5.6.08

Isto está bonito!

Após anos de providências cautelares do inefável António Maria Pereira, eis que o Tribunal de Lisboa, numa decisão inédita, resolveu proibir a transmissão em directo da Corrida de Touros da RTP, remetendo-a para o horário entre as 22.30h e as 6.00h, e ainda assim acompanhado por um identificativo visual permanente, por, alegadamente, ser “susceptível de influir negativamente na formação da personalidade de crianças e adolescentes”.
Neste país, proibir é um dos verbos preferidos, pena que se aplique sistematicamente ao que não deve. Insuspeito de tendências revolucionárias, cada vez mais me apetece sair para a rua e gritar: “É proibido proibir!”.

4.6.08

El breve espacio que no esta

Porque às vezes, muitas, é preciso ouvir música nostálgica ou triste. Aqui fica uma canção de Pablo Milanés que conheci da versão de Luís Represas incluída no seu primeiro álbum.

3.6.08

Demagogia

Palavra que serve a tudo, como uma bata larga de hospital de tamanho único que a todos serve. Alguém se insurge contra o status quo e é demagogia, alguém dá uma ideia contra a corrente e é demagogia, alguém diz o óbvio e é demagogia.
Há fome, há gente hipotecada até ao tutano, há uma imensidão de crédito mal parado e irrecuperável, há prestações de casas incomportáveis, há famílias inteiras em risco de pobreza real.
Túnel do Marquês, Aeroporto de Alcochete, TGV, 3ª ponte sobre o Tejo, auto-estradas por todo o país.
Sistema Nacional de Saúde que não funciona, (in)justiça, património a cair, abandono dos campos e da agricultura.
Allgarve, Lei do fumo, ASAE.
As prioridades deveriam dizer tudo.
Posto assim é óbvia demagogia. Claro que é, aliás, a ninguém pode passar pela cabeça que também é a verdade. Mesmo que seja e, infelizmente, a mais real das verdades.

Palavras d’outros

A ler, como sempre, Ferreira Fernandes no DN.
“Gosto do futebol jogado. Ronaldinho, o brasileiro, esperando que a barreira salte para ele enfiar a bola por baixo das infelizes solas do adversário dá-me satisfação pura. A selecção enquanto visitadora do Presidente já me deixa indiferente - quero lá saber do protocolo em geral e de rapazes mal engravatados em particular. Por outro lado, um Presidente amante de futebol que se emocionasse por abraçar aquele rapaz que lançou as luvas para o canto e resolveu um desafio que tinha o Portugal em suspenso, já me deixaria comovido. Como fiquei ao ver a emoção maluca dos portugueses de Neuchâtel. Volto ao futebol de que gosto: gostei de ver Ronaldinho a fazer aquilo porque desejei toda a minha vida fazê-lo e nunca soube. Gosto do futebol por ambição diferida: admiro quem sabe o que eu não sei. Compreendo bem os emigrantes que admiram portugueses que eles sabem que o mundo admira. Só não percebe o orgulho deles quem não sente necessidade de admirar.”

Palavra d’outros

Francisco José Viegas no "A Origem das Espécies".
“Gosto da Feira do Livro com as barraquinhas. Gosto de ir lá à tarde e de encontrar amigos, gente que não vejo há muito tempo, trocar «notícias» por «notícias». Gosto de ir às barraquinhas de livros velhos, stocks, obras completas de Mao, Escritos Escolhidos de Lenine, A Cozinheira Ideal ou os John Le Carré em hardcover. Gosto de comprar Rex Stouts repetidos. Não gosto de novidades na Feira; prefiro livros de há anos, são esses os que procuro, os que perdi e que quero repor na estante. Gosto de comprar livros por 1€, 3€, 5€. Gosto de encontrar amigos a dar autógrafos e de ir para as filas pedir-lhos. Gosto de churros com chocolate (este ano estão a 2€, o que é um assalto). Gosto das cores das barraquinhas. Gosto dos grupos que se sentam ao sol, na relva do Parque. Gosto de encontrar editores que vão sempre à Feira. Gosto de gente que atravessa a Feira assinalando títulos nos catálogos. Gosto da Feira com ar saudável e relativamente anárquico, com cadeirinhas na calçada onde autores se sentam perto de quem passa, com ar desprotegido (por isso é que se reconhece um editor; é ele que está lá, ao lado, a fazer companhia). Gosto de ir à Assírio & Alvim perguntar se tem o Equador. Gosto da Feira com sol, gosto quando chove. Gosto quando o MJM me telefona a dizer que encontrou um livro meu com uma fotografia que nem vista se acredita. Gosto das sacolas pretas da Tinta-da-China e de ficar por ali. Gosto das cores da Oficina do Livro. Gosto de ir à Guimarães Editores, à Relógio d'Água ou às bancas da Vampiro. Sinto-me um provinciano feliz que está onde quis ir. À Feira.”

Gosto de subscrever e gosto assim de ir à feira. Ainda não fui. Ainda não procurei volumes antigos do Tenente Blueberry encontrando o Martin Milan que me faltava. Ainda não persegui pechinchas descobrindo magníficos monos. Na sexta-feira irei, em busca desta feira que eu gosto e que aqui tão bem foi descrita. Talvez encontre por lá o Dr. Sousa Homem, numa rara saída do seu retiro minhoto, por motivo do lançamento do seu segundo volume de crónicas, que dá pelo nome de “Os Males da Existência”. Gostava de o cumprimentar.

2.6.08

A Senhora Presidente

Tenho feito por aqui algumas ironias sobre Manuela Ferreira Leite, em particular à sua ausência de ideias. A senhora de facto não entusiasmou durante a campanha. Não posso ainda assim deixar de dizer que com esta senhora a coisa política em Portugal irá decerto melhorar, apesar de que não seria difícil. A nova presidente do PSD traz a vantagem de querer falar verdade, o que em alguém sério quer dizer qualquer coisa, e de não querer seguir pela “plastic-politic” tão na moda. Convenhamos que depois de Santana e de Menezes a melhoria é clara. Claro que ainda ficamos com dignos representantes do plástico como Pinto de Sousa, Louçã e Portas, mas pelo menos um dos maiores partidos vai por outro caminho, o que não deixa de ser louvável. Para já pouco estimulante, mas louvável.

Boas notícias

Hélder Postiga é jogador do Sporting.
Gosto de jogadores assim, artistas incompreendidos, irregulares, polémicos.

Laranja e rosa

Caso Ferreira Leite insista em não discutir ideias – e tendo em conta que Pinto de Sousa pouco gosta de as discutir, talvez por as não ter – fica a dúvida sobre o que discutirão nos debates para as próximas legislativas. Talvez futebol?

Grande gozo

Nunca fui à Suíça, mas já li sobre o país, já falei com quem lá viveu, já conheci suíços. Por tudo o que sei, é enorme o gozo de imaginar esse paraíso da tranquilidade e do aborrecimento com as ruas invadidas por hordas de portugueses eufóricos. Uns vindo de propósito, mas a imensa maioria a sair exuberante das casas onde se escondem para sobreviver à maçadora sociedade suíça. Todos pelas ruas a gritar e buzinar e cantar. A invasão do caos luso a terras de ordem ancestral, em tempos de uniformização de europeia e de comportamentos formatados, é um episódio que não pode deixar de me fazer regozijar neste cantinho junto ao mar plantado que tudo tinha para se transformar numa aldeia de gauleses irredutíveis nesta Europa romanizada.

30.5.08

Desabafo snob

O berço não se escolhe e a educação não se encomenda. Após ver o debate de ontem na Assembleia e o que disseram Pinto de Sousa, Louça ou Alberto Martins, fica a demonstração cabal desta teoria. O brejeiro de Alfama tem graça e genuinidade, mas ver estalar o verniz a gente que se tem em tão alta conta mostra que por baixo de camadas do dito surge sempre a unha, e dessas nem todas servem para tocar guitarra.

28.5.08

Telejornal (pouco) imaginário - excerto

O primeiro a acordar foi Petit, que de imediato se dirigiu à casa de banho para a sua higiene matinal. (…) Quaresma despertou com mau feitio e de imediato insultou Simão por este o haver acordado. (…) Bruno Alves desceu um pouco cabisbaixo, algo preocupado com ligeiros problemas intestinais revelados na primeira ida à retrete do dia. (…)
O pequeno-almoço consiste, hoje, em sumo natural de laranja do oeste, leite meio-gordo “Mimosa”, chá “Lipton” rótulo amarelo, merendas frescas, pão de centeio, pão de sementes com Ómega 3, croissants, manteiga sem sal “Primor”, compotas “Casa de Mateus” – morango, framboesa e pêssego –, queijo flamengo “Terra Nostra”, queijinhos frescos, requeijão e cereais muesli. Está também à disposição dos jogadores uma zona de buffet quente com ovos mexidos, bacon e salsichas.
Da refeição da manhã destaca-se o apetite de Miguel Veloso, de pronto refreado por alguns colegas que lhe lembraram o estado obeso em já esteve durante a presente época. Ricardo, talvez devido aos nervos de poder não ser titular, denota uma estranha falta de apetite. Quaresma foi o último a descer para o pequeno-almoço, entrando sem dirigir a palavra a ninguém. Petit ainda de preparava para se meter com o seu mau feitio quando foi refreado por Moutinho, que lhe lembrou o facto de ontem Quaresma ter atirado com um prato de pães-de-leite para cima de Nani.
A gasolina subiu, uma vez mais, ontem.
Última hora: Hugo Almeida jogou na equipa dos coletes no treino de hoje da selecção.

27.5.08

Série B

Zapping. Canal Hollywood. Um jogador conta cartas e ganha num casino. Uma mulher avança para cantar no palco de uma marisqueira de aspecto vulgar. Parece a voz de Mísia no corpo de uma mui agradável morena que após cantar em português fala em americano fluente. O jogador é inglês. Estamos em New Bradford. A mulher é da Graciosa onde ele esteve aos 18 anos. Descobrimos que há azeite Galo made in Graciosa, aliás o único azeite da ilha. Mísia volta a cantar. A mulher é viúva de pescador e gosta de peixe. Paixão e traição. A filha quer ser jogadora e aprender com o namorado da mãe. Há ainda a mãe do falecido que, apesar dos sessenta anos, acaba apaixonada por um motoqueiro de 200 quilos e barba duvidosa. Pelo meio, nas festas de S. Pedro, dançam uma música portuguesa típica, curiosamente ao estilo samba.
É tão bom ver um filmezinho mau que é quase - muito quase, é certo - bom, um simpático série B com mulheres bonitas, pois além das portuguesas, mãe e filha, aparece ainda a belíssima Theresa Russel num papel secundário.

Perplexidade

Um destes dias ainda irei perceber se é por poupança ou refinado sadismo que a FNAC do Chiado persiste em ter uma temperatura insustentável que nos remete para distantes saunas finlandesas.

Notícia com palavra nova

A sonda Phoenix “amarteou”. A coisa parece muito deserta. Esperemos pelo flautista que chame as criaturas das profundezas do planeta.

26.5.08

Época de acasalamento

(Título roubado a Wodehouse)
O acasalamento de outros vai sendo motivo de festa e, porque não, possível ocasião de outros acasalamentos. Este final de semana abriu a minha época anual com um casamento que ficou aquém neste aspecto: pouca população feminina que não a de homens pendurados nos braços ou a controlada por olhares perscrutadores de copo na mão encostados ao bar. Nem jovens primas desocupadas, nem divorciadas frescas, nem tias “balzaquianas”. Fraca escolha. Os noivos pairavam alegres como devem, animando a pista quando esvaziava e distribuindo cumprimentos e sorrisos não fora alguém pensar que já estavam arrependidos do acto consumado. O dia a seguir comprovou que as bebidas não tinham chegado via Sacavém, o que já não vai sendo má notícia. O fígado sobreviveu a uma sôfrega e gulosa prova de doces de ovos capaz de enjoar amadores de doces à séria. Passou o primeiro de uma temporada preenchida. A ver como serão os outros acasalamentos e que, de preferência, sejam mais potenciadores de acasalamentos ou afins. A bem dos solteiros.

(Des)igualdades

A Europa veio anunciar o óbvio: Portugal é o país com mais desigualdade social da União Europeia, sendo esta até superior aos EUA. A importância da notícia não advém da sua novidade, mas sim de vir da Europa, aparentemente a única voz escutada pelo obediente governo Pinto de Sousa. Num país em que o governador do Banco de Portugal ganha mais do que o seu homónimo do Banco Federal Americano, em que os gestores públicos têm ordenados e reformas obscenas, em que os jovens trabalham na maioria a precários recibos verdes e em que há demasiada gente a viver abaixo da miséria e a passar real fome, é evidente que algo está mal e desigual. Não deveriam ser precisos relatórios europeus para percebermos a gravidade da situação e para agir, mas tendo nós um governo mais preocupado em mandar o fumadores para a rua – excepto os membros do governo –, em permitir o aborto livre, em assinar tratados europeus à revelia do povo ou a perder tempo com (des)acordos ortográficos, talvez seja preciso que venham palavras do exterior para serem escutadas por quem nos (des)governa.

23.5.08

Coisas da televisão

A obsessão das televisões, em particular da TVI, em (per)seguir a selecção nacional está a atingir níveis muito para lá dos limites da sanidade. Pouco falta para estarem jornalistas dentro dos quartos a acompanharem os jogadores à casa de banho de papel higiénico na mão. A quantidade de minutos gastos por telejornal chegaria, ao fim do dia, para projectar o “Le Soulier de Satin” de Manoel de Oliveira na versão integral de cerca de sete horas. Entre ver jogadores de futebol em treino, apoiados por Roberto Leal, e os planos fixos de Oliveira acho a segunda opção esteticamente bem mais interessante apesar de igualmente chata.

A notícia

A noite de copos arrastara-se até à quase manhã. A passagem no quiosque já aberto mostrou os jornais do dia já chegados. Gosto sempre muito de voltar a casa de jornal debaixo do braço, pois permite uma manhã mais arrastada a entrar pela tarde por entre um artigo de opinião mais ou menos interessante. Optei pelo “Público”, sem motivos em particular, e passei os olhos pelo que se passava no mundo. Uma fotografia chamou a minha atenção e li a notícia abaixo. Não era amigo de Torcato Sepúlveda, mas depois de anos em que me habituei a ler os seus escritos, desde os tempos do Indy até à NS, tive o gosto de ter três ou quatro conversas com ele nas intermináveis tertúlias do Snob. Era um jornalista à antiga, dos tempos em que este era feito com frontalidade, independência e boa escrita, homem de convicções firmes e firme na forma de as expor. A sua morte fez-me impressão, a morte faz sempre impressão, mas será diferente entrar de novo no Snob e não encontrar essa figura sem tempo sentada tranquilamente a ler e a fumar um cigarro ou projectando a sua voz potente em discussões viscerais.

21.5.08

Diálogos Imaginários

– Charles, continuo a desesperar com o tempo. Já nem me deves poder ouvir.
– Tenha calma, menino. Compreendo o seu desespero.
– Eu sei, Charles, mas já é demais. Os casacos até já foram postos de parte, mas esta coisa de continuar com camisolas de lã sem as conseguir substituir pelo algodão, isto quase no fim de Maio, é de levar à loucura a alma mais sã.
– Pois é, menino, o tempo resolveu andar a brincar connosco. Quem diria que S. Pedro tinha tanto sentido de humor.