12.10.07

Censura?

Uma vez mais, um texto de Ferreira Fernandes para o DN: “A Censura que já tarda”.

“O espanhol, homem qualquer, sem dinheiro ou influências que fazem os abusos serem pagos caro, foi abusado pela modernidade. Pela Internet, que trouxe mais liberdades a todos, até aos canalhas. O espanhol tem um filho esquizofrénico, já quarentão, que por vezes faz tristes figuras que provocam risos alarves. Mas a proximidade do bairro e o freio dos homens bons ajudavam a que o insulto se circunscrevesse a alguns irresponsáveis. Agora, não foi assim. Uns energúmenos puseram no YouTube imagens do esquizofrénico a fazer de índio sioux. O pai, que esteve décadas a aguentar risinhos à socapa, desta vez acha que é de mais. O chegar a todo o lado e a irresponsabilidade que o YouTube permite deixam o espanhol impotente. Claro que este caso (e outros e outros que vão repetir-se) irá obrigar a antídotos. Nessa altura vai dizer-se que há censura. E eu digo: que já tarda. Porque me agrada a censura que interdita que me cuspam na rua.”

10.10.07

Delírios de quase Outono

Bárbaras barbaridades barbarizam a nossa já barbarizada existência.
Tornamo-nos selvagens para selvaticamente combater na bárbara selva, ou
aguardamos serenamente apelando à serenidade dos selvagens não serenos.
Serenar a selva bárbara é tarefa à medida de uma epopeia e isso,
isso é coisa de tempos antigos.

9.10.07

Blog de página em preto

Falta motivo, falta assunto, falta vontade. O blog segue preguiçoso e a meio gás. Ainda não chegou o Inverno do frio e das braseiras, justificação para indolências caseiras. O calor que segue não justifica tanto desinteresse, tanta preguiça. O país está chato e eu por arrasto estou chato, e para evitar chatear os outros não escrevo. Poupo-os assim a longas dissertações sobre religião, receitas novas experimentadas, vontade de recuar aos tempos de Nancy Mitford ou análises comparativas entre jardins barrocos e o absolutismo. Poupo-os também a pormenores de casamentos, do último e magnífico “Bourne”, do bem que sabem os Gin Tónicos antes de jantar e da crescente vontade de viajar. Poupo-os às minhas preocupações com os arboricídios e à vontade que tenho de conhecer a nova Catedral de Fátima. Poupo-os, no fundo, a textos comezinhos e provincianos, com origem na provinciana Lisboa onde se consegue provar vinhos no “El Corte Inglés” com um desconhecido e voltar a encontrá-lo no IKEA no dia seguinte. No fundo, poupo-os a ver que estou cada vez mais como o meu país: calmo, chato, ensimesmado e melancólico.

4.10.07

Ai que festa que aí vem!

Diz que amanhã é feriado, um data efusivamente comemorada pelo povo, que acorre em massa às ruas, ano após ano, celebrando em festas ruidosas e intermináveis. Torna-se impossível circular no meio das frenéticas manifestações republicanas, com hordas de jovens de bandeira verde e encarnada em punho, gritando a plenos pulmões a “Portuguesa”, alternada com insultos furiosos a El-Rei D. Carlos. Para lembrar a efeméride, tão grata aos portugueses, deixo um pequeno poema de João Ferreira Rosa, com a promessa de o tentar incluir mais tarde na forma de música.

"Portugal foi-nos roubado"
Portugal foi-nos roubado
há que dize-lo a cantar
para isso nos serve o fado
para isso e para não chorar
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Cinco de Outubro de treta
o que foi isso afinal?
dona Lisboa de opereta
muito chique e por sinal
.
Sou português e por tal
nunca fui republicano
o que eu quero é Portugal
para desfazer o engano
.
Os heróis republicanos
banqueiros, tropa, doutores
no estado em que ainda estamos
só lhes devemos favores
.
Outubro Maio e Abril
cinco dois oito dois cinco
reina a canalha mais vil
neste branco verde e tinto
.
Sou português e por tal
nunca fui republicano
o que eu quero é Portugal
para desfazer o engano!
.
(João Ferreira Rosa)

2.10.07

Hoje

As brumas sobre o verde lembram um lago irlandês rodeado de tranquilidade e harmonia. A humidade matinal abre o apetite. De dentro da pequena casa de janelas encarnadas sai um fumo que cheira a pinho e a cozinhados. Os pratos chegam com feijão e enchidos, colocados entre chávenas cheias de chá quente. Ouvem-se risos fraternos e a comida vai saindo alegre dos pratos. O calor rivaliza com a humidade ainda fria que entra pelas janelas abertas. Aos pouco vislumbram-se as árvores da pequena ilha do lago. Surge uma imagem turva do campanário lacustre e ouvem-se ao fundo as onze horas.

Supremo gozo

Na posta anterior esqueci-me, imperdoavelmente, de destacar o maior gozo proporcionado na noite de Sábado. Muitos foram os Barões a urrar, mas o mais sonoro agonizar foi da enorme carpideira Paula Teixeira da Cruz. E o que eu gostei de a ouvir magoada, entristecida, revoltada, aviltada, indignada com a maçada que é a democracia e que, pobrezinha, decidiu contra ela. A sua intervenção parecia de um miúdo de doze anos que acaba de perder um jogo de futebol e que nega, veementemente e a pés juntos, o resultado, acusando um amigo de o rasteirar, outro de jogar com a mão e ainda o guarda-redes de tirar a bola de dentro da baliza ocultando um golo.
Teixeira da Cruz representa quase tudo o que me afasta de um político: a suprema arrogância, o desprezo pela opinião contrária, a desonestidade intelectual, a ostensiva falta de educação, a utilização de uma forma tão afirmativa que esconde o conteúdo (logo as ideias). Por isso gostei tanto de a ver perder, o que eu gostei de a ver perder e mostrar que nem isso é capaz de fazer com o mínimo de dignidade, elevação e educação.

1.10.07

Que gozo

A vitória de Menezes encheu a minha noite de Sábado de um enorme gozo e felicidade. Dizia-se que o PSD era um partido dominado por Barões, que tinham de facto o poder de eleger e deitar abaixo líderes. Estes Barões enfatuados davam sempre e em qualquer ocasião a sua opinião, nunca dando o nome para nenhuma eleição que não fosse seguro ganhar. Espalhavam assim a sua magna influência, deixando amiúde líderes a carbonizar em lume brando, até ser a altura certa de avançarem com outro que os substituísse. Tudo, como é evidente, dentro do estrito controlo das suas influências. Mendes tinha esse caminho traçado, aguentar o partido na oposição – fase muito maçadora para os Barões pela falta de poder – até que, com a hipótese da vitória, surgiria um outro “Messias” para colher os louros, o poder, e os importantes lugares na máquina do Estado. As coisas estavam todas encaminhadas pelo “Sistema” e o pobre Mendes, pessoa bem intencionada e de aparente seriedade, preparado para aquecer os motores para o próximo presidente. Eis que surge o persistente Menezes a candidatar-se outra vez, perante o nojo distante dos ditos Barões, olhado com desprezo pela sua falta de linhagem política e inveja pelo excesso de linhagem aristocrática. Os Barões estão em transe e o que poderia ser melhor para o país do que ver os ditos aos saltos como ovos na frigideira, brandindo agora, que elas lhe foram desfavoráveis, contra as directas que ainda tentaram manipular por terras do Paraná.
Menezes será bom, ou mau, o que para o meu gozo actual é indiferente. Mendes podia ser mais credível, mas era inexistente como oposição ao Pinto de Sousa que até já devia andar maçado com a falta de luta. Não imagino Mendes nem Menezes como primeiro-ministro, mas pelo menos imagino Menezes a dar mais trabalho a Pinto de Sousa e a fazer melhor oposição. Agora, o grande gozo mesmo é ver os ditos Barões em fúria. Que delícia! Que delícia!

27.9.07

Da bola

Felicitações o senhor Padre Pereira, pela grande proeza terrena do seu Fátima. Terá por certo invocado S. Jorge na luta contra o Dragão. E que invocação!

Grande Santana

A SIC ficou incomodada com a atitude de Santana Lopes de abandonar o estúdio a meio de uma entrevista. O que a SIC esquece, procurando, em vão, defender-se à luz de critérios jornalísticos e da oportunidade do directo, é que, gostemos ou não, Santana Lopes é ex-Ministro, ex-líder do PSD e ex-Primeiro-ministro. Se isto não é motivo para algum respeito, gostaria de ver a SIC fazer o mesmo a Mário Soares ou a António Guterres. Claro que se o directo fosse de um atentado terrorista, ou de uma queda de um avião, ou da erupção de vulcão, se justificaria qualquer incómoda interrupção, mas a reportagem em directo da chegada de um treinador de futebol a Portugal, despedido já há alguns dias da sua equipa, parece-me, como bem disse Santana, digna de um país de loucos. Nada que não desconfiássemos, mas que ontem bem foi evidenciado por Santana. A sua atitude foi mais do que justificada e bom seria que mais gente no país tivesse esta coragem, talvez assim o jornalismo miserável que por aí grassa melhorasse um pouco.

26.9.07

Deliciosa Demagogia

O Pinto de Sousa anda por aí a apresentar propostas universais contra a pena de morte, o que seria uma muito louvável, ainda que inútil, iniciativa. A perplexidade que me assalta é que parece ser o mesmo Pinto de Sousa que recusou receber o Dalai Lama – pelas suas atitudes contra a China onde, curiosamente, existe pena de morte e foram executadas, em números oficiais, 1010 pessoas em 2006 – e se prepara para receber Mugabe, esse paladino dos direitos humanos.

Descoberta do dia

Parece que o PSD está em eleições e que os candidatos se chamam Mendes e Menezes. Não fora o beliscão que acabei de dar a mim próprio e pensaria estar a acordar de um pesadelo.

24.9.07

Para pensar

Não querendo copiar as postas semanais de João Távora, no Corta-Fitas, com os evangelhos de Domingo, não poderia deixar de postar o evangelho de ontem que, pela sua complexidade de interpretação, proporcionou uma das mais interessantes homilias que foi dado escutar nos últimos tempos. Pena que não tenha sido seguida de uma mesa redonda para poder tirar algumas dúvidas e aprofundar alguns temas.
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“Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Um homem rico tinha um administrador que foi denunciado por andar a desperdiçar os seus bens. Mandou chamá-lo e disse-lhe: ‘Que é isto que ouço dizer de ti? Presta contas da tua administração, porque já não podes continuar a administrar’. O administrador disse consigo: ‘Que hei-de fazer, agora que o meu senhor me vai tirar a administração? Para cavar não tenho força, de mendigar tenho vergonha. Já sei o que hei-de fazer, para que, ao ser despedido da administração, alguém me receba em sua casa’. Mandou chamar um por um os devedores do seu senhor e disse ao primeiro: ‘Quanto deves ao meu senhor?’. Ele respondeu: ‘Cem talhas de azeite’. O administrador disse-lhe: ‘Toma a tua conta: senta-te depressa e escreve cinquenta’. A seguir disse a outro: ‘E tu quanto deves?’ Ele respondeu: ‘Cem medidas de trigo’. Disse-lhe o administrador: ‘Toma a tua conta e escreve oitenta’. E o senhor elogiou o administrador desonesto, por ter procedido com esperteza. De facto, os filhos deste mundo são mais espertos do que os filhos da luz, no trato com os seus semelhantes. Ora Eu digo-vos: Arranjai amigos com o vil dinheiro, para que, quando este vier a faltar, eles vos recebam nas moradas eternas. Quem é fiel nas coisas pequenas, também é injusto nas grandes. Se não fostes fiéis no que se refere ao vil dinheiro, quem vos confiará o verdadeiro bem? E se não fostes fiéis no bem alheio, quem vos entregará o que é vosso? Nenhum servo pode servir a dois senhores, porque, ou não gosta de um deles e estima o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro».”.Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas, 16,1-13».”
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Evangelho segundo São Lucas 8, 4-15

Four ages of life

Edvard Munch, 1902
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O Impensável fugiu, subtilmente , a uma ruidosa festa que comemorasse os seus quatro anos de idade, ainda assim, e apesar de atrasado, gostaria de lhe deixar esta pequena tela. Não sei se gostará de Munch, apesar de estar quase certo que sim, mas daria muito trabalho descobrir um adequado e obscuro pintor nórdico com temáticas inspiradas em Bergman.

21.9.07

A Prova

As declarações de Pinto de Sousa nos E.U.A. são a prova que faltava sobre a injustiça da acusação sobre favorecimento na conclusão da sua licenciatura, nomeadamente no que refere à disciplina de inglês técnico. Caso para dizer que Portugal é mesmo um país de “bad tongue” e de “very invejuous people”.

19.9.07

Esperemos que de alegria!

O meu intenso fim de tarde desportivo, em Alvalade para o Sporting – Manchester United, tentando acompanhar a primeira parte do jogo dos “lobos” contra a Itália no Mundial de Rugby.

Tristeza

Hoje é o dia em que um regicida – Aquilino Ribeiro – entra no Panteão. Depois das condecorações a bombistas – Otelo e Isabel do Carmo –, mais um passo que o país dá em direcção a um abismo de dignidade e respeito pela história.

18.9.07

Sobre a "nossa" hipocrisia

Com algum atraso, aqui fica um artigo de Ricardo Costa no Diário Económico do qual já tinha ouvido falar, mas que só hoje tive oportunidade de ler. Vale a pena.
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Um hino à hipocrisia
"Portugal teve mais orgulho em quinze pessoas que nunca foram apoiadas do que em toda uma indústria subsidiada (e, já agora, falida) que é o futebol.Ricardo CostaDevo ser dos poucos portugueses que não ficou espantado com as imagens dos jogadores da selecção nacional de râguebi a cantar o hino nacional. Conheço o jogo, tenho filhos que praticam este desporto e sei que toda a actividade do râguebi português gira em torno de boa-vontade, empenho, dedicação e sacrifício. Há ainda características próprias do jogo, que o distinguem de muitos outros, e que fazem de cada partida um “tudo ou nada” em que o colectivo pura e simplesmente apaga a mais ténue vontade de individualismo e fica à vista de todos.
Foi a absoluta “verdade” das imagens que espantou o país. Já ninguém canta o hino daquela maneira, muito menos sem ser a fingir. Portugal ficou a saber que por cá se joga râguebi e que uma equipa de médicos, advogados, estudantes, veterinários (etc) aguenta 80 minutos de pressão total contra alguns dos melhores profissionais do mundo. E ficou a saber isso, quando ainda estava a digerir a descoberta de Nelson Évora e a confirmação de Vanessa Fernandes. Descobrimos isto tudo e descobrimos também que os nossos campeões de atletismo treinam em Espanha porque não temos uma única pista coberta e que a selecção de râguebi treina, muitas vezes, às seis da manhã antes de ir para o trabalho!
Tudo isto somado às miseráveis exibições da selecção de futebol (o desporto de que mais gosto e que mais alegrias nos dá, isso é indiscutível) e à agressão de Scolari mostram que não existe em Portugal um mero rascunho de política de Desporto. Já aqui o escrevi e repito: uma verdadeira reforma estrutural seria implodir o estádio do Algarve, juntamente com o de Leiria e o de Aveiro. E quem devia pagar a dinamite da implosão era o actual primeiro-ministro e o José Luís Arnaut. Só a partir daí é que se pode fazer alguma coisa estrutural.
O que o hino de St. Etiénne nos disse, de forma transparente, foi que, em poucos segundos, Portugal teve mais orgulho em quinze pessoas que nunca foram apoiadas do que em toda uma indústria subsidiada (e, já agora, falida) que é o futebol. Para citar Luís Amado (que teve esta semana um ataque súbito de ‘realpolitik’), tudo isto acontece pelas “razões conhecidas”. E as razões conhecidas são uma mistura de vistas curtas e de hipocrisia.
Agora, já vamos construir uma pista coberta e de certeza que a malta do râguebi vai levar medalhas em Belém e louvores em São Bento. Emenda-se a mão onde se pode, mas nada muda. É um pouco como a triste história do Dalai Lama: a China pede, e nós, de gatas, fingimos que ele não anda por cá e que defende uma causa bizarra e duvidosa; mas quando a perigosa Inglaterra levanta dúvidas sobre o senhor Mugabe, nós batemos com a mão no peito e dizemos que quem manda aqui somos nós. Sinceramente não percebo: desde quando é que a China foi mais recomendável (a não ser, eventualmente, na culinária) que a Inglaterra? Nunca. E é extraordinário que aceitemos os caprichos da China e façamos um braço de ferro com o governo inglês…
A pouco e pouco vamos transformando o país num protótipo de hipocrisia. E é por isso que nos arrepiamos a ver certas imagens. São imagens sem um pingo de artificialismo, que não foram (nem podiam ser) encenadas por nenhuma agência de comunicação nem estudadas pelo protocolo do MNE. São imagens verdadeiras e nós já estamos pouco habituados a isso. Sugiro ao primeiro-ministro que passe as imagens do hino de St. Etiénne no próximo Conselho de Ministros e que as distribua em DVD nos Estados Gerais. São mais rápidas que um discurso do Almeida Santos e mostram o país que somos."
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Ricardo Costa, Director da Sic Notícias

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Copyright: Harry Gruyaert/Magnum Photos

"Desde este lugar sem história,
até um lugar na história,
vão apenas dois minutos,
no elevador da Glória"
Rádio Macau – “O Elevador da Glória”

Porque hoje reabre, após o habitual atraso português nas obras, o Elevador da Glória. Volta assim a funcionar um dos mais deliciosos pequenos pedaços de Lisboa, daqueles únicos e irrepetíveis.

13.9.07

De vergonha

Saber de gente que não recebe o líder de uma mais do que respeitável e pacífica religião, representante de um povo oprimido e prémio Nobel da paz, diz muito dessas pessoas. Quando para além disso se preparam para receber o inenarrável Mugabe, diz ainda mais. E se se disser que é gente que se prostra aos pés do comunismo capitalista chinês, então tudo está dito. O grave é quando essa gente representa um país e, mais grave ainda, quando esse país é o meu.
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P.S. Noto ainda a falta de memória de alguns, que há uns anos atrás gritavam pelo povo oprimido de Timor e se insurgiam com a falta de apoio de alguns países. Agora, curiosamente, já estão do lado dos opressores.