20.4.09

Diálogos Imaginários

(Sábado. Na neve.)

– Charles, agora que já bebemos café, vamos subir para as cadeirinhas.
– Com certeza, menino. Tenho tudo combinado com o Anselmo. Eu ficarei cá em baixo para entregar as mantas e ele ficará no cimo para as receber. Assim poderão fazer a travessia mais quentes.
– Magnífico, Charles. Ainda bem que os meus amigos trouxeram o Anselmo, assim sempre podem dividir o trabalho.
– Também já preparei dois termos, um com Oolong e outro com Marco Pólo. Penso que sejam chás adequados para retemperar as temperaturas após as descidas das pistas. O Anselmo trouxe algumas bolachas inglesas e scones com compota de whisky.
– Muito bem, tudo me parece estar bem organizado, Charles. Também gostei do que espreitei na cesta do pic-nic. Boa escolha de champagne, presunto de Guijuelo bem cortado, “caña de lomo” de óptimo aspecto. As tapas parecem deliciosas.
– Era uma surpresa, mas ainda bem que está a seu gosto.

Palavras de outros

"Notícia é só aquilo que alguém quer esconder"

A noite de sexta-feira foi frenética nas redacções por todo o país. Às 20 horas, a TVI mostrou a gravação onde Charles Smith é, pela primeira vez, visto e ouvido a descrever um acto de corrupção no licenciamento do Freeport. Um por um, jornais, rádios e TV tentaram obter comentários do gabinete do primeiro-ministro. Tornou-se clara a linha oficial de controlo de estragos dos operadores de média do Governo: nada havia de novo na transmissão da TVI, o primeiro-ministro considerava falsas as afirmações feitas no DVD e tencionava processar quem o tinha difamado.
Com mais ou menos emotividade e calor, os assistentes do primeiro-ministro contactados mostraram também o seu desagrado pelas intenções da Comunicação Social de considerar o DVD da TVI peça importante na cobertura noticiosa do caso Freeport. É de facto muito importante. O DVD do Freeport é o equivalente às gravações do Watergate que fizeram cair Nixon. Foi na consciência disso que, para desgosto dos conselheiros de São Bento, vários órgãos de Informação optaram por reproduzir excertos do scoop da TVI. Outros não. Todos estão no pleno direito de exercer o seu juízo editoral.
Assim, nos dias seguintes, quem passasse os olhos pelos jornais, ouvisse rádio ou seguisse a TV, inevitavelmente seria informado da notícia que a TVI tinha originado. A liberdade de expressão funciona assim, validando-se nesta diversidade de opções que serve o interesse público. O fundamental é que o continue a fazer em total liberdade porque, com os casos do Freeport e do BPN em roda livre e manifestamente longe de uma conclusão, há incógnitas e suspeitas transversais a todo o Estado, e a democracia tem-se vindo a esboroar. Isto não é uma só questão filosófica. É contabilística também. Os economistas sabem projectar os custos da corrupção no quotidiano das dificuldades dos portugueses. Neste mundo do dinheiro público aplica-se muito bem a lei da química de Lavoisier - nada se cria nem se perde, tudo se transforma. O problema está nessa transformação. Se no Freeport ou no BPN alguém fica com dinheiro subtraído aos lucros dos promotores, ele não entra nos impostos e não se transforma em bem-estar social. Os roubos já conhecidos no BPN (mais de dois mil milhões) e os quatro milhões que a Freeport detectou que tinham desaparecido das contas do seu investimento em Portugal deviam ter passado pelo circuito fiscal e ter sido transformados em bem-estar geral nacional. Foi dinheiro do Estado que foi roubado e, se não fosse a Comunicação Social com os seus exageros e exactidões, a sua pluralidade e o seu sectarismo, a sua independência e o seu clubismo fanático, por vezes tudo manifestado na mesma publicação, nada se saberia e o país empobreceria ainda mais depressa. Claro que é preocupante ter a democracia de um Estado dependente de um só sistema, aparentemente tão frágil e anárquico. Mas neste momento é o que nos resta. Entre segredos de justiça e segredos cúmplices, o Estado tem-se vindo a desrespeitar. O DVD do Freeport foi escondido durante anos, ocultando a verdade ou parte dela. Cinco processos judiciais contra jornalistas depois, é conhecido. Nada pode ficar como dantes. Como Bob Woodward disse, "notícia só é aquilo que alguém quer esconder. Tudo o mais é publicidade".
Há demasiada publicidade em Portugal.

Mário Crespo no Jornal de Notícias.

As imagens da campanha negra.

16.4.09

Fundo do Baú

O Fecebook tem trazido uma divertida corrida ao fundo dos baús e uma disputa de vídeos nostálgicos dos tempos em éramos jovens inconscientes. Coisas entre amigos, mas que não resisto a trazer também para o blog.
Hoje fica Madonna nos seus tempos mais jovens.

15.4.09

Títulos possíveis para um post

Porque ainda há cinema.
O filme do ano.
A complexidade da natureza humana.
Um mundo de homens imperfeitos e complexos.
Walt Kowalski, uma das melhores personagens criadas pelo cinema dos últimos anos.
Uma interpretação para a história do cinema.
Clint Eastwood insiste em querer a perfeição.
Cinema sério. Cinema a sério.
Perder este filme é um erro profundo.
Mais uma obra-prima do maior cineasta clássico vivo.
Um filme mais para a eternidade.
Simplesmente Genial.
O triunfo da simplicidade complexa.
O derradeiro personagem de Eastwood ficará perpetuado na memória.


O post seria sobre o filme “Gran Torino”, de, e com, Clint Eastwood.

Gran Torino



“Youa: You're funny.
Walt Kowalski: I've been called a lot of things, but never funny. “

“Mitch Kowalski: What would I want?
Walt Kowalski: I don't know... Your wife's already gone through all of your mother's jewelry.“

“Walt Kowalski: [to Father Janovich] I think you're an overeducated 27-year-old virgin who likes to hold the hands of superstitious old ladies and promise them everlasting life.”

13.4.09

Ouvir coisas boas

Ando em fase de pop-rock português independente. A ouvir “Os Quais” e os “Pontos Negros”, à espera do primeiro disco de “Os Golpes”.

“Hoje anuncio que me despeço,
À procura de um país de árvores”

Na música “Caído no ringue”, de "Os Quais", sobre um improviso de John Coltrane, declamado por José Tolentino Mendonça.

8.4.09

Páscoa

Este blog irá passar a restante Semana Santa às terras de origem. Procissões antigas e envelhecidas. Cerimónias dolentes. Tempos de recolhimento.

6.4.09

Música boa

Marisa Monte



"Amor I Love You" (Marisa Monte e Carlinhos Brown)

Deixa eu dizer que te amo
Deixa eu pensar em você
Isso me acalma, me acolhe a alma
Isso me ajuda a viver

Hoje contei pras paredes
Coisas do meu coração
Passeei no tempo, caminhei nas horas
Mais do que passo a paixão

É um espelho sem razão
Quer amor, fique aqui

Deixa eu dizer que te amo
Deixa eu gostar de você
Isso me acalma, me acolhe a alma
Isso me ajuda a viver

Hoje contei pras paredes
Coisas do meu coração
Passeei no tempo, caminhei nas horas
Mais do que passo a paixão

É o espelho sem razão
Quer amor, fique aqui

Meu peito agora dispara
Vivo em constante alegria
É o amor que está aqui

Amor I Love You

Tinha suspirado

Tinha beijado o papel devotamente.

Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades

E o seu orgulho dilatava-se ao calor amoroso que saía delas

Como um corpo ressequido que se estira num banho tépido.

Sentia um acréscimo de estima por si mesma,

E parecia-lhe que entrava enfim

Numa existência superiormente interessante

Onde cada hora tinha o seu encanto diferente

Cada passo conduzia a um êxtase

E a alma se cobria de um luxo radioso de sensações*

* Trecho do romance "O Primo Basílio", de Eça de Queiroz, recitado por Arnaldo Antunes.

3.4.09

Hexabomba

Para comemorar os seis anos da Bomba Inteligente, aqui fica uma Milonga Sentimental, em versão dos "Otros Aires".

2.4.09

Postais atrasados



Primeiras horas do ano na Praça de São Marcos em Veneza.
Sob a suave neve que caía, testemunho uma cena romântica. À medida que os anos passam eles parecem empedernir o coração e trazem o cinismo perante as manifestações exteriores de amor. Ainda assim algo no fundo de nós resiste e não contém a candura perante a felicidade alheia. Nestes momentos percebemos que não somos ainda um caso perdido no mar infinito da vida celibatária. Sentimos a possibilidade de nos cruzarmos com uma ilha, talvez nova, talvez conhecida, talvez já explorada, uma ilha que nos mostre um porto de abrigo no qual ainda sejamos capazes de aportar.

Palavras de outros

“A doença do crescimento tomou conta da economia há muitos anos mas só agora se lhe reconhece o carácter de catástrofe. A imprensa espanhola fala de uma crise abominável no sector automóvel – parece que se venderam menos 450 mil carros do que no ano anterior e o alarme soou, gravíssimo. Os economistas de serviço (uma espécie de astrólogos de segunda categoria) choram, temendo desemprego e recomendando subsídios para a indústria automóvel. Recomendo ao leitor que imagine um milhão de carros novos vendidos todos os anos em Espanha e veja se não é um exagero. A doutrina do crescimento infinito, grata aos economistas e políticos, é que nos levou à crise, de bolha em bolha, exigindo mais camas ocupadas nos hotéis, mais livros vendidos nos supermercados, mais máquinas de lavar vendidas nas lojas, com menos população, pedindo mais população para poderem ser cobrados mais impostos. A economia, como a deixaram os anos noventa, em crescimento infinito, precisa de mudar. O mundo precisa de viver de outra maneira. Com menos crescimento infinito.”

Francisco José Viegas in “A Origem das Espécies”

31.3.09

País estupendo

Recordo o post sobre a Máfia ao saber que Domingos Névoa foi nomeado – repito, nomeado – para presidir à empresa intermunicipal Braval. Conclui-se que para o presidente da Câmara de Braga, assim como para os outros municípios, o pormenor do senhor ter sido condenado – e não apenas arguido, ou réu – por corrupção em nada interfere as suas capacidade para gerir uma empresa de capitais públicos. Estou a ficar repetitivo, mas a falta de lata está a atingir níveis próximos da demência.

30.3.09

Versões

Gosto muito de versões. Manias minhas. Já por aqui deixei várias versões desta música, mas agora descobri uma mais de que gostei muito.
“Ne me quittes pás”, pela brasileira Maysa, cuja voz sofrida traz ainda mais desespero a esta canção.

Coisas preocupantes

Admitir que as melhores críticas ao governo são feitas por Alberto João Jardim.

Notícias boas

O MEC está na blogosfera.

A Máfia que faz falta

Quando olho pela janela o sol a brilhar sobre Monsanto, ao mesmo tempo que vou olhando as notícias no computador, penso na falta que faz uma Máfia séria em Portugal. Não pretendo com isto dizer que seja preciso mais crime, ou violência, mas sim algo que organize subterraneamente o país e que concretize a inutilidade da política. Neste país que é o meu, insistimos em falar de estabilidade governativa, na importância das maiorias, dos governos que cumpram mandatos. Em Itália, alturas há em que os governos mudam mais depressa que os treinadores de futebol das equipas portuguesas. Terá isto impedido Itália de ser uma potência europeia e um país bem mais civilizado do que nós?
A cada dia que passa nos apercebemos que somos governados por uma pseudo-máfia do bloco central que insiste em manipular o país para proveito dos seus membros dos próprios partidos. Houvesse uma Máfia séria e os partidos seriam irrelevantes e ela actuaria apenas para proveito dos próprios, atirando os partidos para a irrelevância que indiscutivelmente merecem. Nós por cá temos o Avelino a ser absolvido, o Isaltino quase, a Felgueiras também e o Domingos Névoa foi declarado culpado de corrupção e teve de pagar uns excessivos 5000 Euros. O primeiro-ministro tem sobre si uma acusação de corrupção e um conselheiro de estado está envolvido em negócios incríveis.
Venha a Máfia, a séria, privada e discreta. Venha alguém que ajude o país por fora do sistema, porque por dentro já percebemos que vai ser impossível.

23.3.09

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Brancos ainda não intensos, alguns pontuados de amarelo, Verde, muito verde. Os encarnados e roxos esperam por mais sol. Falo dos campos do Alentejo, claro.

A lata

Andamos a aprender com este governo que está na moda ter lata. Não pelos melhores motivos, é certo, mas o descaramento tomou conta do país. O que dantes se fazia com discrição é hoje feito sem pudores. Enganar, mentir, manipular, roubar. Ficámos agora a saber que a moda chegou à arbitragem e foi bem assimilada por Lucílio Rodrigues. O roubo de Sábado entra nos anais do descaramento e mostra que este árbitro está, sem dúvidas, na moda. Sugiro convite para desfile no Portugal Fashion.

20.3.09

Fim-de-semana

Faz parte desta altura do ano ser repetitivo. Ano após ano em que me desloque ao Alentejo no início primavera volto a falar do assunto. Inevitável. Nem vagamente sou imune ao esplendor cromático dos campos, à sua beleza bucólica e vasta. A vastidão é hoje menos impressionante depois de ter estado em terra realmente vastas, longínquas e quase infinitas. Ainda assim é a nossa vastidão, pequena, limitada, humilde e simples. Também muito nossas são as cores, aquelas cores indefiníveis e que choram por não terem tido um Van Gogh que as perpetuasse. A serenidade invade os olhos de quem pode admirar esta natureza que sempre insiste em nos surpreender, seja por formas inauditas que empresta a troncos de sobreiros, seja por um novo pantone de roxos que aplica em herbáceas. O Homem prudente não estragou aqui a oferta que Deus em bom dia lhe deu. Preserva, tira partido e também, como se tal fosse possível, melhora em alinhamentos de choupos junto a linhas de água, escultóricos montes de palha ou singelas casa brancas no cimo de montes.