25.2.08

Real ou virtual

Andam as gentes entusiasmadas a modernidade Socrática apregoada como o caminho da salvação ateia e celebrada há dias na comemoração de três anos de governo “moderno”. Infelizmente vão surgindo demasiadas notícias que desmentem o oásis, tais como saber que Portugal é o segundo país da Europa na exposição das crianças à pobreza. Por este andar, qualquer dia Portugal apenas têm existência no virtual “Real Life” e sob o nome de “West Coast by Nick Knight”.

Sporting perde outra vez

Antes fosse apenas no “Real Life”, na Liga da “West Coast by Nick Knight”, o problema é que não foi, uma vez mais não foi.

21.2.08

Cores de Lisboa

O salmão refulge por detrás de Monsanto, espelhando-se no plúmbeo das nuvens recortadas em fiapos.

19.2.08

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Parece que Pinto de Sousa resolveu despender algum do seu precioso tempo para uma entrevista à SIC. Os portugueses tiveram o privilégio de ouvir as doutas palavras do seu primeiro, respondendo às questões essenciais do país. Disse parece, porque um jantar de amigos me fez ausentar de casa e fiquei assim na ansiedade de não poder enriquecer a minha pessoa com a prédica de Sousa. Li hoje os comentários à entrevista, que me pareceram extremamente facciosos, já que eram quase unânimes a constatar que nada de relevante tinha sido dito e que as questões mais importantes tinham estado ausentes. Não acreditava no que lia, pois depois da exemplar, aberta e corajosa entrevista na RTP, para esclarecer, e cabalmente, o processo da licenciatura, não esperava outra coisa de Pinto de Sousa que não fosse uma clara e frontal entrevista. De facto, ao que chegaram os nossos jornalistas nesta monstruosa cabala urdida contra o PS.

13.2.08

O Bobo da Corte

A grande indignação dos portugueses aquando da remodelação foi a estranha permanência de Mário Lino no governo. Parecia impossível que, depois das trapalhadas em redor da Ota, e da gigantesca desautorização de que foi alvo, o senhor tivesse as mínimas condições para continuar no governo. A resposta a este enigma, que permitirá compreender o bizarro facto de Lino ainda ser ministro, poderá ser encontrada se nos detivermos no processo de decisão sobre a nova travessia sobre o Tejo. Mário Lino já está a adoptar o estilo que usou na decisão sobre o aeroporto: certezas absolutas, dúvidas repentinas, contradições totais, desmentidos de desmentidos. Enfim, uma sucessão de labirínticas declarações perante as quais hesitamos entre rir ou chorar. Com tudo isto eu já tenho para mim a resposta para a perplexidade do senhor ainda ser ministro, aliás, é mesmo a única que consigo conceber: Pinto de Sousa escolheu Mário Lino para, em momento de profunda depressão nacional, encarnar a figura de “Bobo da Corte”, para que com os seus disparates vá entretendo o povo e o mantenha longe dos reais problemas do país.

12.2.08

Timor

Nestes trágicos tempos que vive Timor é uma mais vez essencial o apoio de Portugal. Durante anos, esta foi terra abandonada e esquecida, assunto tabu para demasiadas consciências pesadas. Longe, muito longe para que as feridas se avivassem, para que parecessem reais. Os indonésios ocuparam o território e Portugal, com a timidez de uma virgem pudica, balbuciava débeis protestos à comunidade internacional. Os políticos portugueses só podem querer evitar falar sobre Timor, aliás, durante anos foi exactamente aquilo que fizeram, tentando que o povo português ignorasse o que se passava com os seus irmãos do outro lado do mundo. Uma voz sempre destoou, ao ponto de por isso ser ridicularizado, insistindo em dar apoio aos refugiados timorenses e em não deixar que o assunto caísse no tão desejado esquecimento: D. Duarte de Bragança, que a “inteligentzia” sempre insiste em fazer passar como um inútil, foi a única voz que nunca se calou. Depois veio o povo português, que após perceber, finalmente, o que se passava em Timor, essencialmente depois de ver as imagens do massacre de Santa Cruz, mas também, é preciso não esquecer, graças às denúncias da então Embaixadora na Indonésia, Ana Gomes. A inédita, e magnífica, onda de solidariedade que percorreu o país terá sido uma bofetada aos políticos da situação que, de repente, se viram na necessidade de ter de fazer algo por Timor. Aí, e só aí, houve uma acção oficial de Portugal em relação a Timor. Foi tarde, tal como o vai ser agora, mas foi essencial, tal como o terá de ser agora.

Relembrem-se as palavras de Pedro Ayres de Magalhães, escritas para a canção "Timor" dos Resistência:

“Andam lá sem descansar, Nas montanhas a lutar,
Iluminam todo o mar de Timor.
Nas montanhas sem dormir, uma luz a resistir
Arde sem se apagar em Timor.

Andorinha de asa negra,Se o teu voo lá passar,
Faz chegar um grande abraço, Dá saudades a Timor.

Eles não podem escrever, Porque vão a combater,
Vão de manhã defender, a Timor.
As crianças a chorar, não as posso consolar
Que eu nunca cheguei a ver, a Timor.

Andorinha de asa negra
Vem ouvir o meu cantar.
Faz chegar um grande abraço,
Sem noticias de Timor.
Nunca mais hei-de voltar ,
Já não posso lá voltar,
À idade de lembrar a Timor.
Andam lá sem descansar, Nas montanhas a lutar
Iluminam todo o mar de Timor.”

8.2.08

Estéticas



O Impensável lembra uma entrevista de Pinto de Sousa em que se diz um esteta, convidando a aferir este estatuto com os edifícios por ele projectados (ver imagem acima). Não penso que haja contradição nos factos, afinal cada um tem a sua estética, o que me preocupa é ter alguém com estes conceitos estéticos a governar o que quer que seja. Pode-se dizer que os gostos não se discutem, ou que o bom gosto é questão subjectiva, no entanto tenho para mim que alguém com tão mau gosto não pode ser bom administrador de Portugal. Afinal, o país é a nossa casa comum, que não quero ver submersa por “psichés” e cães de loiça ou coberta por azulejos industriais de refugo.

Os parabéns

O Corta-Fitas, um dos blogs mais estimados por estes lados, fez dois anos. Obrigado.

6.2.08

Marcha da quarta-feira de Cinzas


Do Vinicius, neste início de quaresma.

Primárias em Portugal

Estão oficialmente abertas as primárias para as presidenciais portuguesas. O tiro de partida foi dado pelo omnipresente José Miguel Júdice, que nos últimos tempos se tem desdobrado pelos media num estranho e frenético afã de protagonismo que não lhe era habitual. Este frenesim não poderia ser inocente, assim como não o terão sido a sua saída do PSD e o seu peculiar entusiasmo com Pinto de Sousa. Parecia que o seu objectivo seria concretizar a negociata com António Costa para presidir à entidade que irá gerir a zona ribeirinha de Lisboa. Puro engano. Este poderá ser um passo intermédio, mas ficou claro que o seu objectivo ainda que se situe junto ao rio se concretiza numa zona muito particular denominada Belém. Apenas isto, ou um aparente acesso de insanidade, explicará a sua obsessão com Marinho Pinto e o seu terror perante a possibilidade deste estar a trilhar o caminho para ser candidato da esquerda a Belém. Está aberta a guerra, uma surpreendente e pouco interessante guerra que apenas servirá para desviar as atenções sobre o que Marinho Pinto disse sobre corrupção. Ou será mesmo esse o objectivo?

1.2.08

Luto

Há cem anos atrás, dois assassinos dispararam uma saraivada de tiros provocando a morte do Rei D. Carlos e do Príncipe Luís Filipe.

D. Carlos I, Rei de Portugal
(Fotografia de Amadeu Ferrari, in Arquivo Fotográfico de Lisboa)

D. Luís Filipe, Príncipe Real de Portugal
(Fotografia de Alberto Carlos Lima, in Arquivo Fotográfico de Lisboa)









Assim se vê a força dos aventais.

As forças armadas não poderão estar presentes nas cerimónias em honra do rei D. Carlos, mas os seus assassinos carbonários terão direito ao descerramento de uma lápide.

Vergonha de ser português I

O Estado português recusou a presença das forças armadas nas cerimónias em memória dos cem anos sobre o assassinato do Rei D. Carlos e do Príncipe Luís Filipe. Ao que consta, Fernando Rosas terá feito um requerimento ao ministro Severiano Teixeira que, para além de lhe dar seguimento, com o apoio de todos os partidos, teve a “gentileza” de ligar a Rosas a dar conta da sua decisão. Nem vale a pena comentar o que quer que seja, basta ler com atenção as frases anteriores.
D. Carlos era, goste-se ou não, o chefe de Estado aquando do seu assassinato, como tal era óbvio e evidente que, em cerimónia em memória do seu selvagem assassinato, estivessem presentes as forças armadas. Seria o mesmo que, se viéssemos em monarquia, fosse negada uma parada militar em honra à morte de um presidente da república, ou seja, algo impensável.
Assola-me uma vergonha profunda de que Portugal tenha sucumbido a esta gente infame e cheia de ódio e que o país esteja, com excessiva rapidez, a perder toda a dignidade que lhe ia restando.

Vergonha de ser português II

Fantástico país em que os criminosos Buiça e outro de quem nem me lembro do nome vão ser homenageados. Estes homens foram uns vulgares e bárbaros assassinos, mas ainda há quem os ache uns heróis. Os mesmos que acham que Estalin foi um grande líder e que há terroristas desculpáveis e que a violência, quando parte do lado deles, é justificável. Tenho nojo desta gente, desta gente que em nome da liberdade desculpa tudo, esquecendo que em nome da liberdade a república nos conseguiu trazer 64 anos de ditadura e apenas 33 de democracia. Esquecendo ainda que no tempo de D. Carlos o regime era democrático e que o rei tinha um poder em muito semelhante aos actuais presidentes da República e que talvez por isso mesmo tenha sido morto. Esquecendo a história quando tal é conveniente, aproveitando os relatos ficcionados subordinados à ideologia e sob o capote da história.

29.1.08

Coincidência

Pinto Ribeiro é o novo ministro da cultura.
Pires de Lima é a ex-ministra da cultura.
Pires de Lima assinou o contrato da colecção Berardo.
Pinto Ribeiro era administrador da Fundação Berardo.

Coincidências

O “Manifesto do Surrealismo” vai ser leiloado em Paris.
Mário Lino continua a ser o ministro das obras públicas.

Esquecimento. Por certo esquecimento.

O primeiro-ministro esqueceu-se de Mário Lino. Esta é a única explicação para que este senhor continue a ser ministro. Só pode ter sido esquecimento. Esquecimento da sua existência, esquecimento da sua irresponsável teimosia, esquecimento dos “jamais” e dos “desertos”, esquecimento da Ota sem dúvida. Enfim, esquecimentos. Agora só se pode esperar que, a tempo da tomada de posse dos outros novos ministros, surja também um novo ministro para as obras públicas. Alguém que lembre o senhor Pinto de Sousa, é que parece que o homem anda esquecido.

Saída pessoal

Por fim, Correia de Campos lá saiu. Por motivos pessoais, como é óbvio, nada que ver com o facto de ser odiado por cerca de oitenta por cento dos portugueses que vivem fora de Lisboa e Porto. A sua inexplicável – pelo menos ele nunca a conseguiu explicar devidamente – política de deixar o interior com o menor número de serviços de saúde possíveis deixou inquestionáveis marcas. Marcas pessoais, como é evidente.

Yes!

A magnífica Ministra da (in)cultura foi finalmente à vida. Não sei se isto quererá dizer que vamos passar a ter, de facto, um Ministro da Cultura em José António Pinto Ribeiro, mas pior que Pires de Lima parece-me, muito sinceramente, impossível. Pena é que fiquem as luminárias com que ela encheu o ministério, um bando de “yes men” que substituíram gente competente – é preciso não esquecer Pinnamonti, João Lagarto ou Dalila Rodrigues – sob a complacência de outros de coluna vertebral no mínimo flácida – assim de repente, o nome Bairrão Oleiro vem-me à cabeça. Que Pinto Ribeiro não empregue o estilo estalinista já será um excelente prenúncio para que as coisas da cultura melhorem, o problema é que permanece por lá o fantasma de Vieira de Carvalho, na sua Secretaria de Estado, eminente seguidor da velha escola de Estaline, tão do agrado da ex(que bem que isto soa)-ministra. Ainda assim, depois de Pires de Lima, pior é impossível.

Lembrete

Demissões por razões políticas, museus com alas fechadas por falta de pessoal, milhões gastos numa exposição medíocre (Hermitage), acordo ortográfico a passar ao lado do Ministério da Cultura, compra do Tiepolo em risco por ignorância da ministra, inexistência de política cultural, ruinoso aluguer da colecção Berardo. Apenas para citar alguns exemplos do brilhantismo de Pires de Lima. Em jeito de epitáfio.

Tragédia

Pires de Lima poderá voltar aos seus estudos queirozianos. Pobre Eça, já estará a rebentar o caixão perante esta sinistra possibilidade.

28.1.08

Ressuscitou! Aleluia.

O moribundo Sporting, que arrastava uma doença desconhecida – o Dr. House recusou consulta ao domicílio e Soares Franco achou, em nome da contenção, que seria muito caro ir até aos EUA – pelo campeonato, chegando ao limite em que duvidávamos se a equipa já tinha morrido, mas ninguém se lembrara de a avisar, ressuscitou ontem em Alvalade. Pode ser, e se calhar infelizmente é, uma fugaz ressurreição –como quando os choques do desfibrilhador conseguem animar um coração parado – no entanto dá alguma esperança à família de que até ao fim da temporada possa deixar de tomar vorazmente Prozac, passando antes para umas “minis” a comemorar vitórias. Asseguro que foi a primeira vez que esta época saí de Alvalade satisfeito com o resultado e também com o jogo. Não que tenha sido esmagador ou brilhante, mas por ter sido bom e com garra, e por mostrar que os jogadores queriam de facto ganhar, algo que cheguei a duvidar em vários jogos este ano. Que assim continue, até porque ainda temos três taças ao alcance e um lugar na Liga dos Campeões para assegurar. O campeonato, enfim, como eu já não acredito no Pai Natal…

25.1.08

Parece que ainda há justiça!

O processo da queixa-crime que José Pinto de Sousa, enquanto cidadão e primeiro-ministro, intentou contra António Balbino Caldeira, pelos seus posts no blog “Do Portugal Profundo”, foi arquivado. Parece que, a custo, ainda vai sendo possível alguma liberdade de expressão neste “Portugal Amordaçado”.

22.1.08

A lei de George I

Francisco George adoptou ontem uma postura digna de um Álvaro Cunhal na sua melhor forma. Questionado durante todo o programa sobre dúvidas concretas sobre a lei do tabaco, negou-se terminantemente a responder a qualquer uma delas, repetindo em cada intervenção o que tinha dito na anterior. O método não deixa de ser eficaz, mas é de esperar que quem o ouviu já esteja algo treinado quanto ao método da “cassete”. Sobre quais são os requisitos concretos para os regimes de excepção, remeteu para a lei que, segundo ele, é de uma enorme clareza. Cito, da Lei 37/2007 de 14 de Agosto, o artigo 5, alínea 5, que se refere aos requisitos necessários para as áreas de fumadores nas excepções contempladas pela lei:

a) Estejam devidamente sinalizadas, com afixação de dísticos em locais visíveis, nos termos do artigo 6º;
b) Sejam separadas fisicamente das restantes instalações, ou disponham de dispositivo de ventilação, ou qualquer outro, desde que autónomo, que evite que o fumo se espalhe às áreas contíguas;
c) Seja garantida a ventilação directa para o exterior através de sistema de extracção de ar que proteja dos efeitos do fumo os trabalhadores e os clientes não fumadores.

É extraordinário que se ponha uma lei em vigor sem que a mesma esteja adequadamente regulamentada, ou seja, neste caso, que se quantifique o que acima destaquei a bold. Seria o mesmo que o código da estrada dissesse que a velocidade máxima numa determinada estrada era a adequada ao tipo de estrada em questão, sem contudo a quantificar. Após insistência de José Sá Fernandes lá deixou cair, sem se comprometer, que há uma lei já aprovada – apenas para espaços com mais de 1000 m2 – que irá entrar em vigor para os restantes espaços apenas em Janeiro de 2009. Não disse que era essa a lei a seguir, até porque não o poderia fazer pois a mesma não se aplica, mas deixou a enigmática sugestão de que poderia ser essa a medida.
Ao dizer que a lei é clara, George está a fazer passar os portugueses por burros e a tentar impedir, com infame batota, que as excepções possam ser postas em prática. Este facto foi bem comprovado nas declarações do representante da ASAE, ao dizer que aguardava informações da DGS para saber quais os critérios e que, até lá, apenas se exigia um termo de responsabilidade do técnico instalador do sistema de ventilação.

A lei de George II

Os casinos portugueses não vão ser uma excepção à Lei do Tabaco, pelo simples motivo que a mesma não se lhes aplica. Foram as palavras de Mário Assis Ferreiras, sustentado em pareceres de Freitas do Amaral e Fausto Quadros. A lei foi tão mal feita – ou propositadamente grosseira, como disse Assis Ferreira – que os Casinos, que acompanharam o processo legislativo, ficaram de fora dos espaços referidos expressamente na lei.

A lei de George III

Afinal o espírito da lei do tabaco é proibir de fumar. Pena é que a constituição do país ainda o permita.

A lei de George IV

Ao insistir em que as zonas de fumadores tenham tanta extracção de ar que afinal não tenham fumo, Francisco George deixa em mim uma dúvida: para quê impedir que se fume? Ou seja, se as zonas onde se permite o fumo vão ser assim tão limpas e ausentes de fumo, não era necessário criá-las, bastava exigir que os ditos requisitos de extracção de fumo se aplicassem a todos os espaços fechados. Ou então, como é obviamente impossível evitar que haja fumo onde se fuma, é esta a comprovada trapaça da lei.
A única palavra de esperança veio da declaração final de George, ao dizer que a medida da aplicação da lei está na Assembleia da República e que será ela a torná-la mais restrita ou menos restrita dentro da, comprovadamente vaga, lei.

A lei de George V

Ficou claro que o objectivo (até ontem oculto) da lei é impedir o fumo no espaço público. Não é – como diz o texto da lei – a protecção dos não fumadores. Como muito bem disse Mário Assis Ferreira, as palavras do Sr. Constantino lembraram demasiado Orwell e, infelizmente, foram corroboradas por George. Como disse, e muito bem, Fátima Bonifácio na sua declaração final, é para aqui que caminhamos, para um mundo sem escolhas em que mais não seremos do que marionetas de um Estado omnipresente. Mais do que nunca é aconselhável ler “1984”, até porque qualquer dia será um livro proibido.

21.1.08

Falta de vergonha

De Barroso, “o Fugitivo”, diz-se que estuda apoios para voltar à política em Portugal. Do homem que negociou com Sampaio a entrega do país a Santana – no mais envenenado presente que me lembro de ver nos últimos tempos – e com isso nos deixou entregues a Pinto de Sousa, parece-me uma total e absoluta falta de vergonha que pense, e apenas pense, voltar. O problema é que a falta de memória do povo me leva a temer uma perfeita tragédia. Santana, Sousa e Barroso. Comentários para quê.

“Pérolas a porcos”

Quaresma anda a ser assobiado no Estádio do Dragão.

18.1.08

A oposição

Luís Filipe Menezes, ao contrário do que muitos dizem, tem sido muito claro no seu discurso e já deixou bem expresso o seu objectivo para o partido. Poder, poder e poder. Tudo o resto é irrelevante, seja a forma, o conteúdo ou os meios.

17.1.08

Indispensável

O post “Novos fascistas”, no Portugal dos Pequeninos, que inclui a reprodução de um artigo de José Manuel Fernandes no Público.
Num post recente falei em entrar para a clandestinidade, imaginando que poucos me levassem a sério, o problema é que falava de facto a sério e, infelizmente, a coisa vai estando menos longe do que se possa pensar.

Ainda sobre o “veto” ao Papa

Queria entender a mania que o europeu tem de tentar destruir as bases da civilização ocidental (e nunca houve civilização mais avançada), que ele mesmo criou ao longo de séculos de evolução.” Leonardo no “Vide Bula

Da sociedade asséptica

Via "31 da Armada" chego a estas pequenas informações históricas – veiculadas no “Bar Velho” – sobre Hitler e o regime nazi:


"- Hitler financiou um estudo da Universidade de Jena, para se tentar descobrir se o câncro do pulmão teria algo a ver com o fumo do tabaco. A conclusão do estudo permitiu que se iniciasse a primeira campanha anti-tabágica de que há memória em todo o Mundo.
- Foram criadas leis que proibiam que se fumasse em locais públicos e iniciaram-se campanhas que permitiram dar a conhecer às pessoas o perigo que o tabaco provoca.
- Era proibido fumar nos escritórios dos serviços postais da Força Aérea; polícias fardados estavam proibidos de fumar; restaurantes e cafés estavam proibidos de vender cigarros a mulheres; vouchers de tabaco eram negados a mulheres grávidas; era proibido um menor de 18 anos fumar em público; produtos alusivos ao tabaco eram alvo de uma regulação muito restrita.
- Como forma de dissuadir os soldados alemães de fumar, Hitler dava 6 cigarros diariamente por cada homem, ou chocolate e mais comida como opção. Ás mulheres não era permitido fumar de todo.
- A expressão "fumador passivo" surgiu com Fritz Lickint, autor do livro "Tabaco e o Organismo". Ele colaborou activamente com a Campanha Anti-Tabágica Nazi.
- Foi feita uma campanha intensiva por toda a Alemanha alertando os alemães para os perigos existentes no consumo de corantes e conservantes na comida e nas bebidas.
- Foram criadas leis que proibiam o consumo de álcool por menores e que puniam a condução sob efeito de álcool, existindo ainda os testes de sangue feitos ao condutor.
- O Governo alemão promovia o consumo de água mineral como substituto do álcool e lançou imensas campanhas para motivar os jovens a comer e beber de forma saudável, e a praticarem exercício físico: uma mente sã, num corpo são."

As comparações podem sempre ser duvidosas, pode até questionar-se o seu bom gosto, o que é inegável é que quando pessoas como Vasco Pulido Valente, António Barreto ou Miguel Sousa Tavares recorrem a epítetos de “fascista” ou “nazi” para qualificar a ASAE ou a nova lei do tabaco não estão – ao contrário do que muitas virgens pudicas ofendidas e comentadores irónicos nos querem fazer querer – a enlouquecer ou em delírios devidos ao álcool ou às drogas. A história não é o que nós queremos que seja, é um conjunto de factos e se, de facto, o nazismo foi o pioneiro em leis conducentes a uma sociedade asséptica, não será absurdo estabelecer um nexo de comparação. Aliás, após ler isto com atenção, acho perfeitamente plausível, e até lógico, que venha a ouvir o “Gremlin” George a elogiar as políticas de saúde de Hitler, pois os seus grandes ideais como Director Geral de Saúde estão quase todos escritos ali em cima. Não estou com isto, como é evidente, a chamar nazi ao senhor – o que seria – mas que em termos de leis de saúde pública estamos a ficar muito perto das leis nazis, lá isso estamos. E a consequência deste facto terá de ser a de elogiar Hitler neste campo, pois foi, inquestionavelmente, um visionário com razão antes de tempo. Não percebo por isso que alguém fique melindrado com a comparação, a mesma deve ser tomada como um largo elogio.

16.1.08

Causas

Há causas que valem a pena. Conhecer a verdade da história é uma delas. Por isso é importante que no centenário do assassinato do rei D. Carlos e do príncipe Luís Filipe a verdade surja na história contada. Durante anos, o republicanismo dominante nas elites persistiu em contar uma história falsa e deturpada sobre os últimos anos da monarquia. Para o perceber basta ler “O Poder e o Povo”, de Vasco Pulido Valente, onde o movimento republicano é descrito com o pormenor exigido a uma tese de doutoramento. Nos livros da história oficial ficou a imagem de um rei ditador e sem o apoio do povo, que teve de ser assassinado para implantar uma salvadora república, fiel representante dos valores democráticos. Assim conhecerá a história a maioria da população portuguesa, numa consequência óbvia do que é a falsidade histórica.
A importância da data ultrapassa a causa monárquica ou republicana, por isso sua maior relevância pode estar em trazer a verdade para a história. Surgiram recentemente dois sites que podem contribuir para esta verdade, são eles “O Regicídio” e o “Centenário da República”, e os seus links passam desde já para a coluna do lado. Deixo-vos com um excerto do post de abertura de João Távora, no “Centenário da República”:
“As comemorações oficiais não se debruçarão sobre a república proclamada em 5 de Outubro de 1910, mas sobre um regime idealizado e abstracto, sobre generosas intenções que se presumirão nos republicanos de 1910, e das quais os políticos comemorantes se pretenderão afirmar-se herdeiros.”

15.1.08

Solnado e o Costes, guerra e a electrónica

O mundo em que vivemos é cada vez mais pequeno, e só mesmo isso justifica que haja uma ligação entre Raul Solnado, o Hotel Costes, a guerra e a música electrónica. Para quem duvide, nem que por instantes, da minha sanidade mental, sinto-me na obrigação de esclarecer. Para tal, recomendo primeiro a audição do famoso, e fabuloso, sketch de Raul Solnado, “A Guerra de 1908”, mesmo aqui em baixo. Depois, ouçam aqui ao lado, na “Caixa de Música”, “Táxi to War”, do Dj Disse, incluída na colectânea “Hotel Costes 10”.

14.1.08

Terrorismo

A clandestinidade vai deixando de ser uma miragem e é já sem ironia que me apetece destruir os escritórios da ASAE ou o automóvel do Gremlin que se diz Director Geral de Saúde. Sem danos humanos, como é evidente, mas terrorismo urbano é uma via a estudar.

10.1.08

Ensinamento do dia

Jamais dit jamais.

Um brinde

A este estranho país que se propõe construir um aeroporto no meio do deserto.

Personagem do dia

Mário Lino, ou sobrevivente incompreensível.

Ainda há esperança

Há uns meses, a Ota era um dado adquirido e defendido com total intransigência pelo governo. A chamada sociedade civil mexeu-se, foi publicado o livro “O erro da Ota”, a CIP fez um estudo de viabilidade para Alcochete, o povo percebeu o embuste miserável que ia ser a Ota – feita com o dinheiro de todos para benefício de alguns – e o governo acabou por se render à evidente sensatez da escolha de Alcochete. Fica a prova que, mesmo contra a persistente obstinação de Pinto de Sousa, ainda é possível travar alguns dos disparates que tentam impor a este pobre país.

Medo, há que ter medo

O primeiro-ministro lá decidiu por Alcochete, com um discurso bem estudado para não parecer um total recuo. Os famosos interesses é que não devem ter ficado muito satisfeitos, por isso logo veio Pinto de Sousa dizer que era preciso compensar as populações da zona da Ota, que tinham feito investimentos a contar com o aeroporto. Leia-se, é preciso compensar os ocultos interesses que se preparavam para ganhar uma fortuna na Ota, nem que isso implique o gasto de mais uns milhões de dinheiros públicos.

9.1.08

Das Europas

O esperado foi hoje anunciado: não haverá referendo ao Tratado de Lisboa. O primeiro instinto seria discorrer palavras amargas e agressivas sobre a falta de democraticidade da medida, insultando Pinto de Sousa pelo incumprimento de uma promessa eleitoral. No entanto, o cinismo vai ganhando espaço no meu pensamento e fico feliz com a decisão. Não porque concorde com ela, simplesmente porque ela é coerente com os métodos anti-democráticos de Bruxelas e porque acho, sinceramente, que o “Sim” iria ganhar. Assim, fico com a tranquila consciência de que esta decisão – como quase todas as tomadas pela “Europa” – não contou com o expresso apoio popular, e um dia mais tarde – que chegará a curto ou médio prazo – em que a Europa se tornar ingovernável e entrar em colapso, poderemos, os que dela duvidamos, dizer com propriedade que caiu porque nunca teve, de facto, o apoio do povo.

8.1.08

Afinal há outro

Com o novo ano chegou a vontade de criar um outro blog. Este blog, desde que nasceu, oscilou o seu estilo e conteúdo ao sabor de indefinidas marés. Assim irá continuar, mas abrirei outro espaço, talvez mais intimista, talvez mais pessoal, talvez até menos diferente do que julgo. Será de seu nome “Coisas dos Trinta” e não falará, seguramente, de política, mas de coisas mais prosaicas, ainda que, por vezes, não menos interessantes. A respeitável longevidade deste Anarcoconservador não me permite acabar com ele, nem nada que se pareça, apenas terei dois espaços distintos para escrever sobre coisas diferentes. O tempo dirá se vale a pena manter os dois blogs, até lá, convido os que fazem o favor de me ler aqui, e aos quais aproveito para agradecer, para me visitarem também por .

7.1.08

Terrorismo

Telefonar para os restaurantes que mais gostamos a tentar reservar mesas, em dias de semana, para doze pessoas (bom número pois é volume de dinheiro razoável e não é um grupo tão grande que desmotive os donos pelo excesso de incómodo para os restantes clientes). Após a solícita resposta de “com certeza”, e apenas após, confirmar, com voz melíflua, se a mesa é para fumadores. Após a resposta negativa, e ainda que com a persuasão de que se pode fumar no bar ou à porta, rejeitar convictamente a reserva e acrescentar, com delicadeza, que assim terá imensa pena de não poder voltar a usufruir de um restaurante onde já passou tantos bons momentos.

Coisas do fumo

Ainda não tive o prazer de jantar fora neste novo ano, nem sei mesmo se o irei ter tão cedo. Restaurantes onde não possa fumar não me interessam, pelo menos para jantares de prazer e em boa companhia. A nova lei é intolerante, mas os restaurantes também foram preguiçosos e incompetentes e não se prepararam para a mesma, o resultado é que não me merecem como cliente.
Agradeço a fundamental lista do “A Origem das Espécies” e prometo contribuir na medida do possível para a actualização da mesma.

Memória

Hittler pregava por uma sociedade perfeita de homens loiros e saudáveis, em que a doença e a imperfeição eram motivos suficientes para remover alguém da sociedade.
A lei do fumo foi aplicada em Portugal tornando os fumadores criaturas à margem do sistema.
Em Inglaterra já se fala em retirar direitos no Sistema Nacional de Saúde aos cidadãos gordos.
Sejam saudáveis, ou então tenham medo, muito medo.

Cidadanias

Este blog é mantido por um português que, desde dia 1 de Janeiro, foi considerado cidadão de segunda neste triste país. A inaceitável “lei do fumo” contribuiu para apressar um processo que eu julgava ia demorar algum tempo a ser consolidado, o do meu caminho para a clandestinidade. Vivo num país onde o conceito de democracia é tão criativo e afastado do original que vacilo se não seria melhor uma ditadura assumida. A imprensa não é livre, os bancos privados são manipulados pelo estado, a justiça é uma perfeita inexistência, há gente – e muita – a passar fome, o desemprego não pára de crescer, fazemos parte de uma ditadura burocrática como origem em Bruxelas que ninguém compreende. No meio de tudo isto, o importante é tornar os fumadores menos cidadãos e dar poderes à ASAE para tornar Portugal num país asséptico e plástico de onde apetece fugir desesperadamente.

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Neste país já há o desplante de discutir a legitimidade das escolas terem nome de santos. Curioso que um santo – que, acreditando-se ou não em Deus, terá sido um bom homem – não possa dar nome a escolas e tenhamos ruas com nomes de assassinos comprovados.

Coisas genéticas

Uma vez mais, perante o terror, os franceses baixaram as calcinhas. Depois de Vichy, transformaram o “Lisboa – Dakar” em “CCB – Mosteiro dos Jerónimos”. A bem da sua proverbial e abençoada cobardia.

Regresso

A temporada festiva terminou com a epifania do dia de Reis e este blog volta agora à normalidade possível dos pequenos dias invernais.

4.1.08

Começa mal o ano

Os terroristas conseguiram mais uma vitória e o Lisboa-Dakar foi cancelado por razões de segurança. Vencendo batalhas caminha-se, ainda que não irreversivelmente, para a vitória na guerra. Que não seja o caso e que a Civilização ainda consiga ir buscar coragem e argumentos para combater a Barbárie.

Regresso da terra

Após os provincianos dias festivos, este blog volta ao rebuliço de Lisboa. Os bons momentos familiares passaram e restou uma incomodativa constipação. Consequências nefastas de alguns possíveis excessos ou simples falta de resistência ao inclemente frio húmido? A resposta é indiferente, mas dispensavam-se as consequências.

27.12.07

Coisas de amigos

Casa de Santa Vitória Reserva, Guru, Passadouro, Pintas e Pintas Vintage. Magnífico ramalhete de vinhos que por si só faria uma noite de longo prazer. Ontem, foram apenas pano de fundo para um jantar de Natal de amigos que iam chegando das proveniências mais diversas, desde o Douro profundo a Londres, desde o seminário até à Comissão Europeia. Este jantar anual é o fio que nos vai juntando por entre as distâncias da vida e o que é espantoso é que, depois de dois minutos de conversa, regressamos sem esforço aos gloriosos tempos de faculdade e esquecemos as marcas do tempo em nome de laços que, ainda que por vezes já pareçam ténues, permanecem com inesperada firmeza.

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Passado o Natal, ficam os sempre agradáveis dias que restam até o ano findar. Acolhedores e diletantes, vividos por entre telefonemas e cafés com amigos. Até há quem trabalhe, mas o ar que se respira é de umas familiares férias de Inverno.

22.12.07

Santo Natal

El Greco - Sagrada Família


Que o espírito da paz domine por sobre esta época e torne o vosso Natal feliz.
(a todos os leitores e visitantes deste blogue)

A caminho

Este blogue segue dentro de momentos “para a terra”.

Coisas da época

Este blogue está-se a comportar como um menino mimado e anda amuado com o seu blogger dada a falta de atenção. Não consegue compreender que o tempo não estica e que é mais importante comprar os presentes em falta, enviar os cartões e escolher os vinhos para o jantar de Natal. Excesso de mimo, o melhor é não ligar e deixá-lo até ao fim do ano em velocidade de cruzeiro.

Coisas das lojas

Alguém será capaz de me explicar o motivo para todas as lojas de Lisboa terem uma temperatura ambiente aproximada a uma sauna finlandesa? Nos centro comerciais ainda se pode compreender, até porque podemos deixar os casacos no carro que fica na garagem, agora expliquem-me qual é a possibilidade de conforto ao andar no Chiado num sucessivo strip-tease? É que torna-se impossível de estar numa loja sem tirar mais de metade da roupa, sob pena de nos sentirmos a cozer em lume mais que brando, mas depois saímos para a rua e lá temos de voltar a vestir tudo outra vez. Um inferno, com a FNAC a liderar no ranking das mais fogosas lojas. Acrescenta ao nosso desconforto o facto de ser impossível aos empregados suportarem um dia de trabalho sem suarem como porcos, o problema é que alguns desconhecem a técnica da recarga de desodorizante e ao meio-dia já levam um odor do mais intolerável que imaginar se possa. Passar nestes fornos comerciais ao fim do dia é uma provação tão desagradável como desnecessária.

18.12.07

Contra a censura

A partir deste post, do “Cachimbo de Magritte”, soube que a música “Fairytale in New York”, dos Pogues, foi censurada pela BBC. Ouçam para perceber porquê.



Esta tirada: "You scumbag, you maggot you cheap lousy faggot, Happy Christmas your arse I pray God It's our last.”, nomeadamente o “faggot”, foi considerada muito forte, demasiado para as consciências politicamente correctas, afinal a liberdade de expressão vai tendo limites cada vez mais estreitos e não podemos permitir canções que ofendam, ainda que muito vagamente, seja quem for. Qualquer dia até podemos ser perseguidos na rua por dizermos a um amigo, “vá lá, não sejas maricas”, ou por comentarmos uma escolha menos feliz de vestuário dizendo “fica-te péssimo, pareces uma bicha”.

Ódio

Parece que Sarkozy anda com a Carla Bruni. Quando começava até a gostar do homem, para mim difícil tendo em conta que é francês, eis que um súbito e emergente ódio toma conta de mim. Sim, é verdade que a inveja é um sentimento muito feio e estamos no advento, mas afinal somos todos pecadores.

17.12.07

Coisas de Natal

Diz-se que o Natal é época de voltar à infância. Mesmo que o não seja, de facto, é bom ao menos recordar esses tempos. Nada mais adequado para tal do que rever o anúncio que marcou todos os anúncios de Natal da minha geração, penso que bastará dizer “…e o gato te de se esconder…”

14.12.07

A Franjinhas


A fantástica Beatriz Costa faria hoje cem anos. Vale a pena recordá-la aqui, na inesquecível "Canção de Lisboa", com o também extraordinário Vasco Santana.

13.12.07

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A minha pequena consolação na cerimónia de assinatura do tratado foi a de os convidados terem sido obrigados a ouvir cantar Dulce Pontes, que a cada dia que passa, e nos seus intermináveis gritos, mais se assemelha à lendária Bianca Castafiore dos livros do Tintin.

Tristeza

Os eurocratas assinam hoje o famoso Tratado de Lisboa. A minha falta de entusiasmo é proporcional à falta de democraticidade de uma instituição a que o meu país pertence, curiosamente a mesma instituição que faz poucos dias se queixava da falta de democracia nos países africanos – não estou a comparar os graus de tirania. A forma indigna como este Tratado vai ser aprovado faz com que nem queira saber bem o que ele representa – a primeira versão foi chumbada em França e na Holanda e esta, em quase tudo igual à primeira, vai ser afastada de referendo, excepto na digna Irlanda, por motivos que ninguém sensato compreende. O argumento de que estes tratados são demasiado complexos para irem a referendo apenas mascara o medo da derrota, e isso é a contra essência do que é uma democracia.

Contra o disparate


Este blog está contra, o que vem sendo um hábito, o dito "Acordo Ortográfico".
(Agradecimentos ao velho e saudoso Indy de onde vem este autocolante aqui reproduzido.)

Coisas de 2007

Memórias de 2007 (1) - O rugby.

Do Francisco José Viegas, no "A Origem das Espécies"

"Um jornal americano chamou-lhes Pavarottis. A imagem percorreu o mundo, não sei se nos encheu de orgulho, mas olhámo-la com comoção – a forma como a rapaziada cantava o hino nacional antes de cada jogo chegava-nos de França como uma espécie de reabilitação da pátria, a velha pátria em chuteiras, medricas e faceira, habituada a ver jogadores de futebol a dar cambalhotas mal lhes tocam no cotovelo ou na armação da marrafa.
Tão cedo não os esqueceremos. Nem os seus nomes nem a pequena glória de terem afrontado os All Blacks daquela forma fatal, íntegra, nobre, olhando-os nos olhos, dançando curto (evidentemente) mas sem alguma vez evitar o confronto ou a ousadia. Um ensaio que fosse valia a pena. Uma fuga que ficasse registada seria inscrita no livro das glórias.
O pequeno país que gosta daquele dicionário de indignidades do futebol, tomou-lhe o gosto. No futebol, habituou-se a ouvir coisas como «falta inteligente», «conseguiu um penalty», «brilhante atitude defensiva». Colocado patrioticamente diante da televisão para ver o melhor rugby do mundo, o adepto lusitano encontrou um grupo de almas diabólicas, ou tomadas pelo diabo, com cara de homens, com físico de homens, capazes de correr e de placar, de fugir e de perseguir, de se arrastarem no chão ou de voarem em busca da bola – como há muito tempo não viam no futebol mariquinhas e de efeito fácil, onde toda a gente finge que se lesiona.
Vimo-los todos, jogo a jogo. Jogo a jogo, a pátria pendurava a chuteiras prateadas e sentava-se para ver o jogo da tribo. Jogo a jogo crescia a admiração por aqueles rapazes, desde o primeiro ensaio português em Mundiais, assinado por Pedro Carvalho. Aliás, se o Criador quisesse dar uma prova da sua existência, depois de ter aberto um sulco nas águas do Mar Vermelho – há muito tempo –, teria escolhido o minuto 44 do jogo contra a Escócia, quando um português deixou para trás os escoceses e rasgou pelo estádio fora na direcção de um ensaio fabuloso. Com isso, provaria a sua existência, indicaria que era fã dos Lobos, e mostrar-se-ia justo. Porque nesse primeiro ensaio em Mundiais estava representado todo o esquadrão de batalhadores que se atreveu a enfrentar equipas profissionais. Mas não só: eles enfrentaram também a ignorância dos snobes modernos, a impreparação do cidadão comum e o desprezo dos mariquinhas do futebol.
Foi um gozo puro. Perderam todos os jogos. Nunca uma equipa tão derrotada foi tão comentada no mundo inteiro, com a imprensa neozelandesa, inglesa, americana e sul-africana falando de uma «great story» da «lovely performance of the newcomers». Laurent Bénézech, no L'Équipe, valorizava a coragem e o coração dos portugueses. O mais difícil dos comentadores da ESPN americana não se cansou de distinguir «the great spirit» do bando de portugueses que se atreveu a discutir, metro a metro, o campo que lhe tinha sido entregue.
Há quem ache que isto era pouco. Paciência. Num país de plástico e de vedetas, os Lobos mostraram-nos como, à sua maneira, desvalorizaram os nossos próprios limites e lutaram contra a nossa condição. Eles ultrapassaram o seu destino. Merecem um lugar de destaque nos nossos aplausos."

12.12.07

Extraordinário país

As últimas notícias sobre a construção de uma barragem na zona do Almourol levaram-me a olhar atentamente o estudo sobre as suas implicações, perante as quais fiquei siderado. Em causa não está a necessidade de construção da barragem ou a sua utilidade, em causa está, infelizmente e como é hábito, a profunda irresponsabilidade dos que nos (des)governam e a falta de valor que dão ao “nosso” dinheiro. No mundo civilizado existe uma coisa chamada “Ordenamento do Território” e outra chamada “Planeamento”, em Portugal ambas são bizarrias defendidas por seres tomados por alienígenas. Na zona a ser inundada, para além de vastas áreas dos mais férteis terrenos da região, estão povoações e diversas zonas que sofreram nos últimos anos intensas obras de requalificação ribeirinha. Quanto ás povoações é inevitável falar de Constância, uma das mais bonitas e preservadas vilas portuguesas, que seria parcialmente submergida ou teria de ser emparedada entre açudes. A respeito das obras de requalificação de áreas ribeirinhas deve-se referir a mesma Constância, mas também, e mais importante, Abrantes.
No ano de 2001 foi dado início ao projecto Aquapolis, que visava reestruturar as margens norte e sul do Tejo na zona junto à cidade de Abrantes. O projecto foi dividido em várias fases, duas das quais já foram concluídas. A primeira constava do projecto de Arquitectura Paisagista para o parque urbano de 36 ha e dos projectos de infraestruturas e arruamentos. A segunda fase, a mais importante do projecto, consistia na construção de um açude insuflável, o maior do país, que permitiria criar um enorme espelho de água, posteriormente chamado de “Mar de Abrantes”. A primeira fase do projecto custou por volta de 5 milhões de Euros e a segunda orçava em 10 milhões de Euros, valores sem as habituais derrapagens orçamentais. O projecto contou com apoio de programa Valtejo e do Ministério do Ambiente e Ordenamento do Território, tendo sido aprovado pelo INAG. A inauguração oficial do projecto, apesar da primeira fase ter sido terminada em 2003, decorreu em Junho deste ano com a presença do primeiro-ministro Pinto de Sousa, o mesmo que enquanto ministro do Ambiente apoiou o projecto e o mesmo que agora o quer submergir baseado num plano do INAG, curiosamente o mesmo INAG que aprovou o projecto Aquapolis. No fundo, esta gente toda achou por bem gastar mais do que 15 milhões de Euros (3 milhões de contos) num projecto que tencionam agora submergir e que não temos certeza se não tencionavam já, na altura da aprovação . Todo este processo apenas demonstra o valor que se dá aos dinheiros públicos, ao nosso dinheiro, por quem nos (des)governa, e que apenas traz proveito para uma área de negócio que tem sido responsável pela destruição do nosso país – a construção civil. Só os construtores lucram com estes esbanjamentos, os mesmos construtores que pagam as campanhas dos partidos, os mesmos construtores que sabemos, sem precisarmos de provas, terem relações mais do que obscuras com o poder político, em especial o municipal. No caso de Abrantes importará referir que o Presidente da Câmara, que se tem manifestado com muito pouca veemência contra a barragem, foi constituído arguido por motivos ainda não conhecidos, devido ao segredo de justiça, após uma fiscalização à Câmara, e que o vereador responsável pelas obras públicas, e grande dinamizador deste projecto, é hoje em dia consultor do grupo empresarial que executou esta obra. Claro que tudo pode não passar de uma coincidência, mas enfim, estamos no extraordinário país delas.

10.12.07

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Este Natal apetece-me dar, mas não me apetece comprar. Dilema para resolver nos próximos dias.

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Os bens recolhidos pela Comunidade Vida e Paz para o jantar de Natal dos Sem Abrigo foram roubados. Ainda entendo que haja cobiça, mas à custa de quem nada tem está para lá da minha compreensão. Caso descubram os culpados sugiro imediato envio para a Somália ou a Etiópia, sem documentos.

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O ar de Lisboa voltou a estar respirável e não corremos riscos de embater em colunas policiais a proteger assassinos.

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Passou o dia de Nossa Senhora da Conceição, padroeira deste país melancólico. Falta espaço para todas as preces que precisamos.

6.12.07

À bomba

Enquanto vai chegando a corja de criminosos para a mui propalada cimeira, tenho tentar a contenção de me amarrar a uma bomba e descer em parapente sobre a reunião. Pouco se perderia, com honrosas excepções lá estará um bando de criminosos, responsáveis pelo persistente arrastar de um continente pela mais profunda miséria e onde o respeito pela vida é um delírio de utópicos. África é em tudo o exemplo do que não deveria ser e uma boa imagem do que é o mundo de hoje, onde os direitos humanos apenas têm significado quando há dólares ao seu lado, e mesmo assim nem sempre.

3.12.07

Yupiiieeee!!!

Y lo han callado. Por fin, e aunque sea por poco tiempo, lo han callado.
Bravos venezuelanos.

Vale mesmo a pena ler

“Se o Portugal do antes do cavaquismo era terceiro-mundista, acendia velas à inveja, à pinderiquice socialistóide e se comprazia em exibir mulheres de buço e o lumpen de mão estendida à caridade do Estado, os dez anos que medeiam entre 1985 e 1995 - mais o cavaquismo piegas de Guterres que se lhe seguiu - diluiram a cultura cívica, dinamitaram a respeitabilidade das forças fáticas, instituíram uma cultura de direitos - direito à riqueza, ao consumo, direito ao canudo - sem exigir trabalho, compeneração, esforço e qualidade. Muito daquilo que hoje se diagnostica teve a sua génese nesses anos de dourada promoção do nada em que Portugal, subitamente bafejado pela cornucópia dos fundos germânicos, preferiu as croissanterias, os jeeps e os aparthotéis à cultura da exigência. O cavaquismo é um velho carnicão. Está lá, ainda, seja em versão socialista, seja em "social-democrática". É um espinho cravado entranhado que nos vai privando, ano a ano, ao direito de sobrevivermos enquanto comunidade.”
Excerto de um post do Combustões que pode ler na totalidade aqui.

Sábado de festa

Apesar dos factos e do tempo insistirem em nos querer fazer pensar outra coisa, o 1º de Dezembro ainda é, e deve ser, dia de festa. Por muitos motivos que nos queiram dar para que queiramos antes alguém que diz “Porque no te callas”, valeu a pena poder manter este país que tem tanto de bom e bonito, como de desprezado e maltratado.

Manifesto masoquismo

A minha insistência em dar uso a uma Gamebox adquirida no início da época futebolística tem provocado insistentes momentos de masoquismo. O jogo de ontem poderia ser cinefilamente catalogado como uma enorme estopada realizada por um qualquer pretensioso realizador português (quase todos, portanto), alternando momentos de irrelevante – porém chatíssima – intriga, com laivos de pretensa comédia “nonsense” – como os falhanços acrobáticos de Purovic – e com um final trágico – porém tão anunciado que só um optimista incorrigível o não esperaria. O argumento é estafado e já visto e os intérpretes conseguem uma cada vez maior credibilidade no seu estilo de under-acting, por certo inspirados no bocejante Russel Crowe. Destoa Moutinho que passeia dignidade perante a restante camarilha, claramente inspirado em James Stewart. O resto parece uma mistura de pseudo actores “Morangos com Açúcar” com o refugo do Teatro Nacional D. Maria. A encenação é esforçada, mas manifestamente sem garra nem brilho. Os filmes que aí vêm não permitem grandes expectativas, será mais do mesmo, no fundo como o cinema português, sempre mais do mesmo e, infelizmente, o mesmo é muito mau.

30.11.07

Coisas de cozinha

A perna de pato de ontem não me correu muito bem. Dias há em que a bancada da cozinha se assemelha a uma página em branco onde não sabemos o que escrever e muito menos como. Cozinhar sem receita é como escrever sem plagiar, necessita treino e inspiração. Às vezes a coisa não corre bem quando hesitamos perante a pimenta e as ervas ou em que o zimbro não parece cair bem com a paprika. O mesmo se passa quando sabemos que queremos escrever, mas olhamos desolados para o branco opressivo e apenas banalidades nos passam pela cabeça. Estava comestível, até nem estava nada mal, mas ficou longe do que poderia, e deveria, ter sido. Foi assim como um post aceitável, até bem escrito, mas que passados dez minutos ninguém se lembra.

Verdade reposta

Retiro o que disse no post anterior, com humildade reconheço que ontem foi uma data histórica: a senhora Pires de Lima foi por um dia (de facto) Ministra da Cultura e arranjou, não me interessa como, dinheiro para comprar o Tiepolo. Deo gratias.

29.11.07

Luto Profundo

A Madredeus acabou. Termina assim o grupo mais importante da música portuguesa, que ao longo de vinte anos manteve uma superior qualidade musical e um espantoso êxito por esse mundo fora. O Madredeus reinventou uma portugalidade que se encontrava dispersa pelo folclore e pelo fado, agarrada a uma estrutura musical muito consolidada. Reinventaram sons e criaram uma sonoridade inconfundível, cuja melhor definição que encontro é que era Portugal. Como Amália, foram um povo numa voz e a voz de um povo.

Agradecimento

Ao “A Origem das Espécies” pelo link para este sítio, muito em especial porque vem de um dos blogs preferidos por estas bandas.

Tiepolo

Vai hoje a leilão em Lisboa. Extraordinário é que está “em vias” de classificação, facto atribuível decerto à enorme abundância de grande pintura que temos neste pobre país. “Em vias” é uma expressão magnífica, daquelas que diz tudo e não diz nada. O Estado, ou melhor, o suposto Ministério da Cultura, não compra, pois parece que terá gasto todo o seu escasso dinheiro na exposição do Hermitage. Ainda assim não o deixa sair de Portugal, caso para dizer: do mal, o menos. Apenas gostava de ter o milhão e meio de euros para o comprar, não para o ceder ou alugar a um museu público, cada vez mais locais pouco frequentáveis, mas para a sala de minha casa, sim, acho que aí estaria muito bem.

26.11.07

Proibido Proibir

Chego, via “A Origem das Espécies”, a este texto de António Barreto no Público.

«Os cozinheiros que faziam no domicílio pratos e “petiscos” a fim de os vender no café ao lado e que resistiram a toneladas de batatas fritas e de gordura reciclada, podem rezar as últimas orações. Todos os que cozinhavam em casa e forneciam diariamente aos cafés e restaurantes de bairro sopas, doces, compotas, rissóis e croquetes, podem sonhar com outros negócios. Os artesãos que comercializavam produtos confeccionados à sua maneira vão ser liquidados.
A solução final vem aí. Com a lei, as políticas, as polícias, os inspectores, os fiscais, a imprensa e a televisão. Ninguém, deste velho mundo, sobrará. Quem não quer funcionar como uma empresa, quem não usa os computadores tão generosamente distribuídos pelo país, que não aceita as receitas harmonizadas, quem recusa fornecer-se de produtos e matérias-primas industriais e quem não quer ser igual a toda a gente está condenado.Esses exércitos de liquidação são poderosíssimos: têm estado-maior em Bruxelas e regulam-se pelas directivas europeias elaboradas pelos mais qualificados cientistas do mundo; organizam-se no governo nacional, sob tutela carismática do ministro da Economia e da Inovação, Manuel Pinho; e agem através do pessoal da ASAE, a organização mais falada e odiada do país, mas certamente a mais amada pelas multinacionais na gordura, pelo cartel da ração e pelos impérios do açúcar.
[...]
Nas esplanadas, a partir de Janeiro, é proibido beber café em chávenas de louça, ou vinho, águas, refrigerantes e cerveja em copos de vidro. Tem de ser em copos de plástico.Vender, nas praias ou nas romarias, bolas-de-berlim ou pastéis de nata que não sejam industriais e embalados? Proibido. Nas feiras e mercados, tanto em Lisboa e Porto como em Vinhais ou Estremoz, os exércitos dos zeladores da nossa saúde e da nossa virtude fazem razias semanais e levam tudo quanto é artesanal: azeitonas, queijos, compotas, pão e enchidos.
Na província, um restaurante artesanal é gerido por uma família que tem, ao lado, a sua horta, donde retira produtos como alfaces, feijão verde, coentros, galinhas e ovos? Proibido.Embrulhar castanhas em papel de jornal? Proibido.
Trazer da terra, na estação, cerejas e morangos? Proibido.
[...]
Vender, no seu restaurante, produtos da sua quinta, azeite e azeitonas, alfaces e tomate, ovos e queijos, acabou. Está proibido.
Comprar um bolo-rei com fava e brinde porque os miúdos acham graça? Acabou. É proibido.
[...]
Servir areias, biscoitos, queijinhos de amêndoa e brigadeiros feitos pela vizinha, uma excelente cozinheira que faz isto há trinta anos? Proibido.
As regras, cujo cumprimento leva a multas pessadas e ao encerramento do estabelecimento, são tantas que centenas de páginas não chegam para as descrever.
[...]
Tudo isto, como é evidente, para nosso bem. Para proteger a nossa saúde. Para modernizar a economia. Para apostar no futuro. Para estarmos na linha da frente. E não tenhamos dúvidas: um dia destes, as brigadas vêm, com estas regras, fiscalizar e ordenar as nossas casas. Para nosso bem, pois claro.»

A tudo isto apenas gostaria de acrescentar: “Puta que os pariu”.

Ontem

Estive de feriado, lembrando a importância do dia 25 de Novembro na vida deste país. Na posição vertical, de comando em punho, vendo comédias românticas apenas interrompidas para a missa dominical. Porque era dia de feriado, apenas porque era dia de feriado.

Parabéns

Ao 31 da Armada pelo ano de existência.

O interior

Gostaria de poder ter escrito o post que segue, mas foi escrito pelo Francisco José Viegas no “A Origem das Espécies”.

“O presidente da República lamenta a desertificação do interior e o presidente da Câmara de Gouveia informa que nos últimos anos perdeu 3000 pessoas. A última grande iniciativa lançada para fixar empresas e pessoas «no interior», lançada pela então ministra Elisa Ferreira, previa uma festa com a redução de 5% no IRC. Mas a realidade é esta: um quarto do território com três quartos de população; três quartos do território com um quarto da população.
De vez em quando, o país inteiro (três quartos da população, um quarto do território) dá-se conta de que existe um país incompleto (um quarto da população, três quartos do território). O “país incompleto” pesa pouco na balança dos créditos e constitui uma ameaça para o orçamento, cada vez mais apertado quando se trata de financiar “regiões improdutivas”. Para uma economia estritamente liberal, seria conveniente arrendar esse território e ceder à exploração de uma entidade privada essa parcela populacional. O Estado lucraria imenso e livrar-se-ia de uma grande parte da taxa de analfabetismo, de agricultores humildes, de funcionários da administração pública, de guarda-rios, de professores deslocados e de médicos que ambicionam viver em Lisboa, Porto ou Coimbra. Três quartos da população (ainda que confinados a apenas um quarto do território) talvez não rejubilassem, porque grande parte deles conserva a sua condição de emigrantes na periferia das três maiores cidades, mas os responsáveis pela administração do Estado sorririam à ideia. De vez em quando há problemas em Miranda do Douro, em Portalegre, em Mogadouro, em Almeida, em Pias, na Covilhã ou na ilha do Corvo. Lamentáveis ocorrências apenas explicadas pela incúria e inoportunidade desse “país incompleto”. Sejamos realistas: metade do país não rende. Quer dizer: não é prestável do luminoso ponto de vista da rendibilidade económica. De resto, só défice. Esse “país incompleto” é bom apenas por poucos motivos: oferece uma boa área para que as estradas que vêm de Espanha e do resto da Europa atinjam o litoral sem problemas de maior, pontuados aqui e ali de bombas de gasolina, de restaurantes e de lojas de artesanato; e é “a terra” de muita gente que vai lá às romarias ou ao jantar de Natal. De resto, tirando o turismo de habitação, o país vinícola no Douro e no Alentejo, o circuito dos hotéis de charme e o esforço triplicado dos que vivem mesmo «no interior», o litoral vê o resto como hortas, pastagens e muita pedra. Não está posta de parte a hipótese de arrendar essa parcela do território. Ficariam com a bandeira portuguesa, sim. E até se mandariam professores. Mas, que diabo, seriam administrados por uma empresa que garantiria que o orçamento de Estado não geraria défices assombrosos com essa terra de ninguém que era bom entregar ao turismo rural e à “literatura fantástica” que se encarregaria de divulgar as suas potencialidades para os fins devidos. Quando há eleições autárquicas, autarcas dinossauros ou estreantes aparecem nas pantalhas. Os comentadores têm em conta a expressiva votação em Almeida ou em Vimioso, como no Alandroal e em Aviz? Não. Eles sabem que se trata de um quarto da população, três quartos do território. Esse país terá cartazes, outdoors, visitas do Tribunal de Contas e da IGAT. Tem estradas e IP, “acessibilidades” e Pólis, mas duvido muito que perceba as incidências do défice. Está em défice há muito tempo. Devíamos pensar nele por um instante.”

22.11.07

O mínimo

Apesar de mais um jogo medíocre em que a qualquer momento esperava um surpreendente golo finlandês, facto agravado pelo hábito destas situações lá para o lado de Alvalade, a selecção nacional lá conseguiu passar à fase final do europeu. Da frase anterior ressalvo o “apesar de” e o “lá conseguiu”, expressões supostamente impensáveis de dizer após o último jogo de qualificação num grupo de qualidade e dificuldade mais do que baixa.

Educações

Scolari insiste numa falta de educação e arrogância que começam a cansar e a dar vontade de lhe dar um tapinha à séria. O melhor seria juntá-lo a Chávez e enviá-los para um bom colégio interno inglês onde lhes ensinassem as mais básicas regras da educação e da convivência. Acho até que se iriam tornar os melhores amigos.

20.11.07

Manif

Hoje apetecia-me criar ou aderir a uma manifestação “a la” extrema-esquerda e ir para o aeroporto ou São Bento com panelas para bater e tomates para atirar ao grande democrata venezuelano. Claro que os jornais de amanhã diriam que perigosos fascistas se manifestaram contra Chávez, numa intolerável violação dos direitos democráticos assente em preconceitos imperialistas. O mundo infelizmente anda assim, com a balança dos valores muito estranhamente desregulada, condicionando-nos as opções e tornando-as de imediato politicamente incorrectas.

Ter em casa

O jornalista espanhol que no “Prós e Contras” de ontem afincadamente defendia comunismo e populismo com igual agrado, tentando por todas as vias agredir o Rei de Espanha, é daquelas criaturas que apetece ter em casa, junto ao sofá, para pontapear a gosto. Conseguiu num espaço de tempo reduzido dizer e, mais grave, insinuar tal quantidade de alarvidades que seria um acto de sanidade pública, que os seus heróis “democráticos” não teriam problemas em concretizar, silenciá-lo, não fora o facto de ainda haver quem entenda o que é democracia e que perceba que em nome dela até temos de tolerar a imbecilidade mesmo que dela não gostemos.

Coisa muitíssimo estranha

Ouvir Ana Gomes um programa inteiro e concordar na quase totalidade da suas opiniões. O mais espantoso é não estava a falar de flores ou de culinária, falava de Chávez e do “Porque no te callas” no “Prós e Contras” de ontem.

19.11.07

Que comemoração?

Neste extraordinário país vão-se comemorar os duzentos anos sobre as Invasões Francesas. Coisa bizarra esta, a de comemorarmos o facto de termos sido invadidos pela força por gentes de terras gaulesas, pelas tropas do “magnífico” Napoleão. A demonstração de fair-play colide com o típico mau comportamento português, bem expresso em vários desportos e em derrotas bem menos importantes. Alguém me poderia explicar – em longo, se bem que provavelmente pouco agradável, jantar – o que é que comemoramos. Assim de repente, talvez seja má vontade minha, não estou a ver os espanhóis a comemorarem Aljubarrota com reconstituições históricas. Ou os ingleses a comemorarem a Revolução Americana. Ou os comunistas a comemorarem a queda do muro de Berlim. Faz parte que comemoremos as vitórias, os momentos dos quais nos possamos orgulhar, mas comemorar uma vergonhosa invasão, ou a tão vergonhosa falta de empenho em terminar com a mesma, ou as traições à pátria de muitos sabujos de Junot, ou a pouco edificante fuga da corte para o Brasil, ou a ajuda mais do que interessada – apesar de ajuda – dos ingleses que saquearam o que restou. No meio de tudo isto ficarei com a eterna dúvida de perceber o que comemorarão eles.

15.11.07

Bravo

Forte aplauso para o Bastonário da Ordem do Médicos. Parece que ainda há quem saiba o que quer dizer ética e que não vacile nos princípios. Segundo o Público, a Ordem recusa alterar o seu Código Deontológico para permitir no mesmo o aborto, apesar do parecer da Procuradoria Geral da República que visava “repor a legalidade na situação”. Isto não implica a impossibilidade de cumprir a lei, pois a mesma sobrepõe-se ao Código, mas permite aos médicos manterem, nas palavras do Bastonário, a sua independência, autonomia e liberdade, e, acrescento eu, não poderem ser obrigados a efectuar algo que vá contra os seus princípios éticos.

Pesos e medidas

Ando com grande curiosidade de ver a reacção dos paladinos da liberdade da esquerda mais radical perante a censura de um dos seus autores de referência, Gabriel Garcia Márquez, num país que é hoje para eles um farol da democracia, o Irão de Ahmadinejad. Entre os dois estarão corações a balançar, resta saber se para algum lado irão cair ou se, subtilmente, esta censura será olvidada e o assunto menosprezado como sempre se passa com censuras provindas de regimes de esquerda, ou, hoje em dia mais importante, anti-americanos.

13.11.07

O Embuste

O sempre efusivo, em especial depois do almoço, Mário Lino continua a passear a sua arrogância de quem já decidiu, mas a quem uns maçadores obrigam a fingir que está a ponderar. Como já por aqui disse, o meu pessimismo com os políticos portugueses é perene e, infelizmente, não melhora com a queda das folhas no Outono. Quando o governo aceitou repensar a Ota muitos manifestaram a sua satisfação, já eu, desconfiado com a coisa, preferi esperar para ver. Depois dos “jamais” Alcochete e da margem sul ser decretada um deserto, é difícil imaginar como é que Mário Lino poderia aprovar outra solução que não a Ota. Como Pinto de Sousa insiste na obstinação de manter todos os seus ministros em funções, não é de esperar que despache Lino para outro tacho qualquer, o que, politicamente, inviabiliza qualquer alternativa à Ota.
O presidente da CIP vem agora queixar-se que o ministro desprezou o estudo em que Alcochete surge como a opção mais favorável e que se prepara para, em manobras de bastidores, destruir esse mesmo estudo. Apenas estranho a admiração, caso a mesma seja genuína. Quem leu, e eu estou a meio em vias de terminar, o livro “O erro da Ota” fica com a absoluta certeza que de facto existem conspirações e de poderes ocultos, e que a escolha da Ota só se pode prender com interesses dado o absoluto disparate desta mesma escolha. Quando as pessoas cegam fazem-no por poder ou por dinheiro, ou mesmo pelos dois, a Ota é o melhor exemplo disso.
Acreditando que o governo não faz a menor intenção de mudar de ideias, acho que há, ainda assim, uma via de o obrigar a isso. Sendo a grande e maior obsessão de Pinto de Sousa as sondagens, ou seja a popularidade, cabe aos jornalistas deste país, que não tenham cartão rosa, desmistificarem até ao infinito o embuste e a vergonha que será a escolha da Ota. No momento em que a população se aperceber, realmente, do que este governo está para fazer, talvez o PS comece a descer nas sondagens e Pinto de Sousa prefira ganhar o país e perder Lino e o sindicato de interesses em redor da Ota. Será preciso coragem, já que estes poderes ocultos têm de facto poder, mas pode ser que por uma vez Pinto de Sousa substitua a obstinação e a teimosia por coragem e firmeza.

A ler

Para melhor perceber a inanidade a que o anti-americanismo leva as pessoas e as estranhas alianças e conivências que se encontram, convido a ler este excelente post da Rua da Judiaria.
Fica aqui um excerto:
«Unidos por ideais comuns de um anti-americanismo e de um antisemitismo primários, o fanatismo religioso e aqueles que sopram as últimas cinzas do materialismo dialéctico vão encontrado terreno comum naquilo que, nos finais do séc. XIX, August Bebel chamou “o socialismo dos tolos”.»

Teste

Também via Rua da Judiaria, vale a pena fazer este teste do The Sunday Times sobre a veracidade do nosso progressismo.

Um questionário do The Sunday Times, de Londres
1 – É permitido aos muçulmanos ser homófobos por causa da sua cultura?
2 – Devem ser punidos por lei os casamentos celebrados contra a vontade das mulheres?
3 – É aceitável exigir que as mulheres usem véus?
4 – É o antisemitismo uma reposta legítima à frustração com as políticas dos Estados Unidos e de Israel?
5 – Deve permitir-se que o regime iraniano de Ahmadinejad adquira a bomba nuclear?
6 – Pode ser-se um defensor do povo mesmo que o povo não possa eleger outra pessoa?
7 – Existem ocasiões em que prisioneiros políticos podem ser justificados?
8 – É a al-Qaeda uma organização legítima de resistência no Iraque?
9 – É Ayaan Hirsi Ali demasiado crítica em relação ao Islão?
10 – Devia o Governo Holandês retirar a sua [a Ayaan Hirsi Ali] segurança no estrangeiro?
11 – Deveria Salman Rushdie ter escrito sobre o Corão da forma que o fez em “Versículos Satânicos”?
12 – São a liberdade de expressão, a liberdade de associação e a liberdade religiosa (ou ateística) direitos humanos universais?
13 – É uma tradição cultural aceitável apelar à morte das pessoas que abandonam uma religião?14 – É aceitável interditar a entrada em lugares sagrados a membros de outras religiões, como acontece em Meca?
15 – Podem os “crimes de honra” ou a mutilação genital de mulheres ser colocados num “contexto cultural”?
16 – É aceitável apelar à morte de cartunistas porque não se acha piada aos seus cartoons?

Respostas – 1)não; 2)sim; 3)não; 4)não; 5)não; 6)não; 7)não; 8)não; 9)não; 10)não; 11)sim; 12)sim; 13)não; 14)não; 15)não; 16)não

Se acertou na maioria das respostas, parabéns! É progressista a sério.
Se falhou a maioria das respostas… então é um progressista da treta e poderia estar com os filhos de Che Guevara em Teerão (ver post acima)

Original: "Are you a phoney liberal?" - Times Online (PDF)

12.11.07

Viva Espanha

Haja quem tenha mandado calar o inenarrável Chávez quando começou com os seus despropositados e intoleráveis insultos. Que tenha vindo de Espanha não surpreende, ainda menos quando vem do seu Rei, mostrando as virtudes de uma monarquia e da sua real independência.

Coisas boas da época

Abafadinho “on-the-rocks” com castanhas assadas numa fria noite de província.