5.7.07

Lisboa

Uma luz brilhante realça contornos de árvores e do casario. E o Tejo, sempre o Tejo, imenso e largo, num azul mexido por vento e cacilheiros. Os pássaros, tantas vezes ausentes, pousam suavemente nas mesas, pequenos pardais saltitantes que nos distraem, personagens secundárias da estrela costumeira, o universo azul brilhante aos pés de telhados que descem em escada. A beleza absorve o ruído e há um quê de província, de outros tempos, que traz um optimismo cada vez mais escasso.
O fascínio de Lisboa deve-se em muito a sítios quase secretos, quartos escondidos, na aparência reservados a iniciados de uma qualquer sociedade, mas descobertos com facilidade por quem tenha na vida a procura como um fim e, como Corto Maltese, sempre esteja em busca de um tesouro perdido, de mais um tesouro perdido, e como Corto não o faça por um espírito mercenário, mas por um simples querer encontrar.
Dias como hoje, com momentos em refúgios de paz e beleza, fazem crer em Lisboa e suspirar com desesperada ansiedade para que a não estraguem, para que a não tornem numa cidade asséptica e anónima, negação absoluta do que sempre foi a essência de Lisboa.

3.7.07

Admirável Social-fascismo

A sanha persecutória do executivo Pinto de Sousa continua o seu frenético caminho. Depois do professor Charrua e da directora do Centro de Saúde de Vieira do Minho, agora vamos ter controlo sobre a recepção de correspondência pessoal. Esta magnífica ideia vem de uma senhora de nome Ana Maria Correia, coordenadora da sub-região de Saúde de Castelo Branco, que achou por bem emitir uma nota interna onde revela que a correspondência dirigida pessoalmente a determinados funcionários vai passar a ser aberta. Esta medida tem ao menos o mérito de ser feita ás claras, pois, a avaliar o que se vai passando neste alegre social-fascismo, não é de admirar que em muitos serviços públicos já se recorra à tradicional cafeteira de água a ferver para abrir envelopes sem deixar marca.

2.7.07

Tangerina e Pêssego

O dia de praia agradável, um café com o mar aos pés enquanto o sol se encobre com o capacete de algodão vindo de Sintra. O bulício do centro e os turistas, muitos barcos na marina e marinheiros em terra. Uma pequena espera e a escolha dos dois sabores: tangerina e pêssego. No Santini, como é evidente, onde me sinto um infame explorador ao conseguir um pedaço de céu por irrisórios dois Euros. Os gomos de tangerina desfaziam-se sobre as papilas gustativas, o cheiro e sabor do pêssego quase me fazia temer uma lambidela sobre pele de veludo. Não posso reproduzir o comentário que fiz após iniciar o inebriante processo de ingestão, mas posso garantir que melhor do que estes gelados não haverá assim tanta coisa no mundo.

29.6.07

Isto anda bonito

Depois do professor Charrua, agora é a vez da directora do Centro de Saúde de Vieira do Minho ser exonerada por motivos políticos. Terei ouvido falar em povo amordaçado ou em estalinismo? Fosse o governo do PSD e já estariam todos os media urrando pelo regresso do fascismo, como o governo do Sr. Pinto de Sousa é, pretensamente, de esquerda o silencia impera.
No meio do obscurantismo há sempre alguém que resiste e Manuel Alegre já se insurgiu contra a intolerância do governo. As suas palavras são bem reveladoras do estado em que estamos: "Pretendi educar muita gente no PS dentro desse espírito de tolerância, mas, pelos vistos, sem resultados". Será caso para dizer que apesar de tudo ainda há quem saiba, dentro do partido que nos desgoverna, o que é viver em liberdade numa democracia.

Fumos

A senhora Câncio vai ter de continuar a comer com o fumo dos outros, o que me parece bem, nem que seja para que com a irritação escreva as habituais inanidades com ainda mais ênfase. Depois de ler o artigo de hoje no DN fiquei cheio de pena dos seus pipis com fumo em segunda mão de um SG Filtro que alguém possa resolver acender. Claro que, sem querer questionar a capacidade intelectual da senhora, insisto que ela não consegue perceber a diferença entre um local de trabalho e um restaurante ou entre transportes públicos e um café. O certo é que os primeiros não são de frequência opcional, as pessoas têm mesmo de lá ir, ou estar, sem direito de opção, quanto aos segundos eles são locais acessórios, a que não somos obrigados a ir e que podemos, assim como escolhemos sushi ou pastas, optar entre o fumo ou o não fumo. Para mim liberdade é isto, mas porventura terei de rever os meus conceitos, pois se uma tão insigne paladina da liberdade está em desacordo comigo, deverá certamente ser um erro meu.

28.6.07

Haja (alguma) sensatez

O acordar de hoje foi brindado com a mui agradável notícia de que o Parlamento tinha recuado na Lei do Tabaco. As negras previsões de que o fascismo higiénico nos tomaria de assalto, impedindo os fumadores de frequentar restaurantes pequenos (até 100m2), afinal não se concretizaram. Vingou a liberdade dos proprietários poderem escolher se querem, ou não, fumo no seu espaço, ficando assim feita a justiça necessária para que os direitos de fumadores e não fumadores sejam mais equilibrados e que ambos possam ter espaços à sua medida. Os espaços maiores privilegiarão as zonas de não fumadores, o que os tornará muito mais agradáveis sem que com isso impeçam a existência de zonas onde se possa fumar. Tudo isto me parece muito bem, indo claramente de encontro à equilibrada lei espanhola e mostrando que, afinal, ao contrário do que seria de esperar, o ministro Correia de Campos ainda tem lampejos de sensatez.

26.6.07

In Memoriam

No dia em que o senhor Berardo abre, a grandes expensas do Estado, o seu museu, convém lembrar com algumas imagens a magnífica obra, já aqui referida, que o senhor efectuou na Quinta da Bacalhoa em Azeitão.
Sobre a história da quinta não me alongarei, aconselhando para mais informações a consulta do site da DGEMN, apenas gostaria de referir que a Quinta esteve à venda ao longo de três anos, durante quais o Estado português não exerceu o direito de preferência que lhe era devido e após os quais foi adquirida pelo grande mecenas Joe Berardo.
Para melhor legendar as imagens, utilizemos as abreviaturas AB, para Antes de Berardo, e DB, para depois de Berardo.


AB – Num primeiro plano o laranjal em frente, outras árvores à esquerda, vários arbustos e uma enorme sebe à direita. Ao fundo o palácio e a sua loggia.


DB – A vinha industrial em primeiro plano e o palácio e a sua loggia ao fundo.


AB – O jardim de buxo, as trepadeiras, o laranjal, os arbustos, a sebe, e a casa de fresco ao fundo.


DB – O jardim de buxo, a vinha industrial, e a casa de fresco ao fundo.


AB – O jardim de buxo, a sebe e a loggia.


DB – A terraplanagem que aqui aparece destruiu totalmente o sistema hidráulico, de rega por gravidade, que ainda regava o jardim.


Os azulejos hispano-árabes originais foram substituídos por cerâmica industrial.
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As imagens AB foram todas retiradas do site da DGEMN. As imagens DB foram recolhidas por mim em visita ao local no ano de 2001.

24.6.07

A coisa

Os déspotas iluminados que regem a Europa lá conseguiram – a custo, pois parece que os coitados passaram uma noite quase em branco – arranjar maneira de contornar o incómodo de referendos perdidos. A “coisa” passa a chamar-se Tratado, apesar de ser essencialmente igual à mesma coisa chamada “Constituição”, e assim não irá necessitar de ser aprovada directamente pelos incultos povos. Claro que nada disto é dito para já, ficando-se o Sr. Pinto de Sousa por um “não é momento adequado para falar de referendo, vamos esperar que o tratado (a “coisa”) esteja no papel para se discutir”. Quando finalmente a desejada “coisa” aparecer escrita em linguagem jurídica é óbvio que, como afinal até nem é uma constituição, não será impedida no seu iluminado caminho pelo gentio povo. Assim se tem feito a “magnífica” construção europeia, ano após ano num segredo mais bem guardado que as cerimónias maçónicas.

22.6.07

Omnipresença

Começa a ser difícil fugir ao sufocante cerco da presença de Joe Berardo. As OPA´s sucessivas (Sogrape, BCP, Benfica) e a inauguração, na próxima segunda-feira, do Museu com o seu nome inundam a imprensa com notícias e entrevistas. Pena é que todas esqueçam a barbárie que o senhor "comendador" fez na Quinta da Bacalhoa, destruíndo um dos poucos jardins renascentistas portugueses para plantar vinha. Sim, para quem já esqueceu, o senhor até ignorou um embargo do IPPAR sem que isso tivesse consequências. O grande herói português está aí, na modernidade do preto e na arrogância de quem sabe que o dinheiro é poder.

19.6.07

Coisas do tempo

Parece que estamos a chegar ao Verão, anunciado por este inclemente e escaldante sol abrasivo. As praias enchem-se e mais se assemelham a um cheio formigueiro. Os agricultores correm em pânico ao ministério em busca de indemnizações pela seca. Os bombeiros desesperam exaustos pela avalanche de fogos que carboniza a floresta restante no país. Pequenos proprietários choram a perda das suas casas pelas chamas. Os alertas vermelhos sucedem-se na televisão e idosos caem inanimados pelas ruas desertas do Alentejo. A ironia pode até ser uma coisa engraçada, mas afinal que merda de tempo é este?

13.6.07

Uma frase do debate

“Há várias formas de bombardear uma cidade: uma é como os americanos fizeram em Bagdad, a outra é votar em qualquer um dos outros candidatos que concorrem a esta eleição.”
José Pinto Coelho

Datas III

Este magnífico produto – que continua a ser assíduo no meu lavatório – cumpre hoje 75 anos de existência.


Sincero obrigado à família Couto.

Datas II

Fernando Pessoa nasceu há 119 anos.

Fresta

Em meus momentos escuros
Em que em mim não há ninguém,
E tudo é névoas e muros
Quanto a vida dá ou tem,

Se, um instante, erguendo a fronte
De onde em mim sou aterrado,
Vejo o longínquo horizonte
Cheio de sol posto ou nado

Revivo, existo, conheço,
E, ainda que seja ilusão
O exterior em que me esqueço,
Nada mais quero nem peço.
Entrego-lhe o coração.

Datas I


O Santo António de Lisboa morreu há 776 anos.

12.6.07

Boa companhia para jantar


Monica Bellucci

Ao fim da tarde, junto a uma fonte em Alfama, antes de partirmos em busca da sardinha assada.

Belas Agendas

Há a ideia corrente que os ministros são pessoas atarefadas, de agendas preenchidas, com o tempo contado ao minuto durante exaustivos dias de trabalho. Nada mais errado, pelo menos a avaliar pela súbita e pronta disponibilidade do ministro Mário Lino para receber uma dezena de autarcas, preocupados com a mera possibilidade de ver fugir o aeroporto das suas terras. O motivo desta reunião tinha umas escassas doze horas de existência, pelo que podemos concluir que ministro parece estar com falta de trabalho.

11.6.07

Diálogos Imaginários

– Charles, não sei porquê, mas hoje parece-me estar dia de gaspacho. Acha possível improvisar um?
– Com toda a certeza, menino. Já tinha pensado na eventualidade e comprei tomate, pimento e pepino.
– Em definitivo já não concebo uma vida aceitável sem a sua presença, Charles.
– Ora essa, menino. Não diga essas coisas.
– É verdade, Charles. É mais pura verdade.

Será que se tratou?

O ministro Mário Lino veio hoje recuar dizendo que «O Governo continuará a promover todas as acções necessárias ao desenvolvimento do projecto sem tomar qualquer decisão». Muito longe do gritado “jamais” na margem Sul, fica no entanto a dúvida se não será apenas uma manobra de distracção para decidir pela Ota em termos supostamente mais democráticos, é que custa a crer que uma Otomania se cure assim tão depressa.

8.6.07

Consequências da Perigosa Otofobia

Parece que os socialistas, paranóicos com o mais leve sintoma da doença que designam de Otofobia, se preparam para encarcerar para testes psiquiátricos o ex-ministro Augusto Mateus. Ao que consta, o Largo do Rato foi invadido por uma devastadora incompreensão de como “um deles” pode ter cometido o supremo sacrilégio de não louvar a Ota em cânticos de alegria, tendo inclusivamente provocado alguns desmaios a mera menção da hipótese Alcochete. Quando os médicos presentes se preparavam para algumas reanimações, eis que na rádio se concluía a notícia com a referência do ministro ao facto de os terrenos de Alcochete serem do Estado e, como tal, imunes a especulações e interesses obscuros. Nesta altura ouviram-se estridentes gritos de indignação, seguidos de duas ou três apoplexias que justificaram a pronta chamada de ambulâncias. Os porta-vozes do PS não proferiram qualquer comentário devido ao ataque de afonia nervosa de que foram vítimas dado o terrível choque.

5.6.07

O roxo impossível dos Jacarandás de Lisboa.

Lisboa, Junho de 2007

Terapia

Este país anda a dar-me azia. Agora dá-me para só falar de política e acho que estou a ficar um revoltado maçador. O melhor será comprar umas garrafas de Água das Pedras para consumir com avidez, pode ser que em conjunto com o sol, que enfim chegou, mitigue a indignação e acalme a revolta.

31.5.07

Esquerda "Dandy"

Pinto de Sousa que se prepare, pois a esquerda começa a entender-se até nos pormenores mais improváveis. Atentemos em Jerónimo de Sousa e Francisco Louça aquando do debate parlamentar de hoje, vestindo blazers beijes quase dignos, não fora um certo problema no corte, de uma esplanada trendy da Côte d’Azur.

30.5.07

Saudades

A propósito deste post do Réprobo ataca-me um súbito ataque de saudades. Não que me possa intitular de Viriato, já que me não lembro de grandes contendas no meu ano salmantino, mas por recordar a magna “Plaza” onde todos os dias, como num ritual sagrado, passava fosse qual fosse o destino. Reparo na graça dos candeeiros, no estilo rebuscado dos canteiros e do lago, hoje inexistentes, e julgo ouvir a banda tocando um hino solene. Os rapazes lusos estariam decerto emocionados, reconhecidos pelo raro tributo das gentes de Castela. Tudo isto me traz saudade, essa palavra tão felizmente nossa, e faz pensar no post anterior: realmente o que teimamos nós em ver e gostar no nosso país? Acho melhor começar a amealhar uns trocos para a terapia que poderá ser necessária mais breve do que pensava.

29.5.07

Coisas de árvores

Aqui pelas lusas terras foram abatidos sem clemência cerca de 200 plátanos e jacarandás do jardim do Campo Pequeno. Não estava previsto em projecto, não foi discutido a tempo e foi apresentado como facto consumado.
Por terras espanholas o projecto para o Paseo del Prado em Madrid, da autoria do arquitecto estrela Siza Vieira e que previa a destruição de 900 árvores, foi atempadamente apresentado ao público, discutido e combatido, nomeadamente pela Baronesa Thyssen que ameaçou amarrar-se a uma árvore para impedir o seu abate. O arquitecto foi obrigado a descer do seu trono distante, contra vontade, e alterou o projecto poupando as árvores.
Nestas alturas questiono porque ainda vivo em Portugal e continuo, apesar de tudo, a gostar. Idiossincrasias minhas, é o que é.

28.5.07

Lembrete

O ministro Lino usou uma bela metáfora relacionada com o cancro no pulmão e consta que foi aplaudido pelo senhor Pinto de Sousa. Um certo ministro Borrego saiu do governo por causa de uma pequena anedota sobre hemodializados.

Coisas Bizarras

Dar por mim a ouvir Kim Wilde enquanto me abano na cadeira.

Democracias

O magnífico Chavez resolveu – em nome dos valores democráticos, como é evidente – fechar o maior canal privado de televisão da Venezuela. Esperam-se reacções indignadas dos agitadores do costume e manifestações organizadas pelo inefável Bloco. A não ser que desta vez vão discretamente fazer por esquecer resguardando-se no recato do lar, é que aos heróis tudo se perdoa, até a infâmia

A Taça é verde. Bravo!

O Estádio Nacional estava, apesar da falta de sol, magnífico como sempre.
A Taça é verde.
Pode ser Veuve ou Bollinger, desde que fresquinho.
Bravo!

A ler e reter

Sobre a taça e o Sporting.

24.5.07

Delírio

O mais assustador na demência obsessiva de Mário Lino não é um eventual desrespeito pela margem Sul e por quem lá vive, o que é delirante é o facto de o argumento usado funcionar em sentido contrário. A inexistência de infra-estruturas em redor de um aeroporto só facilitará a sua implantação, baixando o seu custo e promovendo ainda o desenvolvimento do “deserto”. Por isso fica a dúvida, terá sido Dão ou Douro?

23.5.07

Anúncio

“Político de grande envergadura, mas baixa estatura, procura emprego consentâneo com as suas habilitações. Resposta para a Rua de S. Caetano.”
Após a notícia da candidatura de Carmona Rodrigues este anúncio será divulgado a curto prazo.

Terá enlouquecido?

O ministro Mário Lino apresentou hoje um argumento definitivo em favor da Ota: «O que eu acho faraónico é fazer o aeroporto na Margem Sul, onde não há gente, onde não há escolas, onde não há hospitais, onde não há cidades, nem indústria, comércio, hóteis e onde há questões da maior relevância que é necessário preservar.»
Ao ouvir isto começo a lembrar-me dos magníficos resorts que rodeiam a Ota, dos famosos hotéis da Abrigada, do enorme hospital de Alenquer, da grande metrópole de Aveiras de Cima, dos Centros Comerciais da Aldeia Galega, das fábricas de Aldeia Gavinha, do perímetro industrial da Carnota. A Ota é um enorme pólo de desenvolvimento e o maior problema da sua escolha é que em poucos anos voltemos a ter um aeroporto no centro de uma grande cidade.
Perante tudo isto fica o espanto, mas resta a hipótese de que, uma vez que a declaração foi feita num almoço, o ministro se tenha dedicado de forma demasiado profunda ao estudo vinícola de Portugal. Assim tudo isto poderia ter algum motivo para sorrir, caso contrário apetece chorar.

22.5.07

Haja esperança

Ouvir ontem, no Prós e Contras, Paulo Varela Gomes e Gonçalo Ribeiro Telles fez-me acreditar que afinal a mediocridade e a acefalia não se generalizou. Infelizmente domina os cargos políticos, mas ainda há quem pense livremente e com ideias, e que ache que isto está a caminho do abismo mas ainda lá não chegou, e que ainda podemos salvar este território cada vez mais mal frequentado. O problema é que são poucos os que os ouvem, poucos os que percebem que aquilo é, de facto, verdade. Daqui a uns anos será a ladainha do costume: que tiveram razão antes de tempo, que eram ideias difíceis de concretizar, que o Lisboa não podia parar, que, que, que. Aí pouco restará de Lisboa, mas que importa isso perante o suposto desenvolvimento.

Não quiseram dia oito…

A nova data das eleições para Lisboa – 15 de Julho – vai ser excelente, pois assim já está definido o grande vencedor das eleições intercalares. Menos de quarenta e cinco por cento já será uma enorme derrota para a abstenção.

21.5.07

A Socratette

Apesar de algumas tentativas em contrário, ainda vai havendo quem tente mostrar que vivemos numa democracia. Isto a propósito da deliberação do Tribunal Constitucional de impedir que a data das eleições para a Câmara de Lisboa fosse a marcada pela Socratette Governadora Civil. Claro que esta magnífica criatura continua a achar que decidiu muito bem, o que a fará, a médio prazo, conquistar uma secretaria de Estado ou afim.

Orwell

Parece que agora temos aprendizes de bufos e tentativas de sanear professores por contar anedotas sobre o nosso Big Brother. A coisa promete. Depois de silenciar os jornalistas quanto ás notícias da sua “não licenciatura”, o nosso Pinto de Sousa – através da sua malta – quer calar o país. Isto anda bonito, anda. Depois ficam espantados do Salazar ganhar concursos.

18.5.07

Uma certeza

O futuro do PSD em Lisboa é Negrão.

Outra certeza

O futuro de Marques Mendes no PSD é Negrão.

Procura-se

Primavera à antiga, sem passar de neve na Serra da Estrela a canícula em Lisboa em apenas três dias.

Teoria da conspiração, ou não.

Chega-me à memória uma notícia com umas duas semanas, em que se dava conta dum projecto do governo de criar uma área especial de intervenção, ao exemplo da Expo98, para a zona ribeirinha de Lisboa. Esta área de intervenção teria uma gestão individualizada, com plenos poderes sobre a Câmara e o Porto de Lisboa. O nome que se falava para dirigir era, curiosamente, José Miguel Júdice.
O grande plano de revitalização da Baixa-Chiado tinha como especialista para a área de arquitectura o mesmo arquitecto que tem uma panóplia de obras em curso, ou em projecto, na cidade de Lisboa, e que curiosamente se chama Manuel Salgado.
Apetece dizer – citando a grande erudita portuguesa da contemporaneidade, Margarida Rebelo Pinto – “Não há coincidências”.

16.5.07

Fogos

O governo da Nação aceitou dispensar o seu número dois em nome dos interesses partidários nas eleições em Lisboa, numa ordem de prioridades que vai sendo costumeira. O que assusta é a irresponsabilidade de dispensar o Ministro da Administração Interna, responsável máximo do combate aos fogos florestais, em meados de Maio, ou seja, mesmo em cima do início da época de risco. Há que esperar que os novos programas de prevenção e combate sejam eficazes, mas o certo é que a face política dos mesmos sai de cena, deixando um limbo de responsabilidades no caso de algo correr mal. Os fogos deveriam ser uma prioridade absoluta e inquestionável do país, pena é que, governo após governo, sejam encarados como uma inevitabilidade e desvalorizados de forma infame.

15.5.07

And the winner is…

Os vencedores dos “Thinking Blogger Awards” deste blog são:

A Origem das Espécies
Bomba Inteligente
Estado Civil
Impensável
Portugal dos Pequeninos


Os prémios serão entregues, em data a anunciar, numa cerimónia com a presença de um representante do Governo Civil.

Agradecimentos II

Corado, e com as habituais covinhas, agradeço o “Thinking Blogger Award” com que a Maria teve a gentileza de me presentear. O smoking felizmente está impecável e preparado para as fotografias da praxe. Lembro que não preparei, como é habitual, discurso. Fiquemos por um singelo obrigado.

Agradecimentos I

Ao Réprobo pelo simpático link para este blog no seu “As Afinidades Efectivas”.

1000


Valerá uma imagem mais do que mil posts?

Convento de las Dueñas, Salamanca 2002

A Canalha

A julgar pela decisão de marcar eleições para uma data que impede legalmente qualquer coligação e que dificulta ao máximo a recolha de assinaturas para candidaturas independentes, o Governo Civil de Lisboa merece um aplauso tão grande que se transforme em sova ou espancamento. A distinta lata de o fazer após se conhecer uma candidatura independente da área do partido do governo que, curiosamente, foi o que nomeou a dita Governadora, torna o facto relevante. Este PS consegue uma impunidade que, após o “affaire” Sócrates, já não espanta, mas no mínimo indigna.
Contra isto é essencial oferecer uma subtil, mas sonora, bofetada de luva branca, angariando as assinaturas que permitam a Helena Roseta concretizar a sua candidatura. Visite o blog “Cidadãos por Lisboa” onde poderá encontrar a declaração de propositura a assinar e os endereços e contactos necessários.

Pena

Estava já a pensar combinar um lanchinho ali para os lados de Santo Antão, visitando o Sr. Brito para umas cervejinhas e talvez uns croquetes, quando me lembro que pela minha teimosa e persistente ligação “à terra” lá me encontro recenseado, o que me impede de contribuir com a minha assinatura para concretizar a candidatura de Roseta. Ficará o lanche para outro dia e o inferno com mais uma boa intenção

11.5.07

Queimados

Antes que cheguem os fogos, Pinto de Sousa resolveu tentar imolar António Costa numa candidatura em Lisboa. Mesmo que ganhe, sairá chamuscado a médio prazo pelo erro de casting que é, e não passará muito tempo até que o sólido número dois passe a embaixador de qualquer coisa no estrangeiro, fazendo companhia a outros notáveis queimados como Carrilho ou Ferro Rodrigues. Pinto de Sousa pode não ser engenheiro, pode até não ser culto, mas parece que andou a ler umas coisas do senhor Maquiavel.

Proto-candidatos

António Costa e Manuela Ferreira Leite são os dois pesos pesados de quem se fala. Grandes escolhas sustentadas num enorme interesse em Lisboa e num conhecimento sedimentado dos problemas da cidade. São projectos e ideias conhecidas, conceitos de cidade e do que ela deve ser, indispensáveis a uma campanha de curta duração sem tempo para grandes estudos. Lisboa ganhará mais um presidente que sabe o que quer, a exemplo de Santana Lopes ou Carmona Rodrigues com os seus projectos sustentados e coerentes para a capital.

Que mulher!



Agatha Christie a fazer surf no Havai.
A fotografia é real e figura na sua Autobiografia.
Uma delícia.

Pesos e medidas

“…Se você mesmo duvida que haja algo especial, faça-se as perguntas que eu sempre me faço: por que o Papa causa mais escândalo e ódio, por que ele é mais vítima de calúnias e idiotices (por exemplo, a foto da capa do Globo de hoje, que o mostra pisando no Brasil com o pé esquerdo e aludindo ao fato) do que outros líderes, digamos, “espirituais”? Já observei que ninguém enche o saco do Dalai Lama por causa do celibato do budismo tibetano. O jejum católico é sinistro, mas o festival de cacetadas que é a prática do budismo zen é supostamente algo profundíssimo. E, é claro, fazer dieta só para ficar muito magro: coisa naturalíssima. Se Al Gore (que até o fim dos anos 90 era o modelo universal de idiota, lembram?) diz que você tem que fazer milhões de sacrifícios em nome da prevenção do “aquecimento global”, tudo bem; mas se o Papa sugere que você seja um cara mais paciente, e não se entupa de comida, ele está ameaçando a sua liberdade. Isso porque ele nem pode passar leis nem cobrar impostos.
Todos os filisteus do mundo odeiam o Papa, e isto é quase uma prova suficiente de que Deus está do seu lado.”
in O Indivíduo

10.5.07

Bravo

Helena Roseta apresentou-se como candidata independente à Câmara de Lisboa. Por aqui já se escreveu sobre a indiferença perante os partidos no que ás autarquias diz respeito, não é preciso memória muito apurada para recordar as calamidades que o “bem intencionado” Abecassis fez em Lisboa, para perceber bem a importância (pouca) da filiação partidária num bom trabalho autárquico. Muito mais importante do que ser de esquerda ou direita é ter um projecto e uma ideia para a cidade. Acredito que Helena Roseta terá essa ideia de cidade para Lisboa e basta que encontre uma equipa adequada para protagonizar um projecto sólido para a capital. Não sei se vai ser a melhor candidatura a ir a votos, mas coloca desde já um patamar de exigência que obrigará os partidos, e outras eventuais candidaturas independentes, a escolher personalidades credíveis.
O espectáculo degradante que os partidos ofereceram em Lisboa – lembremos a saída de Nogueira Pinto, o abandono de Carrilho, a novela da queda do executivo – merecem uma penalização, por isso mereciam que candidaturas independentes ganhassem força e os derrotassem nas urnas. Lisboa não deve ser o palco de irresponsabilidades por parte de partidos em constantes duelos tácticos que nada têm a ver com a cidade. O estado da Câmara é de tal modo calamitoso que será muito mais fácil a candidaturas independentes criar entendimentos que permitam uma governação em estado de emergência para os próximos dois anos.
Adivinho já os comentadores mais cegos a insistirem em ver a política autárquica como um reduto de ideologias (ler interesses) partidárias(os) procurando em Roseta defeitos terríveis que deitem abaixo, quanto possível, a sua candidatura. Assim é sempre, pois os partidos são sempre maus, mas quando surgem movimentos apartidários, ou próximo disso (não esquecer que até ontem Roseta era filiada no PS), há sempre qualquer coisa “terrível” que leva a uma cruzada pela sua destruição. Por isso a nossa democracia assim vai andando, de desastre em desastre, com o mesmo sistema partidário de há 30 anos, com uma média de 35% de abstenção, e com a alegre conivência da nossa “inteligentzia”.

Por Lisboa

A propósito de Lisboa, cheguei, via O Carmo e a Trindade, a esta petição a propósito da destruição das árvores do jardim do Campo Pequeno. Não é coisa pouca deitar abaixo quase duzentas árvores de porte admirável por supostas, por não comprovadas, questões fitossanitárias. Numa cidade em que os espaços verdes vão rareando, é uma indignidade rebentar com um jardim inteiro para depois o reconstruir. Quantos anos passarão até este jardim voltar a ter o aspecto a que nos habituámos?

Aznar e o vinho

Agora que os seus tempos de governo já passaram, Jose Maria Aznar está em grande forma libertária. Este vídeo é absolutamente imperdível.

9.5.07

Diferenças

Mário Lino fez questão de mostrar a diferença em relação a Pinto de Sousa, ele é, de facto, licenciado em Engenharia e está inscrito na ordem. Pena é que em matéria de Ota a obstinação seja comum.

7.5.07

Procura-se

Presidente do partido mais votado nas últimas legislativas, que esteve estranhamente ausente da campanha para as eleições de uma região autónoma – desencadeadas por reacção a uma lei aprovada pelo governo que lidera – onde o seu partido conseguiu um digníssimo resultado de 15% dos votos. Ouço falar em cobardia, mas não creio, talvez “putativa cobardia”, sempre encaixa melhor no perfil.

A quem de interesse

Muito falamos da nossa democracia como já sendo evoluída e consolidada, a quem ainda acredite nisso apenas um número: 15%. Foi esta a percentagem de abstenção nas eleições em França. Por cá, 35% já é tido como um valor razoável. Tudo está de facto bem, na nossa saudável e participada “democracia”.

Jardim

Para desespero do politicamente correcto, Alberto João lá deu mais um “Bailinho da Madeira” a toda a oposição, que triturou com 64% de votos. Falem dos défices democráticos que quiserem, mas que eu saiba na Madeira o voto ainda é secreto, ao contrário de alguns partidos “democráticos” onde ainda impera o braço no ar…

Descoberta do dia

Afinal o PND existe e elegeu um deputado na Madeira. Talvez o senhor Baltazar Aguiar se devesse candidatar a presidente do partido, pois pelo menos conseguiu mais do que o inefável Monteiro vem conseguindo nos últimos tempos: ser eleito.

4.5.07

Lisboa

Politicamente, Carmona parece alguém que já morreu mas a quem se esqueceram de avisar. Qual D. Sebastião em Alcácer-Quibir, Carmona resolve lutar contra todos, no que seria uma atitude de homem, não fora o pequeno facto de, com essa coragem, atirar Lisboa para o absoluto desgoverno. Não deixa de ser um daqueles casos que em abstracto teria graça, mas que na realidade apetece gritar: “tirem esse homem daí”.

Cretinices

A inefável senhora Câncio decreta hoje no DN, com a originalidade de pensamento habitual, que não compreende o escândalo por as coimas por consumo de drogas duras ser mais baixa do que a que se prevê para os fumadores. Segundo a senhora e um problema “elementar” de raciocínio achar que, e cito, “o uso das drogas ilegais é em si um mal terrível, independentemente de só prejudicar quem as usa, sendo impensável que se lhe aplique um castigo menos severo que a quem impõe o fumo de uma droga legal a terceiros.” Obviamente não ocorrerá à senhora Câncio que, talvez por um acaso excêntrico, as drogas duras também levantam problemas de saúde graves. Imagine por exemplo que está num bar e ao seu lado alguém saca de uma seringa para um “chutozinho” de heroína, lá faz o caldo, com emissão de gases por acender o isqueiro que prejudicam a qualidade do ar dos presentes, e injecta o produto. Retira a seringa e, azar seu, leva um encontrão e cai em cima do “drogadito” enfiando a seringa no seu braço. Será que a criatura tem SIDA? É realmente muito mais perigoso para a saúde levar com um bafito de tabaco, obrigado senhora Câncio por me iluminar o raciocínio.

3.5.07

Diálogos imaginários

– Charles, já não sei o que faça com este tempo indefinido. Tanto me apetece vestir só uma camisa de algodão como fico com desejos de uma camisola de lã.
– Está complicado, menino, está muito complicado. O senhor S. Pedro este ano está muito caprichoso.
– Simpático como sempre, Charles, eu diria que ele não anda é bom da cabeça. Já agora, mantenha o cobertor que acrescentou porque hoje dormi muito bem.
– Com certeza, menino.

E agora, Lisboa?

Após a demorada queda do anjo Carmona o que pode esperar Lisboa? Com a Câmara em frangalhos quem quererá pegar nela para governar durante curtos dois anos?
Será difícil piorar a total deriva em que o cacilheiro andou, ainda assim há sempre essa hipótese, infelizmente há sempre a hipótese de ir a pior. E com alguns nomes de que se vai falando…

30.4.07

Ironias

A extrema-esquerda acha intolerável que a liberdade permita que existam cartazes como o do PNR no Marquês. A extrema-esquerda acha intolerável que a liberdade, através da polícia, não permita que os seus jovens representantes invadam e destruam a sede do PNR. A ironia de tudo isto é de uma finesse irresistível. O PNR, que é contra a liberdade de expressão, usa-a para se promover em cartazes racistas. A extrema-esquerda, que se diz a favor da liberdade de expressão, acha que ela tem limites e não devia permitir os cartazes do PNR. Tão longe, contudo tão perto.

Serenidades

Pinto de Sousa continua impávido, Carmona Rodrigues impávido está. E o país segue, numa impávida deriva ética e moral.

República

A comissão para a comemoração dos cem anos da implantação da república quer reconstituir a mitologia republicana. Esperemos que tal não inclua assassinar o Sr. D. Duarte de Bragança ou instaurar uma ditadura de rua sem rei nem roque ás ordens se um Afonso Costa ressuscitado.

26.4.07

Lembrete

Apesar do banho de lixívia branqueadora que inunda o país, convém não esquecer que o caso Pinto de Sousa/UNI ainda não foi de forma alguma esclarecido. Infelizmente, parece que a lixívia é de boa qualidade e as notícias vão desaparecendo, num bom exemplo das conquistas de Abril de que tantos falam. Ao menos a PIDE era mais transparente nas técnicas de silenciamento, mais bruta sim, mas mais transparente.

O 25

O nosso Presidente quer que a comemorações do 25 de Abril sejam diferentes e que os jovens o compreendam. A ideia será louvável, mas enquanto algumas criaturas estiverem vivas será impossível melhorar a visão histórica dos jovens sobre a revolução. Pelo menos de forma séria, já que será difícil de explicar a um jovem lúcido que estimáveis bombistas como Isabel do Carmo ou Otelo tenham sido condecorados pelo Estado e tidos como heróis da revolução. Isto para não puxar muito pela memória de outros admiráveis democratas que por aí andam a defender a liberdade. A deles e dos seus, como é evidente.

Uma vez toureiro, sempre toureiro.

A corrida decorria bocejante, perante a falta de força e bravura dos touros, quando chegou o sobrero da ganadaria de Torrestrella, que substituiu o quarto devolvido por invalidez. Sai à praça César Rincón, toureiro colombiano no final de uma brilhante carreira, em tempos em que o fulgor lhe parecia fugir e em que a banalidade tomava conta das suas faenas. O touro prometia algo, pelo menos algo mais do que os anteriores, e Rincón avançou decidido com a muleta para o lidar. Esta era a sua última corrida em Sevilha, praça de gratas memórias e uma das catedrais do toureio. Iniciou a faena com cites largos, dando toda a vantagem ao touro, toureando com tanta seriedade que os pitons corriam em tangentes ao seu peito. O toureio de Rincón sempre foi de coragem e verdade, sem artifícios de suposta valentia, puro. As primeiras séries com a direita foram canónicas, belas e poderosas. Cheirava a triunfo e a praça gritava olés a acompanhar cada passe sobre um respeitoso silêncio ensurdecedor. Começou uma série com a esquerda, com o toureio dito ao natural, onde o touro ainda mais vantagem ganha perante a exiguidade do pano com que é lidado. Uma vez mais a verdade, que foi tanta que o touro o apanhou e o lançou ao ar qual boneco de trapos, caído desamparado de má maneira e temendo-se o pior. A praça silenciou, num momento sepulcral em que se ouviria um alfinete a cair, e revolveu-se de imediato, em pânico pelo acontecido. De pronto o toureiro foi socorrido pelos bandarilheiros e pelos colegas, pondo-se de pé. Mas cambaleava, e coxeava, e estava aparentemente pronto para seguir para a enfermaria. O público ovacionava a coragem, quando começou a protestar ao ver Rincón tentar avançar para o touro enquanto os colegas o procuravam refrear. Nada explica esta valentia quiçá insana, nada explica o sangue que corre nestas gentes que jogam a vida perante bestas cheias de bravura. Rincón lá se libertou e seguiu para o touro, ainda coxeando, ainda cambaleando, talvez um pouco mais desperto pela água que lhe passaram na cara. A praça estava em convulsão, entre o respeito pela coragem e o medo da inconsciência. O toureiro seguiu tranquilo, com se nada se houvera passado, com passos elegantes em direcção ao touro. Parou, citou, e continuou a tourear como antes, como se a faena aí começasse, arrimado, puro, com o touro a passar de novo à mesma distância do seu peito, com a seriedade respeitosa de quem admira o oponente mas se sabe capaz de se opor a ele. Pela direita e pela esquerda, com uns preciosos ayudados para terminar a faena. O público delirava e vergava-se perante um enorme toureiro, à antiga, um artista de valentia, um dos que melhor junta alguns dos mais essenciais adjectivos de um toureiro: corajoso, sério, artista. Chegava a hora da morte, momento de grande perigo para o toureiro – que tem de se expor para tentar colocar a espada no sítio correcto – e onde se joga o triunfo de uma lide. Rincón perfilou-se e, em vez de entrar a matar, citou o touro para o estocar a receber. A sorte é assim ainda mais difícil e arriscada, e a espada não entrou, batendo em algum osso que se interpôs no caminho. O público aplaudiu a tentativa, em especial por hoje ser raro quem escolhe esta sorte para terminar a faena. O toureiro perfilou-se de novo e, na mesma sorte, chamou o touro e deu-lhe uma estocada inteira e letal, magnífica. O touro morreu de pronto e a praça levantou-se em vibrantes aplausos. Sevilha é praça exigente, mas quando se vê perante o grande toureio recompensa como poucas a sua arte. No dia vinte e quatro a Real Maestranza de Sevilha veio abaixo, pois viu-se perante um toureiro grande, daqueles que escasseiam, daqueles que nos fazem tremer, daqueles que fazem da tourada um momento sublime.

23.4.07

Primaveras

Este país está a fazer os possíveis para que a primavera fulgurante que se vê da janela não tome conta de mim. São as sucessivas trapalhadas do Sousa, as inconsequentes palestras do Silva, as delirantes nomeações do Moura, as previsíveis vitórias do Portas, enfim, esta sensaborona política quotidiana, que apesar de chata nos envolve como claras em castelo e nos tenta fazer esquecer que há um mundo, e até um país, para além disso. Antes de entrar neste estado catatónico opto por fugir um pouco até ao Alentejo, fonte inesgotável de tempo e beleza, tentando ainda apanhar o feérico primaveril dos campos pintados por flores impossíveis. Talvez esqueça o resto do país e consiga assim melhorar os humores pensado apenas em paisagens e pessoas, afinal algo infinitamente mais interessante do que a mediocridade que nos governa.

20.4.07

Tudo normal no reino de Portugal

O governo atira para o ar a hipótese de fazer um aeroporto de recurso enquanto a Ota não é concluída, sem no entanto estudar devidamente outras hipóteses que podiam estar prontas antes e serem definitivas. Nada de grave, afinal, mais milhão, menos milhão, sempre é uma forma de combater o desemprego. E o povo que pague os disparates…

Tudo normal no reino de Portugal I

O magnífico Pina Moura continua a sua caminhada rumo a um poder cada vez mais absoluto. Para além da presidência da Iberdrola, foi agora nomeado administrador da Prisa. Já roça o descaro o percurso profissional deste “socialista”, o que não surpreende numa espécie perigosíssima que é um comunista convertido ao capitalismo. Big brother is watching you…

19.4.07

Boa companhia para jantar


Lauren Bacall

Ainda a Páscoa da cidadania

A montanha Independente pariu um rato silencioso, sem rasto da bomba anunciada. Um dia de adiamento e parece que o fogo se apagou do rastilho, uma vez mais de forma normal, como tudo o resto. Esperemos uns tempos, até que a poeira assente, e veremos um Fénix Independente a renascer das cinzas com um subtil beneplácito do governo. Com tanto silenciamento, qualquer dia o Sousa não pode sair à rua sem que alguém lhe venha cobrar algo. Sim, porque estas coisas pagam-se, mais dia, menos dia.

17.4.07

O Homem-Duplicado

Duas notas biográficas, dois certificados de habilitações, dois professores, dois reitores. Será que ainda vamos descobrir que tem dois cursos?

O Estado do Sítio

Nota introdutória:
Esta é uma circular interna dos serviços de manutenção da Estação Florestal Nacional (EFN), organismo pertencente ao Instituto Nacional de Investigação Agrária e das Pescas (INIAP), por sua vez dependente o Ministério da Agricultura, do Desenvolvimento Rural e das Pescas (MADRP).
Este documento não me chegou via cadeias de e-mails, foi-me enviado por alguém que trabalha nesta instituição e que ficou estupefacto com o seu conteúdo. O nome foi do remetente omitido.

"EDIFÍCIO EFN

De: *****
Para: EFN ‑ Oeiras
Data: 04-04-2007
Assunto: MANUTENÇÃO – SUSPENSÃO do CONTRATO de LIMPEZA


Informação/Solicitação

Conforme Nota interna da Direcção, ficámos a saber que apesar dos esforços e iniciativas efectuadas para o evitar, foi mesmo suspenso no dia 02 de Abril, segunda-feira, o contrato de limpeza do edifício EFN.
Embora continuem as iniciativas para repor a normalidade, dada a relativa gravidade da situação e desconhecendo-se a sua duração, impõem-se algumas alterações relativamente aos hábitos e regras vigentes, que minimizem os efeitos desta alteração nas condições de utilização do edifício:

PROCEDIMENTOS NECESSÁRIOS

-- Assegurar a limpeza do seu próprio gabinete.
-- Assegurar e utilizar o seu próprio “kit” de higiene (ex.: Papel higiénico, sabonete, toalha de rosto).
-- Ser responsável por todo o seu lixo até o depositar nos contentores públicos (ex.: Lixo da papeleira do gabinete, pensos higiénicos, toalhas de papel. etc.).
-- Redobrar os esforços no sentido de manter limpas as casas de banho.

Os melhores cumprimentos de

MANUTENÇÃO "

PS: De notar que antes desta circular foi proposto que cada trabalhador/investigador contribuísse com 5 Euros para efeitos de limpeza.

12.4.07

O aborto da lei

Cavaco cumpriu o que seria de esperar, promulgou a lei do aborto com uns tímidos e irrelevantes comentários. O umbigo continua a ser a sua maior obsessão e o país que dele não espere qualquer coisa de útil e afirmativa.

Trapalhices 7 – Esclarecimento 1

1 – 0: Lançar notas em Agosto e passar diplomas a um Domingo é algo perfeitamente normal no funcionamento de uma universidade.

2 – 0: É indigno pensar que as universidades peçam Certificados de Habilitações para aceitar inscrever um aluno e fazer o seu plano de equivalências.

3 – 0: Qual será o problema de o mesmo professor leccionar quatro cadeiras no mesmo curso, tal fará parte das boas práticas de uma universidade que funcionava de forma excelente.

4 – 0: Guardar duas fichas biográficas semelhantes, das quais uma foi rasurada, é frequente entre políticos, há sempre uma preocupação para que tudo fique devidamente registado, até os enganos.

5 – 0: A Independente funcionava de forma exemplar, facto atestado por toda a óbvia lisura do processo do Sr. Pinto de Sousa.

6 – 0: O título de Eng. é uma designação social sem qualquer importância, ainda menos para quem tirou o curso sem nunca pensar exercer.

7 – 0: As declarações de Pinto de Sousa eram de tal modo importantes e bombásticas que foi preciso esperar vinte dias, e que se decidisse sobre a Independente, para podermos ter o privilégio de as ouvir.

7 – 1: Pinto de Sousa comprometeu-se a realizar um referendo sobre a Europa, ainda que o iluminado de Belém o não julgue necessário.

10.4.07

Presunções

Enquanto o senhor Pinto de Sousa não reaparece do seu laico retiro pascal, a partir do qual se presume que ressuscite na entrevista de amanhã, as notícias vão chegando sobre as suas pequenas fraudes académicas. Hoje é relembrado (via Rádio Clube Português) que, nas biografias oficiais da Assembleia da República de 1993, Pinto de Sousa já surge como licenciado em Engenharia Civil, isto três anos antes de ter concluído a sua presumível licenciatura na Universidade Independente. Ao ano de 93 parece – porque em tudo isto já só podemos falar de parecer e não de ser – que Pinto de Sousa era bacharel pelo Instituto Superior de Engenharia Civil de Coimbra e parece – uma vez mais parece – que só por esta data terá frequentado o Instituto Superior de Engenharia de Lisboa e a Universidade Independente, na qual obteve o presumível diploma em Setembro de 1996. Como a Assembleia ás vezes falha, e pode ter feito um erro de (guterrista) simpatia, teremos de recorrer ao Diário da República, um pouco mais credível, para detectar que em Outubro de 1995, um ano antes da presumível conclusão da licenciatura, o Secretário de Estado Adjunto Ministério do Ambiente surge, no decreto de nomeação para o Governo de António Guterres, com o título académico de Engenheiro. Com tanta presunção e tanto parecer, esta história só pode mesmo ser fruto de uma presumível teoria da conspiração, pelo menos assim parece.

9.4.07

.


La Pedrera, Barcelona, 2006

Descoberta do dia

Mariano Gago afinal existe, e até apareceu em público a anunciar o encerramento de uma universidade.

4.4.07

(in)verdade

Licenciado, ou talvez não, só espero que não venham falar de inverdades que com essa palavra até posso começar ao estalo a quem me aparecer à frente. Há coisas que ou são ou não são, verdade como é evidente.

Ao Sr. Pinto de Sousa

Mentir, qual é a importância de um governante mentir, afinal fá-lo todos os dias, quer em campanha eleitoral, quer nos cargos que desempenha. Mentir, qual é a importância de mentir, afinal foi eleito pelo povo que lhe paga o ordenado e agora protesta. Mentir, qual é a importância de mentir, afinal é uma figura de Estado que nos representa. Mentir, qual é a importância de mentir, serão preciosismos nossos, a verdade nada importa no mundo de hoje. Mentir, qual é a importância de mentir, carácter, o que é isso e para que serve, qual a utilidade? Mentir, qual é a importância de mentir, o senhor não será Engenheiro e usou o título por anos. Mentir, qual é a importância de mentir, terá feito passar-se por quem não era, por algo que não fez e a que não tinha direito. Mentir, qual é a importância de mentir, afinal só deixou que a coisa se alastrasse ao longo de anos. Mentir, qual é a importância de mentir, exames feitos aos Domingos são normais. Mentir, qual é a importância de mentir, faltam carimbos nas pautas. Mentir, qual é a importância de mentir, foi descoberto e não acha necessário esclarecer o povo? Mentir, qual é a importância de mentir neste país onde tudo começa a ser possível.

Estratégia

Primeiro as escolas, depois os hospitais e agora fala-se nos tribunais, o governo do Sr. Pinto de Sousa põe em prática uma rigorosa política de contenção de custos que leva ao encerramento dos serviços públicos no interior do país. Para quem acusa – como eu – os governos de falta de estratégia, surge a surpresa com a resolução deste de por em prática uma concertada e pensada estratégia para o país, a saber: abandonar o interior que pouco interesse tem e apostar claramente nas cidades onde está a maior parte da população. De falta de estratégia não os podemos acusar.

3.4.07

Heróis do blog


Corto Maltese, por Hugo Pratt

Parabéns

A Bomba Inteligente faz hoje uns incríveis quatro anos de presença indispensável na blogosfera. Para comemorar aqui vai um revival com a “discreta” Cindy Lauper e “Girls Just Want to Have Fun”.

27.3.07

Ota II

Quanto mais se fala da Ota mais se percebe a cegueira e fraqueza de argumentos de quem a defende.

Grandes Portugueses IV

Terá sido impressão minha ou Odete Santos coçou animadamente o soutien durante o programa? E era bege.

Grandes Portugueses III

A indignação geral parece ter ficado pelo primeiro lugar, pois parece ser perfeitamente normal que Cunhal tenha vinte por cento dos votos e fique em segundo. A importância desse grande português ficou expressa no comentário final de Odete Santos: “Isto é uma apologia do fascismo o que é proibido pela constituição”. A censura para esta gente só é má quando vai contra os seus interesses, poucas frases serviriam tão bem para explicar que, em matéria de liberdade, Salazar e Cunhal são duas faces de uma mesma moeda. E eu que teimo em me maçar terrivelmente com esta moeda.

Grandes Portugueses II

A conclusão do concurso é que Salazar ganhou, em grande parte, devido ao salazarismo da RTP que excluiu o seu nome da lista inicial, ao mesmo tempo que incluía gente igualmente infrequentável como Cunhal. A partir daqui foi uma avalanche de votos úteis para impedir que ganhasse Salazar ou Cunhal. Talvez Rosado Fernandes tivesse razão ao dizer que foi um voto de protesto no triste Portugal pós-Abril, mas mais triste ainda é verificar que tanta gente dá importância ao nosso miserável século vinte, cem de anos dos quais temos motivos para ter a maior das vergonhas.

Grandes Portugueses II

A conclusão do concurso é que Salazar ganhou, em grande parte, devido ao salazarismo da RTP que excluiu o seu nome da lista inicial, ao mesmo tempo que incluía gente igualmente infrequentável como Cunhal. A partir daqui foi uma avalanche de votos úteis para impedir que ganhasse Salazar ou Cunhal. Talvez Rosado Fernandes tivesse razão ao dizer que foi um voto de protesto no triste Portugal pós-Abril, mas mais triste ainda é verificar que tanta gente dá importância ao nosso miserável século vinte, cem de anos dos quais temos motivos para ter a maior das vergonhas.

Grandes Portugueses I

Este fim-de-semana os grandes portugueses estavam nas Selecções Nacionais de Futebol e Rugby. A primeira fez uma belíssima segunda parte e massacrou com arte (ai o golo do Quaresma!) os toscos belgas; a segunda conseguiu tornar-se a única selecção amadora a participar na fase final da Taça do Mundo de Rugby. É caso para dizer: “Brava Dança dos Heróis”.

Admirável Governo Novo – Obras Públicas

O ministério dos projectos estruturantes teve o rasgo de apresentar dois projectos de unidade nacional, a OTA e o TGV. A Ota foi o mais ponderado e estudado projecto deste governo, anunciado como um compromisso político do mesmo e pessoal do ministro. Foram inúmeros os estudos comparativos com outras localizações e vastas as análises de cenários alternativos, sendo que após longa ponderação se chegou à Ota. Não é perceptível a crítica, que se começa a generalizar, de que o projecto foi anunciado antes de ser estudado, pois o ministro não iria, por certo, incorrer em tão bárbaro erro. Critica-se também a posse dos terrenos onde o aeroporto será construído – que muitos dizem ser de gente ligada ao PS ou a grupos de pressão ligados ao partido –, crítica soez a que o governo bem fez em nem sequer lhe dar resposta, ignorando olimpicamente todos os boatos sem esclarecer o facto. Quanto ao facto do aeroporto esgotar a sua capacidade em vinte anos, é facto de menor importância perante a relevância do Projecto.
O TGV foi algo incompreendido pela população, pois será uma obra vital para ligar o país, nomeadamente os grandes centros que são os que interessam. A queda do comboio na linha do Tua demonstrou, uma vez mais, que o interior deveria ser abandonado e que o TGV será um óptimo veículo para uma maior litoralização do país em grandes centros urbanos. A ligação a Espanha é apenas um pretexto, pois o mais importante é ganhar meia hora no trajecto Lisboa-Porto, tempo que justifica plenamente os milhares de milhões a investir no projecto.

23.3.07

Mentir

Diz que Sócrates afinal não é Engenheiro, parece que a teia da Universidade Independente destapou um erro no curriculum no nosso primeiro-ministro que se intitulava de algo a que não tinha direito. Perante o silêncio dos jornais, a blogosfera fervilha de comentários sobre o assunto. Para mim é indiferente que o homem tenha ou não um canudo, pois esta obsessão portuguesa pelos títulos – por certo reminiscência de um problema mal resolvido com a ausência de monarquia e dos títulos nobiliárquicos – passa-me muito ao lado. O que não podemos esquecer é que, a ser verdade o que se diz, alguém incluiu no curriculum do homem algo a que não tinha direito e isso, independentemente das voltas que dêem ao assunto, é mentir. Ora, apanhar um primeiro-ministro numa clara mentira já me parece de invulgar importância. Quantas pessoas poderiam perder o seu lugar de trabalho por mentir no curriculum? A questão não é se o homem tem ou não canudo, a questão é que ele, ou alguém por ele, mentiu, e isso é grave.
Agora que parece perder o título ficamos sem saber como nos dirigir ao homem, continuaremos a usar o segundo nome próprio (Sócrates) – estilo senhor João, o homem do talho – ou passaremos a usar os apelidos para o tratar por senhor Pinto de Sousa?

22.3.07

Admirável Governo Novo – Cultura

A cultura é a área que gostaria de destacar como uma das mais importantes e conseguidas neste governo. A ministra da tutela tem passeado a sua enorme craveira intelectual e faro político conseguindo um mandato até agora digno dos maiores aplausos. A “grande obra” que foi conseguir alugar, por um preço um pouco elevado – é um facto –, a colecção de arte contemporânea do grande mecenas Berardo, destinando-a ao CCB, tornou-se o farol da sua actuação, numa medida que ainda por cima esgota a subaproveitada capacidade do CCB, facilitando assim a sua gestão com uma colecção permanente. A decisão foi corajosa, especialmente num ministério onde não abunda dinheiro – apesar do pagamento das jóias roubadas na Holanda – e onde os museus (de Arte Antiga e do Azulejo) têm alas fechadas por falta de dinheiro para pessoal. Finalmente temos um Ministro da Cultura que dá o adequado relevo à modernidade, mesmo que para isso tenha de ir contra “Vacas Sagradas” e “Velhos do Restelo” que insistem, disparatadamente, na importância do património histórico.
No capítulo das artes a ministra teve ainda duas intervenções vitais para o país: despedir Paulo Pinamonti, o director do Teatro S. Carlos que insistia em o tornar europeu esquecendo “a prata da casa” que tão bons resultados havia apresentado nos anos anteriores, optando assim por um teatro de ópera mais nosso e menos pretensioso; a gestão do caso Rivoli, um exemplo de compreensão perante os protestos de uma grande companhia de teatro que se viu sem os apoios, a que indiscutivelmente tem direito, para fazer teatro de vanguarda. A importância para o país da sobrevivência do teatro independente é enorme, e as críticas por falta de público uma óbvia barbárie intelectual própria de países subdesenvolvidos.

A arte do toureio

O genial Rafael de Paula, ou como tornar o toureio numa dança de coreografia imprevisível.

21.3.07

Pais (des)ordenado

Anda tudo muito admirado e chocado com o avanço do mar nas zonas da Caparica, assim como se admiram com as cheias ou com os gigantescos fogos por este país fora. A ninguém ocorre que a culpa não é do pobre mar, que tão agradavelmente nos banha nos dias de verão, mas da cambada de irresponsáveis que nos desgoverna há demasiados anos com uma criminosa política de desordenamento do território. Os mesmos que agora se indignam com os prejuízos – e atiram responsabilidades para outrem – são os mesmos que em nome do desenvolvimento, palavra sagrada que veneram, têm cometido as maiores atrocidades pelas terras deste país. Atirar com empregos para a população, mesmo que normalmente vinda de fora, é quase sempre argumento seguro para infringir as leis e construir, modificar ou destruir. O país por infelicidade não pode falar, gritar ou urrar de dor, e assim se vai arrasando com o que resta, com a displicência de quem espanca a mulher e a seguir se senta a beber um sossegado café. Depois a culpa é do mar, do sol, do vento, das intempéries, de tudo o que não tenha factor humano, pois esse, para estas criaturas, é sempre perfeito.