28.11.08

Postal da Patagónia

(Ainda de El Calafate)
Olho as cercas e penso nos loucos que aqui compraram terras, neste quase fim de mundo inóspito, nessas personagens de Chatwin, nesses habitantes de casas isoladas como a que avisto. Loucos aventureiros, fugitivos da justiça, de si mesmos ou da sociedade. Escolher viver aqui será ainda hoje uma fuga, há uns anos roçaria a loucura. Pardo verde musgo escuro. Abres-se em frente o lago Viedma. A estrada continua a seu lado. Aparecem pontos amarelos de pequenos arbustos.

Postal da Patagónia

(Ainda de El Calafate)
Percorro um troço da mítica R40, tão escrita e descrita, a caminho de El Chaltén. Pardo pontuado por escassos pequenos arbustos. Quilómetros a sucederem-se sem mais. Propriedades cercadas. Quatro cavalos, à frente o troço de um pequeno rio. Pardo, ao fundo montes nevados, mais perto montes pardos. O céu brinca em azul e branco. Uma rocha.

27.11.08

Postal do fim do mundo

Cheguei ao sul. Ao verdadeiro sul da civilização. Mais a sul só a Antártida, terra do branco, do gelo, do inumano. Não posso ir mais além - a verdade é que podia, mas uma expedição à Antártida ainda não está nos meus planos. Este é o fim ou princípio de tudo. Olho em frente na baía de Ushuaia e vejo a Isla Navarino, terra chilena apenas povoada por uma base militar. Não posso ir mais abaixo, pelo menos por agora não posso. Percebo melhor a dimensão do mundo, percebo melhor Magalhães, Darwin, Chatwin. Todos os que quiseram chegar ao limite, ao fim, ou ao princípio. Este é o verdadeiro sul, o limite austral do homem, da terra humana. Cheguei ao sul e por aqui ficarei mais uns dias, aproveitando o limite do fim, ou do princípio.

26.11.08

Postal da Patagónia

A primeira sensação frente ao glaciar Perito Moreno é de esmagamento. Depois vem a pequenez perante a natureza que traz consigo um setimento de humildade. Chegado da metrópole nada melhor do que por as coisas no seu preciso lugar. No lugar devido do homem perante a imensidão do intocado e puro. Sou atacado por um fremente convulsão fotográfica, doença que se alastra inevitavelmente a todos quantos deambulam pelas passadeiras de madeira integradas na encosta frente à parede de 70 metros. Há a tentação de querer que o momento perdure, que a imagem de algum modo continue na memória. Deambulo no disparo, indiferente perante a circulação de seres com a mesma fascinação feita fenómeno colectivo.
As coisas não ficarão por aqui e ainda irei caminhar de pregos no pés sobre este gelo milenar, fruto de anos incontáveis de acumulação de neves. A quem já esteve no meio da neve, o branco não tem a mesma fascinação, mas ao saber sobre o que caminhamos e ao olhar para os rasgos de azul que surgem por entre o braco a relativização é posta de parte. A irrealidade do cenário é acentuada quando afasto olhar hipnotizado pelo branco e olho em redor. A massa avançando sobre o castanho da Península de Magalhães que sobe em colinas verdejantes. Ao lado montanhas de negro inóspito. O céu espreita azul por entre nuvens brancas e uma neblina que avança sobre o glaciar.

Postal de Buenos Aires

(Ainda de Buenos Aires)
Quando me lembro do "Quarto com vista sobre a cidade" sempre me vem à memória a acolhedora pensão, como tantas outras referidas em obras do século XIX e XX. A dona, geralmente viúva, transformava a casa que tinha dificuldade em manter numa casa de hóspedes. Mantinha assim o pessoal e o seu nível de vida, conhecia novas pessoas, algumas interessantes, e, claro, abdicava de alguma intimidade.
Sempre as imagino em casas de classe média, por vezes alta, com mobiliário sólido e confortável, cortinas quentes e densas, quartos de casa de família. A sala era ponto de encontro inevitável de hóspedes, reunidos pela manhã para o pequeno almoço, por vezes para o chá das cinco, quase sempre para o jantar. Eram tempos em que os hotéis eram poucos e caros, os restaurantes quase inexistentes e os viajantes se dividiam entre aventureiros e aristocratas, alguns deles falidos. Também era época dos "grands tours" de jovens solteiros que saíam a conhecer o mundo e, quem sabe, arranjar um bom partido para casar.
Quando cheguei à minha casa em Buenos Aires senti como se tudo isto se me apresentasse em versão moderna. Não trouxesse o número correcto da porta e nunca encontraria o sítio, uma discreta, porém bonita, casa sem nada que a distinguisse das demais em seu redor excepto uma curiosa lanterna ao lado da porta. Sou acolhido pelo Fernando - que sei de antemão ser o marido da Lizandra, a dona da casa - em hora tardia, mas a tempo de ver o corredor de acesso aos quartos e ao fundo uma deliciosa varanda em madeira sobre um pátio.
A decoração remete de imediato para as antigas pensões. Casa de princípio do século, chão de madeira corrida, portas de madeira com vidrinhos, adereços de época. No meio a personalização actual que nos lembra estarmos no século XXI, com obras de arte contemporânea, nomeadamente o grande quadro da sala de jantar e o biombo de vidro que divide esta da sala de estar. Quatro degraus acima da casa de jantar uma pequena cozinha de apoio com um simpático bar de conveniência que irei utilizar amiúde, afinal tinha cerveja e vinho, companhias ideiais para o relax antes de jantar.
A primeira palavra de acolhimento foi que esta era para ser a minha casa, e nada mais correcto poderia ser dito sobre como me senti.

Postal da Patagónia

Em motoquatro no Lago Argentino.

Postal da Patagónia

Lago Argentino.

Postal da Patagónia

Monte Fitzroy.

Postal da Patagónia

Monte Fitzroy.

Postal da Patagónia

Perito Moreno

Postal da Patagónia

Estrada para El Chaltén. Ao fundo o monte Fitzroy.

Postal da Patagónia

Perito Moreno

Postal da Patagónia


Perito Moreno

Postal da Patagónia

O glaciar Perito Moreno.

24.11.08

Na Patagónia

Agora sim, deixei o cosmopolitismo de Buenos Aires e estou aqui, nesta imensida imensa. Nao escondo alguma espectativa porque daqui a pouco tempo irei estar a caminhar em cima de um glaciar. Sei que os postais andam atrasados e que nao tenho acento til. Tentarei resolver o assunto com a brevidade desejável.

21.11.08

Postal de Buenos Aires

Ainda não vos falei da minha casa em Buenos Aires? Pois não. Só me lembrei porque acabou de sair uma simpática hóspede sino-americana (sempre quis utilizar esta palavra composta), professora universitária de balet moderno. Ontem fumámos uns cigarros em nome da esperança no Obama e a alegrarmo-nos pela senhora Sarah Palin existir desde que não tenha qualquer poder.

Postal de Buenos Aires

Preciso de confessar: já fiz compras. Tentei resistir, tinha prometido só ir no regresso da Patagónia, mas não consegui. Pronto, confessei e já me sinto melhor. Afinal, moralmente é só um pecadilho, o problema chegará com a conta do VISA que teimará em ser imoral.

Postal

Ando a morrer de saudades e acho que vou voltar antes de tempo. Isto de estar só é insustentável e já mudei o voo para segunda-feira.

P.S. Claro que estou a brincar.

Postal de Buenos Aires

(Ando a perder o ritmo)
Como a cultura também é importante, lá fui ao Museu de Bellas Artes e ao MALBA. O primeiro tem uma boa colecção de impressionistas, o segundo é uma decepção enquanto colecção - está mais vocacionado para exposições temporárias -, mas um belissimo edifício moderno e bem enquadrado.
Volto a andar demais. Insisto em não me adaptar à dimensão da cidade. Como sempre há que ver as coisas do lado positivo: ainda bem, pois de outro modo regressaria uma orca. O facto de estar só leva-me a não dispensar comer bem. Aqui confesso, antes que receba hate-mails de alguns amigos, que o faria também caso não estivesse só. Mas assim entendo como uns miminhos e a gula torna-se mais desculpável, assim como os desejos quase incontroláveis de comer "ojo de bife" durante todo o dia.

20.11.08

Postal de Buenos Aires

"Lost in antiques". Este foi o lema da manhã em San Telmo. E também, ver e não comprar. Nada melhor para descomprimir do que um almoço frente à maior catedral de Buenos Aires, "La Bombonera", ou seja, o Estádio do Boca Juniors. Aqui jogou o deus Maradona, de tal forma entronizado pelas gentes de aqui que já tem direito a uma religião em seu nome. E com número crescente de "crentes". Foi também hoje que este deus conseguiu a primeira vitória como putativo treinador da Argentina. Por isso mesmo, e antevendo a vitória, lá me debati com o "Carlitos", dono do "Don Carlos", mesmo em frente à "caixa de bonbons", e a sua cozinha sem ementa que me deixou em estado redondo ao nível de uma bola de bowling. O ideal para deambular pelo "Caminito", a zona "típica" da Boca que mais parece um parque temático sobre uma certa Argentina marinheira e proletária. A densidade de máquinas fotográficas, vendedores ou empregados de lojas e restaurantes é tal, que o espaço que resta para outros é nulo. Até se encontra um pretenso sósia do deus que cobra por tirar fotografias com as pessoas.