8.4.08

Diálogos imaginários

– Charles, ainda bem que não guardou as minhas roupas de inverno. Se não travasse a minha precipitação estaria hoje com uma camisa de linho encharcada. E constipado, quase por certo.
– Prudência da idade, menino, nunca devemos ir atrás do primeiro brilho do sol.

7.4.08

Boas leituras

Neste fim-de-semana bons artigos na imprensa: Alberto Gonçalves na Sábado, Joel Neto na NS, Sousa Tavares no Expresso e António Barreto no Público. A ler.

3.4.08

Parabéns muitos

Uma Bomba de cinco anos. Continue a explodir. Please.

Diálogos Imaginários

– Charles, li com alguma inveja uma posta sobre camisas de linho. Apesar deste calor poder não estar para ficar, talvez seja boa ideia pensar em trocar o guarda-roupa.
– Já tinha pensado nisso, menino, até mandei alguns casacos para a lavandaria para poderem ser devidamente guardados, mas ensina a prudência que não se faça desde já a mudança total. No entanto, já tirei algumas camisas de algodão mais fino e troquei as meias de lã para algodão.
– Charles, o que seria de mim sem o seu bom senso.

2.4.08

Causas de Carlos

Fiquei a saber – via este blog recém-chegado à praça e que me parece recomendável – que o Príncipe Carlos se juntou a mais uma causa: o apoio aos pubs rurais, que se encontram em decadência e fecham a um ritmo alarmante. Nas suas palavras:

"Rural communities, and this country's rural way of life, are facing unprecedented challenges ... the country pub, which has been at the heart of village life for centuries, is disappearing in many areas.
By providing new services from the pub, such as a post office or a shop, not only keeps an essential service in the village or brings a new one in."


O blogger, Zé Pedro Amaral, ironiza com a situação, dizendo que esta é mais uma grande, grande causa, das grandes causas do Príncipe Carlos. Tenho Carlos de Inglaterra como uma das mais interessantes e politicamente incorrectas personalidades da actualidade – e já agora das mais, ou a mais, bem vestida. As suas causas podem não ser as da moda nem as fracturantes, mas tem sido intransigente defensor de um real conservadorismo, daquele que quer mesmo preservar as coisas boas, as coisas “deles”. A agricultura biológica, o urbanismo e o ordenamento do território, a arquitectura tradicional ou, agora, o modus vivendi das populações rurais, podem não preocupações importantes para muitos, mas eu tenho para mim que o são e cada vez mais. Há vida para além da economia, do deficit e da Europa, e há uma coisa muito mais importante e que em Portugal até já teve direito um ministério com o seu nome: a qualidade de vida. Esta depende de alguma forma da economia, mas, de modo algum, é em exclusivo subordinada à mesma.

1.4.08

.

O outro blog, que há uns curtos tempos resolvi criar, irá congelar. O tempo não estica como o Homem-Elástico e não está a ser viável a acumulação. Um pouco como o homem que deixa de ter tempo para a amante e resolve voltar a dedicar-se à mulher. Assim, talvez passe a publicar por aqui textos ao estilo das “Coisas dos Trinta”, baralhando um pouco o habitual registo Anarcoconservador. Às vezes há que mudar, um pouco, um pouco que não seja muito, um pouco que vá conservando as coisas como já eram e das quais íamos gostando, ainda que nunca nos satisfaçamos por completo com elas.

Voltar

O mundo onde gosto de me encontrar é recheado de imutabilidades, por isso nem sempre voltar, apesar do meu gosto pela volta, é coroado por esse encontrar tudo na mesma, como nos dias ali passados ou no tempo da despedida. As coisas mudam, algo que teimosamente não gosto de admitir.
Este fim-de-semana voltei a um dos sítios onde fui feliz, tentando contrariar o já estafado aforismo e buscando momentos bem passados e memórias cada vez mais antigas. Procurei, como sempre, os meus sítios, os meus cantos, os meus becos, uma Salamanca como a deixei – inalterada e estática. Infelizmente o mundo não é livro escrito e publicado e não se compadece com estas nostalgias. Por isso deparei com um bar onde passei muitas e boas noites transformado num restaurante modernaço e o único sítio com café decente com o nome mudado e o café lá servido desafiando a própria definição de café, de tão intragável.
Faltariam sempre as pessoas, as minhas pessoas, mas os sítios físicos sempre foram ajudas à lembrança, permitindo-nos reviver o espaço e imaginar quem noutros dias o povoou. Voltar nem sempre é perfeito, nem para um nostálgico incurável como sou, sempre olhando o passado com um carinho que nem eu por vezes compreendo. Faltou-me muita coisa neste regresso, mas resta sempre muito, demasiado para caber num escrito, resta a alma de uma cidade que é algo muito difícil de destruir. Foi bom voltar, como é sempre bom voltar. Vinicius dizia que a mulher gosta de voltar, talvez não seja só a mulher, decerto que não é só a mulher.

31.3.08

Que bem entregues estamos

Estou exultante com as medidas através das quais o PS se esforça por melhorar as nossas já óptimas vidas. Ainda bem que o estado de desenvolvimento do país é tão grande que as grandes inquietações do povo já não são a prestação da casa ou as contas de supermercado, mas sim a proibição dos piercings e o divórcio expresso. Podemos não ter dinheiro para comer, mas ao menos podemos divorciar-nos sem litígio e quando nos apetecer. Magnífico, finalmente estamos no primeiro mundo.

25.3.08

Sobre o caso Carolina Michaelis

No estado em que esta sociedade está, imagino a menina a chegar a casa e a ser muito timidamente posta pelos pais na ordem, após o que se terá levantado, começando a exercer uma subtil chantagem psicológica que, aumentando progressivamente de intensidade, surtiu efeitos nos paizinhos que, com medo de traumatizar a pobre criança, logo cederam no projectado castigo, começando já a pensar em comprar um novo telemóvel que substitua o que já é de má memória e modelo antigo, pensando também em compensar a menina com um novo computador portátil, de preferência daqueles bonitos às cores que ela anda a pedir faz tempo, indispensável para poder levar para a escola já na próxima segunda-feira, quando voltar de férias, esperando que a incompetente e tirana professora não tenha o desplante de voltar a dar aulas, depois da humilhação a que sujeitou a pobre menina.

Fisco II

A preocupação do governo com a fuga ao fisco é mais do que legítima e é evidente que a emissão de facturas deveria ser um acto lógico. A questão é que o Estado vem, por outro lado, promovendo que não se peça factura. Como trabalhador independente eu podia, até há dois ou três anos, descontar variadíssimas despesas no meu IRS. Logo, pedia factura de tudo e no preenchimento da declaração logo via o que podia usar. Agora, com o regime simplificado de tributação, o Estado assume que 35% dos meus ganhos são dedutíveis e aplica o IRS sobre 65% dos rendimentos declarados. Imagino, pelo meu exemplo, que a maioria dos trabalhadores independentes, e são cada vez mais nesta geração do recibo verde, se estejam simplesmente nas tintas para pedir factura do que quer que seja, promovendo assim uma enorme fuga ao fisco, com particular incidência na área da restauração.

Fisco I

A prioridade apontada aos casamentos revela uma lucidez e coragem de louvar a este governo. Afinal, todos sabemos da importância vital deste mercado para a economia nacional e do seu tremendo peso no PIB. Haja finalmente alguém que desmistifique que as grandes fugas ao fisco estão no mercado financeiro e nos profissionais liberais e aponte o dedo aos caterings, às modistas, às tendas e às velhas quintas em redor de Lisboa.

21.3.08

O Caminho da Cruz - Estação Décima quarta

Barnett Newman – “Stations of the Cross XIV“

Jesus é sepultado

«José pegou no corpo de Jesus, envolveu-o num lençol limpo e depositou-o no seu túmulo novo, que tinha mandado escavar na rocha. Depois, rolou uma grande pedra para a porta do túmulo e retirou-se. Entretanto, estavam ali Maria de Magdala e a outra Maria, sentadas em frente do sepulcro.»
Evangelho segundo São Mateus 27, 59-61

O Caminho da Cruz - Estação Décima terceira

Barnett Newman – “Stations of the Cross XIII“

Jesus é descido da Cruz e entregue a sua Mãe

«O centurião e os que estavam com ele de guarda a Jesus, ao verem o tremor de terra e o que estava a suceder, ficaram aterrados e disseram: «Ele era, na verdade, Filho de Deus». Estavam ali, a observar de longe, muitas mulheres, que tinham seguido Jesus desde a Galileia, para O servirem.»
Evangelho segundo São Mateus 27, 54-55

O Caminho da Cruz - Estação Décima segunda

Barnett Newman – “Stations of the Cross XII“

Jesus morre na Cruz


«A partir do meio-dia, houve trevas em toda a região, até às três horas da tarde. E, pelas três horas da tarde, Jesus bradou com voz forte: "Eli, Eli, lemá sabachthani", quer dizer, "Meu Deus, Meu Deus, porque Me abandonaste?" Alguns dos presentes ouviram e disseram: «Está a chamar por Elias». E logo um deles correu a pegar numa esponja, ensopou-a em vinagre, pô-la numa cana e deu-Lhe a beber. Mas os outros disseram: «Deixa lá! Vejamos se Elias vem salvá-Lo». E Jesus, dando novamente um forte brado, expirou.
Entretanto, o centurião e os que estavam com ele de guarda a Jesus, ao verem o tremor de terra e o que estava a suceder, ficaram aterrados e disseram: «Ele era, na verdade, Filho de Deus». »
Evangelho segundo São Mateus 27, 45-50.54

O Caminho da Cruz - Estação Décima primeira

Barnett Newman – “Stations of the Cross XI“

Jesus pé pregado na Cruz


«Puseram por cima da cabeça d'Ele um letreiro escrito com a causa da condenação: "Este é Jesus, o Rei dos Judeus". Foram então crucificados com Ele dois salteadores, um à direita e outro à esquerda. Os que passavam dirigiam-Lhe insultos, abanavam a cabeça e diziam: "Tu que demolias o Templo e o reedificavas em três dias, salva-Te a Ti mesmo, se és Filho de Deus, e desce da cruz!" De igual modo, também os sumos sacerdotes troçavam, juntamente com os escribas e os anciãos, e diziam: "Salvou os outros e a Si mesmo não pode salvar-Se! É Rei de Israel! Desça agora da cruz, e acreditaremos n'Ele".»
Evangelho segundo São Mateus 27, 37-42

O Caminho da Cruz - Estação Décima

Barnett Newman – “Stations of the Cross X“

Jesus é despojado das suas vestes


«Chegados a um lugar chamado Gólgota, quer dizer «Lugar do Crânio», deram-Lhe a beber vinho misturado com fel. Mas Jesus, quando o provou, não quis beber. Depois de O terem crucificado, repartiram entre si as suas vestes, tirando-as à sorte, e ficaram ali sentados a guardá-Lo.»
Evangelho segundo São Mateus 27, 33-36

O Caminho da Cruz - Estação Nona

Barnett Newman – “Stations of the Cross IX“

Jesus cai pela terceira vez


«É bom para o homem suportar o jugo desde a sua juventude. Que esteja solitário e silencioso, quando o Senhor o impuser sobre ele; que ponha sua boca no pó: talvez haja esperança! Que dê sua face a quem o fere e se sacie de opróbrios. Pois o Senhor não rejeita para sempre: se Ele aflige, Ele se compadece segundo a sua grande bondade.»
Livro das Lamentações 3, 27-32

O Caminho da Cruz - Estação Oitava

Barnett Newman – “Stations of the Cross VIII“

Jesus encontra as mulheres de Jerusalém que choram por Ele


«Jesus voltou-Se para elas e disse-lhes: "Mulheres de Jerusalém, não choreis por Mim; chorai antes por vós mesmas e pelos vossos filhos. Pois dias virão em que se dirá: "Felizes as estéreis, as entranhas que não tiveram filhos e os peitos que não amamentaram". Nessa altura, começarão a dizer aos montes: "Caí sobre nós", e às colinas: "Encobri-nos". Porque se fazem assim no madeiro verde, que será no madeiro seco?" »
Evangelho segundo São Lucas 23, 28-31

O Caminho da Cruz - Estação Sétima

Barnett Newman – “Stations of the Cross VII“

Jesus cai pela segunda vez


«Eu sou o homem que conheceu a miséria sob a vara do seu furor. Ele me guiou e me fez andar nas trevas e não na luz. (…) Embarrou meus caminhos com blocos de pedra, obstruiu minhas veredas. (…) Ele quebrou meus dentes com cascalho, mergulhou-me na cinza.»
Livro das Lamentações 3, 1-2.9.16

O Caminho da Cruz - Estação Sexta

Barnett Newman – “Stations of the Cross VI“

A Verónica limpa o rosto de Jesus

«O meu Servo cresceu (…) sem distinção nem beleza que atraia o nosso olhar, nem aspecto agradável que possa cativar-nos. Desprezado e repelido pelos homens, homem de dores, afeito ao sofrimento, é como aquele a quem se volta a cara, pessoa desprezível, da qual se não faz caso.»
Do livro dos Salmos 27/26, 8-9

«Segredou-me o coração: "Procura a sua face!" É, Senhor, o vosso rosto que eu persigo. Não escondais de mim o vosso rosto, nem rejeiteis com ira o vosso servo. Vós sois a minha ajuda, o Deus da minha salvação.»
Livro do profeta Isaías 53, 2-3

19.3.08

O Caminho da Cruz - Estação Quinta

Barnett Newman – “Stations of the Cross V”
Jesus é ajudado a levar a cruz pelo Cireneu

«Ao saírem, encontraram um homem de Cirene, chamado Simão, e requisitaram-no, para levar a cruz de Jesus. Jesus disse aos seus discípulos: "Se alguém quiser seguir-Me, renegue-se a si mesmo, pegue na sua cruz e siga-Me".»
Evangelho segundo São Mateus 27, 32; 16, 24





O Caminho da Cruz - Estação Quarta

Barnett Newman - "Stations of the Cross - IV"
Jesus encontra sua Mãe
«Simeão abençoou-os e disse a Maria, sua Mãe: "Ele foi estabelecido para a queda e o ressurgir de muitos em Israel, e para ser sinal de contradição; e uma espada Te há-de traspassar a alma. Assim se deverão revelar os intentos de muitos corações" (...) Sua mãe guardava no coração todas estas recordações.»
Evangelho segundo São Lucas 2, 34-35.51

O Caminho da Cruz - Estação Terceira

Barnett Newman - "Stations of the Cross - III"Jesus cai pela primeira vez
«Eram os nossos males que Ele suportava, e as nossas dores que tinha sobre Si. Mas nós víamos n’Ele um homem castigado, ferido por Deus e sujeito à humilhação. Ele foi trespassado por causa das nossas culpas, e esmagado devido às nossas faltas. O castigo que nos salva, caiu sobre Ele, e por causa das suas chagas é que fomos curados. Todos nós, como ovelhas, andávamos errantes, seguindo cada qual o seu caminho. E o Senhor fez cair sobre Ele as faltas de todos nós.»
Livro do profeta Isaías 53, 4-6

18.3.08

O Caminho da Cruz - Estação Segunda

Barnett Newman - "Stations of the Cross II"
Jesus é carregado com a cruz

«Então, os soldados do governador levaram Jesus consigo para o Pretório e reuniram junto d'Ele toda a companhia. Depois de O terem despido, envolveram-n'O em um manto encarnado. Teceram uma coroa de espinhos, que Lhe puseram na cabeça, e, na mão direita, colocaram-Lhe uma cana. Ajoelharam-se diante d'Ele e escarneceram-n'O dizendo: "Salve, ó rei dos Judeus!" Depois, cuspiram n'Ele e pegaram na cana e puseram-se a bater-Lhe com ela na cabeça. No fim de O terem escarnecido, despiram-Lhe o manto, vestiram-Lhe as suas roupas e levaram-n'O para O crucificarem.»
Evangelho segundo São Mateus 27, 27-31

O Caminho da Cruz - Estação Primeira

Barnett Newman - "Stations of the Cross I"

Jesus é condenado à morte

«Retorquiu-lhes Pilatos: "E que hei-de fazer de Jesus que é chamado Messias" Replicaram todos: "Seja crucificado!" Pilatos insistiu: "Então, que mal fez Ele" Mas eles gritavam mais ainda: "Seja crucificado!" (...) Soltou-lhes então Barrabás. E a Jesus, depois de O ter mandado açoitar, entregou-O para ser crucificado.»
Evangelho segundo São Mateus 27, 22-23.26


17.3.08

Fiz a Mini-Maratona. E sobrevivi. I

Falei aqui de algo que me iria acontecer este Domingo. Não o concretizei. Por motivos que não vêm ao caso, foi “compelido” a participar na Mini-Maratona de Lisboa. Eu, logo eu, que vejo o exercício físico com alguma cínica distância e acho que correr é das mais imbecis actividades que me foram apresentadas. Enfim, todos temos os nossos momentos de fraqueza e as nossas idiossincrasias.

Fiz a Mini-Maratona. E sobrevivi. II

A ponte abana. Juro que aponte abana. E não é pouco. Em particular a zona entre pilares parece um barco em temporal. Aliás, é pior, pois essa experiência já tive e não enjoei. Ontem fiquei com o estômago a querer ganhar vida própria, pelo menos até usar a técnica contra o “mal de mer” de fixar terra ou o horizonte. Foi com os olhos fixos nos Jardins das Necessidades ou na Tapada da Ajuda que a boa disposição voltou em força e me levou a uma deriva com as minhas Canon, a fiel analógica e a impertinente digital, disparando o “gatilho” de forma algo frenética.

O Rio

Cavaco “vetou” o diploma com a nova regulamentação para a zona ribeirinha de Lisboa. Fico curioso da reacção de Júdice, apoiante caloroso de Cavaco, “amigo discreto” de Pinto de Sousa e putativo, via António Costa, Administrador da “nova” zona ribeirinha. Será que a culpa é de Marinho Pinto?
Proibido proibir
Não gosto particularmente de tatuagens. Acho os piercings o equivalente aos brincos das vacas, com excepção aos situados no umbigo de barrigas pós-adolescentes, lisas e sem ponta de gordura ou celulite. Nada disto impede que ache que o PS anda, tal como já referi em algumas postas, a alucinar ou a promover a alucinação geral dos portugueses. Agora resolveu fazer um projecto-lei que impede as tatuagens e os piercings a menores de 18 anos. O projecto prevê que o Estado, repito, o Estado, se sobreponha aos pais das crianças e adolescentes e impeça os piercings e as tatuagens. Imagino muitos pais da direita reaccionária a rejubilarem por alguém impedir estas modernices, evitando assim que administrem castigos e se afastem ainda mais dos seus filhos. Eu apenas acho que anda tudo definitivamente louco e que liberdade é de facto um conceito que certa esquerda tem dificuldade de por em prática. Dizem que a idade acomoda as pessoas, eu, pelos vistos, estou numa deriva para o lado libertário da vida. Pelo menos assim parece. Pegando numa letra de um insuspeito poeta da esquerda:

“Eles proíbem tudo,
eles proíbem tudo,
eles proíbem tudo,
e não deixam nada.”

A Europa já nos dá pouca margem de escolha na governação, os governos persistem em proibir e regulamentar quase tudo, qualquer dia vamos parecer frangos criados em aviário, aguardando quietinhos a comida e aprontando-nos pacificamente para uma asséptica morte.

P.S: Porque será que se admira Santos Silva por lhe chamarem fascista?

14.3.08

Coisas da Terra



"Terra", uma música que não cansa ouvir . Diria Caetano vintage, não fosse Caetano quase sempre vintage.

"Quando eu me encontrava preso
Na cela de uma cadeia
Foi que vi pela primeira vez
As tais fotografias
Em que apareces inteira
Porém lá não estavas nua
E sim coberta de nuvens...

Terra! Terra!
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria?...

Ninguém supõe a morena
Dentro da estrela azulada
Na vertigem do cinema
Mando um abraço prá ti
Pequenina como se eu fosse
O saudoso poeta
E fosses a Paraíba...

Terra! Terra!
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria?...

Eu estou apaixonado
Por uma menina terra
Signo de elemneto terra
Do mar se diz terra à vista
Terra para o pé firmeza
Terra para a mão carícia
Outros astros lhe são guia...

Terra! Terra!
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria?...

Eu sou um leão de fogo
Sem ti me consumiria
A mim mesmo eternamente
E de nada valeria
Acontecer de eu ser gente
E gente é outra alegria
Diferente das estrelas...

Terra! Terra!
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria?...

De onde nem tempo, nem espaço
Que a força mãe dê coragem
Prá gente te dar carinho
Durante toda a viagem
Que realizas do nada
Através do qual carregas
O nome da tua carne...

Terra! Terra!
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria?

Na sacada dos sobrados
Das cenas do Salvador
Há lembranças de donzelas
Do tempo do Imperador
Tudo, tudo na Bahia
Faz a gente querer bem
A Bahia tem um jeito...

Terra! Terra!
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria?
Terra!"

Eça. Actual, como sempre.

“Este Governo não há-de cair — porque não é um edifício.
Tem de sair com benzina — porque é uma nódoa!”

Eça de Queiroz in "O Conde de Abranhos"

13.3.08

Meio-dia

Este Domingo vai arrastar-me para uma situação que julgaria impensável há uns curtos tempos atrás. Promete ser uma experiência inesquecível de multidão e contacto com o povo. Prometo reportagem com escritos e imagens. Só não sei ainda se estou preparado para acordar a um Domingo antes das nove da manhã, é que sempre achei que este dia da semana não tinha existência concreta antes do meio-dia, no fundo o Domingo para mim sempre foi, ele próprio, um meio-dia.

P.S. Atenção, o acontecimento em causa não é a manifestação do PS. Ainda que a minha sanidade mental por vezes abane, não entrei, por agora, em estado de demência plena.

Da Monarquia II

O mais agradável, como monárquico, foi detectar a ausência, por entre os participantes desse lado, de meninos de ar arrogante e imbecil envergando blazer azul de botões bem doirados, ou de senhores de olhar bovino e patilhas longas e espessas ou bigodes saídos de um retrato feito por um pintor de má qualidade no século XIX. Também não foi encontrado também nenhum membro da família Câmara Pereira, o que terá contribuído, em muito, para a boa disposição e alto nível intelectual do debate.

Da Monarquia

Só ontem tive oportunidade de ver o “Prós e Contras” de segunda-feira. Não me lembro de assistir a um tão interessante e civilizado debate sobre a forma de regime em Portugal. Ambos os lados fugiram – quanto possível, pois Daniel Oliveira estava presente – aos argumentos mais radicais e demagógicos, discutindo com seriedade a questão: “Monarquia ou República”. Sem prejuízo para outros, gostaria de destacar a vitalidade de Gonçalo Ribeiro Telles, a incorrecção lírica de José Adelino Maltez e, muito em particular, a serenidade e inteligência de Paulo Teixeira Pinto. Se outras provas faltassem, o debate mostrou o erro de casting que foi ter Teixeira Pinto à frente de um banco e aquilo que a política portuguesa poderia ganhar com a sua presença. Optou por intervir ao serviço da “Causa Real”, como monárquico fico muito contente com isso.

11.3.08

Liberdades

Valerá a pena comentar? Acho que não, basta ouvir e digerir. Augusto Santos Silva mostrou a sua essência na reacção a uma manifestação de rua. É fácil falar de liberdade quando ela não nos incomoda, difícil é ser tolerante quando discordam de nós. Aí, sim, se vê quem é, de facto, pela liberdade.

Suicidário

O PSD caminha estranhamente para um convicto hara-kiri. Só isso pode explicar que, nos tempos mais conturbados do governo, a direcção se entretenha a mexer em polémicas questões internas e que os seus opositores comecem a sair da toca em gritos estridentes. No mínimo é incompreensível, a não ser à luz de uma rebuscada teoria sobre o suicídio e as suas causas.

Coincidências

Custa a acreditar que o governo tenha sido alheio à saída de Camacho do Benfica. Ao menos a julgar pelas horas infinitas ocupadas por não notícias em volta deste tema, precisamente nos dias seguintes a uma gigantesca manifestação de professores, e não só, pelas ruas de Lisboa. Conveniente, muito conveniente mesmo, tanto que a manifestação parece que já foi coisa distante e sem importância.

7.3.08

Coisas de uma Voz



Como por aqui as versões são sempre bem vindas – manias minhas –, hoje deixo a estupenda Cesária Évora a cantar “Besame mucho”. Bom som para acompanhar este radioso crepúsculo que anuncia o fim-de-semana.

A propósito de educação

Vale a pena ler este post do Francisco José Viegas, publicado no "A Origem das Espécies". A propósito das manifestações de professores e do descontentamento que ainda pode levar a ministra a levar uma sova, caso se cruze com algum professor em fúria, o que nos dias que correm é uma redundância.
"Ontem visitei uma escola no concelho de Sintra. Era a “semana da leitura” numa escola cuja biblioteca está permanentemente aberta das 08h00 às 22h00 por devoção dos seus professores. Os de várias disciplinas, de Português a Educação Física e Geometria – cada um faz uma escala para garantir um dos objectivos internos da própria escola: mantê-la aberta nesse período. Havia alunos a ajudar no bar e no refeitório, porque não há pessoal suficiente. Alunos, funcionários administrativos e professores promoveram uma maratona de leitura. A ministra da educação pede a estes professores para “trabalharem mais um pouco”, coisa que eles já fazem há bastante tempo; ouvi alunos portugueses, africanos, indianos, do Leste europeu, a falar com orgulho da sua escola. Falando com eles, um a um, percebe-se entusiasmo em várias coisas. Acho natural, são professores. Percebo pela blogosfera uma grande vontade de fazer “justiça pelas próprias mãos” aos professores, mas vejo poucas pessoas com disponibilidade para ouvi-los nas escolas – não nas ruas, onde as parvoíces são sempre amplificadas, mas nas escolas, nos corredores da escolas, quando fazem turnos de limpeza, quando atendem alunos em dificuldade ou fazem escalas para Português como língua estrangeira para rapazes ucranianos ou indianos que não entendem sequer o alfabeto ocidental, ou quando tratam dos problemas pessoais de alguns deles (ou porque não tomam o pequeno-almoço em casa, ou têm dificuldade em aceitar um namoro desfeito, ou andam na droga). Os professores, estes professores, são um dos últimos elos (percebe-se isso tão bem) entre os miúdos e miúdas desorientados e um mundo que é geralmente ingrato. São avaliados todos os dias pelo ambiente escolar, pelo ruído da rua, pelas horas de atendimento, pelas reuniões que o ME não suspeita. Muitas vezes, as famílias não sabem o ano que os miúdos frequentam; não sabem quantas faltas eles deram; não sabem se os filhos estão de ressaca. Os professores sabem.
Essa vontade de disciplinar os professores, eu percebo-a. Durante trinta anos, uma série de funcionários que abundou “pelos corredores do ME” (gosto da expressão, eu sei), decretou e planeou coisas inenarráveis para as escolas – sem as visitar, sem as conhecer, ignorando que essa geringonça de “planeamento”, “objectivos”, princípios pedagógicos modernos, funcionava muito bem nas suas cabecinhas mas que era necessário testar tudo nas escolas, que não podem ser laboratórios para experiências engenhosas. Muitos professores foram desmotivados ao longo destes anos. Ou porque os processos disciplinares eram longos depois de uma agressão (o ME ignora que esses processos devem ser rápidos e decisivos), ou porque ninguém sabe como a TLEBS é aplicada. Ninguém, que eu tivesse ouvido nas escolas onde vou, discordou da necessidade avaliação. Mas eu agradecia que se avaliasse também o trabalho do ME durante estes últimos anos; que se avaliasse o quanto o ME trabalhou para dificultar a vida nas escolas, com medidas insensatas, inadequadas e incompreensíveis; que se avalie a qualidade dos programas de ensino e a sua linguagem imprópria e incompreensível. Sou e sempre fui dos primeiros a pedir avaliação aos professores, porque é uma exigência democrática e que pode ajudar a melhorar a qualidade do ensino. Mas é fácil escolher os professores como bodes expiatórios de toda a desgraça “do sistema”, como se tivessem sido eles a deixar apodrecer as escolas ou a introduzir reformas sobre reformas, a maior parte delas abandonadas uns anos depois. Por isso, quando pedirem “justiça”, e “disciplina” e “rigor” (coisas elementares), não se esqueçam de visitar as escolas, de ver como é a vida dos professores, porque creio que se confunde em demasia aquilo que é “o mundo dos professores” com a imagem pública de um sistema desorganizado, oportunista e feito para produzir estatísticas boas para a propaganda."

6.3.08

Coisas de polícia

Um segurança do Centro Comercial Colombo foi encontrado morto. A primeira hipótese da polícia foi suicídio, algo que até se compreende em alguém obrigado a trabalhar, dia após dia, hora após hora, fechado entre as paredes deste belo centro comercial. A questão é que o homem morreu com três facadas, o que talvez não seja demasiado lógico para um suicídio. Perante este crime aparentemente insolúvel, talvez fosse necessário chamar Sherlock Holmes a intervir, apesar de esta ser uma atitude de manifesta crueldade para com este génio e que o levaria a tomar muitas drogas, mais ainda que o seu habitual, para conseguir encarar a nossa brilhante polícia.

.

Foram alguns dias de ausência deste poiso, de pouco tempo ou paciência para a escrita, de pouca produtividade. Enfim, coisas da vida, de uma primavera antecipada, de deixar de ter a idade de Cristo.

29.2.08

Cola

Nos dias que correm dou por mim a olhar com volúpia reprimida para boiões de cola. O motivo nada tem que ver com uma compulsiva vontade de efectuar trabalhos de bricolage, apenas com uma enorme curiosidade sobre os efeitos da inalação de cola, pois consta que é coisa de poderosa alienação. Neste país virtual é cada vez mais necessário recorrer a estímulos artificiais que nos permitam acompanhar o delírio com que somos desgovernados. Enquanto não liberalizam as drogas leves, é difícil encontrar bons cogumelos alucinogénicos e o absinto puro continua proibido, talvez a cola seja uma adequada solução para acompanhar este filme de Terry Gilliam em que se tornou este país da grande modernidade ao nível do norte da Europa, mas onde se continua a morrer de fome e a pobreza alastra.

28.2.08

Música para o fim de tarde



Marisa Monte com Paulinho da Viola. Sem mais, porque palavras não são precisas perante esta mulher. São mesmo desnecessárias. Basta ouvir. E que bom é ouvir.

25.2.08

Das esquerdas

A saída de Fidel deixou muitos, incompreensivelmente muitos, órfãos. Como na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma, eis que surge um novo farol para a esquerda com a vitória de Christofias no Chipre. A coisa é tão inédita que deve ser mesmo a primeira vez que um líder comunista chega ao poder através de eleições. Das reais e livres, claro, e não de farsas virtuais tão ao gosto desses democratas.

Real ou virtual

Andam as gentes entusiasmadas a modernidade Socrática apregoada como o caminho da salvação ateia e celebrada há dias na comemoração de três anos de governo “moderno”. Infelizmente vão surgindo demasiadas notícias que desmentem o oásis, tais como saber que Portugal é o segundo país da Europa na exposição das crianças à pobreza. Por este andar, qualquer dia Portugal apenas têm existência no virtual “Real Life” e sob o nome de “West Coast by Nick Knight”.

Sporting perde outra vez

Antes fosse apenas no “Real Life”, na Liga da “West Coast by Nick Knight”, o problema é que não foi, uma vez mais não foi.

21.2.08

Cores de Lisboa

O salmão refulge por detrás de Monsanto, espelhando-se no plúmbeo das nuvens recortadas em fiapos.

19.2.08

.

Parece que Pinto de Sousa resolveu despender algum do seu precioso tempo para uma entrevista à SIC. Os portugueses tiveram o privilégio de ouvir as doutas palavras do seu primeiro, respondendo às questões essenciais do país. Disse parece, porque um jantar de amigos me fez ausentar de casa e fiquei assim na ansiedade de não poder enriquecer a minha pessoa com a prédica de Sousa. Li hoje os comentários à entrevista, que me pareceram extremamente facciosos, já que eram quase unânimes a constatar que nada de relevante tinha sido dito e que as questões mais importantes tinham estado ausentes. Não acreditava no que lia, pois depois da exemplar, aberta e corajosa entrevista na RTP, para esclarecer, e cabalmente, o processo da licenciatura, não esperava outra coisa de Pinto de Sousa que não fosse uma clara e frontal entrevista. De facto, ao que chegaram os nossos jornalistas nesta monstruosa cabala urdida contra o PS.

13.2.08

O Bobo da Corte

A grande indignação dos portugueses aquando da remodelação foi a estranha permanência de Mário Lino no governo. Parecia impossível que, depois das trapalhadas em redor da Ota, e da gigantesca desautorização de que foi alvo, o senhor tivesse as mínimas condições para continuar no governo. A resposta a este enigma, que permitirá compreender o bizarro facto de Lino ainda ser ministro, poderá ser encontrada se nos detivermos no processo de decisão sobre a nova travessia sobre o Tejo. Mário Lino já está a adoptar o estilo que usou na decisão sobre o aeroporto: certezas absolutas, dúvidas repentinas, contradições totais, desmentidos de desmentidos. Enfim, uma sucessão de labirínticas declarações perante as quais hesitamos entre rir ou chorar. Com tudo isto eu já tenho para mim a resposta para a perplexidade do senhor ainda ser ministro, aliás, é mesmo a única que consigo conceber: Pinto de Sousa escolheu Mário Lino para, em momento de profunda depressão nacional, encarnar a figura de “Bobo da Corte”, para que com os seus disparates vá entretendo o povo e o mantenha longe dos reais problemas do país.

12.2.08

Timor

Nestes trágicos tempos que vive Timor é uma mais vez essencial o apoio de Portugal. Durante anos, esta foi terra abandonada e esquecida, assunto tabu para demasiadas consciências pesadas. Longe, muito longe para que as feridas se avivassem, para que parecessem reais. Os indonésios ocuparam o território e Portugal, com a timidez de uma virgem pudica, balbuciava débeis protestos à comunidade internacional. Os políticos portugueses só podem querer evitar falar sobre Timor, aliás, durante anos foi exactamente aquilo que fizeram, tentando que o povo português ignorasse o que se passava com os seus irmãos do outro lado do mundo. Uma voz sempre destoou, ao ponto de por isso ser ridicularizado, insistindo em dar apoio aos refugiados timorenses e em não deixar que o assunto caísse no tão desejado esquecimento: D. Duarte de Bragança, que a “inteligentzia” sempre insiste em fazer passar como um inútil, foi a única voz que nunca se calou. Depois veio o povo português, que após perceber, finalmente, o que se passava em Timor, essencialmente depois de ver as imagens do massacre de Santa Cruz, mas também, é preciso não esquecer, graças às denúncias da então Embaixadora na Indonésia, Ana Gomes. A inédita, e magnífica, onda de solidariedade que percorreu o país terá sido uma bofetada aos políticos da situação que, de repente, se viram na necessidade de ter de fazer algo por Timor. Aí, e só aí, houve uma acção oficial de Portugal em relação a Timor. Foi tarde, tal como o vai ser agora, mas foi essencial, tal como o terá de ser agora.

Relembrem-se as palavras de Pedro Ayres de Magalhães, escritas para a canção "Timor" dos Resistência:

“Andam lá sem descansar, Nas montanhas a lutar,
Iluminam todo o mar de Timor.
Nas montanhas sem dormir, uma luz a resistir
Arde sem se apagar em Timor.

Andorinha de asa negra,Se o teu voo lá passar,
Faz chegar um grande abraço, Dá saudades a Timor.

Eles não podem escrever, Porque vão a combater,
Vão de manhã defender, a Timor.
As crianças a chorar, não as posso consolar
Que eu nunca cheguei a ver, a Timor.

Andorinha de asa negra
Vem ouvir o meu cantar.
Faz chegar um grande abraço,
Sem noticias de Timor.
Nunca mais hei-de voltar ,
Já não posso lá voltar,
À idade de lembrar a Timor.
Andam lá sem descansar, Nas montanhas a lutar
Iluminam todo o mar de Timor.”

8.2.08

Estéticas



O Impensável lembra uma entrevista de Pinto de Sousa em que se diz um esteta, convidando a aferir este estatuto com os edifícios por ele projectados (ver imagem acima). Não penso que haja contradição nos factos, afinal cada um tem a sua estética, o que me preocupa é ter alguém com estes conceitos estéticos a governar o que quer que seja. Pode-se dizer que os gostos não se discutem, ou que o bom gosto é questão subjectiva, no entanto tenho para mim que alguém com tão mau gosto não pode ser bom administrador de Portugal. Afinal, o país é a nossa casa comum, que não quero ver submersa por “psichés” e cães de loiça ou coberta por azulejos industriais de refugo.

Os parabéns

O Corta-Fitas, um dos blogs mais estimados por estes lados, fez dois anos. Obrigado.

6.2.08

Marcha da quarta-feira de Cinzas


Do Vinicius, neste início de quaresma.

Primárias em Portugal

Estão oficialmente abertas as primárias para as presidenciais portuguesas. O tiro de partida foi dado pelo omnipresente José Miguel Júdice, que nos últimos tempos se tem desdobrado pelos media num estranho e frenético afã de protagonismo que não lhe era habitual. Este frenesim não poderia ser inocente, assim como não o terão sido a sua saída do PSD e o seu peculiar entusiasmo com Pinto de Sousa. Parecia que o seu objectivo seria concretizar a negociata com António Costa para presidir à entidade que irá gerir a zona ribeirinha de Lisboa. Puro engano. Este poderá ser um passo intermédio, mas ficou claro que o seu objectivo ainda que se situe junto ao rio se concretiza numa zona muito particular denominada Belém. Apenas isto, ou um aparente acesso de insanidade, explicará a sua obsessão com Marinho Pinto e o seu terror perante a possibilidade deste estar a trilhar o caminho para ser candidato da esquerda a Belém. Está aberta a guerra, uma surpreendente e pouco interessante guerra que apenas servirá para desviar as atenções sobre o que Marinho Pinto disse sobre corrupção. Ou será mesmo esse o objectivo?

1.2.08

Luto

Há cem anos atrás, dois assassinos dispararam uma saraivada de tiros provocando a morte do Rei D. Carlos e do Príncipe Luís Filipe.

D. Carlos I, Rei de Portugal
(Fotografia de Amadeu Ferrari, in Arquivo Fotográfico de Lisboa)

D. Luís Filipe, Príncipe Real de Portugal
(Fotografia de Alberto Carlos Lima, in Arquivo Fotográfico de Lisboa)









Assim se vê a força dos aventais.

As forças armadas não poderão estar presentes nas cerimónias em honra do rei D. Carlos, mas os seus assassinos carbonários terão direito ao descerramento de uma lápide.

Vergonha de ser português I

O Estado português recusou a presença das forças armadas nas cerimónias em memória dos cem anos sobre o assassinato do Rei D. Carlos e do Príncipe Luís Filipe. Ao que consta, Fernando Rosas terá feito um requerimento ao ministro Severiano Teixeira que, para além de lhe dar seguimento, com o apoio de todos os partidos, teve a “gentileza” de ligar a Rosas a dar conta da sua decisão. Nem vale a pena comentar o que quer que seja, basta ler com atenção as frases anteriores.
D. Carlos era, goste-se ou não, o chefe de Estado aquando do seu assassinato, como tal era óbvio e evidente que, em cerimónia em memória do seu selvagem assassinato, estivessem presentes as forças armadas. Seria o mesmo que, se viéssemos em monarquia, fosse negada uma parada militar em honra à morte de um presidente da república, ou seja, algo impensável.
Assola-me uma vergonha profunda de que Portugal tenha sucumbido a esta gente infame e cheia de ódio e que o país esteja, com excessiva rapidez, a perder toda a dignidade que lhe ia restando.

Vergonha de ser português II

Fantástico país em que os criminosos Buiça e outro de quem nem me lembro do nome vão ser homenageados. Estes homens foram uns vulgares e bárbaros assassinos, mas ainda há quem os ache uns heróis. Os mesmos que acham que Estalin foi um grande líder e que há terroristas desculpáveis e que a violência, quando parte do lado deles, é justificável. Tenho nojo desta gente, desta gente que em nome da liberdade desculpa tudo, esquecendo que em nome da liberdade a república nos conseguiu trazer 64 anos de ditadura e apenas 33 de democracia. Esquecendo ainda que no tempo de D. Carlos o regime era democrático e que o rei tinha um poder em muito semelhante aos actuais presidentes da República e que talvez por isso mesmo tenha sido morto. Esquecendo a história quando tal é conveniente, aproveitando os relatos ficcionados subordinados à ideologia e sob o capote da história.

29.1.08

Coincidência

Pinto Ribeiro é o novo ministro da cultura.
Pires de Lima é a ex-ministra da cultura.
Pires de Lima assinou o contrato da colecção Berardo.
Pinto Ribeiro era administrador da Fundação Berardo.

Coincidências

O “Manifesto do Surrealismo” vai ser leiloado em Paris.
Mário Lino continua a ser o ministro das obras públicas.

Esquecimento. Por certo esquecimento.

O primeiro-ministro esqueceu-se de Mário Lino. Esta é a única explicação para que este senhor continue a ser ministro. Só pode ter sido esquecimento. Esquecimento da sua existência, esquecimento da sua irresponsável teimosia, esquecimento dos “jamais” e dos “desertos”, esquecimento da Ota sem dúvida. Enfim, esquecimentos. Agora só se pode esperar que, a tempo da tomada de posse dos outros novos ministros, surja também um novo ministro para as obras públicas. Alguém que lembre o senhor Pinto de Sousa, é que parece que o homem anda esquecido.

Saída pessoal

Por fim, Correia de Campos lá saiu. Por motivos pessoais, como é óbvio, nada que ver com o facto de ser odiado por cerca de oitenta por cento dos portugueses que vivem fora de Lisboa e Porto. A sua inexplicável – pelo menos ele nunca a conseguiu explicar devidamente – política de deixar o interior com o menor número de serviços de saúde possíveis deixou inquestionáveis marcas. Marcas pessoais, como é evidente.

Yes!

A magnífica Ministra da (in)cultura foi finalmente à vida. Não sei se isto quererá dizer que vamos passar a ter, de facto, um Ministro da Cultura em José António Pinto Ribeiro, mas pior que Pires de Lima parece-me, muito sinceramente, impossível. Pena é que fiquem as luminárias com que ela encheu o ministério, um bando de “yes men” que substituíram gente competente – é preciso não esquecer Pinnamonti, João Lagarto ou Dalila Rodrigues – sob a complacência de outros de coluna vertebral no mínimo flácida – assim de repente, o nome Bairrão Oleiro vem-me à cabeça. Que Pinto Ribeiro não empregue o estilo estalinista já será um excelente prenúncio para que as coisas da cultura melhorem, o problema é que permanece por lá o fantasma de Vieira de Carvalho, na sua Secretaria de Estado, eminente seguidor da velha escola de Estaline, tão do agrado da ex(que bem que isto soa)-ministra. Ainda assim, depois de Pires de Lima, pior é impossível.

Lembrete

Demissões por razões políticas, museus com alas fechadas por falta de pessoal, milhões gastos numa exposição medíocre (Hermitage), acordo ortográfico a passar ao lado do Ministério da Cultura, compra do Tiepolo em risco por ignorância da ministra, inexistência de política cultural, ruinoso aluguer da colecção Berardo. Apenas para citar alguns exemplos do brilhantismo de Pires de Lima. Em jeito de epitáfio.

Tragédia

Pires de Lima poderá voltar aos seus estudos queirozianos. Pobre Eça, já estará a rebentar o caixão perante esta sinistra possibilidade.

28.1.08

Ressuscitou! Aleluia.

O moribundo Sporting, que arrastava uma doença desconhecida – o Dr. House recusou consulta ao domicílio e Soares Franco achou, em nome da contenção, que seria muito caro ir até aos EUA – pelo campeonato, chegando ao limite em que duvidávamos se a equipa já tinha morrido, mas ninguém se lembrara de a avisar, ressuscitou ontem em Alvalade. Pode ser, e se calhar infelizmente é, uma fugaz ressurreição –como quando os choques do desfibrilhador conseguem animar um coração parado – no entanto dá alguma esperança à família de que até ao fim da temporada possa deixar de tomar vorazmente Prozac, passando antes para umas “minis” a comemorar vitórias. Asseguro que foi a primeira vez que esta época saí de Alvalade satisfeito com o resultado e também com o jogo. Não que tenha sido esmagador ou brilhante, mas por ter sido bom e com garra, e por mostrar que os jogadores queriam de facto ganhar, algo que cheguei a duvidar em vários jogos este ano. Que assim continue, até porque ainda temos três taças ao alcance e um lugar na Liga dos Campeões para assegurar. O campeonato, enfim, como eu já não acredito no Pai Natal…

25.1.08

Parece que ainda há justiça!

O processo da queixa-crime que José Pinto de Sousa, enquanto cidadão e primeiro-ministro, intentou contra António Balbino Caldeira, pelos seus posts no blog “Do Portugal Profundo”, foi arquivado. Parece que, a custo, ainda vai sendo possível alguma liberdade de expressão neste “Portugal Amordaçado”.

22.1.08

A lei de George I

Francisco George adoptou ontem uma postura digna de um Álvaro Cunhal na sua melhor forma. Questionado durante todo o programa sobre dúvidas concretas sobre a lei do tabaco, negou-se terminantemente a responder a qualquer uma delas, repetindo em cada intervenção o que tinha dito na anterior. O método não deixa de ser eficaz, mas é de esperar que quem o ouviu já esteja algo treinado quanto ao método da “cassete”. Sobre quais são os requisitos concretos para os regimes de excepção, remeteu para a lei que, segundo ele, é de uma enorme clareza. Cito, da Lei 37/2007 de 14 de Agosto, o artigo 5, alínea 5, que se refere aos requisitos necessários para as áreas de fumadores nas excepções contempladas pela lei:

a) Estejam devidamente sinalizadas, com afixação de dísticos em locais visíveis, nos termos do artigo 6º;
b) Sejam separadas fisicamente das restantes instalações, ou disponham de dispositivo de ventilação, ou qualquer outro, desde que autónomo, que evite que o fumo se espalhe às áreas contíguas;
c) Seja garantida a ventilação directa para o exterior através de sistema de extracção de ar que proteja dos efeitos do fumo os trabalhadores e os clientes não fumadores.

É extraordinário que se ponha uma lei em vigor sem que a mesma esteja adequadamente regulamentada, ou seja, neste caso, que se quantifique o que acima destaquei a bold. Seria o mesmo que o código da estrada dissesse que a velocidade máxima numa determinada estrada era a adequada ao tipo de estrada em questão, sem contudo a quantificar. Após insistência de José Sá Fernandes lá deixou cair, sem se comprometer, que há uma lei já aprovada – apenas para espaços com mais de 1000 m2 – que irá entrar em vigor para os restantes espaços apenas em Janeiro de 2009. Não disse que era essa a lei a seguir, até porque não o poderia fazer pois a mesma não se aplica, mas deixou a enigmática sugestão de que poderia ser essa a medida.
Ao dizer que a lei é clara, George está a fazer passar os portugueses por burros e a tentar impedir, com infame batota, que as excepções possam ser postas em prática. Este facto foi bem comprovado nas declarações do representante da ASAE, ao dizer que aguardava informações da DGS para saber quais os critérios e que, até lá, apenas se exigia um termo de responsabilidade do técnico instalador do sistema de ventilação.

A lei de George II

Os casinos portugueses não vão ser uma excepção à Lei do Tabaco, pelo simples motivo que a mesma não se lhes aplica. Foram as palavras de Mário Assis Ferreiras, sustentado em pareceres de Freitas do Amaral e Fausto Quadros. A lei foi tão mal feita – ou propositadamente grosseira, como disse Assis Ferreira – que os Casinos, que acompanharam o processo legislativo, ficaram de fora dos espaços referidos expressamente na lei.

A lei de George III

Afinal o espírito da lei do tabaco é proibir de fumar. Pena é que a constituição do país ainda o permita.

A lei de George IV

Ao insistir em que as zonas de fumadores tenham tanta extracção de ar que afinal não tenham fumo, Francisco George deixa em mim uma dúvida: para quê impedir que se fume? Ou seja, se as zonas onde se permite o fumo vão ser assim tão limpas e ausentes de fumo, não era necessário criá-las, bastava exigir que os ditos requisitos de extracção de fumo se aplicassem a todos os espaços fechados. Ou então, como é obviamente impossível evitar que haja fumo onde se fuma, é esta a comprovada trapaça da lei.
A única palavra de esperança veio da declaração final de George, ao dizer que a medida da aplicação da lei está na Assembleia da República e que será ela a torná-la mais restrita ou menos restrita dentro da, comprovadamente vaga, lei.

A lei de George V

Ficou claro que o objectivo (até ontem oculto) da lei é impedir o fumo no espaço público. Não é – como diz o texto da lei – a protecção dos não fumadores. Como muito bem disse Mário Assis Ferreira, as palavras do Sr. Constantino lembraram demasiado Orwell e, infelizmente, foram corroboradas por George. Como disse, e muito bem, Fátima Bonifácio na sua declaração final, é para aqui que caminhamos, para um mundo sem escolhas em que mais não seremos do que marionetas de um Estado omnipresente. Mais do que nunca é aconselhável ler “1984”, até porque qualquer dia será um livro proibido.

21.1.08

Falta de vergonha

De Barroso, “o Fugitivo”, diz-se que estuda apoios para voltar à política em Portugal. Do homem que negociou com Sampaio a entrega do país a Santana – no mais envenenado presente que me lembro de ver nos últimos tempos – e com isso nos deixou entregues a Pinto de Sousa, parece-me uma total e absoluta falta de vergonha que pense, e apenas pense, voltar. O problema é que a falta de memória do povo me leva a temer uma perfeita tragédia. Santana, Sousa e Barroso. Comentários para quê.

“Pérolas a porcos”

Quaresma anda a ser assobiado no Estádio do Dragão.

18.1.08

A oposição

Luís Filipe Menezes, ao contrário do que muitos dizem, tem sido muito claro no seu discurso e já deixou bem expresso o seu objectivo para o partido. Poder, poder e poder. Tudo o resto é irrelevante, seja a forma, o conteúdo ou os meios.

17.1.08

Indispensável

O post “Novos fascistas”, no Portugal dos Pequeninos, que inclui a reprodução de um artigo de José Manuel Fernandes no Público.
Num post recente falei em entrar para a clandestinidade, imaginando que poucos me levassem a sério, o problema é que falava de facto a sério e, infelizmente, a coisa vai estando menos longe do que se possa pensar.

Ainda sobre o “veto” ao Papa

Queria entender a mania que o europeu tem de tentar destruir as bases da civilização ocidental (e nunca houve civilização mais avançada), que ele mesmo criou ao longo de séculos de evolução.” Leonardo no “Vide Bula

Da sociedade asséptica

Via "31 da Armada" chego a estas pequenas informações históricas – veiculadas no “Bar Velho” – sobre Hitler e o regime nazi:


"- Hitler financiou um estudo da Universidade de Jena, para se tentar descobrir se o câncro do pulmão teria algo a ver com o fumo do tabaco. A conclusão do estudo permitiu que se iniciasse a primeira campanha anti-tabágica de que há memória em todo o Mundo.
- Foram criadas leis que proibiam que se fumasse em locais públicos e iniciaram-se campanhas que permitiram dar a conhecer às pessoas o perigo que o tabaco provoca.
- Era proibido fumar nos escritórios dos serviços postais da Força Aérea; polícias fardados estavam proibidos de fumar; restaurantes e cafés estavam proibidos de vender cigarros a mulheres; vouchers de tabaco eram negados a mulheres grávidas; era proibido um menor de 18 anos fumar em público; produtos alusivos ao tabaco eram alvo de uma regulação muito restrita.
- Como forma de dissuadir os soldados alemães de fumar, Hitler dava 6 cigarros diariamente por cada homem, ou chocolate e mais comida como opção. Ás mulheres não era permitido fumar de todo.
- A expressão "fumador passivo" surgiu com Fritz Lickint, autor do livro "Tabaco e o Organismo". Ele colaborou activamente com a Campanha Anti-Tabágica Nazi.
- Foi feita uma campanha intensiva por toda a Alemanha alertando os alemães para os perigos existentes no consumo de corantes e conservantes na comida e nas bebidas.
- Foram criadas leis que proibiam o consumo de álcool por menores e que puniam a condução sob efeito de álcool, existindo ainda os testes de sangue feitos ao condutor.
- O Governo alemão promovia o consumo de água mineral como substituto do álcool e lançou imensas campanhas para motivar os jovens a comer e beber de forma saudável, e a praticarem exercício físico: uma mente sã, num corpo são."

As comparações podem sempre ser duvidosas, pode até questionar-se o seu bom gosto, o que é inegável é que quando pessoas como Vasco Pulido Valente, António Barreto ou Miguel Sousa Tavares recorrem a epítetos de “fascista” ou “nazi” para qualificar a ASAE ou a nova lei do tabaco não estão – ao contrário do que muitas virgens pudicas ofendidas e comentadores irónicos nos querem fazer querer – a enlouquecer ou em delírios devidos ao álcool ou às drogas. A história não é o que nós queremos que seja, é um conjunto de factos e se, de facto, o nazismo foi o pioneiro em leis conducentes a uma sociedade asséptica, não será absurdo estabelecer um nexo de comparação. Aliás, após ler isto com atenção, acho perfeitamente plausível, e até lógico, que venha a ouvir o “Gremlin” George a elogiar as políticas de saúde de Hitler, pois os seus grandes ideais como Director Geral de Saúde estão quase todos escritos ali em cima. Não estou com isto, como é evidente, a chamar nazi ao senhor – o que seria – mas que em termos de leis de saúde pública estamos a ficar muito perto das leis nazis, lá isso estamos. E a consequência deste facto terá de ser a de elogiar Hitler neste campo, pois foi, inquestionavelmente, um visionário com razão antes de tempo. Não percebo por isso que alguém fique melindrado com a comparação, a mesma deve ser tomada como um largo elogio.

16.1.08

Causas

Há causas que valem a pena. Conhecer a verdade da história é uma delas. Por isso é importante que no centenário do assassinato do rei D. Carlos e do príncipe Luís Filipe a verdade surja na história contada. Durante anos, o republicanismo dominante nas elites persistiu em contar uma história falsa e deturpada sobre os últimos anos da monarquia. Para o perceber basta ler “O Poder e o Povo”, de Vasco Pulido Valente, onde o movimento republicano é descrito com o pormenor exigido a uma tese de doutoramento. Nos livros da história oficial ficou a imagem de um rei ditador e sem o apoio do povo, que teve de ser assassinado para implantar uma salvadora república, fiel representante dos valores democráticos. Assim conhecerá a história a maioria da população portuguesa, numa consequência óbvia do que é a falsidade histórica.
A importância da data ultrapassa a causa monárquica ou republicana, por isso sua maior relevância pode estar em trazer a verdade para a história. Surgiram recentemente dois sites que podem contribuir para esta verdade, são eles “O Regicídio” e o “Centenário da República”, e os seus links passam desde já para a coluna do lado. Deixo-vos com um excerto do post de abertura de João Távora, no “Centenário da República”:
“As comemorações oficiais não se debruçarão sobre a república proclamada em 5 de Outubro de 1910, mas sobre um regime idealizado e abstracto, sobre generosas intenções que se presumirão nos republicanos de 1910, e das quais os políticos comemorantes se pretenderão afirmar-se herdeiros.”

15.1.08

Solnado e o Costes, guerra e a electrónica

O mundo em que vivemos é cada vez mais pequeno, e só mesmo isso justifica que haja uma ligação entre Raul Solnado, o Hotel Costes, a guerra e a música electrónica. Para quem duvide, nem que por instantes, da minha sanidade mental, sinto-me na obrigação de esclarecer. Para tal, recomendo primeiro a audição do famoso, e fabuloso, sketch de Raul Solnado, “A Guerra de 1908”, mesmo aqui em baixo. Depois, ouçam aqui ao lado, na “Caixa de Música”, “Táxi to War”, do Dj Disse, incluída na colectânea “Hotel Costes 10”.

14.1.08

Terrorismo

A clandestinidade vai deixando de ser uma miragem e é já sem ironia que me apetece destruir os escritórios da ASAE ou o automóvel do Gremlin que se diz Director Geral de Saúde. Sem danos humanos, como é evidente, mas terrorismo urbano é uma via a estudar.

10.1.08

Ensinamento do dia

Jamais dit jamais.

Um brinde

A este estranho país que se propõe construir um aeroporto no meio do deserto.

Personagem do dia

Mário Lino, ou sobrevivente incompreensível.

Ainda há esperança

Há uns meses, a Ota era um dado adquirido e defendido com total intransigência pelo governo. A chamada sociedade civil mexeu-se, foi publicado o livro “O erro da Ota”, a CIP fez um estudo de viabilidade para Alcochete, o povo percebeu o embuste miserável que ia ser a Ota – feita com o dinheiro de todos para benefício de alguns – e o governo acabou por se render à evidente sensatez da escolha de Alcochete. Fica a prova que, mesmo contra a persistente obstinação de Pinto de Sousa, ainda é possível travar alguns dos disparates que tentam impor a este pobre país.

Medo, há que ter medo

O primeiro-ministro lá decidiu por Alcochete, com um discurso bem estudado para não parecer um total recuo. Os famosos interesses é que não devem ter ficado muito satisfeitos, por isso logo veio Pinto de Sousa dizer que era preciso compensar as populações da zona da Ota, que tinham feito investimentos a contar com o aeroporto. Leia-se, é preciso compensar os ocultos interesses que se preparavam para ganhar uma fortuna na Ota, nem que isso implique o gasto de mais uns milhões de dinheiros públicos.

9.1.08

Das Europas

O esperado foi hoje anunciado: não haverá referendo ao Tratado de Lisboa. O primeiro instinto seria discorrer palavras amargas e agressivas sobre a falta de democraticidade da medida, insultando Pinto de Sousa pelo incumprimento de uma promessa eleitoral. No entanto, o cinismo vai ganhando espaço no meu pensamento e fico feliz com a decisão. Não porque concorde com ela, simplesmente porque ela é coerente com os métodos anti-democráticos de Bruxelas e porque acho, sinceramente, que o “Sim” iria ganhar. Assim, fico com a tranquila consciência de que esta decisão – como quase todas as tomadas pela “Europa” – não contou com o expresso apoio popular, e um dia mais tarde – que chegará a curto ou médio prazo – em que a Europa se tornar ingovernável e entrar em colapso, poderemos, os que dela duvidamos, dizer com propriedade que caiu porque nunca teve, de facto, o apoio do povo.

8.1.08

Afinal há outro

Com o novo ano chegou a vontade de criar um outro blog. Este blog, desde que nasceu, oscilou o seu estilo e conteúdo ao sabor de indefinidas marés. Assim irá continuar, mas abrirei outro espaço, talvez mais intimista, talvez mais pessoal, talvez até menos diferente do que julgo. Será de seu nome “Coisas dos Trinta” e não falará, seguramente, de política, mas de coisas mais prosaicas, ainda que, por vezes, não menos interessantes. A respeitável longevidade deste Anarcoconservador não me permite acabar com ele, nem nada que se pareça, apenas terei dois espaços distintos para escrever sobre coisas diferentes. O tempo dirá se vale a pena manter os dois blogs, até lá, convido os que fazem o favor de me ler aqui, e aos quais aproveito para agradecer, para me visitarem também por .

7.1.08

Terrorismo

Telefonar para os restaurantes que mais gostamos a tentar reservar mesas, em dias de semana, para doze pessoas (bom número pois é volume de dinheiro razoável e não é um grupo tão grande que desmotive os donos pelo excesso de incómodo para os restantes clientes). Após a solícita resposta de “com certeza”, e apenas após, confirmar, com voz melíflua, se a mesa é para fumadores. Após a resposta negativa, e ainda que com a persuasão de que se pode fumar no bar ou à porta, rejeitar convictamente a reserva e acrescentar, com delicadeza, que assim terá imensa pena de não poder voltar a usufruir de um restaurante onde já passou tantos bons momentos.

Coisas do fumo

Ainda não tive o prazer de jantar fora neste novo ano, nem sei mesmo se o irei ter tão cedo. Restaurantes onde não possa fumar não me interessam, pelo menos para jantares de prazer e em boa companhia. A nova lei é intolerante, mas os restaurantes também foram preguiçosos e incompetentes e não se prepararam para a mesma, o resultado é que não me merecem como cliente.
Agradeço a fundamental lista do “A Origem das Espécies” e prometo contribuir na medida do possível para a actualização da mesma.

Memória

Hittler pregava por uma sociedade perfeita de homens loiros e saudáveis, em que a doença e a imperfeição eram motivos suficientes para remover alguém da sociedade.
A lei do fumo foi aplicada em Portugal tornando os fumadores criaturas à margem do sistema.
Em Inglaterra já se fala em retirar direitos no Sistema Nacional de Saúde aos cidadãos gordos.
Sejam saudáveis, ou então tenham medo, muito medo.

Cidadanias

Este blog é mantido por um português que, desde dia 1 de Janeiro, foi considerado cidadão de segunda neste triste país. A inaceitável “lei do fumo” contribuiu para apressar um processo que eu julgava ia demorar algum tempo a ser consolidado, o do meu caminho para a clandestinidade. Vivo num país onde o conceito de democracia é tão criativo e afastado do original que vacilo se não seria melhor uma ditadura assumida. A imprensa não é livre, os bancos privados são manipulados pelo estado, a justiça é uma perfeita inexistência, há gente – e muita – a passar fome, o desemprego não pára de crescer, fazemos parte de uma ditadura burocrática como origem em Bruxelas que ninguém compreende. No meio de tudo isto, o importante é tornar os fumadores menos cidadãos e dar poderes à ASAE para tornar Portugal num país asséptico e plástico de onde apetece fugir desesperadamente.

.

Neste país já há o desplante de discutir a legitimidade das escolas terem nome de santos. Curioso que um santo – que, acreditando-se ou não em Deus, terá sido um bom homem – não possa dar nome a escolas e tenhamos ruas com nomes de assassinos comprovados.

Coisas genéticas

Uma vez mais, perante o terror, os franceses baixaram as calcinhas. Depois de Vichy, transformaram o “Lisboa – Dakar” em “CCB – Mosteiro dos Jerónimos”. A bem da sua proverbial e abençoada cobardia.

Regresso

A temporada festiva terminou com a epifania do dia de Reis e este blog volta agora à normalidade possível dos pequenos dias invernais.

4.1.08

Começa mal o ano

Os terroristas conseguiram mais uma vitória e o Lisboa-Dakar foi cancelado por razões de segurança. Vencendo batalhas caminha-se, ainda que não irreversivelmente, para a vitória na guerra. Que não seja o caso e que a Civilização ainda consiga ir buscar coragem e argumentos para combater a Barbárie.

Regresso da terra

Após os provincianos dias festivos, este blog volta ao rebuliço de Lisboa. Os bons momentos familiares passaram e restou uma incomodativa constipação. Consequências nefastas de alguns possíveis excessos ou simples falta de resistência ao inclemente frio húmido? A resposta é indiferente, mas dispensavam-se as consequências.

27.12.07

Coisas de amigos

Casa de Santa Vitória Reserva, Guru, Passadouro, Pintas e Pintas Vintage. Magnífico ramalhete de vinhos que por si só faria uma noite de longo prazer. Ontem, foram apenas pano de fundo para um jantar de Natal de amigos que iam chegando das proveniências mais diversas, desde o Douro profundo a Londres, desde o seminário até à Comissão Europeia. Este jantar anual é o fio que nos vai juntando por entre as distâncias da vida e o que é espantoso é que, depois de dois minutos de conversa, regressamos sem esforço aos gloriosos tempos de faculdade e esquecemos as marcas do tempo em nome de laços que, ainda que por vezes já pareçam ténues, permanecem com inesperada firmeza.

.

Passado o Natal, ficam os sempre agradáveis dias que restam até o ano findar. Acolhedores e diletantes, vividos por entre telefonemas e cafés com amigos. Até há quem trabalhe, mas o ar que se respira é de umas familiares férias de Inverno.