21.3.07

Admirável Governo Novo – Saúde

O excelente Correia de Campos tem conseguido, com a sua enorme humildade e capacidade política, explicar com brilho as complexas medidas de fecho de urgências e centros de saúde. A subtileza é tanta que para até aproveitou para, por clara coincidência na fase de maior contestação, fazer aprovar em conselho de ministros a muito equilibrada e sensatíssima lei da proibição do fumo que consegue – finalmente – tratar os fumadores como delinquentes sociais que importa, a todo o custo, marginalizar.

Admirável Governo Novo – Agricultura

O ministro Jaime Silva destaca-se, ainda mais do que pelo maravilhoso conteúdo, pela forma adequada que usou para contactar com esse rude sector da sociedade que são os agricultores. O seu maior mérito foi ter conseguido criar uma total incompatibilidade com as pessoas mais essenciais na agricultura, os agricultores, proporcionando assim as melhores condições para gerir e planear este difícil sector.

20.3.07

Admirável Governo Novo – Educação

“Todo o dinheiro é pouco para a Educação” – dizia ontem Sócrates numa importante declaração que vai de encontro aos desejos do país, mais importante ainda quanto, finalmente, temos um governo que parece ter as prioridades bem definidas: é preciso investir na educação, investir muito mesmo, mas apenas nos grandes centros urbanos, pois o interior, onde continuam a fechar escolas, é algo a abandonar o mais depressa possível. Louve-se a grande coerência e visão estratégica da medida.
A educação é também a área onde o governo sofreu um infeliz revés, ao recuar na sua mais brilhante e visionária proposta, após disparatada contestação da grande parte da sociedade. A TLEBS era mecanismo fundamental para o programa de reeducação das nossas crianças, criando uma nova e moderna gramática, essencial à competitividade do país no estrangeiro e à adequada evolução da língua portuguesa.

Admirável Governo Novo

Passados dois anos podemos tecer grandes loas ao governo Sócrates. Reformismo, competência, modernidade, estas e muitas outras características que o governo tem passado como suas e fazem com que aos olhos dos portugueses este seja o melhor governo dos últimos anos. Um governo coeso, sem divergências, que fala a uma só voz, discreta pela escassez de vezes que Sócrates sai do seu resguardo. Regozijemo-nos com o privilégio de poder contar com tão Grande Timoneiro para um país à deriva. Nem as disparatadas manifestações de trabalhadores conseguem apagar a boa imagem e o bom trabalho, aliás, dizem que a última foi a maior manifestação de que há memória nos últimos anos, esquecem o magnífico dia de sol em que calhou, no qual as pessoas resolveram sair à rua e os números por certo foram inflacionados por populares que aproveitaram o facto das ruas estarem cortadas para passear pelo belo centro de Lisboa. Esquecendo a, aparente, contestação, a grandeza do governo é tanta que até justifica que se destaquem alguns dos mais importantes comandantes com que o Timoneiro pode contar para as diversas áreas de intervenção.

Clube de Destruição Sumária / Para o Próprio

Serão precisas palavras para descrever o que se passa no CDS/PP.

19.3.07

Escuro objecto de desejo

Que por mui generosa oferta me chegou ás mãos. Agora falta fazer parte do clube das balas para me sentir realmente moderno.

14.3.07

Mediocridade

Parece que se confirma o despedimento de dois Paulos, o Macedo e o Pinamonti, em mais um atestado de mediocridade do nosso Estado. Ninguém é insubstituível, mas não deixa de ser curioso que duas pessoas que se destacaram pela sua inegável competência sejam dispensadas. Podem ser muitos os motivos, mas numa Administração tão cheio de incompetentes é um enorme desperdício perder gente capaz de fazer um bom trabalho. Num caso invejas financeiras, no outro invejas artísticas, em ambos a recusa dos componentes do “Monstro” em aceitarem a competência.

Boa companhia para jantar


Katharine Hepburn

Ser agradável

«Ao olhar para o passado sinto que a nossa casa era de facto um lar feliz. Isso devia-se em grande parte ao meu pai, pois tratava-se de um homem agradável – qualidade, aliás, pouco significativa hoje em dia. Actualmente as pessoas interessam-se mais em saber se um homem é inteligente, se é trabalhador, se contribui para o bem-estar da comunidade, se ele “conta” no esquema geral. Charles Dickens, porém, trata esse assunto de uma maneira deliciosa em David Copperfield:
“– O seu irmão é um homem agradável, Peggotty? – inquiri cautelosamente.
– Oh! O meu irmão é um homem muito agradável! – exclamou Peggotty.”
Pergunte a si própria se a maioria dos seus amigos e pessoas conhecidas são agradáveis e ficará surpreendida por tão poucas vezes a sua resposta poder ser igual à de Peggotty.»

Agatha Christie in “Autobiografia”

12.3.07

Sábado glorioso

Uma luz quase obscena proibia a estadia em casa, o corpo pedia sol, enferrujado que estava pelo longo Inverno a que nós portugueses teimamos em não nos habituar. A praia era opção óbvia, nem que fora para uma estadia longa e dolente numa esplanada com o mar ao fundo, pilhas de jornais ou uma boa companhia. A opção foi contudo outra, uma vez que a Selecção Nacional de Rugby jogava a primeira-mão do apuramento para o Mundial contra o Uruguai.
Faz tempo que não ia ao Estádio Universitário e foi com enorme agrado que fiz por entre as sombras de belas árvores o caminho desde a Reitoria. Junto ás bilheteiras, e apesar de faltar uma hora para o jogo, já reinava grande animação, com grupos a aproveitarem a esplanada para almoçar e crianças, muitas crianças, a brincarem em redor, algumas delas ainda equipadas de um treino ou jogo de rugby já decorrido. Não parecia Portugal, definitivamente não parecia o Portugal que se fecha nos centros comerciais de onde apenas sai para a praia, não parecia o país em que os jardins estão vazios e onde é raro encontrar carrinhos de bebé a passearem ao ar livre. Havia calma e alegria no ar, uma tranquilidade de fim-de-semana e uma boa disposição obrigatória perante o sol radioso que brilhava por todo o lado e que tudo fazia brilhar.
O jogo aproximava-se e foi com surpresa que deparei com o estádio cheio, e que visão magnífica a de um estádio rodeado de belas árvores e de sebes bem aparadas, bancadas cheias, e a luz… Habituámo-nos aos estádios de betão, encaixados nas cidades, rodeados de prédios, com centros comerciais, mas aqui tudo é diferente. Claro que não tem a segurança necessária a jogos de futebol, mas até essa necessidade de segurança muito diz da diferença entre estes dois desportos. Um olhar pelas bancadas mostrava famílias inteiras, com as crianças a brincar junto ao relvado, sem qualquer fosso que os separasse do campo onde, minutos depois, iria decorrer o jogo.
A selecção entrou perante enorme ovação e o hino foi cantado a uma só voz em todo o estádio. Bonita recepção ao jogadores que durante o jogo mais do que fizeram por a merecer. O jogo foi equilibrado, em especial na primeira parte que acabou zero a zero, mas no segundo tempo os portugueses encheram-se da enorme garra que vêm mostrando e conseguiram dois ensaios, um deles concretizado, e a diferença de doze pontos. Seria uma excelente vantagem para a segunda mão, não fora um ensaio, não concretizado, dos uruguaios no último minuto. Os sete pontos são apertados, mas deixam esperança para a segunda mão em Montevideu, deixam esperança a uma selecção que merece a histórica oportunidade de ser a única selecção amadora a estar presente no Mundial.
O final trouxe uma pacífica invasão de campo e foi divertido ver os jogadores a darem autógrafos submersos por miúdos ou a ficarem junto ás bancadas a conversar com amigos ou família, tudo com enorme calma e familiaridade. Aqui respira-se desporto – competitivo, mas desporto – longe do espectáculo distante e inacessível de outras modalidades, cada vez mais indústrias com operários especializados pagos principescamente. Não tenho nada contra outros desportos, até segui para Alvalade para ver o Sporting contra o Estrela da Amadora, mas tudo aqui é diferente, e de uma diferença muito agradável.
Pedro Leal (2), David Mateus, Miguel Portela, Diogo Gama (5), Pedro Carvalho, Cardoso Pinto (Gonçalo Malheiro), Luís Pissarra (José Pinto), Vasco Uva, João Uva (Paulo Murinello), Juan Severin (Diogo Coutinho, 5), Gonçalo Uva, Marcello D’Orey (David Penalva), Joaquim Ferreira, João Correia e André da Silva.
Esta foi Selecção Nacional de Rugby que jogou no Sábado, treinada por Tomaz Morais, e que ganhou ao Uruguai. Estes, e outros que neste jogo não jogaram, formam um grupo que tornou uma selecção de terceira categoria numa equipa de nível tal que já ganhou o Torneio das Seis Nações B (o acesso ao outro é por convite), vários torneios e campeonatos de Sevens (rugby de sete) e que pode agora ser apurada para o Mundial. Todos são amadores, todos treinam com sacrifícios imensos para conseguirem conciliar empregos, famílias e o seu desporto, todos jogam com grande espírito de grupo, todos mostram um enorme amor à camisola. O desporto amador quando consegue ser competitivo é algo de magnífico e aqui o grande papel é do seleccionador Tomaz Morais que conseguiu transformar a nossa selecção numa selecção de campeões. Podemos até não conseguir o apuramento – o que seria injusto para o esforço da equipa – mas esta selecção, esta “Nossa Selecção”, está de parabéns pela atitude e, é preciso não o esquecer, pelo seu excelente rugby.

8.3.07

RTP

A gala de comemoração dos 50 anos da RTP, que ontem decorreu, foi um agradável regresso ao passado da televisão e, consequentemente, de nós mesmos. O estilo do espectáculo foi o mais genuíno RTP, ou seja, popularucho sem chegar ao quase kitch com que a TVI nos brinda nas suas galas. Houve uma certa dignidade muito própria da RTP, quer nos sóbrios cenários, quer na concepção geral do espectáculo. Não foi nenhum deslumbre, mas só o facto de relembrar os anúncios do “Leite de Colónia” ou do “Restaurador Olex”, a “Vila Faia”, o “Vitinho”, várias músicas da minha vida – a da “Heidi” e a do “Dartacão” – ou de aparecerem personagens que julgávamos desaparecidos em parte incerta – Eládio Clímaco é o melhor exemplo – já valeria a pena acompanhar o programa. Eu diverti-me muito e dei por mim a rir com um agrado cada vez mais raro, ainda que uma pontinha de nostalgia me fizesse pensar que o tempo passou e não foi só pela televisão.

6.3.07

Abandono

Este blog é discreto, mas ontem, ao abrir o Sitemeter e deparar com zero visitantes, achei que tinha sido abandonado pelos meus, poucos, leitores fiéis. Teria escrito algo que desse direito a tal indignação, a tal fuga em massa, a tal desprezo? Quase chorei, cheguei mesmo a ter o meu lenço de pano na mão, até que, num lapso de narcisismo e recusa perante a realidade, naveguei pelo Sitemeter em busca de uma qualquer explicação. O lenço foi guardado quando descobri que um servidor do site tinha dado o berro, suspendendo temporariamente o serviço. Fiquei de imediato mais bem disposto ao saber que afinal não tinha sido vítima de um trágico abandono, mas sim arrastado numa avaria informática com muito desagradáveis consequências.

Santa Comba e Estaline

Haverá ainda paciência para as discussões idiotas à volta de Salazar? Se há gente que quer fazer um museu em homenagem ao homem, não encontro razão nenhuma para que o não façam. O “Avante” existe e veicula ideias muitas vezes próximas do estalinismo, mesmo assim é aceite e seria considerada uma heresia censória que se tentasse acabar com ele. As gentes de Santa Comba simpatizam com Salazar e logo aparecem manifestações em nome de uma suposta liberdade, provavelmente organizadas por assinantes do dito jornal.
A mostarda chega-me cada vez mais facilmente ao nariz neste país em que os idiotas conseguem tempo de antena e põem à prova os meus instintos democráticos, tanta é a vontade de os meter na choldra para não maçarem mais. Era bom, se bem que utópico, que a populaça fosse educada a perceber que Salazar foi um ditador, é um facto, mas que o comunismo defende uma outra forma de ditadura, a do proletariado. Um e outro estão no mesmo exacto patamar para quem defende, de facto, a liberdade e a democracia, são ambos representações de regimes ditatoriais. Enquanto se julgarem por patamares diferentes as ditaduras, de direita ou esquerda, e os seus apoiantes não teremos sossego. E não chega o dia…

2.3.07

As palavras de…

Ferreira Fernandes in “Sábado”, 1 de Março de 2007.

“Estava a África do Sul a viver a sua viragem histórica, eleições com brancos e negros, quando me encontrei com um jovem admirável. Ele era branco, bei­rão e vivia em Durban, num bairro operário e negro. Aquela zona era zulu, uma minoria negra com um partido que se opunha ao ANC de Nelson Mande­la. No bairro, todas as manhãs apareciam cor­pos de xhosas e zulus, mortos a tiro e por vezes torturados. O meu jovem, que era mis­sionário, ensinava a ler nos dormitórios das fábricas e treinava uma equipa de futebol com os miúdos do bairro.
Eu tenho o que julgo ser uma reacção alérgica benigna. O que leva outros a terem erupções cutâneas por comerem camarão, a mim, perante um tipo admirável, põem­-se-me a brilhar os olhos. O rapaz viu. E en­tendeu que aquela homenagem se devia ao facto de eu o tresler. Onde eu via fraternida­de, o que o motivava era outra coisa: "Olhe que eu estou aqui por razões de fé."
Sorri e continuei com o brilhozinho nos olhos. Os caminhos do amor aos homens são insondáveis. A generosidade escreve di­reito por linhas tortas. O que quiserem. O jo­vem beirão tinha abandonado a sua terra e os seus, corria riscos e praticava o bem. O motor da sua humanidade, segundo ele, ali­mentava-se com uma gasolina que eu des­conhecia, a fé. Nas tintas. Para mim, o que era importante é que ele era dos meus. Des­culpem-me, desculpem-me, a presunção da frase anterior. O que eu quero dizer é que gostaria de ser dos dele.
Vai para aí uma polémica sobre um túmulo de Jesus que poria em causa alguns dog­mas do cristianismo. Ele não ressuscitou e teve um filho? Eis, mais uma vez, o que me deixa indiferente. O meu brilhozinho nos olhos por essa pessoa generosa e fraterna que foi Jesus Cristo – virado para todos os homens e não só para os eleitos, respeita­dor dos mais fracos, igualizador dos géne­ros, político moderníssimo ("Dar a César...") – continua cintilante. Seja, ele não foi Deus. Não me importa, tenho uma versão para ele ainda maior.”

Sobre a Goa de hoje

Ler em “A Vida em Deli”.

1.3.07

O fascismo está a chegar

O conselho de ministros aprovou a nova lei do tabaco.

A propósito de criadas

No Corta-Fitas decorre um importante polémica sobre criadas, assunto deveras inquietante e que, pelos vistos, gera revoltas graves em algumas pessoas. Como se dá a coincidência do meu livro de cabeceira ser a “Autobiografia” de Agatha Christie deixo aqui dois excertos a propósito:
“Duvido que hoje exista ainda uma verdadeira empregada doméstica. Existirão possivelmente algumas, entre as idades dos 70 e 80 anos, mas, fora disso, o que existe são diaristas, empregadas que parecem fazer-nos favores, ajudantes domésticas, governantas e encantadoras jovens que pretendem conciliar o ganho de algum dinheiro extra com um horário que lhes convenha e convenha também ás necessidades dos seus próprios filhos. São amadoras gentis; frequentemente tornam-se nossas amigas, mas é raro que inspirem o respeito com que olhávamos os nossos empregados domésticos de antigamente”
“Uma criança que passou algum tempo na nossa casa foi um dia surpreendida pela minha mãe a dizer a uma das suas empregadas: – Você não passa de uma empregada! – e foi de imediato severamente repreendida.
– Espero nunca a ouvir falar desse modo com uma empregada. Os empregados devem ser tratados com a maior cortesia. Fazem um trabalho especializado que não saberia fazer senão depois de longo treino. E lembre-se também que não podem responder do mesmo modo.”

28.2.07

Boa companhia para jantar

Claudia Cardinale

Lei-aborto

Ao longo da campanha do referendo do aborto ambos os lados foram moderando posições, com o “Não” a abrir portas a uma despenalização que não tornasse o aborto livre e o “Sim” a introduzir factores moderadores como o aconselhamento obrigatório da mulher. O “Sim” ganhou, mas de forma não vinculativa, o que não lhe retira legitimidade, mas deveria introduzir prudência e bom senso.
Ontem foi entregue a proposta de lei do aborto na Assembleia da República e nela, pasme-se, aparece o aconselhamento como facultativo e apenas a pedido da mulher. Aquilo que foi negado veementemente pelo “Sim” na campanha acabou por acontecer, o aborto passa a ser livre e sem qualquer restrição. O aconselhamento, agitado durante a campanha por eminentes personagens, foi afinal uma mentira para convencer indecisos. As criaturas que apresentaram a lei ainda conseguem o desplante de considerar esta proposta equilibrada e de consenso, algo que só com manifesta má fé se pode dizer. Se esta é uma proposta equilibrada, o que seria então uma proposta desequilibrada perante os resultados do referendo? Aborto aconselhado pelo estado para reduzir custos sociais de crianças nascidas pobres?
Perante tudo isto resta esperar que, numa expressão muito em voga, Cavaco tenha tomates para vetar esta lei. Eu, como pouco espero do homem de Boliqueime e penso que o local que mais o interessa é o próprio umbigo, não acredito. No entanto a ver vamos.

27.2.07

“Cartas de Iwo Jima”, o filme de Clint Eastwood sobre a guerra no ponto de vista dos japoneses, é uma obra-prima daquelas com que de modo cada vez mais raro somos brindados. A intensidade do filme, mantida ao longo de quase duas horas e meia, traduz a guerra sem artifícios, sem a demagogia do sofrimento ou a grandiloquência da memória, a guerra feita por pessoas simples, por muito que as causas que lhe dão origem transcendam os homens que a executam.
A visão da guerra de Eastwood é a dos códigos de honra e dos patriotismos, dos medos, das memórias de quem se deixou, feita de soldados humanos com as suas diferenças e individualismos. A guerra, as guerras, tendem a ser vistas como algo de distante, deliberado por políticos e governantes inacessíveis e executada por robots ao serviço de uma pátria. Habituámo-nos a ganhar um distanciamento televisivo da morte, a torná-la algo de aritmético e estatístico. Esquecemos a guerra como ela é por dentro, com toda a sua humanidade e idiossincrasia.
Não há guerras boas, como não há apenas soldados inimigos maus. Eastwood foca muito da sua visão da guerra neste ponto, o inimigo não é genericamente mau, assim como o americano não é totalmente bom. A guerra pode ter, consoante a visão, um lado que represente o bem e outro que represente o mal, mas não é formada por massas homogéneas de bem e de mal, facto tantas vezes esquecido numa visão simplista da história. Para Eastwood é claro o seu lado na guerra, assim como é clara a diferença de sociedades – bem expressa nos japoneses que estiveram nos E.U.A. –, mas a diferença não implica superioridade e tem raiz na incompreensão, no desconhecimento. Os soldados japoneses ao querer matar o prisioneiro americano não o faziam por pura maldade, mas por não o entenderem como um igual, como um ser humano como eles, na mesma situação que eles, com as palavras escritas para a mãe que eles também escreveram.
Iwo Jima é o exemplo de uma batalha imbecil, onde o destino estava traçado à partida e em que os códigos de honra e patriotismo levaram a uma enorme chacina de seres humanos de ambos os lados. Foi heróica a resistência dos japoneses, mas de um heroísmo sem sentido, pois a morte estava marcada a ferro no seu destino. As vidas foram usadas num combate de números, em nome de um pretenso golpe de marketing para outras batalhas. A insensibilidade com que as guerras são tratadas cria-nos um distanciamento frio, mas por vezes é com um simples filme de duas horas e meia que nos questionamos e que descemos à nossa condição humana, olhando o mundo com outros olhos e a guerra com uma proximidade quantas vezes esquecida.

Ainda há futuro para o grande cinema.


E tem 76 anos.

Parabéns


Ao José Nunes por um ano de “Os Dedos”.
Aos insurgentes por dois anos de “O Insurgente”.

26.2.07

Procura-se

Chegado por mail e a precisar de divulgação.

Diálogos Imaginários

– Charles, por favor traga champanhe.
– Com certeza, menino. Alguma celebração em especial?
– Claro que sim, Charles. Finalmente a Academia deu um Óscar a Martin Scorsese.
– Em hora boa, menino. Em hora boa.

23.2.07

Indignação selectiva

in Miss Pearls

“Há coisas que se vão aprimorando com os anos. Talvez seja melhor dizer que se vão "apurando" com a experiência. Soa bem e cai ainda melhor, dá outro ar e sempre gostei de eufemismos. Digo isto com alguma ironia, naturalmente. Mas não era sobre minudências pessoais que gostaria de escrever.
Estive hoje num grande armazém de pronto-a-vestir onde existem dois tipos de roupa : a cara e a caríssima. Inexplicavelmente, dirijo-me sempre para as etiquetas que ostentam os valores mais escandalosos. É inevitável. Não é um capricho, é uma visão cirúrgica. É um sexto sentido esmerado. É uma perda de tempo. É uma chatice.
Pode estar a três ou quatro metros, que graças a Deus vejo bem ao longe, mas lá está o casaco de três digitos ou a camisola de caxemira. Lá no íntimo, eu, muitas de nós, sabemos que aquilo que vemos, exactamente porque é diferente, há-de ser, digamos, uma ficção. Apesar disso, nada nos impede de o olhar e revirar. Em situações extremas damo-nos ao trabalho de o provar, o que por vezes é bom. Outras vezes não é tão bom assim. Uma mente precavida e uma carteira pouco recheada acaba sempre por encontrar algum defeito. Lá está, é bom. Já uma criatura com ego inflamado mas praticamente na penúria, sente de imediato a necessidade de devorar um chocolate inteiro. O que é mau: pela frustração e pela dose de calorias. Quem nunca sentiu este olhar apurado, esta temível inclinação para marcas inatingíveis e preços praticamente obscenos que levante o braço. Sou pessoa para lhe passar um certificado de "consumidora feliz".
E se nos voltarmos a cruzar com aquele casaco, pode ser que esteja enfiado numa sujeita a precisar de tirar o buço e uns quilos a mais. Afinal, o casaco não é tudo. Pois...”
.
Sim, reconheço, também sou um consumidor infeliz...

Desculpas voltam a atacar

Ferreira Fernandes in “Sábado”, 22 de Fevereiro de 2007

“Todos os dias se mata, todos os dias nos vamos habituando. Mas, um dia, há um morto es­pecial que nos lembra o absurdo da violência. O Brasil (o Bra­sil!, esse especialista do assun­to) vive, desde a semana passada, um momento desses. Começou banalmente num semáforo do Rio de Janeiro, onde pa­rou um Corsa. Dentro do carro, a conduto­ra, urna amiga, a filha da condutora, de 13 anos, e o filho, João Hélio, de 6. As notícias que marcam acumulam aqueles pormeno­res que, depois, nos alimentam a conversa. Aqueles acasos que, depois, nos servem para confirmar corno o destino tem um jeito que é só seu para dar para o torto. O garoto, sen­tado no banco de trás, usava o cinto de se­gurança, bom hábito tão raro no Brasil.
Continua-se no trivial: parada no cruza­mento, a condutora vê urna arma apontada e ouve a ordem para abandonar o carro. Saem todos. Quer dizer, nem todos. A con­dutora contorna o carro para libertar o fi­lho do cinto de segurança. Outro pormenor para alimentar conversa: nessa tarde, João Hélio tinha marcado o seu primeiro golo na escola. A mãe abre a porta, puxa o garoto mas o cinto de segurança atrapalha. Nessa altura, os bandidos - são três e muito jo­vens - já estão dentro do carro. Este arran­ca, João Hélio escapa dos braços da mãe, a porta fecha (a lei da inércia funcionou, a úni­ca que não falha no Brasil) e o miúdo fica do lado de fora, preso. Durante sete quilóme­tros vai espalhando partes de si pelas ruas.
Os bandidos sabiam que levavam um cor­po arrastado. Fazem ziguezagues corno quem se quer livrar de um estorvo. Mais do que a visão da cabeça do menino batendo no asfalto e na roda traseira, urna testemunha disse que nunca mais se esquecerá do deses­pero da irmã, gritando atrás do carro. Mais à frente, um motociclista alinha-se com o carro e faz sinal que arrasta um corpo. Os bandidos fazem-no desistir, apontando­-lhe urna pistola. Sete quilómetros da cida­de, bairros inteiros, botequins de esquina, um quartel de bombeiros, vêem o desfile macabro. Primeiro, julgando ser piada de mau gosto com boneco, depois, assustan­do-se com a lataria ensanguentada do car­ro. Enfim, o Corsa é abandonado numa rua tranquila. Outro pormenor, para dar pince­ladas à conversa: o primeiro polícia que che­ga ao local é um sargento, não é novato, mas, depois de olhar a massa informe em que se transformou o João Hélio, desata num choro, não consegue pedir socorro.
Os três bandidos: um tem 23 anos e já seis entradas e saídas da prisão, outro, 18 anos, e o outro, 16, ambos sem cadastro. Depois de abandonar o carro, foram jantar a casa e foram a urna festinha da igreja do bairro. No dia seguinte, o de 16 e o de 18 anos são presos. Depois, é preso o de 23, ir­mão do menor e chefe do gangue, que cos­tumava fazer estes assaltos.
Esse o caso que fez o Brasil assombrar-se. Emoção sentida, violinos baratos (os corte­jos de Carnaval fizeram minutinhos de si­lêncio e versinhos) e, inevitavelmente, a dis­cussão jurídica. Se, em vez daquele entra­-e-sai da cadeia do chefe do gangue, ele es­tivesse numa a sério e pelo tempo razoável que a sua insistência no crime pedia, não se teria poupado o João Hélio? Pergunta de­magógica, de acordo. Então, factos: o menor, aquele que apontou a pistola à condutora, ficará detido, no máximo, por três anos. O de 18 anos, mesmo que condenado ao má­ximo da pena, 30 anos, deverá ser solto ao fim de um sexto do cumprimento dela. Corno diz à revista Época, irónica: "Daqui a cinco anos, talvez esteja nas mesmas festi­nhas da igreja."
O Brasil tem das mais brandas legisla­ções penais para menores. Em Inglaterra, para falar do país que inventou o habeas cor­pus, um menor pode ser condenado à pri­são perpétua. Acontece que o Brasil está re­fém do seu arrependimento: em 1993, po­lícias mataram oito miúdos de rua, frente à igreja da Candelária, no Rio. Corno é que um país assim pode endurecer as suas leis para menores, sem ter as organizações in­ternacionais à perna?
A verdade é que o Brasil tem muitos fil­mes sobre pivetes, garotos de favela, adoles­centes da Cidade de Deus, filhos dos "capi­tães da areia" de Jorge Amado. A consciência pesada vende. Mas João Hélio, aposto, não vai dar filme.
Exagero? Então, oiçam. Na sexta-feira, o Presidente Lula foi inaugurar a maior cen­tral telefónica do mundo, em São Paulo. Seis mil empregos, quase tudo gente jovem. Lula falou para eles sobre o caso que abala o Bra­sil. Sobre João Hélio? Não. Sobre a necessi­dade de não ser demasiado emotivo com o condutor assassino: "Se a gente estivesse naquele lugar, o que a gente faria? Certa­mente nós faríamos quase a mesma barba­ridade que ele fez com aquela criança." Não tendo havido linchamento, estranha-se a prioridade das preocupações. Espalha-se massa encefálica de urna criança pelas ruas e ganha-se o Presidente corno advogado.”

Linha do Tua

José Pacheco Pereira in “Sábado”, 22 de Fevereiro de 2007

“Poucos sítios mantêm a paisagem natural rude e agreste, bela ao modo do "terrível", como os vales dos afluentes do Douro, rio de montanha rodeado por rios de monta­nha, que fizeram o seu leito cavando ro­chas e não espraiando-se por terras baixas irrigadas. O vale do Tua é um desses casos de beleza, ignorado, perdido, numa parte de Portugal que a maioria dos portugueses nem sabe que existe.
Mas, não tenhamos ilusões, a sua bele­za selvagem só tem uma explicação, a de não ter havido até agora nenhum negócio rapace que tornasse o vale numa selva de empreendimentos e as cumeadas em en­xames de eólicas. É natural que este seja o desejo dos locais, que precisam de empre­go, negócio, comércio e riqueza e que, como uma vez me disse um velho de um desses locais prístinos, "não percebo por­que gosta disto, são só montes, estamos fartos de só ver montes, que interesse têm?". A verdade é que, se for assim, nem o pouco que têm em potência vai sobrar em acto. Gastar-se-á em meia dúzia de anos. Porque o nosso problema é que pas­samos sempre do oito para o oitenta, do nada miserável do atraso para o novo-ri­quismo da combinação construção-turis­mo barato subsidiado-obras públicas.
E no meio do caminho da sua vida, como Dante à entrada do Inferno, lá continuará o vale do Tua, com a sua linha de "metro" que transporta meia dúzia de pessoas ao dia, de lado nenhum para lado nenhum, num sítio tão remoto e deserdado de tudo menos da beleza que nem um responsável dos comboios achou necessário ir lá para honrar os seus mortos, os mortos da em­presa que "gere". Retirado o último morto das águas, o silêncio voltará, se calhar tam­bém já sem o "metro" de Mirandela.”

21.2.07

Agradecimentos

Ao “O Acossado” pelo link e por um conjunto de grandes beijos do cinema. Como ontem, nem de propósito, estive num serão cinéfilo, aproveito para recomendar, como agradecimento, o “Scene It” TCM, o jogo certo para umas divertidas noites caseiras. Quanto ao cinema português..hum…ficará para outra oportunidade.

Boa companhia para jantar


Edda Kathleen van Heemstra Hepburn-Ruston a.k.a. Audrey Hepburn

19.2.07

Grande Mangueira!

DE: LEQUINHO, JÚNIOR FIONDA, ANIBAL E AMENDOIM DO SAMBA.
.
QUEM SOU EU?
TENHO A MAIS BELA MANEIRA DE EXPRESSAR
SOU MANGUEIRA... UMA POESIA SINGULAR
FUI AO LÁCIO E NOS MEUS VERSOS CANTO À ÚLTIMA FLOR
QUE ESPALHOU POR VÁRIOS CONTINENTES
UM MANANCIAL DE AMOR
CARAVELAS AO MAR PARTIRAM
POR DESTINO ENCONTRARAM O BRASIL...
NOS TRAZENDO A MAIOR RIQUEZA
A NOSSA LÍNGUA PORTUGUESA
SE MISTUROU COM TUPI TUPINAMBRASILEIROU
MAIS TARDE O CANTO DO NEGRO ECOOU
ASSIM A LÍNGUA SE MODIFICOU
.
EU VOU NOS VERSOS DE CAMÕES
ÀS FOLHAS SECAS CAÍDAS DE MANGUEIRA
É CHAMA ETERNA DOM DA CRIAÇÃO
QUE FALA AO PULSAR DO CORAÇÃO

.
CANTANDO EU VOU
DO OIAPOQUE AO CHUÍ OUVIR
A MINHA PÁTRIA É MINHA LÍNGUA
IDOLATRADA OBRA-PRIMA TE FAÇO IMORTAL
SALVE... POETAS E COMPOSITORES
SALVE TAMBÉM OS ESCRITORES
QUE ENRIQUECERAM ATUA HISTÓRIA
Ó MEU BRASIL...
DOS FILHOS DESTE SOLO ÉS MÃE GENTIL
HOJE A HERANÇA PORTUGUESA NOS CONDUZ
À ESTAÇÃO DA LUZ
.
VEM NO VIRA DA MANGUEIRA VEM SAMBAR
MEU IDIOMA TEM O DOM DE TRANSFORMAR
FAZ DO PALÁCIO DO SAMBA UMA CASA PORTUGUESA
É UMA CASA PORTUGUESA COM CERTEZA
.

16.2.07

Fim-de-semana imaginário

Check-in ao final do dia.

Hotel Danieli, Veneza

Banho retemperador e prova final nas fantasias entretanto chagadas ao quarto.

Hotel Danieli, Veneza

Saída para uma bebida antes do jantar.

Terraço do Café Quadri

Subida para uma mesa junto à janela para jantar.

Restaurante do Café Quadri

Passeio pelas ruas.



Baile de Máscaras em casa de amigos.

Boa companhia para jantar



Grace Kelly

Lisboa que anoitece...

Marques Mendes está a mostrar que a sua impoluta política em relação ás autarquias, vide Valetim Loureiro e Isaltino Morais, é como o Bartolomeu, tem Dias. Na câmara de Lisboa já tínhamos uma vereadora arguida por corrupção, agora temos quatro, digo bem, quatro vereadores arguidos por peculato, um dos quais é o vice-presidente que escondeu de todos, incluindo os restantes vereadores, que era arguido. O presidente – que de facto ainda não foi arguido de nada, mas pelo andar da carruagem não nos espantará que seja – continua impávido como se tudo isto fosse uma insignificância. Lisboa, essa, continua tristemente desgovernada.

15.2.07

Diálogos Imaginários

– Charles, com este dia medonho vou ficar por casa. Acho que me apetece um lanche reforçado.
– Com certeza, menino. Vou preparar uns scones, da receita da senhora sua mãe, para servir com compotas de framboesa e chá. Posso também fazer aquele pão-de-ló encruado no meio que o menino tanto gosta. Com o habitual chá e umas torradinhas com lemon curd.
– Perfeito, Charles. Aliás, tão perfeito que acho que vou dizer a uns amigos para se juntarem
– Muito bem, menino. Quando puder diga quantos são para poder arranjar a mesa.

Heróis do Blog


Jonathan by Cosey

Comboios

A trágica queda de um comboio na linha do Tua relembrou que ainda há gente que insiste, contra o Portugal moderno, em viver no interior. O acidente irá levar a muitas discussões e não será de estranhar que logo surjam vozes a pedir o encerramento da linha, exemplo aliás seguido em muitas outras linhas. Portugal tem desprezado o comboio como meio de transporte, apenas dando importância aos comboios urbanos. Quando toda a gente parece entrar em histeria com o aquecimento global, talvez fosse tempo de encararem seriamente a importância dos caminhos-de-ferro, um dos meios de transporte menos poluentes. Como os políticos lusos são inexoravelmente novos-ricos, as suas prioridades passam sempre pelo novo, pela “Obra”, por isso a sua obsessão com o TGV. Apesar disso não seria de todo má ideia olharem para os restantes comboios, os provincianos agradeceriam a preocupação e a lembrança da sua existência.

14.2.07

História

A forma como a propósito dos concursos dos portugueses – o melhor e o pior – se vão ouvindo os maiores dislates, leva a uma séria questão: deve a história ser análise ou um púlpito de opinião? O meu desprezo pelo salazarismo e por tudo o que ele representa enquanto ditadura está a ser posto em causa como nunca pensei ser possível. Isto por ver um branqueamento de toda a história de Portugal – em particular no século XX – em nome do linchamento público de Salazar. O homem tem muitíssimas culpas por muita coisa que aconteceu neste país, mas isso não faz com que todos os outros sejam modelos de virtudes.

Salazar

O documentário dos “Grandes Portugueses” sobre Salazar, ontem exibido, mostrou alguma da história que raramente se consegue ouvir neste país. Poucas vezes como ontem se falou tão claramente do início do Estado Novo e da situação absurda a que os ditadores jacobinos tinham levado o país. Hiato histórico ou buraco negro temporal, a 1ª República é referida amiúde como algo distante e benigno por ter posto termo à monarquia. Esquecem-se os anos de horror a que o país esteve sujeito, com uma ditadura de rua que cometeu os mais inomináveis crimes. Nada disto justifica aquilo em que se tornou o regime salazarista, mas que ajuda a perceber como ele surgiu, lá isso ajuda.

Democratas

A eleição do “Inimigo Publico” para o pior português de sempre foi bastante reveladora do espírito democrático dos seus organizadores. Até há pouco tempo a votação era liderada destacadamente por Mário Soares, a organização achou injusto – e será, de facto – e vai daí prolongaram a votação apenas com cinco nomes a concurso, a ver se conseguiam que Salazar ganhasse. Prova superada e lá ganhou. Curioso que os mesmos que seguiram este processo gozavam depois por ter sido a primeira eleição que Salazar ganhou. Irónico, pois Salazar não desdenharia decerto dos métodos por eles usados.

Erros

Não querendo ser picuinhas, parece-me que errar no nome de um actor que faz capa é algo estranho num jornal. No segundo número com uma imagem renovada, o “Público” resolveu chamar Artur Pimentel a Afonso Pimentel, a nossa “shooting star” no Festival Berlim. Para um jornal que se quer credível, errar numa capa é capaz de ser mais do que uma minúcia. Tendo em conta a radical mudança gráfica será caso para dizer que, como em tantos outros casos, a forma se sobrepôs ao conteúdo.

13.2.07

Espanto

A RTP2 passou ontem um documentário sobre o cinema português. Espanto perante a capacidade de falar durante uma hora de uma absoluta inexistência.

Elogio do Silêncio

A propósito da estreia comercial de “Into Great Silence” – “O Grande Silêncio”, de Philip Gröning, volto a publicar um post de Outubro de 2006, aquando a sua exibição no DocLisboa.

“A deslocação a um cinema para ver um documentário de cerca de três horas sobre a vida monástica dos cartuxos (a ordem de clausura com regras mais ascéticas) – filmado com som ambiente, luz natural e sem equipa técnica, que não o realizador, segundo regras estabelecidas pelo abade para, dezasseis anos após o pedido de Gröning, autorizar a entrada na Cartuxa – é experiência radical a que não aconselharia noventa por cento dos meus amigos. Tudo levava a imaginar um filme chatíssimo, e apenas uma conjugação de interesse artístico e religioso me levou aceitar a experiência. Sim, a experiência, porque é disso que o filme trata. A experiência de partilhar uma forma de vida exótica perante os padrões de vida de hoje em dia. Mais do que “entrar” no silêncio, entramos num mundo paralelo em que o tempo é conceito diferente, regrado e repetitivo, mas tranquilo.
A clausura sempre foi uma manifestação de fé que tinha grande dificuldade em compreender. O que levaria um ser humano livre a deixar-se reger por um regime de vida profundamente ascético e que tornava a sua existência um mero ritual repetitivo de oração? Porque motivo alguém escolhe, no mundo de hoje em que as liberdades são conhecidas por (quase) todos, uma vida em que o mundo é apenas uma existência física para lá de muros e paredes? O filme não procura esta resposta, como aliás não procura nenhuma resposta, seguindo o rigor jornalístico na forma com se “limita” a mostrar uma vivência, uma opção de vida, sem um julgamento moral ou social. Gröning não nos diz que esta reclusão, ou qualquer outra reclusão, é boa ou má, aceitável ou não, apenas nos mostra com crueza e rigor como é vivida essa reclusão. Claro que observar como é a vida de clausura nos permite ter o nosso próprio julgamento, não condicionado por ideias veiculadas no filme, mas sim pelo nosso julgamento perante a realidade que nos é mostrada. Ao ver como é a vida destes monges, consigo melhor perceber que assim consigam viver.
O silêncio é algo de que tendemos a esquecer o valor. Quantas vezes poderemos dizer que estamos, de facto, em silêncio? Hoje, a sociedade associa o silêncio à solidão, à tristeza, a uma fuga da realidade cada vez mais barulhenta e feérica, a uma fuga do mundo. Acredito que tudo isto se passe em cada monge que escolheu a vida da Cartuxa, apenas um factor não é semelhante, para eles o seu mundo não é o nosso mundo vulgar e comezinho, o seu mundo é o espiritual, e o “nosso” é apenas suporte físico intermédio numa relação permanente com o divino.
Será a clausura necessária para alguém poder dedicar a sua vida a Deus? Não creio, mas é uma forma como qualquer outra para alguém se encontrar consigo próprio e com Deus. Não será tão exótica esta opção de vida radical como será a dos hippies ou dos ciganos nómadas? Cada vez mais a sociedade nos manipula a acolher diferenças que se tornam politicamente correctas e que acabamos por ter de aceitar, porque não aceitar que alguém queira simplesmente ter o seu mundo sem incomodar ninguém?
Cinematograficamente o filme é interessantíssimo, pois mostra o enorme talento de Gröning para filmar em condições mais do que complicadas. Ele não podia utilizar as técnicas habituais, a sua câmara teria de ser crua e discreta, simples e sem artifícios. A beleza estética que resulta das imagens é impressionante, e há planos inesquecíveis, tais como as orações nocturnas acompanhadas por cantos gregorianos ou os primeiros planos frontais dos monges. Não obstante, o mais notável no filme é a forma como o mesmo é montado e com isso consegue criar uma lógica argumentativa. A montagem consegue tornar o filme surpreendentemente ritmado, criando um ciclo repetitivo de tempos, um ciclo nunca fechado, permanente. A sequência de imagens alterna imagens da vivência dos monges – rezando, comendo, cantando – com a natureza em redor – com a maravilhosa natureza em redor e as suas montanhas cobertas de neves ou ribeiros correndo na primavera. Gröning consegue, através de uma brilhante realização e de uma fabulosa montagem., criar uma quase-hipnose ao longo do filme da qual apenas somos despertados quando as luzes se acendem. No final do filme, a sensação é a de que de facto estivemos na “Grande Chartreuse” por tempo indefinido, há um tempo indefinido. Enquanto o filme dura esquecemos o mundo, o nosso mundo, e compartilhamos a experiência de espiritualidade vivida pela oração, por uma vida de constante oração."

12.2.07

Realidades

Comme d’habitude os meus pontos de vista foram derrotados nas urnas. Cada vez mais me é difícil ser incontestavelmente a favor da democracia e gostar de viver em Portugal. Pessoa errada no país errado. Coisas da vida a que temos de nos habituar.

Conservar ou fugir

Os resultados de ontem e, mais ainda, a sua interpretação tornaram-me ainda mais conservador. Ouvir dislates de como foi um passo para a modernidade e para os valores da Europa do século XXI fez-me tremer, não tanto pelas frases, mas pelo tom em que foram ditas e por quem. Se aquela gente representa a Europa moderna o melhor mesmo é fugir desta Europa enquanto é tempo.

Fair-play

Ontem foi triste, mas previsível, o saltar de alegre e genuíno radicalismo que o “Sim” conseguiu esconder durante a campanha. Há que saber perder, mas é talvez mais difícil saber ganhar.

Resultados

Não me interessam muito os motivos da vitória do “Sim”, nem discutir pormenores técnicos. O “Sim” ganhou com clara maioria num referendo não vinculativo, sobre isto haja bom senso nas consequências a tirar e legisle-se. Cá estaremos a acompanhar o processo legislativo, assim como estaremos a verificar os seus resultados. O tempo mostrará da validade dos argumentos sobre a diminuição do número de abortos, em especial os clandestinos, como reflexo da despenalização. Talvez um dia se volte a discutir o tema.

Civilização

A votação de ontem foi mais um passo no programa civilizacional de uma certa esquerda. Durante a campanha o assunto foi tratado com um inteligente e racional eufemismo, ontem se percebeu melhor, pelas reacções de vitória, o que estava em causa. Aguardemos então pela eutanásia, o casamento de homossexuais, a adopção por casais homossexuais, a liberalização das drogas duras, a proibição das touradas. Não há ingenuidade em todo este processo, há um jacobinismo ansioso por “libertar” o país da sua história e cultura naturais. Tudo o que possa, ainda que remotamente, cheirar a tradição ou igreja é um alvo a abater. Veremos qual vai ser a próxima batalha.

Humor radical

Lisboa tremeu num sinal dos céus contra a barbárie.

Pena não se poder espancar

Louça, em mais um arremedo do seu caso mal resolvido com a religião, veio afiançar que a vitória também era dos católicos. Como ingenuidade não é algo que se lhe atribua, a provocação mostra o nível da criatura. Nada que não se esperasse, o que é pena é ver tanta gente iludida com a benignidade do frustrado seminarista.

Tiro no pé

A introdução na última semana de campanha do tema da despenalização apesar do “Não” foi desastrosa. A proposta podia, ou não, ter pernas para andar, o que não podia era ser apresentada sem tempo a que fosse discutida e compreendida pelos eleitores. Percebe-se bem aqui a diferença entre ter partidos a coordenar campanhas ou movimentos de cidadãos bem intencionados.

Máxima do dia

Água mole em pedra dura tanto dá que já furou.

10.2.07

Herman e os Gatos

Herman José reaparece hoje com um programa de humor que vale a pena ver, mais não seja para perceber se o génio está morto ou apenas esteve hibernado. Hoje em dia é moda, e cai bem, dizer mal do Herman e endeusar o Gato Fedorento. Na minha opinião é ridículo ou, no mínimo, injusto. Os últimos anos de pura “rasquice” que foi o “Herman Sic”, em que a escolha dos convidados mais parecia uma audição para um “Carnivále” de quinta categoria e em que os momentos de humor eram, de modo geral, confrangedores, não devem deixar que a memória seja curta. O Herman aburguesou-se, mas basta lembrar alguns dos programas por ele feitos para logo nos deparamos com algum do melhor humor jamais feito em Portugal.
O “Tal Canal” foi um marco, uma lufada de ar fresco num país cinzento, com o “Diário de Marilú”, as crónicas de José Esteves, o “Jaquina Jaquina”, o “Cozinho para o Povo”, o Oliveira Casca, o Carlos Filinto Botelho, o menino Nelinho e a Sra. D. Palmira ou o grande Tony Silva. O “Hermanias” foi um seguidor natural e trouxe o cameraman “mas que é isto, é uma brincadeira ou quê” e o show do inenarrável Serafim Saudade com as suas hilariantes coreografias. Os programas de passagem de ano foram fantásticos e quem não se lembrará de “eu sou José Severino e sou pasteleiro…eu é mais bolos, salgados também, mas é mais bolos…”, do “batem leve, levemente, como quem chama por mim, fui ver era o Ovário…a assunção tema tabu…não, eu queria dizer Octávio, o meu primo Octávio, mas enganaram-se na tipografia”, ou as versões de músicas conhecidas com letras delirantes. O talento do Herman está espelhado na forma como conseguiu tornar o mais chato dos concursos, a Roda da Sorte, num programa do mais louco e desbragado humor. Como esquecer os momentos com Vítor Peter (Oh! Ivone. Oh! Ivone. Oh! Ivone. Good bye my love) ou o programa final, com Herman a disparar, de carabina em punho, estúdio fora, destruindo electrodomésticos e todo o cenário. O Humor de Perdição trouxe as entrevistas históricas a Florbela Espanca “ó filho faz-me qualquer coisa”, a Camões “Uh! Uh! Tens filhas, tens filhas. Traz também. Uh!” e à Rainha Santa Isabel que de tão polémica levou ao fim do programa. O mais sofisticado “Casino Royal” foi talvez o seu trabalho mais incompreendido, mas ainda assim com muitos momentos de grande qualidade. A Herman Enciclopédia, com fases menos felizes, tinha ainda assim personagens fabulosas como o Mike e Melga ou o Diácono Remédios e a sua mãe Rute Remédios.
Os Gatos já fizeram sketches realmente excelentes, mas basta o programa do último Domingo – em o que apenas me arrancaram um leve sorriso – para perceber que o caminho para que possam ser comparados com o Herman é ainda longo. O pior é que os Gatos, além de estarem a esgotar a sua imagem em incessantes anúncios à PT – percebe-se que o dinheiro compra muita coisa e afinal Herman não foi o único a pensar assim –, estão a adquirir tiques de vedetas, em especial o Ricardo Araújo Pereira, para os quais ainda não têm estatuto. Com tudo isto não quero dizer que os Gatos são maus, muito antes pelo contrário, mas acho que só a falta de concorrência que vão tendo por este país os torna umas vedetas incontestáveis e isso só os pode prejudicar, a eles e a nós que podemos perder um grupo que tem de facto, ainda que nem sempre, muita graça.

9.2.07

Agenda em dia

Nesta minha mania autista de achar que este blog é uma abstracção, a que só eu tenho acesso, vou esquecendo respostas a mails recebidos, agradecimentos devidos e referências necessárias:
Obrigado então ao Esturrico pelo link – com a promessa de envio de algumas receitas –, ao José Nunes pelo trabalho que tem tido na tentativa de acabar com o aborto pedagógico da TLEBS e à Giovanna Vilela pelo simpático mail vindo de terras brasileiras.
Aplausos ao regresso, ainda que tímido, do Contra a Corrente.
Desculpas ao Carlos José Teixeira pelo atraso na resposta atempada ao seu mail.

Heróis do Blog

Martin Milan, by Godard

8.2.07

Prioridades

”Uns valorizam mais a liberdade da mulher (em abortar e em fazê-lo de forma segura) enquanto outros valorizam mais a vida que está dentro dela.
Dentro dos primeiros, há os que valorizam mais a liberdade da mulher por a considerarem um valor superior à vida do feto, e os que valorizam mais a liberdade da mulher por considerarem pura e simplesmente que não existe vida humana no feto. Dentro dos segundos, há os que valorizam mais a vida do feto porque a acham uma vida humana como qualquer outra vida humana; e há os que, não atribuindo à vida do feto o mesmo valor que atribuem à vida de um ser humano nascido, ainda assim, consideram-na mais valiosa que a liberdade da mulher (em abortar e em fazê-lo de forma segura).
Qualquer uma destas posições é politicamente legítima. Independentemente dos conhecimentos sobre medicina, física, ética, filosofia, lógica, matemática, direito ou trabalhos manuais que cada um tenha, qualquer uma destas posições é politicamente legítima. Por isso há debate, discussão, campanhas, urnas, votos, referendo. Por isso, todas as pessoas com mais de 18 anos têm o direito de, no próximo domingo, riscar uma cruz num quadrado.
Um referendo não é uma sondagem de opiniões. A decisão que vai ser tomada dia 11 é uma decisão política. Não num sentido partidário ou sequer ideológico, mas uma decisão política na mais nobre acepção do termo: deve ou não o Estado (o poder público, a comunidade politicamente organizada) continuar a proteger a vida do feto? Deve ou não o Estado, em nome dessa protecção, limitar a liberdade da mulher?”

Ficamos à espera

A Câmara Municipal de Salvaterra de Magos está a ser investigada pela Polícia Judiciária por indícios de corrupção. A notícia tem passado discreta, algo normal pois vamos estando habituados a que isto aconteça no nosso impoluto poder autárquico. Falta no entanto a habitual reacção indignada dos paladinos da honestidade e da rectidão. Será por ser a única Câmara do Bloco?

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Parabéns ao Corta Fitas por um ano de existência, ao longo do qual se tornou habitual destino de visita.

7.2.07

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Mikonos, Grécia, 2004

Over the Rainbow

Eva Cassidy em concerto no Blues Alley.
Uma das minhas vozes favoritas numa versão comovente de Over the Rainbow.

Prece

Senhor, a noite veio e a alma é vil.
Tanta foi a tormenta e a vontade!
Restam-nos hoje, no silêncio hostil,
O mar universal e a saudade.

Mas a chama, que a vida em nós criou,
Se ainda há vida ainda não é finda.
O frio morto em cinzas a ocultou:
A mão do vento pode erguê-la ainda.

Dá o sopro, a aragem — ou desgraça ou ânsia —,
Com que a chama do esforço se remoça,
E outra vez conquistaremos a Distância —
Do mar ou outra, mas que seja nossa!

Fernando Pessoa, “Mensagem”

6.2.07

Padre António Vieira


Nascido a 6 de Fevereiro de 1608.

“A mais poderosa inclinação e o mais poderoso apetite do homem é desejar ser. Bem nos conhecia este natural o demônio, quando esta foi a primeira pedra sobre que fundou a ruína a nossos primeiros pais. A primeira coisa que lhe disse e que lhe prometeu foi que seriam: Eritis (Gên. 3,5), e este eritis, este sereis foi o que destruiu o mundo. Não está o erro em desejarem os homens ser, mas está em não desejarem ser o que importa. Uns desejam ser ricos, outros desejam ser nobres, outros desejam ser sábios, outros desejam ser poderosos, outros desejam ser conhecidos e afamados, e quase todos desejam tudo isto, e todos erram. Só uma coisa devem os homens desejar ser, que é ser santos. Assim emendou Deus o sereis do demônio com outro sereis, dizendo: Sancti eritis, quia Ego sanctus sum . O demônio disse: Sereis como Deus, sendo sábios; e Deus disse: Sereis como Deus, sendo santos. E vai tanto de um sereis a outro sereis, que o sereis do demônio não só nos tirou o ser como Deus, mas tirou-nos também o ser, porque nos tirou o ser santos, e o sereis de Deus, exortando-nos a ser santos, como ele é, não só nos restitui o ser como Deus, senão também o ser. Quando Moisés perguntou a Deus o que era, respondeu Deus definindo-se: Ego sum qui sum (Êx. 3,14): Eu sou o que sou — porque só Deus tem por essência o ser. Agora diz a todos os homens por boca do mesmo Moisés: Se sois tão amigos e tão ambiciosos de ser, sede santos, e sereis, porque tudo o que não é ser santo, é não ser. Sede rei, sede imperador, sede papa: se não sois santo, não sois nada. Pelo contrário, ainda que sejais a mais vil e mais desprezada criatura do mundo, se sois santo, sois tudo o que pode chegar a ser o maior e mais bem afortunado homem, porque sois como aquele que só é e só tem ser, que é Deus. Todo o outro ser, por maior que pareça, não é, porque vem a parar em não ser. Só o ser santo é o verdadeiro ser, porque é o que só é, e o que há de permanecer por toda a eternidade.”
in Sermão de Todos os Santos

5.2.07

Diálogos Imaginários

– Charles, como estamos de lenha para a lareira.
– A precisar de mandar vir mais da quinta, menino.
– Isto este ano está um gasto nunca visto.
– Estamos a perder o clima tranquilo que tínhamos. Mas não se preocupe que eu peço aos caseiros para enviarem mais uma camioneta.
– Obrigado Charles, sem lareiras fica mesmo insuportável estar nesta casa.

Calistice do dia

2.2.07

Publicidade institucional

Por entre praticantes de Tai-Chi, e acompanhado por uma comitiva de jornalistas, o engenheiro Sócrates passeou o seu estilo moderno em mais uma demonstração de jovialidade, ao brindar a manhã chinesa com o seu jogging. Muito bem, afinal já é a sua imagem de marca. O que não se percebe é que, num acto tão bem encenado, apareça com uma camisola azul escura com um enorme símbolo branco de uma empresa alemã, a Adidas. Ao optar por uma tão visível publicidade a uma marca estrangeira deixa no ar dúvidas que não são adequadas ao cargo que ocupa. Será que se trata de um patrocínio?

1.2.07

1 de Fevereiro de 1908

99 anos sobre um duplo assassinato. Para quem conhece a história que lhe sucedeu e os anos de medieval atraso - ao abrigo da suposta vanguarda - da primeira república, uma dupla tragédia: o crime per si e os crimes que se lhe seguiram.
Ver também aqui e aqui.

Sugestão

A emissão de “Portugal de…”, com Vasco Pulido Valente. Disponível, graças ás novas tecnologias, em http://multimedia.rtp.pt/ . Claramente a ver.

Facilidades

O caminho fácil quase nunca é o melhor caminho, por isso tornar o aborto livre não é a melhor forma de resolver o problema. Assim como uma doença psíquica não se cura só com drogas, que apenas mascaram o problema sem o resolver de facto, o problema das gravidezes indesejadas não se resolve com o aborto, apenas se remedeia.
Liberalizar o aborto será torná-lo, oficialmente, num método contraceptivo, apesar de hoje ser possível uma contracepção quase 100% segura (há, sempre, uma milionésima possibilidade de falhar). Há gravidezes indesejadas, é um facto, mas o que importa é perceber porquê e ajudar as mulheres a actuarem antes. Ou então ajudá-las a ter essa criança, criar-lhes condições para uma maternidade digna. Permitir o aborto, sem antes tentar evitá-lo, é seguir a via do facilitismo e da desresponsabilização do estado, e isso, para mim, é inaceitável. Agisse o estado assim noutros assuntos e poderíamos ter lojas de venda e injecção de heroína, um problema social e de saúde pública tal como o aborto, como forma de impedir o tráfico e as más condições de ingestão da droga. Seria fácil de executar, até se acabava com o tráfico, mas seria aceitável para a sociedade?

Contracepção

Ouvi Joana Amaral Dias acusar o “Não” de nada ter feito no apoio a políticas contracepção. Gostaria de lembrar que este governo do PS – esmagadoramente a favor do “Sim” e com maioria absoluta – não só não avançou com medidas visíveis neste combate, como deixou esgotar a pílula do dia seguinte nos centros de saúde do país. Realmente com esta ajuda do estado é normal que as mães, especialmente as mais carenciadas e com menos recursos, não consigam evitar algumas gravidezes.

30.1.07

Sugestão

Não se arranja um espacinho para levar o frio que cá está na comitiva da visita oficial à China?

Import-Export

Primeiro a Índia, agora a China, qualquer dia Portugal em vez de exportar produtos vai exportar os próprios empresários, com tal intensidade de viagens ainda decidem não voltar.

29.1.07

A questão real

Por muitos eufemismos que se queiram usar, convém as pessoas assumirem, e perceberem, aquilo que está, de facto, em causa no próximo referendo: autorizar o aborto livre até ás dez semanas. Nem mais, nem menos. Por muito que a pergunta fale de “Interrupção Voluntária” ou “vontade da mulher” e a campanha do “Sim” insista em usar subterfúgios, o que está em causa – seja em termos políticos, constitucionais, jurídicos ou legislativos – é a legalização, de facto, do aborto até ás dez semanas. Sem mas. Até porque qualquer referendo tem por trás uma lei e é isso que esta lei prevê. Todos os jogos florais em torno disto são apenas reflexos de má consciência ou consciência de que para ganhar o referendo é preciso que não se perceba bem o que está em causa. O voto no referendo deve ser uma resposta a esta pergunta concreta, sem mais.

28.1.07

Brava Dança dos Heróis

“Dos fracos não reza a história
Cantemos alto nossa vitória”

Um sincero bravo para a nossa selecção de rugby que ontem ganhou a Marrocos, dando mais um passo no apuramento para a Taça do Mundo, apenas faltando ganhar ao Uruguai. Num país obcecado com o futebol, os feitos de uma selecção formada por amadores, num desporto sem tradição em Portugal, vão sendo esquecidos. Por isso convém lembrar esta Equipa, liderada por Tomaz Morais, que insiste em ganhar e está a um passo de um feito histórico.

27.1.07

Dúvida do dia

Acho que merece a pena abrir uma garrafinha de champanhe em honra da suspensão anunciada da bárbara TLEBS, apenas oscilo entre um Veuve Clicquot e um Taittinger.

Agradecimento do dia

A festa de ontem da Atlântico esteve muito divertida, em particular graças à excelente música que foi passando ao longo da noite. Por lá andei, anónimo como sempre, entre muitos bloggers conhecidos e outros não identificados. Daqui vai um agradecimento à organização, porque ouvir boa música na noite de Lisboa vai sendo cada vez mais raro.

26.1.07

Mundo

Quando ontem saí do cinema, após ver “Diamante de Sangue” de Edward Zwick, senti, como em demasiadas vezes, um niilismo perante o mundo e um desespero ante a realidade. O filme conta uma história em redor do tráfico de diamantes na Serra Leoa, que em muito suportava uma mais do que sangrenta guerra civil. O que choca no filme não é tanto esta amoralidade comercial, o que impressiona é a forma realista como a guerra civil é contada e como somos postos perante um problema que muitos desconhecemos e que talvez tenhamos feito por ignorar. Na nossa Europa, da civilização dita moderna, criamos noções que não são reais e tendemos a achar que o resto do mundo está longe e se está a civilizar a pouco e pouco. Logo aos primeiros minutos de filme todos estes conceitos desaparecem e a realidade da guerra não convencional aparece. Trata-se de um filme, mas é evidente que as situações descritas, ainda que ficcionadas, se baseiam em factos reais. Ao ver crianças de metralhadora em punho a exterminar mulheres e outras crianças sem motivo que não seja uma demonstração de força, rebeldes cortando braços para impedir que o povo vote, enforcamentos públicos e assaltos devastadores a aldeias, ficamos com a certeza que o Homem é problema sem solução. A falta de valorização da vida, e consequentemente a facilidade da morte, aproxima o Homem da animalidade bruta e com ela da total irracionalidade. Falar de valores, sejam eles quais forem, será um luxo na África pobre, mas quantas vezes os exemplos dos países ditos civilizados não são tão maus, ou piores, do que as consequências práticas nos países africanos. Não se vislumbram soluções, nem as haverá, por isso saí do cinema com o desespero da impotência, com o desânimo da incredulidade perante o Homem, com a certeza de um mundo que quer acabar. Felizmente resta-me a Fé, que chama a lembrar a esperança, e realmente só com ela é possível viver no mundo de hoje.

Honestidades

Não deixa de ser curioso que neste país o fascismo ainda seja considerado pior do que o comunismo. Não sei se por falta de cultura histórica, “fascista” é um insulto e “comunista” um elogio de coerência. Isto a propósito do inefável Daniel Oliveira e da deputada Helena Pinto referirem, muito indignados como é costume no Bloco, blogs ditos fascistas que linkam para blogs de apoio ao “Não” no referendo e de usar isso como honesto argumento para a discussão. O disparate começou na campanha para o referendo e a partir de agora teme-se o pior.

25.1.07

Scoop

“Eu nasci crente na religião Hebraica, mas converti-me ao Narcisicmo.”
by Woody Allen

Lisboa

Na Câmara de Lisboa a coisa promete, já vamos com dois vereadores e um director de serviço na condição de arguidos de um processo de corrupção. Para uma justiça habitualmente lenta e reverente perante o poder, esta operação é notícia. Resta a dúvida se ficará por aqui ou se mais gente será arrastada para a investigação, até porque processo deixa ainda algumas questões, como por exemplo o porquê do encontro de Carmona Rodrigues com Domingos Névoa – já depois de ter conhecimento da tentativa da parte deste de subornar José Sá Fernandes – ou os simultâneos assaltos à casa e escritório de Ricardo Sá Fernandes. Convém ainda lembrar que o regresso de Santana Lopes à Câmara, após a sua passagem pelo governo, coincidiu com o fecho do negócio da Feira Popular. Será que como diria uma eminente escritora: “Não há coincidências”?

Rabos-de-palha

A questão dos rabos-de-palha ofendeu muito o primeiro-ministro e suscitou grande discussão com Marques Mendes. Curiosa a curta memória que leva à grande segurança de negar os ditos rabos, basta lembrar Isaltino Morais (PSD), Fátima Felgueiras (PS) ou o actual caso Bragaparques (PSD). Estes pelo menos são seguros, e ainda há com certeza mais. Os dois grandes partidos sabem que medidas reais contra a corrupção irão afectar ambos, e muito, por isso Cravinho, que tentou ter boas intenções, será, como o debate de ontem já deu a entender, posto tranquilamente de parte para que tudo fique na mesma.

Bestas

Descobri ontem que um instituto do estado – Instituto da Droga e Toxicodependência – andou a perguntar a crianças de onze anos pormenores sobre a vida sexual dos seus pais. Espanta que haja criaturas capazes de fazer perguntas destas a quem quer que seja, pois creio que todos nos esforçamos ao longo da vida por achar os nossos pais seres assexuados. Além disso tenho a ideia que aos onze anos o sexo era palavra que ouvia em alguns filmes mas cujo significado desconhecia, quanto mais saber o que eram “relações sexuais consentidas ou com violência”. Sócrates foi veemente a criticar, no que não fez mais do que a sua obrigação, e ordenou um inquérito, que não tenho dúvidas de que será feito, agora tenho a infeliz certeza que estas bestas não serão despedidas como seria óbvio.

24.1.07

Versões

Dance Me To The End Of Love
Leonard Cohen

“Dance me to your beauty with a burning violin
Dance me through the panic 'til I'm gathered safely in
Lift me like an olive branch and be my homeward dove
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love
Oh let me see your beauty when the witnesses are gone
Let me feel you moving like they do in Babylon
Show me slowly what I only know the limits of
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love
Dance me to the wedding now, dance me on and on
Dance me very tenderly and dance me very long
We're both of us beneath our love, we're both of us above
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love
Dance me to the children who are asking to be born
Dance me through the curtains that our kisses have outworn
Raise a tent of shelter now, though every thread is torn
Dance me to the end of love
Dance me to your beauty with a burning violin
Dance me through the panic till I'm gathered safely in
Touch me with your naked hand or touch me with your glove
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love”

Aqui ao lado interpretada pelo próprio e também na versão de Madeline Peyroux.

Anúncios

O estimado Impensável, em mais uma crise de Bergmanite aguda, publica um interessante anúncio ao sabonete Bris, realizado por Ingmar Bergman. Vindo de quem sempre teve a capacidade de transmitir nos seus filmes um enorme mal-estar com tão poucas palavras, a tentativa de vender sabonetes causa alguma estranheza. Apesar disso, e da língua incompreensível e tão tendente a causar depressão intensa, o anúncio é muitíssimo curioso. Apetece responder, mas como hoje o dia até está de sol, e a neura não aparenta querer fazer uma visita, aqui vai a lembrança de um magnífico anúncio português, também com alguns anos, já tornado um verdadeiro clássico.

22.1.07

Conversas

A discussão estava viva, com todos muito participativos e opinativos sobre o tema água. Não, o tema não era a privatização das águas, era a água propriamente dita, a que nós bebemos, supostamente incolor, inodora e insípida. Argumentava-se a favor das Pedras, ou das estrangeiradas Perrier ou San Pelegrino, ou da diurética e clássica Luso. Talvez um pouco maçada com o pretensiosismo de alguns – que insistiam que em Portugal não se podia beber água –, talvez farta do barulho que se levantava, a senhora mais respeitável da sala tossiu levemente, para que, como é evidente, não tivesse de erguer a voz, e disse: “Eu água só mesmo a do cântaro, vem ali da fonte, o cântaro fica na cozinha junto à pedra a refrescar e é a única água que bebo.” Como é fácil de perceber a discussão parou e voltaram apenas a exercer a habitual má-língua.

Modas

Tenho deparado, com visível agrado, com o facto de o espumante (ou champagne, nalguns casos) estar na moda, seja como acompanhamento ás entradas, seja ao longo de noites longas. Sabe bem variar das bebidas destiladas e optar por soluções mais leves e menos comprometedoras, mais frescas, apesar do frio lá fora, porque o calor das casas – em muitos casos demasiado, por excessivo zelo das donas da casa preocupadas com eventuais constipações dos seus convivas – torna o fresco simpático.

"Assim Não"

O Professor Marcelo criou um site para defender o "Não" no referendo cada vez mais próximo. Já nos links das Causas.

19.1.07

História Curta

Entrou fechando a porta com a subtileza de quem sabia que as horas eram tardias. Com calma foi até à sala, saudando a mulher e verificando que os filhos já estavam deitados. Falou com uma voz melosa evitado olhar de frente, sabendo que os olhos por vezes traem a verdade e revelam traições.

O Incrível

Vasco Rato e Daniel Oliveira juntaram-se, sim, não é alucinação nem fomos invadidos por marcianos, estão os dois juntinhos num blog pelo “Sim” (sem link que não estou para lhes fazer publicidade). Perante este par, qualquer dúvida, que não tinha, sobre o destino do meu voto seria de imediato desfeita. Convém acrescentar que também lá estão outros pares improváveis como Helena Matos e Fernanda Câncio, Ricardo Araújo Pereira e Carlos Abreu Amorim, Miguel Vale de Almeida e Maradona. Fica a dúvida, irão encontrar-se alguma vez ao vivo?

16.1.07

Frase do Dia

“Não gosto de comida picante…temo-nos alimentado a arroz branco. Arroz e pão, pão indiano. E também iogurte.”
Aníbal e Maria Cavaco Silva em entrevista à SIC

Olivença

A 31 TV está em grande forma e oferece-nos esta semana a tomada de Olivença pelos Vaders. O que me causou estranheza foram as directas relações desta actividade com um conhecido banco português que – de forma sub-reptícia, mas facilmente verificável – patrocinou esta surtida, apresentado o seu espaço publicitário na bandeira nacional. Ou será que esta é já uma proposta para a nova bandeira de Olivença-BES?

Idiossincrasias

Quando o Inverno assenta arraiais, os jantares mais agradáveis são, sem qualquer dúvida, os caseiros e provincianos. Apesar de todos os atractivos de Lisboa, quando o frio se torna uma realidade a melhor maneira de o acompanhar é mesmo numa casa bem aquecida, em grupo restrito e sem bárbaros nas mesas ao lado para nos maçar. Não há o incómodo de conhecer novas gentes com as quais nos sentimos na obrigação de ser simpáticos, mesmo quando o seu interesse não é maior do que o da liga de Andebol da Albânia. Apenas nos rodeamos de velhos conhecidos com quem não precisamos de mais atenção do que a de não nos embriagarmos superando os limites do razoável.
A preocupação que me resta é o espectro da velhice que me assombra em tempos frios, e o medo de que a primavera não venha a ser suficiente para evitar que me torne num rezingão habitante de Lisboa a suspirar por serões provincianos o mais século dezanove que seja possível. Claro que não preciso de chegar à primavera e, no espaço de um ou dois dias, Lisboa volta a piscar-me o olho como o fez na passada sexta-feira, em que a tarde arrastou a impossibilidade de uma “magic-hour” de luz em que o tempo parecia ter feito pausa ao amanhecer apenas voltando a andar ao pôr-do-sol. Não é fácil de acreditar, mas apetecia sair de máquina fotográfica em punho e deambular pelas ruelas estreitas viradas ao rio e encher rolos e rolos com imagens impossíveis de uma cidade por vezes tão feérica que duvidamos da sua existência.

Que país!

O meu “mapling” de anteontem coincidiu com a apresentação dos cinquenta melhores portugueses, no que contribuiu para uma noite hilariante que suplantou o programa do “Gato Fedorento” que tinha passado antes. Quando o programa terminou, e desci à realidade depois de um filme surrealista, tive firme de vontade de chorar, ou de emigrar. Claro que votações destas não são para levar a sério, o povo gosta de concursos e ás vezes resolve, talvez pelo vício de estar sempre de telefone na mão, talvez por se lembrar dos anos em que não podia votar, dar a sua opinião sob a forma de diarreira votante. Fosse o povo uma entidade homogénea e de imediato teria de ser enviado para um psiquiatra, pois a lista final é, no mínimo, absolutamente esquizofrénica.
Os dez primeiros são, dentro da restante anormalidade, um saudável oásis de sensatez, isto, é claro, se não nos importarmos que, em pleno século XXI, duas personalidades absolutamente anti-democráticas, duas faces da mesma moeda do Portugal recente, sejam incensadas e, pasme-se, considerados “Grandes Portugueses”. Nesta companhia até serão esquecidos os crimes perpetrados pelo eminente Marquês de Pombal, também ele nos dez primeiros. Os restantes serão mais consensuais, o que nem é o mais importante, mas pelo menos são escolhas aceitáveis, discutíveis como quaisquer outras, mas aceitáveis, a saber: D. Afonso Henriques, Aristides de Sousa Mendes, Fernando Pessoa, Infante D. Henrique, D. João II, Camões e Vasco da Gama. Não está mal, afinal sempre temos sete escolhas naturais em dez, já no restante…o melhor é até agrupar por categorias: os “delirantes” Maria do Carmo Seabra – por certo a irónica candidata da sempre activa FENPROF, Hélio Pestana – o auto denominado actor de novelas, Vítor Baía, Pinto da Costa – pretenso bandido, Catarina Eufémia, Mariza e Sousa Martins; os “obscuros” João Ferreira Annes de Almeida – padre luterano, Teixeira Rebelo – fundador do Colégio Militar, Adelaide Cabete, António Andrade – padre missionário; os “de grandes provas dadas” Cristiano Ronaldo, Ricardo Araújo Pereira e Mourinho; os “criminosos” Afonso Costa, Otelo e Vasco Gonçalves; os “enormes” políticos Sócrates, Pintassilgo, Jardim, Sampaio, Cavaco e Marcello Caetano. Enfim, uma amálgama de disparates, sobre valorizações e escolhas que, pensando bem, apenas se podem dever a uma fina ironia que desconhecia aos portugueses.

15.1.07

Aulas Estéreo

Estranhei o silêncio de quase toda a nossa comunicação social sobre a última iniciativa do Bloco de Esquerda. Tão solícitos a acorrer aos sermões do camarada Louça ou ás indignações da camarada Drago, os jornalistas perderam oportunidade de dar relevo à nova iniciativa fracturante que visava modernizar o ensino, promovendo a essencial integração dos imigrantes. Numa brilhante ideia, cuja autoria ainda não foi atribuída, o BE propôs a aprovação pela Assembleia da República do dito “ensino multilingue”, permitindo que, em escolas que o desejassem, as aulas fossem leccionadas em estéreo, ou seja, em duas línguas ao mesmo tempo, com dois professores, em dois quadros, mas na mesma sala de aula. Assim, os alunos das minorias imigrantes poderiam aprender a história de Portugal em russo ou mandarim, ao mesmo tempo que os portugueses a aprenderiam em português, tudo na mesma sala de aula para promover a adequada integração. A medida é de tal forma genial que fico perplexo de não estar já implantada e mais ainda por a mesma ter sido chumbada na Assembleia da República. Realmente há coisas estranhas neste país.

12.1.07

Memória

Claustro da Basílica do Bom Jesus, Velha Goa, 2004

A propósito da viagem presidencial à Índia, muito se tem falado de história, de nostalgia e de memória. Foi muito apreciado o distanciamento sobre o nosso passado por essas terras distantes. O que interessa agora é o futuro, as novas tecnologias e o Silicon Valley indiano. Neste país cada vez mais tecnocrático, o passado é coisa longínqua e a esconder, a esquecer em nome da eficiência e de uma suposta diplomacia económica que nos seja conveniente. O Portugal que se vem construindo faz por esquecer que, talvez por um acaso, a história de Portugal vai um pouco atrás e, imagine-se a lembrança, tem quase nove séculos.
O esquecimento da história nunca trouxe nada de bom, ignorar o passado em nome do futuro será sempre um redondo disparate pois nós, pessoas ou, no caso, países, somos um somatório de memórias que nos tornou o que somos hoje. Recusar olhar para trás, não numa romagem de saudade e autismo, mas numa compreensão de factos, acontecimentos e feitos, é recusar aprender com erros cometidos ou negligenciar uma identidade que é o alicerce mais forte de um país. Os estados, como as pessoas, não gostam de afrontamento directo, mas respeitam mais um aliado, ou amigo, que afirme a sua identidade e personalidade, do que uma entidade inócua que se lhes apresenta subserviente.
Portugal não devia, como é evidente, aproveitar a viagem à Índia para efectuar comícios sobre a invasão de Goa, Damão e Diu. Foi um acto de guerra evidente, que contrariou todo o direito internacional, mas não terá tido também o Estado Português, à época, uma atitude irresponsável e disparatada? Independentemente disso, o tempo passou e hoje Goa é parte inquestionável da Índia. O que não é admissível é que em Goa seja tão difícil manter as raízes de uma cultura indo-portuguesa que persiste em resistir, sem que o nosso Estado algo faça para ajudar. O que não é admissível é que Goa seja tido como um caso perdido, logo esquecido. Um país que não sabe conviver com as suas memórias é um país fraco, pouco respeitável, e na Europa, e mundo, da actualidade esse pecado poderá pagar-se muito caro em tempos futuros. Portugal pode ser um país de modernidade Socrática, mas para o ser não tem de esquecer a história que o fez ser um país de facto.

11.1.07

Versões

Retomando as versões, aqui ao lado, para hoje proponho o fado “Saudades do Brasil em Portugal”, composto por Vinicius de Moraes e Homem Cristo, nas vozes de Amália Rodrigues e do próprio Vinicius de Moraes. O disco é o magnífico “Amália/Vinicius”, que mais não é do que a gravação de uma noite em casa de Amália com a presença, para além de Vinicius, de David Mourão Ferreira, Natália Correia e Ary dos Santos.

"Saudades do Brasil em Portugal"

O sal das minhas lágrimas de amor
Criou o mar
que existe entre nós dois
Para nos unir e separar
Pudesse eu te dizer
A dor que dói dentro de mim
Que mói meu coração nesta paixão
Que não tem fim
Ausência tão cruel
Saudade tão fatal
Saudades do Brasil em Portugal

Meu bem, sempre que ouvires um lamento
Crescer desolador na voz do vento
Sou eu em solidão pensando em ti
Chorando todo o tempo que perdi

Modernidades

O nosso moderno governo resolveu responder ao repto de Al Gore e iniciou o combate à poluição e aquecimento global. A grande medida, anunciada como salvadora e de enorme importância, foi tomada: os táxis passarão a circular apenas seis dias por semana. Muito bem senhor Engenheiro Sócrates, é realmente por aí que se deve começar, não desenvolvendo os decrépitos transportes públicos do país, curiosamente “públicos”, ou seja, dependentes directamente do Estado, mas sim imiscuindo-se num sector privado que presta serviços necessários aos contribuintes por inoperância dos ditos transportes públicos. Bravo!

9.1.07

História Curta

Olhou o sol que caía através do vidro embaciado pelo ambiente aquecido. Agarrou o telefone, mas uma vez mais o medo ganhou a batalha. Mais um dia, mais uma vez em que a sua vida parou sem explicação aparente que não a cobardia.

8.1.07

Cantinho do Hooligan

Atlético Clube de Portugal, fundado em 1942 como resultado da fusão entre o União Foot-ball Lisboa e o Carcavelinhos Football Clube.