8.4.08

Demência ou mau perder

O futebol é um deporto que desperta irracionalidades. Facto. No entanto o bom futebol – mesmo quando praticado por equipas que odiamos e, como tal, tenhamos dificuldade de o reconhecer em público – é universal. Não facto. O treinador e jogadores do Roma, depois de terem levado um banho de bola do Manchester, queixaram-se que Ronaldo, o nosso, faz truques desnecessários que humilham o adversário. Assim, sem mais. Em vez de reconhecerem uma evidente derrota, dizem que o adversário se excedeu e os humilhou. Apenas se compreende porque vem do futebol italiano, muito apreciado pelos teóricos da bola, mas que em mim tem um efeito superior a um Valium. Aliás, não percebo como alguém perde tempo a ver jogos de futebol italiano, para dormir vai sendo preferével o sofá de casa e uma música calma.

Diálogos imaginários

– Charles, ainda bem que não guardou as minhas roupas de inverno. Se não travasse a minha precipitação estaria hoje com uma camisa de linho encharcada. E constipado, quase por certo.
– Prudência da idade, menino, nunca devemos ir atrás do primeiro brilho do sol.

7.4.08

Boas leituras

Neste fim-de-semana bons artigos na imprensa: Alberto Gonçalves na Sábado, Joel Neto na NS, Sousa Tavares no Expresso e António Barreto no Público. A ler.

3.4.08

Parabéns muitos

Uma Bomba de cinco anos. Continue a explodir. Please.

Diálogos Imaginários

– Charles, li com alguma inveja uma posta sobre camisas de linho. Apesar deste calor poder não estar para ficar, talvez seja boa ideia pensar em trocar o guarda-roupa.
– Já tinha pensado nisso, menino, até mandei alguns casacos para a lavandaria para poderem ser devidamente guardados, mas ensina a prudência que não se faça desde já a mudança total. No entanto, já tirei algumas camisas de algodão mais fino e troquei as meias de lã para algodão.
– Charles, o que seria de mim sem o seu bom senso.

2.4.08

Causas de Carlos

Fiquei a saber – via este blog recém-chegado à praça e que me parece recomendável – que o Príncipe Carlos se juntou a mais uma causa: o apoio aos pubs rurais, que se encontram em decadência e fecham a um ritmo alarmante. Nas suas palavras:

"Rural communities, and this country's rural way of life, are facing unprecedented challenges ... the country pub, which has been at the heart of village life for centuries, is disappearing in many areas.
By providing new services from the pub, such as a post office or a shop, not only keeps an essential service in the village or brings a new one in."


O blogger, Zé Pedro Amaral, ironiza com a situação, dizendo que esta é mais uma grande, grande causa, das grandes causas do Príncipe Carlos. Tenho Carlos de Inglaterra como uma das mais interessantes e politicamente incorrectas personalidades da actualidade – e já agora das mais, ou a mais, bem vestida. As suas causas podem não ser as da moda nem as fracturantes, mas tem sido intransigente defensor de um real conservadorismo, daquele que quer mesmo preservar as coisas boas, as coisas “deles”. A agricultura biológica, o urbanismo e o ordenamento do território, a arquitectura tradicional ou, agora, o modus vivendi das populações rurais, podem não preocupações importantes para muitos, mas eu tenho para mim que o são e cada vez mais. Há vida para além da economia, do deficit e da Europa, e há uma coisa muito mais importante e que em Portugal até já teve direito um ministério com o seu nome: a qualidade de vida. Esta depende de alguma forma da economia, mas, de modo algum, é em exclusivo subordinada à mesma.

1.4.08

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O outro blog, que há uns curtos tempos resolvi criar, irá congelar. O tempo não estica como o Homem-Elástico e não está a ser viável a acumulação. Um pouco como o homem que deixa de ter tempo para a amante e resolve voltar a dedicar-se à mulher. Assim, talvez passe a publicar por aqui textos ao estilo das “Coisas dos Trinta”, baralhando um pouco o habitual registo Anarcoconservador. Às vezes há que mudar, um pouco, um pouco que não seja muito, um pouco que vá conservando as coisas como já eram e das quais íamos gostando, ainda que nunca nos satisfaçamos por completo com elas.

Voltar

O mundo onde gosto de me encontrar é recheado de imutabilidades, por isso nem sempre voltar, apesar do meu gosto pela volta, é coroado por esse encontrar tudo na mesma, como nos dias ali passados ou no tempo da despedida. As coisas mudam, algo que teimosamente não gosto de admitir.
Este fim-de-semana voltei a um dos sítios onde fui feliz, tentando contrariar o já estafado aforismo e buscando momentos bem passados e memórias cada vez mais antigas. Procurei, como sempre, os meus sítios, os meus cantos, os meus becos, uma Salamanca como a deixei – inalterada e estática. Infelizmente o mundo não é livro escrito e publicado e não se compadece com estas nostalgias. Por isso deparei com um bar onde passei muitas e boas noites transformado num restaurante modernaço e o único sítio com café decente com o nome mudado e o café lá servido desafiando a própria definição de café, de tão intragável.
Faltariam sempre as pessoas, as minhas pessoas, mas os sítios físicos sempre foram ajudas à lembrança, permitindo-nos reviver o espaço e imaginar quem noutros dias o povoou. Voltar nem sempre é perfeito, nem para um nostálgico incurável como sou, sempre olhando o passado com um carinho que nem eu por vezes compreendo. Faltou-me muita coisa neste regresso, mas resta sempre muito, demasiado para caber num escrito, resta a alma de uma cidade que é algo muito difícil de destruir. Foi bom voltar, como é sempre bom voltar. Vinicius dizia que a mulher gosta de voltar, talvez não seja só a mulher, decerto que não é só a mulher.

31.3.08

Que bem entregues estamos

Estou exultante com as medidas através das quais o PS se esforça por melhorar as nossas já óptimas vidas. Ainda bem que o estado de desenvolvimento do país é tão grande que as grandes inquietações do povo já não são a prestação da casa ou as contas de supermercado, mas sim a proibição dos piercings e o divórcio expresso. Podemos não ter dinheiro para comer, mas ao menos podemos divorciar-nos sem litígio e quando nos apetecer. Magnífico, finalmente estamos no primeiro mundo.

25.3.08

Sobre o caso Carolina Michaelis

No estado em que esta sociedade está, imagino a menina a chegar a casa e a ser muito timidamente posta pelos pais na ordem, após o que se terá levantado, começando a exercer uma subtil chantagem psicológica que, aumentando progressivamente de intensidade, surtiu efeitos nos paizinhos que, com medo de traumatizar a pobre criança, logo cederam no projectado castigo, começando já a pensar em comprar um novo telemóvel que substitua o que já é de má memória e modelo antigo, pensando também em compensar a menina com um novo computador portátil, de preferência daqueles bonitos às cores que ela anda a pedir faz tempo, indispensável para poder levar para a escola já na próxima segunda-feira, quando voltar de férias, esperando que a incompetente e tirana professora não tenha o desplante de voltar a dar aulas, depois da humilhação a que sujeitou a pobre menina.

Fisco II

A preocupação do governo com a fuga ao fisco é mais do que legítima e é evidente que a emissão de facturas deveria ser um acto lógico. A questão é que o Estado vem, por outro lado, promovendo que não se peça factura. Como trabalhador independente eu podia, até há dois ou três anos, descontar variadíssimas despesas no meu IRS. Logo, pedia factura de tudo e no preenchimento da declaração logo via o que podia usar. Agora, com o regime simplificado de tributação, o Estado assume que 35% dos meus ganhos são dedutíveis e aplica o IRS sobre 65% dos rendimentos declarados. Imagino, pelo meu exemplo, que a maioria dos trabalhadores independentes, e são cada vez mais nesta geração do recibo verde, se estejam simplesmente nas tintas para pedir factura do que quer que seja, promovendo assim uma enorme fuga ao fisco, com particular incidência na área da restauração.

Fisco I

A prioridade apontada aos casamentos revela uma lucidez e coragem de louvar a este governo. Afinal, todos sabemos da importância vital deste mercado para a economia nacional e do seu tremendo peso no PIB. Haja finalmente alguém que desmistifique que as grandes fugas ao fisco estão no mercado financeiro e nos profissionais liberais e aponte o dedo aos caterings, às modistas, às tendas e às velhas quintas em redor de Lisboa.

21.3.08

O Caminho da Cruz - Estação Décima quarta

Barnett Newman – “Stations of the Cross XIV“

Jesus é sepultado

«José pegou no corpo de Jesus, envolveu-o num lençol limpo e depositou-o no seu túmulo novo, que tinha mandado escavar na rocha. Depois, rolou uma grande pedra para a porta do túmulo e retirou-se. Entretanto, estavam ali Maria de Magdala e a outra Maria, sentadas em frente do sepulcro.»
Evangelho segundo São Mateus 27, 59-61

O Caminho da Cruz - Estação Décima terceira

Barnett Newman – “Stations of the Cross XIII“

Jesus é descido da Cruz e entregue a sua Mãe

«O centurião e os que estavam com ele de guarda a Jesus, ao verem o tremor de terra e o que estava a suceder, ficaram aterrados e disseram: «Ele era, na verdade, Filho de Deus». Estavam ali, a observar de longe, muitas mulheres, que tinham seguido Jesus desde a Galileia, para O servirem.»
Evangelho segundo São Mateus 27, 54-55

O Caminho da Cruz - Estação Décima segunda

Barnett Newman – “Stations of the Cross XII“

Jesus morre na Cruz


«A partir do meio-dia, houve trevas em toda a região, até às três horas da tarde. E, pelas três horas da tarde, Jesus bradou com voz forte: "Eli, Eli, lemá sabachthani", quer dizer, "Meu Deus, Meu Deus, porque Me abandonaste?" Alguns dos presentes ouviram e disseram: «Está a chamar por Elias». E logo um deles correu a pegar numa esponja, ensopou-a em vinagre, pô-la numa cana e deu-Lhe a beber. Mas os outros disseram: «Deixa lá! Vejamos se Elias vem salvá-Lo». E Jesus, dando novamente um forte brado, expirou.
Entretanto, o centurião e os que estavam com ele de guarda a Jesus, ao verem o tremor de terra e o que estava a suceder, ficaram aterrados e disseram: «Ele era, na verdade, Filho de Deus». »
Evangelho segundo São Mateus 27, 45-50.54

O Caminho da Cruz - Estação Décima primeira

Barnett Newman – “Stations of the Cross XI“

Jesus pé pregado na Cruz


«Puseram por cima da cabeça d'Ele um letreiro escrito com a causa da condenação: "Este é Jesus, o Rei dos Judeus". Foram então crucificados com Ele dois salteadores, um à direita e outro à esquerda. Os que passavam dirigiam-Lhe insultos, abanavam a cabeça e diziam: "Tu que demolias o Templo e o reedificavas em três dias, salva-Te a Ti mesmo, se és Filho de Deus, e desce da cruz!" De igual modo, também os sumos sacerdotes troçavam, juntamente com os escribas e os anciãos, e diziam: "Salvou os outros e a Si mesmo não pode salvar-Se! É Rei de Israel! Desça agora da cruz, e acreditaremos n'Ele".»
Evangelho segundo São Mateus 27, 37-42

O Caminho da Cruz - Estação Décima

Barnett Newman – “Stations of the Cross X“

Jesus é despojado das suas vestes


«Chegados a um lugar chamado Gólgota, quer dizer «Lugar do Crânio», deram-Lhe a beber vinho misturado com fel. Mas Jesus, quando o provou, não quis beber. Depois de O terem crucificado, repartiram entre si as suas vestes, tirando-as à sorte, e ficaram ali sentados a guardá-Lo.»
Evangelho segundo São Mateus 27, 33-36

O Caminho da Cruz - Estação Nona

Barnett Newman – “Stations of the Cross IX“

Jesus cai pela terceira vez


«É bom para o homem suportar o jugo desde a sua juventude. Que esteja solitário e silencioso, quando o Senhor o impuser sobre ele; que ponha sua boca no pó: talvez haja esperança! Que dê sua face a quem o fere e se sacie de opróbrios. Pois o Senhor não rejeita para sempre: se Ele aflige, Ele se compadece segundo a sua grande bondade.»
Livro das Lamentações 3, 27-32

O Caminho da Cruz - Estação Oitava

Barnett Newman – “Stations of the Cross VIII“

Jesus encontra as mulheres de Jerusalém que choram por Ele


«Jesus voltou-Se para elas e disse-lhes: "Mulheres de Jerusalém, não choreis por Mim; chorai antes por vós mesmas e pelos vossos filhos. Pois dias virão em que se dirá: "Felizes as estéreis, as entranhas que não tiveram filhos e os peitos que não amamentaram". Nessa altura, começarão a dizer aos montes: "Caí sobre nós", e às colinas: "Encobri-nos". Porque se fazem assim no madeiro verde, que será no madeiro seco?" »
Evangelho segundo São Lucas 23, 28-31

O Caminho da Cruz - Estação Sétima

Barnett Newman – “Stations of the Cross VII“

Jesus cai pela segunda vez


«Eu sou o homem que conheceu a miséria sob a vara do seu furor. Ele me guiou e me fez andar nas trevas e não na luz. (…) Embarrou meus caminhos com blocos de pedra, obstruiu minhas veredas. (…) Ele quebrou meus dentes com cascalho, mergulhou-me na cinza.»
Livro das Lamentações 3, 1-2.9.16