17.12.06

Petição

Nos links aqui do lado, na secção “e agora…”, pode o leitor aproveitar para assinar a petição contra a irresponsável e idiota TLEBS. A bem deste país e da sanidade mental dos portugueses.

15.12.06

Corrupções

Parece-me bem a nomeação de Maria José Morgado para dirigir a investigação do processo “Apito Dourado”. Não simpatizo, de todo, com a senhora enquanto figura pública, acho-a mesmo bastante desagradável, mas transmite um certa ideia de fibra e incorruptibilidade que é essencial para o processo em causa. Apenas quem acredita no Pai Natal acredita que não há corrupção no futebol português, vamos ver se é desta que “essa gente” é punida pela lei.

12.12.06

Lisboa

O debate de ontem fez-me ter vontade de ser mosca e assistir ás sessões da Câmara de Lisboa. De um lado, Carmona Rodrigues, do outro, quais tias à mesa de chá, Maria José Nogueira Pinto, José Sá Fernandes e Ruben Carvalho. Tudo muito animado, mas cordial, como deve ser, sem insultos nem tontarias. Ganha Lisboa? Talvez não, porque quem manda é Carmona que na prática não tem mostrado o bom senso que aparenta quando fala. Também não será grave, pelo menos não foram ouvidas propostas estonteantes “à la Santana”. Estava mais um senhor na mesa que parecia estar fora de tudo, quer dos assuntos em discussão, quer da familiaridade divertida dos restantes. A política não tem de ser terra de insultos, pode haver discordância firme sem roçar o insulto e a provocação barata. O senhor do canto ainda não percebeu isto, aliás, nunca o irá perceber e ainda bem, assim não correremos o risco de o ver eleito para qualquer cargo de poder.

Ditaduras

A morte de Pinochet trouxe de novo à baila a idiota discussão entre ditadores de direita e de esquerda. Caso para voltar a dizer que um ditador é um ditador, é um ditador, é um ditador.

11.12.06

5.12.06

Açoites

Açoitar será pouco, talvez umas chicotadas polvilhadas com sal sejam mais adequadas para os energúmenos que teimam em deseducar as nossas crianças, criando um ensino absurdo e monstruoso. A propósito da TELBS, como é óbvio.

.

“Ai, Portugal, Portugal
Enquanto ficares à espera
Ninguém te vem ajudar”

Jorge Palma, “Portugal, Portugal”

4.12.06

Delírios

O PS parece querer lançar Jorge Coelho como próximo candidato à Câmara Municipal de Lisboa. Só faltava acrescentar a recandidatura de Santana Lopes para ficarmos com a certeza de que o caos se iria instalar. Coelho augura tudo de mau, pelo menos para quem se lembre das suas excelentes relações com os construtores civis, típicas de quem se arrastou durante anos nas funções de angariação de dinheiro para o partido. Adivinho já o slogan “Lisboa não pode esperar”, revelando a enorme necessidade de construir e de “fazer obra” na cidade. Teme-se o pior, mas esperemos que não se concretize e que a direita acorde e deixe de se comportar como uma criança mimada e irresponsável.

1.12.06

Comemoração e Pessimismo


Corria o ano de 1640 quando um grupo de conjurados se juntou para expulsar os espanhóis do território português. Era a independência, a soberana e livre independência que hoje se comemora. Passados tantos anos será que somos dignos dela? Será que somos ainda um país livre, soberano e independente?

29.11.06

Camarate

A anunciada confissão de José Esteves pouco adianta sobre o caso Camarate. Há muitos anos que é definitiva a sensação de que tudo foi feito para que nada fosse descoberto. Teoria de conspiração? Não o creio, são demasiados os indícios de obstrução para que sejam apenas uma coincidência usada para reclamar justiça. Portugal não é um país justo e, infelizmente, o problema não vem de hoje, vem de há mais de vinte anos. As inúmeras comissões de inquérito terão sido um part-time para deputados com pouco para fazer. Os responsáveis serão uma vez mais um grupo de desconhecidos e, como diz o povo, a culpa morre solteira. Fica a óbvia revolta por viver num país assim, em que a impunidade alastra dos criminosos de facto até aos criminosos por conivência que nos governaram e governam.

Uff!

Cantemos aleluia por um dia de sol que alivia as depressões aquosas.

28.11.06

E a 25 de Novembro

Começou o 31.

Colecções

A colecção de Manuel de Brito (o falecido dono da Galeria 111) vai estar exposta ao público no Palácio Anjos em Algés. A família, herdeira da colecção, cedeu a mesma ao município de Oeiras por um período renovável de onze anos. O projecto e as obras de adaptação do palácio foram da responsabilidade de autarquia. Será impressão minha ou detecto alguma (saudável) diferença em relação à colecção Berardo?

24.11.06

Dia Imaginário

Arrasto-me até ao armário onde desencanto uma mantinha de lã. Corro à cozinha onde a água está quase a ferver, e deixo-a cair suavemente para dentro de um bule, previamente escaldado, sobre um infusor com chá verde. Transporto com cuidado o tabuleiro até uma pequena mesa ao lado do confortável sofá. Ponho a tocar Sinatra, com a orquestra de Tommy Dorsey, e sento-me resolutamente, sem intenções de me levantar, com um livro de Waugh ao lado. À frente o fogo consome a lenha na lareira. Chega Charles e pergunta o que quero para o lanche e o jantar, sendo a minha resposta vaga e desinteressada. Hoje, o que interessa mesmo é aproveitar o temporal para me recolher na minha cápsula, Charles sabe como a tornar cómoda até ao limite do insuportável.

23.11.06

Tarde Em Itapuã


Para não esquecer a música muito cá de casa, aqui vai Vinicius de Moraes em concerto com Miucha, Tom Jobim e Toquinho. Apesar de estar a ser filmado para a televisão, a ideia de uma informal noite entre amigos está presente na garrafa de Whisky que se vai esvaziando ao ritmo da Bossa Nova. Além de um grande poeta, que bela companhia para uma noite de copos seria Vinicius.

22.11.06

CCB

Entra a Colecção Berardo, após infame e ruinoso contrato assinado pelo Estado, e sai a Festa da Música por falta de verba. Será mesmo necessário comentar?

21.11.06

Coisas Divertidas

Apesar de ser “intelectualmente incorrecto”, confesso que ontem fui assistir a um concerto do José Cid no Casino de Lisboa. Mais incorrecto ainda será dizer que foi um óptimo concerto e que me diverti como em muito poucos concertos que me lembre. Para além da qualidade de algumas músicas – sim, não é erro, acho que são mesmo boas e não falo, como é óbvio, do “Macaco gosta de banana” nem das “Favas com chouriço” – é sempre divertido estar num concerto em que o público – que atravessava gerações e classes sociais – conhecia e cantava todas as músicas, como se as mesmas fizessem – e se calhar até fazem – parte das suas vidas. Eu gostei e diverti-me, e ponto.

The Departed – Entre Inimigos

Por estas bandas gostou-se muito do último Scorsese, The Departed – Entre Inimigos, confirmando que há realizadores que não sabem fazer maus filmes e que, de uma maneira geral, teimam em os fazer excelentes. Tudo aquilo em que Scorsese é mestre está presente neste filme: argumento sólido, realização sublime, montagem sem erros, música que é parte integrante das imagens (belíssima versão de “Confortably Numb” cantada por Roger Waters e Van Morrison.). Essencial ao brilhante resultado final é também o trabalho dos actores que, neste caso, está ao nível da realização: Leonardo Di Caprio está magnífico e poderoso, com uma contenção sempre pronta a explodir que lembra em muito o James Dean de “Fúria de Viver”; Jack Nicholson constrói mais um momento vintage, em que não cede, como por vezes já o fez, ao overacting e domina o filme do princípio ao fim; Mark Whalberg é perfeito num pequeno, mas delicioso e importante, papel secundário; e no meio de tantos homens surge Vera Farmiga, com uma serenidade que escorre dos seus olhos cor de água e inunda todo o filme, representando alguma normalidade no meio de tanto desequilíbrio e violência. A sua personagem é uma réstia de bom senso num mundo alucinado e é elemento chave para a compreensão de toda a densidade emocional que Scorsese apresenta, sem ceder, como é seu hábito, a moralismos fáceis.

Agradecimentos

Ao Pedro Sette Câmara que fez, n’ “O Indivíduo”, o primeiro link internacional, via Brasil, para este blog.

20.11.06

Lisboa

As comadres zangaram-se em Lisboa e a coligação foi desfeita. Os motivos foram os melhores, ou seja, desavenças em nomeações para uns tachos quaisquer. Será preciso qualificar esta gente? Carmona – ou bastião da moralidade, como se apresentou nas eleições –parece que afinal é apenas uma marioneta do aparelho do PSD que, estando fora do governo, parece ter dificuldade em colocar os seus “boys”. Nada que espante muito, o que espantará mais são as mensagens já passadas de que a câmara ficará ingovernável e que, salvo consigam pescar o socialista descontente, poderemos ter eleições antecipadas! Ao que parece as minorias são um incómodo para esta gente e o simples facto de terem de governar sem poder absoluto é algo de indigno e impensável. Resumindo, ou teremos um “queijo limiano” por parte do socialista que, compreensivelmente, se incompatibilizou com Carrilho, ou as eleições poderão ser uma realidade. Seria uma animação, nestes aborrecidos tempos que o país atravessa, mas também seria uma irresponsabilidade enorme para a governação da cidade de Lisboa, que pararia durante algum tempo como que fechando para balanço.

16.11.06

Isto promete!



A julgar pelos excelentes vídeos promocionais, e pelo elenco, este parece ser um “filme” recomendável. Esperemos pela estreia que, ao que parece, será dia 25 de Novembro.

15.11.06

O disparate do Marquês

O famoso túnel que Santana Lopes sonhou para Lisboa tornou-se mais um exemplo perfeito das obras públicas em Portugal. Após adjudicação directa, as obras começaram em Agosto de 2003, com um prazo de 61 semanas para a sua conclusão. Estamos em Novembro de 2007, e nem os sete meses de atraso devido à providência cautelar interposta por José Sá Fernandes justificam que a data prevista para o fim da obra seja de Março de 2007. Fim este que é parcial, uma vez que a saída para a António Augusto de Aguiar ainda vai ficar à espera da conclusão de obras de reparação de fissuras na linha amarela do Metro, no local em os túneis distam imensos cinco centímetros.
Durante todo este atraso ganhou Lisboa um magnífico estaleiro e um trânsito ainda mais caótico na zona do Marquês. Da derrapagem orçamental nem vale a pena falar, são os incontáveis milhões que vão alimentando a construção civil deste país à custa dos contribuintes. Tudo isto se passa e a impunidade continua. Enfim, é o país que temos.

13.11.06

Democracias

Ontem, dei por mim a dizer bem do secretário-geral do PS. Estranho, especialmente tendo em conta que o fiz a propósito de o mesmo confirmar que, independentemente de o referendo ser vinculativo, a despenalização do aborto só acorrerá se o “Sim” ganhar. A decisão é tão óbvia e do mais puro bom senso que nem devia ser motivo de regozijo. Afinal, para que serviria este referendo se assim não fosse? A partir do momento em que foi feito o primeiro referendo, é democraticamente óbvio que a lei só pode ser alterada após aprovação por outro referendo. Claro que a arquitecta Helena Roseta, num desvario estalinista, acha o contrário, mostrando que os paladinos da esquerda mais dura continuam com uma visão da democracia no mínimo estranha.

Coisas da Vida Boa

Uns copos de água-pé por entre as brumas do fumo das castanhas.

8.11.06

Coisas do Tempo

O Outono chuvoso levou nas águas a cor de areia estival do template. Voltamos assim ao negro original, mais digno da sobriedade da estação.

Versões

Aqui ao lado passamos a ter “Ne me quitte pas” em duas versões bem diferentes: Nina Simone com sua delirante versão já muito falada no Impensável e Ute Lemper no estilo cabaret berlinense.

Links

A blogosfera sempre em movimento levou a actualizar os links deste blog.

7.11.06

Esquerdas

Saddam Hussein foi condenado à morte por enforcamento após julgamento segundo as leis iranianas. Entre a defesa dos direitos humanos e a persistente compreensão pela cultura árabe, a esquerda ficou hesitante.

6.11.06

A Havaneza

Ao longo da vida há sítios por onde passamos que se tornam parte integrante de nós. A mercearia onde comprávamos rebuçados em criança, o quiosque onde íamos ao jornal com os nossos pais, o café onde lanchávamos com as nossas avós. Todos teremos memórias de sítios essenciais, sejam de memórias de infância, sejam de momentos mais recentes. Este fim-de-semana chegaram notícias tristes da Figueira: a Casa Havaneza estava de porta fechada. Um papel dizia que reabriria, mas após os boatos de Agosto, acerca da mudança de dono, são poucas as esperanças de que tudo fique na mesma.
A Havaneza era uma livraria à antiga, onde podíamos comprar jornais e revistas, canetas e cigarros, postais e, claro, livros. A definição “comércio tradicional” não se poderia aplicar de melhor forma. Não falamos de uma loja que valia só pelos seus produtos, mas de uma instituição cuja importância se estendia a quem nos acolhia por detrás do balcão. Há lojas onde vamos com o propósito já definido de comprar algo, mas outras há onde vamos, simplesmente vamos, para ver o que há, para estar. As idas à Havaneza não tinham de ter um fim ou uma lógica, por vezes eram passagens para ver as novidades na montra sempre em mudança, outras, entradas para ver as revistas que tinham saído ou se tinha chegado o livro que tínhamos perguntado se havia e que estava a caminho. Como esquecer as capas de papel pardo com o nome gravado que cobriam os livros para poder levar para a praia sem estragar. Como esquecer os belíssimos marcadores de livros com fotografias antigas da Figueira, ou a edição de postais com essas e outras fotografias doutros tempos desta praia. Como esquecer a sua esquina e as suas montras, as janelas azuis, a placa encarnada de latão, o letreiro comemorativo dos cem anos de casa.
Pode a Havaneza reabrir, mas será decerto outra Havaneza, em que a senhora D. Helena não estará por trás do balcão com a sua simpatia difícil de conquistar, esperando a passagem de amigos, clientes antigos, ou novos clientes cujo interesse a fizesse levantar e dar dois dedos de conversa. A Havaneza não era uma loja fácil, onde éramos acolhidos por empregados ignorantes e falsamente simpáticos que nos bajulam desnecessariamente, na Havaneza os clientes eram bem tratados, mas com um educado distanciamento só vencido pela repetição, pelo interesse. A Havaneza era desorganizada e pouco prática, mas esse era também o seu charme, e também o motivo porque encontrávamos sempre um livro interessante que não procurávamos.
A Casa Havanesa era património da Figueira, ou ao menos deveria ser. A “minha“ Figueira é, era, indissociável da Havaneza, como o era de mais alguns sítios que tristemente já desapareceram. Talvez seja excesso de conservadorismo, talvez seja um ataque de nostalgia num escuro dia de Outono, o certo é que a Figueira que me fez feliz já só existe na praia e nas pessoas. Tudo em redor foi sacrificado a um pretenso progresso.
Como disse um amigo, com os seus pequenos exageros, parece que se foi alguém de família. Não diria tanto, mas por certo que se foi algo de meu.

3.11.06

Coisas que irritam

Abrir um blogue e ser automaticamente fulminado por música, obrigando-nos a dar um desagradável salto da cadeira.

2.11.06

31.10.06

Aborto (questões avulsas)

Quando ainda faltará algum tempo para o referendo, a discussão sobre o aborto já começou. Ontem foi um “Prós e Contras” demasiado animado, na blogsfera já se escreve sobre o assunto em muitos blogs e até já há blogs consagrados ao assunto.
A discussão deriva sempre, e em demasia, para pontos acessórios, escapando ás questões essenciais que este assunto levanta. O que está, de facto, em causa? Uma lei que vai ser referendada e se a seguinte pergunta vai, ou não, ser aprovada:
“Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras 10 semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?”
Sobre isto ficam algumas questões no ar:

– O que é a “opção da mulher”? É a escolha entre um aborto gratuito e uma maternidade sem aconselhamento médico e psicológico, sem outras opções para além do aborto? Será apenas isso? O aborto é assim considerado um fim per si, que assume uma desresponsabilização do Estado no apoio à maternidade. Haverá opção real sem soluções alternativas?

– O que entende o PS por despenalizar? Depreendo que seja impedir as mulheres de serem acusadas por abortarem. E o que se passa com as clínicas abortivas, se não são penalizadas passam a ser legais?

– Porquê dez semanas? É de facto diferente uma mulher que aborta ás nove semanas e meia daquela que aborta ás dez semanas e meia? Se não há qualquer base científica para estabelecer este limite, porque é que ele existe? Convém clarificar se passamos a ter um crime sem pena até ás 10 semanas, que no espaço de um dia passa a ser penalizado?

– O que se vai passar com as mulheres que abortem fora de tempo? Quem vai fiscalizar os médicos que fazem abortos para verificar se as semanas são cumpridas? Vai haver uma “brigada das semanas”? É que se é estabelecido um limite numa lei que é suposto resolver um problema, esse limite será para cumprir integralmente, doa a quem doer. Serão as mulheres realmente presas? A questão é tão mais pertinente quanto nos, poucos, casos levados até hoje a julgamento, que contaram com grande contestação dos adeptos do “Sim”, as mulheres em causa abortaram fora do prazo que pretendem legalizar.

– “…em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?” Privado ou público? Se for privado não dá resposta ao discurso neo-realista das mulheres pobres e desgraçadas, pois elas terão de pagar para recorrer a este serviços. Se for público teremos um grave problema no país. Portugal tem um sistema nacional de saúde a rebentar pelas costuras e sem dinheiro, onde há filas de espera para consultas e operações. Se o aborto vier a ser feito em hospitais públicos, das duas uma, ou passa à frente (por causa das dez semanas) podendo impedir actos médicos que salvem vidas humanas, ou então espera e passa o tempo legal. Como prevê o Ministro da Saúde resolver este problema?

– Os hospitais públicos são pagos pelo contribuinte, ou seja, os impostos virão a ser utilizados para efectuar abortos. Concluímos que o Estado irá pagar para matar?

30.10.06

Elogio do Silêncio

(a propos de “Into Great Silence”, de Philip Gröning, exibido sexta-feira no DocLisboa)

A deslocação a um cinema para ver um documentário de cerca de três horas sobre a vida monástica dos cartuxos (a ordem de clausura com regras mais ascéticas) – filmado com som ambiente, luz natural e sem equipa técnica, que não o realizador, segundo regras estabelecidas pelo abade para, dezasseis anos após o pedido de Gröning, autorizar a entrada na Cartuxa – é experiência radical a que não aconselharia noventa por cento dos meus amigos. Tudo levava a imaginar um filme chatíssimo, e apenas uma conjugação de interesse artístico e religioso me levou aceitar a experiência. Sim, a experiência, porque é disso que o filme trata. A experiência de partilhar uma forma de vida exótica perante os padrões de vida de hoje em dia. Mais do que “entrar” no silêncio, entramos num mundo paralelo em que o tempo é conceito diferente, regrado e repetitivo, mas tranquilo.
A clausura sempre foi uma manifestação de fé que tinha grande dificuldade em compreender. O que levaria um ser humano livre a deixar-se reger por um regime de vida profundamente ascético e que tornava a sua existência um mero ritual repetitivo de oração? Porque motivo alguém escolhe, no mundo de hoje em que as liberdades são conhecidas por (quase) todos, uma vida em que o mundo é apenas uma existência física para lá de muros e paredes? O filme não procura esta resposta, como aliás não procura nenhuma resposta, seguindo o rigor jornalístico na forma com se “limita” a mostrar uma vivência, uma opção de vida, sem um julgamento moral ou social. Gröning não nos diz que esta reclusão, ou qualquer outra reclusão, é boa ou má, aceitável ou não, apenas nos mostra com crueza e rigor como é vivida essa reclusão. Claro que observar como é a vida de clausura nos permite ter o nosso próprio julgamento, não condicionado por ideias veiculadas no filme, mas sim pelo nosso julgamento perante a realidade que nos é mostrada. Ao ver como é a vida destes monges, consigo melhor perceber que assim consigam viver.
O silêncio é algo de que tendemos a esquecer o valor. Quantas vezes poderemos dizer que estamos, de facto, em silêncio? Hoje, a sociedade associa o silêncio à solidão, à tristeza, a uma fuga da realidade cada vez mais barulhenta e feérica, a uma fuga do mundo. Acredito que isto se passe em cada monge que escolheu a vida da Cartuxa, apenas um factor não é semelhante, para eles o seu mundo não é o nosso mundo vulgar e comezinho, o seu mundo é o espiritual, e o “nosso” é apenas suporte físico intermédio numa relação permanente com o divino.
Será a clausura necessária para alguém poder dedicar a sua vida a Deus? Não creio, mas é uma forma como qualquer outra para alguém se encontrar consigo próprio e com o divino. Não será tão exótica esta opção de vida radical como será a dos hippies ou dos ciganos nómadas? Cada vez mais a sociedade nos manipula a acolher diferenças que se tornam politicamente correctas e que acabamos por ter de aceitar, porque não aceitar que alguém queira simplesmente ter o seu mundo sem incomodar ninguém?
Cinematograficamente o filme é interessantíssimo, pois mostra o enorme talento de Gröning para filmar em condições mais do que complicadas. Ele não podia utilizar as técnicas habituais, a sua câmara teria de ser crua e discreta, simples e sem artifícios. A beleza estética que resulta das imagens é impressionante, e há planos inesquecíveis, tais como as orações nocturnas acompanhadas por cantos gregorianos ou os primeiros planos frontais dos monges. Não obstante, o mais notável no filme é a forma como o mesmo é montado e com isso consegue criar uma lógica argumentativa. A montagem consegue tornar o filme surpreendentemente ritmado, criando uma série repetitiva de tempos, nunca fechada, permanente. A sequência de imagens alterna imagens da vivência dos monges – rezando, comendo, cantando – com a natureza em redor – com a maravilhosa natureza em redor e as suas montanhas cobertas de neves ou ribeiros correndo na primavera. Gröning consegue, através de uma brilhante realização e de uma fabulosa montagem, criar uma quase-hipnose ao longo do filme da qual apenas somos despertados quando as luzes se acendem. No final do filme, a sensação é a de que de facto estivemos na “Grande Chartreuse” por tempo indefinido, há um tempo indefinido. Enquanto o filme dura esquecemos o mundo, o nosso mundo, e compartilhamos a experiência de espiritualidade vivida pela oração, por uma vida de constante oração.

Amadorismos

Como será possível que, num festival internacional de cinema (DocLisboa), um filme (Into Great Silence) passe com um enquadramento maior do que o ecrã que capta a imagem projectada e que, pior ainda, durante uns dez minutos tivesse o enquadramento deslocado em um terço para fora do ecrã! Numa sala de cinema do Colombo protestaríamos, mas ainda poderíamos desculpar, agora num festival de cinema…só mesmo em Portugal.

26.10.06

Diálogos Imaginários

– Charles, tenho a cabeça feita em água. Já não sei o que vista, com a chuva inclemente e esta temperatura difícil de perceber.
– Menino, acho que isso se poderá resolver. Vou buscar os seus casacos impermeáveis e sapatos adequados, mas acho que ainda será excessivo para camisolas.
– Já não sei nada, Charles. Já não há estações calmas e previsíveis como antigamente.

25.10.06

Estações

Ontem à noite senti falta de uma vela, ou de uns remos, enquanto atravessava o rio da segunda circular. Ainda olhei, por entre o dilúvio, em busca de umas carpas saltitantes. Apenas água, e muita, por todo o lado.

Plágio

Anda por aí um grande bruá por causa do suposto plágio de Miguel Sousa Tavares. Apesar de ter lido o livro, de que aliás gostei, não me interessa muito a factualidade de haver, ou não, plágio. O livro em questão, um romance histórico, mostra a bibliografia de consulta onde consta o livro supostamente plagiado. Como tenho Miguel Sousa Tavares como uma pessoa inteligente, e muito acima da média em tudo o que não esteja relacionado com futebol, acho que a burrice de fazer um plágio descarado de uma obra citada não é coisa dele.

24.10.06

Filmes do País

O governo, sempre tão atento ás coisas modernas, estranhamente ainda não se lembrou de contactar M. Night Shyamalan, conhecido realizador de cinema, para se deslocar a Portugal. Seria uma importante operação com vista à cedência de direitos de algumas histórias passadas no nosso país, com a contrapartida de as mesmas serem filmadas por cá. Ao chegar, por certo que o realizador resolveria mudar-se por tempo indeterminado, ao descobrir um filão de histórias, tão ao seu gosto, em que as mais improváveis coisas parecem ter força e vida próprias. Vejamos:

1 – Há uma ponte que resolve cair. Não por que uma tempestade devastadora, com furacões seguidos de tremores de terra, pesasse sobre ela, apenas porque sim, porque terá ganho vida própria e, por qualquer motivo, lhe apeteceu. O seu estado de conservação era excelente e ninguém tinha elementos que lhe permitissem desconfiar que ia cair. Apenas caiu.

2 – Há um túnel do metropolitano que é previsto para uma zona ribeirinha. O projecto e a obra são exemplares e têm em conta todas as especificidades de subsolo da zona do em causa. Estranhamente, parece que o túnel ganha vida própria e insiste em não querer ser concluído. Mete água, faz deslizar a terra à sua volta, e deixa perplexos os projectistas, os construtores e os donos de obra. Há quem questione maldições relacionadas com naus afundadas nas redondezas, certo é que os anos passam e em seu redor continua um magnífico estaleiro sobre o rio.

3 – Um túnel de provecta idade chegou a um tal estado de degradação que necessitava, por razões de segurança, de obras. Tudo se acerta e estabelece-se que a obra durará um ano, durante o qual o túnel será encerrado. Passado esse tempo sabe-se que a obra quase não avançou e demorará mais algum tempo. O motivo parece ser a presença de um fantasma do Adamastor que teima em não deixar que as modernices entrem no túnel e lhe levem a patine adquirida ao longo dos anos.

Na forja:
4 – Crianças de uma instituição estatal são comprovadamente abusadas. O processo arrasta-se em tribunal e ninguém é condenado. Fica um mistério assustador: que estranho ser terá abusado repetidamente das crianças desaparecendo posteriormente sem deixar rasto?

5 – O futebol do país treme com um enorme processo de corrupção que atinge muitas das maiores figuras do meio. São tornadas públicas escutas claramente comprometedoras. O processo é arquivado perante a estupefacção geral. Um conhecido imitador é preso por obstrução à justiça e desrespeito pela autoridade, negando veementemente todas as acusações. Quem terá sido o maléfico criador de todo este processo sobrenatural?

21.10.06

Adivinha

Qual é coisa qual é ela que está disponível para comprar a tempo de se ler mesmo antes de nascer?






A resposta é o Sol, o único jornal já nas bancas ás cinco e meia da manhã de ontem.

Promessas

Apesar de ter passado a campanha eleitoral com um cuidado asséptico em não se manchar com promessas, o primeiro-ministro José Pinto de Sousa conseguiu o prodígio de, um ano e meio passado, conseguir quebrar a grande e veemente promessa de não admitir portagens nas SCUT. Os jornais e a opinião pública espantam-se e indignam-se com facto, esquecendo que o mesmo é (e já era ao tempo da campanha) uma inevitabilidade por motivos económicos. Quanto ás promessas, parece que ainda há quem persista num desmedido optimismo de acreditar nos nossos políticos, claro que serão os mesmos que daqui a dois anos reelegerão o Eng. Pinto de Sousa e o seu PS para mais quatro anos de governo.

20.10.06

Jóias

A questão das jóias portuguesas roubadas na Holanda, já por aqui falada, volta a mexer com uma petição para que, com o dinheiro compensatório, sejam efectuadas cópias dignas do valor do património perdido. Assine aqui.

Versões

Continuando com “Nature Boy”, aqui vão mais duas versões, a mais conhecida, de Nat King Cole, e a de David Bowie para a banda sonora de Moulin Rouge.

Blogosfera

O Insurgente” mudou de endereço e a correcção já foi feita aqui ao lado. 500 000 visitas é um número impressionante que merece parabéns. Aproveito para agradecer a simpática referência ao post anterior.

18.10.06

Ocupação

Seguindo o exemplo dos ocupantes do Rivoli, estou seriamente a pensar juntar uns amigos e ocupar a Casa dos Bicos em protesto com a falta de políticas de conservação e restauro do património português. Aproveitaremos para denunciar o esbanjamento de dinheiros públicos no sustento de obscuros artistas que, ao abrigo de uma suposta vanguarda, se entretêm a levar à cena peças inqualificáveis e das quais a única lembrança que restará será o trauma de quem a elas assistiu. Defenderemos os músicos e os escritores que não conseguindo caçar subsídios, como os colegas do teatro, vão tendo de criar as suas vanguardas a custas próprias e sem apoios do Estado. Denunciaremos também a frenética construção de novos centros culturais e pavilhões multiusos por parte dos municípios, que leva ao abandono de excelentes salas de espectáculos já existentes, servindo apenas para, com o aval do desenvolvimento da cultura, enriquecer, ainda mais, os empreiteiros da zona. Será também ponto de ordem a indignação com a incompetência óbvia da maioria dos nossos cineastas que, tendo escolhido uma arte cara, acham que o Estado é obrigado a financiar os seus caprichos, nomeadamente fazer filmes que nem sequer estreiam ou que ganham prestigiados prémios em festivais de cinema alternativo no Burundi.
A bem da cultura e na revolta invejosa de quem, com grande pena, não é pago pelo Estado para fazer o que gosta. Seria realmente divertido que o Ministério da Cultura me financiasse uma bolsa criativa para estudar as praias do Mediterrâneo, podendo depois levar à cena uma peça minimalista, sem diálogos, com o meu ar de gozo a olhar as fotografias passadas em slide-show no palco ao som de quartetos de cordas de Haydn.

17.10.06

Contradanças

Acabada a época dos casamentos, e passada que está a festa do Lux, tornar-se-á difícil voltar a dançar Frank Sinatra, rodopiando freneticamente pista fora agarrado a um obediente, bonito e ritmado par. Restam sempre jantares caseiros em que a bebida empurre os pés para acompanhar os delírios dos Pink Martini. O Outono chegou com as nas suas brumas e chuvas.

Thanks (to you)

Com as covinhas a aparecer na cara, consequência inevitável de um sorriso, agradeço a quem se deu ao trabalho de me felicitar pelos três anos deste blogue. Fico com vontade de experimentar a receita de “Bombe Glacée” enviada pelo Impensável, quem sabe para um lanche em que convidaria outra Bomba que simpaticamente destacou este discreto sítio.

13.10.06

Happy Birthday (to me)

Manif

80 mil pessoas, em dia de semana e horário de trabalho, entupiram ontem o centro de Lisboa. Parece que gritaram com grande indignação contra o governo de Sócrates. Tudo certo e correcto, não fora o incómodo que causou a muita gente. Porque não se juntaram no Estádio da Luz onde até poderiam aproveitar para dar uns toques na bola?

Touros

Na sua habitual fúria proibicionista, o Parlamento Europeu votou ontem uma proposta para “por fim à luta de cães, touros e galos e adoptar normas legais nacionais ou comunitárias, segundo os casos, que assegurem que as pessoas implicadas não recebem subvenções nacionais ou estatais para organizar esses eventos”. A proposta foi aprovada após ser retirada a palavra touros. Podemos assim, por mais algum tempo, assistir, sem espírito de resistência armada, a touradas. A liberdade cultural continuará e a emigração para o México deixa de ter fortes motivos.
Na tentativa insistente de proibir as touradas, fico sempre com a mesma dúvida: o que quereriam eles fazer dos touros bravos? Se os cães e galos são animais domesticados, com existência indiscutível muito para além das suas lutas, que aliás não me interessam nada, onde iriam parar os touros? Talvez por ingenuidade, não imagino touros bravos domesticados num T1 em Telheiras ou no quintal de uma moradia em Oeiras. Nem me parece que possa alimentar a esperança de ver o Dr. António Maria Pereira a passear no Chiado acompanhado por um bonito exemplar da Ganadaria Vinhas a quem, de quando em quando, daria festinhas carinhosas. Talvez seja mais interessante pensar em ver os animais a passear à solta pelos jardins de Lisboa onde, quais pombos, viessem comer ás mãos das pessoas. Qualquer solução seria sempre muito interessante, foi aliás por isso que já sugeri a ganaderos que ofereçam alguns exemplares ás associações de defesa dos animais. Sempre gostava de ver se os tratavam melhor do que eles.

10.10.06

Versões

O som aqui do lado vai passar a ter alguma ordem, a partir de hoje serão apenas versões. Comecemos então com “Nature Boy”, uma música de Eden Ahbez, e com duas das suas múltiplas versões: Vinicius de Moraes e Toquinho, no disco “O Poeta e o Violão”, e Lisa Ekdahl, no disco “Heaven, Earth and Beyond". Para ouvir as diferenças da mesma música em duas óptimas, e tão distintas, versões.

6.10.06

Jóias

Há alguns dias, foi revelado que Portugal iria receber uma indemnização de 6,2 milhões de Euros pelo roubo das jóias destinadas a uma exposição na Holanda. Num país com o património no estado em que está, este dinheiro poderia ser importante contributo para, feito o mal de se perder um património provavelmente irrecuperável, conseguir efectuar importantes restauros. O medo vem ao olhar para a ministra que assinou o protocolo Berardo e temer que o dinheiro das jóias dos séculos XVIII e XIX se converta em prestações desse ruinoso e vergonhoso protocolo e se troquem as jóias por instalações com bidés e papel higiénico. A bem do comendador e a mal do país.

5.10.06

Comemorar o quê?

Dezasseis anos de caótica e sanguinária pseudo-democracia?
Sete anos de ditadura militar?
Quarenta e um anos de ditadura cinzenta?
Um ano de perigosos despojos revolucionários?
Trinta e um anos de democracia quase sempre mal governada?

4.10.06

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Jardim Botânico de Coimbra, 2006

Será um sinal?

Paulo Portas voltou à gravata, ontem, no “Estado da Arte”.
Irá também voltar à política activa?

Serviço Público

“Portugal de…”, conduzido por Rui Ramos, com Maria Filomena Mónica. Seguirá com outros ilustres portugueses ás terças à noite na RTP1.

Esperança

O novo Plano de Revitalização da Baixa-Chiado, coordenado por Maria José Nogueira Pinto, foi apresentado, na passada segunda-feira, pela Câmara Municipal de Lisboa.
Ao passar os olhos pelo plano fica a esperança de poder ver, finalmente, o Terreiro do Paço sem carros e com a dignidade que merece. Fica a esperança de ver gente a viver na Baixa e de que a mesma deixe de ser, à noite, um deserto de marginalidade. Fica a esperança de que a urbanidade do Chiado e a genuinidade de Alfama e do Castelo desçam as colinas e se encontrem na abandonada Baixa. Fica a esperança de que, pelo menos numa parte, Lisboa recupere dos consecutivos anos de degradação e se torne numa cidade mais civilizada.
Concebido por uma equipa credível (Manuel Salgado, Elísio Summavielle ou Raquel Henriques da Silva, entre outros), podemos ter esperança na qualidade da proposta. Haja esperança que o poder político avance, de facto, com o projecto.

2.10.06

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Quem um dia disse que o saber não ocupa lugar nunca terá tido de arrumar uma casa a olhar horrorizado para pilhas de livros e discos.

22.9.06

Impensável

Acho que um Hooper é um presente adequado para comemorar os três anos de companhia assídua do Impensável. Muitos parabéns.


Edward Hooper, “A Woman in the Sun”, 1961

Estado do Sítio

Por entre o pó atrás dos armários e as altas e desequilibradas pilhas de livros retiradas das estantes. Armários contra armários, em duelos renhidos pelo escasso espaço. O assumir da acumulação como uma doença de devastadoras consequências. A sala em versão armazém, cheia de coisas conhecidas, mas também muitas esquecidas. A tranquilidade que nos obrigamos como condição para evitar o mergulho janela abaixo. A poesia das mudanças por causa de pequenas obras em casa.

19.9.06

O mundo está perigoso

O fundamentalismo islâmico parece querer-nos cercar de todas as formas: primeiro são as bombas que nos ameaçam a vida a qualquer momento e em qualquer parte do mundo, agora é a vitimização que nos ameaça a liberdade de expressão.
Tornar o choque civilizacional em que nos encontramos numa guerra santa é de um perigo imenso, mas ceder, sem reservas, a um ambiente de constante pressão sobre os valores mais essenciais em que assenta a nossa civilização não será a melhor solução. O medo é, e sempre será, uma demonstração de fraqueza, não só física, mas também de ideais, de convicções e de valores. No momento em que mostremos medo e reverência, em que condicionemos o nosso dia-a-dia e a nossa vida a factores externos, estaremos a mostrar ao mundo que a força, o terror e as ameaças podem vencer, que nos podem vencer. Nesse momento a sociedade pela qual os nossos antepassados lutaram estará a caminho do fim e o que se seguirá é um mistério que prefiro não tentar desvendar.

Será desta?

A presença da Ministra da Educação no “Prós e Contras” de ontem serviu para que, pela primeira vez em muitos anos, passasse a ideia de que esta pasta foi entregue a alguém minimamente sensato e cujo objectivo é melhorar de facto o ensino. Não vou dizer que a Ministra é o máximo, até porque não tenho conhecimento suficiente para o fazer, mas que me pareceu que o seu discurso foi dominado pelo bom senso, isso sim. Como a sensatez é algo que escasseia neste país fiquei satisfeito, talvez seja pouco, talvez não chegue, mas seguramente é um bom caminho. Além disso, é prova da mais elementar sensatez que a Ministra esteja em colisão com os sindicatos de professores, entidades que parecem zelar mais por manter um estado contínuo de PREC do que pelos professores e pelo ensino em Portugal.

18.9.06

Desporto

O futebol em Portugal promete tratar-se de um caso de polícia. Fosse este um país (realmente) civilizado e tudo passaria das escutas desvendadas nos jornais, das claras acusações do presidente de um clube e dos golos de andebol marcados impunemente. Como estamos em Portugal, e já quase nos esquecemos do interminável caso da Casa Pia, tudo acabará em ”águas de bom bacalhau”, com o Major a ser condecorado pelo Estado com uma qualquer ordem de mérito. No campo, onde se devia jogar o futebol segundo as regras e onde alguns ingénuos jogadores persistem em correr atrás da bola, tudo deixa de fazer sentido, tão clara é a batota que envolve tudo isto.

Agradecimento

Ao André Azevedo Alves, de “O Insurgente”, pela simpática referência que fez disparar o Sitemeter.

12.9.06

Pena

A parte final que vi do “Prós e Contras” de ontem chegou. Chegou para lamentar a progressiva senilidade que infelizmente tomou conta do outrora lúcido Dr. Mário Soares. Enfim, a vida prega destas partidas e uma altura há em todos começamos a perder faculdades. Pena é que, apesar disso, se apareça na televisão de forma voluntária e se esteja, com penoso esforço, a debitar inanidades e vulgaridades ao longo de mais de duas horas.

11.9.06

Músicas

Novos sons aqui ao lado. Na Grafonola toca “Lamento no Morro”, da dupla Jobim-Vinicius, interpretado por Vinicius de Moraes, Toquinho e Maria Creuza, ao vivo em “La Fusa”. No Gira-Discos passa “La Soledad”, dos Pink Martini, com um curioso início ao som de Chopin.

Serviço Público

A série de documentários alusivos ao 11 de Setembro na RTP.

Cinco anos depois

Para lembrar, sempre, sem mas.

6.9.06

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O calor que queima faz-me querer voltar ao meu chapéu-de-sol de riscas azuis e brancas, à areia grossa e ao mar infelizmente calmo. Ás tardes divididas entre imersões marítimas, conversas paisagem, jogos de cartas ou o simples esparramar ao sol.
Com o calor não se consegue pensar, por isso a indolência é a melhor opção, aquela que apetece fazer agora, mas não aqui. Preciso das minhas noites longas com brisa vinda da serra e dos dias no meu chapéu-de-sol azul e branco.
A importância do chapéu-de-sol não é despicienda, para além de parte essencial ao processo de suportar os excessos de temperatura, é essencial na definição estética da “minha” praia, que sem as riscas de várias cores seria mais uma impessoal praia, como tantas outras. Por isso apetecia lá estar.

5.9.06

O Independente

Acabou “O Independente”. Aliás, acabou fisicamente, pois há anos que se arrastava penosamente encostado a um nome. “O Independente”, pelo menos o “meu” Indy, acabou após a saída de Miguel Esteves Cardoso de director. A segunda saída, após ser chamado para tentar inverter a decadência em que o jornal já se encontrava. Ainda assim faz pena, ou como dizia o MEC na última edição, está mal.
A minha geração cresceu com “O Independente” e irremediavelmente dividia-se entre os que o adoravam e os que o detestavam. Ninguém podia ficar indiferente a uma postura nunca antes vista em Portugal, a uma visão conservadora da sociedade que apresentava uma linguagem e um estilo mais revolucionários do que se podia imaginar em sonhos. As grandes campanhas do Bloco, muito cuidadas na imagem e linguagem, são brincadeiras de meninos ao lado do Caderno 3 dos bons tempos.
Os frutos do Indy estão aí, nos blogues e nos jornais, nas revistas e nos livros. Uma nova geração que perdeu o pudor – quer na escrita, quer nas ideias. Ser de direita deixou de ser um estigma a esconder dentro de um armário bem fechado. Escrever de forma desprendida e legível deixou de ser um crime lesa pátria.
A geração Indy mostrou-se, mas talvez pelo demasiado desprendimento e independência passa ainda ao lado da política activa, dos partidos. O anti-cinzentismo ainda não vingou e os órgãos de poder continuam iguais ao que eram em tempos de cavaquismo. Talvez seja melhor assim, talvez seja melhor poder lê-los do que ter de os ver a discursar no parlamento. Fica ainda assim uma réstia de pena, de pena que o país não tenha assimilado mais o que foi o Indy, que não seja mais Indy.

Blogosfera

Os parabéns – atrasados, é claro – por um ano de “Origem das Espécies”.
O agradecimento ao “Sempre a Produzir” pelo link para este estabelecimento.

1.9.06

Diálogos Imaginários

– Charles, estou a cozer e apetece-me ainda menos que o habitual desmanchar malas.
– Não se preocupe menino, para isso é que eu estou aqui.

Agosto


E pronto, com a tradicional ida à Havanesa no fim do mês acabou a saison.

20.8.06

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A chuva de verão cortou a rotina e fez da praia um lugar distante. Houve indignação, mas também conformismo, livros a ler e cartas a jogar, um deambular arrastado por entre montras e cafés.

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Entre o combate aos fogos que outra vez dizimam o país e o apoio à maça em anúncios com vedetas dos "Morangos com Açucar" o ministro Jaime Silva escolheu a segunda hipótese. Ele há opções que definem um homem...

12.8.06

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O fim de tarde junto ao pricípio da noite por um branco gelado e um ar mediterrânico. Estranho a falta do vento, do Norte impertinente e sempre presente. O conservadorismo abala perante a mudança, é bom, é para melhor,mas não é o mesmo, não é do mesmo.

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Calor que quebra a pele, que estala. Água de gelo, de pinguins servindo Gin-Tónico com sorrisos malandros. Calor árabe, de tendas no deserto e chá quente de menta, com beduínos vagueando por entre escassas sombras ocupadas por velhas lentas e despreocupaadas.

7.8.06

Estado do Blogue

Falta de paciência para escrever. Internet de mau funcionamento. Areia nos livros. Ipodar ao sol. Amigos revistos. Conversas de pôr a par. Calor estranho para estes sítios. Noites longas e dias longos. Praia até ao anoitecer. Está-se bem por aqui.

29.7.06

Figueira

Chega Agosto e este blog ruma ás paragens habituais. Amanhã o jornal será comprado na Casa Havanesa, onde se perguntará se há algum novo marcador de livros para este ano. Até lá fica aqui um dos antigos, com uma fotografia de tempos já passados.

Excerto da lista

Protector solar, iPod, canetas Montblanc, Moleskine.

27.7.06

Loucura

Num acto de insanidade revolucionária este blog trocou o sóbrio preto por um fundo cor de areia.

Diálogos Imaginários

– Charles, aproxima-se a mudança de verão. Pode começar a agrupar as roupas enquanto eu faço a lista de outras coisas que quero levar.
– Com certeza, menino. Tenho também uma lista do que costuma levar.
– Oh! Charles, não sei como suportaria o incómodo da mudança sem a sua ajuda.

25.7.06

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Talvez seja desculpa esfarrapada, mas o verão torna o diletantismo algo de tolerável.

Concurso

Caro Impensado,

Como é evidente, não poderia deixar de concorrer ao Primeiro Concurso de Verão do Impensável. Por isso aqui vai:
O comportamento de Dexter Haven não foi o de um verdadeiro Gentleman, pois este raramente perde as estribeiras por causa de uma mulher. A simples sugestão de uma agressão, ainda mais fora do recolhimento da casa, é simplesmente intolerável. O contacto físico com uma senhora deve ser sempre o caminho para um beijo ou algo mais, nunca para um vulgar empurrão.

Com calorosas saudações,
JAC, o Anarcoconservador

Provocação

A brigada do costume questiona a proporcionalidade do ataque de Israel após o rapto de dois soldados. Não comparando o rapto ao assassínio, recordo que a Primeira Guerra começou por causa de um “simples” e único assassinato. Terá sido proporcional?

24.7.06

Tall Ships


Lisboa esteve (ainda) mais bonita durante passagem da regata Tall Ships.

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No Médio Oriente as coisas estão más, o que é muitíssimo desagradável, para eles e para nós. Eles vão morrendo de um lado e de outro, o que afinal nem tem o picante da novidade pois há anos que se tentam exterminar persistentemente. Nós por cá, quando só queremos pensar em praia, na próxima festa, ou numa esplanada durante a noite em conversas alongadas, lá temos de fingir que nos preocupamos com o mundo sob pena de sentirmos pesos na consciência pela nossa indiferença.

20.7.06

"Época Tola"

Acabou o futebol, começou o calor, falamos de praias. Este blog entra decididamente na “época tola”, durante a qual não será de estranhar um desconhecimento profundo da seriedade e uma profusão de postas sobre inutilidades.

Crítica de Praias – Guincho

Não haja vento – uma manifesta raridade, ao nível do cromo do Hugo Viana – e esta é das melhores praias do país. A serra ao fundo, verde em anos que tenha escapado aos incêndios, o sossego da distância a qualquer povoação. Numa ponta o velho Muxaxo e o humilde barzinho de praia com bons pães com chouriço, do outro lado o mais “arreglado” “Bar do Guincho”, onde pedir algo, em dia concorrido, se pode tornar uma aventura capaz de nos fazer espancar toda uma enorme fila.
A qualidade dos acessos varia um pouco, uma vez que chegar até perto da praia é rápido, mas os carros estacionados por todo o lado entopem desmedidamente a circulação, em especial quando algum autocarro resolve tentar a sorte de passar. Pode haver alguma perda de tempo em estacionamentos, valendo mais a pena parar mais longe e fazer alguns metros a pé. No lado do “Bar do Guincho” há um impecável parque, bem delineado e arranjado, com o senão de ser, obviamente, bem pago e ter um acesso estreito que entope em dias mais concorridos.
O mar costuma ser bravio, com ondulação forte de onda longa propícia ao Surf (e com o habitual vento perfeito para o Windsurf e o Kitesurf). A temperatura da água não costuma ser encorajante, mas antes revigorante, o que, dada a ondulação e a necessidade de movimento, não se torna um obstáculo ao banho.
O ambiente do Guincho é uma das suas maiores vantagens, definiria-o como queque-descontraído-surfista, o que é dizer que quase tudo é gente nova e com ar bonito e divertido. Gente da linha, muitos surfistas e windsurfistas de caras muito queimadas desde Maio. A descontracção pulula entre pequenos biquinis coloridos e calções de banho da Osklen ou de marcas de surf. No céu, os kites rematam o colorido e na água há sempre acção por entre as ondas. Bom spot para ver bonitas meninas (vá, e meninos) de família com ar cool.
Para quem não esteja em boa forma física, uma ida ao Guincho pode ser um pouco irritante, ou mesmo deprimente. A quase inexistência de barrigas proeminentes nos homens e uma enorme densidade por metro quadrado de abdominais bem delineados, pode transformar uma ida ao banho num embaraçoso exercício de contenção da respiração de forma a disfarçar o desleixo de uma barriguita grande. Claro que se pode assumir com descontracção o físico pouco cuidado, mas fica sempre a sensação de que as meninas presentes nos olham com um ar de vago nojo. No que ás meninas diz respeito, posso dizer que a celulite não costuma passar por aqui. Talvez por um fenómeno de selecção natural “à la Darwin”, parece que toda a gordura foi queimada pelo frio da água, que enrijece as coxas e as barrigas descobertas por biquinis reduzidos. Claro que isto é excelente para os olhos que se regalam, mas pode ser motivo para traumas e viagens ao psicanalista ou ao cirugião plástico.

Classificação: Dada a importância do problema, darei a classificação em dias com e sem vento. DCV: 7 (em 10); DSV: 10 (em 10)

Agradecimentos

Aos blogues “A Causa Humana” e “Direita Conservadora” pelos links que fizeram para este estabelecimento.

18.7.06

Boas Notícias?

José Sá Fernandes vai apresentar, para votação da Câmara Municipal, um Plano Verde para a cidade de Lisboa (ver mais aqui), que consiste numa actualização de um plano já elaborado pelo Arq. Gonçalo Ribeiro Telles. Caso seja aprovado e, mais importante, cumprido, este pode ser o primeiro passo para que Lisboa sustenha o caos urbanístico que se tem tornado típico, tomando um caminho de ordenamento do território mais do que desejável.
Lisboa será por certo uma melhor cidade caso este plano seja posto em prática, o problema é que falta uma votação favorável da Câmara. Terá Carmona Rodrigues o discernimento e a coragem de levar por diante esta iniciativa e de tirar o ponto de interrogação ao título deste post?

17.7.06

Praia

Não obstante a quantidade enorme de praias em redor de Lisboa, ao coincidir a canícula agreste com o fim-de-semana, tudo se complica para quem pretenda submergir em água salgada. Contudo ainda há esperança, ainda temos praias onde conseguimos chegar sem esperar hora e meia por um lugar, em fila parada e sob o sol inclemente, no que me faz lembrar a Caparica, e aquela desgraçada vez, uma por ano, em que me convencem à deslocação e de onde regresso com veementes promessas de nunca mais. Este ano tenho cumprido, e graças a isso passei dois deliciosos dias de praia, o primeiro na “mais que civilizada” praia da Comporta e o segundo num Guincho sem vento e com a água a uma temperatura que permitia conversas longas de corpos submersos. Que maravilha de fim-de-semana!

Sonho

Passei vários dias a sonhar com Connemara e o verde fresco da Irlanda, com uma fuga ao abafo em estava. Depois veio o fim-de-semana e a praia, e o abençoar por esta costa atlântica com clima mediterrânico.

Coisa Imaginária

A ausência de postas deve-se a um curto-circuito no teclado do computador causado por fluxos de suor.

12.7.06

Diálogos Imaginários

– Charles, faça qualquer coisa que me estou a sentir dentro de um forno a ser cozinhado como um leitão.
– Com certeza, menino. Vou já fazer uma limonada absurdamente gelada.

Greve

O melhor é fazer greve ou abstinência ao trabalho, até pensar me faz calor.

10.7.06

Mundial

Foi bonita a festa, pá
Fiquei contente
E ainda guardo, sorridente
Uns belos golos para mim

Cópias

No Mundial em que (quase) todos jogaram “à italiana”, ao menos que a vitória tenha sido do original.

Mas que bem

No dia em que Zidane agride um italiano à cabeçada, a FIFA escolhe-o como melhor jogador do Mundial. E ainda falam da importância do fair-play.

7.7.06

Joga bonito

O Mundial tem gerado uma multitude de reacções, comentários, análises ou dissertações. O tema mais batido tem sido a qualidade dos jogos e do jogo das equipas. Má, muito má. Chata, monótona. As equipas pautaram-se, na generalidade, por uma clara prioridade em não perder que se sobrepõe a qualquer sonhadora ideia de querer ganhar. Os jogos afastam-se então do que entendemos por futebol para se aproximarem mais da postura do xadrez de raciocínio frio e implacável. Argumenta-se que o que interessa é ganhar, que jogar bonito é um conceito ultrapassado, fala-se de produtividade. Em abstracto é verdade, o futebol é um jogo e os jogos existem essencialmente para se ganhar. Esquece-se que este jogo, este negócio, existe e é importante porque tem adeptos, porque milhões de pessoas chamam o dinheiro da publicidade que faz mexer a máquina. O que se passa é que Mundiais como este contribuem vastamente para a diminuição exponencial dos adeptos. Como vou eu convencer os meus sobrinhos das maravilhas do futebol quando todos lá em casa adormecemos aos dez minutos de jogo?
O meu gosto de futebol foi estimulado por Sócrates e Zico, por Maradona e Valdano, por Roger Milla. Foi com este futebol bonito, para alguns inútil e pouco objectivo, que me tornei feroz consumidor de Campeonatos do Mundo, competição onde a variedade de estilos e jogos me apaixonava. Ansiava sempre pela surpresa africana, pelos novos artistas do Brasil, pelo futebol rápido e atlético da Inglaterra ou da Dinamarca. Na altura a nossa selecção era uma inexistência, só esporadicamente quebrada no Europeu em que Chalana passeou o seu futebol. A ausência da nossa selecção aguçava o gosto do jogo pelo jogo, a admiração pela qualidade e pela arte.
Hoje, só dificilmente cedo a ver jogos que não sejam da Selecção Nacional ou do Sporting. Este Mundial reforçou isto com algumas secas a que, por teimosia, me prestei. Se nada mudar, o futebol irá tornar-se nisto, um campo de batalhas nacionais (ou clubísticas) em que só a vitória interessa. Cada vez serão menos a ver jogos em que não entrem as suas equipas, cada vez serão menos os adeptos. O futebol será cada vez mais um negócio chato e desinteressante e menos um desporto estimulante.