9.1.06

Idiossincrasias

“James Lins. O Playboy que não deu certo.”, de Mário Prata, e “O Príncipe e a Lavadeira”, do Padre Nuno Tovar de Lemos, ao mesmo tempo na mesa-de-cabeceira.

.


Jardins de Monserrate, Sintra, 2003

Blogosfera

Novos blogues com passagem directa para a coluna do lado: o regresso de Pedro Lomba no “Vício de Forma” e a estreia de “O Espectro” de Constança Cunha e Sá.

6.1.06

Dia de Reis

Fra Angelico, Adoração dos Magos

País

Depois de Pina Moura talvez não falte muito para termos Mário Lino à frente do futuro aeroporto da Ota. Tudo normal, para um país de terceiro mundo em que nos vamos tornando..

Soares

Se é montagem é muito bem feita, tão genial que é impossível, se não é…
Chegou-me via e-mail um filme com declarações de Soares à Sic Notícias em que – a propósito de declarações de Ribeiro e Castro sobre a esquerda e o terrorismo – parece estarmos na presença de John Cleese e de uma das suas personagens do Monthy Python’s Flying Circus.

“- Ficou chocado com o que disse o líder do PP? – pergunta um jornalista.
- Não, não foi o líder do PP que disse isso. Aquela coisa a que eu me referi, do terrorismo, foi o líder do CDS que disse isso, o Dr. Ribeiro e Castro, que é uma coisa inaceitável e impossível. Ele diz aquilo e é ainda por cima deputado do PS, um dos grandes grupos do PS é o PS, o PS europeu, imagine como é que ele se vai entender com os colegas do parlamento a dizer essas coisas aqui no plano interno. E é feio, não é bonito, e é uma pena que seja um dos mais entusiásticos, se não o mais entusiástico, apoiante do Dr. Cavaco nesta eleição.” (sic.)

3.1.06

Agora

Passada a frenética época com que o ano acaba, partindo os amigos emigrantes que por agora à terra voltaram para matar saudades. Passados os balanços do que passou e a determinação para o que há-de vir. Passados os presentes e os ajuntamentos de amigos e familiares. Passado tudo isto, voltemos à normalidade modorrenta do nosso dia-a-dia comezinho e desinteressante. Passada a tormenta voltemos a navegar numa calma bolina, ao largo e sem sobressaltos.

Balanços

Reservo-me o direito de não fazer balanços do ano. Não há tops de melhores ou piores, de favoritos ou detestados. Foi apenas um ano que passou, com coisas boas e más, como todos. Nesta passagem apenas um certo desejo de continuidade, apesar de tudo.

Coisas da Vida Boa

Fim-de-semana com amigos no campo. Sopa de cação e entradas gourmet em barda. Bons vinhos, caipirinhas, champanhe, vodka e whisky. Música sempre a dar, começando em crescendo com um “revival” dos anos 80. Tudo a apontar para um salto para o novo ano seguido de conversa calma à volta da braseira. Animação inesperada, só muito depois seguida da conversa. O ano novo a chegar em casa, espontâneo, entre amigos e a comer e beber bem.

2.1.06

Ano Novo

Regressado da província, o Anarcoconservador deseja a todos os seus leitores um estupendo ano de 2006.

27.12.05

Coisas da Vida Boa

O Natal em família. Para além das birras das crianças, das discussões idiotas dos adultos, das provas de vinhos, dos doces, dos presentes.

23.12.05

Natal

Hans Baldung Grien (1484 – 1545)

O Anarcoconservador deseja um Santo Natal a todos os seus leitores.

Luzes de Natal II

Rua Garret
Uma confusão e excesso de iluminação tão grande que nos faz lembrar Las Vegas. Salva-se por ser, apesar de tudo, o coração do Chiado, ainda o sítio mais civilizado para fazer compras no Natal.

Av. João XXI
O simples aproveitamento dos postes de electricidade para umas árvores de Natal estilizadas funciona muitíssimo bem. Bom efeito.

22.12.05

Surpresa

Com o Bilhete de Identidade caducado vai para quatro meses, lá me resolvi a suportar o inferno da função pública e a via-sacra das senhas e dos impressos e do atendimento mal-humorado. Cheguei ao Areeiro a fazer exercícios respiratórios e a tentar manter-me em zen para não abalar o espírito natalício e começar a descompor as meninas dos “guichets”. Entrei e, sem dar por isso, estava a trocar sorrisos com a simpática senhora dos impressos, estava – sem ter tempo de pensar – a andar eficientemente de um lado para o outro sem esperas. Cheguei num ápice ao “guichet” final onde mais uma simpática senhora me despachou rapidamente e saí atónito. Para rematar vou agora lá buscar o meu renovado BI, três horas depois da minha primeira visita a esse oásis da função pública que é, ou pelo menos foi hoje, o serviço do Arquivo de Identificação de Lisboa no Areeiro.

Presentes

Ao se ler a posta anterior pode-se ficar com ideia de mim como um espartano com horror ao dinheiro e ás compras. Errado, gosto muito de compras. E gosto muito de dar presentes, e de receber. Dá-me um imenso gozo procurar um presente a pensar em determinada pessoa, tentando encontrar “aquela coisa” que a vai surpreender e agradar. Gosto de rasgar papéis em busca de uma surpresa. Tudo isto é óptimo, mas quando o tempo escasseia e nos tornamos escravos de ter de dar qualquer coisa, e que essa coisa não pode ser uma hilariante brincadeira comprada numa loja de trezentos mas algo que valha 5, ou 15, ou 50 Euros, que foi o que custou o presente da outra irmã. Aí, algo está errado. O dar por obrigação e com obrigação de preço é terrível, e angustiante. Este ano, lá em casa optámos por não dar nada entre os que já trabalham. Não concordei, acho que o que se deve estabelecer é a anarquia nas escolhas que permita por exemplo dar palavras, ou uma fotografia, ou outra coisa que façamos ou que até compremos sem a obsessão do preço e da a aparência aos olhos dos outros. Não é assim tão difícil dar qualquer coisa barata que as pessoas gostem, por exemplo uma colectânea de música feita no computador com uma capa feita e impressa no mesmo – custo: um Euro do Cd e, quanto muito, 1 Euro de folha e de tinta da impressora. Falo por mim, mas preferiria isto a um par de meias de uma cor que não goste, mas que possa custar 15 Euros. Hoje, falta imaginação ás pessoas, criatividade que permita que as coisas não custem fortunas absurdas, que sejam, de facto, indicadas para quem recebe, que sejam mesmo um símbolo de que estávamos a pesar naquela pessoa quando comprámos determinado presente.

19.12.05

Advento

O Natal aproxima-se e só se fala de compras, de presentes. Neste mundo parece que o Natal é unicamente consumo, o clímax de uma época de desenfreado gastar de dinheiro, um hino à superficialidade materialista. Contra as compras nada tenho – até antes pelo contrário –, mas o Natal de hoje é, para a maioria, só e só isso. Que é bom para a economia, pelo dinheiro que circula, não tenho dúvidas, mas que significado atribuirão as pessoas ao Natal? Que é uma simples troca de presentes com dinheiros estabelecidos para cada pessoa como se estivéssemos a passar um cheque de amizade? O mundo que nos rodeia parece esquecer o que é, de facto, o Natal, uma festa religiosa que celebra o nascimento de Jesus Cristo, uma data fundadora do cristianismo. O resto é acessório perante algo de tão essencial, mas o mundo anda enganado em tanta coisa que já não espanta que, também nisto, esqueça o essencial por troca com o acessório dominante.

16.12.05

Frio

Está um frio que corta. Lembra-me Salamanca, na Castela do frio seco. As noites longas entre as facas do vento e os fornos onde entrávamos como frangos. Gosto do frio, do frio seco, sério e intenso. Ficar na casa quente ou sair com a minha velha canadiana, cobertor que me isola, cachecol enrolado ao pescoço e o vento que desperta a cara. Sem o frio não podia gostar do calor e sem estações o mundo é uma seca confortável, ou não, mas sempre seca. Gosto quando gosto do Inverno, ou quando gosto e gostando estou a gosto. Estranho em mim tamanho bem-estar, mas até sabe bem, o espírito natalício parece chegar aos poucos, frio e de pantufas.

Quase acidente

Lá ia eu tranquilo no meu carro, a velocidade aceitável e na calma de ouvir Chet Baker, quando olho para o lado e com o sobressalto dou uma guinada, travões e quase me estampo, não fora hora de pouco trânsito e não ter – ainda não sei como – abalroado ninguém. Uns olhos esbugalhados, mas de carneiro mal-morto, num estranho misto que parecia querer sair do outdoor e qual filme de ficção científica série Z me hipnotizar e tele-transportar para o planeta Zorg. Cavaco apareceu finalmente e os meus pesadelos recomeçaram. Depois do anónimo cartaz da bandeira nacional com a esfera estilizada, eis que surge, após óbvias horas de maquilhagem, no seu esplendor. Tudo é normal, eu é que teimo em não me habituar ao regresso da figura e ainda não me preparei com sessões intensas de Ioga para o que me poderá esperar daqui a um mês.

14.12.05

.

A luz amarela do Inverno. O falso calor do dia.

.

No burburinho que nos trespassa nas ruas, a serenidade de um Natal verdadeiro permanece. Inabalável.

13.12.05

Ainda datas – Chá

Sai um Assam, em bule escaldado, pelos dois anos do Lobi do Chá.

Datas

Como sempre, as datas passam por aqui registadas em atraso. Umas vezes, recupera-se a oportunidade de as referir, outras, envergonhadamente, deixam-se passar como o vento. Até o segundo ano deste blog passou, há uns dois meses, sem que eu desse por isso e só por acaso me apercebi, data passada, da ocorrência. Lembrar datas não é comigo, e só a agenda, a velha manuscrita e gasta, me ajuda a fugir de falhas, ás vezes graves.


D.Pedro V (150 anos sobre a entronização)

Aquele de quem podemos dizer que faltou tempo para poder ser, de facto, o real D. Sebastião. Culto e preparado, monástico e moderno. O rei que Portugal precisava e não teve. Passados 150 anos estamos como estamos, talvez assim não estivéssemos não fora ele morrer tão cedo.

Eça de Queiroz (160 anos sobre o nascimento)

Quanto a Eça, enfim, talvez só para o ano, mas proximamente, uma visita a Tormes. Reler, uma vez mais – e porque não –, a “Cidade e as Serras” e passear lado a lado com Jacinto por entre os bosques em redor da casa. Por agora, mais uma data cumprida sobre a vinda ao mundo daquele que é um dos maiores da escrita e do português.

Pessoa (70 anos sobre a morte)

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem de passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

.

Só na simplicidade nos compreendemos.

7.12.05

Luzes de Natal I

A Árvore
A gigantesca árvore do Millenium BCP foi este ano colocada no Terreiro do Paço. A beleza da praça funciona bem como enquadramento à árvore hi-tec, o que é de fugir é a música de Natal em mistura de “carrinhos de choque”, “sala de espera de dentista” e “centro comercial suburbano”. Um massacre auditivo para quem ousar passar a pé, ou de vidros abertos, pelo nosso Terreiro do Paço.

Avenida da Liberdade
Aproveitando, e bem, as árvores existentes – das poucas que resistem em Lisboa – foram colocadas bolas simples em luz amarela, proporcionando um belíssimo efeito de alinhamento rua abaixo, ou acima. Aqui apetece passear, caso a chuva inclemente se resolva a parar um pouco.

Rua Áurea
Sinos e fitas em azul e encarnado dão o suficiente ar hi-tec, sem contudo perder a sensatez. Funciona muito bem em alinhamento e dá cor e alegria a uma rua tão massacrada por carros e cada vez com menos motivos, vulgo lojas, que nos façam percorrê-la a pé. Candidata, até agora, à melhor iluminação no estilo moderno.

Rua da Prata
Uns confusos painéis com bolas em azul repetem-se rua fora. O efeito global não é mau, mas as iluminações são por si muito feias.

Príncipe Real
Apenas lâmpadas amarelas nas árvores. Por vezes na simplicidade está a maior beleza. Bonito, barato e eficaz.

Largo do Camões
Enquanto me aproximava, era ofuscado por um encarnado profuso e intenso. Pensei que este ano as modernices de Natal tinham chegado ao Camões. Ao chegar, percebi que não, era apenas o letreiro luminoso da estação de correio. Agora passa por Natal, mas fora de época…Não se poderá desligar?

Coisas da Vida Boa

O bife ancho do “El Ultimo Tango”. E, já agora, também a música, por entre óptimos tangos e milongas.

5.12.05

As atitudes ficam…

O DN de ontem dedicava grande espaço à morte de Francisco Sá Carneiro, a propósito dos 25 anos volvidos sobre a sua morte, com depoimentos de gente de vários quadrantes – até Soares escreveu umas linhas sobre o assunto. Cavaco? Pois, Cavaco não respondeu ao convite do jornal por “falta de disponibilidade de agenda”. Há atitudes que definem as pessoas, Sá Carneiro foi um líder incontornável e inesquecível do partido de Cavaco e do país, agora ter meia hora para alinhavar vinte linhas de texto, isso seria pedir muito.

25 anos depois



Um tempo em que havia em quem acreditar.

2.12.05

Chanel

Estreou ontem a peça “Mademoiselle Chanel”, um texto sobre a vida de Coco Chanel que mostra a solidão de uma mulher que envelhece e apontamentos sobre a sua vida, ora triste ora frenética. A peça é interessante sem contudo se tornar inesquecível, apesar de Marília Pêra incorporar muito bem a senhora que mudou a moda e de, num belíssimo cenário branco, duas modelos irem passando fantásticos modelos Chanel. Algumas tiradas de Mademoiselle são deliciosas e destaco uma que achei um mimo: “Mulher que não se perfuma não tem futuro”.

1 de Dezembro

Por uma réstia de patriotismo – que por motivos insondáveis ainda mantenho – o dia de ontem foi de festa. Há trezentos e tal anos, um grupo de conjurados restabeleceu a independência deste cantinho separando-nos definitivamente do jugo castelhano. Ganhámos com isso? Na perspectiva mais material e economicista tão em voga a resposta seria claramente não. Melhor estaríamos a acompanhar a desenvolvida democracia espanhola. E então, que motivos para comemorar? Talvez aqueles menos na moda como os de honrar nove séculos de história.

De cabeça baixa

No outro dia, em conversa deitada fora sobre as presidenciais, concluíamos não perceber o frete a que algumas almas, supostamente livres, se estão a prestar nestas eleições. Ao passar por este site arrepio-me de ver tanta gente que há pouco tempo era capaz de verberar contra o Sr. Silva, convertida por um qualquer milagre do sol ao “novo Messias”. Há algo que me desgosta na política: a necessidade que as pessoas têm de tomar partido e de, a partir daí, se envolverem directamente em campanhas. Podemos optar por um mal menor – eu não pratico, mas compreendo –, agora isso não nos obriga a lavar o cérebro com lixívia e passar de crítico a defensor acérrimo e convicto do que quer que seja. O facto de não haver nenhum candidato de direita a estas eleições – sendo possivelmente o Sr. Silva o menos à esquerda – não implica que alguém de direita tenha de se humilhar ao ponto de esquecer o seu passado de opinião e entoar loas insanas ao profeta.

24.11.05

Estranho

Apetecer-me um Tullamore Dew com duas pedras de gelo em copo baixo, ás três da tarde e enquanto trabalho. Culpa do Tom Waits, ninguém me manda estar a ouvi-lo.

23.11.05

Ar Fresco

No blogue Venha o Diabo.

Desmentir

Sócrates desmente Alegre. Alegre desmente Sócrates. Em quem acreditar? Entre os dois acho o nariz de Sócrates mais próximo do de Pinóquio.

Milagre

Parece que os “privados” vão oferecer o Aeroporto da Ota aos portugueses! O acto é de tal forma caridoso e desinteressado que proponho que possam descontar as verbas ao abrigo da lei do mecenato.

22.11.05

Democracia não é só votos

O governo apresentou hoje formalmente o Aeroporto da Ota como um facto consumado. Há pouco tempo foram aprovadas no parlamento verbas para fazer estudos sobre o novo aeroporto para Lisboa. Estudos? Para quê? Afinal a decisão está tomada e os “estudos” serão uma mera formalidade. Tudo cheira muito mal neste processo e começa a ser fácil acreditar nas afirmações que circularam pela Net num texto em nome de Miguel Sousa Tavares (que o mesmo desmentiu veementemente a autoria num artigo no “Público”). A rede de interesses deve ser tanta que justifica que uma obra desta dimensão seja imposta ao país sem a necessária discussão pública. Enfim, tudo na mesma neste país desgovernado insistentemente pelos eleitos da nossa "democracia".

19.11.05

.


Jardins das Necessidades, Lisboa, 2003

Rever clássicos

A produção cinematográfica é tanta que, ás vezes, esquecemos que existem clássicos, alguns com setenta anos, que suplantam a grande maioria dos filmes actuais. Nos últimos dias fui vasculhar as cassetes de VHS que já tinham criado pó e desencantei dois filmes essenciais que revi com agrado: “A Corda” – “The Rope” de Alfred Hitchcock e “O Extravagante Sr. Ruggles” – “Mr. Ruggles of Red Gap” de Leo MacCarey.
O primeiro é um prodigioso exercício de cinema, em que dez planos contínuos de oito minutos (tamanho das bobines) se juntam para formar uma obra-prima. O argumento é arrepiante, intercalando o humor negro de Brandon Shaw (John Dall) e as divagações filosóficas de Rupert Cadell (James Stewart) com uma situação no mínimo macabra. Farley Granger compõe Philip Morgan, o elo mais fraco de uma cadeia intelectual que se arroga ao direito de uma superioridade moral sem limites. A realização é de Hitchcock, e mais não será necessário dizer. O filme começa no clímax e arrasta-nos no fio da navalha até à cena final. O desconforto é constante durante a refeição servida no altar sacrificial. Tudo nos inquieta e, inteligentemente, são muitos os temas levantados pelo filme.
Do segundo, recordo a cena inicial de antologia, com o patrão – o Earl of Burnstead – com um levíssimo e “very british” desconforto, ainda em ressaca, a anunciar entre conversas que tinha perdido ao Poker o seu fidelíssimo mordomo que, perante tão estranha notícia, reage com uma naturalidade adquirida por anos de serviço. A “família” americana que espera Ruggles em Red Gap, nos confins das Américas, é um delicioso conjunto de personagens que vão desde a nova-rica que pretende ascender até à velha matrona da família mais preocupada em andar a cavalo ou caçar. Charles Laughton é um Ruggles extraordinário que nos faz sorrir em contínuo, mostrando que o seu talento estava muito para lá dos trágicos e sérios personagens que o celebrizaram. Leo MacCarey é muitas vezes esquecido na memória dos grandes do cinema, mas merecia outras lembranças, por exemplo por este filme.

16.11.05

Resmungo Matinal

Chegaram os acordares ferozes, de olhos brilhantes e espirros convulsivos. A saída do conforto uterino da cama forrada a cobertores é de pronto confrontada com a violência de uma brusca diferença de temperatura, que nem um banho quase turco consegue sanar de imediato. A rinite no Inverno é um inferno, acordar para o mundo torna-se, se possível, ainda mais difícil.

15.11.05

Coisas da Vida Boa

A luz fria do sol da manhã brilhando no prado molhado. As oliveiras serenas observam, como se toda a beleza do mundo se encontrasse a seus pés.

Procissão

Apesar de estar fora, vi pela televisão Lisboa de ruas cheias. Ninguém protestava contra nada, apenas uma pacífica demonstração de Fé.

Entrevista

Cavaco falou, ou pelo menos assim o fez crer. Ontem só resisti a quinze minutos de banalidade, de fugas ás questões, de uma total vacuidade supostamente em nome da substância. Cavaco diz que não quer retórica, que quer resolver os problemas concretos, que quer ser o “Messias” do país. Claro que não pode explicar como concretizará tais propósitos, pois é óbvio que não terá poderes para tal. Fica a dúvida, ou Cavaco mente, ou ainda não percebeu os poderes de Presidente da República, ou acha que se está a candidatar a Primeiro-Ministro. O discurso anti-retórica num candidato a Presidente da República é o mesmo que um Embaixador verberar contra a diplomacia, um total contra-senso.

9.11.05

Cartazes

Ao esfumar-se dos seus cartazes, que são dominados por uma esfera armilar estilizada, Cavaco leva a sua “não campanha” até ao extremo. Elogia-se a atitude, afinal é uma assinalável contribuição para a estética urbana, evitando simultaneamente colisões automóveis devido ao susto e pesadelos tormentosos nas crianças portuguesas.

8.11.05

França

Na exemplar “République Française” – a mais legítima das construções jacobinas – prosseguem os conflitos. Agora até voltamos aos tempos da segunda guerra com o recolher obrigatório. O Estado Social construído pela esquerda tem destas idiossincrasias, torna tudo tão fácil, até os distúrbios e a delinquência.

Coisas da Vida Boa

Os fins de tarde no ginásio com o meu iPod. Até se torna agradável remar para aquecer ao som Morrissey, levantar pesos com Bob Marley ou acabar os alongamentos com Chet Baker. O tempo assim até passa depressa e esquecemos as horas passadas a compensar uma vida sedentária e de horror à prática de qualquer desporto.

Oásis

O programa “Prós e Contras” continua a mostrar que é possível a televisão de ritmo calmo, com qualidade, com sumo. Ontem, os convidados eram, para não variar, excelentes e o Sr. Cardeal Patriarca mostrou mais uma vez, como se tal fora preciso, que a Igreja portuguesa está muitíssimo bem entregue. O seu diálogo sobre a “esperança” com o Professor Barata Moura (não crente) foi tão profundo que pena tive de não o poder ter gravado para rever. Temas difíceis podem, e devem, ser discutidos em televisão.

4.11.05

Emoções

Sem querer parecer uma qualquer Susana Tamaro, reconheço que me sinto mais vivo quando me emociono. No passado fim-de-semana aconteceu-me duas vezes por motivos diferentes. As razões não interessam, mas ainda bem que num mundo tão superficial ainda encontramos dentro de nós resistências de sensibilidade.

Brinquedo II

Há quem diga que as máquinas têm personalidade, que adquirem os defeitos dos donos. Dos iPods já ouvi dizer que eram complicados, que tinham manias. Enfim, nada que me preparasse para o mau feitio do meu brinquedo. Quer dizer, como se não me bastasse o meu mau feitio, tenho agora de aturar um brinquedo com excesso de personalidade.

27.10.05

Definitivamente

A roda do iPod é erótica!

Brinquedo

Tenho passado momentos de criança. O meu novo brinquedo deixou-me babado e distraído, pareço um menino com a sua nova caixa de Mecano ou de Lego – ou, sejamos mais modernos, uma PSP. Um iPod lindo, magnífico, extraordinário. Para além de tudo com uma belíssimas colunas portáteis que me permitem emigrar para a Patagónia sem perder o meu Vinicius, o meu Caetano, o meu Bach, o meu Miles Davis ou a minha Amália e sem ter de arrastar um molho disparatado de discos. Pareço estúpido, aliás, acho mesmo que estou estúpido perante o meu brinquedo, lindo, branco, e com aquela maravilhosa roda.

Diálogos Imaginários

– Charles, deixe o que está a fazer e venha até aqui por favor.
– Com certeza menino. O que deseja?
– Está a ver esta montanha de Cd’s? Vou-lhe pedir que os vá descarregando para o meu computador através do iTunes para eu depois os poder passar para o meu iPod. Ah! É claro que os pode ir ouvindo.
– Com certeza menino, e vou mesmo tomar a liberdade de ouvir alguns.

25.10.05

.


(Burgueses de Calais, Rodin)
Salamanca, 2002

Milonga del muerto

Lo he soñado en esta casa
entre paredes y puertas.
Dios les permite a los hombres
soñar cosas que son ciertas.

Lo he soñado mar afuera
en unas islas glaciales.
Que nos digan lo demás
la tumba y los hospitales.

Una de tantas provincias
del interior fue su tierra.
(No conviene que se sepa
que muere gente en la guerra).

Lo sacaron del cuartel,
le pusieron en las manos
las armas y lo mandaron
a morir con sus hermanos.

Se obró con suma prudencia,
se habló de un modo prolijo.
Les entregaron a un tiempo
el rifle y el crucifijo.

Oyó las vanas arengas
de los vanos generales.
Vio lo que nunca había visto,
la sangre en los arenales.

Oyó vivas y oyó mueras,
oyó el clamor de la gente.
Él sólo quería saber
si era o si no era valiente.

Lo supo en aquel momento
en que le entraba la herida.
Se dijo No tuve miedo
Cuando lo dejó la vida.

Su muerte fue una secreta
victoria. Nadie se asombre
de que me dé envidia y pena
el destino de aquel hombre.

Jorge Luís Borges

21.10.05

.

O dia está tão húmido e plúmbeo que começa a faltar a vontade de sair para um jantar que se adivinha simpático. A lareira ausente começa a fazer parte do imaginário mais recorrente. Penso em castanhas assadas e lembro o fumo e o cheiro. Parece que por fim é Outono.

Pesadelos

Hoje acordei com a sensação de ter dormido em sobressalto. Não me lembrava porquê, mas acho que posso dizer que a culpa é do Cavaco.

E foi o Horror

Cavaco anunciou ontem a sua candidatura a Belém.

20.10.05

Dia de Horror

Consta que Cavaco anuncia hoje a sua candidatura a Belém.

Aleluia

José Peseiro já não é treinador do Sporting! Dias da Cunha também resolveu ir embora!
Talvez agora se volte a ver futebol pelas bandas de Alvalade.

Humor Negro

Será que podemos encomendar uma gripe das aves exclusiva para os pombos? Lisboa precisava tanto disso…

12.10.05

Apetece comprar para dar estalos II

Júlia Pinheiro. Para além de tudo, aquela voz devia ser proibida.

Apetece comprar para dar estalos I

(Pessoa que nos irrita tanto que dá vontade de ter em casa para ir espancando a nosso belo prazer.)

Manuel Maria Carrilho

10.10.05

Momentos altos de ontem

A “narigada” da comovida Bárbara perante a frígida indiferença de Manuel Maria. Foi pena o pequeno Diniz não ter também aparecido, seria um fecho com chave de ouro para esta memorável campanha de Carrilho.

A competência inequívoca do STAPE que deixou os jornalistas à beira de um ataque de nervos.

Sousa Tavares a falar de futebol Deviam ser feitas leis – reconheço que um pouco censórias – que impedissem as pessoas de falar de forma tão fanática e irracional. Ao nível de Ferreira Torres.

As genuínas, e ruidosas, gargalhadas no estúdio da TVI aquando da intervenção de Valentim Loureiro. Os momentos que precederam o discurso do Major foram dignos de um sketch dos bons tempos do mudo, por instantes parecia que ninguém o impediria de espancar o senhor que lhe tentava dar o microfone. Seria catarse ou excesso de álcool?

Gostei ontem

Das vitórias de Rio, Capucho, Campelo e de alguns (realmente) Independentes.
Das derrotas de Carrilho, Soares (pai e filho) e Avelino. E também do PS.
Da eleição de Sá Fernandes e de Maria José Nogueira Pinto.
Da não eleição de Teixeira Lopes.
Da educação e subtileza de Carmona no seu discurso, dando uma enorme bofetada de luva branca a Carrilho.
Apesar de tudo da emissão da TVI.
Da chuva.
De ficar no sofá numa alegre abstenção. Não voto em Lisboa e na minha terra nada havia a decidir num cenário eleitoral desinteressante.

Não gostei ontem

Obviamente das vitórias de Isaltino, Valentim e Felgueiras. E também de Mesquita Machado e Isabel Damasceno.
De ver, constrangido, o mau perder e falta de educação de Carrilho. Será que o podemos mandar para um pós-pós-pós doutoramento na Sibéria?
Dos ilegíveis resultados da SIC, que teimavam em ocupar metade do écran sem que lhes pudéssemos dar algum uso.
Da sonífera emissão da RTP.
Do choque tecnológico do STAPE.

9.10.05

Facto

Chove. Finalmente chove. Cheira a terra molhada e há humidade no ar. O sol parece ter-se evaporado. Chove. Finalmente chove.

Coisas da Vida Boa

Lá fora a chuva. Cá dentro, um sofá confortável com jornais e revistas ao lado. Ouvem-se as Bachianas Brasileiras de Villa-Lobos ás quais se seguirão uns madrigais de Monteverdi.

7.10.05

Eleições

Pronto, a campanha está a chegar ao fim. Agora é só esperar pelos resultados no Domingo para ver o povo a entregar o poder ás Fátimas Felgueiras deste país. Para depois, rogamos por uma amnésia que nos ajude a esquecer que, durante alguns dias, fomos mais terceiro-mundistas do que muitos países sul-americanos, com candidatos à espera de julgamento e presidentes de Junta barbaramente assassinados. Perderemos algum assunto de conversa, mas poderemos descansar e voltar à doce ilusão de que vivemos num país civilizado. Por pouco tempo, é claro, já que depois vão chegar as aguardadas e “sábias” palavras do professor Aníbal e voltaremos ao folclore eleitoral. Claro que o país continuará à deriva, mas isso, afinal, não interessa nada.

6.10.05

Tempo

O calor insano lá fora baralha qualquer raciocínio. As estações, que desde a primária aprendemos a conhecer, são hoje uma imensa confusão. Já dizia o poeta: “o mundo é composto de mudança”.

5 do 10 - II

A propósito do post anterior apetece-me lembrar um poema de João Ferreira Rosa – cantado pelo próprio – que é um dos raros, e curiosos, exemplos de música de intervenção monárquica.

Portugal Foi-nos Roubado

Portugal foi-nos roubado
há que dize-lo a cantar
para isso nos serve o fado
para isso e para não chorar

Cinco de Outubro de treta
o que foi isso afinal
dona Lisboa de opereta
muito chique e por sinal

Sou português e por tal
nunca fui republicano
o que eu quero é Portugal
para desfazer o engano

Os heróis republicanos
banqueiros, tropa, doutores
no estado em que ainda estamos
só lhes devemos favores

Outubro Maio e Abril
cinco dois oito dois cinco
reina a canalha mais vil
neste branco verde e tinto

Sou português e por tal
nunca fui republicano
o que eu quero é Portugal
para desfazer o engano

5 do 10

Ontem feriado. Comemoração da implantação da república. Mas comemorar o quê? Os anos de desgoverno que se seguiram a 1910 e deixaram o país à beira da bancarrota? A ditadura que se seguiu e penosamente arrastou o país por longos anos? As consequências de uma revolução pacífica que se reflectem até hoje numa constituição socialista? Os brilhantes últimos governos que vão dando ao país o que ele precisa deixando-o no recomendável estado a que chegámos?

3.10.05

.

Morte estúpida. Será correcto usar tal redundância quando a morte é por si só tão estúpida? Perante a brutalidade, tudo se torna estúpido, incomensuravelmente estúpido. O fim é estúpido, ainda mais quando atingido de forma abrupta, inesperada e chocante. Perante toda esta estupidez tornam-se desprezíveis as expressões “é a vida”, “não somos nada”. Nem quando o fim é o culminar de um caminho conhecido estamos preparados, nem quando a idade ou a doença traçaram um destino o aguardamos serenamente. O que dizer então quando surge súbito, sem avisos nem sinais, num golpe trágico, repentino e cruel. Faltam as palavras, as justificações. Resta-nos a Fé.

27.9.05

Coisas da Vida Boa

Acabar um livro, satisfeito, e olhar a pilha em frente para escolher o próximo, ou próximos.

Presidenciais

Afinal Alegre avança. Independentemente do triste espectáculo de avanços e recuos, a sua candidatura pode ser um facto interessante, mais não seja por ser a única não partidária numas eleições que assim deveriam ser. A esquerda já vai com seis candidatos (incluindo a estupenda Carmelinda Pereira), dos quais quatro são líderes de partido e um o candidato oficial do PS. Cavaco, por muito que o tente negar, será o candidato oficial do PSD com o envergonhado apoio do CDS. No meio da partidocracia dominante, resta a independência poética de Alegre para trazer alguma novidade, já que à direita não se vislumbra gente com coragem para aparecer contra Cavaco (a não ser que Portas e Santana queiram fazer uma surpresa).

Reality-shows

A rentrée televisiva trouxe, como seria de esperar, mais um chorrilho de lixo. Para variar resolvi dar uma espreitadela, não sei se por voyeurismo ou por puro masoquismo. Na SIC, homens transformam-se em mulheres, não sei se patrocinados por um bar de travestis se por um cirurgião especialista em transexualidade. Na TVI, um grupo de homens, mulheres e um ser vão à recruta, provavelmente com o intuito de os transformarem a todos em homens. Parece que agora a onda é mudar as pessoas, o que pode ser temível, basta pensar se a seguir vamos ter futebolistas a apresentar o Telejornal ou debates políticos moderados por cantores pimba.

22.9.05

,

Há dias em que até temos saudades de nada.

Impensável

Há dois anos atrás parecer-me-ia impensável estar a dar agora parabéns ao Impensado por se manter impensativo ao longo de dois anos de coisas impensadas.

Estado do país

Fátima Felgueiras – arguida com ordem de prisão preventiva em processo a decorrer, fugitiva da justiça no entretanto – regressa ao país, apresenta-se ao tribunal e sai apenas com termo de identidade e residência e proibição de sair do país (irónico, não?). O povo aclama-a, os jornalistas quase a atropelam, ela passeia um fato bege e um sorriso enorme. Tudo isto já definiria um país, mas há mais, a senhora é candidata à Câmara de Felgueiras. Será preciso mais para definir o estado deste país, é que infelizmente até há.

20.9.05

Tradições


Fim-de-semana no Norte. O encontro com algumas tradições que ainda perduram neste país. As concertinas, os viras, a animação espontânea e genuína de um povo. A festa na rua, sem regras nem imposições, simplesmente os costumes passados por pais que dançam ao lado dos filhos em rodas improvisadas após chegar uma concertina.

16.9.05

Lisboa

Ontem entro a meio do debate da SIC Notícias com Carmona Rodrigues e Carrilho. No geral, lamentável! Apenas uma ocorrência simpática, a constatação que, apesar de tudo, não estamos num país terceiro-mundista e que ainda há políticos civilizados, não fora assim e acho que o debate teria terminado a meio com Carmona a levantar-se e dar um belíssimo par de estalos em Carrilho, independentemente de este nem sequer ter cara para os levar.

Coisas da Vida Boa

Catherine Deneuve a cantar “Toi Jamais”: no filme “Oito Mulheres” ou no recomendável disco “Café de Flore 2”.

15.9.05

Presidenciais

Prevejo penosos tempos até ás eleições presidências. No final teremos de aturar um dos dois, o problema é que até lá vamos levar com os dois ao mesmo tempo e ainda temos brindes tipo fava do bolo-rei. Ai! Não me devia ter lembrado do bolo-rei.

BE

Não resisto a postar este texto que hoje recebi por e-mail. Ao autor, que desconheço, as desculpas pela utilização do texto.
"Medidas do Bloco de Esquerda para acabar com incêndios.
1 - Despenalização imediata dos incêndios.
2 - Tendo em conta que os incendiários são doentes e socialmente marginalizados, devem ser tratados como tal: é preciso criar zonas específicas para poderem incendiar à vontade. Nas "Casas de Incêndio" serão fornecidos fósforos, isqueiros e alguma mata. Sob a supervisão do pessoal habilitado, poderão lutar contra esse flagelo autodestrutivo.
3 - Fazer uma terapia baseada nos Doze Passos, em que o doente possa evoluir do incêndio florestal à sardinhada. O pirómano irá deixando progressivamente o vício: da floresta à mata, da mata ao arbusto, do arbusto à fogueira, da fogueira à lareira, da lareira ao barbecue até finalmente chegar à sardinhada do Santo António e São João.
4 - Quando o pirómano se sentir feliz a acender a vela perfumada em casa, ser-lhe-á dada alta, iniciará a sua reintegração social e perderá o seu subsídio de incendiário."

14.9.05

.


Figueira da Foz, 2005

No limiar do bom gosto

Temos um capachinho na Petrogal, um aldrabão na CGD, um Tiranossaurus Rex a disputar a presidência com um mamute, só nos faltava o Mister Bean no Tribunal de Contas.

Publicidade

O “meu” banco lançou uma campanha publicitária com uma música de Pedro Abrunhosa, a avaliar pela originalidade e qualidade da letra (a repetição exaustiva da frase “Eu estou aqui”) temo pelo meu dinheirinho. Dantes os bancos davam o exemplo de sobriedade e competência, hoje competem com detergentes e margarinas. Enfim, estas modernices do marketing atingem pontos de disparate tais que nos fazem duvidar dos produtos. Ainda não é suficiente para mudar de banco, mas ficarei de sobreaviso.

12.9.05

Futebol e petardos

Bela noite de sábado pelas bandas de Alvalade. O jogo não foi brilhante, mas o Sporting até esteve bem e mereceu, acima de qualquer discussão, a vitória. De destacar o bom jogo da defesa do Sporting – em especial o Tonel –, os excelentes golos, Luís Loureiro e João Moutinho. Menos bem apenas Deivid e Sá Pinto (a eterna pergunta que me atormenta: “como é que ele é titular?”). O único ponto realmente negativo esteve numa cambada de energúmenos que insistiu em rebentar petardos do princípio ao fim do jogo. O fascínio dos portugueses pelo barulho não cansa de me surpreender, qualquer festinha de aldeia faz parecer que estamos em Beirute ou Bagdad tal é a quantidade de morteiros rebentados. Fogo de artifício sim, percebo que se goste apesar do barulho, agora morteiros ou petardos são fenómenos que me ultrapassam.

11

Ontem foi onze de Setembro. Há quatro anos o mundo foi chocado com algo inimaginável, com um acto acima de qualquer adjectivo possível. É preciso lembrar, sem “mas”.

7.9.05

Regressar II

Faz-me falta o mar diário, o carro arrumado em lugar esquecido, os gelados de marrons glacés com natas e as sapateiras ao pôr-do-sol.

Regressar I

Os primeiros dias de retorno à rotina habitual, depois de uns tempos de Verão por outras bandas, estão sempre carregados de sentimentos contraditórios. Por um lado voltamos ao nosso cantinho, à nossa cama e aos nossos CD’s, por outro ansiamos recuar no tempo e suspiramos por dias longos e sem horas. Enfim, a velha história de só estarmos bem onde não estamos.

Blogosfera

Pela blogosfera fora algumas novidades e algumas actualizações a fazer. Com muita pena retiro três blogues da coluna aqui ao lado – o “Aviz”, o “Fora do Mundo” e o “Jaquinzinhos” – que resolveram deixar a nossa companhia. A boa notícia é o novo “A Origem das Espécies”. Nos entretantos agradeço os novos links feitos a este blog no “Anatomia Surreal”, no “Duas Cidades” e no “My Guide To Your Galaxy”.

6.9.05

Prioridades

Há neste país quem ande em delírio. Ontem, no “Prós e Contras”, Medeiros Ferreira falava no destino de Portugal como país de eventos e Vítor Martins defendia as grandes obras (Ota e TGV) como veículo indispensável para o desenvolvimento económico. O pior é que parecia que falavam a sério.
Governar é, cada vez mais, definir prioridades e actuar sobre elas. Pena é que neste país as prioridades sejam sempre as erradas e por isso andemos como andamos.

1.9.05

Curtas

O choque tecnológico de José Sócrates ficou ontem visível na apresentação da candidatura de Mário Soares.

Aguardo a altura certa que António Costa sempre invocou para falar sobre as causas dos incêndios deste ano. Suponho que espere que nos esqueçamos lentamente do sucedido até ao próximo ano.

Ontem, a SIC Notícias passou um curioso documentário sobre seres humanos em estado atrasado de evolução, só me questionei porque lhe chamou debate sobre as autárquicas em Amarante.

30.8.05

Normalidade

As festas de Barrancos estão a decorrer na normalidade e nem os habituais “amigos” dos animais apareceram. Haja alguma coisa que se mantenha normal neste país para que haja alguma (tenuíssima) esperança.

29.8.05


Figueira da Foz, 2005

Diálogos Imaginários

– Charles, já sabe o que o espera. Não tenho pressa, mas quando puder desmanche as malas, deixe a roupa em dia, reabasteça a despensa, enfim, ponha a casa em ordem.
– Com certeza menino, eu sei o quanto detesta lidar com chegadas e partidas.

17.8.05

Estado do país

O país continua a arder e o primeiro-ministro continua no Quénia. Enfim, tudo normal neste Portugal entregue - desde há demasiados anos - à bicharada.

Crónicas da Figueira VI

A tranquilidade quase bucólica deste lugar vem sendo barbaramente quebrada. As modernices. As inenarráveis modernices. Há sempre queixas acerca da imutabilidade, mas também o "novo" não tem de irromper como um vulcão.
Por aqui, após anos de lenta - porém agradável - decadência, a modernidade foi aparecendo com a subtileza de um elefante. Aulas de aéróbica na praia, junto à marginal, com música adequada em volume tão discreto que nos hotéis limítrofes se tem de adequar os horários próprios ás horas das mesmas. Concertos em palcos que entopem esquinas nas ruas e obrigam a sorver os cafés nas esplanadas com rapidez para fugir a tempo de evitar a surdez. O "Mundialito" de Futebol de Praia - que nos últimos anos trouxe o inferno a esta praia - rumou, por graças divinas, até ao Algarve, onde espero continue a massacrar inclementemente os veraneantes. No meio de tudo isto, os músicos de rua tornam-se agradáveis presenças pois apenas trazem consigo um pequeno amplificador que acaba a soar a suave flauta perante o resto.
Enfim, tudo estava já mau até surgir o horror, o inferno que até a Dante surpreenderia e que chegou com o último fim de semana. O palco montou-se junto ao Forte de Santa Catarina que - coitado - habituado a bárbaras tempestades de outros tempos, nunca imaginou o que o esperava. Do Brasil lembramos Vinicius, praia, João ou Caetano e preferimos esquecer os forrós, os pseudo-sambas, os sons comerciais que ouvimos em feiras e discotecas de província. Tentem imaginar o drama de um palco a debitar - em contínuo, dia e noite - samba (mau) e forró, com uma intensidade sonora que fez temer pelas paredes de pedra do Forte e que terá, possivelmente, de levar a uma intervenção do IPPAR sobre as mesmas. Mais ainda, complementado - não fosse alguém esquecer o "espectáculo" - por camiões cobertos por colunas e gente a dançar que quase me causaram uma indigestão de uma sapateira que tentava comer numa esplanada.
A visão é de um inferno, de que alguém terá alucinado e prostituído uma cidade em nome de alguns cobres. Na praia, só dentro de água, de preferência em mergulhos longos, conseguíamos por vagos momentos escapar ao ruído.
Nos dias de hoje há quem imagine que o som, a música, são bons por si só. Cada vez mais penso que o silêncio vale a pena e aprecio-o agora, quando o sol se põe e olho para o fim de semana que passou. Algumas crianças brincam civilizadamente e o sol vai caíndo. A paz voltou a esta terra que agora será terreno mais calmo, talvez mais deprimente pela saída de algumas pessoas, mas calmo.

Crónicas da Figueira V

O agradável de surpreender uma longa noite - no interior de uma enorme voragem alcoólica - com uma longa conversa sobre Hitchcock. Poucas conclusões, mas a unânime - porém polémica - decisão de que "Psico" será a obra menor do Mestre.

11.8.05

Estado do País

Inversamente proporcional à qualidade das férias ininterruptas de Sócrates.

Crónicas da Figueira IV

Nuvens, chuva. Uma benção dos céus para acalmar as chamas do país. Por aqui, tempo para umas canastas e lanchinhos. As noites alongam-se mais sob a perspectiva da praia ser uma miragem distante no dia seguinte

6.8.05

Requiem por um país

Todos os anos o mesmo, o de sempre. A tragédia costumeira. Tudo se repete, as causas, as desculpas, as queixas. Mas tudo sempre se repete. O país arde e os incompetentes que nos governam, que nos andam a governar há anos, continuam a demostrar a sua incapacidade e irresponsabilidade, a sua postura criminosa. Porque criminosos não serão apenas os que ateiam os fogos, são também os que permitiram que este país se transformasse numa República de Bananas em que o território se desordenou até ao caos e em que é prioritário fazer obras de fachada como a Ota em vez de se gastar dinheiro em algo muito mais importante: salvar o país.