23.2.07

Indignação selectiva

in Miss Pearls

“Há coisas que se vão aprimorando com os anos. Talvez seja melhor dizer que se vão "apurando" com a experiência. Soa bem e cai ainda melhor, dá outro ar e sempre gostei de eufemismos. Digo isto com alguma ironia, naturalmente. Mas não era sobre minudências pessoais que gostaria de escrever.
Estive hoje num grande armazém de pronto-a-vestir onde existem dois tipos de roupa : a cara e a caríssima. Inexplicavelmente, dirijo-me sempre para as etiquetas que ostentam os valores mais escandalosos. É inevitável. Não é um capricho, é uma visão cirúrgica. É um sexto sentido esmerado. É uma perda de tempo. É uma chatice.
Pode estar a três ou quatro metros, que graças a Deus vejo bem ao longe, mas lá está o casaco de três digitos ou a camisola de caxemira. Lá no íntimo, eu, muitas de nós, sabemos que aquilo que vemos, exactamente porque é diferente, há-de ser, digamos, uma ficção. Apesar disso, nada nos impede de o olhar e revirar. Em situações extremas damo-nos ao trabalho de o provar, o que por vezes é bom. Outras vezes não é tão bom assim. Uma mente precavida e uma carteira pouco recheada acaba sempre por encontrar algum defeito. Lá está, é bom. Já uma criatura com ego inflamado mas praticamente na penúria, sente de imediato a necessidade de devorar um chocolate inteiro. O que é mau: pela frustração e pela dose de calorias. Quem nunca sentiu este olhar apurado, esta temível inclinação para marcas inatingíveis e preços praticamente obscenos que levante o braço. Sou pessoa para lhe passar um certificado de "consumidora feliz".
E se nos voltarmos a cruzar com aquele casaco, pode ser que esteja enfiado numa sujeita a precisar de tirar o buço e uns quilos a mais. Afinal, o casaco não é tudo. Pois...”
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Sim, reconheço, também sou um consumidor infeliz...

Desculpas voltam a atacar

Ferreira Fernandes in “Sábado”, 22 de Fevereiro de 2007

“Todos os dias se mata, todos os dias nos vamos habituando. Mas, um dia, há um morto es­pecial que nos lembra o absurdo da violência. O Brasil (o Bra­sil!, esse especialista do assun­to) vive, desde a semana passada, um momento desses. Começou banalmente num semáforo do Rio de Janeiro, onde pa­rou um Corsa. Dentro do carro, a conduto­ra, urna amiga, a filha da condutora, de 13 anos, e o filho, João Hélio, de 6. As notícias que marcam acumulam aqueles pormeno­res que, depois, nos alimentam a conversa. Aqueles acasos que, depois, nos servem para confirmar corno o destino tem um jeito que é só seu para dar para o torto. O garoto, sen­tado no banco de trás, usava o cinto de se­gurança, bom hábito tão raro no Brasil.
Continua-se no trivial: parada no cruza­mento, a condutora vê urna arma apontada e ouve a ordem para abandonar o carro. Saem todos. Quer dizer, nem todos. A con­dutora contorna o carro para libertar o fi­lho do cinto de segurança. Outro pormenor para alimentar conversa: nessa tarde, João Hélio tinha marcado o seu primeiro golo na escola. A mãe abre a porta, puxa o garoto mas o cinto de segurança atrapalha. Nessa altura, os bandidos - são três e muito jo­vens - já estão dentro do carro. Este arran­ca, João Hélio escapa dos braços da mãe, a porta fecha (a lei da inércia funcionou, a úni­ca que não falha no Brasil) e o miúdo fica do lado de fora, preso. Durante sete quilóme­tros vai espalhando partes de si pelas ruas.
Os bandidos sabiam que levavam um cor­po arrastado. Fazem ziguezagues corno quem se quer livrar de um estorvo. Mais do que a visão da cabeça do menino batendo no asfalto e na roda traseira, urna testemunha disse que nunca mais se esquecerá do deses­pero da irmã, gritando atrás do carro. Mais à frente, um motociclista alinha-se com o carro e faz sinal que arrasta um corpo. Os bandidos fazem-no desistir, apontando­-lhe urna pistola. Sete quilómetros da cida­de, bairros inteiros, botequins de esquina, um quartel de bombeiros, vêem o desfile macabro. Primeiro, julgando ser piada de mau gosto com boneco, depois, assustan­do-se com a lataria ensanguentada do car­ro. Enfim, o Corsa é abandonado numa rua tranquila. Outro pormenor, para dar pince­ladas à conversa: o primeiro polícia que che­ga ao local é um sargento, não é novato, mas, depois de olhar a massa informe em que se transformou o João Hélio, desata num choro, não consegue pedir socorro.
Os três bandidos: um tem 23 anos e já seis entradas e saídas da prisão, outro, 18 anos, e o outro, 16, ambos sem cadastro. Depois de abandonar o carro, foram jantar a casa e foram a urna festinha da igreja do bairro. No dia seguinte, o de 16 e o de 18 anos são presos. Depois, é preso o de 23, ir­mão do menor e chefe do gangue, que cos­tumava fazer estes assaltos.
Esse o caso que fez o Brasil assombrar-se. Emoção sentida, violinos baratos (os corte­jos de Carnaval fizeram minutinhos de si­lêncio e versinhos) e, inevitavelmente, a dis­cussão jurídica. Se, em vez daquele entra­-e-sai da cadeia do chefe do gangue, ele es­tivesse numa a sério e pelo tempo razoável que a sua insistência no crime pedia, não se teria poupado o João Hélio? Pergunta de­magógica, de acordo. Então, factos: o menor, aquele que apontou a pistola à condutora, ficará detido, no máximo, por três anos. O de 18 anos, mesmo que condenado ao má­ximo da pena, 30 anos, deverá ser solto ao fim de um sexto do cumprimento dela. Corno diz à revista Época, irónica: "Daqui a cinco anos, talvez esteja nas mesmas festi­nhas da igreja."
O Brasil tem das mais brandas legisla­ções penais para menores. Em Inglaterra, para falar do país que inventou o habeas cor­pus, um menor pode ser condenado à pri­são perpétua. Acontece que o Brasil está re­fém do seu arrependimento: em 1993, po­lícias mataram oito miúdos de rua, frente à igreja da Candelária, no Rio. Corno é que um país assim pode endurecer as suas leis para menores, sem ter as organizações in­ternacionais à perna?
A verdade é que o Brasil tem muitos fil­mes sobre pivetes, garotos de favela, adoles­centes da Cidade de Deus, filhos dos "capi­tães da areia" de Jorge Amado. A consciência pesada vende. Mas João Hélio, aposto, não vai dar filme.
Exagero? Então, oiçam. Na sexta-feira, o Presidente Lula foi inaugurar a maior cen­tral telefónica do mundo, em São Paulo. Seis mil empregos, quase tudo gente jovem. Lula falou para eles sobre o caso que abala o Bra­sil. Sobre João Hélio? Não. Sobre a necessi­dade de não ser demasiado emotivo com o condutor assassino: "Se a gente estivesse naquele lugar, o que a gente faria? Certa­mente nós faríamos quase a mesma barba­ridade que ele fez com aquela criança." Não tendo havido linchamento, estranha-se a prioridade das preocupações. Espalha-se massa encefálica de urna criança pelas ruas e ganha-se o Presidente corno advogado.”

Linha do Tua

José Pacheco Pereira in “Sábado”, 22 de Fevereiro de 2007

“Poucos sítios mantêm a paisagem natural rude e agreste, bela ao modo do "terrível", como os vales dos afluentes do Douro, rio de montanha rodeado por rios de monta­nha, que fizeram o seu leito cavando ro­chas e não espraiando-se por terras baixas irrigadas. O vale do Tua é um desses casos de beleza, ignorado, perdido, numa parte de Portugal que a maioria dos portugueses nem sabe que existe.
Mas, não tenhamos ilusões, a sua bele­za selvagem só tem uma explicação, a de não ter havido até agora nenhum negócio rapace que tornasse o vale numa selva de empreendimentos e as cumeadas em en­xames de eólicas. É natural que este seja o desejo dos locais, que precisam de empre­go, negócio, comércio e riqueza e que, como uma vez me disse um velho de um desses locais prístinos, "não percebo por­que gosta disto, são só montes, estamos fartos de só ver montes, que interesse têm?". A verdade é que, se for assim, nem o pouco que têm em potência vai sobrar em acto. Gastar-se-á em meia dúzia de anos. Porque o nosso problema é que pas­samos sempre do oito para o oitenta, do nada miserável do atraso para o novo-ri­quismo da combinação construção-turis­mo barato subsidiado-obras públicas.
E no meio do caminho da sua vida, como Dante à entrada do Inferno, lá continuará o vale do Tua, com a sua linha de "metro" que transporta meia dúzia de pessoas ao dia, de lado nenhum para lado nenhum, num sítio tão remoto e deserdado de tudo menos da beleza que nem um responsável dos comboios achou necessário ir lá para honrar os seus mortos, os mortos da em­presa que "gere". Retirado o último morto das águas, o silêncio voltará, se calhar tam­bém já sem o "metro" de Mirandela.”

21.2.07

Agradecimentos

Ao “O Acossado” pelo link e por um conjunto de grandes beijos do cinema. Como ontem, nem de propósito, estive num serão cinéfilo, aproveito para recomendar, como agradecimento, o “Scene It” TCM, o jogo certo para umas divertidas noites caseiras. Quanto ao cinema português..hum…ficará para outra oportunidade.

Boa companhia para jantar


Edda Kathleen van Heemstra Hepburn-Ruston a.k.a. Audrey Hepburn

19.2.07

Grande Mangueira!

DE: LEQUINHO, JÚNIOR FIONDA, ANIBAL E AMENDOIM DO SAMBA.
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QUEM SOU EU?
TENHO A MAIS BELA MANEIRA DE EXPRESSAR
SOU MANGUEIRA... UMA POESIA SINGULAR
FUI AO LÁCIO E NOS MEUS VERSOS CANTO À ÚLTIMA FLOR
QUE ESPALHOU POR VÁRIOS CONTINENTES
UM MANANCIAL DE AMOR
CARAVELAS AO MAR PARTIRAM
POR DESTINO ENCONTRARAM O BRASIL...
NOS TRAZENDO A MAIOR RIQUEZA
A NOSSA LÍNGUA PORTUGUESA
SE MISTUROU COM TUPI TUPINAMBRASILEIROU
MAIS TARDE O CANTO DO NEGRO ECOOU
ASSIM A LÍNGUA SE MODIFICOU
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EU VOU NOS VERSOS DE CAMÕES
ÀS FOLHAS SECAS CAÍDAS DE MANGUEIRA
É CHAMA ETERNA DOM DA CRIAÇÃO
QUE FALA AO PULSAR DO CORAÇÃO

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CANTANDO EU VOU
DO OIAPOQUE AO CHUÍ OUVIR
A MINHA PÁTRIA É MINHA LÍNGUA
IDOLATRADA OBRA-PRIMA TE FAÇO IMORTAL
SALVE... POETAS E COMPOSITORES
SALVE TAMBÉM OS ESCRITORES
QUE ENRIQUECERAM ATUA HISTÓRIA
Ó MEU BRASIL...
DOS FILHOS DESTE SOLO ÉS MÃE GENTIL
HOJE A HERANÇA PORTUGUESA NOS CONDUZ
À ESTAÇÃO DA LUZ
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VEM NO VIRA DA MANGUEIRA VEM SAMBAR
MEU IDIOMA TEM O DOM DE TRANSFORMAR
FAZ DO PALÁCIO DO SAMBA UMA CASA PORTUGUESA
É UMA CASA PORTUGUESA COM CERTEZA
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16.2.07

Fim-de-semana imaginário

Check-in ao final do dia.

Hotel Danieli, Veneza

Banho retemperador e prova final nas fantasias entretanto chagadas ao quarto.

Hotel Danieli, Veneza

Saída para uma bebida antes do jantar.

Terraço do Café Quadri

Subida para uma mesa junto à janela para jantar.

Restaurante do Café Quadri

Passeio pelas ruas.



Baile de Máscaras em casa de amigos.

Boa companhia para jantar



Grace Kelly

Lisboa que anoitece...

Marques Mendes está a mostrar que a sua impoluta política em relação ás autarquias, vide Valetim Loureiro e Isaltino Morais, é como o Bartolomeu, tem Dias. Na câmara de Lisboa já tínhamos uma vereadora arguida por corrupção, agora temos quatro, digo bem, quatro vereadores arguidos por peculato, um dos quais é o vice-presidente que escondeu de todos, incluindo os restantes vereadores, que era arguido. O presidente – que de facto ainda não foi arguido de nada, mas pelo andar da carruagem não nos espantará que seja – continua impávido como se tudo isto fosse uma insignificância. Lisboa, essa, continua tristemente desgovernada.

15.2.07

Diálogos Imaginários

– Charles, com este dia medonho vou ficar por casa. Acho que me apetece um lanche reforçado.
– Com certeza, menino. Vou preparar uns scones, da receita da senhora sua mãe, para servir com compotas de framboesa e chá. Posso também fazer aquele pão-de-ló encruado no meio que o menino tanto gosta. Com o habitual chá e umas torradinhas com lemon curd.
– Perfeito, Charles. Aliás, tão perfeito que acho que vou dizer a uns amigos para se juntarem
– Muito bem, menino. Quando puder diga quantos são para poder arranjar a mesa.

Heróis do Blog


Jonathan by Cosey

Comboios

A trágica queda de um comboio na linha do Tua relembrou que ainda há gente que insiste, contra o Portugal moderno, em viver no interior. O acidente irá levar a muitas discussões e não será de estranhar que logo surjam vozes a pedir o encerramento da linha, exemplo aliás seguido em muitas outras linhas. Portugal tem desprezado o comboio como meio de transporte, apenas dando importância aos comboios urbanos. Quando toda a gente parece entrar em histeria com o aquecimento global, talvez fosse tempo de encararem seriamente a importância dos caminhos-de-ferro, um dos meios de transporte menos poluentes. Como os políticos lusos são inexoravelmente novos-ricos, as suas prioridades passam sempre pelo novo, pela “Obra”, por isso a sua obsessão com o TGV. Apesar disso não seria de todo má ideia olharem para os restantes comboios, os provincianos agradeceriam a preocupação e a lembrança da sua existência.

14.2.07

História

A forma como a propósito dos concursos dos portugueses – o melhor e o pior – se vão ouvindo os maiores dislates, leva a uma séria questão: deve a história ser análise ou um púlpito de opinião? O meu desprezo pelo salazarismo e por tudo o que ele representa enquanto ditadura está a ser posto em causa como nunca pensei ser possível. Isto por ver um branqueamento de toda a história de Portugal – em particular no século XX – em nome do linchamento público de Salazar. O homem tem muitíssimas culpas por muita coisa que aconteceu neste país, mas isso não faz com que todos os outros sejam modelos de virtudes.

Salazar

O documentário dos “Grandes Portugueses” sobre Salazar, ontem exibido, mostrou alguma da história que raramente se consegue ouvir neste país. Poucas vezes como ontem se falou tão claramente do início do Estado Novo e da situação absurda a que os ditadores jacobinos tinham levado o país. Hiato histórico ou buraco negro temporal, a 1ª República é referida amiúde como algo distante e benigno por ter posto termo à monarquia. Esquecem-se os anos de horror a que o país esteve sujeito, com uma ditadura de rua que cometeu os mais inomináveis crimes. Nada disto justifica aquilo em que se tornou o regime salazarista, mas que ajuda a perceber como ele surgiu, lá isso ajuda.

Democratas

A eleição do “Inimigo Publico” para o pior português de sempre foi bastante reveladora do espírito democrático dos seus organizadores. Até há pouco tempo a votação era liderada destacadamente por Mário Soares, a organização achou injusto – e será, de facto – e vai daí prolongaram a votação apenas com cinco nomes a concurso, a ver se conseguiam que Salazar ganhasse. Prova superada e lá ganhou. Curioso que os mesmos que seguiram este processo gozavam depois por ter sido a primeira eleição que Salazar ganhou. Irónico, pois Salazar não desdenharia decerto dos métodos por eles usados.

Erros

Não querendo ser picuinhas, parece-me que errar no nome de um actor que faz capa é algo estranho num jornal. No segundo número com uma imagem renovada, o “Público” resolveu chamar Artur Pimentel a Afonso Pimentel, a nossa “shooting star” no Festival Berlim. Para um jornal que se quer credível, errar numa capa é capaz de ser mais do que uma minúcia. Tendo em conta a radical mudança gráfica será caso para dizer que, como em tantos outros casos, a forma se sobrepôs ao conteúdo.

13.2.07

Espanto

A RTP2 passou ontem um documentário sobre o cinema português. Espanto perante a capacidade de falar durante uma hora de uma absoluta inexistência.

Elogio do Silêncio

A propósito da estreia comercial de “Into Great Silence” – “O Grande Silêncio”, de Philip Gröning, volto a publicar um post de Outubro de 2006, aquando a sua exibição no DocLisboa.

“A deslocação a um cinema para ver um documentário de cerca de três horas sobre a vida monástica dos cartuxos (a ordem de clausura com regras mais ascéticas) – filmado com som ambiente, luz natural e sem equipa técnica, que não o realizador, segundo regras estabelecidas pelo abade para, dezasseis anos após o pedido de Gröning, autorizar a entrada na Cartuxa – é experiência radical a que não aconselharia noventa por cento dos meus amigos. Tudo levava a imaginar um filme chatíssimo, e apenas uma conjugação de interesse artístico e religioso me levou aceitar a experiência. Sim, a experiência, porque é disso que o filme trata. A experiência de partilhar uma forma de vida exótica perante os padrões de vida de hoje em dia. Mais do que “entrar” no silêncio, entramos num mundo paralelo em que o tempo é conceito diferente, regrado e repetitivo, mas tranquilo.
A clausura sempre foi uma manifestação de fé que tinha grande dificuldade em compreender. O que levaria um ser humano livre a deixar-se reger por um regime de vida profundamente ascético e que tornava a sua existência um mero ritual repetitivo de oração? Porque motivo alguém escolhe, no mundo de hoje em que as liberdades são conhecidas por (quase) todos, uma vida em que o mundo é apenas uma existência física para lá de muros e paredes? O filme não procura esta resposta, como aliás não procura nenhuma resposta, seguindo o rigor jornalístico na forma com se “limita” a mostrar uma vivência, uma opção de vida, sem um julgamento moral ou social. Gröning não nos diz que esta reclusão, ou qualquer outra reclusão, é boa ou má, aceitável ou não, apenas nos mostra com crueza e rigor como é vivida essa reclusão. Claro que observar como é a vida de clausura nos permite ter o nosso próprio julgamento, não condicionado por ideias veiculadas no filme, mas sim pelo nosso julgamento perante a realidade que nos é mostrada. Ao ver como é a vida destes monges, consigo melhor perceber que assim consigam viver.
O silêncio é algo de que tendemos a esquecer o valor. Quantas vezes poderemos dizer que estamos, de facto, em silêncio? Hoje, a sociedade associa o silêncio à solidão, à tristeza, a uma fuga da realidade cada vez mais barulhenta e feérica, a uma fuga do mundo. Acredito que tudo isto se passe em cada monge que escolheu a vida da Cartuxa, apenas um factor não é semelhante, para eles o seu mundo não é o nosso mundo vulgar e comezinho, o seu mundo é o espiritual, e o “nosso” é apenas suporte físico intermédio numa relação permanente com o divino.
Será a clausura necessária para alguém poder dedicar a sua vida a Deus? Não creio, mas é uma forma como qualquer outra para alguém se encontrar consigo próprio e com Deus. Não será tão exótica esta opção de vida radical como será a dos hippies ou dos ciganos nómadas? Cada vez mais a sociedade nos manipula a acolher diferenças que se tornam politicamente correctas e que acabamos por ter de aceitar, porque não aceitar que alguém queira simplesmente ter o seu mundo sem incomodar ninguém?
Cinematograficamente o filme é interessantíssimo, pois mostra o enorme talento de Gröning para filmar em condições mais do que complicadas. Ele não podia utilizar as técnicas habituais, a sua câmara teria de ser crua e discreta, simples e sem artifícios. A beleza estética que resulta das imagens é impressionante, e há planos inesquecíveis, tais como as orações nocturnas acompanhadas por cantos gregorianos ou os primeiros planos frontais dos monges. Não obstante, o mais notável no filme é a forma como o mesmo é montado e com isso consegue criar uma lógica argumentativa. A montagem consegue tornar o filme surpreendentemente ritmado, criando um ciclo repetitivo de tempos, um ciclo nunca fechado, permanente. A sequência de imagens alterna imagens da vivência dos monges – rezando, comendo, cantando – com a natureza em redor – com a maravilhosa natureza em redor e as suas montanhas cobertas de neves ou ribeiros correndo na primavera. Gröning consegue, através de uma brilhante realização e de uma fabulosa montagem., criar uma quase-hipnose ao longo do filme da qual apenas somos despertados quando as luzes se acendem. No final do filme, a sensação é a de que de facto estivemos na “Grande Chartreuse” por tempo indefinido, há um tempo indefinido. Enquanto o filme dura esquecemos o mundo, o nosso mundo, e compartilhamos a experiência de espiritualidade vivida pela oração, por uma vida de constante oração."

12.2.07

Realidades

Comme d’habitude os meus pontos de vista foram derrotados nas urnas. Cada vez mais me é difícil ser incontestavelmente a favor da democracia e gostar de viver em Portugal. Pessoa errada no país errado. Coisas da vida a que temos de nos habituar.

Conservar ou fugir

Os resultados de ontem e, mais ainda, a sua interpretação tornaram-me ainda mais conservador. Ouvir dislates de como foi um passo para a modernidade e para os valores da Europa do século XXI fez-me tremer, não tanto pelas frases, mas pelo tom em que foram ditas e por quem. Se aquela gente representa a Europa moderna o melhor mesmo é fugir desta Europa enquanto é tempo.