13.2.09

(Novas) Causas Fracturantes - Poligamia

Um homem pode casar com uma mulher. Querem que uma mulher possa casar com outra, assim como dois homens entre eles. Passarei a reclamar o direito à poligamia. Acho que, no caso de ser aprovado o casamento homossexual, estaremos perante um caso de discriminação intolerável para com todos os muçulmanos, marialvas com amantes não assumidas e mulheres de ninfomania descontrolada.

P.S. Leia-se no Mar Salgado a história de Francisco, Rute e Renata.

Pedimos desculpa pela interrupção

No DN de hoje: “Plano Regional de Ordenamento do Território de Lisboa apenas previa para Alcochete um pólo de apoio ao Turismo de muito baixa densidade e uma vocação para a instalação de actividades de investigação ligadas ao estuário do Tejo. Foi aprovado um mês antes da decisão do Freeport.” Leia o resto aqui.
Pronto, já podemos falar da eutanásia, do casamento gay ou da “nova” licença de paternidade.

11.2.09

Súbita boa disposição

Hoje faz sol. O verde de Monsanto brilha em tonalidades escuras sob o céu de tímido azul claro. Abriu-se a luz sem a qual Lisboa é como uma feia espanhola sem a maquilhagem lhe dá salero que a torna bela.

Coisas que se fazem

A SIC resolveu mostrar a vida privada de Salazar numa versão que, ao que parece, transforma o senhor num frenético e empenhado conquistador. Até hoje, muitas particularidades foram apontadas ao Dr. António, agora fazer dele um Santana Lopes “avant la lettre” talvez seja manifestamente excessivo. Comento mas não vi a série, pois o simples facto de Salazar ser interpretado por Diogo Morgado retira qualquer hipótese de perder o meu tempo.

10.2.09

Postais atrasados

Veneza, 7 de Janeiro de 2009

Coisas fora de moda

Decência.

Palavras de outros

“Façamos de conta que nada aconteceu no Freeport. Que não houve invulgaridades no processo de licenciamento e que despachos ministeriais a três dias do fim de um governo são coisa normal. Que não houve tios e primos a falar para sobrinhas e sobrinhos e a referir montantes de milhões (contos, libras, euros?). Façamos de conta que a Universidade que licenciou José Sócrates não está fechada no meio de um caso de polícia com arguidos e tudo.
Façamos de conta que José Sócrates sabe mesmo falar Inglês. Façamos de conta que é de aceitar a tese do professor Freitas do Amaral de que, pelo que sabe, no Freeport está tudo bem e é em termos quid juris irrepreensível. Façamos de conta que aceitamos o mestrado em Gestão com que na mesma entrevista Freitas do Amaral distinguiu o primeiro-ministro e façamos de conta que não é absurdo colocá-lo numa das "melhores posições no Mundo" para enfrentar a crise devido aos prodígios académicos que Freitas do Amaral lhe reconheceu. Façamos de conta que, como o afirma o professor Correia de Campos, tudo isto não passa de uma invenção dos media. Façamos de conta que o "Magalhães" é a sério e que nunca houve alunos/figurantes contratados para encenar acções de propaganda do Governo sobre a educação. Façamos de conta que a OCDE se pronunciou sobre a educação em Portugal considerando-a do melhor que há no Mundo. Façamos de conta que Jorge Coelho nunca disse que "quem se mete com o PS leva". Façamos de conta que Augusto Santos Silva nunca disse que do que gostava mesmo era de "malhar na Direita" (acho que Klaus Barbie disse o mesmo da Esquerda). Façamos de conta que o director do Sol não declarou que teve pressões e ameaças de represálias económicas se publicasse reportagens sobre o Freeport. Façamos de conta que o ministro da Presidência Pedro Silva Pereira não me telefonou a tentar saber por "onde é que eu ia começar" a entrevista que lhe fiz sobre o Freeport e não me voltou a telefonar pouco antes da entrevista a dizer que queria ser tratado por ministro e sem confianças de natureza pessoal. Façamos de conta que Edmundo Pedro não está preocupado com a "falta de liberdade". E Manuel Alegre também. Façamos de conta que não é infinitamente ridículo e perverso comparar o Caso Freeport ao Caso Dreyfus. Façamos de conta que não aconteceu nada com o professor Charrua e que não houve indagações da Polícia antes de manifestações legais de professores. Façamos de conta que é normal a sequência de entrevistas do Ministério Público e são normais e de boa prática democrática as declarações do procurador-geral da República. Façamos de conta que não há SIS. Façamos de conta que o presidente da República não chamou o PGR sobre o Freeport e quando disse que isto era assunto de Estado não queria dizer nada disso. Façamos de conta que esta democracia está a funcionar e votemos. Votemos, já que temos a valsa começada, e o nada há-de acabar-se como todas as coisas. Votemos Chaves, Mugabe, Castro, Eduardo dos Santos, Kabila ou o que quer que seja. Votemos por unanimidade porque de facto não interessa. A continuar assim, é só a fazer de conta que votamos.”
Mário Crespo in “Jornal de Notícias”

9.2.09

L’angoisse

Chuva incessante, vento desagradável, algum frio, bastante trabalho.

Diálogos Imaginários

– Charles, preciso de algo que me tire da angústia deste Inverno intolerável.
– Com certeza, menino. O que acha de umas perdizes recheadas com foie para o jantar, acompanhadas por uma boa colheita de Vale Meão.
– Charles, só a ideia já está a melhorar a minha disposição. Acho que fico em estado de esquecer a ideia de ficar fechado em casa sem comunicar com ninguém. Vou ligar a umas amigas para tomar um chá.
– Menino, não esqueça que chegou a encomenda da Mariáge Fréres. Poderei fazer um Thé de Fête e uns scones.
– Magnífico, Charles, só você para transformar a minha penosa vida em algo imensamente agradável.

Coisas fora de moda

Honestidade.

5.2.09

Coisas que animam

Assistir ao Sporting a despachar, com traços de massacre, o F.C.Porto com uma belíssima cabazada.

Náusea

As intervenções de Augusto Santos Silva têm o condão de me fazer correr para o estojo dos remédios em busca de sais de fruto ou Kompensans.

Curiosidades

Não deixa de ser curioso que o primeiro-ministro fale em poderes ocultos. Logo ele que escolheu Rui Pereira, eminente membro da Maçonaria, para Ministro do Interior. Ao que consta, e que uma boa investigação poderia provar, os serviços secretos estão a ser subtilmente infiltrados por "irmãos". Afinal falamos de que poderes ocultos?

3.2.09

Estado de espírito

Até quinta-feira passada não acreditava que houvesse dinheiros envolvidos na actuação de Pinto de Sousa no processo “Porto Livre”.

“Lixívias & Detergentes”

Constou-me, por telefonema de um amigo, que o “Prós e Contras” de ontem era sobre o caso “Porto Livre”. Logo perguntei quais eram os convidados. A resposta deixou-me a pensar no nome do programa, que talvez devesse mudar para “Prós”, porque ter José Miguel Júdice no lado dos “Contras” só pode ser uma brincadeira. Claro que logo resolvi não ver.

Curiosidades

Segundo a sondagem de hoje, há 19% que acham que o primeiro-ministro se justificou bem. O senhor pode ser inocente, mas achar que se justificou bem parece coisa de fanática crença religiosa.

31.1.09

Ideias deste fim de semana

Ontem, depois da sua entevista a Manuela Moura Guedes, ponderou-se a criação do CFTJ, vulgo Clube de Fans do Tio Júlio. Foram angariados dois ou três membros fundadores, embevecidos com as deliciosas tiradas do tio de Zezito Pinto de Sousa.

Rima do momento

Ó Zezito já te tenho dito
que não é bonito
andares a enganar.
Ó Zezito já te tenho dito
que não é bonito
andares a enganar.

Chora agora
Zezito chora
que te vais embora
p'ra não mais voltar.

Chora agora
Zezito chora
que te vais embora
p'ra não mais voltar.

30.1.09

Coisas de fim de semana

O “Sol” sai amanhã. A que horas, e onde, será a comunicação oficial do primeiro-ministro.

Coisas que se aprendem

Parece que a polícia inglesa é pouco credível e movida pelos calendários eleitorais portugueses.

Coisas que se aprendem

A cabala anda por aí. Uma vez mais, o acossado PS está a ser vítima de uma cabala. Assim o disse o primeiro-ministro desde a sua residência oficial dirigindo-se aos jornalistas na sua comunicação “ao país”.

Coisas que se ouvem

(a passar despercebidas graças ao Freeport)
Dias Loureiro diz que alertou o vice-governador do Banco de Portugal, António Marta, para o modelo de gestão do BPN que o deixava “intranquilo” (apesar de se ter mantido como administrador). António Marta diz que Loureiro lhe teria perguntado o porquê de o BdP “fazer sistematicamente perguntas e inspecções ao BPN”. Curiosa contradição!

P.S. O vice-governador está disponível para uma acareação, que se aguarda com expectativa.

Rir é o melhor remédio

O panorama do país segue o Inverno rigoroso e pinta-se de cinza escuro, nos tons de um quadro paisagista inglês do século XIX. O clima induz à depressão, a Bergman, a um fecho em casa sem comunicação como exterior. Ou a fugir daqui para fora. Andava a ceder a esta má onda e a ficar amargo. Tomei a resolução de não me resignar e como perante a tragédia envolvente há que reagir, o melhor é começar a rir. Gargalhar com sonoridade perante o Freeport, o BPN ou o BPP. O melhor é rir, é mesmo o melhor remédio para não chorar.

27.1.09

Entrevista Omo (lava mais branco)

Ouvi 5 minutos. Não valia a pena ouvir mais. Pedro Silva Pereira tentou cumprir com empenho o confrangedor papel de branquear tudo o que se passou no Freeport. No tempo em que acompanhei a entrevista houve perguntas que se negou a responder por serem insultuosas. Já se percebe que a técnica de Pinto de Sousa vai ser a mesma da licenciatura: resposta sempre às mesmas coisas e indignação perante as perguntas que de facto é importante responder. No fim restará a confusão e a indignação, a opacidade e vitimização.

26.1.09

Comprimidos para a memória. Depressa!

Pinto de Sousa (a.k.a. Sócrates) não nega que o tio lhe tenha pedido uma reunião com os responsáveis do Freeport e que ela tenha ocorrido, apenas diz que não se lembra da mesma. Convém perceber se o tio lhe pedia reuniões com amigos com grande frequência, e é assim normal que não se lembre desta, ou se era um caso extraordinário e, tendo em conta que os factos se referem ao ano de 2002, o melhor é tomar algo para a memória, pois ter um primeiro-ministro com tanta falta dela é muito preocupante. Até se pode esquecer que vivemos num país livre e democrático e que o poder absoluto é coisa de outros tempos.

A real pergunta

Pinto de Sousa queixa-se de que o caso Freeport apenas aparece em anos de eleições. O que as pessoas atentas gostariam de saber é porque será que a investigação parou depois das eleições e só foi retomada a reboque da investigação inglesa. Esta, sim, é a questão que num país civilizado deveria ser respondida.

Jornalismos

O caso Freeport já é notícia no "Sol" há duas semanas. Apenas a TVI fez, ao longo deste tempo, algum eco dos factos. Foi preciso a persistência da investigação do "Sol", e a explosão de informação vinda de Inglaterra, para que os restantes media se referissem ao facto. Felícia Cabrita disse, em directo na TVI, que o "Sol" está a receber fortes pressões para parar a investigação. Assim vai a democracia e a liberdade neste país amordaçado.

22.1.09

Entusiasmos

Sobre a tomada de posse de Obama já tudo, ou quase tudo, se disse. Daquilo que vi, algo me impressionou em especial: as ruas estavam cheias de gente entusiasmada, cheias de gente (ainda) com esperança profunda na democracia. Com razão, ou sem, o tempo o dirá e fará o seu escrutínio.
Na Europa vivem-se tempos tristes e cinzentos e, ao olhar para o nosso país, tenho de recuar às presidenciais que opuseram Freitas a Soares, ou à primeira maioria absoluta de Cavaco, para me lembrar de um entusiasmo real com a democracia. Foi por isso o entusiasmo o que mais me marcou, e me fez entristecer, na tomada de posse de Obama.

21.1.09

Coisas Boas de Portugal

No meio destes tempos em que a tristeza teima em superar a habitual melancolia, é ainda mais agradável ser surpreendido. Apesar de o conhecer de nome, só recentemente ouvi a música de António Zambujo. Mais do que a descrever, deixo-a aqui para quem queira escutar. A música sempre teve o poder de nos reconciliar com o mundo.

20.1.09

Coisas da Vida

Habituamo-nos tanto à modernidade que uma quebra de luz a meio da noite no nosso bairro logo nos complica a vida. Pensava que isto da luz se ir fosse coisa de um passado nostálgico e provinciano, ontem verifiquei que não. Fiquei sem saber o que fazer, entre esperar e tentar dormir. Na dúvida dormi, acreditando que acordaria a meio da noite estremunhado com a chegada da luz, pensando que estava a ser visitado por simpáticos E.T.

19.1.09

Coisas da incompetência

O Sol apresenta uma notícia acerca da corrupção sobre um ministro do governo Guterres no casa Freeport que, a confirmar-se, é inquestionavelmente grave. O Dr. Miguel Cadilhe – goste-se, ou não, uma pessoa respeitável – traz novos e gravíssimos dados sobre o BPN. Os jornais e televisões fazem o que podem por esquecer os pormenores e ignorar os assuntos. Perante isto fica a certeza, há muito precedida de desconfiança, que o jornalismo em Portugal é coisa diferente de outros países. O que deve ser imparcialidade e independência é por cá trocado por sabujice e manifesta falta de competência – ou necessidades económicas, nunca saberemos. Que saudades de “O Independente”, com ele esta gente piaria tão mais fino.

Coisas do (des)governo

O mundo continua numa crise que não se sabe como acabará. Portugal caminha a passos apressados para um novo-riquismo terceiro-mundista, em que a pseudo modernidade esconde a pobreza. No meio disto, o senhor Pinto de Sousa descobriu o que fazia falta aos portugueses, aquilo que fazia mesmo falta, a saber, o casamento homossexual e a regionalização.

P.S. A escolha destas prioridades para a próxima legislatura percebe-se com a maior das facilidades, pois são dois temas tão polémicos que durante algum tempo o essencial não será discutido. À boa maneira do gente que nos governa.

15.1.09

Coisas de voltar ao trabalho

Ao acordar, olhar e sentir o dilúvio. Água abundante numa Lisboa com ar nórdico de inverno impenitente. Delírios acerca de um tele transporte para Veneza. Água por água, antes que circule em canais rodeados de uma beleza que nem a água consegue diminuir.

14.1.09

Coisas boas da Argentina antiga



"Vuelvo al Sur" - Música de Astor Piazzola com letra de Pino Solanas, cantada pelo incrível Roberto Goyeneche.
Esta é daquelas versões definitivas de uma música definitiva.

Vuelvo al Sur
Como se vuelve siempre al amor
Vuelvo a vos
Con mi deseo, con mi temor

Llevo el Sur
Como un destino del corazon
Soy del Sur
Como los aires del bandoneon

Sueño el Sur
Inmensa luna, cielo al reves
Busco el Sur
El tiempo abierto, y su despues

Quiero el Sur
Su buena gente, su dignidad
Siento el Sur
Como tu cuerpo en la intimidad

Vuelvo al Sur
Llego al sur
Te quiero

Coisas boas da Argentina moderna


Otros Aires - "Sin Rumbo"

Coisas boas de Itália

Os gelados da Castiglione. Segundo uma teoria que aprendi, os melhores gelados são italianos, os melhores gelados de Itália são os da Emilia-Romagna, os melhores dentro desta região são os de Bolonha e nesta cidade a melhor geladaria é a Castiglione. Os sabores exclusivos da casa são de rebentar a escala da gula.

Coisas que podem levar a emigrar

Este governo quer aumentar para 5 milhões a verba dispensada de concurso público. Melhor que isto só legalizar a corrupção. Aliás, talvez assim tudo fosse mais transparente e o estado perdesse menos dinheiro.

Coisas que podem levar a emigrar

O senhor Mário Lino, talvez depois de um almoço bem regado, enviou por e-mail o pedido de um calendário de inaugurações – exaustivo, metódico e eficiente – a empresas públicas, e outras com capitais públicos. Como diz o Dr. Jardim, é preciso correr com esta gente.

13.1.09

Coisas boas de Itália

Não ser possível, como por esta terra cada vez mais atrasada e deprimente, que o ego de arquitectos moderninhos se imponha com obras de ruptura ao património histórico. Isto também a propósito da notícia de que alguns monumentos portugueses património mundial poderiam perder a classificação da UNESCO.

Coisas boas de Itália

Tropeçar a meio do dia em mais um Veronese e passar por ele com muita displicência, como se de mais um razoável pintor de rua se tratasse.

Pensamento do ano

As minhas deambulações por terras estranhas, no final do passado ano, deixaram em mim presente uma inquietação cada vez mais forte: porque será que insisto em viver neste país?

Diálogos Imaginários

– Menino, bem-vindo seja. Como foi a sua passagem de ano?
– Excelente, Charles, pelas belas e magníficas terras de Itália.
– Com muito frio, suponho.
– Terrível, Charles, mas, perante tamanha beleza, bastante suportável.
– Irei arrumar quanto antes as suas bagagens.
– Charles, não imagina como agradeço, é que duas viagens seguidas, com a sua ausência para férias, deixaram tudo isto num caos infame.
– Não se preocupe, menino, tudo ficará no seu devido lugar.
– O que seria de mim sem si, Charles.
– É muito amável, menino.

6.1.09

Telegrama

Ainda ausente stop agora em Bolonha stop amanhã Veneza stop pouco tempo para posts stop muito frio stop viagem excelente stop até muito breve stop.

2.1.09

Começar o ano (ou Sócrates em Veneza)

O novo ano começou com chuva, mas o passeio estava agradável e a vista da Catedral de San Marco conferia certo ar de fábula. Um café para acordar no Lavenna, à saída do qual, na descontracção de um cigarro, um súbito flash. Parecia ele - e aproximava-se - decerto era ele - cada vez mais próximo - era mesmo ele, cruzando-se com a sua comitiva. Sai uma pessoa de Portugal para passear tranquila, apreciar cidades antigas, deambular sossegado pelo meio de um país estrangeiro e, de repente, dá de caras com o senhor José Sócrates Pinto de Sousa em plena Piazza di San Marco em Veneza. O ano havia começado tão bem, distante das misérias do nosso país, até tudo ser lembrado pela presença do senhor primeiro-ministro. Logo tinha de escolher o mesmo destino para passar o ano. Ainda vacilei, entre um cínico e educado "bom ano para si e para os portugueses", um violento aperto de pescoço, uma boca brejeira e ofensiva, ou o silêncio. Fiquei pelo último, apenas por ser o que menos me incomodava e menos me estragava o início de ano. Continuei a avistá-lo ,de casaco desportivo encarnado, falando ao telemóvel, entrando numa loja de souvenirs de vidro de Murano em saldo. Fui olhando sereno enquanto o cigarro terminava. Nada mais fiz, mas pelo que vi, tenho a intuição que valerá a pena comprar o Correio da Manhã de amanhã.

Passar o ano

Frio, neve a cair, uma praça irreal de bonita. Cidade imaginária. Prosecco na Piaza di San Marco. Veneza desejou-me um bom ano em todo a seu esplendor.

30.12.08

Desejos para 2009

Saúde e bom senso. Sei que é pedir muito, mas pedir ainda não custa nada.

Partir de novo

Este final de ano está a fazer incidir sobre mim um certo ódio por parte dos meus amigos. Compreendo-o bem, afinal no lugar deles apenas o espírito natalício me impediria de cortar relações. O caso é que depois da viagem por terras da América do Sul – que aqui foi sendo relatada e à qual voltarei – amanhã partirei de novo. Para bastante mais perto, pois ficarei por terras europeias, mas para destino há muito desejado e sempre adiado. O ano será passado, assim Deus o queira, na Praça de São Marcos, em Veneza, de garrafa de um qualquer vinho na mão. Sem programa que não seja este, a semana daí em diante estará em aberto. Apenas sei que dormirei num secreto e barato recanto que calha ser o armazém de um alfarrabista no centro da cidade. Como um amigo, exigente nestas coisas, foi obrigado a reconhecer, passar o ano em Veneza a dormir num alfarrabista tem o seu quê de muito chique.

Diálogos Imaginários

(Ao telefone)
– Charles!
– Menino, como está? Passou bem o Natal?
– Muito bem, Charles, apesar de a tua falta ter sido muito sentida por todos.
– Obrigado, menino, também estranhei não ter estado com a sua família, mas tive grande alegria em poder visitar a senhora minha mãe e a minha irmã.
– Como está tudo por Bath?
– Muito bem, menino, a senhora minha mãe está de excelente saúde e tenho aproveitado as longas férias com que me presenteou para passar tempo com ela.
– Charles, não precisas de agradecer, faz tempo que não tinhas férias.
– O menino parte amanhã para Itália. Quando irá voltar?
– Na próxima quinta-feira. Espero poder contar contigo para a chegada, é que fazer malas custa muito, mas desfazer sem a tua presença é um verdadeiro inferno.
– Não se preocupe, menino, regresso na terça-feira, a tempo de organizar a casa devidamente.
– Excelente, Charles. Entretanto deixa-me desejar um feliz ano novo e dar os cumprimentos à tua família.
– Muito obrigado, menino, serão entregues. Espero que tenha uma excelente viagem e que o próximo ano seja magnífico, para o menino e para toda a sua família.
– Muito obrigado, Charles. Até para o ano.
– Até para o ano, menino.

23.12.08

Horas de Natal – 01.00h

Gilles Peress, 2003, “Christmas in New York” – Magnum Photos

A música absorvia as possíveis conversas na pista de dança. Uma centena de corpos gingava ao som de batidas impessoais e vibrantes. Junto ao bar outros tantos olhavam em volta virando copos a ritmo muito apreciável. Alguns tristes barretes de Pai Natal lembravam o dia que quase todos queriam esquecer. Não era suposto o Natal passar por aqui, por este refúgio habitual de quem quer fugir de tudo o que tenha a ver com Natal. Os olhares começavam a esvaziar-se, a focarem-se em criaturas do sexo oposto, a desmascarar a real intenção dos presentes: companhia e sexo fácil que conseguisse ofuscar a solidão desesperada. O Natal nada significa para os presentes, mas ouvir falar tanto em família e amigos leva o mais empedernido solitário a precisar de alguém, nem que seja para umas horas de tensão carnal e prazer. Todos estavam ao mesmo e quase todos o iriam conseguir, a música e as bebidas eram apenas pretextos, o que ninguém queria era voltar para casa sozinho.

Gilles Peress, 2003, “Christmas in New York” – Magnum Photos

Horas de Natal – 23.45h

Gilles Peress, 2003, New York City – Magnum Photos

– Corre, Isabel, já estamos atrasados para a missa.
– Oh, Carlos, não posso voar! Infelizmente não me deste uma vassoura de presente.
– Muito engraçada, sim senhor, o vinho do Porto a fazer o seu efeito.
– Não digas disparates, este ano correu tudo tão bem, até parece que a tua família se habituou à minha loucura.
– Disparate, sempre gostaram de ti.
– Mais ou menos, mas também é difícil gostar do que não se conhece.
– Pronto, vá lá, entra no carro.
– Já estou, podes arrancar.
As ruas estavam desertas e as janelas iluminadas faziam a cidade parecer um vasto presépio. O carro seguia com calma e conversavam calorosamente até passar no Martim Moniz. Junto a um centro comercial um pequeno aglomerado de gente chamou-lhes a atenção. Silhuetas de tristeza dispunham-se em redor de uma carrinha branca que contrastava com as paredes sujas do edifício. O carro parou e Isabel olhou admirada para Carlos.
– Porque estás a parar?
– Está ali o meu primo Luís.
Isabel voltou a cara e viu o primo junto à carrinha a distribuir copos de uma qualquer bebida quente. Sem uma palavra, Carlos saiu do carro logo seguido por Isabel. O sobretudo, a gravata e o casaco de peles de Isabel eram imagem de um erro de casting que poderia ser ofensivo para os pobres mutantes. Isto, caso Luís não se tivesse dado conta da sua presença e se dirigisse a eles antes de qualquer reacção. Trazia um sorriso enorme e um brilho nos olhos que lhe eram estranhos.
– Olá meninos, o que fazem por aqui?
– Estávamos a caminho da missa quando olhei e te reconheci. – respondeu Carlos – Mas eu é que devia perguntar o que fazes aqui. Julguei-te em casa dos teus pais, aliás, conto passar por lá a seguir à missa.
– Julguei que soubesses, este ano resolvi viver um Natal diferente. Faz tempo que queria fazer algo de útil nesta época tão especial e depois de conhecer este grupo de apoio aos sem-abrigo dei-me como voluntário para os acompanhar na noite de Natal. No início levei um soco no estômago com as histórias que fui ouvindo, mas depois percebi a importância para esta gente de, neste dia que é da família e dos amigos, terem alguém que se tenha lembrado deles e que esteja ali para uma palavra de conforto. Está a ser, sem dúvida, o melhor Natal da minha vida.
– Meninos, olhem as horas, vão para a missa e talvez nos encontremos depois lá em casa. Ainda não sei bem até que horas vou ficar.
Cumprimentaram-se com desejos de continuação de um “Bom Natal” e Carlos e Isabel dirigiram-se para o carro.
Até chegarem à igreja não trocaram uma palavra ou um olhar.

Horas de Natal – 23.00h

Raymond Depardon, 1982, Central Park, New York City – Magnum Photos

O comando da televisão volta a emergir da manta. O velho aquecedor não é suficiente para que a sala se torne confortável. Mais uma mudança da canal, fugindo de uma passagem já decorada da “Música no Coração”. A noite passa a ser arrastada como tantas outras em que a indiferença perante o mundo é a arma usada contra a solidão. A fome chega e o jantar pré-cozinhado, comprado no supermercado em frente, é uma fugaz lembrança. A preguiça, a mesma preguiça dos muitos dias arrastados, faz passar mais uns minutos até que a vontade ganhe e consiga provocar a deslocação até ao frigorífico. Não será de grande sucesso a demanda, mas pelo menos um pacote de leite aberto restará no deserto branco e gelado. As mãos voltarão ao resguardo da manta, após largar o comando que deixou imagens de variedades italianas aparentemente paradas no tempo.

Horas de Natal – 22.00h

Gilles Peress, 2003, “Christmas in New York” – Magnum Photos

A gritaria era imensa, entre discussões de adultos e guinchos de crianças menos civilizadas. Olhou, tentando perceber como se estavam a portar os seus. Fazia o possível para que não contribuíssem para o caos reinante, quanto menos crianças descontroladas, menos insuportável se tornava o ambiente. Sabia ser o último ano que passaria nesta calorosa confusão que era a família da Ana, hoje também a sua segunda família. Pensou nos pais e na irmã, por certo em redor da braseira da sua casa mãe na província. Para o ano estaria por lá, regressaria ao consolo único da família real, da que o conhece e reconhece tal qual é, o seu apoio perene ao longo da vida. Como seria com as crianças, como explicar-lhes que iam ter um Natal amputado de um dos pais, ou que se teriam de dividir pelos dois?
Reparou que estava recolhido a um canto e que os cunhados o olhavam com alguma estranheza. Resolveu juntar-se à confusão, afinal tinha combinado com a Ana que este Natal seria de normalidade e que não estragariam o espírito natalício a ninguém. As discussões ficaram com eles, as agressões verbais que não tinham querido fazer foram esquecidas por momentos em respeito aos outros. No início do ano oficializariam tudo com calma, sem sobressaltos, com o cuidado possível para que os filhos não sofressem, os mesmos filhos que os vinham levando a arrastar uma fachada oca há alguns anos. Esperava que os compreendessem, que aceitassem que lhes era impossível continuar a viver juntos, que seriam todos mais felizes assim. Claro que não perceberiam, por isso a tristeza foi atirada para depois do Natal, pelo menos que até ao fim do ano ainda acreditassem que o seu Pai Natal era ainda um casal e não duas pessoas incapazes de se encararem com verdade.

Horas de Natal – 20.00h

Gilles Peress, 2003, “Christmas in New York” – Magnum Photos

A pequena casa estava quente e acolhedora, humilde como sempre foi, lar de gente pobre. O refogado indiscreto pairava no ar muito para além da cozinha. Ana aprendeu cedo que não é essencial dinheiro para comer bem, ensinou-o sua avó na pequena casa, no Alentejo, onde sempre morou. O talento evoluiu e hoje consegue de pão duro ou restos de carne fazer pratos deliciosos. O Natal merece mesmo assim mais, por isso há alguns anos que decidira, com o marido e os filhos, que este era dia de comer ainda melhor, mesmo que com isso deixasse de haver presentes bons. O Natal era a festa deles os quatro, sentados em redor da mesa a comer bem ao longo das várias horas que antecediam a Missa do Galo, e nas seguintes com o chocolate quente e as filhoses. Os presentes existiam, mas era proibido comprar fosse o que fosse já feito, pois cada um fazia os presentes que dava. Eram simples símbolos da amizade que, ainda para além dos laços familiares, os ligava. O dinheiro não esticava e preferiam aplicá-lo num bom peru e no vinho do Porto. O prodígio tinha sido conseguirem que os filhos, hoje com catorze e dezasseis anos, sempre tenham entendido o que para eles era a essência do Natal – a festa mãe da sua religião e o dia da sua família.

22.12.08

Horas de Natal: 19.00

Stuart Franklin, 1998, Londres

Fechou a loja às sete em ponto, pensando como iria ter tempo para fazer o jantar. Este ano não poderia ir à terra para junto da família. Novo emprego e uma conta bancária a aproximar-se com perigo do zero. Hoje teve de ficar mesmo até ao fim, a patroa decretou que queria a loja aberta até ao mais tarde possível e escolheu os mais novos para a tarefa de fechar.
Agora ainda lhe resta o inferno dos transportes públicos até Massamá. Felizmente estarão vazios e serão mais rápidos do que o habitual, já que quase toda a gente está em casa entre embrulhos de última hora e preparativos na cozinha.
Tentou lembrar-se do que poderia pedir ao marido e ao filho para irem fazendo, mas, para além de por a mesa, de nada se lembrava. A total inépcia e recusa determinada em entrar na cozinha eram características dos homens da casa. Bruno já deveria estar no sofá em pantufas e com uma cerveja à mão, o Sérgio devia estar, já há horas, em frente ao computador. Este ano foi difícil e sentiu uma enorme falta do jantar de peru em casa dos pais. Frango assado com arroz e uns coscorões de sobremesa será o que a espera. Os doces feitos na véspera em mais uma noite mal dormida, o resto para fazer quando chegar a casa. Sérgio vai sentir a falta dos presentes habituais, mas este ano era impossível a mais vaga excentricidade. Um par de meias para o pai e outro para o filho e uma noite calma com a companhia da televisão, mais uma noite como tantas outras.

Santo Natal

"Natividade", El Greco

Sejam tempos fáceis ou difíceis, o Natal será sempre símbolo de tranquilidade e paz, de esperança em muitos Natais.
Santo Natal a todos.

Natal Azul!

A ausência fez com que o Natal só lentamente mostrasse a sua proximidade. O passeio por algumas ruas do centro de Lisboa agravou uma sensação que já vem de alguns anos: será que a cor do Natal vai mudar para azul? Verde dos pinheiros, dos abetos, de todas as árvores de todos os natais. Encarnado das bagas de azevinho, das romãs descascadas, do Pai Natal. Branco da pureza do Jesus nascido, da neve que abundante cai em muitos sítios. Azul?
Há alguns anos que as iluminações de Natal são dominadas por um modernaço e incompreensível azul. A baixa vista do ar deve parecer que foi inundada por um rio transbordante. Como se não chegasse e o senhor António Costa resolveu entregar o Marquês e o Terreiro do Paço a uma companhia de telemóveis cuja cor é…azul. Lamento muito, mas este não é o meu Natal. O meu Natal não é azul. Verde, sim, encarnado, também, branco, com certeza, azul, não me parece. Deixem-se de modernices.

19.12.08

Visual de Natal

Tempos de Natal levam a novo estilo neste blog. Regressa o fundo preto, o de sempre não fora a vontade esporádica de mudança. Vinicius dizia que as mulheres gostam sempre de voltar, eu diria que não são só as mulheres.

18.12.08

Estátua ao Sousa

No seu desmedido esforço por melhorar as finanças do país, este governo resolveu facilitar a alienação de património por parte do estado. Património histórico, diga-se. Não me parece mal visto, enquanto se enterra dinheiro público em bancos falidos por gestores fora-da-lei, abre-se porta para recuperar esse dinheiro com a venda de património, muito provavelmente a ex-gestores desses mesmos bancos. Alguém se espantará se Dias Loureiro vier a comprar a Torre de Belém para adaptar a residência, ou a PRISA de Pina Moura o Mosteiro dos Jerónimos para sede da empresa, ou a Mota Engil de Jorge Coelho o Museu Nacional de Arte Antiga para centro controlador dos contentores de Alcântara. Já tudo parece possível, a bem da “economia”.

17.12.08

Nostalgias recentes

Tango. Modo de repetição. Clássico e electrónico. Gardel e Yira, Goyeneche e Tanghetto, Adriana Varela e Hugo Díaz. Deixo para ouvir, e ver, “Percanta”, do grupo “Otros Aires”, em videoclip não oficial gravado em Lisboa.

E Lisboa chora!

António Costa de um lado, Santana Lopes do outro. Palavras para quê! Resta a esperança em Helena Roseta.

Renovação e credibilidade

O novo e credível PSD, dos credíveis Manuela Ferreira Leite, Pacheco Pereira e António Borges, escolheu Santana Lopes como candidato à Câmara de Lisboa. Só falta mesmo aceitarem Isaltino em Oeiras e Valentim em Gondomar.

16.12.08

Coisas que dão vontade de emigrar

O senhor Pinto de Sousa achou importante, seguindo o espírito natalício, presentear as finanças do Estado com um suplemento monetário. Vai daí e desencantou uma declaração anual de IVA que os trabalhadores a recibos verdes deviam entregar. Ontem, dias depois de tomar esta medida, discursava pelo Simplex e pela necessidade de diminuir as complexidades administrativas. A declaração anual em causa é da mais pura redundância pois apenas serve para juntar informação que os contribuintes já haviam declarado mensal ou trimestralmente. Acresce que os trabalhadores a recibos verdes desconheciam totalmente a existência da dita declaração. Isto a propósito da cartinha que recebi e que me queria extorquir 125€ pela declaração respeitante a 2006 e que, segundo informação da minha repartição, seria seguida por outra respeitante a 2007. Poderemos, com mesma falta de pudor de Pinto de Sousa, falar em roubo. Descarado e intolerável. Imoral. Acredito que seja necessário encontrar dinheiro para injectar no BPN e no BPP, mas poderiam tentar encontrá-lo sem recorrer ao roubo, pelo menos a um roubo tão indigno. Que Pinto de Sousa mente, já ninguém duvida, mas que tenha dado início ao um saque directo e sem vergonha aos contribuintes, isso sim é notícia.

P.S. O governo recuou, o que é uma pena. Salvo assim as minhas actuais finanças, é certo, mas perde-se a oportunidade de ver as gentes saírem de uma vez por todas para a rua em sérios protestos contra quem por aí diz que governa o país. A coisa não vai por bom caminho quando um conservador começa a ter ideias fortemente revolucionárias. Porque é que não me deixei ficar no Rio de Janeiro?

15.12.08

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Penoso regresso de viagem. Apetece fazer birra de criança malcriada para voltar a sair. Os postais atrasados continuam à espera de chegar a este blog, assim como os enviados desde a Patagónia e que os correios argentinos e portugueses retêm por motivos insondáveis, por certo nada relacionados com as inocentes palavras escritas à família. Vem faltando a paciência de organizar papéis, escritos e fotografias, talvez por querer perpetuar a viagem no tempo, pelo menos até ao Natal que já se anuncia.

9.12.08

Postal de Lisboa

Regresso com frio. Voltar é sempre bom, mas difícil quando se passou tão bem fora. Há dois dias apanhava sol e tomava banhos de mar, hoje precisei de me enchouriçar para suportar o vento gelado de Lisboa. Coisas da aclimatação. Ficaram postais por mandar, como tantas vezes. Alguns chegarão com o atraso costumeiro dos correios, mesmo que enviados por internet.

5.12.08

Postal do Rio

Depois da favela, a subida de bonde a Santa Teresa. A viagem ameaça não parar em programas radicais. Este bairro é uma delícia de situação e arquitectura, com belos edifícios, muitos decadentes, e uma população vagamente excêntrica. Artistas e gentes de piercings e tatuagens convivem em boémia. Magnífica e poderosa feijoada à brasileira de almoço a obrigar a uma subida a pé. Ah! Faltava falar da parte radical, é que a subida é feita num eléctrico que passa em cima do aqueduto da Lapa e...não havia lugar. Ah! E tenho vertigens. Pois, a viagem foi feita pendurado de fora do bonde e nos instantes iniciais temi que não voltasse a poder abrir as mãos. No fim, uma vez mais, a satisfação de uma viagem deliciosa apesar de radical. "O Rio de Janeiro continua lindo".

4.12.08

Postal do Rio

Os contrastes de passar, no espaço de dois dias, de Ushuaia a Buenos Aires e depois para o Rio de Janeiro, baralha ambientações térmicas. O Rio recebeu-me com um sol inclemente e humidade no ar, suficiente para a praia ser um destino incontornável. A Prainha, afastada do centro, é um oásis de tranquilidade numa cidade buliciosa. Alguns surfistas e uma paisagem dominada pela natureza apenas quebrada por dois botecos. Calor e pele ainda clara a obrigar a cremes potentes e refúgios na sombra. A água gelada faz lembrar as praias do norte de Portugal, desmentindo mitos de água quente no Brasil. Manhã tranquila, o que não se pode dizer da tarde.
Destino Favela, Rocinha. Chegada de táxi a São Conrado onde é suposto apanharmos um moto-boy, motas que transportam passageiros na favela, que nos "suba" até ao boteco do Belo. Distribuímos o grupo - sim, porque aqui no Rio deixei de viajar sozinho - pelas motas e aí vamos. Desporto radical seria um eufemismo para descrever a inacreditável experiência de "trepar" pela favela de moto, com trânsito intenso na estreita rua de curvas em cotovelo, ocupada por autocarros, vans, carros e um enxame de outros moto-boy. Sempre em velocidade, ultrapassando o que aparecia à frente, curvas quase deitados, tangente a tudo o que mexe e não mexe, e em redor a favela. Demasiados momentos em que me julguei esborrachado no chão, no mínimo de joelhos esfolados. Nada aconselhável a cardíacos, nem a medrosos, nem a quase ninguém, embora no final, já com os pés na terra, a sensação seja magnífica e se possa usufruir da experência com a segurança possível de estar no meio da maior favela do Rio. Passado o transe da viagem um olhar para o lado e uma vista alucinante. O Rio aos meus pés, o casario da favela a descer agarrado à encosta íngreme. Ao fundo os prédios, depois o mar, ao lado outros morros. O verde da floresta atlântica que surge pujante no meio da cidade. A favela é favela, mas a vista daqui é de luxo. Caminhamos um pouco rua acima até ao boteco do Belo, se é que isso se pode chamar à garagem com bar, uma mesa de snooker com dificuldade em se manter de pé e duas máquinas de jogos electrónicos. Tomamos um chope e subimos ao cimo do edifício incompleto em cimento para um vista ainda mais abrangente. Muitas fotografias tiradas em plena favela, com uma descontracção que não imaginava possível. Favela é local onde nunca esperei entrar, experiência única e provavelmente irrepetível, no entanto não aconselhável a grande parte das pessoas que conheço.

1.12.08

Postal do Fim do Mundo

Após ter estado em Buenos Aires parecia que o tango se tinha ido, que essa tradicao nao chegara ao sul. Nada mais falso, o melhor tango que ouvi foi numa noite em Ushuaia, no Ramos Generales. Acompanhado por cerveja "Cape Horn", foi deleite ouvir um trio - bandonéon, violino e piano - tocar bem um reportório de óptimo gosto, alternando tangos antigos com temas de Piazzola. Foi o melhor tango que ouvi e soou com tanto exotismo aqui em Ushuaia - apesar desta fazer parte da Argentina - como soaria flamenco nos Acores.
Aproveito a deixa. Será um disparate meu, mas o que mais consigo aproximar da Terra do Fogo sao os nossos Acores. A paisagem nao é parecida, apesar de haver montanhas, escarpas, verde e mar. Há uma poesia da distância, uma melancolia, a coragem de viver no isolamento. Da porta do "Ramos Generales", fumando um cigarro, olho o porto, o canal e as montanhas ao fundo. Recordo o gin tónico do Peter's, a marina da Horta, o canal, o Pico ao fundo. Sei que nada tem que ver, mas terei para mim que sim. Assim como a baía Lapataia me lembra as lagoas da Flores. Os Acores sao o nosso fim, este é o fim do mundo todo. Insistirei nesta semelhanca. Manias minhas.

Postal do Fim do Mundo

O sítio era acolhedor e resolvi que era ali que ia provar o cordeiro fuegino (de Terra do Fogo). Pedi de imediato uma deliciosa Beagle, cerveja artesanal da zona, e quase nao contive o espanto de encontrar entre as receitas de cordeiro uma "à portuguesa". Até no fim do mundo está Portugal, nos cordeiros e nos três portugueses, pouco simpáticos, que encontrei no Cerro Marcial.

Postal do Fim do Mundo

Lobos marinhos, Pinguins, Cormoranes, aves e aves diversas como condores e albatrozes. O canal atrai fauna diversa e nao escondo que senti alguma emocao ao ver pinguins no seu habitat natural. Pequenos, Magalhânicos, andavam no seu passo meio desengoncado pelas margens da ilha, mergulhando ocasionalmente no mar. Ali mesmo ao lado, o suficiente para haver vontade de trazer um comigo, nao fora isso uma intolerável crueldade.

Postal do Fim do Mundo

(Ainda antes de Ushuaia)
Voo sobre o Estreito de Magalhaes, esse caminho encontrado pelo genial português para passar do Atlântico ao Pacífico sem ter de dobrar o temível Cabo Horn. Impressiona agora mais perceber como naquela época foi possível chegar onde ainda hoje é tao distante. Em que pensariam quando depois de dias imensos de viagens chegassem aqui e por este estreito ousassem entrar? Grande homem esse Magalhaes, independentemente de muito ter feito ao servico de Espanha.
A vista sobre os Andes é poderosa, mostrando um vasto campo de montanhas, neve e nuvens. Um aparente preto e branco, apenas quebrado por manchas verdes em zonas mais baixas. A aproximacao pelo ar a Ushuaia é espectacular, o aviao a sobrevoar a baixa altitude o Canal Beagle com mudancas bruscas de direccao que, nao fora a beleza da paisagem, semeariam com facilidade o panico nos passageiros.

P.S. Faltam acentos, mas estes teclados estranhos nao perdoam.

30.11.08

Postal do Fim do Mundo

No alto do Cerro Marcial tenho a baía de Ushuaia aos meus pés, o canal Beagle em direcção ao Atlântico. Em frente as montanhas ainda nevadas da Isla Navarino. Atrás o gelo. A terra acaba ali, mesmo à minha frente, antes de dar lugar ao gelo. O fim. Ou o princípio. As águas azul cinzento do canal insistem em dizer que sim, que este é o fim do mundo. Já o encontrei, já cá estive, já o vi, já o vivi. A terra tem fim. Sopra vento e chegam nuvens. Permaneço no topo do Cerro Marcial. Não há mais para além do que vejo. Sobe e desde gente talvez pensando o mesmo que eu, cansados da caminhada, persistindo na subida para mais com a vista abarcar. Este é o fim. Ou o princípio.
"Roubo" algumas palavras escritas por Francisco José Viegas, em texto publicado na revista "Volta ao Mundo": "Sei que existe a terra toda, agora que cheguei ao seu limite", "Sei, agora, que a terra existe, a terra toda, poeira e cinza, verde e azul".

28.11.08

Postal da Patagónia

Deixo a Patagónia ou, como Chatwin, sigo para sul com a ideia de uma Patagónia até ao fim da Terra do Fogo, até ao fim do mundo. Mais do que uma região ou terra, a Patagónia é território de mitos fundados na distância e na imensidão. Destino final de aventureiros e viajantes, "aquele" sítio de fuga e de real abstracção. Talvez fosse esta a palavra que me escapava e que buscava, mais do que imensidão, infinito ou vastidão, a Patagónia é abstracção. Por isso Chatwin, o recorrente, criou um "Na Patagónia" cubista feito de fragmentos, de um não diário e uma não história. O abstracto nesta tela de infinito, quadros fractais e textos aparentemente desconexos, apenas ligados pela abstracção e por um pedaço de pele pré-histórica.

Postal

Isto do Sporting ser humilhado em Alvalade não me parece bem. Desabafo à distância, na terra do Messi que infelizamente joga no Barcelona.

Postal da Patagónia

(Ainda de El Chaltén)
Rajadas deixam cortinas de pó nas estradas de cascalho. El Chaltén é fim de mundo, mais um, nesta região toda ela tão no fim de tudo. Sensação de fim. Uma rua pequena com casas dos dois lados. Não passam carros e os que estão parados não parecem capazes de grandes movimentos. Só passam autocarros trazendo e levando gente. O resto são caminhantes de mochila âs costas sem aparente destino, como se o seu destino fosse o fim. O sol brilha, hoje, mas o inverno será aqui duro, insano. Escrevo depois de dois deliciosos waffles com doce de Calafate e um mate. Foram dois por controle que impediu de serem quatro, seis ou oito. Olhando pela janela escuto a música de Joaquin Sabina que me leva a um limbo esntre Salamanca e El Chaltén. Coisas deste mundo global em que na mesa ao lado se fala em alemão.
Outrora destino de aventureiros e viajantes excêntricos, hoje destino dos "novos viajantes" de sapatos Timberland, roupa com gore-tex e luvas polares. Japoneses, americanos, alemães. Mochileiros não demasiado jovens. Local de romagem mítica em busca de santuários nos quais se estabelece uma relação quase religiosa com a natureza, acreditando, ou não, num criador supremo da mesma. Busca de espaço e largura, de si mesmos, de uma dimensão de ar e terra cada vez mais difícil de encontrar.

Postal da Patagónia

(Ainda de El Chaltén)
O vento está deveras patagónico. Rajadas que fazem o bosque falar. Sim, o bosque fala pelos troncos que rangem e pelas folhas que abanam. Usando uma democrática linguagem que deixa a sua compreensão ao critério de cada um independentemente da sua origem. Não estou com isto a entrar numa fase Floribela e a falar com as árvores, nem sequer enlouqueci, mas lá que falava, falava.

Postal da Patagónia

(Ainda de El Chaltén)
Caminhada pela parte norte do Parque dos Glaciares. O trilho é apelidado de fácil, mas o íngreme começo leva-me a praguejar. Vem-me à memória o trilho da Fajã de Santo Cristo, em S. Jorge nos Açores, e o estado de quase exaustão em que o acabei. Apesar da beleza. Felizmente apenas o começo é complicado e o terreno acaba por aplanar. Ainda me cheguei a perguntar o que me tinha dado para fazer trecking. A passagem de um ribeiro onde bebo água anima a continuação, ainda mais quando começo a ver o Fitzroy iluminado por um sol resplandecente. Ver o mítico Fitzroy decoberto não é frequente, as nuvens contumam gostar de jogar às escondidas. A escultura em pedra é magnífica, um pico quase inacessível que já tirou a vida a muitos que tentaram subir. Um dente afiado apontado ao céu. Ao lado um glaciar mostra-se. O cenário é belíssimo em mais uma demonstração do poder estético da natureza. Passo por uma lagoa de água transparente que convida ao descanso. O vento bate e ondula a água. Quando alguns amigos lerem este postal não vão acreditar na sua veracidade. Vão atribuí-lo a devaneios de ficção. Fazer um trecking por opção, numa viagem em que estou entregue ao meu livre arbítrio estará para além da sua compreensão. Ou talvez acreditem, mas duvido. O certo é que é verdade, mesmo que até eu acredite com certa relutância.

Postal da Patagónia

(Ainda de El Calafate)
Olho as cercas e penso nos loucos que aqui compraram terras, neste quase fim de mundo inóspito, nessas personagens de Chatwin, nesses habitantes de casas isoladas como a que avisto. Loucos aventureiros, fugitivos da justiça, de si mesmos ou da sociedade. Escolher viver aqui será ainda hoje uma fuga, há uns anos roçaria a loucura. Pardo verde musgo escuro. Abres-se em frente o lago Viedma. A estrada continua a seu lado. Aparecem pontos amarelos de pequenos arbustos.

Postal da Patagónia

(Ainda de El Calafate)
Percorro um troço da mítica R40, tão escrita e descrita, a caminho de El Chaltén. Pardo pontuado por escassos pequenos arbustos. Quilómetros a sucederem-se sem mais. Propriedades cercadas. Quatro cavalos, à frente o troço de um pequeno rio. Pardo, ao fundo montes nevados, mais perto montes pardos. O céu brinca em azul e branco. Uma rocha.

27.11.08

Postal do fim do mundo

Cheguei ao sul. Ao verdadeiro sul da civilização. Mais a sul só a Antártida, terra do branco, do gelo, do inumano. Não posso ir mais além - a verdade é que podia, mas uma expedição à Antártida ainda não está nos meus planos. Este é o fim ou princípio de tudo. Olho em frente na baía de Ushuaia e vejo a Isla Navarino, terra chilena apenas povoada por uma base militar. Não posso ir mais abaixo, pelo menos por agora não posso. Percebo melhor a dimensão do mundo, percebo melhor Magalhães, Darwin, Chatwin. Todos os que quiseram chegar ao limite, ao fim, ou ao princípio. Este é o verdadeiro sul, o limite austral do homem, da terra humana. Cheguei ao sul e por aqui ficarei mais uns dias, aproveitando o limite do fim, ou do princípio.

26.11.08

Postal da Patagónia

A primeira sensação frente ao glaciar Perito Moreno é de esmagamento. Depois vem a pequenez perante a natureza que traz consigo um setimento de humildade. Chegado da metrópole nada melhor do que por as coisas no seu preciso lugar. No lugar devido do homem perante a imensidão do intocado e puro. Sou atacado por um fremente convulsão fotográfica, doença que se alastra inevitavelmente a todos quantos deambulam pelas passadeiras de madeira integradas na encosta frente à parede de 70 metros. Há a tentação de querer que o momento perdure, que a imagem de algum modo continue na memória. Deambulo no disparo, indiferente perante a circulação de seres com a mesma fascinação feita fenómeno colectivo.
As coisas não ficarão por aqui e ainda irei caminhar de pregos no pés sobre este gelo milenar, fruto de anos incontáveis de acumulação de neves. A quem já esteve no meio da neve, o branco não tem a mesma fascinação, mas ao saber sobre o que caminhamos e ao olhar para os rasgos de azul que surgem por entre o braco a relativização é posta de parte. A irrealidade do cenário é acentuada quando afasto olhar hipnotizado pelo branco e olho em redor. A massa avançando sobre o castanho da Península de Magalhães que sobe em colinas verdejantes. Ao lado montanhas de negro inóspito. O céu espreita azul por entre nuvens brancas e uma neblina que avança sobre o glaciar.

Postal de Buenos Aires

(Ainda de Buenos Aires)
Quando me lembro do "Quarto com vista sobre a cidade" sempre me vem à memória a acolhedora pensão, como tantas outras referidas em obras do século XIX e XX. A dona, geralmente viúva, transformava a casa que tinha dificuldade em manter numa casa de hóspedes. Mantinha assim o pessoal e o seu nível de vida, conhecia novas pessoas, algumas interessantes, e, claro, abdicava de alguma intimidade.
Sempre as imagino em casas de classe média, por vezes alta, com mobiliário sólido e confortável, cortinas quentes e densas, quartos de casa de família. A sala era ponto de encontro inevitável de hóspedes, reunidos pela manhã para o pequeno almoço, por vezes para o chá das cinco, quase sempre para o jantar. Eram tempos em que os hotéis eram poucos e caros, os restaurantes quase inexistentes e os viajantes se dividiam entre aventureiros e aristocratas, alguns deles falidos. Também era época dos "grands tours" de jovens solteiros que saíam a conhecer o mundo e, quem sabe, arranjar um bom partido para casar.
Quando cheguei à minha casa em Buenos Aires senti como se tudo isto se me apresentasse em versão moderna. Não trouxesse o número correcto da porta e nunca encontraria o sítio, uma discreta, porém bonita, casa sem nada que a distinguisse das demais em seu redor excepto uma curiosa lanterna ao lado da porta. Sou acolhido pelo Fernando - que sei de antemão ser o marido da Lizandra, a dona da casa - em hora tardia, mas a tempo de ver o corredor de acesso aos quartos e ao fundo uma deliciosa varanda em madeira sobre um pátio.
A decoração remete de imediato para as antigas pensões. Casa de princípio do século, chão de madeira corrida, portas de madeira com vidrinhos, adereços de época. No meio a personalização actual que nos lembra estarmos no século XXI, com obras de arte contemporânea, nomeadamente o grande quadro da sala de jantar e o biombo de vidro que divide esta da sala de estar. Quatro degraus acima da casa de jantar uma pequena cozinha de apoio com um simpático bar de conveniência que irei utilizar amiúde, afinal tinha cerveja e vinho, companhias ideiais para o relax antes de jantar.
A primeira palavra de acolhimento foi que esta era para ser a minha casa, e nada mais correcto poderia ser dito sobre como me senti.

Postal da Patagónia

Em motoquatro no Lago Argentino.

Postal da Patagónia

Lago Argentino.

Postal da Patagónia

Monte Fitzroy.

Postal da Patagónia

Monte Fitzroy.

Postal da Patagónia

Perito Moreno

Postal da Patagónia

Estrada para El Chaltén. Ao fundo o monte Fitzroy.

Postal da Patagónia

Perito Moreno

Postal da Patagónia


Perito Moreno

Postal da Patagónia

O glaciar Perito Moreno.

24.11.08

Na Patagónia

Agora sim, deixei o cosmopolitismo de Buenos Aires e estou aqui, nesta imensida imensa. Nao escondo alguma espectativa porque daqui a pouco tempo irei estar a caminhar em cima de um glaciar. Sei que os postais andam atrasados e que nao tenho acento til. Tentarei resolver o assunto com a brevidade desejável.

21.11.08

Postal de Buenos Aires

Ainda não vos falei da minha casa em Buenos Aires? Pois não. Só me lembrei porque acabou de sair uma simpática hóspede sino-americana (sempre quis utilizar esta palavra composta), professora universitária de balet moderno. Ontem fumámos uns cigarros em nome da esperança no Obama e a alegrarmo-nos pela senhora Sarah Palin existir desde que não tenha qualquer poder.

Postal de Buenos Aires

Preciso de confessar: já fiz compras. Tentei resistir, tinha prometido só ir no regresso da Patagónia, mas não consegui. Pronto, confessei e já me sinto melhor. Afinal, moralmente é só um pecadilho, o problema chegará com a conta do VISA que teimará em ser imoral.

Postal

Ando a morrer de saudades e acho que vou voltar antes de tempo. Isto de estar só é insustentável e já mudei o voo para segunda-feira.

P.S. Claro que estou a brincar.

Postal de Buenos Aires

(Ando a perder o ritmo)
Como a cultura também é importante, lá fui ao Museu de Bellas Artes e ao MALBA. O primeiro tem uma boa colecção de impressionistas, o segundo é uma decepção enquanto colecção - está mais vocacionado para exposições temporárias -, mas um belissimo edifício moderno e bem enquadrado.
Volto a andar demais. Insisto em não me adaptar à dimensão da cidade. Como sempre há que ver as coisas do lado positivo: ainda bem, pois de outro modo regressaria uma orca. O facto de estar só leva-me a não dispensar comer bem. Aqui confesso, antes que receba hate-mails de alguns amigos, que o faria também caso não estivesse só. Mas assim entendo como uns miminhos e a gula torna-se mais desculpável, assim como os desejos quase incontroláveis de comer "ojo de bife" durante todo o dia.

20.11.08

Postal de Buenos Aires

"Lost in antiques". Este foi o lema da manhã em San Telmo. E também, ver e não comprar. Nada melhor para descomprimir do que um almoço frente à maior catedral de Buenos Aires, "La Bombonera", ou seja, o Estádio do Boca Juniors. Aqui jogou o deus Maradona, de tal forma entronizado pelas gentes de aqui que já tem direito a uma religião em seu nome. E com número crescente de "crentes". Foi também hoje que este deus conseguiu a primeira vitória como putativo treinador da Argentina. Por isso mesmo, e antevendo a vitória, lá me debati com o "Carlitos", dono do "Don Carlos", mesmo em frente à "caixa de bonbons", e a sua cozinha sem ementa que me deixou em estado redondo ao nível de uma bola de bowling. O ideal para deambular pelo "Caminito", a zona "típica" da Boca que mais parece um parque temático sobre uma certa Argentina marinheira e proletária. A densidade de máquinas fotográficas, vendedores ou empregados de lojas e restaurantes é tal, que o espaço que resta para outros é nulo. Até se encontra um pretenso sósia do deus que cobra por tirar fotografias com as pessoas.

Postal de Buenos Aires

O taxista, assim que ouviu Calle Baéz como destino, logo declarou peremptório: "chicas lindas en Las Cañitas". Finalmente um bairro - ou melhor, uma zona dentro de Palermo - com dimensão mensurável. Uma curta rua, Baéz, e três ou quatro perpendiculares, com lojas, restaurantes e bares, tudo com um ecxelente ar. Respira-se bom perfume. Jantar razoável, no La Cavalleriza, e um copo para digestão, no Mute, por entre "chicas lindas" num bar moderno e de bom gosto. No fim do jantar obrigo-me a mim mesmo a escrever cem vezes: não voltarás a pedir entrada, muito menos de queijo, e batatas fritas com a carne". Tentarei cumprir, até porque nestas bandas não há Água das Pedras e eu esqueci-me do Cholagutt.

19.11.08

Postal de Buenos Aires

Primeira incursão na espontaniedade argentina, com um ser enfurecido a parar e sair de uma mota dirigindo-se a outro com aparente vontade de o desfazer em pedaços. Ao lado dois polícias olhavam com ar complacente tentando, sem muito esforço, acalmar a situação. Na esplanada onde tomava café comentava-se que o melhor era chamar alguém, apesar da polícia.
O passeio matinal por Palermo mostrou bem a enorme dimensão deste bairro, onde os dias são tranquilos e as noites longas. Muitos restaurantes, muitas lojas e uma igreja de S. Francisco Xavier. Livrarias onde quero passar o dia, lojas de roupa onde me esforço por não entrar, resturantes onde apetece almoçar às onze da manhã. Resisto, e lá pela uma e meia ataco o primeiro bife chorizo no Minga. Primeiro de Buenos Aires, pois graças aos sempre bons préstimos do "El Último Tango", em Lisboa, este já é um corte de carne bem conhecido.
Recomposto, avaço para o bulício do centro onde hordas de locais e turistas criam tráfego humano nas ruas mais conhecidas e lojas boas alternam com quinquilharia imprestável, dirigida a turistas ingénuos e incautos. Paragem obrigatória na Plaza de Mayo, já sem as "madres de Mayo", consumidas que foram pelo tempo e exaustas da esperança de um dia saber o destino exacto do seus, certamente barbaramente apagados pela ditadura, por uma das muitas ditaduras que trucidaram gente como carne para hamburguer nestas terras da América do Sul.