1.9.08

Diálogos Imaginários

– Charles, foi mesmo boa a sua sugestão para ir no Sábado ao Guincho. Que tarde de praia maravilhosa. Nos raros dias em que não há vento, como é evidente, o Guincho é mesmo das melhores praias do mundo.
– Mas menino, é precisamente por isso que, no verão, consulto sempre os sites de meteorologia para confirmar o estado do vento. Só se pode ir para a praia no Guincho depois de confirmar o tempo.
– Com as minhas distracções, ainda bem que o tenho a si para controlar estas coisas.

29.8.08

Diálogos Imaginários

– Charles, graças ao seu regresso voltámos a ter a despensa ocupada como deve ser e a casa já parece uma casa decente. Até resolvi ficar por cá no fim-de-semana, abdicando de mais uma incursão nas praias do norte.
– Faz bem, menino, até porque parece que não vai fazer vento e o Guincho promete estar agradável.
– Charles, que saudades tinha. Você pensa mesmo em tudo. Claro que aproveitarei para ir amanhã ao Guincho, afinal a raridade de dias sem vento deve ser aproveitada sem reservas.

28.8.08

Diálogos Imaginários

– Charles, enfim voltou. Estava a atingir um desespero quase total com a sua ausência. O regresso de férias é já de si difícil de suportar, mas sem si é uma perfeita tragédia. Quase chorei ao entrar ontem em casa.
– Oh! Menino, também não é caso para tanto, apenas estive fora uma semana.
– Bem sei, mas coincidiu com a chegada de férias e de outro fim-de-semana fora. A vontade abandonou o meu corpo e o simples vislumbre daquela mala abandonada a um canto fez-me sair de casa todos os dias. Esta semana ainda nem por um dia cá jantei.
– Pronto, menino, acalme-se um pouco. Já porei todas as suas roupas em ordem.
– Charles, ficar-lhe-ei eternamente grato. A minha vida sem si seria um calvário longo e doloroso.

26.8.08

Estado do blog

As férias já lá vão mas o corpo parece ainda não acreditar insistindo em pedir mais sol. Sinto-me uma folha à procura de luz para fotossintetizar. Há por agora uma certa necessidade de clorofila por estes lados. Ainda por cima já acabaram os jogos olímpicos.

22.8.08

Coisas do outro mundo II

Como duas medalhas e dois recordes do mundo ainda eram pouco, o “pequeno” Bolt lá se resolveu, com a ajuda de outros três jamaicanos, a recolher a terceira medalha e correspondente recorde mundial. A prova de 4x100m foi mais uma limpeza a parecer fácil, mais um episódio de um domínio incrível da Jamaica, e de Bolt em particular, nas provas mais curtas do atletismo, apenas ensombrado pela desqualificação da estafeta feminina de 4x100m. Bolt parece mesmo de outro mundo e parece que contagia com isso os seus companheiros. As más línguas poderiam intitular estes rapazes de “marijuana boys” e atribuir os seus resultados a substâncias menos legais, eu prefiro acreditar em predestinação e muito trabalho.

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Sevilha, 1933

Nasceu há cem anos Henri Cartier-Bresson, talvez o mais genial descobridor de imagens por este mundo fora.

Magnífico Évora


Foi preciso esperar pelo fim, por uma das últimas participações portuguesas, para chegar um ouro. Nelson Évora falava, antes da prova, como um futuro campeão, como alguém que ia dar tudo o que tinha. Também falava das coisas com a leveza de quem se está a divertir a fazer o que gosta. Posso parecer insistente, mas quem me marca são os campeões sorridentes, aqueles que se vê que fazem o que gostam e se sacrificam em nome desse gosto. Olho para ginastas chinesas e vejo um vazio de alegria e de sentimento, uma não vida dedicada a tentar encarnar numa máquina de resultados. Nelson Évora não é assim, o seu sorriso ontem era de genuíno orgulho num feito histórico, mas também o de um miúdo que tinha acabado uma brincadeira que lhe tinha corrido incrivelmente bem.

21.8.08

Coisas do outro mundo

Usain “Lightning” Bolt.
Dá gosto ver um campeão competir com a boa disposição de quem gosta mesmo do que está a fazer, para além de obviamente querer, e conseguir, ganhar. A sua presença em Pequim está a ser simplesmente gloriosa marcará para sempre a história do desporto. A aparente facilidade com que ganhou os 100 e os 200 metros não é, definitivamente, deste mundo. Acreditasse eu em OVNIS e diria que este rapaz não é por certo de origem terrestre, como acredito em Deus, acho que foi Ele que resolveu enviar Bolt para mostrar até onde pode ir a capacidade do ser humano.

















100m


200m

19.8.08

Hoje

Ainda a recuperar das férias pensei ficar dormir toda a manhã, porque “de manhã está-se bem é na caminha”, depois lembrei-me que o meu chefe me enviaria por certo a uma consulta de psiquiatria e acabei por, a custo, me levantar.

Estado do blog

Jet lag de curtas férias.

8.8.08

Partida

Parto hoje. Quase me apetecia ficar, mas há o anual chamamento das areias que me viram crescer e o ritual inabalável de rumar ao norte das águas frias. A paz lisboeta é agradável, mas as férias são agora necessárias. Não sei se tirarei férias do blog , acho que não, mas tudo dependerá de muita coisa.

Coisas de malas

As bagagens já estão no carro. Que diferença das malas de outrora, com o suficiente para emigrar para um país distante por tempo indeterminado. Uma semana apenas. Difícil seleccionar a roupa, escolher, não a atirar toda para dentro da mala por achar que quase toda “pode dar jeito”. Ainda assim vai a mais e muita regressará sem uso e um pouco mais amarrotada. Confesso que ontem conclui que tenho roupa a mais. Pronto, já disse e não repito. Quando olhei para o guarda-vestidos cheio e a mala já fechada percebi o óbvio. Ainda assim acho que me faz falta mais uma – seria a sétima – camisa branca. Acho que me faz, mesmo, alguma falta.

Coisas dos jogos

Consta que essa coisa dos anéis começa hoje. Angustio-me a pensar nos anteriores jogos de Atenas. Estava lá e hoje estou cá. Lembro o calor sufocante quebrado por copos de “frapee” em animadas esplanadas da Plaka, o memorável pisar da história na Acrópole, o “meltemi” a empurrar ferozmente o barco, o mar transparente, as enseadas, Hydra ao por do sol, a Little Venice de Mykonos em noites quentes. Malditos jogos que começam hoje e com isso me fazem lembrar o Mediterrâneo para onde devia seguir de imediato.

7.8.08

Coisas do verão

Pôr-do-sol glorioso Vinho branco com Lisboa aos pés. Os cacilheiros traçam linhas brancas sobre o azul denso e brilhante do rio debaixo do olhar superior e distante do Cristo-Rei. Lisboa em Agosto é paraíso de vida boa.

6.8.08

Coisas do verão

Há uns anos atrás, estaria agora de armas e bagagens instalado na Figueira. Ancinhos e ciclistas, camisolas quentes para fins de tarde e princípios de noite. Eram frios os dias antigos, em que o verão gostava de lembrar o inverno em piscares de olho por vezes demasiado longos.

Coisas do verão

Permaneço ainda nesta agradável Lisboa de dias de sol intermináveis e ruas civilizadamente povoadas por poucos carros. A paz convida a um trabalho tranquilo e produtivo, mas há hábitos que não queremos perder por serem parte do que somos. Sexta-feira lá irei, sem a parafernália de malas e saquinhos tão características das temporadas estivais de outrora, apenas com o necessário a uma semana de isolamento do mundo em geral. Estarei confinado à aldeia formada pelos quarteirões do Bairro Novo e o areal extenso da praia. Abrirei excepções para umas visitas a uma praia para lá da serra, menos familiar, mais tranquila, com um insuperável pôr-do-sol com Bombay tónico sempre ao som de boa música.

Agradecimento com música

A Bomba Inteligente colocou em destaque este blogue. Agradeço enrubescido perante tamanho reconhecimento, dedicando-lhe esta eterna música estival de Vinicius de Moraes e Toquinho.

Tarde em Itapoã

5.8.08

Sobre o acasalamento II

Missa, choro, comidas, danças e copos. Algumas conclusões a reter e a divulgar: devia ser proibido a mulheres comprometidas apresentarem-se com saias menores que 30 cm, em especial sendo espanholas; as mulheres solteiras deviam ter algo que as distinguisse de modo a obstar a confusões com senhoras respeitavelmente casadas; é possível reencontrar alguém quinze anos e dois filhos depois e averiguar que o tempo afinal não deixa marcas; os vestidos pretos estão fora de moda e as mulheres redescobriram, enfim, as cores.

Sobre o acasalamento I

A responsabilidade de apadrinhar quem tem a coragem de remar contra o facilitismo dos dias de hoje e assumir, perante Deus e os homens, que quer viver em conjunto para o resto da vida, não é tarefa fútil. Pelo menos não o é para quem a encara com uns olhos que persistem em acreditar na instituição do casamento. Até agora não praticante, mas é esse mesmo o motivo, por acreditar demasiado na instituição.

4.8.08

Pobre Fernão

Voltas e saltos na tumba, será o mínimo que Fernão de Magalhães andará a dar com o aproveitamento do seu nome para uma obscena campanha digna das piores ditaduras. Quando o poder começa a manipular de forma tão descarada a informação é o sinal de que nos quer levar a andar no caminho inverso ao da liberdade.

1.8.08

Continuação

Continuo este final de semana a minha longa e intensa “época de caça”, ou de “acasalamento” como lhe chamaria o novel tradutor para português de Wodehouse. Amanhã repete a cena da senhora de branco a entrar na igreja, estando desta vez afastado dos habituais últimos bancos por imperativos do meu papel na cena. Não, não serei a nervosa criatura que esperará no centro pela chegada da mancha branca, mas farei parte das privilegiadas testemunhas com responsabilidades acrescidas por um estatuto muito usado no sul de Itália, em zonas onde as pessoas trajam de negro e uma organização eficaz tudo controla. Junto ao altar, magnífico no meu fraque, controlarei a chegada das meninas à igreja, dentro dos limites da decência, efectuando uma primeira triagem sobre o que de mais interessante se poderá encontrar nas horas seguintes e sobre as mais adequadas companhias para deslizar freneticamente pela pista de dança.

Falta uma semana

Este blog – ou seja, eu – não rumará ao sul. Como sempre que o verão chega e o destino é luso, a direcção é norte. São férias, o que além de implicar a ausência do trabalho implica um certo afastamento de hordas de gente – de magotes de criaturas, de praias onde encontrar local para estender a toalha equivale ao nível 13 ou 14 do Tetris, de estradas atulhadas de carros topo de gama – ou seja a negação do Algarve. Além disso no norte não consta que tenham proibido massagens na praia, independentemente onde elas levem, no que acho ser mais um bom indício de civismo.

O Presidente que se decida.

Enquanto a câmara seguia as costas de Cavaco o caminho dos bastidores de Belém pensei em quão bizarras são as coisas. O Presidente convocou os portugueses para lhes explicar uma intrincada questão político-administrativa, cujo conteúdo terá sido entendido na plenitude por um máximo de 10% da população portuguesa (e até acho que estou a ser simpático). Este é o mesmo presidente que acha que os portugueses não devem referendar o Tratado de Lisboa por este ser muito complexo e de difícil compreensão. Talvez convenha que Cavaco decida se acha que os portugueses são brilhantes conhecedores de direito administrativo, ou se pensa que são irreversivelmente incapazes em direito comunitário, ou, resumindo, se são brilhantes ou uns incapazes analfabetos.

31.7.08

Novas Oportunidades

Pinto de Sousa estará a ponto de se inscrever numa agência de modelos. A avaliar pela omnipresença em actos publicitários, o melhor será mesmo rentabilizar os esforços e encontrar um bom agente.

Ainda haverá esperança?

A oposição da Câmara de Lisboa e o “Zé” chumbaram o mono do Rato. Os vereadores do PSD chegaram mesmo a reconhecer o erro do seu partido ao ter aprovado o projecto nos tempos de Santana. Lisboa livra-se assim de mais uma das múltiplas ameaças do arrogante betão sobre a humilde beleza das suas ruas.
Não sei se a petição já aqui divulgada contribuiu algo para isso. Prefiro achar que deu uma ajudinha e por isso assino hoje todas as petições com as quais concordo, pois acho que nos restam pouco actos de cidadania possível impacto na realidade. Afinal, a maior ameaça a um político é a má publicidade.

30.7.08

Batam no anão

O anão dos saltos altos – sim, aquele que conseguiu casar por insondáveis motivos com a grande Bruni – deslocou-se em missão puramente democrática à Irlanda, para tentar convencer os irlandeses a votar o Tratado de Lisboa até que a resposta seja sim. Merecia ser recebido à antiga irlandesa como se de um inglês se tratasse, à paulada.

Coisas de Alvalade

A bem de que continue a olhar o Sporting como o meu clube por razões que extravasam as mais óbvias irracionalidades – os clubes não se escolhem, são as circunstâncias que nos escolhem a nós – espero que Moutinho fique. Não me preocupa muito se ficará contrariado, se irá aquecer o banco, se nem sequer será convocado, se chorará, o que precisa é de compreender que vão sendo muitos os esforços para fazer do Sporting um clube diferente – para mim melhor – para poderem ficar à mercê da chantagem infame de uma criança talentosa. Neste momento nem pelos 25 milhões, é mesmo por uma questão de dignidade que o menino tem de ficar. Queira ou não queira.

29.7.08

11

Onze dias, é o tempo que resta até chegarem as curtas férias. O sol é mesmo necessário como cura para um pessimismo crónico com crises cada vez mais frequentes, desagradáveis e maçadoras.

28.7.08

Coisas de ontem

Mesmo a feijões, dois a zero sempre são dois a zero.

Palavras d’outros

Um polícia reformado imagina que uma criança inglesa morreu num trágico acidente e que o corpo foi congelado ou conservado no frio pelos pais e amigos. Um político socialista imaginou que era possível combater a corrupção neste sítio cada vez mais mal frequentado, apresentou um pacote de medidas e ficou muito desiludido quando o seu partido o atirou para o lixo e aprovou um conjunto de diplomas que vai deixar tudo como antes, o quartel-general em Abrantes. O mesmo político imagina, agora, que a corrupção está mais elevada do que nunca e fica triste porque ninguém lhe liga nenhuma.
A líder do maior partido da Oposição imagina que é possível chegar ao poder sem andar por aí em festas folclóricas, em espectáculos medíocres e chega ao ponto de dizer que vai tentar falar verdade sobre os problemas do sítio e que não se pronuncia sobre assuntos que não conhece. Um ministro deste Governo socialista imagina-se como director comercial de uma multinacional e salta de contente sempre que assina um contrato com uma empresa qualquer. O mesmo governante imagina um dia que a crise económica, financeira e social já passou e no outro imagina que o que aí vem vai ser bem pior.
Um primeiro-ministro que os indígenas elegeram em 2005 com maioria absoluta imagina que vive num sítio maravilhoso, com uma economia pujante, com um nível de vida extraordinário, com cidadãos altamente qualificados e até imagina que Angola tem um governo fabuloso, digno dos maiores elogios, que a Líbia é dirigida por um ser normal, democrático, que até escreveu em tempos um livro que só por acaso não ganhou o Nobel da Literatura e que a Venezuela tem um presidente civilizado, com os alqueires todos no sítio e que merece ser recebido várias vezes em poucos meses com gestos de grande carinho e amizade.
Um Presidente da República imagina que os seus silêncios são mais importantes do que as suas palavras e imagina que quando discursa alguém o ouve verdadeiramente com atenção. Imagina que quando fala na necessidade de se combater a corrupção ou atacar a sério os problemas da Justiça e da Educação alguém o leva verdadeiramente a sério e vai a correr preparar mais uns diplomas para indígena ver. A alucinação, como se vê, veio para ficar. Está a tornar-se numa pandemia. Em vez de dinheiros da Europa, o sítio precisa urgentemente de uma enorme equipa de psiquiatras que o cure da doença enquanto há tempo e esperança de cura.

25.7.08

O estado das coisas

As coisas estão mesmo muito mal quando alguém cordato, e habitualmente demasiado preguiçoso para se maçar muito, se transforma num empenhado militante. Concordo e lembro-me de há um ano atrás ter aderido às manifs aquando do vergonhoso afastamento de Dalila Rodrigues do MNAA. As coisas ficam perigosas quando os conservadores se começam a manifestar e a mexer, mais ainda quando começam a equacionar formas de luta mais próprias das gentes revolucionárias. Pela minha cabeça já passaram, vezes demais, ideias de manifs e até de terrorismo urbano. Assim vai o mundo, triste como este dia imerso em nuvens cinzentas.

23.7.08

There’s something in the air

Um “je ne sais quai”, “un aire raro”. Pois é, Chavéz vem hoje a Portugal e Soares e Pinto de Sousa devem estar com dificuldades em conter a sua inquietação perante a chegada do amigo. Será que vão falar da libertação de Ingrid Bettancourt e das FARC durante o almoço?

Assim vamos.

Ao Movimento Mérito e Sociedade, constituído recentemente como partido político, foi recusada uma audiência com o Presidente da nossa República com o argumento de não ter representação parlamentar. Curiosa esta opção, ou nem tanto, que mostra como o “sistema” se protege de possíveis mudanças. Com estas capelinhas e protecções torna-se mesmo difícil mudar o que quer que seja neste esclerosado sistema partidário.

Lamento

O “Afinidades Efectivas” acabou. Por estas bandas sentir-se-à a falta dos escritos do Réprobo. Talvez volte. Na dúvida o link ficará aqui ao lado mais algum tempo. Pode ser que se arrependa.

22.7.08

O verão

O sol, o calor e a época de caça têm ajudado à alienação tão necessária nos tempos que correm. Esquecer a infame promulgação do “aborto” ortográfico em nome de uma discussão sobre as virtudes do coro da missa do casamento de Domingo, deixar para o lado as previsões em alta do FMI por troca com dissertações sobre o folhado de caça ou a mesa de queijos, passar por cima da Quinta da Fonte pensando apenas num mergulho de fim de tarde em praias próximas, pensar que o Irão e Israel pertencem a outra galáxia enquanto bebemos gin tónico como se o mundo fosse acabar.
O problema é que ainda temos Maddie, ainda Maddie, e os abraços do Sousa aos amigos Kadhafi, Eduardo dos Santos e Chavéz. Com o mundo assim, nem os mergulhos de fim de tarde, os casamentos, os baptizados e as perspectivas de umas curtas férias chegam para me manter na desejada total ignorância e abstracção.

18.7.08

Coisas do tempo

Nestes dias de canícula torna-se recorrente um pensamento, um delírio ou um sonho: chama-se gin-tónico.

O preto e o branco

Hoje em dia, quando se quer impor uma ideia, a maneira mais fácil é utilizar a técnica do preto e branco. Chamemos à ideia o “branco”, precisamos de definir um oposto, o “preto”, que tenha tantos defeitos que o “branco” pareça a única saída e seja assim aceite. Claro que é necessário empregar uma subtileza para que a técnica resulte: eliminar todas as hipóteses que não sejam pretas ou brancas. Ocultando, mentindo, deformando, desprezando, todos os métodos são válidos, o importante é reduzir as hipóteses ao preto e ao branco, sendo o “preto”, de facto, absolutamente inviável. Assim de repente lembro-me do aeroporto (no final ou era Ota ou Alcochete, o Portela +1 ou a não construção eram impossíveis), TGV (sem a nossa contribuição a rede europeia não faz sentido pois pára em Badajoz), e agora, com muita subtileza, o nuclear, apontado como a “única” alternativa para combater o aumento do petróleo. Energias alternativas, alteração de hábitos, adaptações energéticas, tudo isto é uma óbvia impossibilidade, ou pagamos caro a crise do petróleo ou embarcamos no nuclear. Cá está uma vez mais o preto e branco e o resultado será o habitual, esperemos poucos anos para ter uma centralzinha nuclear para fortuna do senhor Monteiro de Barros e grande felicidade do “mais bem pago Administrador de banco central” Constâncio.

17.7.08

Bicos do prego

O plebeu ressabiado Saramago vai tomar de assalto a aristocrática e hoje decadente Casa dos Bicos para lá estabelecer a sua fundação. O meu lado esteta despreza indignado esta ocupação, não vislumbrando compatibilidade entre o grotesco personagem de Lanzarote e um dos mais belos edifícios renascentistas do país. O meu lado mais cínico descobre com regozijo o fascínio do comunista ortodoxo pelos encantos do vetusto património da nobreza de antanho.

Coisas da vida boa

Isto de viver em Lisboa e poder dar um mergulho na praia após um dia de trabalho, com imediata amnésia sobre as horas mais recentes, é coisa de um luxo tal que a inveja é sentimento mais fácil de despertar nos outros.

Palavras d'outros

“Mesmo que custe admitir, estamos a pagar a factura de alguns anos de entusiasmo e optimismo histórico – os anos 80.
Há épocas assim. Longe da crise petrolífera e dos conflitos armados dos anos 70, a década seguinte foi de foguetório e espalhafato. Da ‘movida’ madrilena à literatura light americana, uma onda de ‘eterna juventude’ passou pelas economias globais (que já existiam) e pela cultura.
Perdeu-se a ética do trabalho e do esforço – e uma geração de ‘gestores’ incultos, de líderes elegantes e de pensadores ‘fracturantes’, confiando no estado demencial da sociedade, começou a tomar decisões que cabiam aos políticos, que baixaram de nível. Essa gente não vê longe, acostumada que está a contratos de curta duração e ao lucro imediato. Está à vista o resultado.”

Francisco José Viegas, no Correio da Manhã.

15.7.08

Nostalgias

Eram três meses. Às vezes longos três meses em que já não sabia o que fazer do tempo que sobrava em fartura desmedida. Trepava paredes em casa, para desespero dos meus pais quando se cruzavam com mais um disparate meu. Começava calmamente em casa, com a minha mãe sempre a dizer que devia aproveitar para arrumar as coisas, arrumar, esse verbo à época maldito e tão indesejável como comer favas. Perante a persistência havia sempre a alternativa de sugerir que devia visitar a minha tia, aproveitando para um lanche à antiga com bolinhos, scones e chá. Resultava sempre, com a grande vantagem de não ser de modo algum um sacrifício, tanto eu gostava da minha tia. E também dos scones. As arrumações lá iam passando pelo tempo, esperando um dia mais mal humorado da minha mãe, felizmente coisa rara, em que os subterfúgios deixavam de funcionar, ou por uma ordem expressa de meu pai, sobre a qual nem me ocorria tentar imaginar o mais remoto subterfúgio.

14.7.08

King of the weekend

Neil Young. Que grande concerto. Usando um trocadilho básico, é caso para dizer que o Neil está mesmo Young. Apesar dos 62 anos. O homem deu um concerto com uma energia fantástica e com uma qualidade musical irrepreensível. Foi o grande concerto do Optimus Alive, o exemplo dado pela geração mais velha aos jovens músicos que por lá andaram. Excelente, memorável. Este mito esteve cá e fez questão de se anunciar com grande estrondo nesta sua passagem arrasadora.

Roísin Murphy

O concerto do Neil Young só me deixou ouvir três músicas deste concerto. Pena, muita pena mesmo, porque o que ouvi foi muito bom e deixou prometido um grande concerto. Problemas destes festivais com concertos simultâneos, a exemplo do que tinha acontecido na 5ª feira com o concerto dos MGMT.

O mito

O concerto de Bob Dylan foi musicalmente belíssimo, mas faltou um “je ne sai quai”, talvez devido à falta de intimismo de um concerto a pedir um espaço mais fechado e contido. Ainda assim mito estava lá, no palco ao piano com chapéu. Dylan, um dos melhores compositores vivos da música popular, um homem que traz em si grande parte do que de mais importante existe na música contemporânea. O Bob esteve ali, mesmo ali à frente, àqueles poucos metros de distância. Não foi alucinação, o Bob esteve mesmo cá, apesar de insistir em passar sóbrio e discreto.

11.7.08

O nome do dia

Dylan. Bob Dylan.

Optimus Alive – Coisas boas

O cartaz excelente. A sonoridade dos Vampire Weekend, que tive o gosto de ouvir por muito pouco tempo graças à (des)organização. O excelente concerto dos The National, trazendo para o palco a grande qualidade da sua música, apesar decorrer ainda sob a luz do sol. Grande música. A surpresa veio dos Gogol Bordello, com um concerto indescritível que fez com que as minhas costas, que já haviam chegado em mau estado, me massacrassem até me conseguir deitar. Frenéticos e com um ritmo alucinante, os Gogol levaram o público ao delírio com a sua música que, sem grande precisão poderia definir como “punk-cigano”. Memorável, fazendo lembrar os concertos antológicos dos Pogues a que não tive oportunidade de assistir.

Optimus Alive – Coisas más

A organização devia ser açoitada durante um tempo razoavelmente prolongado, no mínimo o tempo que me fez esperar para conseguir trocar o bilhete de 3 dias, comprado atempadamente, por uma pulseira que me permitisse entrar. Com isto perdi boa parte do concerto dos Vampire Weekend, o que me deixou num estado de fúria assinalável e que me está a obrigar a ouvir agora o CD em “repeat”. Ainda quanto à organização, é incrível que se chegue ao recinto e se tenha de procurar a localização do palco Metro, que mais não é do que uma tenda, sem indicações que ajudem. Para além de que não há um único local com o alinhamento e as horas dos concertos, supostamente substituído por uns programas a que apenas uma minoria sortuda teve acesso.

10.7.08

Prodigioso ecletismo

Citar, no mesmo dia, D. Duarte de Bragança e Fernanda Câncio.

Palavras d’outros III

Como estas coisas estranhas acontecem, estou na mais plena concordância com este artigo de Fernanda Câncio, que transcrevo na íntegra.

"O sequestro dos senhorios
Pode ser que a chave do mistério esteja na palavra. Afinal, “senhorio” tem uma ressonância nobre, uma sugestão medieval de riqueza e posição. Confirma-o o dicionário, equivalendo-lhe ainda “domínio, posse, autoridade”, além de “propriedade” e “proprietário de casa alugada”. O senhorio é pois um senhor, alguém com posses. Alguém que não merece nem precisa de defesa - um privilegiado. Um explorador, em suma.Assim, à falta de melhor e sobretudo de racionalidade e justiça, se explicam, por uma espécie de psicanálise lexical, as leis e os regulamentos que no País regem os arrendamentos. E se o dicionário também define a palavra como “direito sobre alguma coisa”, é só para certificar que o senhorio tem, por exemplo, o direito de solicitar às autarquias e às finanças que avaliem os estragos que foram infligidos à sua propriedade por dezenas de anos de rendas miseráveis que o impediram de fazer quaisquer obras - impedindo-o agora de actualizar convenientemente o valor das rendas. Mais o “direito” de ser obrigado a aceitar que o inquilino que beneficiou durante décadas da sua assistência social forçada discuta com ele o valor correcto da renda actualizada ou lhe exija obras vultuosas.E tudo isto vem a propósito de quê? Não, não saiu nenhuma lei nova esta semana, nem nas semanas anteriores, nem houve parangonas com qualquer notícia sobre a miséria dos senhorios obrigados pelo Estado a fazer de santa casa dos inquilinos com mais de 65 anos (e aos senhorios com mais de 65 anos, quem fará de santa casa deles?). Nada disso. Apenas soube de um caso prático da extraordinária “nova” lei do arrendamento. Um prédio construído nos anos 60 do século passado; inquilinos que o ocupam desde essa altura; rendas de 40 e 50 euros por apartamentos de 6 assoalhadas que na avaliação da câmara (e que custou mil euros - ao senhorio, claro) mereceram a bitola de “bom”; uma actualização calculada em cerca de 300 euros, que no caso, devido ao facto de os arrendatários terem todos mais de 65 anos, terá de ser progressiva, distribuindo–se por dez anos; protestos de todos os inquilinos. Um deles escreveu aos proprietários uma carta em que, entre outras coisas, exige a colocação de um elevador (mora num 2.º andar e, afiança, ele e a mulher têm dificuldade em subir as escadas).
Quando uma pessoa que paga 50 euros por uma casa onde pagou durante quase 50 anos uma renda ínfima se acha no direito de exigir/sugerir a realização de uma obra que custa pelo menos o equivalente a dez anos de rendas futuras e corresponde a praticamente todo o “bolo” das rendas que pagou desde o início, surge óbvia a conclusão de que, para essa pessoa, o senhorio é um serviçal. Condenado a servi-lo em penitência eterna por ter alguma vez sonhado que um investimento podia ter proveito, que ser proprietário podia ser rentável. O mais grave, porém, é que este delírio não pertence a um excêntrico isolado, mas a uma cultura generalizada e autorizada pela lei. Uma cultura que arruinou os centros das cidades e empobreceu milhares de famílias. Pudessem elas tombar os prédios nas estradas e paralisar o País, outro galo cantaria. Assim, resta-lhes servir a pena - e ter sentido de humor."

Palavras d’outros II

Gostaria de postar partes da entrevista de Medina Carreira à Sic Notícias, fico-me no entanto por aconselhar a sua visualização .
Irão querer fazer passar o homem por louco, a mais fácil das defesas, mas o diagnóstico que faz do país dói de tão frio e verdadeiro. Infelizmente não é loucura, é realidade

Palavras d’outros I

Prometi não escrever sobre política durante uns tempos, o que não quer dizer que não aproveite para mostrar o que outros vão dizendo ou escrevendo.

“É para isso que pagamos impostos. Não é para construir auto-estradas inúteis e estádios de futebol, mas sim para educar e evitar que cheguemos a situações sociais como as que temos hoje."

"Não vejo que se fale de fome na Alemanha ou na Áustria, só aqui é que oiço isso.”

“A dependência alimentar de Portugal do estrangeiro só pode ser limitada com uma revolução completa da política de planificação do território, destinando mais terras à agricultura.”

Estas palavras foram proferidas, ontem, por D. Duarte de Bragança.

9.7.08

Praia

Tardou este ano o verão e com isso perpetuou-se o preto que tinge este blog. O sol brilha e é tempo de surgir a habitual cor de verão, de areia. Lembrando gelados em cones de bolacha à antiga, Nivea ou Bronzaline, jogos de caricas ou de ciclistas.

8.7.08

Triste País

Passam dias e o país continua a ser destruído de forma paulatina e sistemática, perante um generalizado sentimento de indiferença e de manifesta incapacidade para travar os sucessivos desvarios.
O Largo do Rato não é hoje um exemplo de grande qualidade urbana, atravessado que está por um emaranhado de vias, mas ainda apresenta um conjunto arquitectónico de grande valor. Vale mesmo a pena destacar os elementos que se supõe venham a destruídos – o Chafariz do Rato e a Associação Cultural de São Mamede – com a construção em causa. Perante isto o vereador do urbanismo qualifica o edifício, da autoria dos arquitectos Frederico Valsassina e Manuel Aires Mateus, como uma provocação que lhe agrada. Gostaria de dizer o que o senhor arquitecto poderia fazer com a provocação, seria aliás o mesmo que lhe aconselharia a fazer com o hotel da sua autoria postado entre a Torre de Belém e o Padrão dos Descobrimentos, por certo outra provocação dada a sua volumetria e magnífica integração na envolvente.
Acho que as imagens mostram muito mais do que palavras.

Agora (imagem via "Lesma Morta")


Depois (imagem via "Lesma Morta")

Uma vez mais não está em causa o desenho arquitectónico, mas uma coisa chamada respeito pela envolvente e pelo enquadramento. Na minha escola ensinaram-me isso, pelos vistos na Faculdade de Arquitectura ensinam, em alternativa, técnicas para massajar o ego a arquitectos com pendor narcisista, por certo com problemas de personalidade mal resolvidos em adolescências infelizes.

Para mais informações vale a pena ler os blogs “Lesma Morta” e Cidadania Lx .
Para assinar uma petição contra este projecto vá aqui.

A fogueira das irresponsabilidades

Ardeu um prédio em Lisboa. No centro histórico e nobre da Avenida da Liberdade. Um entre os muitos imóveis abandonados à sua sorte e ao passar do tempo. Propriedade de um fundo de investimento, é bom exemplo para o que se vai passando pela cidade. Apenas esperavam a sua ruína. Assim até é mais barato construir pois não há nada para deitar abaixo.
Uma pornográfica “lei das rendas”, arrastada ao longo dos anos pela cobardia imoral de sucessivos governos, e uma tolerância excessiva para com o abandono dos imóveis trouxe-nos a isto. E infelizmente irá levar-nos a muito mais desgraças, hoje em Lisboa, amanhã no Porto, depois de amanhã em qualquer terrinha de província.

7.7.08

Serviço público

O programa “Nos Passos de Magalhães”, apresentado por Gonçalo Cadilhe e exibido na RTP2, é o perfeito exemplo que ainda se pode fazer serviço público de televisão com qualidade e interesse para o grande público. O documentário, apresentado em vários episódios, gira à volta da vida atribulada de Fernão de Magalhães, um dos grandes portugueses de sempre, ainda que tenha terminado a vida ao serviço do reino de Espanha.
Muito bem filmado, e com uma óptima banda sonora, o programa é guiado pelos comentários de Cadilhe, sempre acompanhado por adequadas intervenções de historiadores. A história não tem de ser chata e pode, e deve, ser contada de forma inteligível e agradável, sendo este programa exemplo disso. Ao juntar o interesse lúdico de um programa de viagens com a pedagogia de uma aula de história, Cadilhe consegue um excelente equilíbrio e um programa de televisão despretensioso, mas com uma qualidade que vai sendo raro encontrar.

4.7.08

Coisas da vida

Este blog anda chato. Eu acho que também ando chato. Não sei se do sol se das angústias mundanas. Uma verdadeira maçada quando nos achamos maçadores. Detectado o mal segue-se a prescrição de uma posologia. Na dúvida sobre o que hei-de fazer lembro-me de um placebo com possíveis bons resultados, deixarei, por uns tempos, de escrever sobre política.

Capas boas

O título, “Português Suave”. A fotografia, a linha de Cascais a preto e branco com uma menina em primeiro plano ao estilo anos trinta. Apetece comprar. Autora, Margarida Rebelo Pinto. O ímpeto controla-se. Já experimentei, há uns tempos, ler um livro desta “besta negra” da crítica literária portuguesa. Sobrevivi incólume à experiência. Se gostei? Nem sim, nem não, antes pelo contrário. Não estimula, mas não incomoda. Se vou comprar? Claro que não, os livros andam caros e ainda não cheguei, apesar de algumas tentações, ao ponto de comprar apenas pela capa.

1.7.08

Temos pena!

No dia em que a França começa a presidência europeia depara-se com as declarações bombásticas do presidente da Polónia. Pena de Sarkozy? Absolutamente nenhuma. Veremos agora se sugere que a Polónia também saia, e depois dela talvez a República Checa que também ameaça não ratificar o tratado, e depois quem mais queira parar esta utopia perfeita chamada Europa. Até ficarem sós, eles, os grandes pensadores iluminados, os donos da verdade absoluta e incorruptível.

Aplausos. (De pé)

A brava Polónia mandou às malvas o estalinismo de Bruxelas e decidiu respeitar os irlandeses e a democracia não assinando o “magnífico” Tratado de Lisboa. Ainda há quem tenha respeito pela democracia, talvez por ter vivas na memória coisas como o nazismo que lhe dizimou o país ou o comunismo que o oprimiu anos sem fim. Este é o país de Karol Woytila e Lech Walesa, esta gente respeita, de facto, a liberdade e não está para voltar a estar sob a alçada de mais uma ditadura, desta vez do estilo burocrático, discreto e sibilino.

Ainda há futebol!

Acabou um a zero. Podia, devia, ter acabado com três ou quatro contra zero. Esta Alemanha devia ter sido despachada como merecia, com vários golos sem resposta. Ganhou o futebol, desporto que tinha passado ao lado dos vencedores dos últimos europeus e mundiais.
A França foi limpa na primeira fase, a Grécia passou tão despercebida que quase nem me lembrava dela, a Itália perdeu às mãos de quem soube usar as suas cínicas armas, a Alemanha foi andando e chegou até à final. Bastou, chegar à final já foi prémio excessivo para aquele bando de destruidores da arte alheia e aproveitadores da eficácia. Daqui lhes deito a língua de fora, a eles e ao seu treinador com pretensões “fashion”, arrumados que foram pela equipa do velhinho de fato de treino.
Ganharam os nossos vizinhos o que traz sempre alguma irritação. Será evidente que seremos gozados por algum tempo, agora com o argumento que ganharam, sim, eles ganharam e nós nunca ganhamos nada. Teremos de nos aguentar e pensar que antes eles que os alemães. Até porque mereceram, jogaram bem, não deixaram dúvidas sobre a superioridade e a taça está bem entregue. Tive muita pena por Portugal. Tive pena pela Rússia. Felizmente não tive de ter pena do futebol, pois ele acabou por ganhar.

27.6.08

Alerta!

Hoje é dia de congresso feminista. Alertem os bombeiros para as queimadas. Os soutiens passaram de moda, ouvi falar de implantes de silicone, sugiro talvez os massajadores faciais, vulgo vibradores, ou cocktails molotov de botox.

Ainda há futebol?

Numa meia-final ganha uma equipa com tantos golos como remates à baliza, depois de um jogo em que se parecia arrastar adormecida e ausente. Ontem, jogava a grande surpresa do europeu, responsável pelos melhores minutos de futebol que vi nos últimos tempos. Do outro lado uma selecção que ganhara nos quartos finais após um jogo de não futebol, em que conseguiu ter a sorte de marcar um penalty a mais. A primeira não esteve lá, provavelmente ausente em passeios imaginários pelas estepes ou pelas ruas aristocráticas de S. Petersburgo. A segunda desenhou uma obra-prima digna de Picasso, Dali ou Goya. Que jogo fez a Espanha!
Ainda vai havendo futebol, mas resta a inquietação de que esse futebol não ganhe no final, dando razão aos anestesiantes treinadores que pretendem mudar, talvez até estatutariamente, o objectivo do futebol, trocando o de “marcar golos” com o de “não sofrer”. Espanha devia ganhar, mas mais importante ainda é que a Alemanha devia perder. E por muitos e vistosos golos, numa humilhação requintada da arte sobre a eficácia, da civilização sobre a força bruta.

Dr. António Sousa Homem

A presença do autor fora garantida na convocatória para a apresentação do livro “Os Males da Existência. Crónicas de um reaccionário minhoto”, anteontem na Livraria “Pó dos Livros”, facto que provocou alguma agitação nos meios cosmopolitas de Lisboa dada a misantropia do Dr. Homem. Eu esperava poder ter o gosto de conhecer o autor e, porque não, encontrar a sobrinha Maria Luísa e talvez, num grande acaso da sorte, chegar às falas com ambos. Malditas coronárias! Foram elas que impediram a presença do Dr. Homem, por recomendação do seu médico de Viana do Castelo. Na sua ausência coube a Francisco José Viegas ler a missiva que enviara e que pode ser lida aqui.
Da apresentação de Maria Filomena Mónica destaco a passagem em que dizia que o Dr. Homem era o tio-avô excêntrico que gostaria de ter tido. Concordo em absoluto, seria aquele tio com quem passaria horas de conversa e longas horas de silêncio afundados nos sofás da biblioteca, por entre pilhas de livros e com um pontual chá a chegar às cinco horas trazido por Dona Eliane.
Apesar da ausência do Dr. Sousa Homem e da sobrinha nesta apresentação, não deixa de ser com algum orgulho que abro a primeira página do meu livro e nela posso ler a dedicatória assinada pelo autor, conseguida por meios que não revelarei. Não o digo com o apreço do valor do objecto dada a sua raridade, mas sim com o gosto da personalização de um livro tão bem escrito e por um tão interessante personagem indiscutivelmente português.

25.6.08

Haja alguém!

Que o urbanismo é um dos maiores e mais alastrados problemas do país, só será surpresa para os mais distraídos, o que não é habitual é ver um ex-político a afirmá-lo com a clareza e conhecimento de causa de Paulo Morais, ex-vereador da Câmara Municipal do Porto.

23.6.08

Ainda há futebol?

Nestes tempos em que se torna coisa rara encontrar futebol digno desse nome – ou seja, futebol em que as equipas queiram ganhar marcando golo e não esperando que o mesmo lhes caia do céu num erro dos adversários – o jogo entre a Rússia e a Holanda foi uma pérola. Afinal ainda há quem jogue ao ataque, com gosto, com inteligência, com estética. Fora a Rússia mais competitiva – o que se calhar até estragava tudo – e concretizadora e teria esmagado a Holanda com uma cabazada histórica, tantas foram as oportunidade de golo.
Ontem vi o Espanha – Itália e a euforia acalmou, assim como a esperança no futebol, pois as duas equipas fizeram o possível, e quase o impossível, para não marcar golos, num jogo muito mais do que chato e a que só faltou que falhassem penáltis sucessivos de modo a obrigar os próprios guarda-redes a marcar. Perdeu a Itália, o que foi um grande felicidade, porque dali não vem qualquer esperança enquanto de Espanha ainda poderemos esperar algum futebol. Agora, esperar mesmo, só espero que a Rússia mantenha o nível e esmague também a selecção espanhola, numa desforra dos 4-1. Sem piedade e com grande arte.

Coisas Estranhas

Ter dado por mim a torcer freneticamente pela selecção da Rússia. Ainda mais quando jogava contra a Holanda. Saltei com golos, praguejei com falhanços e quase acabava no Marquês até me aperceber que não estava em Lisboa.

20.6.08

Ontem

O desespero deve ter sido muito para as bandas da casa de Pinto de Sousa. O país perdeu o ópio e vai, desgraçadamente, ter de ser confrontado com a sua imagem reflectida a um espelho agora desembaciado. Infelizmente ao invés do que se pode augurar para o nosso futuro.

Coisas da Bola I

Sofrer dois golos de bolas paradas, marcados com a facilidade com que se barra manteiga mole numa torrada quente, mostra que o estudo não foi muito lá pelas bandas da selecção. Seria uma maçada para Scolari ter de estudar o jogo dos alemães, até porque o impediria de devorar o curso de inglês do Planeta Agostini e escolher frases da “Arte da Guerra” para passar por baixo das portas dos quartos dos jogadores. Do tempo dos dentes de alho e das bruxas passámos para um estágio bastante mais elevado com a Nossa Senhora de Caravaggio e Sun Tzu. Melhor, muito melhor, mas bom seria aspirar a um futuro de alguma normalidade, não fora um obstáculo chamado Madaíl.

Coisas da Bola II

A memória dos anos que levo sorri sempre que me lembro da selecção quando tinha à sua frente Humberto Coelho. Nunca jogámos tão bem. Nunca as coisas foram tão agradavelmente normais. E boas. O homem está para ir para a Tunísia. Indemnizem os tunisinos com o que poupam em relação ao ordenado de Scolari e façam o Humberto ficar por cá. A bem de todos nós.

Coisas da Bola III

Defender Ricardo tem sido um desporto que pratiquei amiúde. Tudo tem os seus limites e eles ontem foram ultrapassados. O “meu” Sporting que não se lembre de o ir repescar a Sevilha. Deixem o homem a comer tapas e a desesperar os espanhóis e sosseguem Alvalade.

Coisas da Bola IV

“Há sempre alguém que resiste.” Bravo, Deco!

Palavras roubadas

“Houve o rumor de que estava doente e depois a notícia das melhoras, a cura e a entrevista a Rui Ramos. Depois de mais silêncio, a notícia da operação e a ida para casa. De qualquer modo, é muito pouco e não se falar mais de Miguel Esteves Cardoso não prognostica nada de bom para o país. Nada de bom.”
Ao Impensado.

19.6.08

Coisas Boas da Irlanda IV


A fantástica Sharon Shannon e "Mouth of the Tobique"

Provincianismos

Gosto da província e gosto muito de um certo provincianismo. Não suporto o envergonhado provincianismo de urbanos que renegam origens e falam delas com distanciamento, convertidos a uma certa “modernidade”. Ouvir o argumento de que é muito importante para Portugal a ratificação do Tratado de Lisboa, porque o mesmo leva a nossa capital no nome, leva-me ao desespero. Há gente que se disfarça de cosmopolita, mas que nunca se livrará do mau que a província lhe deu, esquecendo as genuínas qualidades que poderia ter aproveitado.

Centralismos

A simples menção de um hipotético Bloco Central escurece este magnífico dia de sol. Ouço aplausos emocionados e veementes dos interesses instalados. Adivinho choros desesperados do povo à custa de quem se terá de sustentar um status quo com o dobro do tamanho.
(À propos das declarações de Marcelo e da moção de Ferreira Leite para o congresso)

18.6.08

Coisas Boas da Irlanda III

“Under bare Ben Bulben's head
In Drumcliff churchyard Yeats is laid.
An ancestor was rector there
Long years ago, a church stands near,
By the road an ancient cross.
No marble, no conventional phrase;
On limestone quarried near the spot
By his command these words are cut:
Cast a cold eye
On life, on death.
Horseman, pass by!

W. B. Yeats
Excerto de "Under Ben Bulben".

Coisas Boas da Irlanda II



The Pogues & The Dubliners
"The Irish Rover"

Coisas a ler

O Yes de Molly Bloom”, de Vasco Graça Moura, hoje no DN.

Coisas da Irlanda

A propósito do mui conveniente “Não” da Irlanda, esta semana dedicarei algumas postas a outras coisas boas de lá vindas.

Coisas Boas da Irlanda



Sinead O’Connor & The Chieftains
"The Foggy Dew"

16.6.08

Descanso

O bom do Santo António deve ter avisado São Pedro que já era demais e que era preciso uma réstia de sol para animar Portugal enquanto a selecção que interessa entrava em descanso. Resultou a demanda em dois épicos dias de praia, num areal em que era possível traçar áreas de influência de mais 50 metros entre as pessoas e a que não faltava um acolhedor bar com música de irrepreensível gosto. Paraíso de sossego em fim-de-semana grande e a pouco mais de uma hora de Lisboa. Para norte, claro, que esse reino dos Algraves não é terra para mim.

Coisas da Europa I

É extraordinário o argumento de que 4 milhões de habitantes, cerca de 1% da União Europeia, estejam a condicionar, de forma desproporcionada, o projecto europeu. Poderia ser por memória curta, mas é mesmo por desonestidade intelectual. Fazem por esquecer qual foi o resultado dos referendos nos outros países? Será que, apesar de prometidos como em Portugal, foram evitados para não permitir à população que se exprimisse? E a nega na Holanda e em França, já foi esquecida? A realidade é que cerca de 53% dos europeus que tiveram o direito democrático a pronunciarem-se votaram “Não”. O resto é o habitual chorrilho de habilidades retóricas que tentam transformar o branco em preto.

Coisas da Europa II

A utopia europeia está a causar uma cegueira que, para quem insiste em querer ver, se torna assustadora.

Sláinte

Brava Irlanda. Uma vez mais. Brava Irlanda.
Brindemos à liberdade com pints de Guiness em barda.

Beautiful day – U2

12.6.08

Crisis? What crisis? – I

Depois de ceder aos pescadores o governo deixou de ter margem de manobra para não negociar com os camionistas. Podia, caso fosse realmente competente, ter negociado mais cedo e poupado aos portugueses o racionamento dos combustíveis ou a ausência de saladas ou frutas. Bolas, afinal estamos no verão e na época das dietas e aposto que os portugueses, em particular as mulheres, não lhe vão perdoar tão cedo a transgressão alimentar a que foram obrigados.

Crisis? What crisis? – II

O protesto é obviamente intolerável, o grave, e preocupante, é que ele seja compreensível.

Crisis? What crisis? – III

Gostei de ouvir falar Rui Moreira, ontem na RTPN, sobre a crise dos combustíveis. Apetecia aplaudir que alguém estava a dizer de forma tão clara algo de evidente: os nossos governos, e não só o actual, apenas governam para grandes empresas (ou agricultores, ou industriais, ou banqueiros, basta acrescentar qualquer actividade). Num país com uma economia muito baseada nas PME’s, não deixa de ser curioso, se não fosse perigoso. Os anos passam e a pequena economia é tratada como algo distante e em vias de extinção, como se a economia de um país – em especial do nosso – pudesse sobreviver apenas com grandes empresas.

Crisis? What crisis? – IV

Quando se diz que na Europa de hoje não há ideias a discutir estamos a tomar atitude da avestruz e a ignorar a realidade. O delírio é mais evidente quando vimos Pinto de Sousa a comparar-nos com a Finlândia ao mesmo tempo que assistimos à “Liga dos Últimos” na RTP. Portugal é cada vez mais um país dividido ao meio, em que o litoral se apresenta com toques cosmopolitas e o interior é cada vez mais um museu antropológico. A culpa é de quem governa porque assumiu, sem a frontalidade de o dizer, que o interior é para abandonar, a agricultura para acabar e o território para desocupar. Nada disto é inevitável ou emana de Bruxelas, é apenas o reflexo do novo-riquismo das gentes que nos governam e que acham mais atractivo inaugurar estradas do que produções de batata e que vêm mais glamour em protocolos com bancos do que em olivais extensivos.
Se discutir isto não é discutir ideias, então eu definitivamente já não sei o que é a política.

Crisis? Why crisis?

“Metro do Terreiro do Paço teve derrapagem superior a 31 milhões de euros”
Depois dizem que crise é inevitável, que não há dinheiro para nada e que o país não tem melhora possível. Aposto que as derrapagens das obras públicas já davam para muita coisa. Façam as contas!

Perguntas da crise – I

No meio do caos que assolou o país, fica uma pergunta: onde anda o PSD? Resposta possível: no mesmo sitio onde andou nos últimos tempos, sentado no sofá à espera que o poder lhe caia no colo.
.
P.S. Será que nasceu mais um neto a Manuela Ferreira Leite?

Perguntas da crise – II

Cavaco Silva ainda é presidente de Portugal? E que tal mandar uma das suas “sagradas” mensagens ao país, e ao governo, nestes momentos de crise. Até para esquecer o lapsus linguae do dia da raça.

Perguntas da crise – III

Não será estranho Mário Lino não ter aparecido nas televisões a falar sobre a crise? Será que no governo já perceberam que o homem não é apresentável e tem uma tendência fatal para o disparate.

Do futebol

Mais um bom jogo. Mais uma vitória. Estranho esta coisa de estar apurado sem confusões, ao segundo jogo, sem sofrimento, sem pensar no resultado dos outros. Não estou habituado a isto, estou mesmo muito preocupado porque algo está diferente neste mundial em que parece que a selecção é uma equipa. Será que quer dizer algo? O meu medo é que queira dizer uma eliminação nos quartos de final. Talvez não, talvez queira dizer que é desta. Talvez seja mesmo desta.

11.6.08

Sobre o referendo

Amanhã, veremos se a Irlanda continua a ser um país de coisas boas e definitivas.







Votando "Não" ao anti-democrático Tratado de Lisboa, dando assim mais uma lição de Democracia e uma bofetada de luva branca aos eurocratas.

Fazer companhia ao sol

Quando o tempo parece querer ajustar-se às estações, achei que as minhas humildes compras na Feira do Livro deviam seguir o mesmo caminho. Optei por livros que tentassem deixar-me bem disposto: Evelyn Waugh, Nancy Mitford, Jerome K. Jerome. Tudo na Cotovia e a bom preço de feira. Os monos ficam para outra oportunidade que o passeio foi curto.

Perplexidade

Estranho bastante que as habituais brigadas das liberdades não tenham aparecido no momento em que uma juíza censurou a transmissão de uma tourada pela RTP. Será que para essa gente há liberdades e liberdades?

6.6.08

Bravo TVI!

No dia em que foi dado provimento à providência cautelar que impedia a transmissão da Corrida TV em horário nobre, a TVI não emitiu as suas três novelas do costume para transmitir em directo uma corrida de touros no Campo Pequeno. Depois não venham dizer que as touradas são coisas de minorias, pois se a TVI, o nosso canal mais comercial, transmite corridas em horário nobre, não o fará sem grande segurança das suas audiências.

Bravo TVI! - II

A TVI não é a “minha” televisão, o que aliás é normal pois não é a mim que a sua programação é dirigida, mas há algo que, para além duma programação no geral miserável, a distingue: a independência e a coragem. Ontem foi exemplo disso.

Pinto de Sousa

200 mil pessoas na rua. Alegre em movimento. Novo presidente do PSD. Moção de censura do CDS/PP. Ambiente geral de contestação. Caso para dizer:
“As notícias da sua vida prolongada foram manifestamente exageradas.”