31.5.07

Esquerda "Dandy"

Pinto de Sousa que se prepare, pois a esquerda começa a entender-se até nos pormenores mais improváveis. Atentemos em Jerónimo de Sousa e Francisco Louça aquando do debate parlamentar de hoje, vestindo blazers beijes quase dignos, não fora um certo problema no corte, de uma esplanada trendy da Côte d’Azur.

30.5.07

Saudades

A propósito deste post do Réprobo ataca-me um súbito ataque de saudades. Não que me possa intitular de Viriato, já que me não lembro de grandes contendas no meu ano salmantino, mas por recordar a magna “Plaza” onde todos os dias, como num ritual sagrado, passava fosse qual fosse o destino. Reparo na graça dos candeeiros, no estilo rebuscado dos canteiros e do lago, hoje inexistentes, e julgo ouvir a banda tocando um hino solene. Os rapazes lusos estariam decerto emocionados, reconhecidos pelo raro tributo das gentes de Castela. Tudo isto me traz saudade, essa palavra tão felizmente nossa, e faz pensar no post anterior: realmente o que teimamos nós em ver e gostar no nosso país? Acho melhor começar a amealhar uns trocos para a terapia que poderá ser necessária mais breve do que pensava.

29.5.07

Coisas de árvores

Aqui pelas lusas terras foram abatidos sem clemência cerca de 200 plátanos e jacarandás do jardim do Campo Pequeno. Não estava previsto em projecto, não foi discutido a tempo e foi apresentado como facto consumado.
Por terras espanholas o projecto para o Paseo del Prado em Madrid, da autoria do arquitecto estrela Siza Vieira e que previa a destruição de 900 árvores, foi atempadamente apresentado ao público, discutido e combatido, nomeadamente pela Baronesa Thyssen que ameaçou amarrar-se a uma árvore para impedir o seu abate. O arquitecto foi obrigado a descer do seu trono distante, contra vontade, e alterou o projecto poupando as árvores.
Nestas alturas questiono porque ainda vivo em Portugal e continuo, apesar de tudo, a gostar. Idiossincrasias minhas, é o que é.

28.5.07

Lembrete

O ministro Lino usou uma bela metáfora relacionada com o cancro no pulmão e consta que foi aplaudido pelo senhor Pinto de Sousa. Um certo ministro Borrego saiu do governo por causa de uma pequena anedota sobre hemodializados.

Coisas Bizarras

Dar por mim a ouvir Kim Wilde enquanto me abano na cadeira.

Democracias

O magnífico Chavez resolveu – em nome dos valores democráticos, como é evidente – fechar o maior canal privado de televisão da Venezuela. Esperam-se reacções indignadas dos agitadores do costume e manifestações organizadas pelo inefável Bloco. A não ser que desta vez vão discretamente fazer por esquecer resguardando-se no recato do lar, é que aos heróis tudo se perdoa, até a infâmia

A Taça é verde. Bravo!

O Estádio Nacional estava, apesar da falta de sol, magnífico como sempre.
A Taça é verde.
Pode ser Veuve ou Bollinger, desde que fresquinho.
Bravo!

A ler e reter

Sobre a taça e o Sporting.

24.5.07

Delírio

O mais assustador na demência obsessiva de Mário Lino não é um eventual desrespeito pela margem Sul e por quem lá vive, o que é delirante é o facto de o argumento usado funcionar em sentido contrário. A inexistência de infra-estruturas em redor de um aeroporto só facilitará a sua implantação, baixando o seu custo e promovendo ainda o desenvolvimento do “deserto”. Por isso fica a dúvida, terá sido Dão ou Douro?

23.5.07

Anúncio

“Político de grande envergadura, mas baixa estatura, procura emprego consentâneo com as suas habilitações. Resposta para a Rua de S. Caetano.”
Após a notícia da candidatura de Carmona Rodrigues este anúncio será divulgado a curto prazo.

Terá enlouquecido?

O ministro Mário Lino apresentou hoje um argumento definitivo em favor da Ota: «O que eu acho faraónico é fazer o aeroporto na Margem Sul, onde não há gente, onde não há escolas, onde não há hospitais, onde não há cidades, nem indústria, comércio, hóteis e onde há questões da maior relevância que é necessário preservar.»
Ao ouvir isto começo a lembrar-me dos magníficos resorts que rodeiam a Ota, dos famosos hotéis da Abrigada, do enorme hospital de Alenquer, da grande metrópole de Aveiras de Cima, dos Centros Comerciais da Aldeia Galega, das fábricas de Aldeia Gavinha, do perímetro industrial da Carnota. A Ota é um enorme pólo de desenvolvimento e o maior problema da sua escolha é que em poucos anos voltemos a ter um aeroporto no centro de uma grande cidade.
Perante tudo isto fica o espanto, mas resta a hipótese de que, uma vez que a declaração foi feita num almoço, o ministro se tenha dedicado de forma demasiado profunda ao estudo vinícola de Portugal. Assim tudo isto poderia ter algum motivo para sorrir, caso contrário apetece chorar.

22.5.07

Haja esperança

Ouvir ontem, no Prós e Contras, Paulo Varela Gomes e Gonçalo Ribeiro Telles fez-me acreditar que afinal a mediocridade e a acefalia não se generalizou. Infelizmente domina os cargos políticos, mas ainda há quem pense livremente e com ideias, e que ache que isto está a caminho do abismo mas ainda lá não chegou, e que ainda podemos salvar este território cada vez mais mal frequentado. O problema é que são poucos os que os ouvem, poucos os que percebem que aquilo é, de facto, verdade. Daqui a uns anos será a ladainha do costume: que tiveram razão antes de tempo, que eram ideias difíceis de concretizar, que o Lisboa não podia parar, que, que, que. Aí pouco restará de Lisboa, mas que importa isso perante o suposto desenvolvimento.

Não quiseram dia oito…

A nova data das eleições para Lisboa – 15 de Julho – vai ser excelente, pois assim já está definido o grande vencedor das eleições intercalares. Menos de quarenta e cinco por cento já será uma enorme derrota para a abstenção.

21.5.07

A Socratette

Apesar de algumas tentativas em contrário, ainda vai havendo quem tente mostrar que vivemos numa democracia. Isto a propósito da deliberação do Tribunal Constitucional de impedir que a data das eleições para a Câmara de Lisboa fosse a marcada pela Socratette Governadora Civil. Claro que esta magnífica criatura continua a achar que decidiu muito bem, o que a fará, a médio prazo, conquistar uma secretaria de Estado ou afim.

Orwell

Parece que agora temos aprendizes de bufos e tentativas de sanear professores por contar anedotas sobre o nosso Big Brother. A coisa promete. Depois de silenciar os jornalistas quanto ás notícias da sua “não licenciatura”, o nosso Pinto de Sousa – através da sua malta – quer calar o país. Isto anda bonito, anda. Depois ficam espantados do Salazar ganhar concursos.

18.5.07

Uma certeza

O futuro do PSD em Lisboa é Negrão.

Outra certeza

O futuro de Marques Mendes no PSD é Negrão.

Procura-se

Primavera à antiga, sem passar de neve na Serra da Estrela a canícula em Lisboa em apenas três dias.

Teoria da conspiração, ou não.

Chega-me à memória uma notícia com umas duas semanas, em que se dava conta dum projecto do governo de criar uma área especial de intervenção, ao exemplo da Expo98, para a zona ribeirinha de Lisboa. Esta área de intervenção teria uma gestão individualizada, com plenos poderes sobre a Câmara e o Porto de Lisboa. O nome que se falava para dirigir era, curiosamente, José Miguel Júdice.
O grande plano de revitalização da Baixa-Chiado tinha como especialista para a área de arquitectura o mesmo arquitecto que tem uma panóplia de obras em curso, ou em projecto, na cidade de Lisboa, e que curiosamente se chama Manuel Salgado.
Apetece dizer – citando a grande erudita portuguesa da contemporaneidade, Margarida Rebelo Pinto – “Não há coincidências”.

16.5.07

Fogos

O governo da Nação aceitou dispensar o seu número dois em nome dos interesses partidários nas eleições em Lisboa, numa ordem de prioridades que vai sendo costumeira. O que assusta é a irresponsabilidade de dispensar o Ministro da Administração Interna, responsável máximo do combate aos fogos florestais, em meados de Maio, ou seja, mesmo em cima do início da época de risco. Há que esperar que os novos programas de prevenção e combate sejam eficazes, mas o certo é que a face política dos mesmos sai de cena, deixando um limbo de responsabilidades no caso de algo correr mal. Os fogos deveriam ser uma prioridade absoluta e inquestionável do país, pena é que, governo após governo, sejam encarados como uma inevitabilidade e desvalorizados de forma infame.

15.5.07

And the winner is…

Os vencedores dos “Thinking Blogger Awards” deste blog são:

A Origem das Espécies
Bomba Inteligente
Estado Civil
Impensável
Portugal dos Pequeninos


Os prémios serão entregues, em data a anunciar, numa cerimónia com a presença de um representante do Governo Civil.

Agradecimentos II

Corado, e com as habituais covinhas, agradeço o “Thinking Blogger Award” com que a Maria teve a gentileza de me presentear. O smoking felizmente está impecável e preparado para as fotografias da praxe. Lembro que não preparei, como é habitual, discurso. Fiquemos por um singelo obrigado.

Agradecimentos I

Ao Réprobo pelo simpático link para este blog no seu “As Afinidades Efectivas”.

1000


Valerá uma imagem mais do que mil posts?

Convento de las Dueñas, Salamanca 2002

A Canalha

A julgar pela decisão de marcar eleições para uma data que impede legalmente qualquer coligação e que dificulta ao máximo a recolha de assinaturas para candidaturas independentes, o Governo Civil de Lisboa merece um aplauso tão grande que se transforme em sova ou espancamento. A distinta lata de o fazer após se conhecer uma candidatura independente da área do partido do governo que, curiosamente, foi o que nomeou a dita Governadora, torna o facto relevante. Este PS consegue uma impunidade que, após o “affaire” Sócrates, já não espanta, mas no mínimo indigna.
Contra isto é essencial oferecer uma subtil, mas sonora, bofetada de luva branca, angariando as assinaturas que permitam a Helena Roseta concretizar a sua candidatura. Visite o blog “Cidadãos por Lisboa” onde poderá encontrar a declaração de propositura a assinar e os endereços e contactos necessários.

Pena

Estava já a pensar combinar um lanchinho ali para os lados de Santo Antão, visitando o Sr. Brito para umas cervejinhas e talvez uns croquetes, quando me lembro que pela minha teimosa e persistente ligação “à terra” lá me encontro recenseado, o que me impede de contribuir com a minha assinatura para concretizar a candidatura de Roseta. Ficará o lanche para outro dia e o inferno com mais uma boa intenção

11.5.07

Queimados

Antes que cheguem os fogos, Pinto de Sousa resolveu tentar imolar António Costa numa candidatura em Lisboa. Mesmo que ganhe, sairá chamuscado a médio prazo pelo erro de casting que é, e não passará muito tempo até que o sólido número dois passe a embaixador de qualquer coisa no estrangeiro, fazendo companhia a outros notáveis queimados como Carrilho ou Ferro Rodrigues. Pinto de Sousa pode não ser engenheiro, pode até não ser culto, mas parece que andou a ler umas coisas do senhor Maquiavel.

Proto-candidatos

António Costa e Manuela Ferreira Leite são os dois pesos pesados de quem se fala. Grandes escolhas sustentadas num enorme interesse em Lisboa e num conhecimento sedimentado dos problemas da cidade. São projectos e ideias conhecidas, conceitos de cidade e do que ela deve ser, indispensáveis a uma campanha de curta duração sem tempo para grandes estudos. Lisboa ganhará mais um presidente que sabe o que quer, a exemplo de Santana Lopes ou Carmona Rodrigues com os seus projectos sustentados e coerentes para a capital.

Que mulher!



Agatha Christie a fazer surf no Havai.
A fotografia é real e figura na sua Autobiografia.
Uma delícia.

Pesos e medidas

“…Se você mesmo duvida que haja algo especial, faça-se as perguntas que eu sempre me faço: por que o Papa causa mais escândalo e ódio, por que ele é mais vítima de calúnias e idiotices (por exemplo, a foto da capa do Globo de hoje, que o mostra pisando no Brasil com o pé esquerdo e aludindo ao fato) do que outros líderes, digamos, “espirituais”? Já observei que ninguém enche o saco do Dalai Lama por causa do celibato do budismo tibetano. O jejum católico é sinistro, mas o festival de cacetadas que é a prática do budismo zen é supostamente algo profundíssimo. E, é claro, fazer dieta só para ficar muito magro: coisa naturalíssima. Se Al Gore (que até o fim dos anos 90 era o modelo universal de idiota, lembram?) diz que você tem que fazer milhões de sacrifícios em nome da prevenção do “aquecimento global”, tudo bem; mas se o Papa sugere que você seja um cara mais paciente, e não se entupa de comida, ele está ameaçando a sua liberdade. Isso porque ele nem pode passar leis nem cobrar impostos.
Todos os filisteus do mundo odeiam o Papa, e isto é quase uma prova suficiente de que Deus está do seu lado.”
in O Indivíduo

10.5.07

Bravo

Helena Roseta apresentou-se como candidata independente à Câmara de Lisboa. Por aqui já se escreveu sobre a indiferença perante os partidos no que ás autarquias diz respeito, não é preciso memória muito apurada para recordar as calamidades que o “bem intencionado” Abecassis fez em Lisboa, para perceber bem a importância (pouca) da filiação partidária num bom trabalho autárquico. Muito mais importante do que ser de esquerda ou direita é ter um projecto e uma ideia para a cidade. Acredito que Helena Roseta terá essa ideia de cidade para Lisboa e basta que encontre uma equipa adequada para protagonizar um projecto sólido para a capital. Não sei se vai ser a melhor candidatura a ir a votos, mas coloca desde já um patamar de exigência que obrigará os partidos, e outras eventuais candidaturas independentes, a escolher personalidades credíveis.
O espectáculo degradante que os partidos ofereceram em Lisboa – lembremos a saída de Nogueira Pinto, o abandono de Carrilho, a novela da queda do executivo – merecem uma penalização, por isso mereciam que candidaturas independentes ganhassem força e os derrotassem nas urnas. Lisboa não deve ser o palco de irresponsabilidades por parte de partidos em constantes duelos tácticos que nada têm a ver com a cidade. O estado da Câmara é de tal modo calamitoso que será muito mais fácil a candidaturas independentes criar entendimentos que permitam uma governação em estado de emergência para os próximos dois anos.
Adivinho já os comentadores mais cegos a insistirem em ver a política autárquica como um reduto de ideologias (ler interesses) partidárias(os) procurando em Roseta defeitos terríveis que deitem abaixo, quanto possível, a sua candidatura. Assim é sempre, pois os partidos são sempre maus, mas quando surgem movimentos apartidários, ou próximo disso (não esquecer que até ontem Roseta era filiada no PS), há sempre qualquer coisa “terrível” que leva a uma cruzada pela sua destruição. Por isso a nossa democracia assim vai andando, de desastre em desastre, com o mesmo sistema partidário de há 30 anos, com uma média de 35% de abstenção, e com a alegre conivência da nossa “inteligentzia”.

Por Lisboa

A propósito de Lisboa, cheguei, via O Carmo e a Trindade, a esta petição a propósito da destruição das árvores do jardim do Campo Pequeno. Não é coisa pouca deitar abaixo quase duzentas árvores de porte admirável por supostas, por não comprovadas, questões fitossanitárias. Numa cidade em que os espaços verdes vão rareando, é uma indignidade rebentar com um jardim inteiro para depois o reconstruir. Quantos anos passarão até este jardim voltar a ter o aspecto a que nos habituámos?

Aznar e o vinho

Agora que os seus tempos de governo já passaram, Jose Maria Aznar está em grande forma libertária. Este vídeo é absolutamente imperdível.

9.5.07

Diferenças

Mário Lino fez questão de mostrar a diferença em relação a Pinto de Sousa, ele é, de facto, licenciado em Engenharia e está inscrito na ordem. Pena é que em matéria de Ota a obstinação seja comum.

7.5.07

Procura-se

Presidente do partido mais votado nas últimas legislativas, que esteve estranhamente ausente da campanha para as eleições de uma região autónoma – desencadeadas por reacção a uma lei aprovada pelo governo que lidera – onde o seu partido conseguiu um digníssimo resultado de 15% dos votos. Ouço falar em cobardia, mas não creio, talvez “putativa cobardia”, sempre encaixa melhor no perfil.

A quem de interesse

Muito falamos da nossa democracia como já sendo evoluída e consolidada, a quem ainda acredite nisso apenas um número: 15%. Foi esta a percentagem de abstenção nas eleições em França. Por cá, 35% já é tido como um valor razoável. Tudo está de facto bem, na nossa saudável e participada “democracia”.

Jardim

Para desespero do politicamente correcto, Alberto João lá deu mais um “Bailinho da Madeira” a toda a oposição, que triturou com 64% de votos. Falem dos défices democráticos que quiserem, mas que eu saiba na Madeira o voto ainda é secreto, ao contrário de alguns partidos “democráticos” onde ainda impera o braço no ar…

Descoberta do dia

Afinal o PND existe e elegeu um deputado na Madeira. Talvez o senhor Baltazar Aguiar se devesse candidatar a presidente do partido, pois pelo menos conseguiu mais do que o inefável Monteiro vem conseguindo nos últimos tempos: ser eleito.

4.5.07

Lisboa

Politicamente, Carmona parece alguém que já morreu mas a quem se esqueceram de avisar. Qual D. Sebastião em Alcácer-Quibir, Carmona resolve lutar contra todos, no que seria uma atitude de homem, não fora o pequeno facto de, com essa coragem, atirar Lisboa para o absoluto desgoverno. Não deixa de ser um daqueles casos que em abstracto teria graça, mas que na realidade apetece gritar: “tirem esse homem daí”.

Cretinices

A inefável senhora Câncio decreta hoje no DN, com a originalidade de pensamento habitual, que não compreende o escândalo por as coimas por consumo de drogas duras ser mais baixa do que a que se prevê para os fumadores. Segundo a senhora e um problema “elementar” de raciocínio achar que, e cito, “o uso das drogas ilegais é em si um mal terrível, independentemente de só prejudicar quem as usa, sendo impensável que se lhe aplique um castigo menos severo que a quem impõe o fumo de uma droga legal a terceiros.” Obviamente não ocorrerá à senhora Câncio que, talvez por um acaso excêntrico, as drogas duras também levantam problemas de saúde graves. Imagine por exemplo que está num bar e ao seu lado alguém saca de uma seringa para um “chutozinho” de heroína, lá faz o caldo, com emissão de gases por acender o isqueiro que prejudicam a qualidade do ar dos presentes, e injecta o produto. Retira a seringa e, azar seu, leva um encontrão e cai em cima do “drogadito” enfiando a seringa no seu braço. Será que a criatura tem SIDA? É realmente muito mais perigoso para a saúde levar com um bafito de tabaco, obrigado senhora Câncio por me iluminar o raciocínio.

3.5.07

Diálogos imaginários

– Charles, já não sei o que faça com este tempo indefinido. Tanto me apetece vestir só uma camisa de algodão como fico com desejos de uma camisola de lã.
– Está complicado, menino, está muito complicado. O senhor S. Pedro este ano está muito caprichoso.
– Simpático como sempre, Charles, eu diria que ele não anda é bom da cabeça. Já agora, mantenha o cobertor que acrescentou porque hoje dormi muito bem.
– Com certeza, menino.

E agora, Lisboa?

Após a demorada queda do anjo Carmona o que pode esperar Lisboa? Com a Câmara em frangalhos quem quererá pegar nela para governar durante curtos dois anos?
Será difícil piorar a total deriva em que o cacilheiro andou, ainda assim há sempre essa hipótese, infelizmente há sempre a hipótese de ir a pior. E com alguns nomes de que se vai falando…

30.4.07

Ironias

A extrema-esquerda acha intolerável que a liberdade permita que existam cartazes como o do PNR no Marquês. A extrema-esquerda acha intolerável que a liberdade, através da polícia, não permita que os seus jovens representantes invadam e destruam a sede do PNR. A ironia de tudo isto é de uma finesse irresistível. O PNR, que é contra a liberdade de expressão, usa-a para se promover em cartazes racistas. A extrema-esquerda, que se diz a favor da liberdade de expressão, acha que ela tem limites e não devia permitir os cartazes do PNR. Tão longe, contudo tão perto.

Serenidades

Pinto de Sousa continua impávido, Carmona Rodrigues impávido está. E o país segue, numa impávida deriva ética e moral.

República

A comissão para a comemoração dos cem anos da implantação da república quer reconstituir a mitologia republicana. Esperemos que tal não inclua assassinar o Sr. D. Duarte de Bragança ou instaurar uma ditadura de rua sem rei nem roque ás ordens se um Afonso Costa ressuscitado.

26.4.07

Lembrete

Apesar do banho de lixívia branqueadora que inunda o país, convém não esquecer que o caso Pinto de Sousa/UNI ainda não foi de forma alguma esclarecido. Infelizmente, parece que a lixívia é de boa qualidade e as notícias vão desaparecendo, num bom exemplo das conquistas de Abril de que tantos falam. Ao menos a PIDE era mais transparente nas técnicas de silenciamento, mais bruta sim, mas mais transparente.

O 25

O nosso Presidente quer que a comemorações do 25 de Abril sejam diferentes e que os jovens o compreendam. A ideia será louvável, mas enquanto algumas criaturas estiverem vivas será impossível melhorar a visão histórica dos jovens sobre a revolução. Pelo menos de forma séria, já que será difícil de explicar a um jovem lúcido que estimáveis bombistas como Isabel do Carmo ou Otelo tenham sido condecorados pelo Estado e tidos como heróis da revolução. Isto para não puxar muito pela memória de outros admiráveis democratas que por aí andam a defender a liberdade. A deles e dos seus, como é evidente.

Uma vez toureiro, sempre toureiro.

A corrida decorria bocejante, perante a falta de força e bravura dos touros, quando chegou o sobrero da ganadaria de Torrestrella, que substituiu o quarto devolvido por invalidez. Sai à praça César Rincón, toureiro colombiano no final de uma brilhante carreira, em tempos em que o fulgor lhe parecia fugir e em que a banalidade tomava conta das suas faenas. O touro prometia algo, pelo menos algo mais do que os anteriores, e Rincón avançou decidido com a muleta para o lidar. Esta era a sua última corrida em Sevilha, praça de gratas memórias e uma das catedrais do toureio. Iniciou a faena com cites largos, dando toda a vantagem ao touro, toureando com tanta seriedade que os pitons corriam em tangentes ao seu peito. O toureio de Rincón sempre foi de coragem e verdade, sem artifícios de suposta valentia, puro. As primeiras séries com a direita foram canónicas, belas e poderosas. Cheirava a triunfo e a praça gritava olés a acompanhar cada passe sobre um respeitoso silêncio ensurdecedor. Começou uma série com a esquerda, com o toureio dito ao natural, onde o touro ainda mais vantagem ganha perante a exiguidade do pano com que é lidado. Uma vez mais a verdade, que foi tanta que o touro o apanhou e o lançou ao ar qual boneco de trapos, caído desamparado de má maneira e temendo-se o pior. A praça silenciou, num momento sepulcral em que se ouviria um alfinete a cair, e revolveu-se de imediato, em pânico pelo acontecido. De pronto o toureiro foi socorrido pelos bandarilheiros e pelos colegas, pondo-se de pé. Mas cambaleava, e coxeava, e estava aparentemente pronto para seguir para a enfermaria. O público ovacionava a coragem, quando começou a protestar ao ver Rincón tentar avançar para o touro enquanto os colegas o procuravam refrear. Nada explica esta valentia quiçá insana, nada explica o sangue que corre nestas gentes que jogam a vida perante bestas cheias de bravura. Rincón lá se libertou e seguiu para o touro, ainda coxeando, ainda cambaleando, talvez um pouco mais desperto pela água que lhe passaram na cara. A praça estava em convulsão, entre o respeito pela coragem e o medo da inconsciência. O toureiro seguiu tranquilo, com se nada se houvera passado, com passos elegantes em direcção ao touro. Parou, citou, e continuou a tourear como antes, como se a faena aí começasse, arrimado, puro, com o touro a passar de novo à mesma distância do seu peito, com a seriedade respeitosa de quem admira o oponente mas se sabe capaz de se opor a ele. Pela direita e pela esquerda, com uns preciosos ayudados para terminar a faena. O público delirava e vergava-se perante um enorme toureiro, à antiga, um artista de valentia, um dos que melhor junta alguns dos mais essenciais adjectivos de um toureiro: corajoso, sério, artista. Chegava a hora da morte, momento de grande perigo para o toureiro – que tem de se expor para tentar colocar a espada no sítio correcto – e onde se joga o triunfo de uma lide. Rincón perfilou-se e, em vez de entrar a matar, citou o touro para o estocar a receber. A sorte é assim ainda mais difícil e arriscada, e a espada não entrou, batendo em algum osso que se interpôs no caminho. O público aplaudiu a tentativa, em especial por hoje ser raro quem escolhe esta sorte para terminar a faena. O toureiro perfilou-se de novo e, na mesma sorte, chamou o touro e deu-lhe uma estocada inteira e letal, magnífica. O touro morreu de pronto e a praça levantou-se em vibrantes aplausos. Sevilha é praça exigente, mas quando se vê perante o grande toureio recompensa como poucas a sua arte. No dia vinte e quatro a Real Maestranza de Sevilha veio abaixo, pois viu-se perante um toureiro grande, daqueles que escasseiam, daqueles que nos fazem tremer, daqueles que fazem da tourada um momento sublime.

23.4.07

Primaveras

Este país está a fazer os possíveis para que a primavera fulgurante que se vê da janela não tome conta de mim. São as sucessivas trapalhadas do Sousa, as inconsequentes palestras do Silva, as delirantes nomeações do Moura, as previsíveis vitórias do Portas, enfim, esta sensaborona política quotidiana, que apesar de chata nos envolve como claras em castelo e nos tenta fazer esquecer que há um mundo, e até um país, para além disso. Antes de entrar neste estado catatónico opto por fugir um pouco até ao Alentejo, fonte inesgotável de tempo e beleza, tentando ainda apanhar o feérico primaveril dos campos pintados por flores impossíveis. Talvez esqueça o resto do país e consiga assim melhorar os humores pensado apenas em paisagens e pessoas, afinal algo infinitamente mais interessante do que a mediocridade que nos governa.

20.4.07

Tudo normal no reino de Portugal

O governo atira para o ar a hipótese de fazer um aeroporto de recurso enquanto a Ota não é concluída, sem no entanto estudar devidamente outras hipóteses que podiam estar prontas antes e serem definitivas. Nada de grave, afinal, mais milhão, menos milhão, sempre é uma forma de combater o desemprego. E o povo que pague os disparates…

Tudo normal no reino de Portugal I

O magnífico Pina Moura continua a sua caminhada rumo a um poder cada vez mais absoluto. Para além da presidência da Iberdrola, foi agora nomeado administrador da Prisa. Já roça o descaro o percurso profissional deste “socialista”, o que não surpreende numa espécie perigosíssima que é um comunista convertido ao capitalismo. Big brother is watching you…

19.4.07

Boa companhia para jantar


Lauren Bacall

Ainda a Páscoa da cidadania

A montanha Independente pariu um rato silencioso, sem rasto da bomba anunciada. Um dia de adiamento e parece que o fogo se apagou do rastilho, uma vez mais de forma normal, como tudo o resto. Esperemos uns tempos, até que a poeira assente, e veremos um Fénix Independente a renascer das cinzas com um subtil beneplácito do governo. Com tanto silenciamento, qualquer dia o Sousa não pode sair à rua sem que alguém lhe venha cobrar algo. Sim, porque estas coisas pagam-se, mais dia, menos dia.

17.4.07

O Homem-Duplicado

Duas notas biográficas, dois certificados de habilitações, dois professores, dois reitores. Será que ainda vamos descobrir que tem dois cursos?

O Estado do Sítio

Nota introdutória:
Esta é uma circular interna dos serviços de manutenção da Estação Florestal Nacional (EFN), organismo pertencente ao Instituto Nacional de Investigação Agrária e das Pescas (INIAP), por sua vez dependente o Ministério da Agricultura, do Desenvolvimento Rural e das Pescas (MADRP).
Este documento não me chegou via cadeias de e-mails, foi-me enviado por alguém que trabalha nesta instituição e que ficou estupefacto com o seu conteúdo. O nome foi do remetente omitido.

"EDIFÍCIO EFN

De: *****
Para: EFN ‑ Oeiras
Data: 04-04-2007
Assunto: MANUTENÇÃO – SUSPENSÃO do CONTRATO de LIMPEZA


Informação/Solicitação

Conforme Nota interna da Direcção, ficámos a saber que apesar dos esforços e iniciativas efectuadas para o evitar, foi mesmo suspenso no dia 02 de Abril, segunda-feira, o contrato de limpeza do edifício EFN.
Embora continuem as iniciativas para repor a normalidade, dada a relativa gravidade da situação e desconhecendo-se a sua duração, impõem-se algumas alterações relativamente aos hábitos e regras vigentes, que minimizem os efeitos desta alteração nas condições de utilização do edifício:

PROCEDIMENTOS NECESSÁRIOS

-- Assegurar a limpeza do seu próprio gabinete.
-- Assegurar e utilizar o seu próprio “kit” de higiene (ex.: Papel higiénico, sabonete, toalha de rosto).
-- Ser responsável por todo o seu lixo até o depositar nos contentores públicos (ex.: Lixo da papeleira do gabinete, pensos higiénicos, toalhas de papel. etc.).
-- Redobrar os esforços no sentido de manter limpas as casas de banho.

Os melhores cumprimentos de

MANUTENÇÃO "

PS: De notar que antes desta circular foi proposto que cada trabalhador/investigador contribuísse com 5 Euros para efeitos de limpeza.

12.4.07

O aborto da lei

Cavaco cumpriu o que seria de esperar, promulgou a lei do aborto com uns tímidos e irrelevantes comentários. O umbigo continua a ser a sua maior obsessão e o país que dele não espere qualquer coisa de útil e afirmativa.

Trapalhices 7 – Esclarecimento 1

1 – 0: Lançar notas em Agosto e passar diplomas a um Domingo é algo perfeitamente normal no funcionamento de uma universidade.

2 – 0: É indigno pensar que as universidades peçam Certificados de Habilitações para aceitar inscrever um aluno e fazer o seu plano de equivalências.

3 – 0: Qual será o problema de o mesmo professor leccionar quatro cadeiras no mesmo curso, tal fará parte das boas práticas de uma universidade que funcionava de forma excelente.

4 – 0: Guardar duas fichas biográficas semelhantes, das quais uma foi rasurada, é frequente entre políticos, há sempre uma preocupação para que tudo fique devidamente registado, até os enganos.

5 – 0: A Independente funcionava de forma exemplar, facto atestado por toda a óbvia lisura do processo do Sr. Pinto de Sousa.

6 – 0: O título de Eng. é uma designação social sem qualquer importância, ainda menos para quem tirou o curso sem nunca pensar exercer.

7 – 0: As declarações de Pinto de Sousa eram de tal modo importantes e bombásticas que foi preciso esperar vinte dias, e que se decidisse sobre a Independente, para podermos ter o privilégio de as ouvir.

7 – 1: Pinto de Sousa comprometeu-se a realizar um referendo sobre a Europa, ainda que o iluminado de Belém o não julgue necessário.

10.4.07

Presunções

Enquanto o senhor Pinto de Sousa não reaparece do seu laico retiro pascal, a partir do qual se presume que ressuscite na entrevista de amanhã, as notícias vão chegando sobre as suas pequenas fraudes académicas. Hoje é relembrado (via Rádio Clube Português) que, nas biografias oficiais da Assembleia da República de 1993, Pinto de Sousa já surge como licenciado em Engenharia Civil, isto três anos antes de ter concluído a sua presumível licenciatura na Universidade Independente. Ao ano de 93 parece – porque em tudo isto já só podemos falar de parecer e não de ser – que Pinto de Sousa era bacharel pelo Instituto Superior de Engenharia Civil de Coimbra e parece – uma vez mais parece – que só por esta data terá frequentado o Instituto Superior de Engenharia de Lisboa e a Universidade Independente, na qual obteve o presumível diploma em Setembro de 1996. Como a Assembleia ás vezes falha, e pode ter feito um erro de (guterrista) simpatia, teremos de recorrer ao Diário da República, um pouco mais credível, para detectar que em Outubro de 1995, um ano antes da presumível conclusão da licenciatura, o Secretário de Estado Adjunto Ministério do Ambiente surge, no decreto de nomeação para o Governo de António Guterres, com o título académico de Engenheiro. Com tanta presunção e tanto parecer, esta história só pode mesmo ser fruto de uma presumível teoria da conspiração, pelo menos assim parece.

9.4.07

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La Pedrera, Barcelona, 2006

Descoberta do dia

Mariano Gago afinal existe, e até apareceu em público a anunciar o encerramento de uma universidade.

4.4.07

(in)verdade

Licenciado, ou talvez não, só espero que não venham falar de inverdades que com essa palavra até posso começar ao estalo a quem me aparecer à frente. Há coisas que ou são ou não são, verdade como é evidente.

Ao Sr. Pinto de Sousa

Mentir, qual é a importância de um governante mentir, afinal fá-lo todos os dias, quer em campanha eleitoral, quer nos cargos que desempenha. Mentir, qual é a importância de mentir, afinal foi eleito pelo povo que lhe paga o ordenado e agora protesta. Mentir, qual é a importância de mentir, afinal é uma figura de Estado que nos representa. Mentir, qual é a importância de mentir, serão preciosismos nossos, a verdade nada importa no mundo de hoje. Mentir, qual é a importância de mentir, carácter, o que é isso e para que serve, qual a utilidade? Mentir, qual é a importância de mentir, o senhor não será Engenheiro e usou o título por anos. Mentir, qual é a importância de mentir, terá feito passar-se por quem não era, por algo que não fez e a que não tinha direito. Mentir, qual é a importância de mentir, afinal só deixou que a coisa se alastrasse ao longo de anos. Mentir, qual é a importância de mentir, exames feitos aos Domingos são normais. Mentir, qual é a importância de mentir, faltam carimbos nas pautas. Mentir, qual é a importância de mentir, foi descoberto e não acha necessário esclarecer o povo? Mentir, qual é a importância de mentir neste país onde tudo começa a ser possível.

Estratégia

Primeiro as escolas, depois os hospitais e agora fala-se nos tribunais, o governo do Sr. Pinto de Sousa põe em prática uma rigorosa política de contenção de custos que leva ao encerramento dos serviços públicos no interior do país. Para quem acusa – como eu – os governos de falta de estratégia, surge a surpresa com a resolução deste de por em prática uma concertada e pensada estratégia para o país, a saber: abandonar o interior que pouco interesse tem e apostar claramente nas cidades onde está a maior parte da população. De falta de estratégia não os podemos acusar.

3.4.07

Heróis do blog


Corto Maltese, por Hugo Pratt

Parabéns

A Bomba Inteligente faz hoje uns incríveis quatro anos de presença indispensável na blogosfera. Para comemorar aqui vai um revival com a “discreta” Cindy Lauper e “Girls Just Want to Have Fun”.

27.3.07

Ota II

Quanto mais se fala da Ota mais se percebe a cegueira e fraqueza de argumentos de quem a defende.

Grandes Portugueses IV

Terá sido impressão minha ou Odete Santos coçou animadamente o soutien durante o programa? E era bege.

Grandes Portugueses III

A indignação geral parece ter ficado pelo primeiro lugar, pois parece ser perfeitamente normal que Cunhal tenha vinte por cento dos votos e fique em segundo. A importância desse grande português ficou expressa no comentário final de Odete Santos: “Isto é uma apologia do fascismo o que é proibido pela constituição”. A censura para esta gente só é má quando vai contra os seus interesses, poucas frases serviriam tão bem para explicar que, em matéria de liberdade, Salazar e Cunhal são duas faces de uma mesma moeda. E eu que teimo em me maçar terrivelmente com esta moeda.

Grandes Portugueses II

A conclusão do concurso é que Salazar ganhou, em grande parte, devido ao salazarismo da RTP que excluiu o seu nome da lista inicial, ao mesmo tempo que incluía gente igualmente infrequentável como Cunhal. A partir daqui foi uma avalanche de votos úteis para impedir que ganhasse Salazar ou Cunhal. Talvez Rosado Fernandes tivesse razão ao dizer que foi um voto de protesto no triste Portugal pós-Abril, mas mais triste ainda é verificar que tanta gente dá importância ao nosso miserável século vinte, cem de anos dos quais temos motivos para ter a maior das vergonhas.

Grandes Portugueses II

A conclusão do concurso é que Salazar ganhou, em grande parte, devido ao salazarismo da RTP que excluiu o seu nome da lista inicial, ao mesmo tempo que incluía gente igualmente infrequentável como Cunhal. A partir daqui foi uma avalanche de votos úteis para impedir que ganhasse Salazar ou Cunhal. Talvez Rosado Fernandes tivesse razão ao dizer que foi um voto de protesto no triste Portugal pós-Abril, mas mais triste ainda é verificar que tanta gente dá importância ao nosso miserável século vinte, cem de anos dos quais temos motivos para ter a maior das vergonhas.

Grandes Portugueses I

Este fim-de-semana os grandes portugueses estavam nas Selecções Nacionais de Futebol e Rugby. A primeira fez uma belíssima segunda parte e massacrou com arte (ai o golo do Quaresma!) os toscos belgas; a segunda conseguiu tornar-se a única selecção amadora a participar na fase final da Taça do Mundo de Rugby. É caso para dizer: “Brava Dança dos Heróis”.

Admirável Governo Novo – Obras Públicas

O ministério dos projectos estruturantes teve o rasgo de apresentar dois projectos de unidade nacional, a OTA e o TGV. A Ota foi o mais ponderado e estudado projecto deste governo, anunciado como um compromisso político do mesmo e pessoal do ministro. Foram inúmeros os estudos comparativos com outras localizações e vastas as análises de cenários alternativos, sendo que após longa ponderação se chegou à Ota. Não é perceptível a crítica, que se começa a generalizar, de que o projecto foi anunciado antes de ser estudado, pois o ministro não iria, por certo, incorrer em tão bárbaro erro. Critica-se também a posse dos terrenos onde o aeroporto será construído – que muitos dizem ser de gente ligada ao PS ou a grupos de pressão ligados ao partido –, crítica soez a que o governo bem fez em nem sequer lhe dar resposta, ignorando olimpicamente todos os boatos sem esclarecer o facto. Quanto ao facto do aeroporto esgotar a sua capacidade em vinte anos, é facto de menor importância perante a relevância do Projecto.
O TGV foi algo incompreendido pela população, pois será uma obra vital para ligar o país, nomeadamente os grandes centros que são os que interessam. A queda do comboio na linha do Tua demonstrou, uma vez mais, que o interior deveria ser abandonado e que o TGV será um óptimo veículo para uma maior litoralização do país em grandes centros urbanos. A ligação a Espanha é apenas um pretexto, pois o mais importante é ganhar meia hora no trajecto Lisboa-Porto, tempo que justifica plenamente os milhares de milhões a investir no projecto.

23.3.07

Mentir

Diz que Sócrates afinal não é Engenheiro, parece que a teia da Universidade Independente destapou um erro no curriculum no nosso primeiro-ministro que se intitulava de algo a que não tinha direito. Perante o silêncio dos jornais, a blogosfera fervilha de comentários sobre o assunto. Para mim é indiferente que o homem tenha ou não um canudo, pois esta obsessão portuguesa pelos títulos – por certo reminiscência de um problema mal resolvido com a ausência de monarquia e dos títulos nobiliárquicos – passa-me muito ao lado. O que não podemos esquecer é que, a ser verdade o que se diz, alguém incluiu no curriculum do homem algo a que não tinha direito e isso, independentemente das voltas que dêem ao assunto, é mentir. Ora, apanhar um primeiro-ministro numa clara mentira já me parece de invulgar importância. Quantas pessoas poderiam perder o seu lugar de trabalho por mentir no curriculum? A questão não é se o homem tem ou não canudo, a questão é que ele, ou alguém por ele, mentiu, e isso é grave.
Agora que parece perder o título ficamos sem saber como nos dirigir ao homem, continuaremos a usar o segundo nome próprio (Sócrates) – estilo senhor João, o homem do talho – ou passaremos a usar os apelidos para o tratar por senhor Pinto de Sousa?

22.3.07

Admirável Governo Novo – Cultura

A cultura é a área que gostaria de destacar como uma das mais importantes e conseguidas neste governo. A ministra da tutela tem passeado a sua enorme craveira intelectual e faro político conseguindo um mandato até agora digno dos maiores aplausos. A “grande obra” que foi conseguir alugar, por um preço um pouco elevado – é um facto –, a colecção de arte contemporânea do grande mecenas Berardo, destinando-a ao CCB, tornou-se o farol da sua actuação, numa medida que ainda por cima esgota a subaproveitada capacidade do CCB, facilitando assim a sua gestão com uma colecção permanente. A decisão foi corajosa, especialmente num ministério onde não abunda dinheiro – apesar do pagamento das jóias roubadas na Holanda – e onde os museus (de Arte Antiga e do Azulejo) têm alas fechadas por falta de dinheiro para pessoal. Finalmente temos um Ministro da Cultura que dá o adequado relevo à modernidade, mesmo que para isso tenha de ir contra “Vacas Sagradas” e “Velhos do Restelo” que insistem, disparatadamente, na importância do património histórico.
No capítulo das artes a ministra teve ainda duas intervenções vitais para o país: despedir Paulo Pinamonti, o director do Teatro S. Carlos que insistia em o tornar europeu esquecendo “a prata da casa” que tão bons resultados havia apresentado nos anos anteriores, optando assim por um teatro de ópera mais nosso e menos pretensioso; a gestão do caso Rivoli, um exemplo de compreensão perante os protestos de uma grande companhia de teatro que se viu sem os apoios, a que indiscutivelmente tem direito, para fazer teatro de vanguarda. A importância para o país da sobrevivência do teatro independente é enorme, e as críticas por falta de público uma óbvia barbárie intelectual própria de países subdesenvolvidos.

A arte do toureio

O genial Rafael de Paula, ou como tornar o toureio numa dança de coreografia imprevisível.

21.3.07

Pais (des)ordenado

Anda tudo muito admirado e chocado com o avanço do mar nas zonas da Caparica, assim como se admiram com as cheias ou com os gigantescos fogos por este país fora. A ninguém ocorre que a culpa não é do pobre mar, que tão agradavelmente nos banha nos dias de verão, mas da cambada de irresponsáveis que nos desgoverna há demasiados anos com uma criminosa política de desordenamento do território. Os mesmos que agora se indignam com os prejuízos – e atiram responsabilidades para outrem – são os mesmos que em nome do desenvolvimento, palavra sagrada que veneram, têm cometido as maiores atrocidades pelas terras deste país. Atirar com empregos para a população, mesmo que normalmente vinda de fora, é quase sempre argumento seguro para infringir as leis e construir, modificar ou destruir. O país por infelicidade não pode falar, gritar ou urrar de dor, e assim se vai arrasando com o que resta, com a displicência de quem espanca a mulher e a seguir se senta a beber um sossegado café. Depois a culpa é do mar, do sol, do vento, das intempéries, de tudo o que não tenha factor humano, pois esse, para estas criaturas, é sempre perfeito.

Admirável Governo Novo – Saúde

O excelente Correia de Campos tem conseguido, com a sua enorme humildade e capacidade política, explicar com brilho as complexas medidas de fecho de urgências e centros de saúde. A subtileza é tanta que para até aproveitou para, por clara coincidência na fase de maior contestação, fazer aprovar em conselho de ministros a muito equilibrada e sensatíssima lei da proibição do fumo que consegue – finalmente – tratar os fumadores como delinquentes sociais que importa, a todo o custo, marginalizar.

Admirável Governo Novo – Agricultura

O ministro Jaime Silva destaca-se, ainda mais do que pelo maravilhoso conteúdo, pela forma adequada que usou para contactar com esse rude sector da sociedade que são os agricultores. O seu maior mérito foi ter conseguido criar uma total incompatibilidade com as pessoas mais essenciais na agricultura, os agricultores, proporcionando assim as melhores condições para gerir e planear este difícil sector.

20.3.07

Admirável Governo Novo – Educação

“Todo o dinheiro é pouco para a Educação” – dizia ontem Sócrates numa importante declaração que vai de encontro aos desejos do país, mais importante ainda quanto, finalmente, temos um governo que parece ter as prioridades bem definidas: é preciso investir na educação, investir muito mesmo, mas apenas nos grandes centros urbanos, pois o interior, onde continuam a fechar escolas, é algo a abandonar o mais depressa possível. Louve-se a grande coerência e visão estratégica da medida.
A educação é também a área onde o governo sofreu um infeliz revés, ao recuar na sua mais brilhante e visionária proposta, após disparatada contestação da grande parte da sociedade. A TLEBS era mecanismo fundamental para o programa de reeducação das nossas crianças, criando uma nova e moderna gramática, essencial à competitividade do país no estrangeiro e à adequada evolução da língua portuguesa.

Admirável Governo Novo

Passados dois anos podemos tecer grandes loas ao governo Sócrates. Reformismo, competência, modernidade, estas e muitas outras características que o governo tem passado como suas e fazem com que aos olhos dos portugueses este seja o melhor governo dos últimos anos. Um governo coeso, sem divergências, que fala a uma só voz, discreta pela escassez de vezes que Sócrates sai do seu resguardo. Regozijemo-nos com o privilégio de poder contar com tão Grande Timoneiro para um país à deriva. Nem as disparatadas manifestações de trabalhadores conseguem apagar a boa imagem e o bom trabalho, aliás, dizem que a última foi a maior manifestação de que há memória nos últimos anos, esquecem o magnífico dia de sol em que calhou, no qual as pessoas resolveram sair à rua e os números por certo foram inflacionados por populares que aproveitaram o facto das ruas estarem cortadas para passear pelo belo centro de Lisboa. Esquecendo a, aparente, contestação, a grandeza do governo é tanta que até justifica que se destaquem alguns dos mais importantes comandantes com que o Timoneiro pode contar para as diversas áreas de intervenção.

Clube de Destruição Sumária / Para o Próprio

Serão precisas palavras para descrever o que se passa no CDS/PP.

19.3.07

Escuro objecto de desejo

Que por mui generosa oferta me chegou ás mãos. Agora falta fazer parte do clube das balas para me sentir realmente moderno.

14.3.07

Mediocridade

Parece que se confirma o despedimento de dois Paulos, o Macedo e o Pinamonti, em mais um atestado de mediocridade do nosso Estado. Ninguém é insubstituível, mas não deixa de ser curioso que duas pessoas que se destacaram pela sua inegável competência sejam dispensadas. Podem ser muitos os motivos, mas numa Administração tão cheio de incompetentes é um enorme desperdício perder gente capaz de fazer um bom trabalho. Num caso invejas financeiras, no outro invejas artísticas, em ambos a recusa dos componentes do “Monstro” em aceitarem a competência.

Boa companhia para jantar


Katharine Hepburn

Ser agradável

«Ao olhar para o passado sinto que a nossa casa era de facto um lar feliz. Isso devia-se em grande parte ao meu pai, pois tratava-se de um homem agradável – qualidade, aliás, pouco significativa hoje em dia. Actualmente as pessoas interessam-se mais em saber se um homem é inteligente, se é trabalhador, se contribui para o bem-estar da comunidade, se ele “conta” no esquema geral. Charles Dickens, porém, trata esse assunto de uma maneira deliciosa em David Copperfield:
“– O seu irmão é um homem agradável, Peggotty? – inquiri cautelosamente.
– Oh! O meu irmão é um homem muito agradável! – exclamou Peggotty.”
Pergunte a si própria se a maioria dos seus amigos e pessoas conhecidas são agradáveis e ficará surpreendida por tão poucas vezes a sua resposta poder ser igual à de Peggotty.»

Agatha Christie in “Autobiografia”

12.3.07

Sábado glorioso

Uma luz quase obscena proibia a estadia em casa, o corpo pedia sol, enferrujado que estava pelo longo Inverno a que nós portugueses teimamos em não nos habituar. A praia era opção óbvia, nem que fora para uma estadia longa e dolente numa esplanada com o mar ao fundo, pilhas de jornais ou uma boa companhia. A opção foi contudo outra, uma vez que a Selecção Nacional de Rugby jogava a primeira-mão do apuramento para o Mundial contra o Uruguai.
Faz tempo que não ia ao Estádio Universitário e foi com enorme agrado que fiz por entre as sombras de belas árvores o caminho desde a Reitoria. Junto ás bilheteiras, e apesar de faltar uma hora para o jogo, já reinava grande animação, com grupos a aproveitarem a esplanada para almoçar e crianças, muitas crianças, a brincarem em redor, algumas delas ainda equipadas de um treino ou jogo de rugby já decorrido. Não parecia Portugal, definitivamente não parecia o Portugal que se fecha nos centros comerciais de onde apenas sai para a praia, não parecia o país em que os jardins estão vazios e onde é raro encontrar carrinhos de bebé a passearem ao ar livre. Havia calma e alegria no ar, uma tranquilidade de fim-de-semana e uma boa disposição obrigatória perante o sol radioso que brilhava por todo o lado e que tudo fazia brilhar.
O jogo aproximava-se e foi com surpresa que deparei com o estádio cheio, e que visão magnífica a de um estádio rodeado de belas árvores e de sebes bem aparadas, bancadas cheias, e a luz… Habituámo-nos aos estádios de betão, encaixados nas cidades, rodeados de prédios, com centros comerciais, mas aqui tudo é diferente. Claro que não tem a segurança necessária a jogos de futebol, mas até essa necessidade de segurança muito diz da diferença entre estes dois desportos. Um olhar pelas bancadas mostrava famílias inteiras, com as crianças a brincar junto ao relvado, sem qualquer fosso que os separasse do campo onde, minutos depois, iria decorrer o jogo.
A selecção entrou perante enorme ovação e o hino foi cantado a uma só voz em todo o estádio. Bonita recepção ao jogadores que durante o jogo mais do que fizeram por a merecer. O jogo foi equilibrado, em especial na primeira parte que acabou zero a zero, mas no segundo tempo os portugueses encheram-se da enorme garra que vêm mostrando e conseguiram dois ensaios, um deles concretizado, e a diferença de doze pontos. Seria uma excelente vantagem para a segunda mão, não fora um ensaio, não concretizado, dos uruguaios no último minuto. Os sete pontos são apertados, mas deixam esperança para a segunda mão em Montevideu, deixam esperança a uma selecção que merece a histórica oportunidade de ser a única selecção amadora a estar presente no Mundial.
O final trouxe uma pacífica invasão de campo e foi divertido ver os jogadores a darem autógrafos submersos por miúdos ou a ficarem junto ás bancadas a conversar com amigos ou família, tudo com enorme calma e familiaridade. Aqui respira-se desporto – competitivo, mas desporto – longe do espectáculo distante e inacessível de outras modalidades, cada vez mais indústrias com operários especializados pagos principescamente. Não tenho nada contra outros desportos, até segui para Alvalade para ver o Sporting contra o Estrela da Amadora, mas tudo aqui é diferente, e de uma diferença muito agradável.
Pedro Leal (2), David Mateus, Miguel Portela, Diogo Gama (5), Pedro Carvalho, Cardoso Pinto (Gonçalo Malheiro), Luís Pissarra (José Pinto), Vasco Uva, João Uva (Paulo Murinello), Juan Severin (Diogo Coutinho, 5), Gonçalo Uva, Marcello D’Orey (David Penalva), Joaquim Ferreira, João Correia e André da Silva.
Esta foi Selecção Nacional de Rugby que jogou no Sábado, treinada por Tomaz Morais, e que ganhou ao Uruguai. Estes, e outros que neste jogo não jogaram, formam um grupo que tornou uma selecção de terceira categoria numa equipa de nível tal que já ganhou o Torneio das Seis Nações B (o acesso ao outro é por convite), vários torneios e campeonatos de Sevens (rugby de sete) e que pode agora ser apurada para o Mundial. Todos são amadores, todos treinam com sacrifícios imensos para conseguirem conciliar empregos, famílias e o seu desporto, todos jogam com grande espírito de grupo, todos mostram um enorme amor à camisola. O desporto amador quando consegue ser competitivo é algo de magnífico e aqui o grande papel é do seleccionador Tomaz Morais que conseguiu transformar a nossa selecção numa selecção de campeões. Podemos até não conseguir o apuramento – o que seria injusto para o esforço da equipa – mas esta selecção, esta “Nossa Selecção”, está de parabéns pela atitude e, é preciso não o esquecer, pelo seu excelente rugby.

8.3.07

RTP

A gala de comemoração dos 50 anos da RTP, que ontem decorreu, foi um agradável regresso ao passado da televisão e, consequentemente, de nós mesmos. O estilo do espectáculo foi o mais genuíno RTP, ou seja, popularucho sem chegar ao quase kitch com que a TVI nos brinda nas suas galas. Houve uma certa dignidade muito própria da RTP, quer nos sóbrios cenários, quer na concepção geral do espectáculo. Não foi nenhum deslumbre, mas só o facto de relembrar os anúncios do “Leite de Colónia” ou do “Restaurador Olex”, a “Vila Faia”, o “Vitinho”, várias músicas da minha vida – a da “Heidi” e a do “Dartacão” – ou de aparecerem personagens que julgávamos desaparecidos em parte incerta – Eládio Clímaco é o melhor exemplo – já valeria a pena acompanhar o programa. Eu diverti-me muito e dei por mim a rir com um agrado cada vez mais raro, ainda que uma pontinha de nostalgia me fizesse pensar que o tempo passou e não foi só pela televisão.

6.3.07

Abandono

Este blog é discreto, mas ontem, ao abrir o Sitemeter e deparar com zero visitantes, achei que tinha sido abandonado pelos meus, poucos, leitores fiéis. Teria escrito algo que desse direito a tal indignação, a tal fuga em massa, a tal desprezo? Quase chorei, cheguei mesmo a ter o meu lenço de pano na mão, até que, num lapso de narcisismo e recusa perante a realidade, naveguei pelo Sitemeter em busca de uma qualquer explicação. O lenço foi guardado quando descobri que um servidor do site tinha dado o berro, suspendendo temporariamente o serviço. Fiquei de imediato mais bem disposto ao saber que afinal não tinha sido vítima de um trágico abandono, mas sim arrastado numa avaria informática com muito desagradáveis consequências.

Santa Comba e Estaline

Haverá ainda paciência para as discussões idiotas à volta de Salazar? Se há gente que quer fazer um museu em homenagem ao homem, não encontro razão nenhuma para que o não façam. O “Avante” existe e veicula ideias muitas vezes próximas do estalinismo, mesmo assim é aceite e seria considerada uma heresia censória que se tentasse acabar com ele. As gentes de Santa Comba simpatizam com Salazar e logo aparecem manifestações em nome de uma suposta liberdade, provavelmente organizadas por assinantes do dito jornal.
A mostarda chega-me cada vez mais facilmente ao nariz neste país em que os idiotas conseguem tempo de antena e põem à prova os meus instintos democráticos, tanta é a vontade de os meter na choldra para não maçarem mais. Era bom, se bem que utópico, que a populaça fosse educada a perceber que Salazar foi um ditador, é um facto, mas que o comunismo defende uma outra forma de ditadura, a do proletariado. Um e outro estão no mesmo exacto patamar para quem defende, de facto, a liberdade e a democracia, são ambos representações de regimes ditatoriais. Enquanto se julgarem por patamares diferentes as ditaduras, de direita ou esquerda, e os seus apoiantes não teremos sossego. E não chega o dia…

2.3.07

As palavras de…

Ferreira Fernandes in “Sábado”, 1 de Março de 2007.

“Estava a África do Sul a viver a sua viragem histórica, eleições com brancos e negros, quando me encontrei com um jovem admirável. Ele era branco, bei­rão e vivia em Durban, num bairro operário e negro. Aquela zona era zulu, uma minoria negra com um partido que se opunha ao ANC de Nelson Mande­la. No bairro, todas as manhãs apareciam cor­pos de xhosas e zulus, mortos a tiro e por vezes torturados. O meu jovem, que era mis­sionário, ensinava a ler nos dormitórios das fábricas e treinava uma equipa de futebol com os miúdos do bairro.
Eu tenho o que julgo ser uma reacção alérgica benigna. O que leva outros a terem erupções cutâneas por comerem camarão, a mim, perante um tipo admirável, põem­-se-me a brilhar os olhos. O rapaz viu. E en­tendeu que aquela homenagem se devia ao facto de eu o tresler. Onde eu via fraternida­de, o que o motivava era outra coisa: "Olhe que eu estou aqui por razões de fé."
Sorri e continuei com o brilhozinho nos olhos. Os caminhos do amor aos homens são insondáveis. A generosidade escreve di­reito por linhas tortas. O que quiserem. O jo­vem beirão tinha abandonado a sua terra e os seus, corria riscos e praticava o bem. O motor da sua humanidade, segundo ele, ali­mentava-se com uma gasolina que eu des­conhecia, a fé. Nas tintas. Para mim, o que era importante é que ele era dos meus. Des­culpem-me, desculpem-me, a presunção da frase anterior. O que eu quero dizer é que gostaria de ser dos dele.
Vai para aí uma polémica sobre um túmulo de Jesus que poria em causa alguns dog­mas do cristianismo. Ele não ressuscitou e teve um filho? Eis, mais uma vez, o que me deixa indiferente. O meu brilhozinho nos olhos por essa pessoa generosa e fraterna que foi Jesus Cristo – virado para todos os homens e não só para os eleitos, respeita­dor dos mais fracos, igualizador dos géne­ros, político moderníssimo ("Dar a César...") – continua cintilante. Seja, ele não foi Deus. Não me importa, tenho uma versão para ele ainda maior.”

Sobre a Goa de hoje

Ler em “A Vida em Deli”.

1.3.07

O fascismo está a chegar

O conselho de ministros aprovou a nova lei do tabaco.

A propósito de criadas

No Corta-Fitas decorre um importante polémica sobre criadas, assunto deveras inquietante e que, pelos vistos, gera revoltas graves em algumas pessoas. Como se dá a coincidência do meu livro de cabeceira ser a “Autobiografia” de Agatha Christie deixo aqui dois excertos a propósito:
“Duvido que hoje exista ainda uma verdadeira empregada doméstica. Existirão possivelmente algumas, entre as idades dos 70 e 80 anos, mas, fora disso, o que existe são diaristas, empregadas que parecem fazer-nos favores, ajudantes domésticas, governantas e encantadoras jovens que pretendem conciliar o ganho de algum dinheiro extra com um horário que lhes convenha e convenha também ás necessidades dos seus próprios filhos. São amadoras gentis; frequentemente tornam-se nossas amigas, mas é raro que inspirem o respeito com que olhávamos os nossos empregados domésticos de antigamente”
“Uma criança que passou algum tempo na nossa casa foi um dia surpreendida pela minha mãe a dizer a uma das suas empregadas: – Você não passa de uma empregada! – e foi de imediato severamente repreendida.
– Espero nunca a ouvir falar desse modo com uma empregada. Os empregados devem ser tratados com a maior cortesia. Fazem um trabalho especializado que não saberia fazer senão depois de longo treino. E lembre-se também que não podem responder do mesmo modo.”

28.2.07

Boa companhia para jantar

Claudia Cardinale

Lei-aborto

Ao longo da campanha do referendo do aborto ambos os lados foram moderando posições, com o “Não” a abrir portas a uma despenalização que não tornasse o aborto livre e o “Sim” a introduzir factores moderadores como o aconselhamento obrigatório da mulher. O “Sim” ganhou, mas de forma não vinculativa, o que não lhe retira legitimidade, mas deveria introduzir prudência e bom senso.
Ontem foi entregue a proposta de lei do aborto na Assembleia da República e nela, pasme-se, aparece o aconselhamento como facultativo e apenas a pedido da mulher. Aquilo que foi negado veementemente pelo “Sim” na campanha acabou por acontecer, o aborto passa a ser livre e sem qualquer restrição. O aconselhamento, agitado durante a campanha por eminentes personagens, foi afinal uma mentira para convencer indecisos. As criaturas que apresentaram a lei ainda conseguem o desplante de considerar esta proposta equilibrada e de consenso, algo que só com manifesta má fé se pode dizer. Se esta é uma proposta equilibrada, o que seria então uma proposta desequilibrada perante os resultados do referendo? Aborto aconselhado pelo estado para reduzir custos sociais de crianças nascidas pobres?
Perante tudo isto resta esperar que, numa expressão muito em voga, Cavaco tenha tomates para vetar esta lei. Eu, como pouco espero do homem de Boliqueime e penso que o local que mais o interessa é o próprio umbigo, não acredito. No entanto a ver vamos.

27.2.07

“Cartas de Iwo Jima”, o filme de Clint Eastwood sobre a guerra no ponto de vista dos japoneses, é uma obra-prima daquelas com que de modo cada vez mais raro somos brindados. A intensidade do filme, mantida ao longo de quase duas horas e meia, traduz a guerra sem artifícios, sem a demagogia do sofrimento ou a grandiloquência da memória, a guerra feita por pessoas simples, por muito que as causas que lhe dão origem transcendam os homens que a executam.
A visão da guerra de Eastwood é a dos códigos de honra e dos patriotismos, dos medos, das memórias de quem se deixou, feita de soldados humanos com as suas diferenças e individualismos. A guerra, as guerras, tendem a ser vistas como algo de distante, deliberado por políticos e governantes inacessíveis e executada por robots ao serviço de uma pátria. Habituámo-nos a ganhar um distanciamento televisivo da morte, a torná-la algo de aritmético e estatístico. Esquecemos a guerra como ela é por dentro, com toda a sua humanidade e idiossincrasia.
Não há guerras boas, como não há apenas soldados inimigos maus. Eastwood foca muito da sua visão da guerra neste ponto, o inimigo não é genericamente mau, assim como o americano não é totalmente bom. A guerra pode ter, consoante a visão, um lado que represente o bem e outro que represente o mal, mas não é formada por massas homogéneas de bem e de mal, facto tantas vezes esquecido numa visão simplista da história. Para Eastwood é claro o seu lado na guerra, assim como é clara a diferença de sociedades – bem expressa nos japoneses que estiveram nos E.U.A. –, mas a diferença não implica superioridade e tem raiz na incompreensão, no desconhecimento. Os soldados japoneses ao querer matar o prisioneiro americano não o faziam por pura maldade, mas por não o entenderem como um igual, como um ser humano como eles, na mesma situação que eles, com as palavras escritas para a mãe que eles também escreveram.
Iwo Jima é o exemplo de uma batalha imbecil, onde o destino estava traçado à partida e em que os códigos de honra e patriotismo levaram a uma enorme chacina de seres humanos de ambos os lados. Foi heróica a resistência dos japoneses, mas de um heroísmo sem sentido, pois a morte estava marcada a ferro no seu destino. As vidas foram usadas num combate de números, em nome de um pretenso golpe de marketing para outras batalhas. A insensibilidade com que as guerras são tratadas cria-nos um distanciamento frio, mas por vezes é com um simples filme de duas horas e meia que nos questionamos e que descemos à nossa condição humana, olhando o mundo com outros olhos e a guerra com uma proximidade quantas vezes esquecida.

Ainda há futuro para o grande cinema.


E tem 76 anos.