12.2.07

Realidades

Comme d’habitude os meus pontos de vista foram derrotados nas urnas. Cada vez mais me é difícil ser incontestavelmente a favor da democracia e gostar de viver em Portugal. Pessoa errada no país errado. Coisas da vida a que temos de nos habituar.

Conservar ou fugir

Os resultados de ontem e, mais ainda, a sua interpretação tornaram-me ainda mais conservador. Ouvir dislates de como foi um passo para a modernidade e para os valores da Europa do século XXI fez-me tremer, não tanto pelas frases, mas pelo tom em que foram ditas e por quem. Se aquela gente representa a Europa moderna o melhor mesmo é fugir desta Europa enquanto é tempo.

Fair-play

Ontem foi triste, mas previsível, o saltar de alegre e genuíno radicalismo que o “Sim” conseguiu esconder durante a campanha. Há que saber perder, mas é talvez mais difícil saber ganhar.

Resultados

Não me interessam muito os motivos da vitória do “Sim”, nem discutir pormenores técnicos. O “Sim” ganhou com clara maioria num referendo não vinculativo, sobre isto haja bom senso nas consequências a tirar e legisle-se. Cá estaremos a acompanhar o processo legislativo, assim como estaremos a verificar os seus resultados. O tempo mostrará da validade dos argumentos sobre a diminuição do número de abortos, em especial os clandestinos, como reflexo da despenalização. Talvez um dia se volte a discutir o tema.

Civilização

A votação de ontem foi mais um passo no programa civilizacional de uma certa esquerda. Durante a campanha o assunto foi tratado com um inteligente e racional eufemismo, ontem se percebeu melhor, pelas reacções de vitória, o que estava em causa. Aguardemos então pela eutanásia, o casamento de homossexuais, a adopção por casais homossexuais, a liberalização das drogas duras, a proibição das touradas. Não há ingenuidade em todo este processo, há um jacobinismo ansioso por “libertar” o país da sua história e cultura naturais. Tudo o que possa, ainda que remotamente, cheirar a tradição ou igreja é um alvo a abater. Veremos qual vai ser a próxima batalha.

Humor radical

Lisboa tremeu num sinal dos céus contra a barbárie.

Pena não se poder espancar

Louça, em mais um arremedo do seu caso mal resolvido com a religião, veio afiançar que a vitória também era dos católicos. Como ingenuidade não é algo que se lhe atribua, a provocação mostra o nível da criatura. Nada que não se esperasse, o que é pena é ver tanta gente iludida com a benignidade do frustrado seminarista.

Tiro no pé

A introdução na última semana de campanha do tema da despenalização apesar do “Não” foi desastrosa. A proposta podia, ou não, ter pernas para andar, o que não podia era ser apresentada sem tempo a que fosse discutida e compreendida pelos eleitores. Percebe-se bem aqui a diferença entre ter partidos a coordenar campanhas ou movimentos de cidadãos bem intencionados.

Máxima do dia

Água mole em pedra dura tanto dá que já furou.

10.2.07

Herman e os Gatos

Herman José reaparece hoje com um programa de humor que vale a pena ver, mais não seja para perceber se o génio está morto ou apenas esteve hibernado. Hoje em dia é moda, e cai bem, dizer mal do Herman e endeusar o Gato Fedorento. Na minha opinião é ridículo ou, no mínimo, injusto. Os últimos anos de pura “rasquice” que foi o “Herman Sic”, em que a escolha dos convidados mais parecia uma audição para um “Carnivále” de quinta categoria e em que os momentos de humor eram, de modo geral, confrangedores, não devem deixar que a memória seja curta. O Herman aburguesou-se, mas basta lembrar alguns dos programas por ele feitos para logo nos deparamos com algum do melhor humor jamais feito em Portugal.
O “Tal Canal” foi um marco, uma lufada de ar fresco num país cinzento, com o “Diário de Marilú”, as crónicas de José Esteves, o “Jaquina Jaquina”, o “Cozinho para o Povo”, o Oliveira Casca, o Carlos Filinto Botelho, o menino Nelinho e a Sra. D. Palmira ou o grande Tony Silva. O “Hermanias” foi um seguidor natural e trouxe o cameraman “mas que é isto, é uma brincadeira ou quê” e o show do inenarrável Serafim Saudade com as suas hilariantes coreografias. Os programas de passagem de ano foram fantásticos e quem não se lembrará de “eu sou José Severino e sou pasteleiro…eu é mais bolos, salgados também, mas é mais bolos…”, do “batem leve, levemente, como quem chama por mim, fui ver era o Ovário…a assunção tema tabu…não, eu queria dizer Octávio, o meu primo Octávio, mas enganaram-se na tipografia”, ou as versões de músicas conhecidas com letras delirantes. O talento do Herman está espelhado na forma como conseguiu tornar o mais chato dos concursos, a Roda da Sorte, num programa do mais louco e desbragado humor. Como esquecer os momentos com Vítor Peter (Oh! Ivone. Oh! Ivone. Oh! Ivone. Good bye my love) ou o programa final, com Herman a disparar, de carabina em punho, estúdio fora, destruindo electrodomésticos e todo o cenário. O Humor de Perdição trouxe as entrevistas históricas a Florbela Espanca “ó filho faz-me qualquer coisa”, a Camões “Uh! Uh! Tens filhas, tens filhas. Traz também. Uh!” e à Rainha Santa Isabel que de tão polémica levou ao fim do programa. O mais sofisticado “Casino Royal” foi talvez o seu trabalho mais incompreendido, mas ainda assim com muitos momentos de grande qualidade. A Herman Enciclopédia, com fases menos felizes, tinha ainda assim personagens fabulosas como o Mike e Melga ou o Diácono Remédios e a sua mãe Rute Remédios.
Os Gatos já fizeram sketches realmente excelentes, mas basta o programa do último Domingo – em o que apenas me arrancaram um leve sorriso – para perceber que o caminho para que possam ser comparados com o Herman é ainda longo. O pior é que os Gatos, além de estarem a esgotar a sua imagem em incessantes anúncios à PT – percebe-se que o dinheiro compra muita coisa e afinal Herman não foi o único a pensar assim –, estão a adquirir tiques de vedetas, em especial o Ricardo Araújo Pereira, para os quais ainda não têm estatuto. Com tudo isto não quero dizer que os Gatos são maus, muito antes pelo contrário, mas acho que só a falta de concorrência que vão tendo por este país os torna umas vedetas incontestáveis e isso só os pode prejudicar, a eles e a nós que podemos perder um grupo que tem de facto, ainda que nem sempre, muita graça.

9.2.07

Agenda em dia

Nesta minha mania autista de achar que este blog é uma abstracção, a que só eu tenho acesso, vou esquecendo respostas a mails recebidos, agradecimentos devidos e referências necessárias:
Obrigado então ao Esturrico pelo link – com a promessa de envio de algumas receitas –, ao José Nunes pelo trabalho que tem tido na tentativa de acabar com o aborto pedagógico da TLEBS e à Giovanna Vilela pelo simpático mail vindo de terras brasileiras.
Aplausos ao regresso, ainda que tímido, do Contra a Corrente.
Desculpas ao Carlos José Teixeira pelo atraso na resposta atempada ao seu mail.

Heróis do Blog

Martin Milan, by Godard

8.2.07

Prioridades

”Uns valorizam mais a liberdade da mulher (em abortar e em fazê-lo de forma segura) enquanto outros valorizam mais a vida que está dentro dela.
Dentro dos primeiros, há os que valorizam mais a liberdade da mulher por a considerarem um valor superior à vida do feto, e os que valorizam mais a liberdade da mulher por considerarem pura e simplesmente que não existe vida humana no feto. Dentro dos segundos, há os que valorizam mais a vida do feto porque a acham uma vida humana como qualquer outra vida humana; e há os que, não atribuindo à vida do feto o mesmo valor que atribuem à vida de um ser humano nascido, ainda assim, consideram-na mais valiosa que a liberdade da mulher (em abortar e em fazê-lo de forma segura).
Qualquer uma destas posições é politicamente legítima. Independentemente dos conhecimentos sobre medicina, física, ética, filosofia, lógica, matemática, direito ou trabalhos manuais que cada um tenha, qualquer uma destas posições é politicamente legítima. Por isso há debate, discussão, campanhas, urnas, votos, referendo. Por isso, todas as pessoas com mais de 18 anos têm o direito de, no próximo domingo, riscar uma cruz num quadrado.
Um referendo não é uma sondagem de opiniões. A decisão que vai ser tomada dia 11 é uma decisão política. Não num sentido partidário ou sequer ideológico, mas uma decisão política na mais nobre acepção do termo: deve ou não o Estado (o poder público, a comunidade politicamente organizada) continuar a proteger a vida do feto? Deve ou não o Estado, em nome dessa protecção, limitar a liberdade da mulher?”

Ficamos à espera

A Câmara Municipal de Salvaterra de Magos está a ser investigada pela Polícia Judiciária por indícios de corrupção. A notícia tem passado discreta, algo normal pois vamos estando habituados a que isto aconteça no nosso impoluto poder autárquico. Falta no entanto a habitual reacção indignada dos paladinos da honestidade e da rectidão. Será por ser a única Câmara do Bloco?

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Parabéns ao Corta Fitas por um ano de existência, ao longo do qual se tornou habitual destino de visita.

7.2.07

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Mikonos, Grécia, 2004

Over the Rainbow

Eva Cassidy em concerto no Blues Alley.
Uma das minhas vozes favoritas numa versão comovente de Over the Rainbow.

Prece

Senhor, a noite veio e a alma é vil.
Tanta foi a tormenta e a vontade!
Restam-nos hoje, no silêncio hostil,
O mar universal e a saudade.

Mas a chama, que a vida em nós criou,
Se ainda há vida ainda não é finda.
O frio morto em cinzas a ocultou:
A mão do vento pode erguê-la ainda.

Dá o sopro, a aragem — ou desgraça ou ânsia —,
Com que a chama do esforço se remoça,
E outra vez conquistaremos a Distância —
Do mar ou outra, mas que seja nossa!

Fernando Pessoa, “Mensagem”

6.2.07

Padre António Vieira


Nascido a 6 de Fevereiro de 1608.

“A mais poderosa inclinação e o mais poderoso apetite do homem é desejar ser. Bem nos conhecia este natural o demônio, quando esta foi a primeira pedra sobre que fundou a ruína a nossos primeiros pais. A primeira coisa que lhe disse e que lhe prometeu foi que seriam: Eritis (Gên. 3,5), e este eritis, este sereis foi o que destruiu o mundo. Não está o erro em desejarem os homens ser, mas está em não desejarem ser o que importa. Uns desejam ser ricos, outros desejam ser nobres, outros desejam ser sábios, outros desejam ser poderosos, outros desejam ser conhecidos e afamados, e quase todos desejam tudo isto, e todos erram. Só uma coisa devem os homens desejar ser, que é ser santos. Assim emendou Deus o sereis do demônio com outro sereis, dizendo: Sancti eritis, quia Ego sanctus sum . O demônio disse: Sereis como Deus, sendo sábios; e Deus disse: Sereis como Deus, sendo santos. E vai tanto de um sereis a outro sereis, que o sereis do demônio não só nos tirou o ser como Deus, mas tirou-nos também o ser, porque nos tirou o ser santos, e o sereis de Deus, exortando-nos a ser santos, como ele é, não só nos restitui o ser como Deus, senão também o ser. Quando Moisés perguntou a Deus o que era, respondeu Deus definindo-se: Ego sum qui sum (Êx. 3,14): Eu sou o que sou — porque só Deus tem por essência o ser. Agora diz a todos os homens por boca do mesmo Moisés: Se sois tão amigos e tão ambiciosos de ser, sede santos, e sereis, porque tudo o que não é ser santo, é não ser. Sede rei, sede imperador, sede papa: se não sois santo, não sois nada. Pelo contrário, ainda que sejais a mais vil e mais desprezada criatura do mundo, se sois santo, sois tudo o que pode chegar a ser o maior e mais bem afortunado homem, porque sois como aquele que só é e só tem ser, que é Deus. Todo o outro ser, por maior que pareça, não é, porque vem a parar em não ser. Só o ser santo é o verdadeiro ser, porque é o que só é, e o que há de permanecer por toda a eternidade.”
in Sermão de Todos os Santos

5.2.07

Diálogos Imaginários

– Charles, como estamos de lenha para a lareira.
– A precisar de mandar vir mais da quinta, menino.
– Isto este ano está um gasto nunca visto.
– Estamos a perder o clima tranquilo que tínhamos. Mas não se preocupe que eu peço aos caseiros para enviarem mais uma camioneta.
– Obrigado Charles, sem lareiras fica mesmo insuportável estar nesta casa.

Calistice do dia

2.2.07

Publicidade institucional

Por entre praticantes de Tai-Chi, e acompanhado por uma comitiva de jornalistas, o engenheiro Sócrates passeou o seu estilo moderno em mais uma demonstração de jovialidade, ao brindar a manhã chinesa com o seu jogging. Muito bem, afinal já é a sua imagem de marca. O que não se percebe é que, num acto tão bem encenado, apareça com uma camisola azul escura com um enorme símbolo branco de uma empresa alemã, a Adidas. Ao optar por uma tão visível publicidade a uma marca estrangeira deixa no ar dúvidas que não são adequadas ao cargo que ocupa. Será que se trata de um patrocínio?

1.2.07

1 de Fevereiro de 1908

99 anos sobre um duplo assassinato. Para quem conhece a história que lhe sucedeu e os anos de medieval atraso - ao abrigo da suposta vanguarda - da primeira república, uma dupla tragédia: o crime per si e os crimes que se lhe seguiram.
Ver também aqui e aqui.

Sugestão

A emissão de “Portugal de…”, com Vasco Pulido Valente. Disponível, graças ás novas tecnologias, em http://multimedia.rtp.pt/ . Claramente a ver.

Facilidades

O caminho fácil quase nunca é o melhor caminho, por isso tornar o aborto livre não é a melhor forma de resolver o problema. Assim como uma doença psíquica não se cura só com drogas, que apenas mascaram o problema sem o resolver de facto, o problema das gravidezes indesejadas não se resolve com o aborto, apenas se remedeia.
Liberalizar o aborto será torná-lo, oficialmente, num método contraceptivo, apesar de hoje ser possível uma contracepção quase 100% segura (há, sempre, uma milionésima possibilidade de falhar). Há gravidezes indesejadas, é um facto, mas o que importa é perceber porquê e ajudar as mulheres a actuarem antes. Ou então ajudá-las a ter essa criança, criar-lhes condições para uma maternidade digna. Permitir o aborto, sem antes tentar evitá-lo, é seguir a via do facilitismo e da desresponsabilização do estado, e isso, para mim, é inaceitável. Agisse o estado assim noutros assuntos e poderíamos ter lojas de venda e injecção de heroína, um problema social e de saúde pública tal como o aborto, como forma de impedir o tráfico e as más condições de ingestão da droga. Seria fácil de executar, até se acabava com o tráfico, mas seria aceitável para a sociedade?

Contracepção

Ouvi Joana Amaral Dias acusar o “Não” de nada ter feito no apoio a políticas contracepção. Gostaria de lembrar que este governo do PS – esmagadoramente a favor do “Sim” e com maioria absoluta – não só não avançou com medidas visíveis neste combate, como deixou esgotar a pílula do dia seguinte nos centros de saúde do país. Realmente com esta ajuda do estado é normal que as mães, especialmente as mais carenciadas e com menos recursos, não consigam evitar algumas gravidezes.

30.1.07

Sugestão

Não se arranja um espacinho para levar o frio que cá está na comitiva da visita oficial à China?

Import-Export

Primeiro a Índia, agora a China, qualquer dia Portugal em vez de exportar produtos vai exportar os próprios empresários, com tal intensidade de viagens ainda decidem não voltar.

29.1.07

A questão real

Por muitos eufemismos que se queiram usar, convém as pessoas assumirem, e perceberem, aquilo que está, de facto, em causa no próximo referendo: autorizar o aborto livre até ás dez semanas. Nem mais, nem menos. Por muito que a pergunta fale de “Interrupção Voluntária” ou “vontade da mulher” e a campanha do “Sim” insista em usar subterfúgios, o que está em causa – seja em termos políticos, constitucionais, jurídicos ou legislativos – é a legalização, de facto, do aborto até ás dez semanas. Sem mas. Até porque qualquer referendo tem por trás uma lei e é isso que esta lei prevê. Todos os jogos florais em torno disto são apenas reflexos de má consciência ou consciência de que para ganhar o referendo é preciso que não se perceba bem o que está em causa. O voto no referendo deve ser uma resposta a esta pergunta concreta, sem mais.

28.1.07

Brava Dança dos Heróis

“Dos fracos não reza a história
Cantemos alto nossa vitória”

Um sincero bravo para a nossa selecção de rugby que ontem ganhou a Marrocos, dando mais um passo no apuramento para a Taça do Mundo, apenas faltando ganhar ao Uruguai. Num país obcecado com o futebol, os feitos de uma selecção formada por amadores, num desporto sem tradição em Portugal, vão sendo esquecidos. Por isso convém lembrar esta Equipa, liderada por Tomaz Morais, que insiste em ganhar e está a um passo de um feito histórico.

27.1.07

Dúvida do dia

Acho que merece a pena abrir uma garrafinha de champanhe em honra da suspensão anunciada da bárbara TLEBS, apenas oscilo entre um Veuve Clicquot e um Taittinger.

Agradecimento do dia

A festa de ontem da Atlântico esteve muito divertida, em particular graças à excelente música que foi passando ao longo da noite. Por lá andei, anónimo como sempre, entre muitos bloggers conhecidos e outros não identificados. Daqui vai um agradecimento à organização, porque ouvir boa música na noite de Lisboa vai sendo cada vez mais raro.

26.1.07

Mundo

Quando ontem saí do cinema, após ver “Diamante de Sangue” de Edward Zwick, senti, como em demasiadas vezes, um niilismo perante o mundo e um desespero ante a realidade. O filme conta uma história em redor do tráfico de diamantes na Serra Leoa, que em muito suportava uma mais do que sangrenta guerra civil. O que choca no filme não é tanto esta amoralidade comercial, o que impressiona é a forma realista como a guerra civil é contada e como somos postos perante um problema que muitos desconhecemos e que talvez tenhamos feito por ignorar. Na nossa Europa, da civilização dita moderna, criamos noções que não são reais e tendemos a achar que o resto do mundo está longe e se está a civilizar a pouco e pouco. Logo aos primeiros minutos de filme todos estes conceitos desaparecem e a realidade da guerra não convencional aparece. Trata-se de um filme, mas é evidente que as situações descritas, ainda que ficcionadas, se baseiam em factos reais. Ao ver crianças de metralhadora em punho a exterminar mulheres e outras crianças sem motivo que não seja uma demonstração de força, rebeldes cortando braços para impedir que o povo vote, enforcamentos públicos e assaltos devastadores a aldeias, ficamos com a certeza que o Homem é problema sem solução. A falta de valorização da vida, e consequentemente a facilidade da morte, aproxima o Homem da animalidade bruta e com ela da total irracionalidade. Falar de valores, sejam eles quais forem, será um luxo na África pobre, mas quantas vezes os exemplos dos países ditos civilizados não são tão maus, ou piores, do que as consequências práticas nos países africanos. Não se vislumbram soluções, nem as haverá, por isso saí do cinema com o desespero da impotência, com o desânimo da incredulidade perante o Homem, com a certeza de um mundo que quer acabar. Felizmente resta-me a Fé, que chama a lembrar a esperança, e realmente só com ela é possível viver no mundo de hoje.

Honestidades

Não deixa de ser curioso que neste país o fascismo ainda seja considerado pior do que o comunismo. Não sei se por falta de cultura histórica, “fascista” é um insulto e “comunista” um elogio de coerência. Isto a propósito do inefável Daniel Oliveira e da deputada Helena Pinto referirem, muito indignados como é costume no Bloco, blogs ditos fascistas que linkam para blogs de apoio ao “Não” no referendo e de usar isso como honesto argumento para a discussão. O disparate começou na campanha para o referendo e a partir de agora teme-se o pior.

25.1.07

Scoop

“Eu nasci crente na religião Hebraica, mas converti-me ao Narcisicmo.”
by Woody Allen

Lisboa

Na Câmara de Lisboa a coisa promete, já vamos com dois vereadores e um director de serviço na condição de arguidos de um processo de corrupção. Para uma justiça habitualmente lenta e reverente perante o poder, esta operação é notícia. Resta a dúvida se ficará por aqui ou se mais gente será arrastada para a investigação, até porque processo deixa ainda algumas questões, como por exemplo o porquê do encontro de Carmona Rodrigues com Domingos Névoa – já depois de ter conhecimento da tentativa da parte deste de subornar José Sá Fernandes – ou os simultâneos assaltos à casa e escritório de Ricardo Sá Fernandes. Convém ainda lembrar que o regresso de Santana Lopes à Câmara, após a sua passagem pelo governo, coincidiu com o fecho do negócio da Feira Popular. Será que como diria uma eminente escritora: “Não há coincidências”?

Rabos-de-palha

A questão dos rabos-de-palha ofendeu muito o primeiro-ministro e suscitou grande discussão com Marques Mendes. Curiosa a curta memória que leva à grande segurança de negar os ditos rabos, basta lembrar Isaltino Morais (PSD), Fátima Felgueiras (PS) ou o actual caso Bragaparques (PSD). Estes pelo menos são seguros, e ainda há com certeza mais. Os dois grandes partidos sabem que medidas reais contra a corrupção irão afectar ambos, e muito, por isso Cravinho, que tentou ter boas intenções, será, como o debate de ontem já deu a entender, posto tranquilamente de parte para que tudo fique na mesma.

Bestas

Descobri ontem que um instituto do estado – Instituto da Droga e Toxicodependência – andou a perguntar a crianças de onze anos pormenores sobre a vida sexual dos seus pais. Espanta que haja criaturas capazes de fazer perguntas destas a quem quer que seja, pois creio que todos nos esforçamos ao longo da vida por achar os nossos pais seres assexuados. Além disso tenho a ideia que aos onze anos o sexo era palavra que ouvia em alguns filmes mas cujo significado desconhecia, quanto mais saber o que eram “relações sexuais consentidas ou com violência”. Sócrates foi veemente a criticar, no que não fez mais do que a sua obrigação, e ordenou um inquérito, que não tenho dúvidas de que será feito, agora tenho a infeliz certeza que estas bestas não serão despedidas como seria óbvio.

24.1.07

Versões

Dance Me To The End Of Love
Leonard Cohen

“Dance me to your beauty with a burning violin
Dance me through the panic 'til I'm gathered safely in
Lift me like an olive branch and be my homeward dove
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love
Oh let me see your beauty when the witnesses are gone
Let me feel you moving like they do in Babylon
Show me slowly what I only know the limits of
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love
Dance me to the wedding now, dance me on and on
Dance me very tenderly and dance me very long
We're both of us beneath our love, we're both of us above
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love
Dance me to the children who are asking to be born
Dance me through the curtains that our kisses have outworn
Raise a tent of shelter now, though every thread is torn
Dance me to the end of love
Dance me to your beauty with a burning violin
Dance me through the panic till I'm gathered safely in
Touch me with your naked hand or touch me with your glove
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love”

Aqui ao lado interpretada pelo próprio e também na versão de Madeline Peyroux.

Anúncios

O estimado Impensável, em mais uma crise de Bergmanite aguda, publica um interessante anúncio ao sabonete Bris, realizado por Ingmar Bergman. Vindo de quem sempre teve a capacidade de transmitir nos seus filmes um enorme mal-estar com tão poucas palavras, a tentativa de vender sabonetes causa alguma estranheza. Apesar disso, e da língua incompreensível e tão tendente a causar depressão intensa, o anúncio é muitíssimo curioso. Apetece responder, mas como hoje o dia até está de sol, e a neura não aparenta querer fazer uma visita, aqui vai a lembrança de um magnífico anúncio português, também com alguns anos, já tornado um verdadeiro clássico.

22.1.07

Conversas

A discussão estava viva, com todos muito participativos e opinativos sobre o tema água. Não, o tema não era a privatização das águas, era a água propriamente dita, a que nós bebemos, supostamente incolor, inodora e insípida. Argumentava-se a favor das Pedras, ou das estrangeiradas Perrier ou San Pelegrino, ou da diurética e clássica Luso. Talvez um pouco maçada com o pretensiosismo de alguns – que insistiam que em Portugal não se podia beber água –, talvez farta do barulho que se levantava, a senhora mais respeitável da sala tossiu levemente, para que, como é evidente, não tivesse de erguer a voz, e disse: “Eu água só mesmo a do cântaro, vem ali da fonte, o cântaro fica na cozinha junto à pedra a refrescar e é a única água que bebo.” Como é fácil de perceber a discussão parou e voltaram apenas a exercer a habitual má-língua.

Modas

Tenho deparado, com visível agrado, com o facto de o espumante (ou champagne, nalguns casos) estar na moda, seja como acompanhamento ás entradas, seja ao longo de noites longas. Sabe bem variar das bebidas destiladas e optar por soluções mais leves e menos comprometedoras, mais frescas, apesar do frio lá fora, porque o calor das casas – em muitos casos demasiado, por excessivo zelo das donas da casa preocupadas com eventuais constipações dos seus convivas – torna o fresco simpático.

"Assim Não"

O Professor Marcelo criou um site para defender o "Não" no referendo cada vez mais próximo. Já nos links das Causas.

19.1.07

História Curta

Entrou fechando a porta com a subtileza de quem sabia que as horas eram tardias. Com calma foi até à sala, saudando a mulher e verificando que os filhos já estavam deitados. Falou com uma voz melosa evitado olhar de frente, sabendo que os olhos por vezes traem a verdade e revelam traições.

O Incrível

Vasco Rato e Daniel Oliveira juntaram-se, sim, não é alucinação nem fomos invadidos por marcianos, estão os dois juntinhos num blog pelo “Sim” (sem link que não estou para lhes fazer publicidade). Perante este par, qualquer dúvida, que não tinha, sobre o destino do meu voto seria de imediato desfeita. Convém acrescentar que também lá estão outros pares improváveis como Helena Matos e Fernanda Câncio, Ricardo Araújo Pereira e Carlos Abreu Amorim, Miguel Vale de Almeida e Maradona. Fica a dúvida, irão encontrar-se alguma vez ao vivo?

16.1.07

Frase do Dia

“Não gosto de comida picante…temo-nos alimentado a arroz branco. Arroz e pão, pão indiano. E também iogurte.”
Aníbal e Maria Cavaco Silva em entrevista à SIC

Olivença

A 31 TV está em grande forma e oferece-nos esta semana a tomada de Olivença pelos Vaders. O que me causou estranheza foram as directas relações desta actividade com um conhecido banco português que – de forma sub-reptícia, mas facilmente verificável – patrocinou esta surtida, apresentado o seu espaço publicitário na bandeira nacional. Ou será que esta é já uma proposta para a nova bandeira de Olivença-BES?

Idiossincrasias

Quando o Inverno assenta arraiais, os jantares mais agradáveis são, sem qualquer dúvida, os caseiros e provincianos. Apesar de todos os atractivos de Lisboa, quando o frio se torna uma realidade a melhor maneira de o acompanhar é mesmo numa casa bem aquecida, em grupo restrito e sem bárbaros nas mesas ao lado para nos maçar. Não há o incómodo de conhecer novas gentes com as quais nos sentimos na obrigação de ser simpáticos, mesmo quando o seu interesse não é maior do que o da liga de Andebol da Albânia. Apenas nos rodeamos de velhos conhecidos com quem não precisamos de mais atenção do que a de não nos embriagarmos superando os limites do razoável.
A preocupação que me resta é o espectro da velhice que me assombra em tempos frios, e o medo de que a primavera não venha a ser suficiente para evitar que me torne num rezingão habitante de Lisboa a suspirar por serões provincianos o mais século dezanove que seja possível. Claro que não preciso de chegar à primavera e, no espaço de um ou dois dias, Lisboa volta a piscar-me o olho como o fez na passada sexta-feira, em que a tarde arrastou a impossibilidade de uma “magic-hour” de luz em que o tempo parecia ter feito pausa ao amanhecer apenas voltando a andar ao pôr-do-sol. Não é fácil de acreditar, mas apetecia sair de máquina fotográfica em punho e deambular pelas ruelas estreitas viradas ao rio e encher rolos e rolos com imagens impossíveis de uma cidade por vezes tão feérica que duvidamos da sua existência.

Que país!

O meu “mapling” de anteontem coincidiu com a apresentação dos cinquenta melhores portugueses, no que contribuiu para uma noite hilariante que suplantou o programa do “Gato Fedorento” que tinha passado antes. Quando o programa terminou, e desci à realidade depois de um filme surrealista, tive firme de vontade de chorar, ou de emigrar. Claro que votações destas não são para levar a sério, o povo gosta de concursos e ás vezes resolve, talvez pelo vício de estar sempre de telefone na mão, talvez por se lembrar dos anos em que não podia votar, dar a sua opinião sob a forma de diarreira votante. Fosse o povo uma entidade homogénea e de imediato teria de ser enviado para um psiquiatra, pois a lista final é, no mínimo, absolutamente esquizofrénica.
Os dez primeiros são, dentro da restante anormalidade, um saudável oásis de sensatez, isto, é claro, se não nos importarmos que, em pleno século XXI, duas personalidades absolutamente anti-democráticas, duas faces da mesma moeda do Portugal recente, sejam incensadas e, pasme-se, considerados “Grandes Portugueses”. Nesta companhia até serão esquecidos os crimes perpetrados pelo eminente Marquês de Pombal, também ele nos dez primeiros. Os restantes serão mais consensuais, o que nem é o mais importante, mas pelo menos são escolhas aceitáveis, discutíveis como quaisquer outras, mas aceitáveis, a saber: D. Afonso Henriques, Aristides de Sousa Mendes, Fernando Pessoa, Infante D. Henrique, D. João II, Camões e Vasco da Gama. Não está mal, afinal sempre temos sete escolhas naturais em dez, já no restante…o melhor é até agrupar por categorias: os “delirantes” Maria do Carmo Seabra – por certo a irónica candidata da sempre activa FENPROF, Hélio Pestana – o auto denominado actor de novelas, Vítor Baía, Pinto da Costa – pretenso bandido, Catarina Eufémia, Mariza e Sousa Martins; os “obscuros” João Ferreira Annes de Almeida – padre luterano, Teixeira Rebelo – fundador do Colégio Militar, Adelaide Cabete, António Andrade – padre missionário; os “de grandes provas dadas” Cristiano Ronaldo, Ricardo Araújo Pereira e Mourinho; os “criminosos” Afonso Costa, Otelo e Vasco Gonçalves; os “enormes” políticos Sócrates, Pintassilgo, Jardim, Sampaio, Cavaco e Marcello Caetano. Enfim, uma amálgama de disparates, sobre valorizações e escolhas que, pensando bem, apenas se podem dever a uma fina ironia que desconhecia aos portugueses.

15.1.07

Aulas Estéreo

Estranhei o silêncio de quase toda a nossa comunicação social sobre a última iniciativa do Bloco de Esquerda. Tão solícitos a acorrer aos sermões do camarada Louça ou ás indignações da camarada Drago, os jornalistas perderam oportunidade de dar relevo à nova iniciativa fracturante que visava modernizar o ensino, promovendo a essencial integração dos imigrantes. Numa brilhante ideia, cuja autoria ainda não foi atribuída, o BE propôs a aprovação pela Assembleia da República do dito “ensino multilingue”, permitindo que, em escolas que o desejassem, as aulas fossem leccionadas em estéreo, ou seja, em duas línguas ao mesmo tempo, com dois professores, em dois quadros, mas na mesma sala de aula. Assim, os alunos das minorias imigrantes poderiam aprender a história de Portugal em russo ou mandarim, ao mesmo tempo que os portugueses a aprenderiam em português, tudo na mesma sala de aula para promover a adequada integração. A medida é de tal forma genial que fico perplexo de não estar já implantada e mais ainda por a mesma ter sido chumbada na Assembleia da República. Realmente há coisas estranhas neste país.

12.1.07

Memória

Claustro da Basílica do Bom Jesus, Velha Goa, 2004

A propósito da viagem presidencial à Índia, muito se tem falado de história, de nostalgia e de memória. Foi muito apreciado o distanciamento sobre o nosso passado por essas terras distantes. O que interessa agora é o futuro, as novas tecnologias e o Silicon Valley indiano. Neste país cada vez mais tecnocrático, o passado é coisa longínqua e a esconder, a esquecer em nome da eficiência e de uma suposta diplomacia económica que nos seja conveniente. O Portugal que se vem construindo faz por esquecer que, talvez por um acaso, a história de Portugal vai um pouco atrás e, imagine-se a lembrança, tem quase nove séculos.
O esquecimento da história nunca trouxe nada de bom, ignorar o passado em nome do futuro será sempre um redondo disparate pois nós, pessoas ou, no caso, países, somos um somatório de memórias que nos tornou o que somos hoje. Recusar olhar para trás, não numa romagem de saudade e autismo, mas numa compreensão de factos, acontecimentos e feitos, é recusar aprender com erros cometidos ou negligenciar uma identidade que é o alicerce mais forte de um país. Os estados, como as pessoas, não gostam de afrontamento directo, mas respeitam mais um aliado, ou amigo, que afirme a sua identidade e personalidade, do que uma entidade inócua que se lhes apresenta subserviente.
Portugal não devia, como é evidente, aproveitar a viagem à Índia para efectuar comícios sobre a invasão de Goa, Damão e Diu. Foi um acto de guerra evidente, que contrariou todo o direito internacional, mas não terá tido também o Estado Português, à época, uma atitude irresponsável e disparatada? Independentemente disso, o tempo passou e hoje Goa é parte inquestionável da Índia. O que não é admissível é que em Goa seja tão difícil manter as raízes de uma cultura indo-portuguesa que persiste em resistir, sem que o nosso Estado algo faça para ajudar. O que não é admissível é que Goa seja tido como um caso perdido, logo esquecido. Um país que não sabe conviver com as suas memórias é um país fraco, pouco respeitável, e na Europa, e mundo, da actualidade esse pecado poderá pagar-se muito caro em tempos futuros. Portugal pode ser um país de modernidade Socrática, mas para o ser não tem de esquecer a história que o fez ser um país de facto.

11.1.07

Versões

Retomando as versões, aqui ao lado, para hoje proponho o fado “Saudades do Brasil em Portugal”, composto por Vinicius de Moraes e Homem Cristo, nas vozes de Amália Rodrigues e do próprio Vinicius de Moraes. O disco é o magnífico “Amália/Vinicius”, que mais não é do que a gravação de uma noite em casa de Amália com a presença, para além de Vinicius, de David Mourão Ferreira, Natália Correia e Ary dos Santos.

"Saudades do Brasil em Portugal"

O sal das minhas lágrimas de amor
Criou o mar
que existe entre nós dois
Para nos unir e separar
Pudesse eu te dizer
A dor que dói dentro de mim
Que mói meu coração nesta paixão
Que não tem fim
Ausência tão cruel
Saudade tão fatal
Saudades do Brasil em Portugal

Meu bem, sempre que ouvires um lamento
Crescer desolador na voz do vento
Sou eu em solidão pensando em ti
Chorando todo o tempo que perdi

Modernidades

O nosso moderno governo resolveu responder ao repto de Al Gore e iniciou o combate à poluição e aquecimento global. A grande medida, anunciada como salvadora e de enorme importância, foi tomada: os táxis passarão a circular apenas seis dias por semana. Muito bem senhor Engenheiro Sócrates, é realmente por aí que se deve começar, não desenvolvendo os decrépitos transportes públicos do país, curiosamente “públicos”, ou seja, dependentes directamente do Estado, mas sim imiscuindo-se num sector privado que presta serviços necessários aos contribuintes por inoperância dos ditos transportes públicos. Bravo!

9.1.07

História Curta

Olhou o sol que caía através do vidro embaciado pelo ambiente aquecido. Agarrou o telefone, mas uma vez mais o medo ganhou a batalha. Mais um dia, mais uma vez em que a sua vida parou sem explicação aparente que não a cobardia.

8.1.07

Cantinho do Hooligan

Atlético Clube de Portugal, fundado em 1942 como resultado da fusão entre o União Foot-ball Lisboa e o Carcavelinhos Football Clube.

Dores de Barriga

Os Gato Fedorento estiveram ontem particularmente divertidos, em especial com este “Baú da Memória” resgatado aos confins do arquivo da RTP. O sofá quase perdeu a estabilidade e a tosse que se seguiu parecia provir de dois maços de cigarros fumados. Não bastava a cantora Ana, com o seu deslumbrante fato de Vinil em Barcarena-Style, e o inefável Luís Pereira de Sousa, um dos chatos mais chatos, mas mesmo mais chatos da história da televisão portuguesa. A peça final, proveniente dos Açores, é uma pérola capaz de devastadoras consequências a quem a visualizar.

4.1.07

Para uma tarde cool

Um Retrato em Branco e Preto.

Actualidades atrasadas I

O bárbaro Sadham foi barbaramente executado numa cerimónia digna da Idade Média. O enforcamento pelos vistos ainda existe e estará para vir o dia em que o aparelho com nome tirado ao senhor Guillotin voltará a funcionar. A abolição da pena de morte é ainda uma miragem global, enquanto países democráticos e civilizados como os E.U.A. e a Autoridade Palestiniana continuarem alegremente a executá-la, e de nada serve tentar pregar a suposta civilização enquanto uma parte do mundo insistir em se manter segundo valores tão estranhos.

Actualidades atrasadas II

Zapatero mostrou ser mais um dos que acha que o terrorismo se trava com chás e torradas e que depois, muito indignado, assiste à sua persistência. As novas bombas da ETA são prova disso e só mesmo ele terá ficado admirado com sua infeliz explosão.

2.1.07

Resolução do ano

Não ter resoluções para o novo ano.

Os melhores do ano

Já não há pachorra para os balanços que redundam em escolhas, umas mais pretensiosas do que outras, dos melhores do ano.

Regresso

A província estava bem e recomenda-se, aliás, é de uma recomendação cada vez mais frequente, em particular quando o Inverno convoca lareiras a crepitar e uma distância razoável a ruídos automóveis e afins.

28.12.06

Término

A gélida tranquilidade provinciana é o essencial ponto final de mais um ano.

Noite de Natal

Passado o jantar e o caos habitual do desembrulhar de presentes, lá chegaram as crianças para um teatro. Nesta altura é normal ir buscar gelo ou servir mais um Whiskey, só que este ano o improviso e o curto ensaio geraram um mui inventivo circo com sentido de humor britânico que não lhes conhecia. Uma pura delícia em que os aplausos não foram acompanhados dos habituais sorrisos amarelos de condescendência, mas sim de estridentes e sonoras gargalhadas. A coisa foi tal que, talvez ajudados pelo vinho, alguns adultos se encheram de brios, recuando a uma distante infância e recriando músicas e danças antigas. Foram momentos de ouro, em que circunspectos e reservados senhores, e senhoras, desfilaram em filinha a cantar a música do seu jardim-escola ou a canção das “três maninhas” da qual, surpreendentemente, ainda se lembravam da letra. Esta noite poderia ser banal noutras casas, na minha, feita de gente por norma tímida e discreta, foi surpresa e bem agradável. Afinal, o Natal é isto mesmo, alegria entre amigos e família. Lá fora estava muito frio, cá dentro a temperatura inesperadamente subiu por inteira responsabilidade das crianças que tendemos a desvalorizar, mas que, por vezes, nos demonstram cabalmente o disparate desta atitude.

20.12.06

Música de Natal

Nada me faz mais lembrar o Natal das noites frias e das neves sonhadas do que Sinatra. O Natal passado a ver filmes a preto e branco de outros tempos, mas de todos os tempos, como anual revisitação de “Do céu caiu uma estrela” ou outro Capra que, com o seu optimismo, nos enchia de espírito reconciliador. Por isso fica aqui ao lado para ouvir, tirado do disco “Sinatra Rarities – The CBS Years”, “Nature Boy”, uma eterna canção cuja letra se pode, em muito, aplicar ao período do ano em que estamos.

There was a boy, a very strange enchanted boy
They say he wandered very far, very far, over land and sea
A little shy and sad of eye, but very wise was he
And then one day, a magic day he passed my way
And while we spoke of many things, fools and kings
This he said to me: "The greatest thing you'll ever learn
Is just to love and be loved in return"

Definição do dia

ERC – Censura do século XXI em que o lápis azul é substituído por comunicados imperceptíveis e ofensivos.

18.12.06

Ironias

O concurso para a gestão do Rivoli foi ganho por Filipe La Féria. Não deixa de um enorme gozo imaginar a fúria desesperada dos okupas ao verem o teatro entregue a quem mais tem feito pelo teatro comercial que eles tanto abominam. Não sou particular apreciador do estilo La Féria, agora que tem uma digna qualidade e tem feito mais pelo teatro em Portugal do que muitos obscuros grupos de vão de escada, isto é um facto. Ainda assim o mais importante é que o faz com o seu próprio dinheiro, empenhando muitos milhares em super produções sem esperar e reclamar indignado o habitual subsídio do estado. Pessoas com esta iniciativa e risco próprios, sem a rede do Estado a amparar desvarios, merecem ser reconhecidas, independentemente de gostarmos ou não do seu estilo.

Definição do dia

TLEBS – Masturbação intelectual de linguistas, perpetrada com um total desconhecimento da realidade e encarando as crianças como simples cobaias.

Advento

Porque ás vezes apetece roubar palavras:

“Ainda uma nota mais sobre o dia de Natal que se aproxima: lamento profundamente que a mensagem subjacente ao nascimento do nosso Senhor, do Rei dos reis, Deus feito homem, tão equivocamente tenha vingado em dois mil anos de catequização. Que o Salvador afinal nasce gloriosamente pobre e indefeso numa manjedoura, numa nação ocupada e reprimida... Que a mais fantástica e bela história do mundo indica-nos inequivocamente um caminho de libertação e de felicidade, justamente na entrega, e não na conquista. No dar e não no receber. E que a redenção se conquista em tudo ao contrário do que ensurdecedoramente nos “vendem” por todo os recantos desta civilização decadente. E que é ao libertarmo-nos do nosso sôfrego e deprimente umbigo que podemos alguma vez realizarmo-nos como homens livres. E que o nosso coração frio e egoísta é a imagem das albergarias de Belém quando se fecharam a Maria e José em vésperas do Grande Acontecimento. E que se vivermos o Natal de Jesus, nem que seja por um dia, seremos indubitavelmente melhores pessoas e mais felizes.Assim Deus me ajude a viver este Natal.”

João Távora in Corta-fitas

17.12.06

Natal em Lisboa

Que agradável pode ser Lisboa. A tarde ontem passada por entre o Chiado e a Baixa foi disso exemplo. Ainda que faltem comprar alguns presentes, que bom foi passear sem destino pelo real centro de Lisboa, no meio do bulício das gentes em compras de Natal. Percorrer a Baixa – onde o povo circula e compra – à conversa, divagando sobre a decadência da nossa capital, discutindo o que é, ou não, patine, parando em locais emblemáticos, como o Hospital das Bonecas ou a Tendinha, ou em lojas extraídas de filmes neo-realistas dos anos sessenta. Subir ao Chiado, como que trepando na pirâmide social, onde gentes de porte aristocrático deambulam pela Rua Garret. Acabar com um lanche no Chá do Carmo, com um sempre delicioso “Thé de Noël” da Mariage Frères acompanhado de uma torradinha e de um scone com manteiga e compota de chá Marco Pólo (também da Mariage Frères). Que coisa boa, assim como a conversa longa, ao abrigo do frio que chegou com o por do sol.

Essencial

A entrevista de Miguel Esteves Cardoso no Diário de Notícias de sexta-feira (suplemento 6ª).

Petição

Nos links aqui do lado, na secção “e agora…”, pode o leitor aproveitar para assinar a petição contra a irresponsável e idiota TLEBS. A bem deste país e da sanidade mental dos portugueses.

15.12.06

Corrupções

Parece-me bem a nomeação de Maria José Morgado para dirigir a investigação do processo “Apito Dourado”. Não simpatizo, de todo, com a senhora enquanto figura pública, acho-a mesmo bastante desagradável, mas transmite um certa ideia de fibra e incorruptibilidade que é essencial para o processo em causa. Apenas quem acredita no Pai Natal acredita que não há corrupção no futebol português, vamos ver se é desta que “essa gente” é punida pela lei.

12.12.06

Lisboa

O debate de ontem fez-me ter vontade de ser mosca e assistir ás sessões da Câmara de Lisboa. De um lado, Carmona Rodrigues, do outro, quais tias à mesa de chá, Maria José Nogueira Pinto, José Sá Fernandes e Ruben Carvalho. Tudo muito animado, mas cordial, como deve ser, sem insultos nem tontarias. Ganha Lisboa? Talvez não, porque quem manda é Carmona que na prática não tem mostrado o bom senso que aparenta quando fala. Também não será grave, pelo menos não foram ouvidas propostas estonteantes “à la Santana”. Estava mais um senhor na mesa que parecia estar fora de tudo, quer dos assuntos em discussão, quer da familiaridade divertida dos restantes. A política não tem de ser terra de insultos, pode haver discordância firme sem roçar o insulto e a provocação barata. O senhor do canto ainda não percebeu isto, aliás, nunca o irá perceber e ainda bem, assim não correremos o risco de o ver eleito para qualquer cargo de poder.

Ditaduras

A morte de Pinochet trouxe de novo à baila a idiota discussão entre ditadores de direita e de esquerda. Caso para voltar a dizer que um ditador é um ditador, é um ditador, é um ditador.

11.12.06

5.12.06

Açoites

Açoitar será pouco, talvez umas chicotadas polvilhadas com sal sejam mais adequadas para os energúmenos que teimam em deseducar as nossas crianças, criando um ensino absurdo e monstruoso. A propósito da TELBS, como é óbvio.

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“Ai, Portugal, Portugal
Enquanto ficares à espera
Ninguém te vem ajudar”

Jorge Palma, “Portugal, Portugal”

4.12.06

Delírios

O PS parece querer lançar Jorge Coelho como próximo candidato à Câmara Municipal de Lisboa. Só faltava acrescentar a recandidatura de Santana Lopes para ficarmos com a certeza de que o caos se iria instalar. Coelho augura tudo de mau, pelo menos para quem se lembre das suas excelentes relações com os construtores civis, típicas de quem se arrastou durante anos nas funções de angariação de dinheiro para o partido. Adivinho já o slogan “Lisboa não pode esperar”, revelando a enorme necessidade de construir e de “fazer obra” na cidade. Teme-se o pior, mas esperemos que não se concretize e que a direita acorde e deixe de se comportar como uma criança mimada e irresponsável.

1.12.06

Comemoração e Pessimismo


Corria o ano de 1640 quando um grupo de conjurados se juntou para expulsar os espanhóis do território português. Era a independência, a soberana e livre independência que hoje se comemora. Passados tantos anos será que somos dignos dela? Será que somos ainda um país livre, soberano e independente?

29.11.06

Camarate

A anunciada confissão de José Esteves pouco adianta sobre o caso Camarate. Há muitos anos que é definitiva a sensação de que tudo foi feito para que nada fosse descoberto. Teoria de conspiração? Não o creio, são demasiados os indícios de obstrução para que sejam apenas uma coincidência usada para reclamar justiça. Portugal não é um país justo e, infelizmente, o problema não vem de hoje, vem de há mais de vinte anos. As inúmeras comissões de inquérito terão sido um part-time para deputados com pouco para fazer. Os responsáveis serão uma vez mais um grupo de desconhecidos e, como diz o povo, a culpa morre solteira. Fica a óbvia revolta por viver num país assim, em que a impunidade alastra dos criminosos de facto até aos criminosos por conivência que nos governaram e governam.

Uff!

Cantemos aleluia por um dia de sol que alivia as depressões aquosas.

28.11.06

E a 25 de Novembro

Começou o 31.

Colecções

A colecção de Manuel de Brito (o falecido dono da Galeria 111) vai estar exposta ao público no Palácio Anjos em Algés. A família, herdeira da colecção, cedeu a mesma ao município de Oeiras por um período renovável de onze anos. O projecto e as obras de adaptação do palácio foram da responsabilidade de autarquia. Será impressão minha ou detecto alguma (saudável) diferença em relação à colecção Berardo?

24.11.06

Dia Imaginário

Arrasto-me até ao armário onde desencanto uma mantinha de lã. Corro à cozinha onde a água está quase a ferver, e deixo-a cair suavemente para dentro de um bule, previamente escaldado, sobre um infusor com chá verde. Transporto com cuidado o tabuleiro até uma pequena mesa ao lado do confortável sofá. Ponho a tocar Sinatra, com a orquestra de Tommy Dorsey, e sento-me resolutamente, sem intenções de me levantar, com um livro de Waugh ao lado. À frente o fogo consome a lenha na lareira. Chega Charles e pergunta o que quero para o lanche e o jantar, sendo a minha resposta vaga e desinteressada. Hoje, o que interessa mesmo é aproveitar o temporal para me recolher na minha cápsula, Charles sabe como a tornar cómoda até ao limite do insuportável.

23.11.06

Tarde Em Itapuã


Para não esquecer a música muito cá de casa, aqui vai Vinicius de Moraes em concerto com Miucha, Tom Jobim e Toquinho. Apesar de estar a ser filmado para a televisão, a ideia de uma informal noite entre amigos está presente na garrafa de Whisky que se vai esvaziando ao ritmo da Bossa Nova. Além de um grande poeta, que bela companhia para uma noite de copos seria Vinicius.

22.11.06

CCB

Entra a Colecção Berardo, após infame e ruinoso contrato assinado pelo Estado, e sai a Festa da Música por falta de verba. Será mesmo necessário comentar?

21.11.06

Coisas Divertidas

Apesar de ser “intelectualmente incorrecto”, confesso que ontem fui assistir a um concerto do José Cid no Casino de Lisboa. Mais incorrecto ainda será dizer que foi um óptimo concerto e que me diverti como em muito poucos concertos que me lembre. Para além da qualidade de algumas músicas – sim, não é erro, acho que são mesmo boas e não falo, como é óbvio, do “Macaco gosta de banana” nem das “Favas com chouriço” – é sempre divertido estar num concerto em que o público – que atravessava gerações e classes sociais – conhecia e cantava todas as músicas, como se as mesmas fizessem – e se calhar até fazem – parte das suas vidas. Eu gostei e diverti-me, e ponto.

The Departed – Entre Inimigos

Por estas bandas gostou-se muito do último Scorsese, The Departed – Entre Inimigos, confirmando que há realizadores que não sabem fazer maus filmes e que, de uma maneira geral, teimam em os fazer excelentes. Tudo aquilo em que Scorsese é mestre está presente neste filme: argumento sólido, realização sublime, montagem sem erros, música que é parte integrante das imagens (belíssima versão de “Confortably Numb” cantada por Roger Waters e Van Morrison.). Essencial ao brilhante resultado final é também o trabalho dos actores que, neste caso, está ao nível da realização: Leonardo Di Caprio está magnífico e poderoso, com uma contenção sempre pronta a explodir que lembra em muito o James Dean de “Fúria de Viver”; Jack Nicholson constrói mais um momento vintage, em que não cede, como por vezes já o fez, ao overacting e domina o filme do princípio ao fim; Mark Whalberg é perfeito num pequeno, mas delicioso e importante, papel secundário; e no meio de tantos homens surge Vera Farmiga, com uma serenidade que escorre dos seus olhos cor de água e inunda todo o filme, representando alguma normalidade no meio de tanto desequilíbrio e violência. A sua personagem é uma réstia de bom senso num mundo alucinado e é elemento chave para a compreensão de toda a densidade emocional que Scorsese apresenta, sem ceder, como é seu hábito, a moralismos fáceis.

Agradecimentos

Ao Pedro Sette Câmara que fez, n’ “O Indivíduo”, o primeiro link internacional, via Brasil, para este blog.

20.11.06

Lisboa

As comadres zangaram-se em Lisboa e a coligação foi desfeita. Os motivos foram os melhores, ou seja, desavenças em nomeações para uns tachos quaisquer. Será preciso qualificar esta gente? Carmona – ou bastião da moralidade, como se apresentou nas eleições –parece que afinal é apenas uma marioneta do aparelho do PSD que, estando fora do governo, parece ter dificuldade em colocar os seus “boys”. Nada que espante muito, o que espantará mais são as mensagens já passadas de que a câmara ficará ingovernável e que, salvo consigam pescar o socialista descontente, poderemos ter eleições antecipadas! Ao que parece as minorias são um incómodo para esta gente e o simples facto de terem de governar sem poder absoluto é algo de indigno e impensável. Resumindo, ou teremos um “queijo limiano” por parte do socialista que, compreensivelmente, se incompatibilizou com Carrilho, ou as eleições poderão ser uma realidade. Seria uma animação, nestes aborrecidos tempos que o país atravessa, mas também seria uma irresponsabilidade enorme para a governação da cidade de Lisboa, que pararia durante algum tempo como que fechando para balanço.

16.11.06

Isto promete!



A julgar pelos excelentes vídeos promocionais, e pelo elenco, este parece ser um “filme” recomendável. Esperemos pela estreia que, ao que parece, será dia 25 de Novembro.