31.7.08

Ainda haverá esperança?

A oposição da Câmara de Lisboa e o “Zé” chumbaram o mono do Rato. Os vereadores do PSD chegaram mesmo a reconhecer o erro do seu partido ao ter aprovado o projecto nos tempos de Santana. Lisboa livra-se assim de mais uma das múltiplas ameaças do arrogante betão sobre a humilde beleza das suas ruas.
Não sei se a petição já aqui divulgada contribuiu algo para isso. Prefiro achar que deu uma ajudinha e por isso assino hoje todas as petições com as quais concordo, pois acho que nos restam pouco actos de cidadania possível impacto na realidade. Afinal, a maior ameaça a um político é a má publicidade.

30.7.08

Batam no anão

O anão dos saltos altos – sim, aquele que conseguiu casar por insondáveis motivos com a grande Bruni – deslocou-se em missão puramente democrática à Irlanda, para tentar convencer os irlandeses a votar o Tratado de Lisboa até que a resposta seja sim. Merecia ser recebido à antiga irlandesa como se de um inglês se tratasse, à paulada.

Coisas de Alvalade

A bem de que continue a olhar o Sporting como o meu clube por razões que extravasam as mais óbvias irracionalidades – os clubes não se escolhem, são as circunstâncias que nos escolhem a nós – espero que Moutinho fique. Não me preocupa muito se ficará contrariado, se irá aquecer o banco, se nem sequer será convocado, se chorará, o que precisa é de compreender que vão sendo muitos os esforços para fazer do Sporting um clube diferente – para mim melhor – para poderem ficar à mercê da chantagem infame de uma criança talentosa. Neste momento nem pelos 25 milhões, é mesmo por uma questão de dignidade que o menino tem de ficar. Queira ou não queira.

29.7.08

11

Onze dias, é o tempo que resta até chegarem as curtas férias. O sol é mesmo necessário como cura para um pessimismo crónico com crises cada vez mais frequentes, desagradáveis e maçadoras.

28.7.08

Coisas de ontem

Mesmo a feijões, dois a zero sempre são dois a zero.

Palavras d’outros

Um polícia reformado imagina que uma criança inglesa morreu num trágico acidente e que o corpo foi congelado ou conservado no frio pelos pais e amigos. Um político socialista imaginou que era possível combater a corrupção neste sítio cada vez mais mal frequentado, apresentou um pacote de medidas e ficou muito desiludido quando o seu partido o atirou para o lixo e aprovou um conjunto de diplomas que vai deixar tudo como antes, o quartel-general em Abrantes. O mesmo político imagina, agora, que a corrupção está mais elevada do que nunca e fica triste porque ninguém lhe liga nenhuma.
A líder do maior partido da Oposição imagina que é possível chegar ao poder sem andar por aí em festas folclóricas, em espectáculos medíocres e chega ao ponto de dizer que vai tentar falar verdade sobre os problemas do sítio e que não se pronuncia sobre assuntos que não conhece. Um ministro deste Governo socialista imagina-se como director comercial de uma multinacional e salta de contente sempre que assina um contrato com uma empresa qualquer. O mesmo governante imagina um dia que a crise económica, financeira e social já passou e no outro imagina que o que aí vem vai ser bem pior.
Um primeiro-ministro que os indígenas elegeram em 2005 com maioria absoluta imagina que vive num sítio maravilhoso, com uma economia pujante, com um nível de vida extraordinário, com cidadãos altamente qualificados e até imagina que Angola tem um governo fabuloso, digno dos maiores elogios, que a Líbia é dirigida por um ser normal, democrático, que até escreveu em tempos um livro que só por acaso não ganhou o Nobel da Literatura e que a Venezuela tem um presidente civilizado, com os alqueires todos no sítio e que merece ser recebido várias vezes em poucos meses com gestos de grande carinho e amizade.
Um Presidente da República imagina que os seus silêncios são mais importantes do que as suas palavras e imagina que quando discursa alguém o ouve verdadeiramente com atenção. Imagina que quando fala na necessidade de se combater a corrupção ou atacar a sério os problemas da Justiça e da Educação alguém o leva verdadeiramente a sério e vai a correr preparar mais uns diplomas para indígena ver. A alucinação, como se vê, veio para ficar. Está a tornar-se numa pandemia. Em vez de dinheiros da Europa, o sítio precisa urgentemente de uma enorme equipa de psiquiatras que o cure da doença enquanto há tempo e esperança de cura.

25.7.08

O estado das coisas

As coisas estão mesmo muito mal quando alguém cordato, e habitualmente demasiado preguiçoso para se maçar muito, se transforma num empenhado militante. Concordo e lembro-me de há um ano atrás ter aderido às manifs aquando do vergonhoso afastamento de Dalila Rodrigues do MNAA. As coisas ficam perigosas quando os conservadores se começam a manifestar e a mexer, mais ainda quando começam a equacionar formas de luta mais próprias das gentes revolucionárias. Pela minha cabeça já passaram, vezes demais, ideias de manifs e até de terrorismo urbano. Assim vai o mundo, triste como este dia imerso em nuvens cinzentas.

23.7.08

There’s something in the air

Um “je ne sais quai”, “un aire raro”. Pois é, Chavéz vem hoje a Portugal e Soares e Pinto de Sousa devem estar com dificuldades em conter a sua inquietação perante a chegada do amigo. Será que vão falar da libertação de Ingrid Bettancourt e das FARC durante o almoço?

Assim vamos.

Ao Movimento Mérito e Sociedade, constituído recentemente como partido político, foi recusada uma audiência com o Presidente da nossa República com o argumento de não ter representação parlamentar. Curiosa esta opção, ou nem tanto, que mostra como o “sistema” se protege de possíveis mudanças. Com estas capelinhas e protecções torna-se mesmo difícil mudar o que quer que seja neste esclerosado sistema partidário.

Lamento

O “Afinidades Efectivas” acabou. Por estas bandas sentir-se-à a falta dos escritos do Réprobo. Talvez volte. Na dúvida o link ficará aqui ao lado mais algum tempo. Pode ser que se arrependa.

22.7.08

O verão

O sol, o calor e a época de caça têm ajudado à alienação tão necessária nos tempos que correm. Esquecer a infame promulgação do “aborto” ortográfico em nome de uma discussão sobre as virtudes do coro da missa do casamento de Domingo, deixar para o lado as previsões em alta do FMI por troca com dissertações sobre o folhado de caça ou a mesa de queijos, passar por cima da Quinta da Fonte pensando apenas num mergulho de fim de tarde em praias próximas, pensar que o Irão e Israel pertencem a outra galáxia enquanto bebemos gin tónico como se o mundo fosse acabar.
O problema é que ainda temos Maddie, ainda Maddie, e os abraços do Sousa aos amigos Kadhafi, Eduardo dos Santos e Chavéz. Com o mundo assim, nem os mergulhos de fim de tarde, os casamentos, os baptizados e as perspectivas de umas curtas férias chegam para me manter na desejada total ignorância e abstracção.

18.7.08

Coisas do tempo

Nestes dias de canícula torna-se recorrente um pensamento, um delírio ou um sonho: chama-se gin-tónico.

O preto e o branco

Hoje em dia, quando se quer impor uma ideia, a maneira mais fácil é utilizar a técnica do preto e branco. Chamemos à ideia o “branco”, precisamos de definir um oposto, o “preto”, que tenha tantos defeitos que o “branco” pareça a única saída e seja assim aceite. Claro que é necessário empregar uma subtileza para que a técnica resulte: eliminar todas as hipóteses que não sejam pretas ou brancas. Ocultando, mentindo, deformando, desprezando, todos os métodos são válidos, o importante é reduzir as hipóteses ao preto e ao branco, sendo o “preto”, de facto, absolutamente inviável. Assim de repente lembro-me do aeroporto (no final ou era Ota ou Alcochete, o Portela +1 ou a não construção eram impossíveis), TGV (sem a nossa contribuição a rede europeia não faz sentido pois pára em Badajoz), e agora, com muita subtileza, o nuclear, apontado como a “única” alternativa para combater o aumento do petróleo. Energias alternativas, alteração de hábitos, adaptações energéticas, tudo isto é uma óbvia impossibilidade, ou pagamos caro a crise do petróleo ou embarcamos no nuclear. Cá está uma vez mais o preto e branco e o resultado será o habitual, esperemos poucos anos para ter uma centralzinha nuclear para fortuna do senhor Monteiro de Barros e grande felicidade do “mais bem pago Administrador de banco central” Constâncio.

17.7.08

Bicos do prego

O plebeu ressabiado Saramago vai tomar de assalto a aristocrática e hoje decadente Casa dos Bicos para lá estabelecer a sua fundação. O meu lado esteta despreza indignado esta ocupação, não vislumbrando compatibilidade entre o grotesco personagem de Lanzarote e um dos mais belos edifícios renascentistas do país. O meu lado mais cínico descobre com regozijo o fascínio do comunista ortodoxo pelos encantos do vetusto património da nobreza de antanho.

Coisas da vida boa

Isto de viver em Lisboa e poder dar um mergulho na praia após um dia de trabalho, com imediata amnésia sobre as horas mais recentes, é coisa de um luxo tal que a inveja é sentimento mais fácil de despertar nos outros.

Palavras d'outros

“Mesmo que custe admitir, estamos a pagar a factura de alguns anos de entusiasmo e optimismo histórico – os anos 80.
Há épocas assim. Longe da crise petrolífera e dos conflitos armados dos anos 70, a década seguinte foi de foguetório e espalhafato. Da ‘movida’ madrilena à literatura light americana, uma onda de ‘eterna juventude’ passou pelas economias globais (que já existiam) e pela cultura.
Perdeu-se a ética do trabalho e do esforço – e uma geração de ‘gestores’ incultos, de líderes elegantes e de pensadores ‘fracturantes’, confiando no estado demencial da sociedade, começou a tomar decisões que cabiam aos políticos, que baixaram de nível. Essa gente não vê longe, acostumada que está a contratos de curta duração e ao lucro imediato. Está à vista o resultado.”

Francisco José Viegas, no Correio da Manhã.

15.7.08

Nostalgias

Eram três meses. Às vezes longos três meses em que já não sabia o que fazer do tempo que sobrava em fartura desmedida. Trepava paredes em casa, para desespero dos meus pais quando se cruzavam com mais um disparate meu. Começava calmamente em casa, com a minha mãe sempre a dizer que devia aproveitar para arrumar as coisas, arrumar, esse verbo à época maldito e tão indesejável como comer favas. Perante a persistência havia sempre a alternativa de sugerir que devia visitar a minha tia, aproveitando para um lanche à antiga com bolinhos, scones e chá. Resultava sempre, com a grande vantagem de não ser de modo algum um sacrifício, tanto eu gostava da minha tia. E também dos scones. As arrumações lá iam passando pelo tempo, esperando um dia mais mal humorado da minha mãe, felizmente coisa rara, em que os subterfúgios deixavam de funcionar, ou por uma ordem expressa de meu pai, sobre a qual nem me ocorria tentar imaginar o mais remoto subterfúgio.

14.7.08

King of the weekend

Neil Young. Que grande concerto. Usando um trocadilho básico, é caso para dizer que o Neil está mesmo Young. Apesar dos 62 anos. O homem deu um concerto com uma energia fantástica e com uma qualidade musical irrepreensível. Foi o grande concerto do Optimus Alive, o exemplo dado pela geração mais velha aos jovens músicos que por lá andaram. Excelente, memorável. Este mito esteve cá e fez questão de se anunciar com grande estrondo nesta sua passagem arrasadora.

Roísin Murphy

O concerto do Neil Young só me deixou ouvir três músicas deste concerto. Pena, muita pena mesmo, porque o que ouvi foi muito bom e deixou prometido um grande concerto. Problemas destes festivais com concertos simultâneos, a exemplo do que tinha acontecido na 5ª feira com o concerto dos MGMT.

O mito

O concerto de Bob Dylan foi musicalmente belíssimo, mas faltou um “je ne sai quai”, talvez devido à falta de intimismo de um concerto a pedir um espaço mais fechado e contido. Ainda assim mito estava lá, no palco ao piano com chapéu. Dylan, um dos melhores compositores vivos da música popular, um homem que traz em si grande parte do que de mais importante existe na música contemporânea. O Bob esteve ali, mesmo ali à frente, àqueles poucos metros de distância. Não foi alucinação, o Bob esteve mesmo cá, apesar de insistir em passar sóbrio e discreto.