dia a seguir até gozamos com as angústias da véspera, mas é muito violento suportar jogos destes. Pelo menos a final já é nossa, o campeonato e a UEFA ainda podem ser. Haja alma, Sporting!

5.5.05

Tarde

Esperar o grande jogo do dia ao som de Camarón de la Isla e de Paco de Lucia (“Castillos de Arena”, 1977). Lá fora o Tejo, sempre o Tejo: azul, entre o ultramarino e o Prússia. Pela janela turistas passam, calções de caqui e camisas verdes, máquinas a tiracolo, olhares de espanto.

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Monsanto, 2004

3.5.05

80


Graças ao Sinédrio, entro em recordações dos idos anos 80. Fico na dúvida se os deva achar cruéis por me fazerem ver o tempo que passou, se me deva divertir numa onda de nostalgia alegre. Na dúvida, lembro os desenhos animados do Marco e a sua trágica música, ainda existente lá em casa, num single de vinil estimado como uma raridade. Para ouvir aqui, a letra segue já abaixo:

É num porto italiano
Mesmo ao pé das montanhas
Que vive o nosso amigo Marco
Numa humilde casinha
Ele acorda muito cedo
Para ajudar a sua querida Mamã

Mas um dia a tristeza
Chega ao seu coração
A Mamã tem que partir
Cruzando o mar pra outro país

Foste embora Mamã
Não me deixes aqui
Adeus Mamã
Pensaremos em ti

E tu vais recordar
Como gosto de ti
Se não voltas eu irei

À procura em toda parte
Não importa se for longe
Hei-de encontrar-te

2.5.05

Cartazes

O filósofo Carrilho entrou em campanha. Os seus cartazes parecem vindos dos anos 80 e só faltava a sua troca com um Cavaco de gravata estreita e colarinhos longos. Mau gosto? Não creio. Acho que Carrilho sabe que para a generalidade da população é um intelectual (palavra assassina em Portugal) pedante e insuportável, somente tolerado por ser casado com quem é. Para a “inteligentzia” é um herói, um dos seus que, por entre a Bica do Sapato e as inaugurações, os pode proteger e a quem eles protegem. Só que isto não dá votos. Os cartazes – que Carrilho abominará com toda a certeza – são inteligentes na tentativa de o aproximar do povo, do que vota e faz ganhar eleições. A “inteligentzia” já está ganha, afinal ainda foram uns anos como Ministro da Cultura.

Pini-gol-gol-gol

Ontem mais uma prova superada. Para o Sporting este fim de época é dramático, nos próximos quatro (ou, esperemos, cinco) jogos tudo pode oscilar entre o bestial e a besta, entre a euforia desmedia e a desilusão absoluta. Na dúvida optaria pelas primeiras, que assim seja.

28.4.05

Artigo

Com algum atraso, uma imprescindível referência ao artigo do Miguel Esteves Cardoso no Diário de Notícias de Domingo. Depois de o ler sinto-me um bicho menos raro, ou talvez raro mas bem acompanhado.

Agradecimentos

Novos links de novos blogs. Obrigado ao Cápsula do Sul, ao It’s Our Pleasure, ao Makejeite, ao Barbara Bela e ao Quietista.

26.4.05

Fim-de-semana

Por terras do Alentejo não vi expropriações, apenas ouvi os malditos morteiros que me acordaram – ainda ressacado – na manhã de ontem. Em momentos como estes tenho de conter a vontade de sair para a rua e gritar a plenos pulmões “Viva Salazar”, apenas para provocar a populaça e ter desculpa para começar a distribuir cacetada pelos energúmenos que me acordaram. Claro que, por debaixo do quentinho dos cobertores, me acobardo e acabo com estas veleidades reaccionárias.

Futebol

Numa Liga em que os jogos estão à venda, hesito entre perder o interesse em ser campeão ou ganhar vontade insana de mandar para a cadeia os delinquentes que mandam no nosso futebol. Fair-play só podia ser uma palavra inglesa, e sem tradução à altura.

CDS

No congresso deste fim-de-semana ganhou Ribeiro e Castro, mas ganhou também a política portuguesa. Telmo Correia foi incensado líder pelo aparelho partidário que o “obrigou”, com o seu óbvio consentimento, a suceder a Paulo Portas. Durante dois meses estendeu um tabu, do qual iria emergir como o Messias do partido em pleno congresso (que mania esta de todos os partidos quererem o seu D. Sebastião). Claro que errou, ao conceber a política de forma tão táctica perdeu, e perdeu bem. Não segui o congresso – afinal era fim-de-semana grande –, mas é bom para Portugal que ganhe um candidato contra a estrutura do partido, contra os “sindicalistas do poder” que cada vez mais dominam os nossos partidos. Não sei se Ribeiro e Castro vai ser bom presidente do partido, não sei se me irá levar a votar ou não. Sei que, pela maneira como ganhou, inspira pelo menos uma palavra cada vez mais rara: seriedade. Talvez as suas ideias não sejam as minhas – aliás desconfio que não são –, mas ser eleito para um partido querendo que o mesmo tenha uma doutrina definida é bom, pelo menos sabemos com o que contamos, no meio do pântano político de um país em que as ideias vão sendo raras.

21.4.05

Semana

Tem sido uma semana de confusão mansa, daquela feita de uma sucessão subtil de situações, de alterações à rotina de não ter rotina. A vida altera-se ao sabor de um tempo forçado pelos acontecimentos ou pelas notícias nem sempre boas.

19.4.05

Celtas

Retomo a ala de música celta da minha prateleira, há uns tempos repousada por pouco uso. Na minha reduzida – sempre assim a acho – discoteca, a sua presença é significativa. Ontem voltei a alguns Chieftains, lembrando os pastos verdes e os “pints” de Guiness. Hoje passo por Mary Black, De Dannan ou Clannad. Volto também à voz magnífica de Sean Keane. Penso em pubs de madeira - perdidos em terras isoladas - com o fumo (foi assim que os conheci) entranhado e famílias em bebidas de fim de tarde. Apetece um tele-transporte para Connemara ou Galway.

Futebol

Na modorra desta primavera indecisa valha-nos o futebol. O Sporting lá segue, finalmente estável, com hipóteses de ganhar duas competições. Ontem mais uma vitória. Haja alegria por algum lado e que assim se mantenha.

15.4.05

Grande Sporting

Não é facil aguentar jogos como de ontem. O estádio, apesar de não estar cheio, estava magnífico de animação. O jogo foi de uma intensidade que tirou anos de vida a quem lá estava. Por estranho que pareça, os adeptos sempre acreditaram na vitória impossível, apesar dos brindes arrepiantes da defesa. Na segunda parte a equipa foi buscar forças não se percebe bem onde. Agora só faltam dois jogos até à final de Alvalade, joguem eles com a mesma garra e tudo parece possível. Haja esperança.

14.4.05

Coisas da Vida Boa

Olhar pecaminosamente para um recém-chegado boião de Dulce de Leche, abrir cuidadosamente e atacar, com volúpia, o seu conteúdo à colherada.

Casa da Música

Com algum atraso – pronto, foram só uns anitos – e depois de um pequena derrapagem orçamental – afinal, o que é exceder um orçamento em seis vezes – parece que hoje é inaugurada a Casa da Música. O edifício é realmente uma boa peça de arquitectura, mas será normal que, com tanto dinheiro gasto, ele não possa ser palco de óperas ou bailados por falta de fosso e de teia? Será justificável que o nosso dinheiro pague este buraco orçamental sem que sejam apuradas responsabilidades sobre tamanho disparate? O que está em causa não é a construção do edifício, o problema foi a interminável sucessão de incompetentes que geriram o processo e que permitiram que este quase se transformasse numa Santa Engrácia do século XXI. Como sempre em Portugal tudo é possível, sejam os dinheiros públicos.

E não se calou

Afinal o Sr. Jorge Sampaio abriu as torneiras das suas opiniões e nem a seca lhe dá a prudência de não abusar. Parece que não lhe chega a campanha para o “sim” à Constituição europeia, agora resolveu opinar sobre quase tudo. Segundo as suas sábias palavras, Portugal falhou o referendo sobre a regionalização. Gostaria de perceber o que é falhar um referendo. Será que é não ir de encontro ás suas luminosas ideias? O referendo chumbou e se algo falha na descentralização é a falta de competência dos políticos para a fazerem sem ter de recorrer a uma fórmula democraticamente vetada. Os conceitos básicos da democracia parecem estar arredados da visita de Estado a França, talvez sejam os ares franceses que fazem mal ao nosso anglófilo Presidente. Marquemos de imediato uma visita a Inglaterra para que Jorge Sampaio volte à sua postura fleumática e prudente.

13.4.05

Artigo

Na continuação do post anterior não resisto a duas frases de um artigo “jornalístico” do DN de ontem, da autoria de Fernando Madaíl.

«O "non" das sondagens gaulesas, que está a assustar a Europa, vai marcar as intervenções da visita de Estado de Jorge Sampaio a França, que não hesitou em sublinhar, mesmo no banquete ontem oferecido por Jacques Chirac no Eliseu, que, "no processo de ratificação da Constituição, joga-se o nosso futuro colectivo".»
A assustar a Europa? Eu sou europeu – logo faço parte da Europa – e não estou assustado, estou antes esperançado. Que critérios jornalísticos seguiu esta criatura para achar que, num assunto que em tantos países nunca foi referendado (Portugal por exemplo), a opinião da maioria da população pode ser de susto!

«Afinal, o "cartel" do "non" não se limita apenas aos comunistas e trotsquistas, à extrema-direita e aos soberanistas, mas divide de tal forma o próprio PS que, ontem, o Libération levantava a hipótese da polémica entre os socialistas franceses que são "pró" e "anti" Constituição estar a fazer nascer o "espectro de uma implosão" daquele partido centenário.»
O cartel? Vale mesmo tudo. Agora quem é contra a Europa pertence a uma estrutura organizada de supostos malfeitores. Que pérola do jornalismo. Percebo que num artigo de opinião se possam ter opiniões extremas (basta lembrar Luís Delgado), mas numa peça jornalística não me parece adequado que quase se insultem pessoas. Aliás, até sobre o PS francês – que, goste-se ou não dele, é um partido democrático – se fala como se de um bando de loucos perigosos se tratasse. Com jornalismo assim…

E que tal se se calasse

O nosso Presidente parece querer, à viva força, que eu perca a estima que apesar de tudo lhe tinha. Depois dos sucessivos episódios decorrentes da fuga de Durão, em que o senhor parecia tentar baralhar toda a gente, eis que aparece agora no seu esplendor. Sobre tudo e nada diz que não deve falar, que não deve dar opinião, que deve permanecer neutro. Falemos de rabanetes ou do aborto, de políticas económicas ou de peixe grelhado, o senhor diz que deve ser o presidente de todos os portugueses, esquivando-se de opiniões que extravasem, ainda que marginalmente, o politicamente correcto. Pois, goste-se ou não até é uma posição coerente…se for coerente.
A propósito do referendo da Europa, o senhor decidiu ir a França (em visita de Estado) dar uma perninha na campanha pelo “sim”, tomando parte activa com as suas convictas opiniões. Reacção em Portugal? Nenhuma. A nação assiste impávida ao nosso neutral presidente a fazer campanha eleitoral à nossa custa – sim, não consta que uma visita de Estado a França seja privada –, num assunto que também irá ser referendado por cá. Será que havia silêncio caso o Presidente fizesse campanha pelo “não”?
A Europa permite tudo e os referendos mais vão parecer eleições do Antigo Regime, só que os “democratas” de outrora estão agora na barricada que tenta, por todos os meios, obrigar a populaça a votar nas suas ideias. A Europa é hoje mais do que uma religião, é uma imposição em que vale tudo, e que se vale de tudo. Os políticos perderam toda a vergonha e usam métodos que há uns anos valeriam a qualquer um ser acusado na praça pública de fascista, a ter as paredes de casa pintadas com impropérios capazes de fazer corar senhoras de má vida. Os “democratas” de ontem são os sub-reptícios ditadores de hoje, e o senhor Sampaio melhor faria em estar calado e ficar a passear nos bonitos jardins de Belém, em vez de se passear em campanha por França. Belém não é Versailles, mas haja decência.

11.4.05

PSD

A oposição já tem um novo líder. A avaliar pelo enorme entusiasmo do congresso parece que não vamos precisar de calmantes para adormecer facilmente em Portugal.

Campeonato

Que belo fim-de-semana de futebol, temos campeonato! Ontem em Alvalade o jogo foi miserável, mas ganhar jogando mal até pode ser um bom sinal, numa época em que foram vários os jogos mal perdidos. O que importa é que Sporting já só depende de si, para ser campeão “basta” ganhar todos os jogos que faltam. Haja esperança.

7.4.05

Coisas da Vida Boa

O telefone não toca. Pela janela entra uma brisa com cheiros de primavera. O som de Rodrigo Leão faz esquecer o tempo. Assim, até o trabalho se torna produtivo.

Diálogos Imaginários

(Ao telefone)
– Charles, estou atrasado e vou chegar em cima da hora do jogo. Como vou levar uns amigos, por favor organize os sofás em volta do plasma e prepare uns patês e uns queijos. Confirme também como estamos de vinho branco e de cerveja.
– Não se preocupe menino, vou já tratar disso.

5.4.05

A Noiva

Uma noiva anda pela noite, com um ar vagamente alucinado, ao longo de uma linha de caminho de ferro, o vestido branco é longo e arrasta no chão. Outras personagens, outras cenas. A noiva prossegue o seu caminho, agora vislumbra-se a 24 de Julho em plano de fundo e ela continua no seu passo irregular e cambaleante. Outras personagens, outras cenas. A noiva chega a um edifício – que se percebe ser a estação do Cais do Sodré – e tenta forçar a porta que está fechada, não o conseguindo adormece encostada a um canto. Outras personagens, outras cenas. A madrugada surge e alguém, provavelmente o primeiro passageiro, deixa uma moeda sobre o vestido branco; a noiva acorda e com a moeda paga o bilhete para o cacilheiro; já lá dentro olha o Tejo com olhos vazios.
Podia ser um filme independente, assente na metáfora bíblica do casamento, na fuga ás convenções e aos compromissos. Era apenas um episódio da nova telenovela da TVI. A qualidade está à vista.
Tenho a mania de passar a vista pelos primeiros episódios das telenovelas, fico a par da história e posso assim, em dias de alienação televisiva, ver alguns bocados. O mesmo se passou com esta – “Ninguém como tu” – da qual já sei o que é necessário: há uma família rica que ficou pobre devido a um desfalque na empresa; há a irmã pobre que convenceu a sobrinha a não casar por dinheiro; a irmã rica é má e rancorosa – apesar de bonita, pois é a Alexandra Lencastre; há ainda uma outra irmã. O resto vai andar à volta disto, ou seja, o costume. Não tenciono seguir, mas espero ter o gosto de apanhar mais cenas como a desta noiva, fugida de fresco de um casamento de conveniência, à deriva pelas ruas de Lisboa. Há realmente coisas que vale a pena ver de tão más que são.

Viagem

Ontem estive em Londres. Entrei no Expresso do Oriente rumo a Veneza, mas tive de fazer o troço italiano de autocarro por causa da greve. Apanhei um “ferry” até Atenas, passando pelo canal de Corinto, e depois até Alexandria. Não enlouqueci, apenas comecei a ver a “Volta ao Mundo em 80 Dias” – programa da sempre irrepreensível BBC, com o sempre divertido Michael Palin – que a revista “Volta ao Mundo “, em boa hora, resolveu oferecer (por uns 5 Euros) aos seus leitores.
A nova mania de os jornais e revistas servirem de pretexto para vender DVD’s, enciclopédias e dicionários, coleccionáveis de todo o tipo e até, imagine-se, faqueiros e serviços de pratos, é estranha. Confesso que me irrita um pouco chegar à tabacaria e ficar a hesitar se compro ou não mais um DVD e se começo ou não uma certa colecção, perante as meninas que já me vão conhecendo e tentam impingir tudo o que vai saindo. Hoje é uma praga e, se fizermos contas e comprarmos tudo o que até nos apetece, uma renda ao fim do mês a acrescentar à habitualmente dispendida em jornais e revistas per si. É o novo marketing de imprensa, em que o jornal é o que começa a contar menos. Claro que é chato, mas também é bom conseguir edições difíceis de encontrar e por um preço mais simpático. Ontem foi Londres, daqui a umas semanas será um Houaiss completo e pronto a consultar.

4.4.05

Pergunta estúpida?

Porque será que o Sporting não joga sempre como no Sábado?

Parabéns

A Bomba Inteligente já existe há mais de dois anos. Os parabéns vão daqui com um poema de Borges que, soubera eu como o fazer, deveria ir acompanhado da música de Piazzolla.

Jacinto chiclana(1965)

Me acuerdo. Fue en Balvanera,
en una noche lejana
que alguien dejo caer el nombre
de un tal Jacinto Chiclana.

Algo se dijo también
de una esquina y un cuchillo;
los años no dejan ver
el entrevero y el brillo

Quién sabe por qué razón
me anda buscando ese nombre;
me gustaría saber
cómo habrá sido aquél hombre.

Alto lo veo y cabal,
con el alma comedida,
capaz de no alzar la voz
y de jugarse la vida.

Nadie con paso mas firme
habrá pisado la tierra;
nadie habrá habido como el
en el amor y en la guerra.

Sobre la huerta y el patio
las torres de Balvanera
y aquella muerte casual
en una esquina cualquiera.

Sólo Dios puede saber
la laya fiel de aquel hombre;
señores, yo estoy cantando
lo que se cifra en el nombre.

Siempre el coraje es mejor,
la esperanza nunca es vana;
vaya pues esta milonga
para Jacinto Chiclana.

Luto

Por um Grande Homem.

Caravaggio, Descida da cruz

1.4.05

Coisas da vida boa

Esplanada da Cerca Moura. Lisboa aos pés e o Tejo com vários azuis a brilhar. A Igreja de Santo Estêvão branca e dominante. Um café tranquilo, esquecendo o tempo e os carros que passam.

Coisas da vida boa

Lisboa, ontem. Sol de Primavera. Adamastor ao fim de tarde no meio do caos freak e do cheiro a charros. Assumir o fim do dia tranquilamente, esperando que os sobressaltos das filas de trânsito se diluam. Uma cerveja preta, conversa e o pôr-do-sol.

31.3.05

Iogurtes

Ontem foi dia de passagem no supermercado. No decorrer do abastecimento corrente resolvo comprar uns iogurtes, algo que durante anos deixei de consumir mas que agora voltei esporadicamente a comprar. Olho em volta e um suave terror me invade, a variedade é tanta que bloqueio. Há uns anos, quando os iogurtes eram banais lá em casa, a escolha quase se resumia aos Yoplait, variando entre morango ou pêssego, os naturais (que sempre achei desenxabidos) ou os exóticos de coco. A mãe, de vez em quando, lá dava uso à iogurteira e tentava que a produção caseira desse vazão para o gasto. Até que eram comestíveis, se lhes juntássemos mel ou algo para dar graça. A chegada do “Pecado dos Anjos” foi acontecimento, e de pronto se tornaram imprescindíveis. Lembro também os Adágio, com compota no fundo do boião e que se misturava à colher. Foi aí que deixei os iogurtes. Ontem, como em outros dias recentes, a escolha ia dos “light” aos com “bifidus activo” (que mais irão inventar), dos líquidos com chá verde e ginseng aos energéticos com guaraná. Parecia um laboratório em que o difícil é encontrar algo normal. Depois de um bloqueio, lá passei calmamente os olhos pelas prateleiras até encontrar uns frascos de iogurte líquido, normal, de morango. No meio do caos lá veio a simplicidade. O mundo de hoje não facilita a tarefa de quem procura coisas simples, tentem comprar iogurtes e logo verão.

30.3.05

Referendos II

Segundo as sondagens, o referendo sobre a Constituição Europeia corre o risco de não passar em França. Para além de uma custosa identificação com o povo francês fica uma dúvida: o que irão os burocrato-ditadores de Bruxelas fazer para “obrigar” à aprovação da Constituição? Referendos consecutivos como na Dinamarca há uns anos atrás? Para Bruxelas a ideia de Europa é algo de inquestionável, e os referendos meros pró-formas para iludir a populaça. Esperarei para ver, agora com alguma esperança num povo que poucos motivos de agrado me costuma dar.

Referendos I

Portugal prepara-se para dar prioridade ao referendo do aborto sobre o referendo à Constituição Europeia. Há medidas que dizem bem do país em que vivemos.

Diálogos Imaginários

– Charles, hoje gostava de lanchar na varanda. Pode trazer chá na mesma, mas queria também água fresca.
– Com certeza menino.

28.3.05

Parabéns

O Fora do Mundo faz um ano. Parabéns a três dos mais interessantes bloggers portugueses.

Páscoa passada

Fim-de-semana na terra. A Páscoa assim o obriga, sempre que possível.
Sexta-feira
Chegada a tempo da tradicional procissão do enterro, cada vez mais humilde mas sempre emocionante. Este ano sem o barulho das matracas que abriam o cortejo, avisando o povo que ia passar, que o enterro de Cristo ia passar. As matracas que em pequeno temia e me deixavam quase em êxtase reverencial perante a passagem da procissão. Os tempos mudam. Permanece a espera silenciosa, respeitosa, acendendo velas ás janelas. A passagem da procissão, com os seus cantos tristes, com a solenidade devida ao momento. Para quem não crê, talvez só as procissões majestáticas de Sevilha possam despertar algo, para quem crê, um momento simples de devoção pode ser suficiente para deixar algo.
Sábado
Acto de insanidade, resolvo arrumar gavetas e armários atulhados. Animadamente vou juntando postais ou selos de colecções esquecidas, encontrando papéis que me remetem para tempos passados. Espanto-me com a quantidade de coisas que podem estar numa gaveta, nas memórias que se guardam sob as mais variadas formas. A meio da tarde grito sozinho, em volta o caos está instalado e começo a recear que afinal vou acabar a atirar tudo para os armários sem ordem nem arrumação. Sustenho o desespero e lá consigo melhorar o estado das coisas. Sou um desarrumado por excelência e só concebo arrumações radicais, do estilo tirar tudo e ser forçado a organizar, custe o que custar.
Domingo
Descanso sereno. A província deixa o tempo ser arrastado com calma, muita calma. O jantar será o habitual caos familiar, a tarde um vagabundear pela casa tranquila.