18.12.08

Estátua ao Sousa

No seu desmedido esforço por melhorar as finanças do país, este governo resolveu facilitar a alienação de património por parte do estado. Património histórico, diga-se. Não me parece mal visto, enquanto se enterra dinheiro público em bancos falidos por gestores fora-da-lei, abre-se porta para recuperar esse dinheiro com a venda de património, muito provavelmente a ex-gestores desses mesmos bancos. Alguém se espantará se Dias Loureiro vier a comprar a Torre de Belém para adaptar a residência, ou a PRISA de Pina Moura o Mosteiro dos Jerónimos para sede da empresa, ou a Mota Engil de Jorge Coelho o Museu Nacional de Arte Antiga para centro controlador dos contentores de Alcântara. Já tudo parece possível, a bem da “economia”.

17.12.08

Nostalgias recentes

Tango. Modo de repetição. Clássico e electrónico. Gardel e Yira, Goyeneche e Tanghetto, Adriana Varela e Hugo Díaz. Deixo para ouvir, e ver, “Percanta”, do grupo “Otros Aires”, em videoclip não oficial gravado em Lisboa.

E Lisboa chora!

António Costa de um lado, Santana Lopes do outro. Palavras para quê! Resta a esperança em Helena Roseta.

Renovação e credibilidade

O novo e credível PSD, dos credíveis Manuela Ferreira Leite, Pacheco Pereira e António Borges, escolheu Santana Lopes como candidato à Câmara de Lisboa. Só falta mesmo aceitarem Isaltino em Oeiras e Valentim em Gondomar.

16.12.08

Coisas que dão vontade de emigrar

O senhor Pinto de Sousa achou importante, seguindo o espírito natalício, presentear as finanças do Estado com um suplemento monetário. Vai daí e desencantou uma declaração anual de IVA que os trabalhadores a recibos verdes deviam entregar. Ontem, dias depois de tomar esta medida, discursava pelo Simplex e pela necessidade de diminuir as complexidades administrativas. A declaração anual em causa é da mais pura redundância pois apenas serve para juntar informação que os contribuintes já haviam declarado mensal ou trimestralmente. Acresce que os trabalhadores a recibos verdes desconheciam totalmente a existência da dita declaração. Isto a propósito da cartinha que recebi e que me queria extorquir 125€ pela declaração respeitante a 2006 e que, segundo informação da minha repartição, seria seguida por outra respeitante a 2007. Poderemos, com mesma falta de pudor de Pinto de Sousa, falar em roubo. Descarado e intolerável. Imoral. Acredito que seja necessário encontrar dinheiro para injectar no BPN e no BPP, mas poderiam tentar encontrá-lo sem recorrer ao roubo, pelo menos a um roubo tão indigno. Que Pinto de Sousa mente, já ninguém duvida, mas que tenha dado início ao um saque directo e sem vergonha aos contribuintes, isso sim é notícia.

P.S. O governo recuou, o que é uma pena. Salvo assim as minhas actuais finanças, é certo, mas perde-se a oportunidade de ver as gentes saírem de uma vez por todas para a rua em sérios protestos contra quem por aí diz que governa o país. A coisa não vai por bom caminho quando um conservador começa a ter ideias fortemente revolucionárias. Porque é que não me deixei ficar no Rio de Janeiro?

15.12.08

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Penoso regresso de viagem. Apetece fazer birra de criança malcriada para voltar a sair. Os postais atrasados continuam à espera de chegar a este blog, assim como os enviados desde a Patagónia e que os correios argentinos e portugueses retêm por motivos insondáveis, por certo nada relacionados com as inocentes palavras escritas à família. Vem faltando a paciência de organizar papéis, escritos e fotografias, talvez por querer perpetuar a viagem no tempo, pelo menos até ao Natal que já se anuncia.

9.12.08

Postal de Lisboa

Regresso com frio. Voltar é sempre bom, mas difícil quando se passou tão bem fora. Há dois dias apanhava sol e tomava banhos de mar, hoje precisei de me enchouriçar para suportar o vento gelado de Lisboa. Coisas da aclimatação. Ficaram postais por mandar, como tantas vezes. Alguns chegarão com o atraso costumeiro dos correios, mesmo que enviados por internet.

5.12.08

Postal do Rio

Depois da favela, a subida de bonde a Santa Teresa. A viagem ameaça não parar em programas radicais. Este bairro é uma delícia de situação e arquitectura, com belos edifícios, muitos decadentes, e uma população vagamente excêntrica. Artistas e gentes de piercings e tatuagens convivem em boémia. Magnífica e poderosa feijoada à brasileira de almoço a obrigar a uma subida a pé. Ah! Faltava falar da parte radical, é que a subida é feita num eléctrico que passa em cima do aqueduto da Lapa e...não havia lugar. Ah! E tenho vertigens. Pois, a viagem foi feita pendurado de fora do bonde e nos instantes iniciais temi que não voltasse a poder abrir as mãos. No fim, uma vez mais, a satisfação de uma viagem deliciosa apesar de radical. "O Rio de Janeiro continua lindo".

4.12.08

Postal do Rio

Os contrastes de passar, no espaço de dois dias, de Ushuaia a Buenos Aires e depois para o Rio de Janeiro, baralha ambientações térmicas. O Rio recebeu-me com um sol inclemente e humidade no ar, suficiente para a praia ser um destino incontornável. A Prainha, afastada do centro, é um oásis de tranquilidade numa cidade buliciosa. Alguns surfistas e uma paisagem dominada pela natureza apenas quebrada por dois botecos. Calor e pele ainda clara a obrigar a cremes potentes e refúgios na sombra. A água gelada faz lembrar as praias do norte de Portugal, desmentindo mitos de água quente no Brasil. Manhã tranquila, o que não se pode dizer da tarde.
Destino Favela, Rocinha. Chegada de táxi a São Conrado onde é suposto apanharmos um moto-boy, motas que transportam passageiros na favela, que nos "suba" até ao boteco do Belo. Distribuímos o grupo - sim, porque aqui no Rio deixei de viajar sozinho - pelas motas e aí vamos. Desporto radical seria um eufemismo para descrever a inacreditável experiência de "trepar" pela favela de moto, com trânsito intenso na estreita rua de curvas em cotovelo, ocupada por autocarros, vans, carros e um enxame de outros moto-boy. Sempre em velocidade, ultrapassando o que aparecia à frente, curvas quase deitados, tangente a tudo o que mexe e não mexe, e em redor a favela. Demasiados momentos em que me julguei esborrachado no chão, no mínimo de joelhos esfolados. Nada aconselhável a cardíacos, nem a medrosos, nem a quase ninguém, embora no final, já com os pés na terra, a sensação seja magnífica e se possa usufruir da experência com a segurança possível de estar no meio da maior favela do Rio. Passado o transe da viagem um olhar para o lado e uma vista alucinante. O Rio aos meus pés, o casario da favela a descer agarrado à encosta íngreme. Ao fundo os prédios, depois o mar, ao lado outros morros. O verde da floresta atlântica que surge pujante no meio da cidade. A favela é favela, mas a vista daqui é de luxo. Caminhamos um pouco rua acima até ao boteco do Belo, se é que isso se pode chamar à garagem com bar, uma mesa de snooker com dificuldade em se manter de pé e duas máquinas de jogos electrónicos. Tomamos um chope e subimos ao cimo do edifício incompleto em cimento para um vista ainda mais abrangente. Muitas fotografias tiradas em plena favela, com uma descontracção que não imaginava possível. Favela é local onde nunca esperei entrar, experiência única e provavelmente irrepetível, no entanto não aconselhável a grande parte das pessoas que conheço.

1.12.08

Postal do Fim do Mundo

Após ter estado em Buenos Aires parecia que o tango se tinha ido, que essa tradicao nao chegara ao sul. Nada mais falso, o melhor tango que ouvi foi numa noite em Ushuaia, no Ramos Generales. Acompanhado por cerveja "Cape Horn", foi deleite ouvir um trio - bandonéon, violino e piano - tocar bem um reportório de óptimo gosto, alternando tangos antigos com temas de Piazzola. Foi o melhor tango que ouvi e soou com tanto exotismo aqui em Ushuaia - apesar desta fazer parte da Argentina - como soaria flamenco nos Acores.
Aproveito a deixa. Será um disparate meu, mas o que mais consigo aproximar da Terra do Fogo sao os nossos Acores. A paisagem nao é parecida, apesar de haver montanhas, escarpas, verde e mar. Há uma poesia da distância, uma melancolia, a coragem de viver no isolamento. Da porta do "Ramos Generales", fumando um cigarro, olho o porto, o canal e as montanhas ao fundo. Recordo o gin tónico do Peter's, a marina da Horta, o canal, o Pico ao fundo. Sei que nada tem que ver, mas terei para mim que sim. Assim como a baía Lapataia me lembra as lagoas da Flores. Os Acores sao o nosso fim, este é o fim do mundo todo. Insistirei nesta semelhanca. Manias minhas.

Postal do Fim do Mundo

O sítio era acolhedor e resolvi que era ali que ia provar o cordeiro fuegino (de Terra do Fogo). Pedi de imediato uma deliciosa Beagle, cerveja artesanal da zona, e quase nao contive o espanto de encontrar entre as receitas de cordeiro uma "à portuguesa". Até no fim do mundo está Portugal, nos cordeiros e nos três portugueses, pouco simpáticos, que encontrei no Cerro Marcial.

Postal do Fim do Mundo

Lobos marinhos, Pinguins, Cormoranes, aves e aves diversas como condores e albatrozes. O canal atrai fauna diversa e nao escondo que senti alguma emocao ao ver pinguins no seu habitat natural. Pequenos, Magalhânicos, andavam no seu passo meio desengoncado pelas margens da ilha, mergulhando ocasionalmente no mar. Ali mesmo ao lado, o suficiente para haver vontade de trazer um comigo, nao fora isso uma intolerável crueldade.

Postal do Fim do Mundo

(Ainda antes de Ushuaia)
Voo sobre o Estreito de Magalhaes, esse caminho encontrado pelo genial português para passar do Atlântico ao Pacífico sem ter de dobrar o temível Cabo Horn. Impressiona agora mais perceber como naquela época foi possível chegar onde ainda hoje é tao distante. Em que pensariam quando depois de dias imensos de viagens chegassem aqui e por este estreito ousassem entrar? Grande homem esse Magalhaes, independentemente de muito ter feito ao servico de Espanha.
A vista sobre os Andes é poderosa, mostrando um vasto campo de montanhas, neve e nuvens. Um aparente preto e branco, apenas quebrado por manchas verdes em zonas mais baixas. A aproximacao pelo ar a Ushuaia é espectacular, o aviao a sobrevoar a baixa altitude o Canal Beagle com mudancas bruscas de direccao que, nao fora a beleza da paisagem, semeariam com facilidade o panico nos passageiros.

P.S. Faltam acentos, mas estes teclados estranhos nao perdoam.

30.11.08

Postal do Fim do Mundo

No alto do Cerro Marcial tenho a baía de Ushuaia aos meus pés, o canal Beagle em direcção ao Atlântico. Em frente as montanhas ainda nevadas da Isla Navarino. Atrás o gelo. A terra acaba ali, mesmo à minha frente, antes de dar lugar ao gelo. O fim. Ou o princípio. As águas azul cinzento do canal insistem em dizer que sim, que este é o fim do mundo. Já o encontrei, já cá estive, já o vi, já o vivi. A terra tem fim. Sopra vento e chegam nuvens. Permaneço no topo do Cerro Marcial. Não há mais para além do que vejo. Sobe e desde gente talvez pensando o mesmo que eu, cansados da caminhada, persistindo na subida para mais com a vista abarcar. Este é o fim. Ou o princípio.
"Roubo" algumas palavras escritas por Francisco José Viegas, em texto publicado na revista "Volta ao Mundo": "Sei que existe a terra toda, agora que cheguei ao seu limite", "Sei, agora, que a terra existe, a terra toda, poeira e cinza, verde e azul".

28.11.08

Postal da Patagónia

Deixo a Patagónia ou, como Chatwin, sigo para sul com a ideia de uma Patagónia até ao fim da Terra do Fogo, até ao fim do mundo. Mais do que uma região ou terra, a Patagónia é território de mitos fundados na distância e na imensidão. Destino final de aventureiros e viajantes, "aquele" sítio de fuga e de real abstracção. Talvez fosse esta a palavra que me escapava e que buscava, mais do que imensidão, infinito ou vastidão, a Patagónia é abstracção. Por isso Chatwin, o recorrente, criou um "Na Patagónia" cubista feito de fragmentos, de um não diário e uma não história. O abstracto nesta tela de infinito, quadros fractais e textos aparentemente desconexos, apenas ligados pela abstracção e por um pedaço de pele pré-histórica.

Postal

Isto do Sporting ser humilhado em Alvalade não me parece bem. Desabafo à distância, na terra do Messi que infelizamente joga no Barcelona.

Postal da Patagónia

(Ainda de El Chaltén)
Rajadas deixam cortinas de pó nas estradas de cascalho. El Chaltén é fim de mundo, mais um, nesta região toda ela tão no fim de tudo. Sensação de fim. Uma rua pequena com casas dos dois lados. Não passam carros e os que estão parados não parecem capazes de grandes movimentos. Só passam autocarros trazendo e levando gente. O resto são caminhantes de mochila âs costas sem aparente destino, como se o seu destino fosse o fim. O sol brilha, hoje, mas o inverno será aqui duro, insano. Escrevo depois de dois deliciosos waffles com doce de Calafate e um mate. Foram dois por controle que impediu de serem quatro, seis ou oito. Olhando pela janela escuto a música de Joaquin Sabina que me leva a um limbo esntre Salamanca e El Chaltén. Coisas deste mundo global em que na mesa ao lado se fala em alemão.
Outrora destino de aventureiros e viajantes excêntricos, hoje destino dos "novos viajantes" de sapatos Timberland, roupa com gore-tex e luvas polares. Japoneses, americanos, alemães. Mochileiros não demasiado jovens. Local de romagem mítica em busca de santuários nos quais se estabelece uma relação quase religiosa com a natureza, acreditando, ou não, num criador supremo da mesma. Busca de espaço e largura, de si mesmos, de uma dimensão de ar e terra cada vez mais difícil de encontrar.

Postal da Patagónia

(Ainda de El Chaltén)
O vento está deveras patagónico. Rajadas que fazem o bosque falar. Sim, o bosque fala pelos troncos que rangem e pelas folhas que abanam. Usando uma democrática linguagem que deixa a sua compreensão ao critério de cada um independentemente da sua origem. Não estou com isto a entrar numa fase Floribela e a falar com as árvores, nem sequer enlouqueci, mas lá que falava, falava.

Postal da Patagónia

(Ainda de El Chaltén)
Caminhada pela parte norte do Parque dos Glaciares. O trilho é apelidado de fácil, mas o íngreme começo leva-me a praguejar. Vem-me à memória o trilho da Fajã de Santo Cristo, em S. Jorge nos Açores, e o estado de quase exaustão em que o acabei. Apesar da beleza. Felizmente apenas o começo é complicado e o terreno acaba por aplanar. Ainda me cheguei a perguntar o que me tinha dado para fazer trecking. A passagem de um ribeiro onde bebo água anima a continuação, ainda mais quando começo a ver o Fitzroy iluminado por um sol resplandecente. Ver o mítico Fitzroy decoberto não é frequente, as nuvens contumam gostar de jogar às escondidas. A escultura em pedra é magnífica, um pico quase inacessível que já tirou a vida a muitos que tentaram subir. Um dente afiado apontado ao céu. Ao lado um glaciar mostra-se. O cenário é belíssimo em mais uma demonstração do poder estético da natureza. Passo por uma lagoa de água transparente que convida ao descanso. O vento bate e ondula a água. Quando alguns amigos lerem este postal não vão acreditar na sua veracidade. Vão atribuí-lo a devaneios de ficção. Fazer um trecking por opção, numa viagem em que estou entregue ao meu livre arbítrio estará para além da sua compreensão. Ou talvez acreditem, mas duvido. O certo é que é verdade, mesmo que até eu acredite com certa relutância.

Postal da Patagónia

(Ainda de El Calafate)
Olho as cercas e penso nos loucos que aqui compraram terras, neste quase fim de mundo inóspito, nessas personagens de Chatwin, nesses habitantes de casas isoladas como a que avisto. Loucos aventureiros, fugitivos da justiça, de si mesmos ou da sociedade. Escolher viver aqui será ainda hoje uma fuga, há uns anos roçaria a loucura. Pardo verde musgo escuro. Abres-se em frente o lago Viedma. A estrada continua a seu lado. Aparecem pontos amarelos de pequenos arbustos.

Postal da Patagónia

(Ainda de El Calafate)
Percorro um troço da mítica R40, tão escrita e descrita, a caminho de El Chaltén. Pardo pontuado por escassos pequenos arbustos. Quilómetros a sucederem-se sem mais. Propriedades cercadas. Quatro cavalos, à frente o troço de um pequeno rio. Pardo, ao fundo montes nevados, mais perto montes pardos. O céu brinca em azul e branco. Uma rocha.

27.11.08

Postal do fim do mundo

Cheguei ao sul. Ao verdadeiro sul da civilização. Mais a sul só a Antártida, terra do branco, do gelo, do inumano. Não posso ir mais além - a verdade é que podia, mas uma expedição à Antártida ainda não está nos meus planos. Este é o fim ou princípio de tudo. Olho em frente na baía de Ushuaia e vejo a Isla Navarino, terra chilena apenas povoada por uma base militar. Não posso ir mais abaixo, pelo menos por agora não posso. Percebo melhor a dimensão do mundo, percebo melhor Magalhães, Darwin, Chatwin. Todos os que quiseram chegar ao limite, ao fim, ou ao princípio. Este é o verdadeiro sul, o limite austral do homem, da terra humana. Cheguei ao sul e por aqui ficarei mais uns dias, aproveitando o limite do fim, ou do princípio.

26.11.08

Postal da Patagónia

A primeira sensação frente ao glaciar Perito Moreno é de esmagamento. Depois vem a pequenez perante a natureza que traz consigo um setimento de humildade. Chegado da metrópole nada melhor do que por as coisas no seu preciso lugar. No lugar devido do homem perante a imensidão do intocado e puro. Sou atacado por um fremente convulsão fotográfica, doença que se alastra inevitavelmente a todos quantos deambulam pelas passadeiras de madeira integradas na encosta frente à parede de 70 metros. Há a tentação de querer que o momento perdure, que a imagem de algum modo continue na memória. Deambulo no disparo, indiferente perante a circulação de seres com a mesma fascinação feita fenómeno colectivo.
As coisas não ficarão por aqui e ainda irei caminhar de pregos no pés sobre este gelo milenar, fruto de anos incontáveis de acumulação de neves. A quem já esteve no meio da neve, o branco não tem a mesma fascinação, mas ao saber sobre o que caminhamos e ao olhar para os rasgos de azul que surgem por entre o braco a relativização é posta de parte. A irrealidade do cenário é acentuada quando afasto olhar hipnotizado pelo branco e olho em redor. A massa avançando sobre o castanho da Península de Magalhães que sobe em colinas verdejantes. Ao lado montanhas de negro inóspito. O céu espreita azul por entre nuvens brancas e uma neblina que avança sobre o glaciar.

Postal de Buenos Aires

(Ainda de Buenos Aires)
Quando me lembro do "Quarto com vista sobre a cidade" sempre me vem à memória a acolhedora pensão, como tantas outras referidas em obras do século XIX e XX. A dona, geralmente viúva, transformava a casa que tinha dificuldade em manter numa casa de hóspedes. Mantinha assim o pessoal e o seu nível de vida, conhecia novas pessoas, algumas interessantes, e, claro, abdicava de alguma intimidade.
Sempre as imagino em casas de classe média, por vezes alta, com mobiliário sólido e confortável, cortinas quentes e densas, quartos de casa de família. A sala era ponto de encontro inevitável de hóspedes, reunidos pela manhã para o pequeno almoço, por vezes para o chá das cinco, quase sempre para o jantar. Eram tempos em que os hotéis eram poucos e caros, os restaurantes quase inexistentes e os viajantes se dividiam entre aventureiros e aristocratas, alguns deles falidos. Também era época dos "grands tours" de jovens solteiros que saíam a conhecer o mundo e, quem sabe, arranjar um bom partido para casar.
Quando cheguei à minha casa em Buenos Aires senti como se tudo isto se me apresentasse em versão moderna. Não trouxesse o número correcto da porta e nunca encontraria o sítio, uma discreta, porém bonita, casa sem nada que a distinguisse das demais em seu redor excepto uma curiosa lanterna ao lado da porta. Sou acolhido pelo Fernando - que sei de antemão ser o marido da Lizandra, a dona da casa - em hora tardia, mas a tempo de ver o corredor de acesso aos quartos e ao fundo uma deliciosa varanda em madeira sobre um pátio.
A decoração remete de imediato para as antigas pensões. Casa de princípio do século, chão de madeira corrida, portas de madeira com vidrinhos, adereços de época. No meio a personalização actual que nos lembra estarmos no século XXI, com obras de arte contemporânea, nomeadamente o grande quadro da sala de jantar e o biombo de vidro que divide esta da sala de estar. Quatro degraus acima da casa de jantar uma pequena cozinha de apoio com um simpático bar de conveniência que irei utilizar amiúde, afinal tinha cerveja e vinho, companhias ideiais para o relax antes de jantar.
A primeira palavra de acolhimento foi que esta era para ser a minha casa, e nada mais correcto poderia ser dito sobre como me senti.

Postal da Patagónia

Em motoquatro no Lago Argentino.

Postal da Patagónia

Lago Argentino.

Postal da Patagónia

Monte Fitzroy.

Postal da Patagónia

Monte Fitzroy.

Postal da Patagónia

Perito Moreno

Postal da Patagónia

Estrada para El Chaltén. Ao fundo o monte Fitzroy.

Postal da Patagónia

Perito Moreno

Postal da Patagónia


Perito Moreno

Postal da Patagónia

O glaciar Perito Moreno.

24.11.08

Na Patagónia

Agora sim, deixei o cosmopolitismo de Buenos Aires e estou aqui, nesta imensida imensa. Nao escondo alguma espectativa porque daqui a pouco tempo irei estar a caminhar em cima de um glaciar. Sei que os postais andam atrasados e que nao tenho acento til. Tentarei resolver o assunto com a brevidade desejável.

21.11.08

Postal de Buenos Aires

Ainda não vos falei da minha casa em Buenos Aires? Pois não. Só me lembrei porque acabou de sair uma simpática hóspede sino-americana (sempre quis utilizar esta palavra composta), professora universitária de balet moderno. Ontem fumámos uns cigarros em nome da esperança no Obama e a alegrarmo-nos pela senhora Sarah Palin existir desde que não tenha qualquer poder.

Postal de Buenos Aires

Preciso de confessar: já fiz compras. Tentei resistir, tinha prometido só ir no regresso da Patagónia, mas não consegui. Pronto, confessei e já me sinto melhor. Afinal, moralmente é só um pecadilho, o problema chegará com a conta do VISA que teimará em ser imoral.

Postal

Ando a morrer de saudades e acho que vou voltar antes de tempo. Isto de estar só é insustentável e já mudei o voo para segunda-feira.

P.S. Claro que estou a brincar.

Postal de Buenos Aires

(Ando a perder o ritmo)
Como a cultura também é importante, lá fui ao Museu de Bellas Artes e ao MALBA. O primeiro tem uma boa colecção de impressionistas, o segundo é uma decepção enquanto colecção - está mais vocacionado para exposições temporárias -, mas um belissimo edifício moderno e bem enquadrado.
Volto a andar demais. Insisto em não me adaptar à dimensão da cidade. Como sempre há que ver as coisas do lado positivo: ainda bem, pois de outro modo regressaria uma orca. O facto de estar só leva-me a não dispensar comer bem. Aqui confesso, antes que receba hate-mails de alguns amigos, que o faria também caso não estivesse só. Mas assim entendo como uns miminhos e a gula torna-se mais desculpável, assim como os desejos quase incontroláveis de comer "ojo de bife" durante todo o dia.

20.11.08

Postal de Buenos Aires

"Lost in antiques". Este foi o lema da manhã em San Telmo. E também, ver e não comprar. Nada melhor para descomprimir do que um almoço frente à maior catedral de Buenos Aires, "La Bombonera", ou seja, o Estádio do Boca Juniors. Aqui jogou o deus Maradona, de tal forma entronizado pelas gentes de aqui que já tem direito a uma religião em seu nome. E com número crescente de "crentes". Foi também hoje que este deus conseguiu a primeira vitória como putativo treinador da Argentina. Por isso mesmo, e antevendo a vitória, lá me debati com o "Carlitos", dono do "Don Carlos", mesmo em frente à "caixa de bonbons", e a sua cozinha sem ementa que me deixou em estado redondo ao nível de uma bola de bowling. O ideal para deambular pelo "Caminito", a zona "típica" da Boca que mais parece um parque temático sobre uma certa Argentina marinheira e proletária. A densidade de máquinas fotográficas, vendedores ou empregados de lojas e restaurantes é tal, que o espaço que resta para outros é nulo. Até se encontra um pretenso sósia do deus que cobra por tirar fotografias com as pessoas.

Postal de Buenos Aires

O taxista, assim que ouviu Calle Baéz como destino, logo declarou peremptório: "chicas lindas en Las Cañitas". Finalmente um bairro - ou melhor, uma zona dentro de Palermo - com dimensão mensurável. Uma curta rua, Baéz, e três ou quatro perpendiculares, com lojas, restaurantes e bares, tudo com um ecxelente ar. Respira-se bom perfume. Jantar razoável, no La Cavalleriza, e um copo para digestão, no Mute, por entre "chicas lindas" num bar moderno e de bom gosto. No fim do jantar obrigo-me a mim mesmo a escrever cem vezes: não voltarás a pedir entrada, muito menos de queijo, e batatas fritas com a carne". Tentarei cumprir, até porque nestas bandas não há Água das Pedras e eu esqueci-me do Cholagutt.

19.11.08

Postal de Buenos Aires

Primeira incursão na espontaniedade argentina, com um ser enfurecido a parar e sair de uma mota dirigindo-se a outro com aparente vontade de o desfazer em pedaços. Ao lado dois polícias olhavam com ar complacente tentando, sem muito esforço, acalmar a situação. Na esplanada onde tomava café comentava-se que o melhor era chamar alguém, apesar da polícia.
O passeio matinal por Palermo mostrou bem a enorme dimensão deste bairro, onde os dias são tranquilos e as noites longas. Muitos restaurantes, muitas lojas e uma igreja de S. Francisco Xavier. Livrarias onde quero passar o dia, lojas de roupa onde me esforço por não entrar, resturantes onde apetece almoçar às onze da manhã. Resisto, e lá pela uma e meia ataco o primeiro bife chorizo no Minga. Primeiro de Buenos Aires, pois graças aos sempre bons préstimos do "El Último Tango", em Lisboa, este já é um corte de carne bem conhecido.
Recomposto, avaço para o bulício do centro onde hordas de locais e turistas criam tráfego humano nas ruas mais conhecidas e lojas boas alternam com quinquilharia imprestável, dirigida a turistas ingénuos e incautos. Paragem obrigatória na Plaza de Mayo, já sem as "madres de Mayo", consumidas que foram pelo tempo e exaustas da esperança de um dia saber o destino exacto do seus, certamente barbaramente apagados pela ditadura, por uma das muitas ditaduras que trucidaram gente como carne para hamburguer nestas terras da América do Sul.

18.11.08

Postal do Rio de Janeiro

Acolhido por um calor húmido que logo mostra uma nova realidade. Lembra Goa, mas sem aquele cheiro de especiarias tão único. O táxi faz o caminho apresentando-nos os presépios-favela, vestindo os morros com luzes de cor intensa. O mar está ali, por ali, invisível no escuro da noite.
Um dia chega para perder ideias feitas. Nunca me imaginaria a caminhar descontraidamente pelo meio do Rio à luz do dia. Ontem, eram duas da manhã e andava por entre as ruas quase vazias do Leblon numa caminhada serena. Loucura? Talvez, mas também a confiança de estar com neo-cariocas de origem lusitana. Estivesse só e nunca o faria, aterrorizado por relatos, por certo reais, de um Rio a ferro e fogo. Antes, o primeiro momento de sedução carioca por entre botecos do Leblon. Chope, chope, picanha de aperitivo, chope. Conversa a rolar com mesas vizinhas. A Ursula, alemã balzaquiana que acabou na nossa mesa e a trocar número de telefone, após me querer convencer a ficar no Rio e vir com ela para Buenos Aires daqui a uma semana. O portuguesinho odiável com a brasileira simpática, que se dizia nazi e tinha uma camisola do Benfica, rematando as tiradas a um estilo ainda pior do que "quem não é do Benfica não é bom pai de família". O argentino que jogava charme a meninas com idade para serem suas filhas. Habituava-me facilmente a esta vida de boémia descontraída com as palavras correr com chope. Ah! Era Domingo.

15.11.08

14.11.08

Antes das férias

Passagem inevitável pela Golegã. Não dispenso esse mergulho na ancestralidade marialva que durante um ano quase esquecemos que ainda existe. Os bigodes apontados ao céu, o confronto entre capotes alentejanos ou samarras e os mais “modernos” encerados. As senhoras bonitas de pele tisnada pelos ares do campo. O fumo denso e omnipresente das castanhas que transforma qualquer noite estrelada num céu londrino. Os cavalos como senhores plenos, assustando citadinos pouco habituados a vê-los em movimento. Tudo isto é a Golegã, mas nem tudo de isto é bom ou recomendável, por isso os meus regressos não se devem a nada de isto, mas à simples constatação que este continua a ser um ponto de encontro sólido com muitas pessoas que o destino fez que estivessem mais ausentes do dia a dia.

Estado do país

Deixo o país em gemadas e tomatadas. Confesso que prefiro os ovos em doces e os tomates em sopas alentejanas, mas, não fora o desperdício de alimentos em tempos de crise, acharia o protesto muito revigorante. O meu lado anarquista vem conquistando espaço e cada vez mais acho que a luta vai ter de ser feita nas ruas. Sugeria apenas que mudassem para balões de água, que assim não se deita comida à rua e o efeito é quase o mesmo.

13.11.08

Educações

O PS, que tanto pode querer dizer Partido Socialista como Pinto de Sousa, está a desenterrar do magma a herança de Guterres, nomeadamente a sua grande ideia para o país: a paixão pela educação. A julgar pela aclamação geral às políticas de Lurdes Rodrigues e Mariano Gago, reflectidas em recusas de avaliação ou demissão de reitores, a coisa vai pelo bom caminho e coroada de glória com bombardeamentos de ovos. Ao mesmo tempo, os Magalhães são entregues com tal fervor que alguém mal intencionado poderia pensar que estão a servir para mascarar um problema. Assim vai a paixão pela educação lusitana.

País virtual

Neste imaginário país, onde quase já falamos finlandês, há gente mal intencionada que se espanta com o facto de o primeiro-ministro achar normais as negociatas de Manuel Pinho e de Manuel Sebastião. Há mesmo pessoas que olham as coisas por um prisma deturpado, afinal foram negócios claríssimos e de uma transparência a toda a prova.

11.11.08

Estado do blog

Ausente. Causas? Muito trabalho, preparativos para as férias que se aproximam e escassez de tempo. Para me relembrar o pouco tempo que falta para ter tempo, aqui ficam a música de Piazzolla, as palavras de Horácio Ferrer e a voz de Milva, remetendo para um Buenos Aires cada vez mais próximo.

5.11.08

Coisas da bola

Jogo deprimente, futebol deplorável, magnífico resultado. Antes assim, até porque no campeonato vão sendo mais jogos deprimentes, futebol deplorável, resultados péssimos.

Coisas boas Obamização

Obama vai seguramente desiludir a esquerda que, embandeirando em arco, quase o equipara a Morales ou Chavez. O delírio leva-os a esquecer que a esquerda não existe nos EUA e que alguns dos partidos europeus da esquerda democrática seriam lá catalogados de perigosamente extremistas.

SMS

(recebido ontem após o jogo do Sporting)
Até a Barac Obama.

Coisas d’America

No início da campanha tinha por certo que, ganhasse quem ganhasse, o mundo e os EUA ganhariam muito em relação ao que agora têm. A entrada de Sarah Palin abalou essa minha convicção, em especial a partir do momento em que me lembrei que o vice-presidente substitui automaticamente o presidente caso este morra. Não porque deseje qualquer mal a McCain, até porque o tenho como pessoa estimável, mas a mera possibilidade de ter Sarah Palin a presidir aos EUA quase me tirava de imediato o sono. Assim sendo, fico contente com a vitória de Obama. No fundo não tenho nada que ficar contente, eu sou português e ele americano e o que me devia preocupar primeiro era o meu país. Sei no entanto da importância para o mundo dos EUA e prefiro ter aí alguém com bom senso e não uma senhora chegada do Alaska, quase de espingarda nas mãos, com algumas ideias capazes de arrepiar a mim e ao mundo.

Coisas boas da Obamização

A questão racial não é despicienda nestas eleições, a vitória de Obama pode ajudar a enterrar definitivamente um dos mais abomináveis defeitos da espécie humana - o racismo.

Coisas boas da Obamização

A racaille por esse mundo fora vai perder o seu demónio, Bush, e com isso muitas das suas razões de existir.

Coisas boas da Obamização

Soares irá falar muito menos vezes, por manifesta falta de motivo para destilar o seu ódio.

Coisas boas da Obamização

Ocorreu no mesmo dia em que o Sporting foi apurado para os oitavos de final da Liga dos Campeões.

Coisas boas da Obamização

Mostrar a gente pouco educada, como alguns que nos governam, que a boa educação afinal rende votos e que não é necessário insultar nem abundar em soberba para ganhar eleições.

4.11.08

Coisas do país

Neste imaginário país onde quase já falamos finlandês, o Estado é definitivamente uma pessoa de bem. Isto a propósito do debate de ontem sobre o terminal de contentores em Alcântara. Ficou claro que o negócio em causa é transparente e acima de quaisquer suspeitas. Ficou claro que a presença de Jorge Coelho na Mota Engil em nada terá contribuído para a aceleração do processo. Ficou claro que a ampliação do terminal é particularmente necessária neste período de prosperidade económica onde a pressão das necessidades de cargas sobre os portos atingiu níveis históricos. Ficou clara a democraticidade do processo e o importante papel da Câmara Municipal de Lisboa e do Parlamento na resolução do mesmo. Ficou claro que devíamos acabar com os Estudos de Impacto Ambiental pois custam dinheiro, trazem maçadas, e só são feitos depois das obras. Ficou claro que este foi um processo exemplar de como funciona bem a democracia portuguesa.

Para perceber a crise

Ninguém como os ingleses para explicar algo de forma clara, transparente e com algum, muito, sentido de humor. São oito minutos do melhor que há.

3.11.08

Coisas do país

Neste imaginário país onde quase já falamos finlandês, foi inaugurado este fim-de-semana o novo autódromo do Algarve. Vale a pena louvar esta grande obra que será, por certo, um ponto de partida para a recuperação da economia portuguesa. Basta olhar para a actual importância do autódromo do Estoril para perceber as enormes sinergias que farão deste um investimento pioneiro. Foi o primeiro Projecto de Interesse Nacional (PIN), e daqui podemos averiguar do interesse deste mecanismo que permite que as obras não parem e o desenvolvimento e o progresso não se detenham por minudências como RAN’s, REN’s, Estudos de Impacto Ambiental e outros.

Coisas do país

Neste imaginário país onde quase já falamos finlandês, um banco foi nacionalizado. Não, não é um lapso! Não, não voltámos ao PREC! Apenas a consequência de uma gestão danosa e fraudulenta. Dinheiros sujos, gente imunda e o contribuinte a pagar a recolha do lixo. A bem da coesão nacional o melhor é desde já arquivar qualquer processo de averiguação de responsabilidades, poupando-se assim o povo a achar que as culpas vão recair sobre alguém e poupando gente, como Dias Loureiro, a ser incomodada com minudências. Afinal, já que sabemos de antemão que não serão apurados culpados, o melhor é poupar dinheiro em investigar para depois encobrir.

Coisas do país

Neste imaginário país onde quase já falamos finlandês, graças aos préstimos inestimáveis dos responsáveis pela educação já caminhamos para o “chumbo zero”. Aplauda-se o esforço e empenho em acabar com o flagelo do chumbo, esse mal que nos minava a escola e o saber, aproximando-nos assim ainda mais da Europa moderna e desenvolvida. Bravo a Valter Lemos, esse sério e competente secretário de estado que pode hoje gritar “Yes, we can”, com o particular ênfase de quem fez algo que mais ninguém no mundo conseguiu até hoje: reduzir os chumbos a quase zero em apenas um ano. Bravo!

29.10.08

“Lisboa é das pessoas. Mais contentores não!”

Como a nossa democracia terá de ser cada vez mais exercida pela cidadania que foge do esclerosado quadro partidário, aqui vai mais uma petição a bem do país. Para quem não sabe do que se trata, ficam aqui excertos do texto que acompanha a mesma:

“A ampliação da capacidade do terminal de contentores de Alcântara que o Governo inoportunamente se propõe levar por diante implicará a criação de uma muralha com cerca de 1,5 quilómetros com 12 a 15 metros de altura entre a Cidade de Lisboa e o Rio Tejo.”

“A zona de Alcântara estará sujeita a obras durante um período previsto de 6 anos, impossibilitando assim a população de aceder ao rio pelas “Docas”, levando ao fecho de toda a actividade lúdica desta zona, pondo em risco 700 postos de trabalho.”

“Os terminais de contentores existentes nos portos de Portugal no final de 2006 tinham o dobro da capacidade necessária para satisfazer a procura do mercado.”
“A prorrogação da concessão do terminal de contentores de Alcântara até 2042 que o Governo pretende concretizar com o Decreto-Lei n.º 188/2008, de 23 de Setembro, e que prevê a triplicação da sua capacidade afigura-se assim completamente incompreensível, desnecessária, e inaceitável para mais sem concurso público.”

Convém acrescentar, por curiosidade, que a negociata foi feita com uma empresa que é propriedade da Mota-Engil, administrada pelo Sr. Jorge Coelho. São estas “facilidades” que levam a que os ex-políticos sejam caçados com mais rapidez e eficácia pelas empresas do que qualquer “mente brilhante” mesmo que aconselhada por uma empresa de “head-hunters”.

Para mais informações, consulte o sempre atento e já imprescindível blog "Cidadania LX".


Escritos d'outros

“Há uma porrada de dias que os jornais falam de Francisco Ribeiro, Clara Costa e Mário Peças, os “bons rapazes” que administravam a falida empresa municipal Gebalis (4,97 milhões de euros de prejuízo em 2006...), e que ao seu serviço se banquetearam pelo mundo fora em restaurantes fantásticos (gosto especialmente do Tragaluz de Barcelona, do Zuma, em Londres, e do clássico Gambrinus aqui de Lisboa...), dormindo nos melhores hotéis, viajando acompanhados e apresentando as facturas que eles próprios caucionavam...
Mas eu gostava de ver as caras deles. Gostava de os ouvir falar. Gostava de os ver sair de casa e ir à pastelaria ali da esquina. Gostava de saber os seus currículos, o que faziam antes e como foram parar à Gebalis – quem os convidou, quem concorreu a concursos ao lado deles, e o que fazem hoje em dia. Se são militantes dos partidos do costume. Se trabalham ainda para o Estado.
Os nomes deles nos jornais não me dizem nada se não vierem acompanhados de uma vida, uma biografia, um percurso. Quero perceber de onde sai esta gente que usa, abusa, esmifra, rouba, e depois desaparece sem deixar rasto. Ninguém mostra a cara deles? Só temos direito a ver os criminosos de vão de escada e os homicidas enlouquecidos pelo ciúme e traição?”

Estado do blog

Ausente. A sobreviver a custo à mudança de hora. Ansiando as férias que se aproximam.

24.10.08

Diálogos Imaginários

– E pronto, Charles, aí vem a neura.
– Mas, porquê, menino?
– Esta nova hora, esta coisa tenebrosa que se aproxima de ficar de noite a horas de tomar chá.
– Pois, este fim-de-semana chega a hora de Inverno.
– Não sei que faça, Charles, é nestas alturas que me apetece emigrar para os trópicos. Esta impertinência de nos condenarem ao escuro da noite deixa-me fora de mim.
– Tenha calma, menino, farei os possíveis para compensar essa descompensação.
– Obrigado, Charles, eu sei que posso contar consigo para superar esta fase difícil.

23.10.08

Coisas do tempo

Hoje melhorou, mas os meus cigarros de ontem quase me souberam a Skip sabão natural, com a força do vento e da chuva a tentarem transportar-me para dentro de uma máquina de lavar a roupa a céu aberto.

Estado das coisas

Mal vai um país onde se discute a possível candidatura de Santana à Câmara de Lisboa e se silencia o muro de contentores que se apresta a surgir em Alcântara, na primeira grande actuação de Jorge Coelho pela Mota Engil.

21.10.08

Coisas estranhas

Gostei de ouvir a entrevista de Manuela Ferreira Leite. Contra as expectativas parece que a senhora afinal tem ideias para o país. Boas ideias como gerar o desenvolvimento económico a partir das pequenas e médias empresas e não das obras públicas. Falou no fim deste desvairado ciclo de Keynesianismo. A continuar assim, ainda poderá fazer vencer a impossibilidade de olhar para o PSD como algo existente. Terá de nos convencer, de facto, da seriedade destas suas intenções, mas do nevoeiro parece querer sair algum brilho. Há dois dias não acreditaria nesse brilho, agora, admito que já fico à espera. Até porque do outro lado o breu é cada vez mais cerrado e esta coisa das questões meteorológicas sempre afectou os estados de alma.

Coisas de blogs II

Afinal o bom filho não tornou à casa, mas mudou de endereço. Depois de "cortar a fita", há que ler, como sempre.

20.10.08

Coisas de blogs

A preguiça impediu-me de retirar da coluna ao lado o link para o “Afinidades Efectivas”. Ainda bem. Digo ainda bem porque o seu autor o havia terminado mudando-se para outras paragens. Essas paragens foram efémeras e parece alguma intolerância levou à saída precipitada. Talvez agora o bom filho à casa torne.
A preguiça não me impediu de retirar agora o link para essoutro blog. Motivo? A saída dos três mais interessantes bloggers, mas, ainda mais do que isso, a revelação de que o blog se levava demasiado a sério, tão a sério que o levou a impor moderação a alguém cujas opiniões eram sobejamente conhecidas quando foi convidado para o blog. Quando tememos a presença de alguém em nossa casa podemos sempre evitar ter do o por na rua, basta não o convidar a entrar.

15.10.08

Rafaé

Porque o toureio pode ser perfeito. Porque é arte. Sublimada ao infinito. Rafael de Paula. Quadros e quadros de pintura impossível e imprevisível. Traços largos, elegantes e selvagens.
A música, de Rosana, é grande acompanhamento. Poderia ser melhor com uma Buleria tocada por Paco de Lucia e cantada por Camarón, mas nem sempre temos de ficar pelo óbvio, mesmo quando o óbvio é obviamente genial.

Coisas da vida boa

A nova temporada de “Erva”, na RTP2. Aquela mulher está cada vez mais deliciosamente chanfrada e o ex-mayor já fritou definitivamente os miolos.

Coisa do dia

Um amigo costuma dizer que “meia dose, meio homem”, depois do que se passou ontem espero que a mesma não seja transposta para “meio orçamento, meio país”.

10.10.08

Coisas de casamentos

Parece que há um problema à volta dos casamentos, no qual o PS demonstrou uma hipocrisia que devia ser capaz de fazer calar todos os que a este epíteto recorreram aquando da discussão sobre o aborto. Quanto às “gentes fracturantes”, ansiosas que estão por rebentar com uma ideia de sociedade que levou gerações a construir, tudo é motivo para indignação e demonstração da habitual superioridade moral. O problema resolvia-se de modo simples e eficaz, mas esse modo não era suficiente para calar os “fracturantes”, que, no fundo, não querem resolver problemas, mas apenas destruir uma sociedade com a qual não se querem identificar. Bastava dar outro nome à coisa – o que não seria difícil de encontrar pela vasta quantidade de “artistas fracturantes” – e toda a gente ficava satisfeita. A semântica tem muita importância e casamento é casamento, uma instituição destinada a duas pessoas de sexos diferentes. O resto são “bombas fracturantes” com objectivos fáceis de perceber.

Coisas extraordinárias

A vereadora da habitação da Câmara de Lisboa ainda está em funções. Alguém me poderá beliscar para eu acordar para o facto de que estamos em Portugal e não em Angola.

8.10.08

Coisas do país

Venho conseguindo não falar de política. Estou a cumprir com o que me prometi. Acho que é terapêutico não falar deste lodo. Tudo em redor prenuncia o pior. As coisas estão tão más que até a “Múmia de Belém” se atreveu, correndo riscos de rasgar as ligaduras, a falar e a alertar o país para não viver em ilusões. A coisa está tão ruim que até é capaz de fazer mexer as múmias.

Conservadorismos

Ouvi o MEC anteontem na TSF. Sempre que ouço o MEC percebo melhor porque sou conservador e o que de facto quer dizer conservador. Quando o tento explicar nem sempre consigo, quando ouço o MEC tudo parece fácil. O MEC é um dos grandes pensadores deste cinzento Portugal, para além dos poucos escritores que sobreviverá ao tempo e cujo português será estudado por certo daqui a muitos anos.

Coisas das crises

Será possível não ouvir falar da crise do Subprime? Esta coisa persegue-me e parece que o mundo todo gira à volta desta coisa de que todos falam mas que muito poucos realmente percebem. Eu não percebo nem quero perceber. Acho a economia uma ciência oculta ou nível da física quântica, com a agravante de que esta estuda coisas reais e a economia passou a ser, de há uns tempos para cá, uma coisa virtual. Para quem não quer entender o que são mercados de futuros e continua a achar a bolsa uma brincadeira onanista para gentes de adolescência mal resolvida que precisam destas coisas apesar de terem idade para ter juízo, tudo isto é um disparate. Não percebo nada e há muito que não compreendo como é possível o dinheiro continuar em multiplicação quando os investimentos são cada vez mais em inexistências e os sectores produtivos, de facto produtivos, vão sendo abandonados. Por algum motivo alguém como Joe Berardo me merece profundo desprezo pois nada construiu, em absoluto contraste, por exemplo, com Alfredo da Silva. A especulação é um brinquedo de adultos, entretidos neste éter que algum dia se irá evaporar. O problema não é estas gentes se evaporarem, o problema é levarem para o limbo muita gente inocente, apesar de ingénua, que caiu nas malhas dos bancos. Eu, assim como assim, nada devo aos bancos. É certo que não tenho casa própria, mas permito-me ao luxo de me marimbar para a Euribor e para os spreads. Por isso é que já não posso ouvir falar de Subprime de crises.

6.10.08

Coisas da República

Cumpriram-se ontem 99 anos sobre um miserável assassinato apregoado como salvador. Estude-se a história com imparcialidade e verificar-se-à que são muitos os motivos que temos para chorar. Surpreende-me que ainda haja quem insista em comemorar.

P.S. Ainda por cima ver o Sporting perder com o Porto e estar com uma difícil recuperação digestiva do último episódio da época de acasalamento, também é demais para um 5 de Outubro.

3.10.08

Grande animação



Genial, este filme animado de Walt Disney em que o Zé Carioca aparece pela primeira vez e é apresentado ao Pato Donald, apresentando-lhe de seguida o seu Rio. Fabulosa a introdução, o desenho, as cores. A grande animação em todo o seu esplendor, nos tempos em que os traços tinham mão humana e mais alma que o brilho perfeito dos computadores.

30.9.08

Diálogos Imaginários

– Charles! (voz rouca)
– Sim, menino.
– Estou péssimo.
– Então, menino?
– Esta coisa de achar que posso sair durante a semana acaba comigo.
– Já percebi, menino. Chá verde e torradas só com manteiga. Uma ou duas Águas das Pedras frescas a acompanhar. No fim dois cafés.
– Charles, o que seria da minha vida sem si? Provavelmente uma lenta agonia.

Coisas do Lux

Achei que tinha de ir nu. Coisa divertida isto de ir nu. O convite era giro, mas dúbio. Muito dúbio. Um jornal com frases soltas. Falava de sexo, nudez, corpos. Tinha um oráculo. Coisa moderna e bem feita. Mas dúbia. Na dúvida recorri a técnica já recorrente, usando a mala “Sport Billy” do meu carro para levar roupas alternativas. Passei lentamente pela porta e averiguei dos trajes. Alguma nudez, alguma sensualidade, alguma normalidade também. Optei pela normalidade. Até acharia graça estar numa festa em tronco nu, mas em Agosto, numa noite quente e com o mar em frente a bater na areia.
A noite foi longa, mais longa do seria aconselhável num dia de semana. Hoje o cenário matinal era dantesco, ao ponto de questionar a minha seriedade e pensar em simular uma gastroenterite que me permitisse passar o dia em casa no sofá. Assim não foi. Mas foi giro, animado, recheado de meninas de belas silhuetas realçadas por vestidos colantes. Também rapazes de tronco nu e uma ou outra drag-queen. Gente amiga e gentes conhecidas. Um festão bem frequentado e divertido. O problema é sempre o dia a seguir.

26.9.08

Coisas da vida

Estranho esta sexta-feira em que não tenho de me preocupar em confirmar se o fato está limpo e os sapatos engraxados. Estranho tanto que ainda não sei o que fazer durante o fim-de-semana. Esta pausa na época de acasalamento, que termina para a semana, deixou-me a escolha, algo a que já estou pouco habituado. O sol chama e a chuva prevista convida ao recolhimento. Balanço na dúvida. Balançarei até ao limite de ter de decidir. Bom é poder decidir, mas há dias que não foram feitos para isso, em que se deseja simplesmente não pensar e seguir conduzido por alguém ou algum desígnio.

25.9.08

Coisas nossas e do mundo

O resto do mundo discute o sistema financeiro, a crise americana e as consequências que daí advirão. Portugal discute o “casamento” dos homossexuais. Será que andam por aí a distribuir, em conjunto com os “Magalhães”, alguma substância alienante a que ainda não tive acesso?

23.9.08

Época de acasalamento

Sábado decorreu mais um capítulo deste meu romance. Mais um casamento. Noivos felizes e muita diversão. Quando a média etária dos convidados já não é baixa, ou seja, quando a geração dos noivos já tem mais de trinta, teme-se que tudo possa acabar cedo por entre conversas de trabalho, dos homens, e de fraldas e empregadas, das mulheres. Felizmente nem sempre é assim e foi com gosto que vi muitos amigos que julgava já vergados aos pesos da responsabilidade a beberem e dançarem como se o amanhã fosse uma miragem. Como sempre que juntos embarcamos em noites longas gerou-se um agradável fenómeno de alienação colectiva, sempre expresso em fotografias impublicáveis num blog, mas muito reveladoras da animação de todos. Satisfaz-me quando vejo que o tempo passa por nós, mas, nuns mais do que noutros, parece que vai deixando poucas, ou, nalguns casos, nenhumas, marcas
Domingo foi outra coisa. O pequeno-almoço tardio era um cenário de miséria onde os olhos dos presentes concorriam pelas maiores olheiras e as cabeças ameaçavam estalar como balões de água. Pela minha parte, e após deslocação até casa, permaneci o maior tempo possível na posição horizontal, numa tarde de intenso namoro com o meu sofá. Ele tinha saudades minhas e eu sentia a falta de passar mais tempo com ele. Acabou por ser uma tarde feliz a culminar mais um belíssimo capítulo.

16.9.08

Coisas da província II

O abaixo falado serão provinciano foi também recordado o indecritível Carlos Bastos, esse nome único da música portuguesa que ficará na história pelas suas extraordinárias versões fadistas de grandes clássicos da música. O álbum “All that fado” já me tinha sido dado a ouvir por um amigo e motivou intermináveis gargalhadas numa noite muito bem disposta. Para quem não conhece recomendo vivamente o "Hey Jude " e os seus trinados fadistas e o grandioso “Satisfaction”. Ouçam e digam se isto não é um mimo.


Coisas de província I

Num provinciano serão deste fim-de-semana, um fenómeno de alienação tomou conta da sala e quatro pessoas, insuspeitas de tendências revolucionárias, deram por si a cantar juntos músicas que fariam os seus progenitores terem súbitos e sucessivos ataques convulsivos. O “Zeca”, Adriano Correia de Oliveira, Sérgio Godinho, José Mário Branco, e uma série de outra comunagem, muitos dos quais, após um irremediável processo de aburguesamento, corarão hoje de vergonha de palavras escritas e cantadas na época. Naquele dia também nós as cantámos divertidos, até ao momento em que reparámos que a janela estava aberta e corríamos riscos inúmeros, entre a criação de um ajuntamento de saudosistas do LUAR, a passagem de amigos que pudessem cortar relações alegando insanidade, ou a estupefacção de jovens menos conhecedores das alarvidades que se cantaram nos tempos que se seguiram a Abril.

11.9.08

Nine eleven

Lembrar ou esquecer. Tentar esquecer para não viver refém do passado, lembrar para manter viva a imagem do que o homem é capaz, do que certos homens são capazes. Escolher com consistência a civilização contra a barbárie exige que a barbárie esteja presente, seja mensurável e nos deixe sem dúvida sobre o caminho a seguir. Pena que haja a palavra “mas”, que turva tanta e tanta gente, cega por ideais e incapaz de destrinçar a civilização da barbárie. Uma civilização pode não ser perfeita, mas é, ainda e sempre, melhor do que a barbárie.

9.9.08

Setembro

O verão dos outros tempos era largo e com muita praia, mas Setembro era o mês do campo, das quintas, das terras e casas de avós. Hoje, com grande pena minha, essa coisa dos três meses de férias mais não é que uma recordação ou um desejo em momentos de delírio. Restam assim os fins-de-semana para uns tempos de província a fazer lembrar as semanas de quinta a acompanhar as vindimas.
Um simpático convite de amigos levou-me até às agrestes terras da raia, onde me encontrei rodeado de granito em dias radiosos a contrariarem meteorologistas pessimistas. Além do convívio por casa e dos passeios pelas ruas íngremes e estreitas de Monsanto, não posso esquecer a noite de festa popular. Tinha saudades de um bom arraial popular, com bandas pimba e rifas, e minis perfeitamente geladas. O som é hoje menos roufenho e arranhado, sinal de que os tempos modernos vão chegado aos confins do país, mas a qualidade musical não defrauda. Entrando necessariamente no espírito, é uma delícia dançar animadamente êxitos de letras que rimam, com insistência, “paixão” com “coração” ou com “traição”, e com um acompanhamento musical em que a palavra instrumento é uma inexistência. Festa popular que se preze tem rifas e foi com grande animação que, guiados pelas senhoras, nos dirigimos à barraquinha. Havia uma certa falta de graça nos prémios, demasiado úteis, tendo sido sentida a falta de quadros com o menino a chorar, candeeiros em vidros fumados castanhos ou soutiens e combinações de colecções dos anos oitenta, mas nada que impedisse as senhoras de insistirem até se tornar difícil o transporte de todos os ganhos. Como o jantar havia sido belíssimo, não houve apetite para provar as bifanas, mas nunca é demais referir as minis, que, de tão perfeitamente geladas que estavam, eram a companhia insubstituível para uma noite tão bem passada.

P.S. Se já me apetecia ver o filme “Aquele querido mês de Agosto”, depois deste fim-de-semana ainda fiquei com mais vontade.

Coisas de verão

A minha praia da Figueira sempre foi a mesma, nos mesmos metros quadrados definidos pelos banheiros de sempre. Uma praia de caras que se conhecem de uma vida e que teimosamente repetem rituais e locais. Sem barulho da cidade, lá longe ao cimo do areal, o burburinho de conversas e crianças fez sempre desta praia, em Agosto, o prolongamento de um café de bairro ou de um clube, em que se torna difícil ler um livro sem recorrer ao iPod, sob interrupções constantes de gentes vetustas que temos de cumprimentar ou amigos ávidos de conversa e que não entendem os benefícios da leitura ou do sossego.
Há poucos anos cedi ao imobilismo que por lá se instala nos banhistas, mal habituados que estão a não precisar do carro para nada, e rumei a uma praia que me tinha sido muito elogiada pela falta de vento em dias de nortada, pela beleza natural, pelo sossego e pelo simpático bar. Gostei e fui repetindo ainda que timidamente, pois o estado de ressaca não é o mais convidativo para pegar numa carro e fazer um estrada de terra com precipício sobre o mar. O vento insistente foi-me ajudando a esta decisão e aos poucos dei por mim este ano a ir mais vezes para aí do que para a minha praia de sempre. Preocupei-me se estaria a perder as minhas raízes e a vender-me a modernices, problema que me afecta muito, até perceber que estava apenas a atingir um novo estado de banhista, o de banhista independente. Ao fim de anos a aceitar a postura de manada imóvel tão típica daquelas bandas, e em alguns casos agradável, consegui por fim seguir um caminho autónomo. Foi o meu ano de libertação banhista.

5.9.08

Foi bonita a festa, pá! - 1

Ver uma família de toureiros na praça – e a restante nas bancadas, por coincidência mesmo ao meu lado - dando o melhor de si no que melhor sabe fazer, perante um público reconhecido, foi de uma beleza difícil de descrever. Há um ano, aquando da alternativa de Manuel Ribeiro Teles Bastos, já assim havia sido. Campo Pequeno cheio, ambiente de festa, arte e emoção na arena. Na retina as presenças em praça do Mestre David, as lides de João Jr., o violino de João, a série de três compridos memoráveis de António, o palmo de Manuel, o final em família com os quatro Ribeiro Telles em praça.

Foi bonita a festa, pá! - 2

Ontem o cartel foi de “não há bilhetes”, perante a revoltante indignação dos poucos, mas barulhentos, manifestantes que se entretinham a insultar quem passava, com a impunidade típica destes grupúsculos. A corrida foi transmitida pela RTP, a TVI vem transmitindo várias corridas e a SIC transmitirá, numa iniciativa inédita, a próxima corrida do Campo Pequeno. Num tempo em que as televisões, particularmente as privadas, só transmitem o que tem audiência, muitas gente deveria começar a questionar se as toiradas são um fenómeno de minoria ou se são outras minorias que querem impor a sua ditadura tentando impedir as touradas.

4.9.08

Aposta do momento

Bomba de gasolina, agência bancária ou multibanco? Para amanhã temos a bomba de gasolina a pagar 2:1, a agência bancária a 4:1 e o multibanco a 3:1.

Coisas de verão

Apesar de querer pensar que ainda estou na “saison” e que as coisas importantes devem ficar para trás – suplantadas por preocupações como a escolha da esplanada para o copo de fim de tarde ou do destino para o fim-de-semana – ler os jornais pode despertar perigosamente as nossas consciências.

Coisas de verão

A última noite, o último copo, o último bolo, o banho de mar madrugador, o último dia de praia, o último banho, o último gelado. As despedidas tinham o seu ritual, os seus rituais. Cada momento era pretexto para evocar a partida, as várias partidas.

2.9.08

Coisas do verão

O início de Setembro já foi para mim de neura e tristeza, nos tempos em que meus pais gostavam da ideia de prolongar a estadia na Figueira para além do mês de Agosto. Passava assim dias de angústia à medida que toda a gente partia, deixando os espaços que habitava cada vez mais vazios, mais tristes com os dias mais curtos, mais frios com o vento mais frequente, mais agrestes com as marés vivas que chegavam. Setembro começava triste, à beira da neurose, nesses tempos em que a solidão não podia ser encarada como algo de bom.

Coisas do verão

O Agosto foi preguiçoso, com muito olhares vazios para o Moleskine, assim como quem olha para uma mulher pouco interessante com falta do necessário desejo para avançar. As folhas ficaram em branco e faltaram os escritos de verão de que tanto gosto. Talvez porque o calor só agora chega, acho que ainda voltarei às palavras nostálgicas que o verão me desperta. Sempre vou prolongando a imaginária sensação de férias e tornando o quotidiano mais leve, escapando assim às coisas sérias que se vão passando por este país e esse mundo fora.