12.6.06

Diálogos imaginários

– Charles, afinal sempre vou passar uns dias à praia. Faça-me por favor as malas, mas não esqueça que parece que pode vir a chover.
– Com certeza menino, esteja descansado que não me esquecerei de alguns abrigos para o vento e a chuva e tudo estará pronto daqui a pouco.
– Não tenha tanta pressa Charles, só vou amanhã e hoje ainda vou dar um saltinho aos Santos.
– Faz bem menino, aproveite para se divertir um pouco.

8.6.06

E não se pode bater-lhes

A Ministra da Educação anunciou ontem uma proposta para que as escolas do ensino básico tenham, obrigatoriamente, actividades extracurriculares, nomeadamente de Inglês, Educação Física e Ensino Artístico (em particular Música). A medida pode ser questionável por muitos motivos – se há dinheiro, se as escolas têm as condições físicas necessárias ou se há professores suficientes para acompanhar as actividades –, agora, pasme-se, qual foi o grande entrave posto pela inefável FENPROF: segundo este sindicato, a proposta é inaceitável porque esvazia os conteúdos de disciplinas já leccionadas em horário escolar! Quer dizer, o facto de uma escola passar a ter um coro, por exemplo, esvazia os conteúdos de Educação Musical onde se aprendem os rudimentos do solfejo; o facto de os alunos poderem ter horas de conversação informal em inglês, por exemplo, esvazia de conteúdos a disciplina onde os mesmos aprendem a gramática da língua de maneira mais formal; o facto de os alunos poderem ter campeonatos inter-turmas dos mais variados desportos, por exemplo, esvazia de conteúdos a disciplina de Educação Física! Enfim, é esta gente que representa os professores e consegue ter uma força inaudita na sociedade portuguesa, mercê da chantagem constante da greve, tendo sido a próxima “jornada de luta” (dia 14 de Junho) convenientemente marcada, como sempre, entre o feriado municipal de Lisboa (13 de Junho) e o feriado do Corpo de Cristo (15 de Junho). Com tudo isto ainda tentam ser levados a sério por gente séria. E que tal recuar aos métodos de há um ou dois séculos e corrê-los todos à bastonada?

6.6.06

Requiem por um bom jantar

Chegamos tranquilamente e perguntamos pela mesa. Dizem-nos que demora um quarto de hora, pelo que abancamos no bar. Pedimos um Gin-tónico e acendemos um cigarro – correcção, segundo a nova proposta de lei não acendemos nada, ou então, saímos de copo na mão para a porta e fumamos um cigarrito ao ar livre, mesmo que estejam zero graus. A mesa lá está pronta e vamo-nos sentar. A demora habitual na escolha dos pratos e, depois de continuar no Gin ou optar por um vinho branco, lá puxamos de um cigarro enquanto as senhoras decidem que prato vão comer – correcção, segundo a nova proposta de lei não puxamos nada, e como seria indelicado levantarmo-nos agora, roemos um pouco os dedos e começamos a ficar com um humor menos apresentável. Já estamos pouco divertidos quando chegam as entradas com as quais nos entretemos, findas as quais fumamos um cigarro – correcção, segundo a nova proposta de lei não fumamos nada, ou então simulamos uma ida à casa de banho e fugimos até à porta onde, mesmo que estejam quarenta graus e o restaurante não tenha toldo, fumamos desesperados um cigarro que até se calhar não fumaríamos à mesa, mas que a proibição nos dá umas ganas de fumar. Lá dentro a comida ameaça chegar, e aqueles que não saíram para a casa de banho apresentam uma face que deixa adivinhar um rosnar ao primeiro factor externo que complique o periclitante equilíbrio interior em que se encontram. O jantar até foi bom e tudo estava óptimo, e o simpático chefe de sala lá aparece a perguntar por sobremesas. Umas senhoras ponderam uma fruta perante os olhares desesperados e a deitar fumo de quem dava a vida por um cigarro. Mais de metade da mesa começa a puxar por um cigarro, o mais desejado que vem a seguir a qualquer boa refeição – correcção, segundo a nova proposta de lei não puxa por cigarro nenhum. As regras de boa educação são então, e em definitivo, quebradas, e a mesa levanta-se toda – para desespero do chefe de mesa que pensa que querem fugir sem pagar – e forma-se um aglomerado à porta com convivas de mais mesas entre cotoveladas e empurrões devido à chuva que vai caindo sem que haja abrigos para a mesma nas imediações do restaurante. A confusão instala-se perante a recusa dos clientes em tomar o café à mesa, pelo que a chegada de bandejas de café até à porta – entretanto oferecidas pela gerência para acalmar um pouco os ânimos – é saudada com aplausos, que fazem acorrer ás janelas senhoras com rolos no cabelos e roupões turcos cor-de-rosa e homens peludos em tronco nu que olham incrédulos toda a cena.
Imaginam-me num filme destes? Uma vez de três em três meses ainda vá – o sacrifício faz parte da vida –, agora jantar fora deixará, com enorme pena minha, de ser um programa aceitável. Ganharão os take-away, porque por enquanto – embora tema que não por muito tempo – as leis fascistas ainda não entraram para dentro da nossa casa e aí, aí poderemos jantar tranquilamente.

3.6.06

Veto

Aplausos sinceros e vivos ao primeiro veto do Presidente da República, impedindo a aprovação da lei da paridade em nome da liberdade e contra a descriminação positiva. Que a lucidez venha de algum lado!

O Campo e a Cidade

Hoje, Lisboa foi “invadida” pelo “Mundo Rural”, que animou a Capital lembrando que o leite não jorra de fábricas e a carne não é criada em congeladores. O Ministro da Agricultura anunciou, que coincidência, umas vagas medidas de apoio aos agricultores, acenando com muitos milhões. Parece que agora passaram a trabalhar ao Sábado, o que não deixa de ser uma novidade a realçar. Para bom entendedor, fica patente a hipocrisia de um ministro cuja remoção do governo seria uma atitude ao abrigo das leis da verdade e honestidade intelectual.

Agradecimentos

Ao André Azevedo Alves, de "O Insurgente", pela simpática referência ao post anterior.
Ao "Devaneios de Caim", ao "Publicista" e ao "Textos para Tudo" pelos links para este estabelecimento.

1.6.06

Luminária

Segundo as notícias do dia, José Saramago, que faz parte da Comissão de Honra do Plano Nacional de Leitura, disse desconhecer os conteúdos desta iniciativa e que a mesma não tinha grande utilidade. Para Saramago a leitura é uma actividade de minorias e sempre assim será, sendo que iniciativas que a tentem promover são sempre inúteis. Assim vai o comunismo das igualdades, iguais sim, mas só alguns.

31.5.06

Private joke

“Mas, de repente, o Albuquerquezinho arremessou a torrada que tomara do prato e empertigado na cadeira, fazendo estalar os nós dos dedos, olhou sucessivamente as duas velhas com rancor. Exigia as torradas quentes, louras, a escorrer de manteiga e encontrando uma seca, rosnou com azedume:
– Se sabem que me faz mal! Se sabem que me faz muito mal! E não é uma, são todas que estão secas. Já é desleixo.”
Eça de Queiroz in “A Capital”

29.5.06

Crises

O país está em crise, mas oitenta mil pessoas – sim, não é gralha – encheram, este Sábado, o Rock in Rio. Compreendo a ansiedade do país em escutar que “porque a mim tanto me faz, que digas coisas boas ou coisas más”, na voz dos indescritíveis – por falta de paciência – D’ZRT (deve, aparentemente, ler-se Deezêrt). Ou, com o calor que estava, gritar que “algo levantou poeira” na voz da frenética – até nos cansar – Ivette Sangalo. O único motivo de real interesse, a barriga bamboleante de Shakira, perdia-se na distância ao palco que impedia um convite para cear ao abrigo da multidão. Mas supostamente há crise e um bilhete para esta coisa custava 50 Euros. Assim como assim, e assumindo o gasto, antes uns jaquinzinhos e umas pataniscas de camarão, seguidas de umas costeletas de borrego panadas com arroz de grelos, terminando com um mousse de chocolate ou um leite-creme. No Papaçorda, é claro. Com os cinquenta euritos até deve dar para não ter de escolher o tinto mais barato da lista e beber um whiskey com o café. Enfim, cada um com as suas opções, mas eu, crise por crise, antes poupar para o Papaçorda.

Diálogos Imaginários

– Charles, por favor mude os lençóis todos os dias enquanto esta canícula se mantiver, a única maneira de a suportar é mesmo dormir em lençóis de linho frescos. E não se esqueça de reforçar o stock de chá gelado, é que com este calor desaparece num instante.
– Não se preocupe menino, já tratei das duas coisas e comprei muitos vegetais e fruta para amanhã.

26.5.06

Acrescento

(ao post “Carrilho e Dan Brown”)
Num momento de chafurdice mental, e noite de insónia, acabei por assistir, via RTPN, ao famoso Prós e Contras com o Professor Carrilho. Ao post já escrito nada a retirar, apenas um ligeiro pormenor a acrescentar: a bem da saúde pública, o senhor deveria ser “convidado” a passar uma temporada num hospital para doentes mentais. A insanidade do Professor chegou a mostrar teores de demência que só o foro psiquiátrico poderá explicar. Afinal, mais do que mimado e profundamente mal-educado, o senhor é portador de uma qualquer doença mental que o aliena e afasta da realidade. A sociedade deveria tomar medidas pois, após acusar meio mundo de uma conspiração, reescrever entrevistas que deu ou insultar adversários de forma nojenta, a agressividade pode tomar conta do seu corpo e passar a agressões físicas no meio da rua. Não sei porquê, mas a sua cara estampada na capa do livro, com um sorriso vagamente alucinado, faz prever que esteja vestido apenas com uma gabardine e tenha sido fotografado após regressar a casa do Jardim da Estrela. A sociedade que se cuide.

23.5.06

Grafonola e Gira-discos

Mudanças nas músicas aqui ao lado com uma escolha um pouco anacrónica: na Grafonola passa “Sonatine Bureaucratique” de Erik Satie, tocada por Aldo Ciccolini; no Gira-Discos temos “The Guns of Brixton” no punk-ska inesquecível dos Clash.

Carrilho e Dan Brown

Triste país em que um mal-educado político humilhado volta a ser falado por todo o lado ao ter lançado um livro onde elabora uma pretensamente sofisticada teoria da conspiração. Não li, assim como tenho evitado, por higiene mental, outros comentários ou debates televisivos sobre o assunto. Um senhor americano conseguiu num livro, que também não li por manifesto preconceito intelectual, elaborar uma conspiração acerca de um código que se tornou um enorme sucesso agora transformado em filme. Carrilho estará a treinar para ser o Dan Brown português?

20.5.06

Campo Pequeno IV – Crónica taurina

Praça cheia, como dá gosto ver, com um público a revelar ao longo da corrida uma exigência pouco vista e que muita falta faz à festa dos toiros.
O curro da ganadaria Vinhas cumpriu assim-assim: não brilhou por falta de casta e bravura dos touros, não tendo no entanto estragado a noite aos toureiros. O quarto e sexto eram mais tardos e reservados, não tendo, apesar disso, sido aproveitados da melhor maneira pelos toureiros.
Abriu a corrida João Moura com um touro suave, que foi bem entendido e toureado. Nos compridos o problema costumeiro de Moura: esquecendo não estar em Espanha, insiste em recusar a sorte frontal que estes ferros exigem. Correcto na colocação. Para os curtos Moura teve, apesar da falta de sal, touro para lidar à sua maneira. Brega vistosa, com o touro colado à garupa do cavalo e ferros que conquistaram o público que não recusou ovações sonoras. O touro foi pegado por Diogo Sepúlveda, dos Forcados Amadores de Santarém, que bem citou e pegou o touro.
Recebeu o segundo da noite com um ferro à sorte de gaiola António Ribeiro Telles, mostrando cedo a disposição para triunfar. Lide impecável – aproveitando um touro doce, mas com investida – começada com compridos de praça a praça como mandam os cânones do toureio. Nos curtos esteve excelente, numa lide cheia de pormenores toureiros e ferros bem preparados. Belíssima lide que entusiasmou sobremaneira o público. O touro foi pegado por José Maria Cortes, dos Forcados Amadores de Montemor, que não entendeu a investida do touro, tentando pegá-lo sem recuar o que redundou e duas tentativas falhadas.
Rui Fernandes toureou o terceiro da corrida, granjeando alguns aplausos com o seu toureio irreverente, mas bastas vezes excessivo. Lidou com suavidade e conseguiu ferros de boa nota. A pega foi efectuada pelo Cabo dos Forcados Amadores de Lisboa, José Luís Gomes, que deu uma lição pedagógica sobre a arte de pegar touros. Belíssimo cite, excelente a recuar, magnífico na reunião. A pega da noite efectuada por um veterano das arenas.
O quarto touro saiu para João Moura que não conseguiu encontrar a lide correcta para um exemplar de fraca qualidade. Esteve mal nos curtos e escutou assobios – algo tão raro como necessário em praças portuguesas – apesar de encerrar com um digno ferro de palmo. Como senhor toureiro que é recusou a volta à praça. A pega de António Jesus Grave, dos Forcados Amadores de Santarém, foi vistosa e correcta.
Saiu, embalado pelo triunfo no seu primeiro touro, para o quinto da noite António Ribeiro Telles. Recebeu o touro à saída dos curros, aguentando a sua investida até o colocar para um belíssimo primeiro comprido. Os compridos foram de praça a praça, e só o falhanço na cravagem de um deles foi nota menos boa na sua actuação. Nos curtos esteve mais uma vez em grande plano, com ferros frontais e emotivos e brega magnífica. Rematou uma noite de enorme triunfo com um ferro de palmo brindado à família. A pega foi feita por Pedro Freixo, dos Forcados Amadores de Montemor, que esteve muito bem com o touro.
O último da noite foi lidado, e mal, por Rui Fernandes. Não querendo exagerar, veio neste toiro ao de cima o pior defeito deste toureiro: querer impor aos touros os “números” que cada um dos seus cavalos faz (câmbios, ladear, patas que levatam,…) e todos o fazem. Esteve mal com o touro, cravando compridos em câmbio! Nos curtos quis, com o primeiro cavalo, cravar a câmbio e voltou com outro cavalo que fazia o número de levantar uma das patas dianteiras. Alguma confusão entre toureio e circo, perante um touro manso e parado, que também não ajudou. Pegou Gonçalo Maria Gomes, dos Forcados Amadores de Lisboa, a fechar com chave de ouro esta noite com uma bonita pega.
A corrida terminou com a banda, que esteve excelente ao longo da corrida, a tocar o hino, que foi cantado em pé e com enorme dignidade por todo o público presente num epílogo bonito para uma noite a recordar.

Campo Pequeno III – Manifestação

À porta da Praça acolhia-nos uma manifestação de uns grupos de defensores dos animais, também eles com saudades de terem motivos para sair ás ruas com seus cartazes. Muito gritavam e insultavam quem passava, procurando – “comme d’habitude” – que alguém perdesse a paciência ao ser apelidado de assassino e lhes desse uns bons pares de estalos. Claro que a seguir se iriam queixar à imprensa dizendo o quão brutas são as gentes dos toiros. Filme já visto.
Pelo meio destrinçavam-se t-shirts do Che Guevara, levando a que nos apeteça tirar a seguinte conclusão: Nós que gostamos de touradas somos bárbaros e assassinos, enquanto eles, que admiram o guerrilheiro da barba que, só por acaso, até matou razoável quantidade de gente, são uns benfeitores da humanidade contra a nossa selvajaria. Enfim, paradoxos do nosso mundo.

Campo Pequeno II – A Praça

Catita. O rejuvenescido Campo Pequeno está catita a valer. Belíssima obra de recuperação, num exemplo infelizmente raro neste país. Parece que foram muitos milhões, mas a avaliar pelos resultados foram bem empregues. Não se pode dizer que valeu a espera, porque foram muitos anos, mas lá que ficou bem, isso ficou. Majestosa será a melhor definição para esta “nova” Praça de Touros do Campo Pequeno.

18.5.06

Campo Pequeno

Ao fim de muitos anos de espera, lá reabriu anteontem o Campo Pequeno. Parece que é obra boa. Hoje lá o irei comprovar na inauguração pública com aquilo que era, e deve continuar a ser, a principal função do espaço: uma corrida de touros. Eram muitas as saudades das nocturnas de quinta-feira, dos touros à séria na praça de referência do país. Lisboa não foi a mesma neste interregno de tantos anos e a prova da falta que fez é que os bilhetes voaram na segunda-feira e não fora a abençoada Internet e a coisa teria sido difícil. Sector seis e lá estarei.

17.5.06

Inquilinos e Senhorios

O governo acordou de repente a pensar que devia ser de esquerda, vai então apresenta uma Lei para o Arrendamento que, a uma primeira breve leitura, é digna de uma Nova Albânia. Durante anos a fio vem se arrastando uma situação que é da inteira responsabilidade do Estado Português – do governo que aprovou o congelamento das rendas e de todos os posteriores governos nada fizeram para as descongelar. Perante isto o que faz este governo: lava as mãos e divide as responsabilidades entre inquilinos e senhorios. O Estado assobia e, sem lhe chamar assim, propõe uma expropriação das casas na forma da compra pelo inquilino do imóvel a um preço em função do valor fiscal do mesmo. O desgraçado do proprietário, que vem há anos a ser a Segurança Social dos inquilinos – necessitados ou não –, arrisca-se então a ficar sem casa. John Cleese regozijaria com este tema para um sketch dos Monthy Python.

Arte

Scolari, com quem por motivos estranhos até simpatizo, decidiu quem vai ao Mundial da Alemanha. A convocatória é polémica, como o seria em qualquer país civilizado em que o melhor jogador do campeonato não fosse convocado. Quaresma fará obviamente falta, não a titular, mas como substituto de luxo para virar resultados desfavoráveis ou dar golpes de misericórdia em resultados favoráveis. Perdemos, para o Mundial, a arte de um dos jogadores que me faz, apesar de tudo, gostar de futebol.

15.5.06

Estado do Sítio

Este blog, tal como o país, anda numa modorra que torna desnecessários comprimidos para dormir e eleva as necessidades de cafeína, o calor chegou e começa fazer as mentes dormentes.

Boas notícias

Paulo Bento renovou e não conta com Sá Pinto, talvez assim para o ano terminemos mais jogos com onze jogadores e sem penalties idiotas contra nós.

8.5.06

Diálogos Imaginários

– Charles, ainda bem que voltou, já tinha saudades suas.
– O menino como tem passado? Peço desculpa pela ausência, espero que tenha sobrevivido sem mim.
– Com dificuldade, Charles, com dificuldade.

5.5.06

Música

Mudanças nas músicas aqui ao lado. Na Grafonola pode-se ouvir “Pernambucobucolismo”, do álbum “Infinito Particular”, o último da sempre excelente Marisa Monte. No Gira-Discos a voz imortal de Camarón de La Isla, o grande “cantador” de flamenco, aqui com uma letra de Frederico Garcia Lorca: “Mi niña se fue a la mar”.

4.5.06

América

A cada dia me surpreendo mais com o fundamentalismo anti-americano, logo eu que não gosto em especial da sociedade americana, não gosto particularmente de Bush, acho que a Guerra do Iraque foi um disparate criminoso, gosto de muitos produtos oriundos da América (cinema, música, literatura) mas não ia viver para os Estados Unidos, resumindo, tenho, por pouco tempo porém, uma saudável relação crítica para com a América,
Os argumentos que ouvi há dois dias, oriundos de alguém intelectualmente mais do que estimável e politicamente independente, contribuíram para a convicção de que ainda me tornarei um feroz americanista, capaz de rivalizar com a cegueira de um Vasco Rato. Discutia-se política à escala mundial, as privatizações do “sensato” Chavéz, a “ponderação” do “discreto” Morales, o imperialismo americano. A discussão animou e falou-se da primordial importância dos americanos no fim da segunda guerra mundial e do quanto lhes devemos. Aqui tudo se baralhou, e a cegueira anti-americana culminou num argumento precioso: “A guerra iria acabar de qualquer maneira, uma vez que demograficamente os alemães não a poderiam suster, e não podemos provar que foi a intervenção americana que, de facto, parou a guerra.” Perante a estupefacção e indignação generalizada esbocei que até é verdade, como é verdade que nada prova que o 25 de Abril foi essencial para acabar com a ditadura – ela poderia acabar por si –, ou que os Conjurados apenas anteciparam o abandono do nosso país pelos espanhóis. O argumento vale o que vale, não é que seja necessariamente mentira, apenas invalidaria toda e qualquer a análise histórica. No entanto, a melhor conclusão que ainda consegui espremer foi a seguinte: se a guerra acabaria de qualquer maneira, mesmo sem a intervenção americana, era só uma questão de tempo, ora como no entretanto ia morrendo gente, muito em particular judeus, talvez a limpeza étnica se aproximasse dos seus objectivos. Assim, com um pouco de “sorte”, poucos judeus sobrariam e não seriam suficientes para a criação de Israel, o que seria óptimo para o mundo de hoje já que acabaria com o problema do Médio Oriente e, talvez até, com o novo terrorismo. Concluindo, a culpa da instabilidade no médio oriente é dos E.U.A., mas não só de Bush, a culpa vem Roosevelt e Truman que permitiram a sobrevivência de demasiados judeus. Enfim, o imperialismo já tem demasiados anos para que não nos rebelemos contra ele.
Perante tamanho disparate, ainda me vão ver, um dia destes, em manifestações pró-Bush, não é que eu queira, mas a alucinação perigosa do outro lado ainda me vai obrigar a isso.

29.4.06

Notas de Viagem – Sevilha II

Seis e meia em ponto, Real Maestranza cheia, como sempre em corridas de feira. Hasta la bandera como diriam os locais. Silêncios sepulcrais e emoções incontidas. Os toiros saindo à praça bravos, investindo em burladeros e capotes. Os toureiros provando investidas em vistosos passes de capote, os picadores recebendo as fortes investidas sustidas por decididas varas que ferem o animal e mostram a sua bravura com a insistência com que continuam a investir ao mesmo tempo que são agredidos. O brinde ao público no centro da praça ao som de um coro de aplausos esperançosos de uma lide valente e inspirada. Silêncio e os primeiros passes por baixo, baixando a cabeça ao toiro, comprovando a sua bravura e nobreza. Os primeiros olés, espontâneos, que brindam quites arrimados e passes templados. A lide em crescendo com o público a corresponder com aplausos e olés. A faena que foi redonda, emotiva e bonita – o matador suplantou com inteligência e arte a força bruta e brava do animal. O momento fundamental chega, o epílogo deste jogo de vida, no silêncio ouvir-se-ia um alfinete a cair, o toureiro perfila-se, espada na mão direita, e entra, com todas as ganas necessárias, a matar. Estocada inteira, completa, provavelmente mortal. O toiro contorce-se e fica abalado, mas continua a investir, com bravura, com uma bravura rara e digna. A morte tarda, por forças que chegam do interior da sua ancestralidade, e o toiro arrasta o seu corpo quase inanimado até ao centro da praça, até onde apenas os bravos vão morrer, fora dos seus terrenos das tábuas, onde a protecção não chega. No centro, sob os aplausos emocionados do público, cai, com uma dignidade própria dos grandes.

Notas de Viagem – Sevilha


Patio de los Naranjos, Sevilha, 2006

O bulício preenche as ruas onde turistas se cruzam com belas sevilhanas. O Bairro de Santa Cruz com o seu ondulado de ruas onde insistentemente nos perdemos. Casas bonitas e portões por entre os quais se vislumbram serenos pátios. Janelas gradeadas de negro quebrando o branco das fachadas. Azulejos relembrando o carácter árabe de quem aqui passou. Sevilha é alegria e rua, tudo lá fora vivido, mesmo quando os verões de quarenta graus ainda não chegaram. Os dias pegam com as noites que pegam com os dias. Pelo meio tempo para uma corrida de touros na elegante Real Maestranza. Tapear e beber, e a conjugação seguida e alternada deste dois verbos, entre deliciosos montaditos de carne, revueltos con espárragos, calamares, ou pratos de Jamón Ibérico e Queso Manchego. A perdição acompanhada de um Ribera del Duero ou da local e típica Manzanilla. Sevilla é isto e muito mais, sempre dominada pela Giralda e pela Torre del Oro – vestígios árabes que sobreviveram ao correr dos tempos – e pela enorme e majestosa catedral, coração em redor do qual pulsa toda uma cidade.

26.4.06

Primavera

Saio para fim-de-semana com casaco de Inverno, apanho um dia em Sevilha com granizo e um dilúvio sem fim, regresso com o calor de um dia de Verão. A primavera é muito interessante, mas também escusava de ser tão impertinente.

Coisas da Vida Boa

Os campos do Alentejo. O verde profundo, as tonalidades brancas e amarelas pontuadas por excêntricas manchas de roxo, tudo por debaixo de vetustos sobreiros ou antigas azinheiras.

21.4.06

Paridades

Através de processos rocambolescos (vide aqui) o PS fez ontem aprovar a Lei da Paridade. Muito bem, Portugal volta a dar um passo atrás no caminho civilizacional e os nossos políticos vão mostrando a sua enorme qualidade a cada dia que passa. Agora, passamos a ter um “Terço” de mulheres escolhidas por critérios alheados da competência e valor pessoal, o “Terço das Senhoras” ou as novas Socrattettes. Para entrar na equipa do Terço prevê-se agora um recrutamento aturado de figuras representativas da nossa sociedade, assim como foram Matilde Sousa Franco (conhecida mundialmente como a viúva de Sousa Franco) ou Teresa Almeida Garrett (c. m. como a viúva de Lucas Pires), atrevendo-me a sugerir convites a Maria Roma (c. m. como mulher do ministro Freitas do Amaral), Jacinta da Dores (c. m. como mulher do presidente da Junta de Carquejais-de-Cima) ou Ana Pacheco (c. m. como mulher do deputado Nuno da Câmara Pereira).
No meio deste disparate poderíamos encontrar algumas virtudes, pois o parlamento podia tornar-se um pouco mais decorativo. O problema é que, avaliar pela amostra actual, é duvidar da qualidade estética das novas deputadas (sim, tirando a excepção da Joana Amaral Dias), por isso acho que seria justo chamar Pedro Santana Lopes (agora um desempregado político) para assessor de imagem do parlamento, com direito de veto perante candidatas em que beleza não fosse um atributo relevante. Assim, talvez conseguisse vislumbrar utilidade na medida, afinal a estética é um elemento importante numa democracia civilizada.
Como acho discriminatório para outros componentes da nossa sociedade que só tenhamos quotas para as mulheres, acho justo para o futuro reivindicar as seguintes quotas: dez por cento para homossexuais (segundo a famosa sondagem do “Expresso”), dez por cento para portugueses africanos de primeira geração, cinco por cento para portugueses africanos de segunda geração, dois por cento para goeses, um por cento para ex-habitantes de Macau, e assim por diante. Os cálculos seriam sobrepostos segundo uma fórmula matemática elaborada pelo Departamento Pedagógico de Ciências Matemáticas do Ministério da Educação. Assim, finalmente a representatividade da população no parlamento seria atingida. Quanto à qualidade e ao mérito dos novos deputados, isso é um pormenor de somenos importância perante a multiparidade atingida.

Bósnia

Na reportagem do Telejornal de ontem sobre a visita de Cavaco ao contingente português na Bósnia, o repórter resolve perguntar a um miúdo o que conhecia ele de Portugal. A resposta deixou-me estarrecido de vergonha, pois acho de uma total improbabilidade que a pudesse ouvir em Portugal. O miúdo disse conhecer “Marcos Portugal, Figo, Cristiano Ronaldo, Rui Costa…” e mais uma série de jogadores de futebol. Que é imediata a reacção lá fora, ao dizermos que somos portugueses, que conhecem “Figo”, já estamos habituados. Que saibam o nome de outros jogadores de futebol, também é normal. Agora, Marcos Portugal! Realmente é bizarro que na Bósnia um miúdo conheça Marcos Portugal, ou talvez não tanto, se calhar apesar da guerra a Bósnia ainda não foi tomada pelas “modernas” pedagogias que dia a dia embrutecem os jovens portugueses, talvez na Bósnia “Educação Musical” queira dizer ensinar de facto música ás crianças, talvez na Bósnia cultura não seja sinónimo de instalações incompreensíveis ou filmes indicados para noites de terríveis insónias. Fica a pergunta, quantos miúdos em Portugal identificariam Marcos Portugal como um compositor dos séculos XVIII-XIX? E quantos não diriam imediatamente que era um cantor pimba?

18.4.06

Músicas

Aqui ao lado novas músicas: na Grafonola toca agora “Fields of Gold”, na voz cristalina da saudosa Eva Cassidy, intérprete muito aqui de casa; no Gira-Discos, e ainda em referência à Páscoa passada, passa “Pilgrims”, na belíssima voz bem irlandesa de Seán Keane.

Páscoa

Passou, mais uma, por outro ano a Páscoa chegou ao Domingo. Esta foi Páscoa, mesmo Páscoa, com tudo o que a Páscoa deve ter e ser. Fé, alegria e Família. Soa a serôdio, mas é assim mesmo. Missas e cerimónias, procissões com encapuçados e bandas de trompetes soltando tristes sons, andores enfeitados de bonitas flores. O Cristo, crucificado ou ressuscitado, sofredor ou portador de esperança. A Páscoa tem significado e é para o ter, algo que vá para além de viagens stressadas para o Algarve ou filas intermináveis em auto estradas com condutores destilando ódio e insultos ao ritmo que mudam de ponto morto para primeira. Ainda há espaço e tempo para outras Páscoas, só temos de os procurar.

8.4.06

Semana Santa


“Flagelação”, Caravaggio, 1607

Na próxima semana este blog estará a Caminho de Santiago. A todos uma boa Páscoa.

Nervos

Aqui, vai-se entrando em estágio. Há que preparar o dramático jogo de hoje. Daqui a pouco saída de casa para uma bifanas e cervejas já perto do estádio. Depois, bem, que seja uma noite feliz pelas bandas de Alvalade.

6.4.06

Coisas da Vida Boa

Sim, ainda existem conservas assim. A lata envolta num papel de design apurado e moderno, com a sardinha, os tomates e a moderna menina que dá nome ao produto sobre o discreto fundo amarelo. Parece relíquia de tempos passados, mas foi comprada, e comida, faz poucos dias. O conteúdo era excelente, com sardinhas que realmente parecem sardinhas em sabor e consistência, e um molho de tomate que não sabe a corantes ou conservantes. Produto português, de boa qualidade, mas difícil de encontrar. Afinal, cada vez mais a sina das coisas da vida boa: existem, mas tornam-se tão discretas que parecem secretas. Aliás, aproveito para contribuir para isso não revelando onde consegui comprar esta lata. Maldades minhas…

4.4.06

A Bomba

A indispensável Bomba fez três anos. Com costumeiro atraso daqui vão os parabéns e uma música de Piazzolla com letra de Borges – “El Títere” – vai para a Grafonola aqui do lado.

Ontem

A noite passada foi estranha, senti um ar quase quente enquanto jantava ao ar livre. Parecia que o calendário tinha avançado para Julho, esplanada cheia, gentes bem dispostas. O ar ainda esbranquiçado das peles chamava-nos à realidade, ainda é Abril, onde águas mil ainda cairão dos céus.

30.3.06

O Fonógrafo e o Gira-discos

Entusiasmado por em final saber por música no blog, entram hoje em acção mais dois leitores, o Fonógrafo e o Gira-discos, a juntar à Grafonola.
O Fonógrafo estreia-se com Amália a cantar “Vagamundo” – com música de Alain Oulman e letra de Luís de Macedo –, gravado em 1962 no disco que veio a revolucionar toda uma maneira de encarar o fado, o "Sem título" e posteriormente entitulado “Busto”.
O Gira-discos começa de forma cool, com a interpretação de Chet Baker em Flugelhorn de “Baby Breeze” de Richard Carpenter, gravado em Novembro de 1964 no disco com o mesmo nome.

Justiças

No processo Casa Pia parece que já se encontraram vítimas, tanto que o estado terá – e muito bem – que as indemnizar. A questão é que caminhamos a passos largos para não ter culpados, seja por absolvição, falta de provas ou prescrição. Enfim, o costumeiro país da justiça onde dá um enorme gosto viver.

28.3.06

Imagem e palavras


Convento da Arrábida, 2004

E do velho fez novo, dando-lhe alicerces e estrutura – tudo simples, tudo puro –, para erguer uma nova construção, um pouco velha, um pouco nova. Despojada, essencial. Sem ornamentos desnecessários, sem fugir à simplicidade das formas. Recuperando e reaproveitando o bom, o original, o que conduzia a Ele, edifício universal e perfeito.

27.3.06

Coisas da Vida Boa

As olaias já em flor e a nova hora que empurra o dia para mais tarde.

25.3.06

Na Grafonola

Hoje, mudança na grafonola aqui do lado: “Alguien le dice al Tango”, com letra de Jorge Luís Borges e música de Astor Piazzolla; no bandonéon Daniel Binelli e na voz Jairo.

23.3.06

Hoje

O vento sopra
O barco tem medo
Ás armas, ás armas

O Inventor – Heróis do Mar

Ontem

Por inexplicáveis Benquerenças ao Norte de uma criatura de amarelo vestida, acabei ontem desiludido após fumar mais do que devia. Com menor Benquerença, determinado resultado seria outro e pouparia adeptos ao desnecessário, e neste caso injusto, sofrimento dos penaltys. O Olegário que vá Bem-querer para outra freguesia, que de Benquerenças destas está Alvalade cheio.

Coisas da Vida Boa

Passear no Chiado e ter um súbito e incontrolável ataque de fúria consumista. Chegar a casa com sacos muitos e voltar a provar a roupa ao som de novos discos. Ir para a cama com livros novos na mesa-de-cabeceira.

21.3.06

Poesia

Diz que hoje é o "Dia Mundial da Poesia". Mantendo a coerência deste blog e a sua irritação com Dias Mundiais, hoje não teremos postas com poemas. Manias minhas…

Boas Notícias

O Contra a Corrente fez três anos e ameaça continuar.

Agradecimentos

Ao Abencerragem por ter a amabilidade de linkar este blog.

17.3.06

Coisas (realmente) graves

Estar quase sem stock de compota de chá Marco Pólo (da Mariage Frères).

St. Patrick's Day

Nada melhor do que música para comemorar o santo irlandês, quer dizer, talvez uma dúzia de pints de Guiness pudessem substituir a música, ou uma garrafinha de Tullamore Dew e um balde de gelo. Ou melhor, juntar os três dentro de um pub irlandês - por exemplo o Matt Molloy's em Westport -, com uma autorização excepcional para fumar lá dentro, e ficar noite fora até nos mandarem para casa.

Cores

Há dias que me apetecia ser milionário. Hoje, com a chuva lá fora, daria por bem empregues os milhões dispendidos num Van Gogh que olharia intemporalmente.

16.3.06

Coisas do M(e/a)u Feito

Teimar em usar torradeiras antigas – das que torram um lado de cada vez –, sempre pondo a aquecer em segundo lugar – como é óbvio – a face que levará a manteiga amolecida previamente. Quando assim não é, admito ataques de vigorosa indignação.

14.3.06

Modernices

E pronto, cedi ao progresso e instalei uma grafonola neste blog. Não aguentei a falta de música neste fundo preto e, depois de aturadas e muy custosas pesquisas, lá consegui perceber como musicar a coisa.
Para começar, uma escolha incontornável: o grande Vinicius de Moraes. Podemos ouvir aqui uma interpretação ao vivo – em “La Fusa” de Mar del Plata, em 1971 – com Toquinho, do clássico “Tarde em Itapoã”. A apresentação da música é, como quase sempre nos concertos de Vinicius, uma delícia que nos faz querer lá estar. Lá, onde ele estava a cantar, e lá, onde ele pensou a música entre cachaça e água de coco, pisando areias da praia: ”con la mirada perdida en el encuentro de cielo e mar, bien despacito, parece que sentimos toda la tierra a rolar”.

13.3.06

O Espectro

Uma citação de Vasco Pulido Valente para marcar o fim de O Espectro:
“O dr. Cavaco não desembarcou ontem de Boliqueime e a cabeça dele não é um mistério. Nunca percebeu o país que governava e, hoje como ontem, sempre o quis transformar num "bom aluno" da Europa: sério, cumpridor e "moderno". Como? Aplicando, "com rigor", o "modelo" de Bruxelas: no fundo, o modelo clássico da "social-democracia", corrigido por algum "liberalismo" relutante e forçado. Não lhe ocorreu que esse "modelo" pudesse não servir à nossa velha cultura de isolamento e miséria, e à nossa classe "dirigente" irresponsável, oportunista e crassa. O resultado não se recomenda. Mas Cavaco não aprendeu nada no exílio. Volta disposto a repetir a dose, "em comum" com o governo, se o governo deixar. Ou seja, ponto a ponto, "medida" a "medida" vai tentar refazer o Portugal imaginário do seu tempo de glória. Um exercício inútil, como já se provou.”

Fim-de-semana

Isto de estar um fim-de-semana fora da net traz surpresas por vezes desagradáveis. Dois blogs acabaram – “O Espectro” e “O Sinédrio” – e vão encurtar os meus favoritos aqui do lado. Pena.

Naval

O que eu gosto da minha Figueira, nem a distância me a faz esquecer. Que simpática a sua visita de ontem a Lisboa. Que bons ares marítimos e o sopro da Serra da Boa Viagem.

9.3.06

Sinceridade

Apesar de tudo, vou ter muitas saudades de Sampaio.

Estado do Sítio

Guiava ontem tranquilamente por Lisboa e comecei a sentir a opressiva presença de polícias em quantidades absurdas. A ideia de golpe de estado assaltou-me, mas pensei mais friamente – de quem e contra quem. Loucos insatisfeitos seremos muitos, mas na sua maioria preguiçosos e com pouca vontade de maçadas.

8.3.06

Estado da Arte

Ontem, Paulo Portas foi mais o ex-ministro do que o ex-director de “O Independente”. Pena, entre dois “ex” e algo de novo fez a pior opção.

Coisas do M(e/a)u Feitio

Descobrir ocultos instintos homicidas quando me fazem perguntas no pós acordar.

6.3.06

Como eu a compreendo

“Quero muito ir a Portugal. Mas tenho medo porque ouço dizer que está tudo muito moderno. Estou a reler, pela quinta vez, A Cidade e as Serras e sonho com o Portugal de Eça. Não quero ver auto-estradas!”
Danuza Leão em entrevista à revista Sábado

3.3.06

Anúncio de imprensa II

Oferece-se, a custo zero, ministro dos negócios estrangeiros de país da comunidade europeia. Dado o perfil do proponente, dá-se prioridade a repúblicas sul americanas com regimes de esquerda populista. O curriculum do candidato é vasto e sabe usar a palavra "licenciosidade".

1.3.06

Carnaval II

Alguns amigos resolveram combinar um jantar em que pediam, quase exigiam, disfarce. Estava eu em dia de pouca paciência para a coisa, mas vá, resolvi aderir. Fui ao armário buscar a uma t-shirt do Che Guevara, aproveitei a barba de alguns dias, e saí pronto para uma manifestação anti-globalização ou da protectora dos animais. Tentei, mas não consegui, encarnar na personagem, afinal é mais difícil um disfarce consistente de coisas mais comezinhas, mas que nos são mais próximas, do que uma máscara exótica de personagens de ficção. Ainda ensaiei tratar as pessoas pelo apelido precedido do clássico camarada, mas, apesar de algum esforço, acabei a noite a discutir perspectivas sobre a religião. Podemos nos querer disfarçar, mas no final acabamos invariavelmente por cair nas nossas convicções mais sinceras.

Carnaval

Enquanto do Brasil chegam imagens de loucura colectiva, de calor e diversão, o nosso país lá arrastou mais um deprimente Carnaval. Por aqui ainda há criaturas que teimam na cópia e insistem em desfilar semi-nuas com uma temperatura de gelar. Talvez uma penitência pagã que substitua idas a pé a Fátima, mas, apesar dos seus mistérios, a fé é mais compreensível do que exercícios que aparentam um simples e disparatado masoquismo.

Marcha de Quarta-Feira de Cinzas

Acabou nosso Carnaval
Ninguém ouve cantar canções
Ninguém passa mais brincando feliz
E nos corações
Saudades e cinzas foi o que restou

Pelas ruas o que se vê
É uma gente que nem se vê
Que nem se sorri
Se beija e se abraça
E sai caminhando
Dançando e cantando cantigas de amor

E no entanto é preciso cantar
Mais que nunca é preciso cantar
É preciso cantar e alegrar a cidade

A tristeza que a gente tem
Qualquer dia vai se acabar
Todos vão sorrir
Voltou a esperança
É o povo que dança
Contente da vida, feliz a cantar

Porque são tantas coisas azuis
E há tão grandes promessas de luz
Tanto amor para amar de que a gente nem sabe

Quem me dera viver pra ver
E brincar outros carnavais
Com a beleza dos velhos carnavais
Que marchas tão lindas
E o povo cantando seu canto de paz
Seu canto de paz

Vinicius de Moraes

27.2.06

O Insurgente

Parabéns a “O Insurgente” por um ano em que se tornou um dos blog essenciais.

Futebol

Que agradável fim-de-semana futebolístico! Um golaço de Liedson e três a zero em Coimbra, um frango de Baía (mais um) e o Benfica a ganhar na Luz. São só dois pontos e tudo é possível. Quem o diria há dois meses atrás?

Coisas do M(e/a)u Feitio

Tolerar com muita dificuldade que me dirijam a palavra pela manhã.

21.2.06

Imagem e palavras

Dubrovnik, Croácia, 2002
Passou, com a pele queimada pelo sol que contornava rugas e os tristes olhos mostrando a passagem do tempo. Passou, e continuou o seu caminho certo, um pouco ondulado pelo peso das compras e o torcer da idade. Passou, com uma leve corcunda de problemas e a magreza da humildade. Havia algo de pobre e digno, algo que chamava o olhar. Por isso a imagem foi feita à traição, sem querer tocar na dignidade, sem querer dela fazer um objecto perante a lente curiosa. As ruas sinuosas em redor do centro estavam desertas ao fim da tarde. Os turistas concentravam-se nas muralhas vendo o pôr-do-sol ou em esplanadas relaxando da intensidade do dia. No meu deambular sem sentido, por becos estreitos, encontrei-a. O seu passar fez-me olhar de novo e assim a vi partir, por uma ruela empedrada, preparada para atravessar uma sucessão de arcos, com o barulho do saco de plástico a quebrar o silêncio dos seus passos. Caminhando para uma casa, para uma vida, que com alguma arrogância julguei triste.

20.2.06

Estado de espírito

O regresso ao cosmopolitismo desenfreado de Lisboa, hoje batido por um vento cortante que abana janelas e despenteia senhoras de penteados armados por lacas antigas.

17.2.06

Anúncio de imprensa

Troca-se Ministro dos Negócios Estrangeiros. Aceitam-se candidatos de todas as proveniências. Curriculum anexo e fotografia de corpo inteiro. Local de trabalho aprazível em país de clima ameno.

Coisas da Vida Má

Beber café em sítios sem cinzeiro.

Estado de espírito

Este blog estará, durante o fim-de-semana, a praticar a sua faceta mais conservadora e, talvez até, tradicionalista.

16.2.06

Freitas “Chamberlain” do Amaral

Que falta de chá a do nosso caríssimo Ministro dos Negócios Estrangeiros! Então não é que, depois do rasgado elogio que o Embaixador do Irão lhe teceu, tem o desplante de se declarar ofendido com uma simples referência ao holocausto!

15.2.06

Momento Licencioso

Detesto o dia de S. Valentim, acho-o um perfeito disparate e é ridícula a figura das pessoas em carneirada cheias de flores, presentes e corações. Soubesse desenhar e faria seguramente um cartoon demolidor sobre o tema, em que ridicularizaria ao limite da idiotia total os praticantes do culto valentiniano. Espero que esta liberdade de expressão não provoque confrontos de pares de namorados a tentarem apedrejar-me por profanar uma data para eles sagrada. Pelo sim, pelo não, irei estar atento, nada mais perigoso que uma mulher apaixonada enfurecida.

Coisas realmente importantes

Liedson renovou com o Sporting até 2010.

Coisas estranhas que acontecem II

Acabar o dia de S. Valentim a discutir psicologia humana com base num cinzeiro Stelton.

Coisas estranhas que acontecem I

Conseguir ter um jantar divertido no dia de S. Valentim. Isto sem ter de suportar os olhares babados dos casais que nos rodeiam, sufocar com um cor-de-rosa opressivo, ler ementas com menus chamados “Amor aos pedaços” ou “Paixões dos sentidos”, achar que o jardim botânico se transferiu para o nosso lado, cortar ás tirinhas os corações em nosso redor. Claro que só foi possível em casa de uma amiga, com um grupo de amigos, e mesmo assim a sofrer com o atraso de um take-away japonês entupido com demasiados pedidos e que parecia ter ido pescar o peixe antes de o preparar em sushi e sashimi.

14.2.06

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Paris, 2001

Convocatória

Depois de aturado e infindável trabalho, consegui por fim elaborar o relatório de contas e enviá-lo junto à convocatória para a Assembleia de Condomínio. A parte técnica está superada, resta agora a Assembleia. Aguardo receoso esse momento, não porque tenha aproveitado o dinheiro do condomínio para umas férias na praia, justificadas em Assembleia como obras provindas do rebentamento de um cano que me inundou a casa, mas pelo momento em si. Entrarei, de maço de folhas na mão, tentando encontrar nas poucas caras presentes uma das que eu conheço, vislumbrando alguma solidariedade. Sentar-me-ei, procederei ao início dos trabalhos e pronto, entrarei em roda livre procurando capacidade de resposta a perguntas sobre a pintura do prédio, a recolha de lixos, a vizinha que anda de elevador com o gato que por vezes se descuida, o namorado da vizinha que chega tarde num carro de tunning e acorda os andares mais baixos, o casal jovem e dinâmico que é subtilmente acusado de excesso de vigor por referências da vizinha de baixo ao chiar desalmado da cama. No meio de tudo há sempre recalcamentos antigos e prevêem-se trocas de palavras amargas cheias de tentativas de polimento que a pouco e pouco caem. Eu estarei calmo, possivelmente por acção de comprimidos, e susterei quaisquer reacções, com especial cuidado aos saltos efusivos e abraços a quem esteja ao lado no momento em que seja eleita a nova administração.

10.2.06

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"Amor? Amor é um fogo que arde um ano e cinzas que duram trinta."
Príncipe de Salina in “Il Gattopardo”

O Leopardo – Beleza

Três horas num museu a ver pintura. Da boa, da melhor, em Technicolor. “O Leopardo”. Há muito para dizer sobre este filme, mas o essencial depois de o ver pela primeira vez no grande ecrã é a descoberta de um tempo em que o cinema era arte levada ao limite. Visconti compunha imagens como quadros ou fotografias em sucessão. Para além da história, para além das mensagens. Um esteta que fazia cinema de beleza incrível. Se filme há que nos mostra o essencial do grande ecrã e a sua vantagem sobre a nossa casa – mesmo contando com mantas, paragens para comer, poder fumar – é este. Conhecia o filme em formato de televisão e já me tinha fascinado, já o achava um conjunto belíssimo: a história, as interpretações, a música. Tudo isto é superado pela visão em cinema. O teatral terço que abre o filme, o piquenique em referência ao “Dejeuner sur l’herbe” de Manet, o quadro em movimento na subida a caminho de Donnafugata, a chegada com família cheia do pó a entrar em comitiva solene na missa, o fabuloso baile final. Não sei qual quadro compraria, talvez a entrada da beleza selvagem e absurdamente sensual de Angelica Sedara (Claudia Cardinale) no palácio em Donnafugata deixando os personagens e o público a suspirar por uma descida à realidade.

O Leopardo – Il Gattopardo

9.2.06

8.2.06

27

Aproveitando a sua ausência “roubei” finalmente a desejada caixa. Sim, a caixa que o meu caro cunhado é feliz proprietário e era, faz um tempo, meu objecto de descarado desejo. 27 discos de Vinicius de Moraes. Sim, vinte de sete discos. E na caixa não estão as fundamentais gravações em Mar del Plata – com Toquinho, Maria Creuza e Maria Bethânia – ou a noite em casa de Amália. Estas já eu tinha, assim como mais algumas, mas vinte sete! Claro que, iTunes aberto e CD’s a entrar, assumo a pirataria de quem não tem possibilidade de ter esta caixa sem de facto a roubar (nunca a vi à venda em Portugal e, a existir, teria um preço por certo proibitivo). Ouço o Soneto da Separação, acompanhado pelo subtil piano de Tom Jobim. Esperam-me longas horas de Vinicius. Que bom!

7.2.06

À estalada

Hoje saí decidido a dar um par de estalos a qualquer criatura de extrema esquerda que encontrasse na rua. Sinto-me ofendido com inanidades lidas nos últimos dias (vide por exemplo Daniel Oliveira). Como esta gente acha que o direito à indignação desculpa irracionalidades e assassinatos, parece-me que um simples par de estalos seria louvado como forma quase pacífica para um católico oprimido reagir aos insultos perpetrados. Saí, pena foi não ter encontrado uma dessas criaturas.

Cartoons

Os cartoons de toda a polémica não eram de bom gosto. Como de bom gosto não seria aquele que enfiava um preservativo no nariz do defunto Papa. Não me lembro, no entanto, de haver gente a incendiar a sede do Expresso, ou a esbofetear desalmadamente António, ou a ameaçar de morte o Arq. Saraiva. Na altura, esses cartoons foram defendidos pelos mesmos que agora criticam os dinamarqueses. Alguma coerência seria saudável. Parece que, para alguns energúmenos, há religiões de primeira e outras de segunda. Umas a que se permitem os mais insanos radicalismos e outras que são atacadas por não crentes ao defenderem condutas para os seus crentes com as quais estes não concordam. Recalcamentos de ex-seminaristas ressabiados e de gente que convive mal com a fé alheia, a não ser que a mesma seja anti-americana, aí, em nome do anti-imperialismo, tudo é defensável e compreensível.

2.2.06

Socorro

Ano funesto o que passou. Uma cruz a carregar e eis-me agora no final do calvário. Administração de Condomínio. Três palavras malignas que sugerem, e são, um inferno na terra. Está quase a acabar, mas falta agora a parte pior – preparar o Relatório de Contas para a Assembleia de Condomínio. Logo eu, que tremo com palavras como balanços e balancetes.

Disparates

As duas lésbicas conseguiram o que queriam. Depois do pedido idiota para casarem, eis que todas as televisões as entrevistam e pouco faltará para serem concorrentes ao próximo reality show da TVI. O seu advogado, em pro bono pois então, ganhou umas horas de publicidade de valor inestimável. E a saga promete continuar com recursos sucessivos. Não haveria da nossa justiça continuar bloqueada, com idiotas como estes, que sabem estar a contrariar a lei, a darem trabalho inútil aos juízes.

1.2.06

Regicídio

Passam hoje 98 anos sobre o assassinato do rei D. Carlos e o do príncipe Luís Filipe. Muitos anos e três repúblicas que transformaram este país. Uma primeira república que de tão má nem os republicanos a fazem lembrar. A segunda, marcada por uma ditadura provinciana que nos enclausurou do mundo. A terceira vai correndo, por vezes tentando ser ainda pior do que as anteriores. Dia triste pois então.

Beleza da simplicidade

O alinhamento de pinheiros mansos junto ao Tejo, na Expo, com o brilho do Mar da Palha emoldurado por troncos e copas.

30.1.06

Fútil

Fala-se de neve e de Bill Gates. Sampaio recebeu Cavaco e o F.C. Porto empatou ontem. Temas profundos que me fazem voltar ao livro de Edith Wharton e ás futilidades da Nova Iorque do princípio do século. Acho que estou a ficar farto de seriedades.

Neve

Ontem, pus a hipótese de descer a Calçada do Combro de saco de plástico caso a neve se fixasse no chão. Hoje, pergunto-me se seria da febre ou de uma adolescência tardia mal resolvida.

Espectral

O “O Espectro” já figura na lista aqui ao lado, mas o surgimento de Vasco Pulido Valente como bloguer justifica mais uma chamada de atenção. A seguir diariamente, esperando curiosamente a chegada do terceiro elemento referido por Constança Cunha e Sá. Imprescindível.

29.1.06

Hoje

Nevou. Estranhamente nevou.

3-1

Não foi mau ontem, parece que se fez Luz. Na Luz.

Fim-de-semana

Uma p… de uma virose – nome chique da actualidade para febres e afins – e a casa como refúgio do frio polar lá fora. Chá verde chinês e torradas com mel da Lousã.

Coisas da Vida Boa

No Telejornal da RTP1 de sexta-feira, a presença de António Rosado em estúdio a tocar alguns temas de Mozart. Comemorando os 250 anos do nascimento do génio, um telejornal diferente em que se descobre o sentido de “serviço público”.

27.1.06

Coisas que irritam

Chegar a um balcão e pedir um café. Puxar de um cigarro e esperar que nos tragam um cinzeiro. Não é lógico ter de pedir, o interesse maior de que não deitemos cinza e beatas para o chão deveria ser dos proprietários ou empregados. Trata-se de não sujar desnecessariamente o chão, de não o transformar num repelente caixote do lixo sobre o qual comemos ou bebemos. Claro que neste original país é raro que haja uma caridosa alma que nos impeça de atirar todo o lixo para o chão. Há hábitos que tiram qualquer pessoa com réstias de civilização do sério.