20.3.07
Admirável Governo Novo
Clube de Destruição Sumária / Para o Próprio
19.3.07
Escuro objecto de desejo

14.3.07
Mediocridade
Ser agradável
“– O seu irmão é um homem agradável, Peggotty? – inquiri cautelosamente.
– Oh! O meu irmão é um homem muito agradável! – exclamou Peggotty.”
Pergunte a si própria se a maioria dos seus amigos e pessoas conhecidas são agradáveis e ficará surpreendida por tão poucas vezes a sua resposta poder ser igual à de Peggotty.»
Agatha Christie in “Autobiografia”
12.3.07
Sábado glorioso
Faz tempo que não ia ao Estádio Universitário e foi com enorme agrado que fiz por entre as sombras de belas árvores o caminho desde a Reitoria. Junto ás bilheteiras, e apesar de faltar uma hora para o jogo, já reinava grande animação, com grupos a aproveitarem a esplanada para almoçar e crianças, muitas crianças, a brincarem em redor, algumas delas ainda equipadas de um treino ou jogo de rugby já decorrido. Não parecia Portugal, definitivamente não parecia o Portugal que se fecha nos centros comerciais de onde apenas sai para a praia, não parecia o país em que os jardins estão vazios e onde é raro encontrar carrinhos de bebé a passearem ao ar livre. Havia calma e alegria no ar, uma tranquilidade de fim-de-semana e uma boa disposição obrigatória perante o sol radioso que brilhava por todo o lado e que tudo fazia brilhar.
O jogo aproximava-se e foi com surpresa que deparei com o estádio cheio, e que visão magnífica a de um estádio rodeado de belas árvores e de sebes bem aparadas, bancadas cheias, e a luz… Habituámo-nos aos estádios de betão, encaixados nas cidades, rodeados de prédios, com centros comerciais, mas aqui tudo é diferente. Claro que não tem a segurança necessária a jogos de futebol, mas até essa necessidade de segurança muito diz da diferença entre estes dois desportos. Um olhar pelas bancadas mostrava famílias inteiras, com as crianças a brincar junto ao relvado, sem qualquer fosso que os separasse do campo onde, minutos depois, iria decorrer o jogo.
A selecção entrou perante enorme ovação e o hino foi cantado a uma só voz em todo o estádio. Bonita recepção ao jogadores que durante o jogo mais do que fizeram por a merecer. O jogo foi equilibrado, em especial na primeira parte que acabou zero a zero, mas no segundo tempo os portugueses encheram-se da enorme garra que vêm mostrando e conseguiram dois ensaios, um deles concretizado, e a diferença de doze pontos. Seria uma excelente vantagem para a segunda mão, não fora um ensaio, não concretizado, dos uruguaios no último minuto. Os sete pontos são apertados, mas deixam esperança para a segunda mão em Montevideu, deixam esperança a uma selecção que merece a histórica oportunidade de ser a única selecção amadora a estar presente no Mundial.
O final trouxe uma pacífica invasão de campo e foi divertido ver os jogadores a darem autógrafos submersos por miúdos ou a ficarem junto ás bancadas a conversar com amigos ou família, tudo com enorme calma e familiaridade. Aqui respira-se desporto – competitivo, mas desporto – longe do espectáculo distante e inacessível de outras modalidades, cada vez mais indústrias com operários especializados pagos principescamente. Não tenho nada contra outros desportos, até segui para Alvalade para ver o Sporting contra o Estrela da Amadora, mas tudo aqui é diferente, e de uma diferença muito agradável.
Pedro Leal (2), David Mateus, Miguel Portela, Diogo Gama (5), Pedro Carvalho, Cardoso Pinto (Gonçalo Malheiro), Luís Pissarra (José Pinto), Vasco Uva, João Uva (Paulo Murinello), Juan Severin (Diogo Coutinho, 5), Gonçalo Uva, Marcello D’Orey (David Penalva), Joaquim Ferreira, João Correia e André da Silva.
Esta foi Selecção Nacional de Rugby que jogou no Sábado, treinada por Tomaz Morais, e que ganhou ao Uruguai. Estes, e outros que neste jogo não jogaram, formam um grupo que tornou uma selecção de terceira categoria numa equipa de nível tal que já ganhou o Torneio das Seis Nações B (o acesso ao outro é por convite), vários torneios e campeonatos de Sevens (rugby de sete) e que pode agora ser apurada para o Mundial. Todos são amadores, todos treinam com sacrifícios imensos para conseguirem conciliar empregos, famílias e o seu desporto, todos jogam com grande espírito de grupo, todos mostram um enorme amor à camisola. O desporto amador quando consegue ser competitivo é algo de magnífico e aqui o grande papel é do seleccionador Tomaz Morais que conseguiu transformar a nossa selecção numa selecção de campeões. Podemos até não conseguir o apuramento – o que seria injusto para o esforço da equipa – mas esta selecção, esta “Nossa Selecção”, está de parabéns pela atitude e, é preciso não o esquecer, pelo seu excelente rugby.
8.3.07
RTP
7.3.07
6.3.07
Abandono
Santa Comba e Estaline
A mostarda chega-me cada vez mais facilmente ao nariz neste país em que os idiotas conseguem tempo de antena e põem à prova os meus instintos democráticos, tanta é a vontade de os meter na choldra para não maçarem mais. Era bom, se bem que utópico, que a populaça fosse educada a perceber que Salazar foi um ditador, é um facto, mas que o comunismo defende uma outra forma de ditadura, a do proletariado. Um e outro estão no mesmo exacto patamar para quem defende, de facto, a liberdade e a democracia, são ambos representações de regimes ditatoriais. Enquanto se julgarem por patamares diferentes as ditaduras, de direita ou esquerda, e os seus apoiantes não teremos sossego. E não chega o dia…
2.3.07
As palavras de…
“Estava a África do Sul a viver a sua viragem histórica, eleições com brancos e negros, quando me encontrei com um jovem admirável. Ele era branco, beirão e vivia em Durban, num bairro operário e negro. Aquela zona era zulu, uma minoria negra com um partido que se opunha ao ANC de Nelson Mandela. No bairro, todas as manhãs apareciam corpos de xhosas e zulus, mortos a tiro e por vezes torturados. O meu jovem, que era missionário, ensinava a ler nos dormitórios das fábricas e treinava uma equipa de futebol com os miúdos do bairro.
Eu tenho o que julgo ser uma reacção alérgica benigna. O que leva outros a terem erupções cutâneas por comerem camarão, a mim, perante um tipo admirável, põem-se-me a brilhar os olhos. O rapaz viu. E entendeu que aquela homenagem se devia ao facto de eu o tresler. Onde eu via fraternidade, o que o motivava era outra coisa: "Olhe que eu estou aqui por razões de fé."
Sorri e continuei com o brilhozinho nos olhos. Os caminhos do amor aos homens são insondáveis. A generosidade escreve direito por linhas tortas. O que quiserem. O jovem beirão tinha abandonado a sua terra e os seus, corria riscos e praticava o bem. O motor da sua humanidade, segundo ele, alimentava-se com uma gasolina que eu desconhecia, a fé. Nas tintas. Para mim, o que era importante é que ele era dos meus. Desculpem-me, desculpem-me, a presunção da frase anterior. O que eu quero dizer é que gostaria de ser dos dele.
Vai para aí uma polémica sobre um túmulo de Jesus que poria em causa alguns dogmas do cristianismo. Ele não ressuscitou e teve um filho? Eis, mais uma vez, o que me deixa indiferente. O meu brilhozinho nos olhos por essa pessoa generosa e fraterna que foi Jesus Cristo – virado para todos os homens e não só para os eleitos, respeitador dos mais fracos, igualizador dos géneros, político moderníssimo ("Dar a César...") – continua cintilante. Seja, ele não foi Deus. Não me importa, tenho uma versão para ele ainda maior.”
1.3.07
A propósito de criadas
No Corta-Fitas decorre um importante polémica sobre criadas, assunto deveras inquietante e que, pelos vistos, gera revoltas graves em algumas pessoas. Como se dá a coincidência do meu livro de cabeceira ser a “Autobiografia” de Agatha Christie deixo aqui dois excertos a propósito:
“Duvido que hoje exista ainda uma verdadeira empregada doméstica. Existirão possivelmente algumas, entre as idades dos 70 e 80 anos, mas, fora disso, o que existe são diaristas, empregadas que parecem fazer-nos favores, ajudantes domésticas, governantas e encantadoras jovens que pretendem conciliar o ganho de algum dinheiro extra com um horário que lhes convenha e convenha também ás necessidades dos seus próprios filhos. São amadoras gentis; frequentemente tornam-se nossas amigas, mas é raro que inspirem o respeito com que olhávamos os nossos empregados domésticos de antigamente”
“Uma criança que passou algum tempo na nossa casa foi um dia surpreendida pela minha mãe a dizer a uma das suas empregadas: – Você não passa de uma empregada! – e foi de imediato severamente repreendida.
– Espero nunca a ouvir falar desse modo com uma empregada. Os empregados devem ser tratados com a maior cortesia. Fazem um trabalho especializado que não saberia fazer senão depois de longo treino. E lembre-se também que não podem responder do mesmo modo.”
28.2.07
Lei-aborto
Ontem foi entregue a proposta de lei do aborto na Assembleia da República e nela, pasme-se, aparece o aconselhamento como facultativo e apenas a pedido da mulher. Aquilo que foi negado veementemente pelo “Sim” na campanha acabou por acontecer, o aborto passa a ser livre e sem qualquer restrição. O aconselhamento, agitado durante a campanha por eminentes personagens, foi afinal uma mentira para convencer indecisos. As criaturas que apresentaram a lei ainda conseguem o desplante de considerar esta proposta equilibrada e de consenso, algo que só com manifesta má fé se pode dizer. Se esta é uma proposta equilibrada, o que seria então uma proposta desequilibrada perante os resultados do referendo? Aborto aconselhado pelo estado para reduzir custos sociais de crianças nascidas pobres?
Perante tudo isto resta esperar que, numa expressão muito em voga, Cavaco tenha tomates para vetar esta lei. Eu, como pouco espero do homem de Boliqueime e penso que o local que mais o interessa é o próprio umbigo, não acredito. No entanto a ver vamos.
27.2.07

A visão da guerra de Eastwood é a dos códigos de honra e dos patriotismos, dos medos, das memórias de quem se deixou, feita de soldados humanos com as suas diferenças e individualismos. A guerra, as guerras, tendem a ser vistas como algo de distante, deliberado por políticos e governantes inacessíveis e executada por robots ao serviço de uma pátria. Habituámo-nos a ganhar um distanciamento televisivo da morte, a torná-la algo de aritmético e estatístico. Esquecemos a guerra como ela é por dentro, com toda a sua humanidade e idiossincrasia.
Não há guerras boas, como não há apenas soldados inimigos maus. Eastwood foca muito da sua visão da guerra neste ponto, o inimigo não é genericamente mau, assim como o americano não é totalmente bom. A guerra pode ter, consoante a visão, um lado que represente o bem e outro que represente o mal, mas não é formada por massas homogéneas de bem e de mal, facto tantas vezes esquecido numa visão simplista da história. Para Eastwood é claro o seu lado na guerra, assim como é clara a diferença de sociedades – bem expressa nos japoneses que estiveram nos E.U.A. –, mas a diferença não implica superioridade e tem raiz na incompreensão, no desconhecimento. Os soldados japoneses ao querer matar o prisioneiro americano não o faziam por pura maldade, mas por não o entenderem como um igual, como um ser humano como eles, na mesma situação que eles, com as palavras escritas para a mãe que eles também escreveram.
Iwo Jima é o exemplo de uma batalha imbecil, onde o destino estava traçado à partida e em que os códigos de honra e patriotismo levaram a uma enorme chacina de seres humanos de ambos os lados. Foi heróica a resistência dos japoneses, mas de um heroísmo sem sentido, pois a morte estava marcada a ferro no seu destino. As vidas foram usadas num combate de números, em nome de um pretenso golpe de marketing para outras batalhas. A insensibilidade com que as guerras são tratadas cria-nos um distanciamento frio, mas por vezes é com um simples filme de duas horas e meia que nos questionamos e que descemos à nossa condição humana, olhando o mundo com outros olhos e a guerra com uma proximidade quantas vezes esquecida.

26.2.07
Diálogos Imaginários
– Com certeza, menino. Alguma celebração em especial?
– Claro que sim, Charles. Finalmente a Academia deu um Óscar a Martin Scorsese.
– Em hora boa, menino. Em hora boa.
23.2.07
Indignação selectiva
“Há coisas que se vão aprimorando com os anos. Talvez seja melhor dizer que se vão "apurando" com a experiência. Soa bem e cai ainda melhor, dá outro ar e sempre gostei de eufemismos. Digo isto com alguma ironia, naturalmente. Mas não era sobre minudências pessoais que gostaria de escrever.
Estive hoje num grande armazém de pronto-a-vestir onde existem dois tipos de roupa : a cara e a caríssima. Inexplicavelmente, dirijo-me sempre para as etiquetas que ostentam os valores mais escandalosos. É inevitável. Não é um capricho, é uma visão cirúrgica. É um sexto sentido esmerado. É uma perda de tempo. É uma chatice.
Pode estar a três ou quatro metros, que graças a Deus vejo bem ao longe, mas lá está o casaco de três digitos ou a camisola de caxemira. Lá no íntimo, eu, muitas de nós, sabemos que aquilo que vemos, exactamente porque é diferente, há-de ser, digamos, uma ficção. Apesar disso, nada nos impede de o olhar e revirar. Em situações extremas damo-nos ao trabalho de o provar, o que por vezes é bom. Outras vezes não é tão bom assim. Uma mente precavida e uma carteira pouco recheada acaba sempre por encontrar algum defeito. Lá está, é bom. Já uma criatura com ego inflamado mas praticamente na penúria, sente de imediato a necessidade de devorar um chocolate inteiro. O que é mau: pela frustração e pela dose de calorias. Quem nunca sentiu este olhar apurado, esta temível inclinação para marcas inatingíveis e preços praticamente obscenos que levante o braço. Sou pessoa para lhe passar um certificado de "consumidora feliz".
E se nos voltarmos a cruzar com aquele casaco, pode ser que esteja enfiado numa sujeita a precisar de tirar o buço e uns quilos a mais. Afinal, o casaco não é tudo. Pois...”
Desculpas voltam a atacar
“Todos os dias se mata, todos os dias nos vamos habituando. Mas, um dia, há um morto especial que nos lembra o absurdo da violência. O Brasil (o Brasil!, esse especialista do assunto) vive, desde a semana passada, um momento desses. Começou banalmente num semáforo do Rio de Janeiro, onde parou um Corsa. Dentro do carro, a condutora, urna amiga, a filha da condutora, de 13 anos, e o filho, João Hélio, de 6. As notícias que marcam acumulam aqueles pormenores que, depois, nos alimentam a conversa. Aqueles acasos que, depois, nos servem para confirmar corno o destino tem um jeito que é só seu para dar para o torto. O garoto, sentado no banco de trás, usava o cinto de segurança, bom hábito tão raro no Brasil.
Continua-se no trivial: parada no cruzamento, a condutora vê urna arma apontada e ouve a ordem para abandonar o carro. Saem todos. Quer dizer, nem todos. A condutora contorna o carro para libertar o filho do cinto de segurança. Outro pormenor para alimentar conversa: nessa tarde, João Hélio tinha marcado o seu primeiro golo na escola. A mãe abre a porta, puxa o garoto mas o cinto de segurança atrapalha. Nessa altura, os bandidos - são três e muito jovens - já estão dentro do carro. Este arranca, João Hélio escapa dos braços da mãe, a porta fecha (a lei da inércia funcionou, a única que não falha no Brasil) e o miúdo fica do lado de fora, preso. Durante sete quilómetros vai espalhando partes de si pelas ruas.
Os bandidos sabiam que levavam um corpo arrastado. Fazem ziguezagues corno quem se quer livrar de um estorvo. Mais do que a visão da cabeça do menino batendo no asfalto e na roda traseira, urna testemunha disse que nunca mais se esquecerá do desespero da irmã, gritando atrás do carro. Mais à frente, um motociclista alinha-se com o carro e faz sinal que arrasta um corpo. Os bandidos fazem-no desistir, apontando-lhe urna pistola. Sete quilómetros da cidade, bairros inteiros, botequins de esquina, um quartel de bombeiros, vêem o desfile macabro. Primeiro, julgando ser piada de mau gosto com boneco, depois, assustando-se com a lataria ensanguentada do carro. Enfim, o Corsa é abandonado numa rua tranquila. Outro pormenor, para dar pinceladas à conversa: o primeiro polícia que chega ao local é um sargento, não é novato, mas, depois de olhar a massa informe em que se transformou o João Hélio, desata num choro, não consegue pedir socorro.
Os três bandidos: um tem 23 anos e já seis entradas e saídas da prisão, outro, 18 anos, e o outro, 16, ambos sem cadastro. Depois de abandonar o carro, foram jantar a casa e foram a urna festinha da igreja do bairro. No dia seguinte, o de 16 e o de 18 anos são presos. Depois, é preso o de 23, irmão do menor e chefe do gangue, que costumava fazer estes assaltos.
Esse o caso que fez o Brasil assombrar-se. Emoção sentida, violinos baratos (os cortejos de Carnaval fizeram minutinhos de silêncio e versinhos) e, inevitavelmente, a discussão jurídica. Se, em vez daquele entra-e-sai da cadeia do chefe do gangue, ele estivesse numa a sério e pelo tempo razoável que a sua insistência no crime pedia, não se teria poupado o João Hélio? Pergunta demagógica, de acordo. Então, factos: o menor, aquele que apontou a pistola à condutora, ficará detido, no máximo, por três anos. O de 18 anos, mesmo que condenado ao máximo da pena, 30 anos, deverá ser solto ao fim de um sexto do cumprimento dela. Corno diz à revista Época, irónica: "Daqui a cinco anos, talvez esteja nas mesmas festinhas da igreja."
O Brasil tem das mais brandas legislações penais para menores. Em Inglaterra, para falar do país que inventou o habeas corpus, um menor pode ser condenado à prisão perpétua. Acontece que o Brasil está refém do seu arrependimento: em 1993, polícias mataram oito miúdos de rua, frente à igreja da Candelária, no Rio. Corno é que um país assim pode endurecer as suas leis para menores, sem ter as organizações internacionais à perna?
A verdade é que o Brasil tem muitos filmes sobre pivetes, garotos de favela, adolescentes da Cidade de Deus, filhos dos "capitães da areia" de Jorge Amado. A consciência pesada vende. Mas João Hélio, aposto, não vai dar filme.
Exagero? Então, oiçam. Na sexta-feira, o Presidente Lula foi inaugurar a maior central telefónica do mundo, em São Paulo. Seis mil empregos, quase tudo gente jovem. Lula falou para eles sobre o caso que abala o Brasil. Sobre João Hélio? Não. Sobre a necessidade de não ser demasiado emotivo com o condutor assassino: "Se a gente estivesse naquele lugar, o que a gente faria? Certamente nós faríamos quase a mesma barbaridade que ele fez com aquela criança." Não tendo havido linchamento, estranha-se a prioridade das preocupações. Espalha-se massa encefálica de urna criança pelas ruas e ganha-se o Presidente corno advogado.”
Linha do Tua
“Poucos sítios mantêm a paisagem natural rude e agreste, bela ao modo do "terrível", como os vales dos afluentes do Douro, rio de montanha rodeado por rios de montanha, que fizeram o seu leito cavando rochas e não espraiando-se por terras baixas irrigadas. O vale do Tua é um desses casos de beleza, ignorado, perdido, numa parte de Portugal que a maioria dos portugueses nem sabe que existe.
Mas, não tenhamos ilusões, a sua beleza selvagem só tem uma explicação, a de não ter havido até agora nenhum negócio rapace que tornasse o vale numa selva de empreendimentos e as cumeadas em enxames de eólicas. É natural que este seja o desejo dos locais, que precisam de emprego, negócio, comércio e riqueza e que, como uma vez me disse um velho de um desses locais prístinos, "não percebo porque gosta disto, são só montes, estamos fartos de só ver montes, que interesse têm?". A verdade é que, se for assim, nem o pouco que têm em potência vai sobrar em acto. Gastar-se-á em meia dúzia de anos. Porque o nosso problema é que passamos sempre do oito para o oitenta, do nada miserável do atraso para o novo-riquismo da combinação construção-turismo barato subsidiado-obras públicas.
E no meio do caminho da sua vida, como Dante à entrada do Inferno, lá continuará o vale do Tua, com a sua linha de "metro" que transporta meia dúzia de pessoas ao dia, de lado nenhum para lado nenhum, num sítio tão remoto e deserdado de tudo menos da beleza que nem um responsável dos comboios achou necessário ir lá para honrar os seus mortos, os mortos da empresa que "gere". Retirado o último morto das águas, o silêncio voltará, se calhar também já sem o "metro" de Mirandela.”
21.2.07
Agradecimentos
19.2.07
Grande Mangueira!
TENHO A MAIS BELA MANEIRA DE EXPRESSAR
SOU MANGUEIRA... UMA POESIA SINGULAR
FUI AO LÁCIO E NOS MEUS VERSOS CANTO À ÚLTIMA FLOR
QUE ESPALHOU POR VÁRIOS CONTINENTES
UM MANANCIAL DE AMOR
CARAVELAS AO MAR PARTIRAM
POR DESTINO ENCONTRARAM O BRASIL...
NOS TRAZENDO A MAIOR RIQUEZA
A NOSSA LÍNGUA PORTUGUESA
SE MISTUROU COM TUPI TUPINAMBRASILEIROU
MAIS TARDE O CANTO DO NEGRO ECOOU
ASSIM A LÍNGUA SE MODIFICOU
EU VOU NOS VERSOS DE CAMÕES
ÀS FOLHAS SECAS CAÍDAS DE MANGUEIRA
QUE FALA AO PULSAR DO CORAÇÃO
.
DO OIAPOQUE AO CHUÍ OUVIR
A MINHA PÁTRIA É MINHA LÍNGUA
IDOLATRADA OBRA-PRIMA TE FAÇO IMORTAL
SALVE... POETAS E COMPOSITORES
SALVE TAMBÉM OS ESCRITORES
QUE ENRIQUECERAM ATUA HISTÓRIA
Ó MEU BRASIL...
DOS FILHOS DESTE SOLO ÉS MÃE GENTIL
HOJE A HERANÇA PORTUGUESA NOS CONDUZ
À ESTAÇÃO DA LUZ
.
MEU IDIOMA TEM O DOM DE TRANSFORMAR
FAZ DO PALÁCIO DO SAMBA UMA CASA PORTUGUESA
É UMA CASA PORTUGUESA COM CERTEZA
16.2.07
Fim-de-semana imaginário

Hotel Danieli, Veneza
Banho retemperador e prova final nas fantasias entretanto chagadas ao quarto.

Hotel Danieli, Veneza
Saída para uma bebida antes do jantar.

Terraço do Café Quadri
Subida para uma mesa junto à janela para jantar.

Restaurante do Café Quadri
Passeio pelas ruas.

Baile de Máscaras em casa de amigos.
Lisboa que anoitece...
15.2.07
Diálogos Imaginários
– Charles, com este dia medonho vou ficar por casa. Acho que me apetece um lanche reforçado.
– Com certeza, menino. Vou preparar uns scones, da receita da senhora sua mãe, para servir com compotas de framboesa e chá. Posso também fazer aquele pão-de-ló encruado no meio que o menino tanto gosta. Com o habitual chá e umas torradinhas com lemon curd.
– Perfeito, Charles. Aliás, tão perfeito que acho que vou dizer a uns amigos para se juntarem
– Muito bem, menino. Quando puder diga quantos são para poder arranjar a mesa.
Comboios
14.2.07
História
Salazar
Democratas
Erros
13.2.07
Espanto
Elogio do Silêncio
A propósito da estreia comercial de “Into Great Silence” – “O Grande Silêncio”, de Philip Gröning, volto a publicar um post de Outubro de 2006, aquando a sua exibição no DocLisboa.
“A deslocação a um cinema para ver um documentário de cerca de três horas sobre a vida monástica dos cartuxos (a ordem de clausura com regras mais ascéticas) – filmado com som ambiente, luz natural e sem equipa técnica, que não o realizador, segundo regras estabelecidas pelo abade para, dezasseis anos após o pedido de Gröning, autorizar a entrada na Cartuxa – é experiência radical a que não aconselharia noventa por cento dos meus amigos. Tudo levava a imaginar um filme chatíssimo, e apenas uma conjugação de interesse artístico e religioso me levou aceitar a experiência. Sim, a experiência, porque é disso que o filme trata. A experiência de partilhar uma forma de vida exótica perante os padrões de vida de hoje em dia. Mais do que “entrar” no silêncio, entramos num mundo paralelo em que o tempo é conceito diferente, regrado e repetitivo, mas tranquilo.
A clausura sempre foi uma manifestação de fé que tinha grande dificuldade em compreender. O que levaria um ser humano livre a deixar-se reger por um regime de vida profundamente ascético e que tornava a sua existência um mero ritual repetitivo de oração? Porque motivo alguém escolhe, no mundo de hoje em que as liberdades são conhecidas por (quase) todos, uma vida em que o mundo é apenas uma existência física para lá de muros e paredes? O filme não procura esta resposta, como aliás não procura nenhuma resposta, seguindo o rigor jornalístico na forma com se “limita” a mostrar uma vivência, uma opção de vida, sem um julgamento moral ou social. Gröning não nos diz que esta reclusão, ou qualquer outra reclusão, é boa ou má, aceitável ou não, apenas nos mostra com crueza e rigor como é vivida essa reclusão. Claro que observar como é a vida de clausura nos permite ter o nosso próprio julgamento, não condicionado por ideias veiculadas no filme, mas sim pelo nosso julgamento perante a realidade que nos é mostrada. Ao ver como é a vida destes monges, consigo melhor perceber que assim consigam viver.
O silêncio é algo de que tendemos a esquecer o valor. Quantas vezes poderemos dizer que estamos, de facto, em silêncio? Hoje, a sociedade associa o silêncio à solidão, à tristeza, a uma fuga da realidade cada vez mais barulhenta e feérica, a uma fuga do mundo. Acredito que tudo isto se passe em cada monge que escolheu a vida da Cartuxa, apenas um factor não é semelhante, para eles o seu mundo não é o nosso mundo vulgar e comezinho, o seu mundo é o espiritual, e o “nosso” é apenas suporte físico intermédio numa relação permanente com o divino.
Será a clausura necessária para alguém poder dedicar a sua vida a Deus? Não creio, mas é uma forma como qualquer outra para alguém se encontrar consigo próprio e com Deus. Não será tão exótica esta opção de vida radical como será a dos hippies ou dos ciganos nómadas? Cada vez mais a sociedade nos manipula a acolher diferenças que se tornam politicamente correctas e que acabamos por ter de aceitar, porque não aceitar que alguém queira simplesmente ter o seu mundo sem incomodar ninguém?
Cinematograficamente o filme é interessantíssimo, pois mostra o enorme talento de Gröning para filmar em condições mais do que complicadas. Ele não podia utilizar as técnicas habituais, a sua câmara teria de ser crua e discreta, simples e sem artifícios. A beleza estética que resulta das imagens é impressionante, e há planos inesquecíveis, tais como as orações nocturnas acompanhadas por cantos gregorianos ou os primeiros planos frontais dos monges. Não obstante, o mais notável no filme é a forma como o mesmo é montado e com isso consegue criar uma lógica argumentativa. A montagem consegue tornar o filme surpreendentemente ritmado, criando um ciclo repetitivo de tempos, um ciclo nunca fechado, permanente. A sequência de imagens alterna imagens da vivência dos monges – rezando, comendo, cantando – com a natureza em redor – com a maravilhosa natureza em redor e as suas montanhas cobertas de neves ou ribeiros correndo na primavera. Gröning consegue, através de uma brilhante realização e de uma fabulosa montagem., criar uma quase-hipnose ao longo do filme da qual apenas somos despertados quando as luzes se acendem. No final do filme, a sensação é a de que de facto estivemos na “Grande Chartreuse” por tempo indefinido, há um tempo indefinido. Enquanto o filme dura esquecemos o mundo, o nosso mundo, e compartilhamos a experiência de espiritualidade vivida pela oração, por uma vida de constante oração."
12.2.07
Realidades
Conservar ou fugir
Fair-play
Resultados
Civilização
Pena não se poder espancar
Tiro no pé
10.2.07
Herman e os Gatos
O “Tal Canal” foi um marco, uma lufada de ar fresco num país cinzento, com o “Diário de Marilú”, as crónicas de José Esteves, o “Jaquina Jaquina”, o “Cozinho para o Povo”, o Oliveira Casca, o Carlos Filinto Botelho, o menino Nelinho e a Sra. D. Palmira ou o grande Tony Silva. O “Hermanias” foi um seguidor natural e trouxe o cameraman “mas que é isto, é uma brincadeira ou quê” e o show do inenarrável Serafim Saudade com as suas hilariantes coreografias. Os programas de passagem de ano foram fantásticos e quem não se lembrará de “eu sou José Severino e sou pasteleiro…eu é mais bolos, salgados também, mas é mais bolos…”, do “batem leve, levemente, como quem chama por mim, fui ver era o Ovário…a assunção tema tabu…não, eu queria dizer Octávio, o meu primo Octávio, mas enganaram-se na tipografia”, ou as versões de músicas conhecidas com letras delirantes. O talento do Herman está espelhado na forma como conseguiu tornar o mais chato dos concursos, a Roda da Sorte, num programa do mais louco e desbragado humor. Como esquecer os momentos com Vítor Peter (Oh! Ivone. Oh! Ivone. Oh! Ivone. Good bye my love) ou o programa final, com Herman a disparar, de carabina em punho, estúdio fora, destruindo electrodomésticos e todo o cenário. O Humor de Perdição trouxe as entrevistas históricas a Florbela Espanca “ó filho faz-me qualquer coisa”, a Camões “Uh! Uh! Tens filhas, tens filhas. Traz também. Uh!” e à Rainha Santa Isabel que de tão polémica levou ao fim do programa. O mais sofisticado “Casino Royal” foi talvez o seu trabalho mais incompreendido, mas ainda assim com muitos momentos de grande qualidade. A Herman Enciclopédia, com fases menos felizes, tinha ainda assim personagens fabulosas como o Mike e Melga ou o Diácono Remédios e a sua mãe Rute Remédios.
Os Gatos já fizeram sketches realmente excelentes, mas basta o programa do último Domingo – em o que apenas me arrancaram um leve sorriso – para perceber que o caminho para que possam ser comparados com o Herman é ainda longo. O pior é que os Gatos, além de estarem a esgotar a sua imagem em incessantes anúncios à PT – percebe-se que o dinheiro compra muita coisa e afinal Herman não foi o único a pensar assim –, estão a adquirir tiques de vedetas, em especial o Ricardo Araújo Pereira, para os quais ainda não têm estatuto. Com tudo isto não quero dizer que os Gatos são maus, muito antes pelo contrário, mas acho que só a falta de concorrência que vão tendo por este país os torna umas vedetas incontestáveis e isso só os pode prejudicar, a eles e a nós que podemos perder um grupo que tem de facto, ainda que nem sempre, muita graça.
9.2.07
Agenda em dia
8.2.07
Prioridades
Dentro dos primeiros, há os que valorizam mais a liberdade da mulher por a considerarem um valor superior à vida do feto, e os que valorizam mais a liberdade da mulher por considerarem pura e simplesmente que não existe vida humana no feto. Dentro dos segundos, há os que valorizam mais a vida do feto porque a acham uma vida humana como qualquer outra vida humana; e há os que, não atribuindo à vida do feto o mesmo valor que atribuem à vida de um ser humano nascido, ainda assim, consideram-na mais valiosa que a liberdade da mulher (em abortar e em fazê-lo de forma segura).
Qualquer uma destas posições é politicamente legítima. Independentemente dos conhecimentos sobre medicina, física, ética, filosofia, lógica, matemática, direito ou trabalhos manuais que cada um tenha, qualquer uma destas posições é politicamente legítima. Por isso há debate, discussão, campanhas, urnas, votos, referendo. Por isso, todas as pessoas com mais de 18 anos têm o direito de, no próximo domingo, riscar uma cruz num quadrado.
Um referendo não é uma sondagem de opiniões. A decisão que vai ser tomada dia 11 é uma decisão política. Não num sentido partidário ou sequer ideológico, mas uma decisão política na mais nobre acepção do termo: deve ou não o Estado (o poder público, a comunidade politicamente organizada) continuar a proteger a vida do feto? Deve ou não o Estado, em nome dessa protecção, limitar a liberdade da mulher?”
Ficamos à espera
.

Parabéns ao Corta Fitas por um ano de existência, ao longo do qual se tornou habitual destino de visita.
7.2.07
Over the Rainbow
Eva Cassidy em concerto no Blues Alley.
Uma das minhas vozes favoritas numa versão comovente de Over the Rainbow.
Prece
Tanta foi a tormenta e a vontade!
Restam-nos hoje, no silêncio hostil,
O mar universal e a saudade.
Mas a chama, que a vida em nós criou,
Se ainda há vida ainda não é finda.
O frio morto em cinzas a ocultou:
A mão do vento pode erguê-la ainda.
Dá o sopro, a aragem — ou desgraça ou ânsia —,
Com que a chama do esforço se remoça,
E outra vez conquistaremos a Distância —
Do mar ou outra, mas que seja nossa!
Fernando Pessoa, “Mensagem”
6.2.07
Padre António Vieira

“A mais poderosa inclinação e o mais poderoso apetite do homem é desejar ser. Bem nos conhecia este natural o demônio, quando esta foi a primeira pedra sobre que fundou a ruína a nossos primeiros pais. A primeira coisa que lhe disse e que lhe prometeu foi que seriam: Eritis (Gên. 3,5), e este eritis, este sereis foi o que destruiu o mundo. Não está o erro em desejarem os homens ser, mas está em não desejarem ser o que importa. Uns desejam ser ricos, outros desejam ser nobres, outros desejam ser sábios, outros desejam ser poderosos, outros desejam ser conhecidos e afamados, e quase todos desejam tudo isto, e todos erram. Só uma coisa devem os homens desejar ser, que é ser santos. Assim emendou Deus o sereis do demônio com outro sereis, dizendo: Sancti eritis, quia Ego sanctus sum . O demônio disse: Sereis como Deus, sendo sábios; e Deus disse: Sereis como Deus, sendo santos. E vai tanto de um sereis a outro sereis, que o sereis do demônio não só nos tirou o ser como Deus, mas tirou-nos também o ser, porque nos tirou o ser santos, e o sereis de Deus, exortando-nos a ser santos, como ele é, não só nos restitui o ser como Deus, senão também o ser. Quando Moisés perguntou a Deus o que era, respondeu Deus definindo-se: Ego sum qui sum (Êx. 3,14): Eu sou o que sou — porque só Deus tem por essência o ser. Agora diz a todos os homens por boca do mesmo Moisés: Se sois tão amigos e tão ambiciosos de ser, sede santos, e sereis, porque tudo o que não é ser santo, é não ser. Sede rei, sede imperador, sede papa: se não sois santo, não sois nada. Pelo contrário, ainda que sejais a mais vil e mais desprezada criatura do mundo, se sois santo, sois tudo o que pode chegar a ser o maior e mais bem afortunado homem, porque sois como aquele que só é e só tem ser, que é Deus. Todo o outro ser, por maior que pareça, não é, porque vem a parar em não ser. Só o ser santo é o verdadeiro ser, porque é o que só é, e o que há de permanecer por toda a eternidade.”
in Sermão de Todos os Santos
5.2.07
Diálogos Imaginários
– A precisar de mandar vir mais da quinta, menino.
– Isto este ano está um gasto nunca visto.
– Estamos a perder o clima tranquilo que tínhamos. Mas não se preocupe que eu peço aos caseiros para enviarem mais uma camioneta.
– Obrigado Charles, sem lareiras fica mesmo insuportável estar nesta casa.
2.2.07
Publicidade institucional
1.2.07
1 de Fevereiro de 1908
Sugestão
Facilidades
Liberalizar o aborto será torná-lo, oficialmente, num método contraceptivo, apesar de hoje ser possível uma contracepção quase 100% segura (há, sempre, uma milionésima possibilidade de falhar). Há gravidezes indesejadas, é um facto, mas o que importa é perceber porquê e ajudar as mulheres a actuarem antes. Ou então ajudá-las a ter essa criança, criar-lhes condições para uma maternidade digna. Permitir o aborto, sem antes tentar evitá-lo, é seguir a via do facilitismo e da desresponsabilização do estado, e isso, para mim, é inaceitável. Agisse o estado assim noutros assuntos e poderíamos ter lojas de venda e injecção de heroína, um problema social e de saúde pública tal como o aborto, como forma de impedir o tráfico e as más condições de ingestão da droga. Seria fácil de executar, até se acabava com o tráfico, mas seria aceitável para a sociedade?
Contracepção
30.1.07
Sugestão
Import-Export
29.1.07
A questão real
28.1.07
Brava Dança dos Heróis
Cantemos alto nossa vitória”
Um sincero bravo para a nossa selecção de rugby que ontem ganhou a Marrocos, dando mais um passo no apuramento para a Taça do Mundo, apenas faltando ganhar ao Uruguai. Num país obcecado com o futebol, os feitos de uma selecção formada por amadores, num desporto sem tradição em Portugal, vão sendo esquecidos. Por isso convém lembrar esta Equipa, liderada por Tomaz Morais, que insiste em ganhar e está a um passo de um feito histórico.
27.1.07
Dúvida do dia
Agradecimento do dia
26.1.07
Mundo
Honestidades
25.1.07
Lisboa
Rabos-de-palha
Bestas
24.1.07
Versões
Leonard Cohen
“Dance me to your beauty with a burning violin
Dance me through the panic 'til I'm gathered safely in
Lift me like an olive branch and be my homeward dove
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love
Oh let me see your beauty when the witnesses are gone
Let me feel you moving like they do in Babylon
Show me slowly what I only know the limits of
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love
Dance me to the wedding now, dance me on and on
Dance me very tenderly and dance me very long
We're both of us beneath our love, we're both of us above
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love
Dance me to the children who are asking to be born
Dance me through the curtains that our kisses have outworn
Raise a tent of shelter now, though every thread is torn
Dance me to the end of love
Dance me to your beauty with a burning violin
Dance me through the panic till I'm gathered safely in
Touch me with your naked hand or touch me with your glove
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love”
Aqui ao lado interpretada pelo próprio e também na versão de Madeline Peyroux.
Anúncios
22.1.07
Conversas
Modas
"Assim Não"
19.1.07
História Curta
O Incrível
16.1.07
Frase do Dia
Aníbal e Maria Cavaco Silva em entrevista à SIC
Olivença
Idiossincrasias
A preocupação que me resta é o espectro da velhice que me assombra em tempos frios, e o medo de que a primavera não venha a ser suficiente para evitar que me torne num rezingão habitante de Lisboa a suspirar por serões provincianos o mais século dezanove que seja possível. Claro que não preciso de chegar à primavera e, no espaço de um ou dois dias, Lisboa volta a piscar-me o olho como o fez na passada sexta-feira, em que a tarde arrastou a impossibilidade de uma “magic-hour” de luz em que o tempo parecia ter feito pausa ao amanhecer apenas voltando a andar ao pôr-do-sol. Não é fácil de acreditar, mas apetecia sair de máquina fotográfica em punho e deambular pelas ruelas estreitas viradas ao rio e encher rolos e rolos com imagens impossíveis de uma cidade por vezes tão feérica que duvidamos da sua existência.
Que país!
Os dez primeiros são, dentro da restante anormalidade, um saudável oásis de sensatez, isto, é claro, se não nos importarmos que, em pleno século XXI, duas personalidades absolutamente anti-democráticas, duas faces da mesma moeda do Portugal recente, sejam incensadas e, pasme-se, considerados “Grandes Portugueses”. Nesta companhia até serão esquecidos os crimes perpetrados pelo eminente Marquês de Pombal, também ele nos dez primeiros. Os restantes serão mais consensuais, o que nem é o mais importante, mas pelo menos são escolhas aceitáveis, discutíveis como quaisquer outras, mas aceitáveis, a saber: D. Afonso Henriques, Aristides de Sousa Mendes, Fernando Pessoa, Infante D. Henrique, D. João II, Camões e Vasco da Gama. Não está mal, afinal sempre temos sete escolhas naturais em dez, já no restante…o melhor é até agrupar por categorias: os “delirantes” Maria do Carmo Seabra – por certo a irónica candidata da sempre activa FENPROF, Hélio Pestana – o auto denominado actor de novelas, Vítor Baía, Pinto da Costa – pretenso bandido, Catarina Eufémia, Mariza e Sousa Martins; os “obscuros” João Ferreira Annes de Almeida – padre luterano, Teixeira Rebelo – fundador do Colégio Militar, Adelaide Cabete, António Andrade – padre missionário; os “de grandes provas dadas” Cristiano Ronaldo, Ricardo Araújo Pereira e Mourinho; os “criminosos” Afonso Costa, Otelo e Vasco Gonçalves; os “enormes” políticos Sócrates, Pintassilgo, Jardim, Sampaio, Cavaco e Marcello Caetano. Enfim, uma amálgama de disparates, sobre valorizações e escolhas que, pensando bem, apenas se podem dever a uma fina ironia que desconhecia aos portugueses.
15.1.07
Aulas Estéreo
12.1.07
Memória
Claustro da Basílica do Bom Jesus, Velha Goa, 2004
A propósito da viagem presidencial à Índia, muito se tem falado de história, de nostalgia e de memória. Foi muito apreciado o distanciamento sobre o nosso passado por essas terras distantes. O que interessa agora é o futuro, as novas tecnologias e o Silicon Valley indiano. Neste país cada vez mais tecnocrático, o passado é coisa longínqua e a esconder, a esquecer em nome da eficiência e de uma suposta diplomacia económica que nos seja conveniente. O Portugal que se vem construindo faz por esquecer que, talvez por um acaso, a história de Portugal vai um pouco atrás e, imagine-se a lembrança, tem quase nove séculos.
O esquecimento da história nunca trouxe nada de bom, ignorar o passado em nome do futuro será sempre um redondo disparate pois nós, pessoas ou, no caso, países, somos um somatório de memórias que nos tornou o que somos hoje. Recusar olhar para trás, não numa romagem de saudade e autismo, mas numa compreensão de factos, acontecimentos e feitos, é recusar aprender com erros cometidos ou negligenciar uma identidade que é o alicerce mais forte de um país. Os estados, como as pessoas, não gostam de afrontamento directo, mas respeitam mais um aliado, ou amigo, que afirme a sua identidade e personalidade, do que uma entidade inócua que se lhes apresenta subserviente.
Portugal não devia, como é evidente, aproveitar a viagem à Índia para efectuar comícios sobre a invasão de Goa, Damão e Diu. Foi um acto de guerra evidente, que contrariou todo o direito internacional, mas não terá tido também o Estado Português, à época, uma atitude irresponsável e disparatada? Independentemente disso, o tempo passou e hoje Goa é parte inquestionável da Índia. O que não é admissível é que em Goa seja tão difícil manter as raízes de uma cultura indo-portuguesa que persiste em resistir, sem que o nosso Estado algo faça para ajudar. O que não é admissível é que Goa seja tido como um caso perdido, logo esquecido. Um país que não sabe conviver com as suas memórias é um país fraco, pouco respeitável, e na Europa, e mundo, da actualidade esse pecado poderá pagar-se muito caro em tempos futuros. Portugal pode ser um país de modernidade Socrática, mas para o ser não tem de esquecer a história que o fez ser um país de facto.
11.1.07
Versões
O sal das minhas lágrimas de amor
Criou o mar
Para nos unir e separar
Pudesse eu te dizer
A dor que dói dentro de mim
Que mói meu coração nesta paixão
Que não tem fim
Ausência tão cruel
Saudade tão fatal
Saudades do Brasil em Portugal
Meu bem, sempre que ouvires um lamento
Crescer desolador na voz do vento
Sou eu em solidão pensando em ti
Chorando todo o tempo que perdi
Modernidades
10.1.07
9.1.07
História Curta
Olhou o sol que caía através do vidro embaciado pelo ambiente aquecido. Agarrou o telefone, mas uma vez mais o medo ganhou a batalha. Mais um dia, mais uma vez em que a sua vida parou sem explicação aparente que não a cobardia.
8.1.07
Cantinho do Hooligan
Dores de Barriga
Os Gato Fedorento estiveram ontem particularmente divertidos, em especial com este “Baú da Memória” resgatado aos confins do arquivo da RTP. O sofá quase perdeu a estabilidade e a tosse que se seguiu parecia provir de dois maços de cigarros fumados. Não bastava a cantora Ana, com o seu deslumbrante fato de Vinil em Barcarena-Style, e o inefável Luís Pereira de Sousa, um dos chatos mais chatos, mas mesmo mais chatos da história da televisão portuguesa. A peça final, proveniente dos Açores, é uma pérola capaz de devastadoras consequências a quem a visualizar.











