14.3.07

Ser agradável

«Ao olhar para o passado sinto que a nossa casa era de facto um lar feliz. Isso devia-se em grande parte ao meu pai, pois tratava-se de um homem agradável – qualidade, aliás, pouco significativa hoje em dia. Actualmente as pessoas interessam-se mais em saber se um homem é inteligente, se é trabalhador, se contribui para o bem-estar da comunidade, se ele “conta” no esquema geral. Charles Dickens, porém, trata esse assunto de uma maneira deliciosa em David Copperfield:
“– O seu irmão é um homem agradável, Peggotty? – inquiri cautelosamente.
– Oh! O meu irmão é um homem muito agradável! – exclamou Peggotty.”
Pergunte a si própria se a maioria dos seus amigos e pessoas conhecidas são agradáveis e ficará surpreendida por tão poucas vezes a sua resposta poder ser igual à de Peggotty.»

Agatha Christie in “Autobiografia”

12.3.07

Sábado glorioso

Uma luz quase obscena proibia a estadia em casa, o corpo pedia sol, enferrujado que estava pelo longo Inverno a que nós portugueses teimamos em não nos habituar. A praia era opção óbvia, nem que fora para uma estadia longa e dolente numa esplanada com o mar ao fundo, pilhas de jornais ou uma boa companhia. A opção foi contudo outra, uma vez que a Selecção Nacional de Rugby jogava a primeira-mão do apuramento para o Mundial contra o Uruguai.
Faz tempo que não ia ao Estádio Universitário e foi com enorme agrado que fiz por entre as sombras de belas árvores o caminho desde a Reitoria. Junto ás bilheteiras, e apesar de faltar uma hora para o jogo, já reinava grande animação, com grupos a aproveitarem a esplanada para almoçar e crianças, muitas crianças, a brincarem em redor, algumas delas ainda equipadas de um treino ou jogo de rugby já decorrido. Não parecia Portugal, definitivamente não parecia o Portugal que se fecha nos centros comerciais de onde apenas sai para a praia, não parecia o país em que os jardins estão vazios e onde é raro encontrar carrinhos de bebé a passearem ao ar livre. Havia calma e alegria no ar, uma tranquilidade de fim-de-semana e uma boa disposição obrigatória perante o sol radioso que brilhava por todo o lado e que tudo fazia brilhar.
O jogo aproximava-se e foi com surpresa que deparei com o estádio cheio, e que visão magnífica a de um estádio rodeado de belas árvores e de sebes bem aparadas, bancadas cheias, e a luz… Habituámo-nos aos estádios de betão, encaixados nas cidades, rodeados de prédios, com centros comerciais, mas aqui tudo é diferente. Claro que não tem a segurança necessária a jogos de futebol, mas até essa necessidade de segurança muito diz da diferença entre estes dois desportos. Um olhar pelas bancadas mostrava famílias inteiras, com as crianças a brincar junto ao relvado, sem qualquer fosso que os separasse do campo onde, minutos depois, iria decorrer o jogo.
A selecção entrou perante enorme ovação e o hino foi cantado a uma só voz em todo o estádio. Bonita recepção ao jogadores que durante o jogo mais do que fizeram por a merecer. O jogo foi equilibrado, em especial na primeira parte que acabou zero a zero, mas no segundo tempo os portugueses encheram-se da enorme garra que vêm mostrando e conseguiram dois ensaios, um deles concretizado, e a diferença de doze pontos. Seria uma excelente vantagem para a segunda mão, não fora um ensaio, não concretizado, dos uruguaios no último minuto. Os sete pontos são apertados, mas deixam esperança para a segunda mão em Montevideu, deixam esperança a uma selecção que merece a histórica oportunidade de ser a única selecção amadora a estar presente no Mundial.
O final trouxe uma pacífica invasão de campo e foi divertido ver os jogadores a darem autógrafos submersos por miúdos ou a ficarem junto ás bancadas a conversar com amigos ou família, tudo com enorme calma e familiaridade. Aqui respira-se desporto – competitivo, mas desporto – longe do espectáculo distante e inacessível de outras modalidades, cada vez mais indústrias com operários especializados pagos principescamente. Não tenho nada contra outros desportos, até segui para Alvalade para ver o Sporting contra o Estrela da Amadora, mas tudo aqui é diferente, e de uma diferença muito agradável.
Pedro Leal (2), David Mateus, Miguel Portela, Diogo Gama (5), Pedro Carvalho, Cardoso Pinto (Gonçalo Malheiro), Luís Pissarra (José Pinto), Vasco Uva, João Uva (Paulo Murinello), Juan Severin (Diogo Coutinho, 5), Gonçalo Uva, Marcello D’Orey (David Penalva), Joaquim Ferreira, João Correia e André da Silva.
Esta foi Selecção Nacional de Rugby que jogou no Sábado, treinada por Tomaz Morais, e que ganhou ao Uruguai. Estes, e outros que neste jogo não jogaram, formam um grupo que tornou uma selecção de terceira categoria numa equipa de nível tal que já ganhou o Torneio das Seis Nações B (o acesso ao outro é por convite), vários torneios e campeonatos de Sevens (rugby de sete) e que pode agora ser apurada para o Mundial. Todos são amadores, todos treinam com sacrifícios imensos para conseguirem conciliar empregos, famílias e o seu desporto, todos jogam com grande espírito de grupo, todos mostram um enorme amor à camisola. O desporto amador quando consegue ser competitivo é algo de magnífico e aqui o grande papel é do seleccionador Tomaz Morais que conseguiu transformar a nossa selecção numa selecção de campeões. Podemos até não conseguir o apuramento – o que seria injusto para o esforço da equipa – mas esta selecção, esta “Nossa Selecção”, está de parabéns pela atitude e, é preciso não o esquecer, pelo seu excelente rugby.

8.3.07

RTP

A gala de comemoração dos 50 anos da RTP, que ontem decorreu, foi um agradável regresso ao passado da televisão e, consequentemente, de nós mesmos. O estilo do espectáculo foi o mais genuíno RTP, ou seja, popularucho sem chegar ao quase kitch com que a TVI nos brinda nas suas galas. Houve uma certa dignidade muito própria da RTP, quer nos sóbrios cenários, quer na concepção geral do espectáculo. Não foi nenhum deslumbre, mas só o facto de relembrar os anúncios do “Leite de Colónia” ou do “Restaurador Olex”, a “Vila Faia”, o “Vitinho”, várias músicas da minha vida – a da “Heidi” e a do “Dartacão” – ou de aparecerem personagens que julgávamos desaparecidos em parte incerta – Eládio Clímaco é o melhor exemplo – já valeria a pena acompanhar o programa. Eu diverti-me muito e dei por mim a rir com um agrado cada vez mais raro, ainda que uma pontinha de nostalgia me fizesse pensar que o tempo passou e não foi só pela televisão.

6.3.07

Abandono

Este blog é discreto, mas ontem, ao abrir o Sitemeter e deparar com zero visitantes, achei que tinha sido abandonado pelos meus, poucos, leitores fiéis. Teria escrito algo que desse direito a tal indignação, a tal fuga em massa, a tal desprezo? Quase chorei, cheguei mesmo a ter o meu lenço de pano na mão, até que, num lapso de narcisismo e recusa perante a realidade, naveguei pelo Sitemeter em busca de uma qualquer explicação. O lenço foi guardado quando descobri que um servidor do site tinha dado o berro, suspendendo temporariamente o serviço. Fiquei de imediato mais bem disposto ao saber que afinal não tinha sido vítima de um trágico abandono, mas sim arrastado numa avaria informática com muito desagradáveis consequências.

Santa Comba e Estaline

Haverá ainda paciência para as discussões idiotas à volta de Salazar? Se há gente que quer fazer um museu em homenagem ao homem, não encontro razão nenhuma para que o não façam. O “Avante” existe e veicula ideias muitas vezes próximas do estalinismo, mesmo assim é aceite e seria considerada uma heresia censória que se tentasse acabar com ele. As gentes de Santa Comba simpatizam com Salazar e logo aparecem manifestações em nome de uma suposta liberdade, provavelmente organizadas por assinantes do dito jornal.
A mostarda chega-me cada vez mais facilmente ao nariz neste país em que os idiotas conseguem tempo de antena e põem à prova os meus instintos democráticos, tanta é a vontade de os meter na choldra para não maçarem mais. Era bom, se bem que utópico, que a populaça fosse educada a perceber que Salazar foi um ditador, é um facto, mas que o comunismo defende uma outra forma de ditadura, a do proletariado. Um e outro estão no mesmo exacto patamar para quem defende, de facto, a liberdade e a democracia, são ambos representações de regimes ditatoriais. Enquanto se julgarem por patamares diferentes as ditaduras, de direita ou esquerda, e os seus apoiantes não teremos sossego. E não chega o dia…

2.3.07

As palavras de…

Ferreira Fernandes in “Sábado”, 1 de Março de 2007.

“Estava a África do Sul a viver a sua viragem histórica, eleições com brancos e negros, quando me encontrei com um jovem admirável. Ele era branco, bei­rão e vivia em Durban, num bairro operário e negro. Aquela zona era zulu, uma minoria negra com um partido que se opunha ao ANC de Nelson Mande­la. No bairro, todas as manhãs apareciam cor­pos de xhosas e zulus, mortos a tiro e por vezes torturados. O meu jovem, que era mis­sionário, ensinava a ler nos dormitórios das fábricas e treinava uma equipa de futebol com os miúdos do bairro.
Eu tenho o que julgo ser uma reacção alérgica benigna. O que leva outros a terem erupções cutâneas por comerem camarão, a mim, perante um tipo admirável, põem­-se-me a brilhar os olhos. O rapaz viu. E en­tendeu que aquela homenagem se devia ao facto de eu o tresler. Onde eu via fraternida­de, o que o motivava era outra coisa: "Olhe que eu estou aqui por razões de fé."
Sorri e continuei com o brilhozinho nos olhos. Os caminhos do amor aos homens são insondáveis. A generosidade escreve di­reito por linhas tortas. O que quiserem. O jo­vem beirão tinha abandonado a sua terra e os seus, corria riscos e praticava o bem. O motor da sua humanidade, segundo ele, ali­mentava-se com uma gasolina que eu des­conhecia, a fé. Nas tintas. Para mim, o que era importante é que ele era dos meus. Des­culpem-me, desculpem-me, a presunção da frase anterior. O que eu quero dizer é que gostaria de ser dos dele.
Vai para aí uma polémica sobre um túmulo de Jesus que poria em causa alguns dog­mas do cristianismo. Ele não ressuscitou e teve um filho? Eis, mais uma vez, o que me deixa indiferente. O meu brilhozinho nos olhos por essa pessoa generosa e fraterna que foi Jesus Cristo – virado para todos os homens e não só para os eleitos, respeita­dor dos mais fracos, igualizador dos géne­ros, político moderníssimo ("Dar a César...") – continua cintilante. Seja, ele não foi Deus. Não me importa, tenho uma versão para ele ainda maior.”

Sobre a Goa de hoje

Ler em “A Vida em Deli”.

1.3.07

O fascismo está a chegar

O conselho de ministros aprovou a nova lei do tabaco.

A propósito de criadas

No Corta-Fitas decorre um importante polémica sobre criadas, assunto deveras inquietante e que, pelos vistos, gera revoltas graves em algumas pessoas. Como se dá a coincidência do meu livro de cabeceira ser a “Autobiografia” de Agatha Christie deixo aqui dois excertos a propósito:
“Duvido que hoje exista ainda uma verdadeira empregada doméstica. Existirão possivelmente algumas, entre as idades dos 70 e 80 anos, mas, fora disso, o que existe são diaristas, empregadas que parecem fazer-nos favores, ajudantes domésticas, governantas e encantadoras jovens que pretendem conciliar o ganho de algum dinheiro extra com um horário que lhes convenha e convenha também ás necessidades dos seus próprios filhos. São amadoras gentis; frequentemente tornam-se nossas amigas, mas é raro que inspirem o respeito com que olhávamos os nossos empregados domésticos de antigamente”
“Uma criança que passou algum tempo na nossa casa foi um dia surpreendida pela minha mãe a dizer a uma das suas empregadas: – Você não passa de uma empregada! – e foi de imediato severamente repreendida.
– Espero nunca a ouvir falar desse modo com uma empregada. Os empregados devem ser tratados com a maior cortesia. Fazem um trabalho especializado que não saberia fazer senão depois de longo treino. E lembre-se também que não podem responder do mesmo modo.”

28.2.07

Boa companhia para jantar

Claudia Cardinale

Lei-aborto

Ao longo da campanha do referendo do aborto ambos os lados foram moderando posições, com o “Não” a abrir portas a uma despenalização que não tornasse o aborto livre e o “Sim” a introduzir factores moderadores como o aconselhamento obrigatório da mulher. O “Sim” ganhou, mas de forma não vinculativa, o que não lhe retira legitimidade, mas deveria introduzir prudência e bom senso.
Ontem foi entregue a proposta de lei do aborto na Assembleia da República e nela, pasme-se, aparece o aconselhamento como facultativo e apenas a pedido da mulher. Aquilo que foi negado veementemente pelo “Sim” na campanha acabou por acontecer, o aborto passa a ser livre e sem qualquer restrição. O aconselhamento, agitado durante a campanha por eminentes personagens, foi afinal uma mentira para convencer indecisos. As criaturas que apresentaram a lei ainda conseguem o desplante de considerar esta proposta equilibrada e de consenso, algo que só com manifesta má fé se pode dizer. Se esta é uma proposta equilibrada, o que seria então uma proposta desequilibrada perante os resultados do referendo? Aborto aconselhado pelo estado para reduzir custos sociais de crianças nascidas pobres?
Perante tudo isto resta esperar que, numa expressão muito em voga, Cavaco tenha tomates para vetar esta lei. Eu, como pouco espero do homem de Boliqueime e penso que o local que mais o interessa é o próprio umbigo, não acredito. No entanto a ver vamos.

27.2.07

“Cartas de Iwo Jima”, o filme de Clint Eastwood sobre a guerra no ponto de vista dos japoneses, é uma obra-prima daquelas com que de modo cada vez mais raro somos brindados. A intensidade do filme, mantida ao longo de quase duas horas e meia, traduz a guerra sem artifícios, sem a demagogia do sofrimento ou a grandiloquência da memória, a guerra feita por pessoas simples, por muito que as causas que lhe dão origem transcendam os homens que a executam.
A visão da guerra de Eastwood é a dos códigos de honra e dos patriotismos, dos medos, das memórias de quem se deixou, feita de soldados humanos com as suas diferenças e individualismos. A guerra, as guerras, tendem a ser vistas como algo de distante, deliberado por políticos e governantes inacessíveis e executada por robots ao serviço de uma pátria. Habituámo-nos a ganhar um distanciamento televisivo da morte, a torná-la algo de aritmético e estatístico. Esquecemos a guerra como ela é por dentro, com toda a sua humanidade e idiossincrasia.
Não há guerras boas, como não há apenas soldados inimigos maus. Eastwood foca muito da sua visão da guerra neste ponto, o inimigo não é genericamente mau, assim como o americano não é totalmente bom. A guerra pode ter, consoante a visão, um lado que represente o bem e outro que represente o mal, mas não é formada por massas homogéneas de bem e de mal, facto tantas vezes esquecido numa visão simplista da história. Para Eastwood é claro o seu lado na guerra, assim como é clara a diferença de sociedades – bem expressa nos japoneses que estiveram nos E.U.A. –, mas a diferença não implica superioridade e tem raiz na incompreensão, no desconhecimento. Os soldados japoneses ao querer matar o prisioneiro americano não o faziam por pura maldade, mas por não o entenderem como um igual, como um ser humano como eles, na mesma situação que eles, com as palavras escritas para a mãe que eles também escreveram.
Iwo Jima é o exemplo de uma batalha imbecil, onde o destino estava traçado à partida e em que os códigos de honra e patriotismo levaram a uma enorme chacina de seres humanos de ambos os lados. Foi heróica a resistência dos japoneses, mas de um heroísmo sem sentido, pois a morte estava marcada a ferro no seu destino. As vidas foram usadas num combate de números, em nome de um pretenso golpe de marketing para outras batalhas. A insensibilidade com que as guerras são tratadas cria-nos um distanciamento frio, mas por vezes é com um simples filme de duas horas e meia que nos questionamos e que descemos à nossa condição humana, olhando o mundo com outros olhos e a guerra com uma proximidade quantas vezes esquecida.

Ainda há futuro para o grande cinema.


E tem 76 anos.

Parabéns


Ao José Nunes por um ano de “Os Dedos”.
Aos insurgentes por dois anos de “O Insurgente”.

26.2.07

Procura-se

Chegado por mail e a precisar de divulgação.

Diálogos Imaginários

– Charles, por favor traga champanhe.
– Com certeza, menino. Alguma celebração em especial?
– Claro que sim, Charles. Finalmente a Academia deu um Óscar a Martin Scorsese.
– Em hora boa, menino. Em hora boa.

23.2.07

Indignação selectiva

in Miss Pearls

“Há coisas que se vão aprimorando com os anos. Talvez seja melhor dizer que se vão "apurando" com a experiência. Soa bem e cai ainda melhor, dá outro ar e sempre gostei de eufemismos. Digo isto com alguma ironia, naturalmente. Mas não era sobre minudências pessoais que gostaria de escrever.
Estive hoje num grande armazém de pronto-a-vestir onde existem dois tipos de roupa : a cara e a caríssima. Inexplicavelmente, dirijo-me sempre para as etiquetas que ostentam os valores mais escandalosos. É inevitável. Não é um capricho, é uma visão cirúrgica. É um sexto sentido esmerado. É uma perda de tempo. É uma chatice.
Pode estar a três ou quatro metros, que graças a Deus vejo bem ao longe, mas lá está o casaco de três digitos ou a camisola de caxemira. Lá no íntimo, eu, muitas de nós, sabemos que aquilo que vemos, exactamente porque é diferente, há-de ser, digamos, uma ficção. Apesar disso, nada nos impede de o olhar e revirar. Em situações extremas damo-nos ao trabalho de o provar, o que por vezes é bom. Outras vezes não é tão bom assim. Uma mente precavida e uma carteira pouco recheada acaba sempre por encontrar algum defeito. Lá está, é bom. Já uma criatura com ego inflamado mas praticamente na penúria, sente de imediato a necessidade de devorar um chocolate inteiro. O que é mau: pela frustração e pela dose de calorias. Quem nunca sentiu este olhar apurado, esta temível inclinação para marcas inatingíveis e preços praticamente obscenos que levante o braço. Sou pessoa para lhe passar um certificado de "consumidora feliz".
E se nos voltarmos a cruzar com aquele casaco, pode ser que esteja enfiado numa sujeita a precisar de tirar o buço e uns quilos a mais. Afinal, o casaco não é tudo. Pois...”
.
Sim, reconheço, também sou um consumidor infeliz...

Desculpas voltam a atacar

Ferreira Fernandes in “Sábado”, 22 de Fevereiro de 2007

“Todos os dias se mata, todos os dias nos vamos habituando. Mas, um dia, há um morto es­pecial que nos lembra o absurdo da violência. O Brasil (o Bra­sil!, esse especialista do assun­to) vive, desde a semana passada, um momento desses. Começou banalmente num semáforo do Rio de Janeiro, onde pa­rou um Corsa. Dentro do carro, a conduto­ra, urna amiga, a filha da condutora, de 13 anos, e o filho, João Hélio, de 6. As notícias que marcam acumulam aqueles pormeno­res que, depois, nos alimentam a conversa. Aqueles acasos que, depois, nos servem para confirmar corno o destino tem um jeito que é só seu para dar para o torto. O garoto, sen­tado no banco de trás, usava o cinto de se­gurança, bom hábito tão raro no Brasil.
Continua-se no trivial: parada no cruza­mento, a condutora vê urna arma apontada e ouve a ordem para abandonar o carro. Saem todos. Quer dizer, nem todos. A con­dutora contorna o carro para libertar o fi­lho do cinto de segurança. Outro pormenor para alimentar conversa: nessa tarde, João Hélio tinha marcado o seu primeiro golo na escola. A mãe abre a porta, puxa o garoto mas o cinto de segurança atrapalha. Nessa altura, os bandidos - são três e muito jo­vens - já estão dentro do carro. Este arran­ca, João Hélio escapa dos braços da mãe, a porta fecha (a lei da inércia funcionou, a úni­ca que não falha no Brasil) e o miúdo fica do lado de fora, preso. Durante sete quilóme­tros vai espalhando partes de si pelas ruas.
Os bandidos sabiam que levavam um cor­po arrastado. Fazem ziguezagues corno quem se quer livrar de um estorvo. Mais do que a visão da cabeça do menino batendo no asfalto e na roda traseira, urna testemunha disse que nunca mais se esquecerá do deses­pero da irmã, gritando atrás do carro. Mais à frente, um motociclista alinha-se com o carro e faz sinal que arrasta um corpo. Os bandidos fazem-no desistir, apontando­-lhe urna pistola. Sete quilómetros da cida­de, bairros inteiros, botequins de esquina, um quartel de bombeiros, vêem o desfile macabro. Primeiro, julgando ser piada de mau gosto com boneco, depois, assustan­do-se com a lataria ensanguentada do car­ro. Enfim, o Corsa é abandonado numa rua tranquila. Outro pormenor, para dar pince­ladas à conversa: o primeiro polícia que che­ga ao local é um sargento, não é novato, mas, depois de olhar a massa informe em que se transformou o João Hélio, desata num choro, não consegue pedir socorro.
Os três bandidos: um tem 23 anos e já seis entradas e saídas da prisão, outro, 18 anos, e o outro, 16, ambos sem cadastro. Depois de abandonar o carro, foram jantar a casa e foram a urna festinha da igreja do bairro. No dia seguinte, o de 16 e o de 18 anos são presos. Depois, é preso o de 23, ir­mão do menor e chefe do gangue, que cos­tumava fazer estes assaltos.
Esse o caso que fez o Brasil assombrar-se. Emoção sentida, violinos baratos (os corte­jos de Carnaval fizeram minutinhos de si­lêncio e versinhos) e, inevitavelmente, a dis­cussão jurídica. Se, em vez daquele entra­-e-sai da cadeia do chefe do gangue, ele es­tivesse numa a sério e pelo tempo razoável que a sua insistência no crime pedia, não se teria poupado o João Hélio? Pergunta de­magógica, de acordo. Então, factos: o menor, aquele que apontou a pistola à condutora, ficará detido, no máximo, por três anos. O de 18 anos, mesmo que condenado ao má­ximo da pena, 30 anos, deverá ser solto ao fim de um sexto do cumprimento dela. Corno diz à revista Época, irónica: "Daqui a cinco anos, talvez esteja nas mesmas festi­nhas da igreja."
O Brasil tem das mais brandas legisla­ções penais para menores. Em Inglaterra, para falar do país que inventou o habeas cor­pus, um menor pode ser condenado à pri­são perpétua. Acontece que o Brasil está re­fém do seu arrependimento: em 1993, po­lícias mataram oito miúdos de rua, frente à igreja da Candelária, no Rio. Corno é que um país assim pode endurecer as suas leis para menores, sem ter as organizações in­ternacionais à perna?
A verdade é que o Brasil tem muitos fil­mes sobre pivetes, garotos de favela, adoles­centes da Cidade de Deus, filhos dos "capi­tães da areia" de Jorge Amado. A consciência pesada vende. Mas João Hélio, aposto, não vai dar filme.
Exagero? Então, oiçam. Na sexta-feira, o Presidente Lula foi inaugurar a maior cen­tral telefónica do mundo, em São Paulo. Seis mil empregos, quase tudo gente jovem. Lula falou para eles sobre o caso que abala o Bra­sil. Sobre João Hélio? Não. Sobre a necessi­dade de não ser demasiado emotivo com o condutor assassino: "Se a gente estivesse naquele lugar, o que a gente faria? Certa­mente nós faríamos quase a mesma barba­ridade que ele fez com aquela criança." Não tendo havido linchamento, estranha-se a prioridade das preocupações. Espalha-se massa encefálica de urna criança pelas ruas e ganha-se o Presidente corno advogado.”

Linha do Tua

José Pacheco Pereira in “Sábado”, 22 de Fevereiro de 2007

“Poucos sítios mantêm a paisagem natural rude e agreste, bela ao modo do "terrível", como os vales dos afluentes do Douro, rio de montanha rodeado por rios de monta­nha, que fizeram o seu leito cavando ro­chas e não espraiando-se por terras baixas irrigadas. O vale do Tua é um desses casos de beleza, ignorado, perdido, numa parte de Portugal que a maioria dos portugueses nem sabe que existe.
Mas, não tenhamos ilusões, a sua bele­za selvagem só tem uma explicação, a de não ter havido até agora nenhum negócio rapace que tornasse o vale numa selva de empreendimentos e as cumeadas em en­xames de eólicas. É natural que este seja o desejo dos locais, que precisam de empre­go, negócio, comércio e riqueza e que, como uma vez me disse um velho de um desses locais prístinos, "não percebo por­que gosta disto, são só montes, estamos fartos de só ver montes, que interesse têm?". A verdade é que, se for assim, nem o pouco que têm em potência vai sobrar em acto. Gastar-se-á em meia dúzia de anos. Porque o nosso problema é que pas­samos sempre do oito para o oitenta, do nada miserável do atraso para o novo-ri­quismo da combinação construção-turis­mo barato subsidiado-obras públicas.
E no meio do caminho da sua vida, como Dante à entrada do Inferno, lá continuará o vale do Tua, com a sua linha de "metro" que transporta meia dúzia de pessoas ao dia, de lado nenhum para lado nenhum, num sítio tão remoto e deserdado de tudo menos da beleza que nem um responsável dos comboios achou necessário ir lá para honrar os seus mortos, os mortos da em­presa que "gere". Retirado o último morto das águas, o silêncio voltará, se calhar tam­bém já sem o "metro" de Mirandela.”