30.4.08

Diálogos Imaginários

– Charles, já não sei com que roupa hei-de andar. Num dia vou à praia e apetecem-me linhos à noite, no outro saio de manhã e sou varrido por um vento gelado. Este tempo indeciso começa a trazer-me uns certos nervos.
– Tenha calma, menino, eu vou mantendo alguns abrigos de inverno no armário, enquanto trago algumas coisas de verão.
– Eu sei, Charles, quando abro o armário tenho as várias alternativas à disposição, o pior é que fico contagiado pela indecisão do tempo e não sei mesmo o que vestir.
– Coisas da vida, menino, que insiste em ser feita de decisões.

Homens

A complexidade do ser humano é facto indesmentível. Ainda que por vezes não tenhamos isto em conta, compreender o próximo é tarefa quase sempre impossível. Se o dizemos sobre as coisas pequenas, o que pensar quando o que está em jogo é tão grande como a própria vida? Os últimos dias trouxeram-me dois exemplos, distintos e distantes, de como ficar perplexo perante o outro. Primeiro, quando um primo resolveu por termo à vida, sem que nada o fizesse prever, deixando vasta família em estado de puro choque do qual, por certo, tardarão a sair. Depois veio a macabra história do austríaco, que de tão rebuscada nem esperávamos encontrar num mau filme de terror de série B.
O dia-a-dia teima em nos dar motivos para tudo questionar, mas por entre a rotina inquieta surgem episódios que nos abanam ainda mais e nos fazem pensar do que é capaz o bicho homem. Felizmente resta-me um pouco de optimismo que me faz lembrar os homens bons, que os há, e o que de bom podem trazer ao mundo. Caso contrário, toda a confiança que tenho no Homem se esvairia com facilidade.

29.4.08

Poesias

Esta manhã que se acinzenta traz-me à memória a Irlanda, e com a Irlanda a poesia, e com a poesia Yeats. Aqui ficam as palavras, ditas pelo próprio, destacando-se o famoso, e belíssimo, “The Lake Island of Innisfree”:

“I will arise and go now, and go to Innisfree,
And a small cabin build there, of clay and wattles made:
Nine bean-rows will I have there, a hive for the honey-bee,
And live alone in the bee-loud glade.

And I shall have some peace there, for peace comes dropping slow,
Dropping from the veils of the mourning to where the cricket sings;
There midnight's all a glimmer, and noon a purple glow,
And evening full of the linnet's wings.

I will arise and go now, for always night and day
I hear lake water lapping with low sounds by the shore;
While I stand on the roadway, or on the pavements grey,
I hear it in the deep heart's core."

28.4.08

Segundo

Acho que ninguém percebeu muito bem como, mas o Sporting está em segundo lugar do campeonato. Há coisas que é mesmo melhor não perceber, basta que se concretizem e assim continuem.

Perplexidades

Ele há questões que nos perseguem ao longo da vida sem que para elas encontremos qualquer explicação satisfatória. Há algumas que são particularmente inquietantes e ultrapassam largamente os limites da compreensão. O 25 de Abril ajudou-me a recordar os morteiros, fenómeno profundamente desagradável que quase nos rebenta os tímpanos, interrompe qualquer agradável conversa, e nos distrai de coisas muito mais interessantes. O estranho e bizarro é que eles existem e são usados porque há quem goste deles e de os lançar em dias de festa. Acho que nos dias da minha vida nunca irei compreender isto. O pior é que o assunto me incomoda e me tenta a elaborar teorias. Felizmente ainda há réstias de racionalidade no meu ser que me impedem de perder tempo com coisas sem importância real. A tentação é grande, mas vou procurando resistir, apesar do fascínio inquestionável do tema.

24.4.08

Timing

A cumprir-se a candidatura de Santana, teremos o duelo que, caso Ferreira Leite não se tivesse esquivado, deveríamos ter tido aquando da fuga de Durão. A diferença de timing deixou o partido e o país entregues, durante estes anos, a Santana e Menezes, com os resultados conhecidos. Veremos agora se o partido premeia a cobardia ou a insistência.

Não há fome que não dê em fartura

Há uma semana Menezes estava condenado a continuar porque não tinha alternativas. Hoje parece que afinal todos querem ser presidentes do PSD. Todas as hipóteses são válidas e até se fala de Jardim e de Santana. Faço aqui notar que ainda há algumas personalidades de quem ninguém se lembrou e que gostaria de lançar: Mota Amaral, Duarte Lima, Mendes Bota, Rui Gomes da Silva, Fernando Ruas, Isaltino Morais ou Fernando Seara. Claro que o primeiro é o único em quem acredito, mas qualquer um dos outros seria (ainda) mais animação garantida para as directas.

O nosso país

O arrazoado de artigos incompreensíveis que nunca será decifrado por qualquer ser humano normal, mas que terá consequências enormes para o nosso país, foi ontem aprovado. No parlamento, claro, com a devida distância do povo ignorante. Para alegrar a populaça, as notícias de destaque nos media foram a putativa candidatura de Jardim e a indignação profunda de Luís Filipe Vieira.

23.4.08

Coisas que acontecem

Uma conversa de circunstância deriva para a música e deixamo-nos embalar em opiniões conclusivas, terminando numa prelecção sobre fado, essa então definitiva. A coisa tinha começado perante duas amigas a que se tinha entretanto junto um amigo, que não conhecia, que entrou no assunto com grande descontracção. Apenas no regresso a casa me apercebi de quem era o dito amigo e que ele sabia, de facto, de música e escrevia sobre o tema. Fiquei embaraçado e a pensar se não me tinha entusiasmado em excessivos disparates, mas, apesar da vodka, acho que não fui longe o suficiente para me sentir envergonhado.

Essa é que é essa

“Helena Roseta, no DN, Sobre o novo plano para a frente ribeirinha:

“Perdeu-se assim a possibilidade de cumprir cinco objectivos essenciais: renaturalizar e facilitar o funcionamento físico da frente ribeirinha; abrir crescentemente ao público as áreas portuárias, que tanto fascínio sempre exerceram; ligar, onde possível, a margem às colinas, aproveitando os desníveis para vencer com imaginação o aterro, como fez Carlos Mardel, no século XVIII, no Cais do Sodré; prever o uso do plano de água para transporte urbano ao longo da margem; e garantir a participação dos vários agentes e dos cidadãos. A reconciliação da cidade com o rio teria de passar por aqui.
José Miguel Júdice não gostou das minhas críticas e veio acusar-me de dizer disparates. Queria mesmo que eu me "calasse para sempre", depois de a sua nomeação ter sido viabilizada pelo silêncio da maioria da câmara. Opiniões, dir-se-á. Nem ele nem eu recebemos, aliás, remuneração pelas nossas funções - ele, como administrador, porque prescinde dela; eu, como vereadora, porque não tenho direito. Há, no entanto, uma diferença substancial. Júdice é nomeado pelo Governo, eu sou eleita pelos lisboetas. Tenho por isso uma legitimidade democrática de que não abdico para fazer ouvir a minha voz. É aliás esse o meu dever. Mesmo sem uma fundação, sem lóbis e sem dinheiro por trás. “
Vale a pena ler o artigo na íntegra.

22.4.08

A Guerra das Laranjas

A confirmar-se a candidatura de Manuela Ferreira Leite, é caso para dizer – Aleluia! A sua virtude sebastiânica já foi acenada tantas vezes, em tantos maus momentos dos partidos, que o povo já se inquietava com a falta de resposta. Parece que é desta que o “timing” é certo e que surge uma coragem política que já se pensava perdida. Após deixar o partido entregue a Santana e Menezes, Ferreira Leite terá pensado que Ribau Esteves também era demais e lá avançou.
Para as elites do partido, dos jornais e dos blogs, Ferreira Leite é a personalidade que faltava para salvar o PSD. Eu fico-me com duas questões: irá ela conseguir ganhar o partido caso Santana se candidatar; e será que o PSD ainda tem salvação possível depois de se deixar partir em dois pedaços?
As minhas dúvidas sobre Ferreira Leite são muitas, mas é inegável que pelo menos seriedade e responsabilidade podem ser esperadas. Ainda assim, é importante perceber o que fez de Ferreira Leite uma das políticas mais elogiadas do país. À minha memória vem um consulado como Ministra da Educação que trouxe mais estudantes para a rua do que todas as queimas das fitas juntas, atraindo sobre ela um profundo ódio da geração rasca, e a estadia nas Finanças onde a obsessão foi tão grande que ficou a famosa ideia de que não havia vida para além do deficit. Irá Ferreira Leite convencer a “geração rasca” e os portugueses que sofreram na pele com a obsessão do deficit das suas boas intenções? E quais são as suas intenções pois eu, talvez por ignorância própria, não sei muito bem em que ideologia e projecto para o país a senhora se encontra, apenas que foi indefectível de Cavaco e isso, para mim, não é grande carta de recomendação.
Por tudo isto, aguardemos com alguma esperança de que pelo menos o nível político suba uma pouco acima da tasca pouco frequentável em que se tornou.

21.4.08

Coisas pós-Domingo

Futebol? Não, não sei bem o que isso é. Pois, é que não estou mesmo a ver. É qualquer coisa com bola? Deve ser. Leiria? Ah! Tem um castelo e uns doces famosos, parece que se chamam “brisas”. Futebol é não estou mesmo a ver. É daquelas coisas – não conheço nem ouvi falar.

18.4.08

Naufrágio?

Menezes deixou-se arrastar pelas extravagantes chuvas primaveris, prometendo não voltar a emergir nos fins de Maio. Claro que a promessa não será para cumprir e ficará à espera de ver que corajosos notáveis avançarão, para depois averiguar se volta, ou não, a candidatar-se. Por uma vez Menezes acertou na jogada, obriga os adversários a dar o corpo, algo que muitos deles não apreciam, e fica sempre com a reserva da vitimização. Esperemos para ver, mas lá que a coisa promete, isso é inegável.

Palavras

A Câmara Municipal de Lisboa resolveu não votar o nome de Júdice para dirigir a Sociedade Frente Tejo. Júdice disse que apenas aceitaria o lugar se a CML aprovasse o seu nome. Manterá a palavra ou, a exemplo do futebol, o que é verdade hoje pode ser mentira amanhã. A ser assim é apenas mais um episódio triste desta pouco edificante novela.

17.4.08

O Jogo em imagens I


Versão curta, apenas os golos, via SIC.

O Jogo em imagens II


Versão longa ao som de Bobby McFerrin.

Sporting 1

A primeira parte foi um banho de bola do Benfica que, com grande tranquilidade, trocou a bola a seu belo prazer e encaixou com dois golos. Os jogadores do Sporting pareciam ter tomado uma dose excessiva de Valium e deslocavam-se com uma lentidão capaz de levar ao desespero o adepto mais calmo. O jogador que tinha a bola caminhava a passo e olhava em todas as direcções procurando uma desmarcação, um esboço de movimento, mas tudo o que encontrava era uma exposição de estátuas humanas dignas de Pompeia.

Sporting 2

As palavras que possam descrever a segunda parte são difíceis de encontrar. No estádio acho que ninguém acreditava, sinceramente, que era possível dar a volta ao resultado. O Sporting entrou bem, com outra garra e vontade, e após o remate de Moutinho, que merecia ter entrado (pelo remate e pela exibição sublime), o estádio, apesar dos dois golos de desvantagem, começou a acreditar que era possível. Sentia-se nas bancadas que a coisa que ameaçava caminhar para uma goleada contra nós podia virar. A equipa terá sentido isso e a velocidade do jogo aumentava de minuto a minuto, finalmente os jogadores resolveram mexer-se, e como não encontraram meio termo passaram a jogar a uma velocidade estonteante, tudo começou a correr bem, os passes saíam certos, as fintas sentavam os jogadores do Benfica (pobre Léo, que ainda deve estar a recuperar de tanto nó cego que levou) e os golos, bom, os golos começaram a entrar, e que bem, e que bonitos, a acabar numa obra pura de arte. Avassalador. Um verdadeiro massacre.

Sporting 3

Todos os golos foram importantes e quase todos bonitos, mas o último, de Vukcevic, é absolutamente portentoso. Desde o passe extraordinário de Miguel Veloso, atravessando o campo de lés a lés até cair suavemente mesmo à frente de Vuckcevic, ao remate acrobático, qual passe de bailado contemporâneo, arrancado com uma força imparável que só podia acabar no fundo da baliza. Um verdadeiro espanto.

Sporting 4

Paulo Bento acertou nas substituições. Quando Izmailov entrou, comecei a rosnar na bancada perante os últimos pobres jogos do russo. A segunda parte fez-me calar e Izmailov foi mesmo dos melhores, entre os melhores, em campo. A entrada de Derlei, que eu pensava já não poder jogar esta época, foi importante por dois motivos: saiu Romagnoli, que nesta fase já era um peixe lento fora das águas agitadas do jogo do Sporting; e entrou um jogador hiper-motivado após longuíssima lesão e a jogar contra uma equipa que o mandou embora.