1.6.09

Coisas que valem a pena – Sobre o Portugal de hoje

Vasco Pulido Valente em entrevista ao Correio da Manhã (António Ribeiro Ferreira) e ao Rádio Clube Português (Luís Claro).

LC - Disse que se estivesse no lugar de José Sócrates se demitia, que não teria condições para ocupar o cargo. Acha que José Sócrates não tem condições?
- A premissa está errada. Se eu estivesse, eu nunca estaria no lugar de José Sócrates. Isso é uma coisa de imaginação, chamada de imaginação histórica. Mas contando que é um acto de imaginação histórica eu, de facto, se estivesse no lugar de José Sócrates preferia perder as eleições e ir para casa.

LC - Mas porquê?
- Porque ele esgotou as soluções que tinha e ele esgotou o crédito que tinha, sobretudo. Lembra-se do crédito que tinha há quatro anos? O homem inflexível, o reformador, o intransigente, o homem que não parava, o homem que ia mudar tudo e veja o estado em que está o País agora.

ARF - Exacto.
- Sem a reforma do Estado, com o défice muito pior do que tinha, a Justiça no estado em que está, não fez nada, não reformou nada, há o Magalhães e há o simplex e há assim umas coisas. Eu disse essa frase porque o crédito que ele tinha há quatro anos esgotou-se, ele esgotou-se como político, o crédito que ele tinha há quatro anos já não o tem e já não o torna a ter. Já ninguém vai reagir ao engenheiro José Sócrates como reagiu há quatro anos, com esperança, mesmo na direita. Em todo o PS e em grande parte do PSD e da direita. E isso acabou.

LC - Considera a maioria absoluta essencial para o País? Prevê um período de instabilidade se o PS não tiver maioria absoluta?
- Eu não prevejo, eu suspeito que o PS não vai ter maioria absoluta.

LC - Isso é um problema?
- Pode ser que seja um problema, mas não considero que seja um drama. A gente não pode estar a voltar ao partido único com duas cabeças, bicéfalo, o PSD e PS, para a necessidade que agora se está a querer fazer passar de que é preciso uma maioria. Ou seja, nós só podemos viver com partido único. No fundo, o que nos estão a dizer é que nós só podemos viver com um partido único.

ARF - Só somos viáveis com um partido único.
- Portugal só é viável com um partido único. Eu recuso-me a aceitar isso.

LC - Encontra alguma possibilidade, ou haja que é desejável, de alianças no próximo mandato?

- Eu não sei, não sou político, falta-me muita informação sobre o estado do País. Também falta aos políticos, é verdade que sim, mas eles têm maneiras de as arranjar mais facilmente do que eu. Falta-me informação sobre o estado do País, falta-me informação sobre o estado dos partidos, que eles com certeza têm. E só com essa informação é que eu poderia dizer que certas alianças são ou não possíveis.

LC - No caso do PS, historicamente, a coisa não tem resultado bem.

- Há tantas soluções possíveis. Falta discutir. Deixar de fazer disto um drama e discutir. Vamos ver como é que a gente resolve este problema. Calmamente. Tranquilamente vamos ver como. Ou então a gente diz assim: nós só podemos ser governados por um partido. De quatro em quatro anos temos de arranjar um partido. Uma ditadura de quatro anos se não o País não funciona. Não. Recuso isso.

28.5.09

Primavera



Parece que enfim a primavera chegou. Isto levou-me, vá-se lá saber porquê, à música barroca. Ando a ouvir Monteverdi e descobri estas imagens de uma encenação fabulosa do Orfeu, com direcção de Jordi Savall. Logo me lembrei do privilégio que foi assistir a uma versão concerto, também dirigida também por Savall, no Teatro Liceo de Salamanca, quando esta cidade foi Capital Europeia da Cultura e eu tive a imensa sorte de por lá viver. Assisti com um grupo de amigos que me visitavam e que não sabiam bem ao que iam. Alguns adormeceram, outros acharam bonito, mas chato, e outros ainda gostaram bastante. Eu gostei muito, mas depois de ver estas imagens fico com uma boa dose de inveja por não ter assistido a uma versão integral, em particular esta.



25.5.09

Coisas de línguas


Depois do inglês técnico apurado, chegou esta coisa de difícil catalogação. Fico na dúvida se é galego com sotaque mirandês ou alentejano com sotaque catalão. Talvez ainda nos espere um franco-argelino com sotaque de Bordéus, ou um alemão com acento vienense da zona do Prater.

21.5.09

In memoriam – João Bénard da Costa (1935 – 2009)

Voz cavernosa, cigarro acesso, discurso sábio e decidido. Assim me foram apresentados alguns dos grandes clássicos da sétima arte. Prosa rica, profunda, culta e apaixonada. Assim se escreveram na nossa língua as mais belas linhas sobre cinema. O tempo verbal passado infelizmente é agora o adequado.
Partiu o Senhor Cinema, partiu para o outro mundo em que acreditava. A imagem afasta-se de uma vasta paisagem em branco e negro e uma sinfonia de Mahler toca ao fundo. No ecrã aparecem vários amigos a receberem-no de braços abertos: James Stewart, John Ford, Vincent Minelli, Grace Kelly, Ingrid Bergman, Farley Granger, Alfred Hitchcock, e muitos e muitos mais. As cores misturam-se com o preto e branco e nenhuma voz se atreve a dizer “corta”. Será uma cena para a eternidade.

14.5.09

Haja decoro

A senhora já tinha tentado explicar, com pouco sucesso, a presença simultânea nas eleições para o parlamento europeu e nas autárquicas no Porto. Tentou, mas acho que só fanáticos do partido podem entender tamanho desrespeito pela democracia e pelos eleitores. Depois, disse que a presença nas listas europeias era apenas “para fazer número”, o que bem mostra o seu respeito pelas instituições. Não contente, veio depois, em acção de campanha, justificar que determinadas obras efectuadas no Porto – consta que umas pinturas nuns bairros – foram feitas com dinheiro do Estado, do PS. Não fora a sério, e dito em público, e poderia ser apenas uma brincadeira, infelizmente foi mesmo a sério.
Esta gente acha mesmo que o Estado é o partido e o partido o Estado, esta mesma gente que diz que precisa da maioria absoluta em nome da estabilidade. Já ouvi chamar muitos nomes a isto, estabilidade não me parece o mais adequado, nem como eufemismo para um assalto ao que é de todos nós, por gente sem escrúpulos e sem a menor noção da coisa pública. O Estado não pode ser uma empresa sujeita a OPA’s por parte do poder político, muito menos feita com este descaramento. A senhora Elisa Ferreira vem demonstrando, sem ajuda de oposições, toda a sua falta de decoro. Os eleitores que pensem bem se é esta a maneira certa de fazer política e se esta triste personagem merece o seu voto. Caso mereça, é bem justo chorar por uma democracia em que o povo se comporta uma criança irresponsável.

Onde estão os modernos

Gostava de saber onde anda a gente moderninha, sempre pronta a disparar impropérios contra o Papa, seja a propósito de preservativo, seja por declarações em Ratisbona, seja por qualquer outra coisa. Onde andará essa “inteligentzia” sempre pronta a atacar a Igreja nem que para isso invente pretextos. Gostava de saber onde anda e qual a sua opinião sobre as declarações do Papa, ontem em Belém. Gostava de saber o que acham da sua posição sobre o muro de Israel e o Estado Palestiniano. Gostava de saber, só para perceber se o seu antagonismo com a Igreja só tem a ver com discordâncias de facto ou se deve a um qualquer problema com a instituição. Gostava de saber se são tão capazes de dizer bem, como de criticar, uma instituição à qual não pertencem e à qual tentam insistentemente impor as suas ideias. Gostava de saber, apenas para registo.

Triste país o nosso

Caso Cavaco Silva não vete a obscena lei de financiamento dos partidos.

Triste país o nosso

Lopes da Mota continua em funções. Sócrates pede calma. Cândida Almeida continua a ser a responsável pelo processo Freeport.

11.5.09

O tamanho interessa?

O magnífico país moderninho deu mais um passo e direcção ao seu ideal com a abertura do maior centro comercial da Europa. Este país do “maior que”, em que a obsessão com o tamanho poderia ter interessantes interpretações do senhor Freud, ao ponto de se especular se esta gente anda, para dizer o mínimo, com má cama. Tudo tem de ser o “maior”, seja a feijoada na ponte, o aeroporto, os quilómetros de auto-estrada, a torre de Alcântara ou o centro comercial. Claro que a grandeza (quantidade) é privilegiada em relação à qualidade, continuando por isso a sermos um país periférico e pobre que vive de com obras faraónicas. Freud ia-se divertir mesmo muito com este país, ia deliciar-se com a análise sobre rapidinhas pouco intensas, sobre tamanhos mal usados, sobre a falta de qualidade. Portugal é cada vez mais um país de machos bem dotados que se julgam muito viris, mas completamente incapazes de oferecerem um orgasmo decente a uma mulher.

A Sesta

Esparramava-me ontem pelo sofá, enquanto ouvia, com som baixo, a repetição de “O Eixo do Mal”, na SIC Notícias. Recuperava de uma noite divertida acabada a horas tardias e deixava o corpo e o cérebro repousar. Ia ouvindo sem muito ouvir as coisas que os comentadores diziam. Até que o tema passou às touradas e às câmaras municipais que se declararam anti.taurinas. Despertei então os sentidos, pois o tema interessa-me bastante como aficionado. Começou Pedro Marques Lopes, que disse que nem gostava de touradas, mas que era intolerável a sua proibição por parte das câmaras e que contrariava as liberdades em relação a um espectáculo que é tradição e património português. Até aqui tudo normal num liberal, mas o seu remate de apoio às corridas de morte despertou-me um pouco. Seguiu-se Luís Pedro Nunes que concordou, o que me começou a surpreender. Seguia-se Clara Ferreira Alves, de quem esperava uma postura condenatória ao estilo esquerda urbana. Surpresa que me acordou, CFA defendeu convictamente as touradas e também os touros de morte. Enalteceu a sua importância cultural para o país e criticou as câmaras. Estava já bem acordado quando tomou a palavra Daniel Oliveira. Esperava aqui a posição típica do bloquista – urbano – intelectual – classe média alta – alter globalizado. Daniel Oliveira começou por dizer que não tinha uma posição igual aos restantes porque…era aficionado. Sentei-me de imediato com uma incredulidade que me fez saltar tipo mola. Prosseguiu, explicando que as câmaras não proibiram a execução de espectáculos, mas sim o apoio aos mesmos, o que está certo e se coaduna com ano eleitoral em municípios sem tradição taurina. Encerrou com o apoio total às touradas e com a veemente condenação a qualquer proibição. Nuno Artur Silva contrariou dizendo que estava em desacordo com todos, ao que logo foi contraposto por Daniel Oliveira dizendo que “da carninha que comes já gostas, aquela que vem de vacas que vivem em cubículos desde que nascem até que morrem.”
O programa foi uma lição sobre o preconceito. Não esperava ser fácil estar de acordo com Daniel Oliveira em qualquer assunto. Encontrei finalmente tema de conversa. Já o posso conhecer sem o embaraço da falta de tema de conversa. Dos restantes esperava uma posição politicamente correcta e asséptica, urbana e distante, intelectualmente arrogante perante a tradição. Enganei-me. Penitencio-me por isso. Não segui os meus princípios cristãos e julguei sem conhecer. Posso, apesar disso, acabar com um “ainda bem”, é que isso se deve a estarmos todos de acordo neste ponto. Ainda bem.

8.5.09

Grande música para um dia cinzento

Tracey Thorn (Everything but the girl) e Jens Leckman numa versão de "Yeah! Oh Yeah!" dos Magnetic Fiends.

"Are you out of love with me?
Are you longing to be free?
Do I drive you up a tree?
Yeah! Oh, yeah!

Do I drive you up the wall?
Do you dread every phone call?
Can you not stand me at all?
Yeah! Oh, yeah!

Though I need you more than air
is it true you just don't care?
Are you having an affair?
Yeah! Oh, yeah!

When we met I thought
money was everything
so I let you buy the house,
the car, the ring
but I can't take your perpetual whining
and you can't sing

I though if we live apart
we could made a brand-new start
Do you want to break my heart?
Yeah! Oh, yeah!

I've enjoyed making you
miserable for years
found peace of mind in
playing on your fears
How I loved to catch your gold
and silver tears, but now my dear

What a dark and dreary life
Are you reaching for a knife?
Could you really kill your wife?
Yeah! Oh, yeah!

Oh, I die, I die, I die!
So it's over, you and I
Was my whole life just a lie?
Yeah! Oh, yeah!"

5.5.09

Ouvir coisas boas

Havia já alguma nostalgia do tango. Um incessante reouvir de discos com sotaque “porteño” desta e de outras eras. O tango é música que se entranha e nos envolve no seu charme encantatório. Foi assim, ontem, no S. Jorge. Concerto de Daniel Melingo, intérprete do tango “de calle”, porteño, genuíno. Momentos de transporte espacial a um bas-fond de San Telmo, Corrientes ou Arenales. O fumo artificial a substituir o dos cigarros e o silêncio do público em vez do barulho de copos e pedras de gelo. Matar saudades da personalidade única de Buenos Aires, desta música que é coisa de alma, de vida. Melingo é presença melíflua e felina, teatral e cativante, voz de barítono arranhada por tabaco e noite, com cicatrizes de vida. O tango, assim, flui natural, com a voz como extensão do corpo, da alma, de vidas e tempos passados. Histórias de canalhas e malandros, de vidas perdidas ou tortuosas, ironias do destino. O calão “callejero”, por vezes ininteligível, marcando o sotaque inesquecível a quem já teve o gosto imenso de passear pelas ruas “porteñas” com o seu som já ele cantado e doce.

Ouvir coisas boas


O novo disco de “Os Golpes”, “Cruz vermelha sobre fundo branco” anda a tocar em repeat no meu computador. O lançamento na passada sexta-feira, no Santiago Alquimista, mostrou uma banda surpreendentemente madura e profissional, que conseguiu um admirável concerto num ambiente mais do que familiar e que com facilidade se tornaria uma brincadeira entre amigos.
Rock sério, muito anos oitenta, muito num imaginário “Heróis de Mar”, muito lusitano. Letras na nossa língua, guitarras britânicas aguçadas, ritmo por vezes marcial. Grande música bem portuguesa que, caso seja devidamente divulgada, terá de ser caso de sucesso. A “Marcha dos Golpes” concorre para ser das melhores músicas em português dos últimos anos, com potencial de hino para uma geração:



“Gerados por uma pátria ausente,
Buscamos um tempo transparente.

Olhar claro,
Olhar limpo,
A dança começa.

Olhar claro,
Olhar limpo,
A dança começa na estrada vazia.

A vida corre inteira pelas nossas mãos
A morte morre inteira pela força das nossas mãos.”

Palavras curtas e certeiras, afiadas, neste “folclore disfarçado de Roque Ene Role”. Apetece dizer que o rock português, cantado em português, com marca profunda de Portugal, está vivo, e o seu futuro passa, certamente, por aqui.


P.S.: No concerto tocaram também uns ainda verdes “Capitães da Areia”, onde se destacou um poderoso baterista, e uns mais rodados “Os Velhos”, que mostraram música interessante e prometedora.

27.4.09

São Nuno de Santa Maria

NUN'ÁLVARES PEREIRA

Que auréola te cerca?
É a espada que, volteando,
faz que o ar alto perca
seu azul negro e brando.


Mas que espada é que, erguida,
faz esse halo no céu?
É Excalibur, a ungida,
que o Rei Artur te deu.


'Sperança consumada,
S. Portugal em ser,
ergue a luz da tua espada
para a estrada se ver!

Fernando Pessoa in "Mensagem"

25.4.09

Cumprir Abril

Seria de grande interesse que o Estado português aproveitasse o novo acordo ortográfico para definir a expressão "cumprir Abril". As cerimónias comemorativas do 25 de Abril seriam assim mais perceptíveis às novas gerações que em 74 ainda eram crianças ou não tinham nascido. Isto porque, ano após ano, ouvimos gente diferente a usar esta expressão de forma muito diferente.

Será cumprir Abril o estabelecimento de um estado com (real) liberdade?
Será cumprir Abril recuar ao pré 25 de Novembro?
Será cumprir Abril voltar às expropriações?
Será cumprir Abril consolidar um estado (realmente) democrático?
Será cumprir Abril perseguir o socialismo real?
Será cumprir Abril voltar ao poder militar?
Será cumprir Abril a luta por uma classe política decente?
Será cumprir Abril perseguir todo e qualquer "capital"?
Será cumprir Abril conseguir mecanismos de controlo da comunicação social?
Será cumprir Abril ter um sistema judicial justo, independente e igual para todos?
Será cumprir Abril persistir em ter a URSS como modelo a seguir?
Será cumprir Abril viver num Estado governado pela construção civil?
Será cumprir Abril a entrega progressiva de soberania a Bruxelas?
Será cumprir Abril recompensar criminosos em nome do seu papel em Abril?

Afinal, o que será cumprir Abril? A gente mais nova agradece uma resposta.

23.4.09

Submerso em vergonha

Há dias em que a vergonha nos assalta. Há dias em que pedir desculpa pelo país não basta. Há dias em que uma nuvem de nojo oculta os possíveis raios de sol. Há um país que recebe criminosos em nome do dinheiro como uma puta desesperada. Há um país que encobre como pode o assassinato sobre um primeiro-ministro. Há um país que condecora bombistas que para sempre levarão sangue nas mãos e quanto a isso não se arrependem. Há um país que tem por referência criminosos julgados nos tribunais e que roubaram e mataram em tempos de democracia. Há um país que ainda não aprendeu a viver com a democracia, com as memórias da revolução, com a ausência da ditadura sonhada por alguns.

A propósito das seguintes palavras:

"O crime compensa

Otelo Saraiva de Carvalho foi o líder operacional das FP-25 de Abril. Este facto foi julgado e provado em tribunal. Entre os crimes de que foi acusado, estavam o assassinato de 17 pessoas, de uma forma fria, brutal e cobarde. Apesar disso, Otelo foi promovido a Coronel por despacho conjunto do Ministro da Defesa e das Finanças.
Entre as vitimas, estava o meu Pai, Gaspar Castelo-Branco, Director Geral dos Serviços Prisionais, assasinado a sangue frio, de forma cobarde, com dois tiros na nuca. Apesar da sua coragem e sentido de dever, Gaspar Castelo-Branco, foi ostensivamente esquecido pelo poder vigente. No ano da sua morte, foi proposto para uma condecoração, recusada por Mário Soares.
Hoje, Otelo é promovido a Coronel, com uma indemnização superior aquela que receberam as famílias das vítimas que assassinou. Não vale a pena expressar ainda mais a minha vergonha, revolta e incompreensão. Este Ministro que o promoveu, não tem memória nem vergonha, não merece o meu respeito nem dos Portugueses.

PS
Gaspar Castelo-Branco não foi assassinado por se opor ou discordar das FP-25 Abril, mas porque no exercício da sua função, ao serviço do Estado, cumpriu o seu dever, acatou ordens com coragem e sentido de dever. Era o homem certo no lugar errado e por isso foi morto. Foi o mais alto funcionário do estado a ser vitima dos terroristas das FP-25 de Abril."
Manuel Castelo-Branco in 31 da Armada

21.4.09

.

Morreu J. G. Ballard. Não conhecia a fundo a sua obra, mas li, e reli, um livro seu de que muito gostei e me marcou. Foi um dos casos em que o filme em nada era inferior ao livro, apesar de ser obra relativamente mal amada. Falo de “O Império do Sol”. Grande livro, ainda mais cru do que um filme. Nas mãos de Spielberg tornou-se, por motivos vários, um dos filmes da minha vida. As interpretações de Christian Bale, como Jim, e de John Malkovich, como Basie, são inesquecíveis e a sua história de sobrevivência é contada de uma forma belíssima. Ficaram na memória muitas e muitas cenas de um filme onde Spielberg mostrou toda a sua genialidade para além dos efeitos especiais e dos filmes fantásticos. Acho que vou aproveitar hoje para procurar a cassete de VHS e rever de novo. Foi a primeira cassete original que comprei, assim como foi o primeiro cartaz de um filme que esteve na parede do meu quarto. Ainda mantenho os dois, como parte importante das minhas memórias de adolescência.

20.4.09

Diálogos Imaginários

(Sábado. Na neve.)

– Charles, agora que já bebemos café, vamos subir para as cadeirinhas.
– Com certeza, menino. Tenho tudo combinado com o Anselmo. Eu ficarei cá em baixo para entregar as mantas e ele ficará no cimo para as receber. Assim poderão fazer a travessia mais quentes.
– Magnífico, Charles. Ainda bem que os meus amigos trouxeram o Anselmo, assim sempre podem dividir o trabalho.
– Também já preparei dois termos, um com Oolong e outro com Marco Pólo. Penso que sejam chás adequados para retemperar as temperaturas após as descidas das pistas. O Anselmo trouxe algumas bolachas inglesas e scones com compota de whisky.
– Muito bem, tudo me parece estar bem organizado, Charles. Também gostei do que espreitei na cesta do pic-nic. Boa escolha de champagne, presunto de Guijuelo bem cortado, “caña de lomo” de óptimo aspecto. As tapas parecem deliciosas.
– Era uma surpresa, mas ainda bem que está a seu gosto.

Palavras de outros

"Notícia é só aquilo que alguém quer esconder"

A noite de sexta-feira foi frenética nas redacções por todo o país. Às 20 horas, a TVI mostrou a gravação onde Charles Smith é, pela primeira vez, visto e ouvido a descrever um acto de corrupção no licenciamento do Freeport. Um por um, jornais, rádios e TV tentaram obter comentários do gabinete do primeiro-ministro. Tornou-se clara a linha oficial de controlo de estragos dos operadores de média do Governo: nada havia de novo na transmissão da TVI, o primeiro-ministro considerava falsas as afirmações feitas no DVD e tencionava processar quem o tinha difamado.
Com mais ou menos emotividade e calor, os assistentes do primeiro-ministro contactados mostraram também o seu desagrado pelas intenções da Comunicação Social de considerar o DVD da TVI peça importante na cobertura noticiosa do caso Freeport. É de facto muito importante. O DVD do Freeport é o equivalente às gravações do Watergate que fizeram cair Nixon. Foi na consciência disso que, para desgosto dos conselheiros de São Bento, vários órgãos de Informação optaram por reproduzir excertos do scoop da TVI. Outros não. Todos estão no pleno direito de exercer o seu juízo editoral.
Assim, nos dias seguintes, quem passasse os olhos pelos jornais, ouvisse rádio ou seguisse a TV, inevitavelmente seria informado da notícia que a TVI tinha originado. A liberdade de expressão funciona assim, validando-se nesta diversidade de opções que serve o interesse público. O fundamental é que o continue a fazer em total liberdade porque, com os casos do Freeport e do BPN em roda livre e manifestamente longe de uma conclusão, há incógnitas e suspeitas transversais a todo o Estado, e a democracia tem-se vindo a esboroar. Isto não é uma só questão filosófica. É contabilística também. Os economistas sabem projectar os custos da corrupção no quotidiano das dificuldades dos portugueses. Neste mundo do dinheiro público aplica-se muito bem a lei da química de Lavoisier - nada se cria nem se perde, tudo se transforma. O problema está nessa transformação. Se no Freeport ou no BPN alguém fica com dinheiro subtraído aos lucros dos promotores, ele não entra nos impostos e não se transforma em bem-estar social. Os roubos já conhecidos no BPN (mais de dois mil milhões) e os quatro milhões que a Freeport detectou que tinham desaparecido das contas do seu investimento em Portugal deviam ter passado pelo circuito fiscal e ter sido transformados em bem-estar geral nacional. Foi dinheiro do Estado que foi roubado e, se não fosse a Comunicação Social com os seus exageros e exactidões, a sua pluralidade e o seu sectarismo, a sua independência e o seu clubismo fanático, por vezes tudo manifestado na mesma publicação, nada se saberia e o país empobreceria ainda mais depressa. Claro que é preocupante ter a democracia de um Estado dependente de um só sistema, aparentemente tão frágil e anárquico. Mas neste momento é o que nos resta. Entre segredos de justiça e segredos cúmplices, o Estado tem-se vindo a desrespeitar. O DVD do Freeport foi escondido durante anos, ocultando a verdade ou parte dela. Cinco processos judiciais contra jornalistas depois, é conhecido. Nada pode ficar como dantes. Como Bob Woodward disse, "notícia só é aquilo que alguém quer esconder. Tudo o mais é publicidade".
Há demasiada publicidade em Portugal.

Mário Crespo no Jornal de Notícias.

As imagens da campanha negra.