28.3.06

Imagem e palavras


Convento da Arrábida, 2004

E do velho fez novo, dando-lhe alicerces e estrutura – tudo simples, tudo puro –, para erguer uma nova construção, um pouco velha, um pouco nova. Despojada, essencial. Sem ornamentos desnecessários, sem fugir à simplicidade das formas. Recuperando e reaproveitando o bom, o original, o que conduzia a Ele, edifício universal e perfeito.

27.3.06

Coisas da Vida Boa

As olaias já em flor e a nova hora que empurra o dia para mais tarde.

25.3.06

Na Grafonola

Hoje, mudança na grafonola aqui do lado: “Alguien le dice al Tango”, com letra de Jorge Luís Borges e música de Astor Piazzolla; no bandonéon Daniel Binelli e na voz Jairo.

23.3.06

Hoje

O vento sopra
O barco tem medo
Ás armas, ás armas

O Inventor – Heróis do Mar

Ontem

Por inexplicáveis Benquerenças ao Norte de uma criatura de amarelo vestida, acabei ontem desiludido após fumar mais do que devia. Com menor Benquerença, determinado resultado seria outro e pouparia adeptos ao desnecessário, e neste caso injusto, sofrimento dos penaltys. O Olegário que vá Bem-querer para outra freguesia, que de Benquerenças destas está Alvalade cheio.

Coisas da Vida Boa

Passear no Chiado e ter um súbito e incontrolável ataque de fúria consumista. Chegar a casa com sacos muitos e voltar a provar a roupa ao som de novos discos. Ir para a cama com livros novos na mesa-de-cabeceira.

21.3.06

Poesia

Diz que hoje é o "Dia Mundial da Poesia". Mantendo a coerência deste blog e a sua irritação com Dias Mundiais, hoje não teremos postas com poemas. Manias minhas…

Boas Notícias

O Contra a Corrente fez três anos e ameaça continuar.

Agradecimentos

Ao Abencerragem por ter a amabilidade de linkar este blog.

17.3.06

Coisas (realmente) graves

Estar quase sem stock de compota de chá Marco Pólo (da Mariage Frères).

St. Patrick's Day

Nada melhor do que música para comemorar o santo irlandês, quer dizer, talvez uma dúzia de pints de Guiness pudessem substituir a música, ou uma garrafinha de Tullamore Dew e um balde de gelo. Ou melhor, juntar os três dentro de um pub irlandês - por exemplo o Matt Molloy's em Westport -, com uma autorização excepcional para fumar lá dentro, e ficar noite fora até nos mandarem para casa.

Cores

Há dias que me apetecia ser milionário. Hoje, com a chuva lá fora, daria por bem empregues os milhões dispendidos num Van Gogh que olharia intemporalmente.

16.3.06

Coisas do M(e/a)u Feito

Teimar em usar torradeiras antigas – das que torram um lado de cada vez –, sempre pondo a aquecer em segundo lugar – como é óbvio – a face que levará a manteiga amolecida previamente. Quando assim não é, admito ataques de vigorosa indignação.

14.3.06

Modernices

E pronto, cedi ao progresso e instalei uma grafonola neste blog. Não aguentei a falta de música neste fundo preto e, depois de aturadas e muy custosas pesquisas, lá consegui perceber como musicar a coisa.
Para começar, uma escolha incontornável: o grande Vinicius de Moraes. Podemos ouvir aqui uma interpretação ao vivo – em “La Fusa” de Mar del Plata, em 1971 – com Toquinho, do clássico “Tarde em Itapoã”. A apresentação da música é, como quase sempre nos concertos de Vinicius, uma delícia que nos faz querer lá estar. Lá, onde ele estava a cantar, e lá, onde ele pensou a música entre cachaça e água de coco, pisando areias da praia: ”con la mirada perdida en el encuentro de cielo e mar, bien despacito, parece que sentimos toda la tierra a rolar”.

13.3.06

O Espectro

Uma citação de Vasco Pulido Valente para marcar o fim de O Espectro:
“O dr. Cavaco não desembarcou ontem de Boliqueime e a cabeça dele não é um mistério. Nunca percebeu o país que governava e, hoje como ontem, sempre o quis transformar num "bom aluno" da Europa: sério, cumpridor e "moderno". Como? Aplicando, "com rigor", o "modelo" de Bruxelas: no fundo, o modelo clássico da "social-democracia", corrigido por algum "liberalismo" relutante e forçado. Não lhe ocorreu que esse "modelo" pudesse não servir à nossa velha cultura de isolamento e miséria, e à nossa classe "dirigente" irresponsável, oportunista e crassa. O resultado não se recomenda. Mas Cavaco não aprendeu nada no exílio. Volta disposto a repetir a dose, "em comum" com o governo, se o governo deixar. Ou seja, ponto a ponto, "medida" a "medida" vai tentar refazer o Portugal imaginário do seu tempo de glória. Um exercício inútil, como já se provou.”

Fim-de-semana

Isto de estar um fim-de-semana fora da net traz surpresas por vezes desagradáveis. Dois blogs acabaram – “O Espectro” e “O Sinédrio” – e vão encurtar os meus favoritos aqui do lado. Pena.

Naval

O que eu gosto da minha Figueira, nem a distância me a faz esquecer. Que simpática a sua visita de ontem a Lisboa. Que bons ares marítimos e o sopro da Serra da Boa Viagem.

9.3.06

Sinceridade

Apesar de tudo, vou ter muitas saudades de Sampaio.

Estado do Sítio

Guiava ontem tranquilamente por Lisboa e comecei a sentir a opressiva presença de polícias em quantidades absurdas. A ideia de golpe de estado assaltou-me, mas pensei mais friamente – de quem e contra quem. Loucos insatisfeitos seremos muitos, mas na sua maioria preguiçosos e com pouca vontade de maçadas.

8.3.06

Estado da Arte

Ontem, Paulo Portas foi mais o ex-ministro do que o ex-director de “O Independente”. Pena, entre dois “ex” e algo de novo fez a pior opção.

Coisas do M(e/a)u Feitio

Descobrir ocultos instintos homicidas quando me fazem perguntas no pós acordar.

6.3.06

Como eu a compreendo

“Quero muito ir a Portugal. Mas tenho medo porque ouço dizer que está tudo muito moderno. Estou a reler, pela quinta vez, A Cidade e as Serras e sonho com o Portugal de Eça. Não quero ver auto-estradas!”
Danuza Leão em entrevista à revista Sábado

3.3.06

Anúncio de imprensa II

Oferece-se, a custo zero, ministro dos negócios estrangeiros de país da comunidade europeia. Dado o perfil do proponente, dá-se prioridade a repúblicas sul americanas com regimes de esquerda populista. O curriculum do candidato é vasto e sabe usar a palavra "licenciosidade".

1.3.06

Carnaval II

Alguns amigos resolveram combinar um jantar em que pediam, quase exigiam, disfarce. Estava eu em dia de pouca paciência para a coisa, mas vá, resolvi aderir. Fui ao armário buscar a uma t-shirt do Che Guevara, aproveitei a barba de alguns dias, e saí pronto para uma manifestação anti-globalização ou da protectora dos animais. Tentei, mas não consegui, encarnar na personagem, afinal é mais difícil um disfarce consistente de coisas mais comezinhas, mas que nos são mais próximas, do que uma máscara exótica de personagens de ficção. Ainda ensaiei tratar as pessoas pelo apelido precedido do clássico camarada, mas, apesar de algum esforço, acabei a noite a discutir perspectivas sobre a religião. Podemos nos querer disfarçar, mas no final acabamos invariavelmente por cair nas nossas convicções mais sinceras.

Carnaval

Enquanto do Brasil chegam imagens de loucura colectiva, de calor e diversão, o nosso país lá arrastou mais um deprimente Carnaval. Por aqui ainda há criaturas que teimam na cópia e insistem em desfilar semi-nuas com uma temperatura de gelar. Talvez uma penitência pagã que substitua idas a pé a Fátima, mas, apesar dos seus mistérios, a fé é mais compreensível do que exercícios que aparentam um simples e disparatado masoquismo.

Marcha de Quarta-Feira de Cinzas

Acabou nosso Carnaval
Ninguém ouve cantar canções
Ninguém passa mais brincando feliz
E nos corações
Saudades e cinzas foi o que restou

Pelas ruas o que se vê
É uma gente que nem se vê
Que nem se sorri
Se beija e se abraça
E sai caminhando
Dançando e cantando cantigas de amor

E no entanto é preciso cantar
Mais que nunca é preciso cantar
É preciso cantar e alegrar a cidade

A tristeza que a gente tem
Qualquer dia vai se acabar
Todos vão sorrir
Voltou a esperança
É o povo que dança
Contente da vida, feliz a cantar

Porque são tantas coisas azuis
E há tão grandes promessas de luz
Tanto amor para amar de que a gente nem sabe

Quem me dera viver pra ver
E brincar outros carnavais
Com a beleza dos velhos carnavais
Que marchas tão lindas
E o povo cantando seu canto de paz
Seu canto de paz

Vinicius de Moraes

27.2.06

O Insurgente

Parabéns a “O Insurgente” por um ano em que se tornou um dos blog essenciais.

Futebol

Que agradável fim-de-semana futebolístico! Um golaço de Liedson e três a zero em Coimbra, um frango de Baía (mais um) e o Benfica a ganhar na Luz. São só dois pontos e tudo é possível. Quem o diria há dois meses atrás?

Coisas do M(e/a)u Feitio

Tolerar com muita dificuldade que me dirijam a palavra pela manhã.

21.2.06

Imagem e palavras

Dubrovnik, Croácia, 2002
Passou, com a pele queimada pelo sol que contornava rugas e os tristes olhos mostrando a passagem do tempo. Passou, e continuou o seu caminho certo, um pouco ondulado pelo peso das compras e o torcer da idade. Passou, com uma leve corcunda de problemas e a magreza da humildade. Havia algo de pobre e digno, algo que chamava o olhar. Por isso a imagem foi feita à traição, sem querer tocar na dignidade, sem querer dela fazer um objecto perante a lente curiosa. As ruas sinuosas em redor do centro estavam desertas ao fim da tarde. Os turistas concentravam-se nas muralhas vendo o pôr-do-sol ou em esplanadas relaxando da intensidade do dia. No meu deambular sem sentido, por becos estreitos, encontrei-a. O seu passar fez-me olhar de novo e assim a vi partir, por uma ruela empedrada, preparada para atravessar uma sucessão de arcos, com o barulho do saco de plástico a quebrar o silêncio dos seus passos. Caminhando para uma casa, para uma vida, que com alguma arrogância julguei triste.

20.2.06

Estado de espírito

O regresso ao cosmopolitismo desenfreado de Lisboa, hoje batido por um vento cortante que abana janelas e despenteia senhoras de penteados armados por lacas antigas.

17.2.06

Anúncio de imprensa

Troca-se Ministro dos Negócios Estrangeiros. Aceitam-se candidatos de todas as proveniências. Curriculum anexo e fotografia de corpo inteiro. Local de trabalho aprazível em país de clima ameno.

Coisas da Vida Má

Beber café em sítios sem cinzeiro.

Estado de espírito

Este blog estará, durante o fim-de-semana, a praticar a sua faceta mais conservadora e, talvez até, tradicionalista.

16.2.06

Freitas “Chamberlain” do Amaral

Que falta de chá a do nosso caríssimo Ministro dos Negócios Estrangeiros! Então não é que, depois do rasgado elogio que o Embaixador do Irão lhe teceu, tem o desplante de se declarar ofendido com uma simples referência ao holocausto!

15.2.06

Momento Licencioso

Detesto o dia de S. Valentim, acho-o um perfeito disparate e é ridícula a figura das pessoas em carneirada cheias de flores, presentes e corações. Soubesse desenhar e faria seguramente um cartoon demolidor sobre o tema, em que ridicularizaria ao limite da idiotia total os praticantes do culto valentiniano. Espero que esta liberdade de expressão não provoque confrontos de pares de namorados a tentarem apedrejar-me por profanar uma data para eles sagrada. Pelo sim, pelo não, irei estar atento, nada mais perigoso que uma mulher apaixonada enfurecida.

Coisas realmente importantes

Liedson renovou com o Sporting até 2010.

Coisas estranhas que acontecem II

Acabar o dia de S. Valentim a discutir psicologia humana com base num cinzeiro Stelton.

Coisas estranhas que acontecem I

Conseguir ter um jantar divertido no dia de S. Valentim. Isto sem ter de suportar os olhares babados dos casais que nos rodeiam, sufocar com um cor-de-rosa opressivo, ler ementas com menus chamados “Amor aos pedaços” ou “Paixões dos sentidos”, achar que o jardim botânico se transferiu para o nosso lado, cortar ás tirinhas os corações em nosso redor. Claro que só foi possível em casa de uma amiga, com um grupo de amigos, e mesmo assim a sofrer com o atraso de um take-away japonês entupido com demasiados pedidos e que parecia ter ido pescar o peixe antes de o preparar em sushi e sashimi.

14.2.06

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Paris, 2001

Convocatória

Depois de aturado e infindável trabalho, consegui por fim elaborar o relatório de contas e enviá-lo junto à convocatória para a Assembleia de Condomínio. A parte técnica está superada, resta agora a Assembleia. Aguardo receoso esse momento, não porque tenha aproveitado o dinheiro do condomínio para umas férias na praia, justificadas em Assembleia como obras provindas do rebentamento de um cano que me inundou a casa, mas pelo momento em si. Entrarei, de maço de folhas na mão, tentando encontrar nas poucas caras presentes uma das que eu conheço, vislumbrando alguma solidariedade. Sentar-me-ei, procederei ao início dos trabalhos e pronto, entrarei em roda livre procurando capacidade de resposta a perguntas sobre a pintura do prédio, a recolha de lixos, a vizinha que anda de elevador com o gato que por vezes se descuida, o namorado da vizinha que chega tarde num carro de tunning e acorda os andares mais baixos, o casal jovem e dinâmico que é subtilmente acusado de excesso de vigor por referências da vizinha de baixo ao chiar desalmado da cama. No meio de tudo há sempre recalcamentos antigos e prevêem-se trocas de palavras amargas cheias de tentativas de polimento que a pouco e pouco caem. Eu estarei calmo, possivelmente por acção de comprimidos, e susterei quaisquer reacções, com especial cuidado aos saltos efusivos e abraços a quem esteja ao lado no momento em que seja eleita a nova administração.

10.2.06

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"Amor? Amor é um fogo que arde um ano e cinzas que duram trinta."
Príncipe de Salina in “Il Gattopardo”

O Leopardo – Beleza

Três horas num museu a ver pintura. Da boa, da melhor, em Technicolor. “O Leopardo”. Há muito para dizer sobre este filme, mas o essencial depois de o ver pela primeira vez no grande ecrã é a descoberta de um tempo em que o cinema era arte levada ao limite. Visconti compunha imagens como quadros ou fotografias em sucessão. Para além da história, para além das mensagens. Um esteta que fazia cinema de beleza incrível. Se filme há que nos mostra o essencial do grande ecrã e a sua vantagem sobre a nossa casa – mesmo contando com mantas, paragens para comer, poder fumar – é este. Conhecia o filme em formato de televisão e já me tinha fascinado, já o achava um conjunto belíssimo: a história, as interpretações, a música. Tudo isto é superado pela visão em cinema. O teatral terço que abre o filme, o piquenique em referência ao “Dejeuner sur l’herbe” de Manet, o quadro em movimento na subida a caminho de Donnafugata, a chegada com família cheia do pó a entrar em comitiva solene na missa, o fabuloso baile final. Não sei qual quadro compraria, talvez a entrada da beleza selvagem e absurdamente sensual de Angelica Sedara (Claudia Cardinale) no palácio em Donnafugata deixando os personagens e o público a suspirar por uma descida à realidade.

O Leopardo – Il Gattopardo

9.2.06

8.2.06

27

Aproveitando a sua ausência “roubei” finalmente a desejada caixa. Sim, a caixa que o meu caro cunhado é feliz proprietário e era, faz um tempo, meu objecto de descarado desejo. 27 discos de Vinicius de Moraes. Sim, vinte de sete discos. E na caixa não estão as fundamentais gravações em Mar del Plata – com Toquinho, Maria Creuza e Maria Bethânia – ou a noite em casa de Amália. Estas já eu tinha, assim como mais algumas, mas vinte sete! Claro que, iTunes aberto e CD’s a entrar, assumo a pirataria de quem não tem possibilidade de ter esta caixa sem de facto a roubar (nunca a vi à venda em Portugal e, a existir, teria um preço por certo proibitivo). Ouço o Soneto da Separação, acompanhado pelo subtil piano de Tom Jobim. Esperam-me longas horas de Vinicius. Que bom!

7.2.06

À estalada

Hoje saí decidido a dar um par de estalos a qualquer criatura de extrema esquerda que encontrasse na rua. Sinto-me ofendido com inanidades lidas nos últimos dias (vide por exemplo Daniel Oliveira). Como esta gente acha que o direito à indignação desculpa irracionalidades e assassinatos, parece-me que um simples par de estalos seria louvado como forma quase pacífica para um católico oprimido reagir aos insultos perpetrados. Saí, pena foi não ter encontrado uma dessas criaturas.

Cartoons

Os cartoons de toda a polémica não eram de bom gosto. Como de bom gosto não seria aquele que enfiava um preservativo no nariz do defunto Papa. Não me lembro, no entanto, de haver gente a incendiar a sede do Expresso, ou a esbofetear desalmadamente António, ou a ameaçar de morte o Arq. Saraiva. Na altura, esses cartoons foram defendidos pelos mesmos que agora criticam os dinamarqueses. Alguma coerência seria saudável. Parece que, para alguns energúmenos, há religiões de primeira e outras de segunda. Umas a que se permitem os mais insanos radicalismos e outras que são atacadas por não crentes ao defenderem condutas para os seus crentes com as quais estes não concordam. Recalcamentos de ex-seminaristas ressabiados e de gente que convive mal com a fé alheia, a não ser que a mesma seja anti-americana, aí, em nome do anti-imperialismo, tudo é defensável e compreensível.

2.2.06

Socorro

Ano funesto o que passou. Uma cruz a carregar e eis-me agora no final do calvário. Administração de Condomínio. Três palavras malignas que sugerem, e são, um inferno na terra. Está quase a acabar, mas falta agora a parte pior – preparar o Relatório de Contas para a Assembleia de Condomínio. Logo eu, que tremo com palavras como balanços e balancetes.

Disparates

As duas lésbicas conseguiram o que queriam. Depois do pedido idiota para casarem, eis que todas as televisões as entrevistam e pouco faltará para serem concorrentes ao próximo reality show da TVI. O seu advogado, em pro bono pois então, ganhou umas horas de publicidade de valor inestimável. E a saga promete continuar com recursos sucessivos. Não haveria da nossa justiça continuar bloqueada, com idiotas como estes, que sabem estar a contrariar a lei, a darem trabalho inútil aos juízes.

1.2.06

Regicídio

Passam hoje 98 anos sobre o assassinato do rei D. Carlos e o do príncipe Luís Filipe. Muitos anos e três repúblicas que transformaram este país. Uma primeira república que de tão má nem os republicanos a fazem lembrar. A segunda, marcada por uma ditadura provinciana que nos enclausurou do mundo. A terceira vai correndo, por vezes tentando ser ainda pior do que as anteriores. Dia triste pois então.

Beleza da simplicidade

O alinhamento de pinheiros mansos junto ao Tejo, na Expo, com o brilho do Mar da Palha emoldurado por troncos e copas.

30.1.06

Fútil

Fala-se de neve e de Bill Gates. Sampaio recebeu Cavaco e o F.C. Porto empatou ontem. Temas profundos que me fazem voltar ao livro de Edith Wharton e ás futilidades da Nova Iorque do princípio do século. Acho que estou a ficar farto de seriedades.

Neve

Ontem, pus a hipótese de descer a Calçada do Combro de saco de plástico caso a neve se fixasse no chão. Hoje, pergunto-me se seria da febre ou de uma adolescência tardia mal resolvida.

Espectral

O “O Espectro” já figura na lista aqui ao lado, mas o surgimento de Vasco Pulido Valente como bloguer justifica mais uma chamada de atenção. A seguir diariamente, esperando curiosamente a chegada do terceiro elemento referido por Constança Cunha e Sá. Imprescindível.

29.1.06

Hoje

Nevou. Estranhamente nevou.

3-1

Não foi mau ontem, parece que se fez Luz. Na Luz.

Fim-de-semana

Uma p… de uma virose – nome chique da actualidade para febres e afins – e a casa como refúgio do frio polar lá fora. Chá verde chinês e torradas com mel da Lousã.

Coisas da Vida Boa

No Telejornal da RTP1 de sexta-feira, a presença de António Rosado em estúdio a tocar alguns temas de Mozart. Comemorando os 250 anos do nascimento do génio, um telejornal diferente em que se descobre o sentido de “serviço público”.

27.1.06

Coisas que irritam

Chegar a um balcão e pedir um café. Puxar de um cigarro e esperar que nos tragam um cinzeiro. Não é lógico ter de pedir, o interesse maior de que não deitemos cinza e beatas para o chão deveria ser dos proprietários ou empregados. Trata-se de não sujar desnecessariamente o chão, de não o transformar num repelente caixote do lixo sobre o qual comemos ou bebemos. Claro que neste original país é raro que haja uma caridosa alma que nos impeça de atirar todo o lixo para o chão. Há hábitos que tiram qualquer pessoa com réstias de civilização do sério.

Esta semana

Semana de balanços e ataques políticos. A esquerda insulta o povo mostrando a concepção profunda que tem sobre a democracia – apenas é louvável quando dá resultados favoráveis. À direita algum prudente silêncio, será hora de pensar no futuro e numa desejável reorganização. No parlamento discutem-se saudáveis medidas desburocratizadoras. Voltámos a uma aparente normalidade que pode durar três anos. Hoje sai mais um gigantesco jackpot do Euromilhões e o tema mais interessante passou a ser o Benfica – Sporting de amanhã. Agora interessa mais discutir as razões da consecutiva titularidade de Sá Pinto e se devia jogar Nani ou Romagnoli do que discutir Cavaco ou Alegre. Ganhar na Luz é preciso, Cavaco já está em Belém, Soares foi copiosamente derrotado e o maquiavélico Sócrates está se a ver livre de todos os seus adversários. Que amanhã surjam motivos para comemorar.

24.1.06

Mail

Os senhores do Hotmail resolveram apagar toda a minha caixa de correio sem aviso prévio. Quer dizer, nas letras pequeninas dos estatutos que aceitamos, obviamente sem ler, parece que diz que ao fim de um mês sem consultar o mail o mesmo será apagado. Enfim, reconheço o autismo de não ler mails do blogue desde antes do Natal. Preguiças minhas. Claro que, como forma de protesto, já mudei para um endereço no Gmail.

23.1.06

Estupor

Sócrates, o José, mostrou ontem a sua índole – falta de educação, mau perder, desrespeito pelos adversários, excesso de mimo, arrogância – ao interromper propositadamente, outra conclusão será minada pela ingenuidade, o discurso de Manuel Alegre.

Sabujos

O facto de Sócrates, o José, interromper o discurso de Alegre é grave, mas não menos grave é que todos os canais de televisão lhe deram som e imagem. Alegre representou ontem 1 124 641 de portugueses, enquanto o candidato apoiado pelo PS teve 778 370 votos. Sócrates, o José, falava como secretário-geral do partido e não como primeiro-ministro. Que critério jornalístico lhe poderia dar prioridade a não ser o rastejar sabujo dos meios de comunicação perante o poder?

Cavaco II

A grande vantagem da vitória de Cavaco é passarmos a ter alguém a jeito para poder dizer mal. Basta uma ténue recordação dos anos de cavaquismo para me começar a deliciar e a afiar a língua.

Cavaco I

Ganhou e parabéns. Conseguiu o feito de tudo resolver à primeira volta.

Alegre

Podem-se arranjar as justificações que quiserem, 1 124 641 votos sem o apoio de partidos é obra! Alegre deu uma sonora e gigantesca bofetada de luva branca no PS, e por seu intermédio em todo o sistema partidário português. Que valha alguma coisa este resultado na reflexão sobre o nosso sistema político e os nossos partidos, talvez os que existem se renovem ou que outros apareçam, o essencial é que deixemos de os ver (e com razão) como puros sindicatos de poder.

Soares

Humilhação é suave, um tranquilo eufemismo, para descrever o score de Soares. Não valerá a pena bater mais com a marreta no homem. Resumindo, perdeu uma boa oportunidade para não sair de casa.

Louça

Desceu, o que foi bom. Teve mais de 5% e não ficou endividado, o que foi mau.

A expressão da noite

Madame Poliéster chegou a Belém.

O melhor da noite eleitoral

O tinto do Douro e o paio do lombo. Muito boas também estavam as empadas e a tarte. Excelente o “cheesecake”.

20.1.06

O “O Independente” outra vez


Cavaca ou o pesadelo. Quarto de leite Vigor na cabeça e boina Rua dos Fanqueiros. Filosele e Poliéster.
E o Palácio de Belém ali, tão bonito...As voltas que darão na tumba D. Maria I ou D. Amélia.

Coisas da Vida Boa

Noite bem dormida em cama de lavado. Lençóis de bom algodão engomados, pijama tirado do armário.

17.1.06

Será o que nos espera?


Reviver os bons tempos de "O Independente", a melhor coisa que o cavaquismo nos deu.

16.1.06

Alegre

Que alegre foi ver Alegre deixar a contenção a que se tem entregue durante a campanha para cilindrar o quase sempre intocável reverendo Louçã. Que alegre foi ver a reacção acossada de menino mimado pouco habituado a ser criticado como gosta de criticar os outros. Que alegre foi Alegre.

13.1.06


in "Tango"

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O Natal passou, assim como os Reis. Terminam as festas e fica o Inverno. Estamos neste interregno inócuo esperando a Primavera. Tempos de braseiras e casas fechadas, de casulos.

Diálogos Imaginários

– Charles, por favor faça as malas para o fim-de-semana.
– Com certeza, menino. Saímos ao fim do dia?
– Sim, Charles. E obrigado.

11.1.06

Tempo

Que sol! E eu aqui sentado, estupidamente frente a este ecrã. Há sol, mas um frio desencorajador deixa-nos tranquilos dentro desta estufa onde nos refugiamos. Falar do tempo como tema recorrente, uma idiotia para onde fugimos quando nos faltam temas, ou vontade de falar nalguns deles. E é o sol, e é o frio, e hoje por azar não há vento, essoutro tema vasto e estimulante. Há momentos em que definitivamente nos julgamos um poço de desinteresse, em que reconhecemos que estas linhas são um pavoroso exercício de encher chouriços com palavras. Enfim, todos temos direito a isso nesta blogosfera de liberdade, afinal sempre é mais inócuo do que desatar a insultar alguém, ou começar a discorrer um chorrilho de asneiras, ou bater à porta da vizinha que odiamos e desatar aos estalos consecutivos até que o nariz sangre e os olhos se molhem e a garganta doa de tanto gritar. E pronto, o sol está lindo e até a selva de betão parece bucólica com o brilho do frio, os pátios de betão parecem jardins de buxo, em desenhos elaborados, e o Tejo, esse, como sempre, parece mar, mas um mar bem transparente e antigo.

9.1.06

Idiossincrasias

“James Lins. O Playboy que não deu certo.”, de Mário Prata, e “O Príncipe e a Lavadeira”, do Padre Nuno Tovar de Lemos, ao mesmo tempo na mesa-de-cabeceira.

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Jardins de Monserrate, Sintra, 2003

Blogosfera

Novos blogues com passagem directa para a coluna do lado: o regresso de Pedro Lomba no “Vício de Forma” e a estreia de “O Espectro” de Constança Cunha e Sá.

6.1.06

Dia de Reis

Fra Angelico, Adoração dos Magos

País

Depois de Pina Moura talvez não falte muito para termos Mário Lino à frente do futuro aeroporto da Ota. Tudo normal, para um país de terceiro mundo em que nos vamos tornando..

Soares

Se é montagem é muito bem feita, tão genial que é impossível, se não é…
Chegou-me via e-mail um filme com declarações de Soares à Sic Notícias em que – a propósito de declarações de Ribeiro e Castro sobre a esquerda e o terrorismo – parece estarmos na presença de John Cleese e de uma das suas personagens do Monthy Python’s Flying Circus.

“- Ficou chocado com o que disse o líder do PP? – pergunta um jornalista.
- Não, não foi o líder do PP que disse isso. Aquela coisa a que eu me referi, do terrorismo, foi o líder do CDS que disse isso, o Dr. Ribeiro e Castro, que é uma coisa inaceitável e impossível. Ele diz aquilo e é ainda por cima deputado do PS, um dos grandes grupos do PS é o PS, o PS europeu, imagine como é que ele se vai entender com os colegas do parlamento a dizer essas coisas aqui no plano interno. E é feio, não é bonito, e é uma pena que seja um dos mais entusiásticos, se não o mais entusiástico, apoiante do Dr. Cavaco nesta eleição.” (sic.)

3.1.06

Agora

Passada a frenética época com que o ano acaba, partindo os amigos emigrantes que por agora à terra voltaram para matar saudades. Passados os balanços do que passou e a determinação para o que há-de vir. Passados os presentes e os ajuntamentos de amigos e familiares. Passado tudo isto, voltemos à normalidade modorrenta do nosso dia-a-dia comezinho e desinteressante. Passada a tormenta voltemos a navegar numa calma bolina, ao largo e sem sobressaltos.

Balanços

Reservo-me o direito de não fazer balanços do ano. Não há tops de melhores ou piores, de favoritos ou detestados. Foi apenas um ano que passou, com coisas boas e más, como todos. Nesta passagem apenas um certo desejo de continuidade, apesar de tudo.

Coisas da Vida Boa

Fim-de-semana com amigos no campo. Sopa de cação e entradas gourmet em barda. Bons vinhos, caipirinhas, champanhe, vodka e whisky. Música sempre a dar, começando em crescendo com um “revival” dos anos 80. Tudo a apontar para um salto para o novo ano seguido de conversa calma à volta da braseira. Animação inesperada, só muito depois seguida da conversa. O ano novo a chegar em casa, espontâneo, entre amigos e a comer e beber bem.

2.1.06

Ano Novo

Regressado da província, o Anarcoconservador deseja a todos os seus leitores um estupendo ano de 2006.

27.12.05

Coisas da Vida Boa

O Natal em família. Para além das birras das crianças, das discussões idiotas dos adultos, das provas de vinhos, dos doces, dos presentes.

23.12.05

Natal

Hans Baldung Grien (1484 – 1545)

O Anarcoconservador deseja um Santo Natal a todos os seus leitores.

Luzes de Natal II

Rua Garret
Uma confusão e excesso de iluminação tão grande que nos faz lembrar Las Vegas. Salva-se por ser, apesar de tudo, o coração do Chiado, ainda o sítio mais civilizado para fazer compras no Natal.

Av. João XXI
O simples aproveitamento dos postes de electricidade para umas árvores de Natal estilizadas funciona muitíssimo bem. Bom efeito.

22.12.05

Surpresa

Com o Bilhete de Identidade caducado vai para quatro meses, lá me resolvi a suportar o inferno da função pública e a via-sacra das senhas e dos impressos e do atendimento mal-humorado. Cheguei ao Areeiro a fazer exercícios respiratórios e a tentar manter-me em zen para não abalar o espírito natalício e começar a descompor as meninas dos “guichets”. Entrei e, sem dar por isso, estava a trocar sorrisos com a simpática senhora dos impressos, estava – sem ter tempo de pensar – a andar eficientemente de um lado para o outro sem esperas. Cheguei num ápice ao “guichet” final onde mais uma simpática senhora me despachou rapidamente e saí atónito. Para rematar vou agora lá buscar o meu renovado BI, três horas depois da minha primeira visita a esse oásis da função pública que é, ou pelo menos foi hoje, o serviço do Arquivo de Identificação de Lisboa no Areeiro.

Presentes

Ao se ler a posta anterior pode-se ficar com ideia de mim como um espartano com horror ao dinheiro e ás compras. Errado, gosto muito de compras. E gosto muito de dar presentes, e de receber. Dá-me um imenso gozo procurar um presente a pensar em determinada pessoa, tentando encontrar “aquela coisa” que a vai surpreender e agradar. Gosto de rasgar papéis em busca de uma surpresa. Tudo isto é óptimo, mas quando o tempo escasseia e nos tornamos escravos de ter de dar qualquer coisa, e que essa coisa não pode ser uma hilariante brincadeira comprada numa loja de trezentos mas algo que valha 5, ou 15, ou 50 Euros, que foi o que custou o presente da outra irmã. Aí, algo está errado. O dar por obrigação e com obrigação de preço é terrível, e angustiante. Este ano, lá em casa optámos por não dar nada entre os que já trabalham. Não concordei, acho que o que se deve estabelecer é a anarquia nas escolhas que permita por exemplo dar palavras, ou uma fotografia, ou outra coisa que façamos ou que até compremos sem a obsessão do preço e da a aparência aos olhos dos outros. Não é assim tão difícil dar qualquer coisa barata que as pessoas gostem, por exemplo uma colectânea de música feita no computador com uma capa feita e impressa no mesmo – custo: um Euro do Cd e, quanto muito, 1 Euro de folha e de tinta da impressora. Falo por mim, mas preferiria isto a um par de meias de uma cor que não goste, mas que possa custar 15 Euros. Hoje, falta imaginação ás pessoas, criatividade que permita que as coisas não custem fortunas absurdas, que sejam, de facto, indicadas para quem recebe, que sejam mesmo um símbolo de que estávamos a pesar naquela pessoa quando comprámos determinado presente.

19.12.05

Advento

O Natal aproxima-se e só se fala de compras, de presentes. Neste mundo parece que o Natal é unicamente consumo, o clímax de uma época de desenfreado gastar de dinheiro, um hino à superficialidade materialista. Contra as compras nada tenho – até antes pelo contrário –, mas o Natal de hoje é, para a maioria, só e só isso. Que é bom para a economia, pelo dinheiro que circula, não tenho dúvidas, mas que significado atribuirão as pessoas ao Natal? Que é uma simples troca de presentes com dinheiros estabelecidos para cada pessoa como se estivéssemos a passar um cheque de amizade? O mundo que nos rodeia parece esquecer o que é, de facto, o Natal, uma festa religiosa que celebra o nascimento de Jesus Cristo, uma data fundadora do cristianismo. O resto é acessório perante algo de tão essencial, mas o mundo anda enganado em tanta coisa que já não espanta que, também nisto, esqueça o essencial por troca com o acessório dominante.

16.12.05

Frio

Está um frio que corta. Lembra-me Salamanca, na Castela do frio seco. As noites longas entre as facas do vento e os fornos onde entrávamos como frangos. Gosto do frio, do frio seco, sério e intenso. Ficar na casa quente ou sair com a minha velha canadiana, cobertor que me isola, cachecol enrolado ao pescoço e o vento que desperta a cara. Sem o frio não podia gostar do calor e sem estações o mundo é uma seca confortável, ou não, mas sempre seca. Gosto quando gosto do Inverno, ou quando gosto e gostando estou a gosto. Estranho em mim tamanho bem-estar, mas até sabe bem, o espírito natalício parece chegar aos poucos, frio e de pantufas.

Quase acidente

Lá ia eu tranquilo no meu carro, a velocidade aceitável e na calma de ouvir Chet Baker, quando olho para o lado e com o sobressalto dou uma guinada, travões e quase me estampo, não fora hora de pouco trânsito e não ter – ainda não sei como – abalroado ninguém. Uns olhos esbugalhados, mas de carneiro mal-morto, num estranho misto que parecia querer sair do outdoor e qual filme de ficção científica série Z me hipnotizar e tele-transportar para o planeta Zorg. Cavaco apareceu finalmente e os meus pesadelos recomeçaram. Depois do anónimo cartaz da bandeira nacional com a esfera estilizada, eis que surge, após óbvias horas de maquilhagem, no seu esplendor. Tudo é normal, eu é que teimo em não me habituar ao regresso da figura e ainda não me preparei com sessões intensas de Ioga para o que me poderá esperar daqui a um mês.

14.12.05

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A luz amarela do Inverno. O falso calor do dia.

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No burburinho que nos trespassa nas ruas, a serenidade de um Natal verdadeiro permanece. Inabalável.