7.6.09

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Estou muito preocupado com a possível extinção dos sapos ao longo desta noite. Andam a ser engolidos por tanta gente do PS e do PSD que temo que desapareçam com demasiada rapidez. 

Ilusionismo

Parece que os espelhos multiplicadores de gente presentes nos comícios do PS afinal eram mais elaborados do que parecia. Fica a dúvida se não eram mesmo imagens virtuais.

Preocupante

No século XXI, BE e a CDU têm juntos mais de 20% dos votos.

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Alguém chamará incompetentes ou manipulados aos institutos que debitaram sondagens absolutamente erradas durante semanas a fio?

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Será que os resultados se devem a uma campanha negra ou a uma urdidura?

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Vital Moreira discursa e parece mais despenteado do que o costume. Além de votos, parece que faltou laca.

Enorme boa disposição

Regozijo com os resultados provisórios das eleições. 

2.6.09

Países tristemente diferentes

Uma música dos Xutos volta a não passar na telefonia. Os sorrisos de Moura Guedes são tidos como uma forma de má jornalismo. A palavra “corrupto” é banida de uma entrevista à RTP.
Em Inglaterra, uma investigação do Daily Telegraph levou ao rebentar de um enorme escândalo político. Não ficou presa por acusações de mau jornalismo, se houve pressões, em nada resultaram, e ninguém saiu à rua, com desplante, a gritar por campanhas negras, urdiduras ou cabalas. Ah! E os visados demitiram-se.

Porque ainda há fado. E cada vez mais.



Carminho, "Escrevi teu nome no vento".

1.6.09

Coisas que valem a pena – Sobre a República

Vasco Pulido Valente em entrevista ao Correio da Manhã (António Ribeiro Ferreira) e ao Rádio Clube Português (Luís Claro).

ARF - Vamos comemorar os 100 anos da República. No livro que lançou, sobre no período de 1910 a 1917, é muito contundente com a I República. Diz que foi um regime terrorista. Vamos andar um ano a chamar heróis a cidadãos que usaram o terrorismo?
- Criaram essa República e que conseguiram a partir de 1913 governar em partido único. Esse partido governou sempre, excepto numas interrupções provocadas por golpes militares, pronunciamentos militares, em que usaram, para se manter, métodos terroristas. E que viveu sempre em guerra com o País, guerra aberta com o País.

ARF - E porque é que se comemoram os 100 anos?
- Eu sei porque é que se vai comemorar isso. Porque a República teve uma reabilitação póstuma, que foi a reabilitação salazarista. Como os republicanos eram contra o Salazar e havia muita gente que era contra o Salazar começou-se a achar que a República era boa porque era antisalazarista. Porque os republicanos, certos republicanos, eram antisalazaristas e começou a criar-se a lenda de que se a ditadura salazarista era má a ditadura republicana, a que ninguém chamava ditadura, era boa. Hoje em dia passa por ter sido um regime muito meritório que não foi. Ainda por cima, o nome oficial da República era República Democrática Portuguesa. Tinha lá aquela coisa, mas aquele democrático estava ali como estava nos países comunistas.

ARF - Coreia do Norte e outros.
- Quase a Coreia do Norte. Não era tanto.

LC - Na sua opinião não devia haver comemorações?
- Não devia haver comemorações nenhumas. É um episódio triste da história portuguesa e não devia haver comemorações nenhumas. Para todos os efeitos foi uma ditadura. A ditadura não nasceu do vácuo, nasceu da República.

Coisas que valem a pena – Sobre o Portugal de hoje

Vasco Pulido Valente em entrevista ao Correio da Manhã (António Ribeiro Ferreira) e ao Rádio Clube Português (Luís Claro).

LC - Disse que se estivesse no lugar de José Sócrates se demitia, que não teria condições para ocupar o cargo. Acha que José Sócrates não tem condições?
- A premissa está errada. Se eu estivesse, eu nunca estaria no lugar de José Sócrates. Isso é uma coisa de imaginação, chamada de imaginação histórica. Mas contando que é um acto de imaginação histórica eu, de facto, se estivesse no lugar de José Sócrates preferia perder as eleições e ir para casa.

LC - Mas porquê?
- Porque ele esgotou as soluções que tinha e ele esgotou o crédito que tinha, sobretudo. Lembra-se do crédito que tinha há quatro anos? O homem inflexível, o reformador, o intransigente, o homem que não parava, o homem que ia mudar tudo e veja o estado em que está o País agora.

ARF - Exacto.
- Sem a reforma do Estado, com o défice muito pior do que tinha, a Justiça no estado em que está, não fez nada, não reformou nada, há o Magalhães e há o simplex e há assim umas coisas. Eu disse essa frase porque o crédito que ele tinha há quatro anos esgotou-se, ele esgotou-se como político, o crédito que ele tinha há quatro anos já não o tem e já não o torna a ter. Já ninguém vai reagir ao engenheiro José Sócrates como reagiu há quatro anos, com esperança, mesmo na direita. Em todo o PS e em grande parte do PSD e da direita. E isso acabou.

LC - Considera a maioria absoluta essencial para o País? Prevê um período de instabilidade se o PS não tiver maioria absoluta?
- Eu não prevejo, eu suspeito que o PS não vai ter maioria absoluta.

LC - Isso é um problema?
- Pode ser que seja um problema, mas não considero que seja um drama. A gente não pode estar a voltar ao partido único com duas cabeças, bicéfalo, o PSD e PS, para a necessidade que agora se está a querer fazer passar de que é preciso uma maioria. Ou seja, nós só podemos viver com partido único. No fundo, o que nos estão a dizer é que nós só podemos viver com um partido único.

ARF - Só somos viáveis com um partido único.
- Portugal só é viável com um partido único. Eu recuso-me a aceitar isso.

LC - Encontra alguma possibilidade, ou haja que é desejável, de alianças no próximo mandato?

- Eu não sei, não sou político, falta-me muita informação sobre o estado do País. Também falta aos políticos, é verdade que sim, mas eles têm maneiras de as arranjar mais facilmente do que eu. Falta-me informação sobre o estado do País, falta-me informação sobre o estado dos partidos, que eles com certeza têm. E só com essa informação é que eu poderia dizer que certas alianças são ou não possíveis.

LC - No caso do PS, historicamente, a coisa não tem resultado bem.

- Há tantas soluções possíveis. Falta discutir. Deixar de fazer disto um drama e discutir. Vamos ver como é que a gente resolve este problema. Calmamente. Tranquilamente vamos ver como. Ou então a gente diz assim: nós só podemos ser governados por um partido. De quatro em quatro anos temos de arranjar um partido. Uma ditadura de quatro anos se não o País não funciona. Não. Recuso isso.

28.5.09

Primavera



Parece que enfim a primavera chegou. Isto levou-me, vá-se lá saber porquê, à música barroca. Ando a ouvir Monteverdi e descobri estas imagens de uma encenação fabulosa do Orfeu, com direcção de Jordi Savall. Logo me lembrei do privilégio que foi assistir a uma versão concerto, também dirigida também por Savall, no Teatro Liceo de Salamanca, quando esta cidade foi Capital Europeia da Cultura e eu tive a imensa sorte de por lá viver. Assisti com um grupo de amigos que me visitavam e que não sabiam bem ao que iam. Alguns adormeceram, outros acharam bonito, mas chato, e outros ainda gostaram bastante. Eu gostei muito, mas depois de ver estas imagens fico com uma boa dose de inveja por não ter assistido a uma versão integral, em particular esta.



25.5.09

Coisas de línguas


Depois do inglês técnico apurado, chegou esta coisa de difícil catalogação. Fico na dúvida se é galego com sotaque mirandês ou alentejano com sotaque catalão. Talvez ainda nos espere um franco-argelino com sotaque de Bordéus, ou um alemão com acento vienense da zona do Prater.

21.5.09

In memoriam – João Bénard da Costa (1935 – 2009)

Voz cavernosa, cigarro acesso, discurso sábio e decidido. Assim me foram apresentados alguns dos grandes clássicos da sétima arte. Prosa rica, profunda, culta e apaixonada. Assim se escreveram na nossa língua as mais belas linhas sobre cinema. O tempo verbal passado infelizmente é agora o adequado.
Partiu o Senhor Cinema, partiu para o outro mundo em que acreditava. A imagem afasta-se de uma vasta paisagem em branco e negro e uma sinfonia de Mahler toca ao fundo. No ecrã aparecem vários amigos a receberem-no de braços abertos: James Stewart, John Ford, Vincent Minelli, Grace Kelly, Ingrid Bergman, Farley Granger, Alfred Hitchcock, e muitos e muitos mais. As cores misturam-se com o preto e branco e nenhuma voz se atreve a dizer “corta”. Será uma cena para a eternidade.

14.5.09

Haja decoro

A senhora já tinha tentado explicar, com pouco sucesso, a presença simultânea nas eleições para o parlamento europeu e nas autárquicas no Porto. Tentou, mas acho que só fanáticos do partido podem entender tamanho desrespeito pela democracia e pelos eleitores. Depois, disse que a presença nas listas europeias era apenas “para fazer número”, o que bem mostra o seu respeito pelas instituições. Não contente, veio depois, em acção de campanha, justificar que determinadas obras efectuadas no Porto – consta que umas pinturas nuns bairros – foram feitas com dinheiro do Estado, do PS. Não fora a sério, e dito em público, e poderia ser apenas uma brincadeira, infelizmente foi mesmo a sério.
Esta gente acha mesmo que o Estado é o partido e o partido o Estado, esta mesma gente que diz que precisa da maioria absoluta em nome da estabilidade. Já ouvi chamar muitos nomes a isto, estabilidade não me parece o mais adequado, nem como eufemismo para um assalto ao que é de todos nós, por gente sem escrúpulos e sem a menor noção da coisa pública. O Estado não pode ser uma empresa sujeita a OPA’s por parte do poder político, muito menos feita com este descaramento. A senhora Elisa Ferreira vem demonstrando, sem ajuda de oposições, toda a sua falta de decoro. Os eleitores que pensem bem se é esta a maneira certa de fazer política e se esta triste personagem merece o seu voto. Caso mereça, é bem justo chorar por uma democracia em que o povo se comporta uma criança irresponsável.

Onde estão os modernos

Gostava de saber onde anda a gente moderninha, sempre pronta a disparar impropérios contra o Papa, seja a propósito de preservativo, seja por declarações em Ratisbona, seja por qualquer outra coisa. Onde andará essa “inteligentzia” sempre pronta a atacar a Igreja nem que para isso invente pretextos. Gostava de saber onde anda e qual a sua opinião sobre as declarações do Papa, ontem em Belém. Gostava de saber o que acham da sua posição sobre o muro de Israel e o Estado Palestiniano. Gostava de saber, só para perceber se o seu antagonismo com a Igreja só tem a ver com discordâncias de facto ou se deve a um qualquer problema com a instituição. Gostava de saber se são tão capazes de dizer bem, como de criticar, uma instituição à qual não pertencem e à qual tentam insistentemente impor as suas ideias. Gostava de saber, apenas para registo.

Triste país o nosso

Caso Cavaco Silva não vete a obscena lei de financiamento dos partidos.

Triste país o nosso

Lopes da Mota continua em funções. Sócrates pede calma. Cândida Almeida continua a ser a responsável pelo processo Freeport.

11.5.09

O tamanho interessa?

O magnífico país moderninho deu mais um passo e direcção ao seu ideal com a abertura do maior centro comercial da Europa. Este país do “maior que”, em que a obsessão com o tamanho poderia ter interessantes interpretações do senhor Freud, ao ponto de se especular se esta gente anda, para dizer o mínimo, com má cama. Tudo tem de ser o “maior”, seja a feijoada na ponte, o aeroporto, os quilómetros de auto-estrada, a torre de Alcântara ou o centro comercial. Claro que a grandeza (quantidade) é privilegiada em relação à qualidade, continuando por isso a sermos um país periférico e pobre que vive de com obras faraónicas. Freud ia-se divertir mesmo muito com este país, ia deliciar-se com a análise sobre rapidinhas pouco intensas, sobre tamanhos mal usados, sobre a falta de qualidade. Portugal é cada vez mais um país de machos bem dotados que se julgam muito viris, mas completamente incapazes de oferecerem um orgasmo decente a uma mulher.

A Sesta

Esparramava-me ontem pelo sofá, enquanto ouvia, com som baixo, a repetição de “O Eixo do Mal”, na SIC Notícias. Recuperava de uma noite divertida acabada a horas tardias e deixava o corpo e o cérebro repousar. Ia ouvindo sem muito ouvir as coisas que os comentadores diziam. Até que o tema passou às touradas e às câmaras municipais que se declararam anti.taurinas. Despertei então os sentidos, pois o tema interessa-me bastante como aficionado. Começou Pedro Marques Lopes, que disse que nem gostava de touradas, mas que era intolerável a sua proibição por parte das câmaras e que contrariava as liberdades em relação a um espectáculo que é tradição e património português. Até aqui tudo normal num liberal, mas o seu remate de apoio às corridas de morte despertou-me um pouco. Seguiu-se Luís Pedro Nunes que concordou, o que me começou a surpreender. Seguia-se Clara Ferreira Alves, de quem esperava uma postura condenatória ao estilo esquerda urbana. Surpresa que me acordou, CFA defendeu convictamente as touradas e também os touros de morte. Enalteceu a sua importância cultural para o país e criticou as câmaras. Estava já bem acordado quando tomou a palavra Daniel Oliveira. Esperava aqui a posição típica do bloquista – urbano – intelectual – classe média alta – alter globalizado. Daniel Oliveira começou por dizer que não tinha uma posição igual aos restantes porque…era aficionado. Sentei-me de imediato com uma incredulidade que me fez saltar tipo mola. Prosseguiu, explicando que as câmaras não proibiram a execução de espectáculos, mas sim o apoio aos mesmos, o que está certo e se coaduna com ano eleitoral em municípios sem tradição taurina. Encerrou com o apoio total às touradas e com a veemente condenação a qualquer proibição. Nuno Artur Silva contrariou dizendo que estava em desacordo com todos, ao que logo foi contraposto por Daniel Oliveira dizendo que “da carninha que comes já gostas, aquela que vem de vacas que vivem em cubículos desde que nascem até que morrem.”
O programa foi uma lição sobre o preconceito. Não esperava ser fácil estar de acordo com Daniel Oliveira em qualquer assunto. Encontrei finalmente tema de conversa. Já o posso conhecer sem o embaraço da falta de tema de conversa. Dos restantes esperava uma posição politicamente correcta e asséptica, urbana e distante, intelectualmente arrogante perante a tradição. Enganei-me. Penitencio-me por isso. Não segui os meus princípios cristãos e julguei sem conhecer. Posso, apesar disso, acabar com um “ainda bem”, é que isso se deve a estarmos todos de acordo neste ponto. Ainda bem.

8.5.09

Grande música para um dia cinzento

Tracey Thorn (Everything but the girl) e Jens Leckman numa versão de "Yeah! Oh Yeah!" dos Magnetic Fiends.

"Are you out of love with me?
Are you longing to be free?
Do I drive you up a tree?
Yeah! Oh, yeah!

Do I drive you up the wall?
Do you dread every phone call?
Can you not stand me at all?
Yeah! Oh, yeah!

Though I need you more than air
is it true you just don't care?
Are you having an affair?
Yeah! Oh, yeah!

When we met I thought
money was everything
so I let you buy the house,
the car, the ring
but I can't take your perpetual whining
and you can't sing

I though if we live apart
we could made a brand-new start
Do you want to break my heart?
Yeah! Oh, yeah!

I've enjoyed making you
miserable for years
found peace of mind in
playing on your fears
How I loved to catch your gold
and silver tears, but now my dear

What a dark and dreary life
Are you reaching for a knife?
Could you really kill your wife?
Yeah! Oh, yeah!

Oh, I die, I die, I die!
So it's over, you and I
Was my whole life just a lie?
Yeah! Oh, yeah!"

5.5.09

Ouvir coisas boas

Havia já alguma nostalgia do tango. Um incessante reouvir de discos com sotaque “porteño” desta e de outras eras. O tango é música que se entranha e nos envolve no seu charme encantatório. Foi assim, ontem, no S. Jorge. Concerto de Daniel Melingo, intérprete do tango “de calle”, porteño, genuíno. Momentos de transporte espacial a um bas-fond de San Telmo, Corrientes ou Arenales. O fumo artificial a substituir o dos cigarros e o silêncio do público em vez do barulho de copos e pedras de gelo. Matar saudades da personalidade única de Buenos Aires, desta música que é coisa de alma, de vida. Melingo é presença melíflua e felina, teatral e cativante, voz de barítono arranhada por tabaco e noite, com cicatrizes de vida. O tango, assim, flui natural, com a voz como extensão do corpo, da alma, de vidas e tempos passados. Histórias de canalhas e malandros, de vidas perdidas ou tortuosas, ironias do destino. O calão “callejero”, por vezes ininteligível, marcando o sotaque inesquecível a quem já teve o gosto imenso de passear pelas ruas “porteñas” com o seu som já ele cantado e doce.

Ouvir coisas boas


O novo disco de “Os Golpes”, “Cruz vermelha sobre fundo branco” anda a tocar em repeat no meu computador. O lançamento na passada sexta-feira, no Santiago Alquimista, mostrou uma banda surpreendentemente madura e profissional, que conseguiu um admirável concerto num ambiente mais do que familiar e que com facilidade se tornaria uma brincadeira entre amigos.
Rock sério, muito anos oitenta, muito num imaginário “Heróis de Mar”, muito lusitano. Letras na nossa língua, guitarras britânicas aguçadas, ritmo por vezes marcial. Grande música bem portuguesa que, caso seja devidamente divulgada, terá de ser caso de sucesso. A “Marcha dos Golpes” concorre para ser das melhores músicas em português dos últimos anos, com potencial de hino para uma geração:



“Gerados por uma pátria ausente,
Buscamos um tempo transparente.

Olhar claro,
Olhar limpo,
A dança começa.

Olhar claro,
Olhar limpo,
A dança começa na estrada vazia.

A vida corre inteira pelas nossas mãos
A morte morre inteira pela força das nossas mãos.”

Palavras curtas e certeiras, afiadas, neste “folclore disfarçado de Roque Ene Role”. Apetece dizer que o rock português, cantado em português, com marca profunda de Portugal, está vivo, e o seu futuro passa, certamente, por aqui.


P.S.: No concerto tocaram também uns ainda verdes “Capitães da Areia”, onde se destacou um poderoso baterista, e uns mais rodados “Os Velhos”, que mostraram música interessante e prometedora.

27.4.09

São Nuno de Santa Maria

NUN'ÁLVARES PEREIRA

Que auréola te cerca?
É a espada que, volteando,
faz que o ar alto perca
seu azul negro e brando.


Mas que espada é que, erguida,
faz esse halo no céu?
É Excalibur, a ungida,
que o Rei Artur te deu.


'Sperança consumada,
S. Portugal em ser,
ergue a luz da tua espada
para a estrada se ver!

Fernando Pessoa in "Mensagem"

25.4.09

Cumprir Abril

Seria de grande interesse que o Estado português aproveitasse o novo acordo ortográfico para definir a expressão "cumprir Abril". As cerimónias comemorativas do 25 de Abril seriam assim mais perceptíveis às novas gerações que em 74 ainda eram crianças ou não tinham nascido. Isto porque, ano após ano, ouvimos gente diferente a usar esta expressão de forma muito diferente.

Será cumprir Abril o estabelecimento de um estado com (real) liberdade?
Será cumprir Abril recuar ao pré 25 de Novembro?
Será cumprir Abril voltar às expropriações?
Será cumprir Abril consolidar um estado (realmente) democrático?
Será cumprir Abril perseguir o socialismo real?
Será cumprir Abril voltar ao poder militar?
Será cumprir Abril a luta por uma classe política decente?
Será cumprir Abril perseguir todo e qualquer "capital"?
Será cumprir Abril conseguir mecanismos de controlo da comunicação social?
Será cumprir Abril ter um sistema judicial justo, independente e igual para todos?
Será cumprir Abril persistir em ter a URSS como modelo a seguir?
Será cumprir Abril viver num Estado governado pela construção civil?
Será cumprir Abril a entrega progressiva de soberania a Bruxelas?
Será cumprir Abril recompensar criminosos em nome do seu papel em Abril?

Afinal, o que será cumprir Abril? A gente mais nova agradece uma resposta.

23.4.09

Submerso em vergonha

Há dias em que a vergonha nos assalta. Há dias em que pedir desculpa pelo país não basta. Há dias em que uma nuvem de nojo oculta os possíveis raios de sol. Há um país que recebe criminosos em nome do dinheiro como uma puta desesperada. Há um país que encobre como pode o assassinato sobre um primeiro-ministro. Há um país que condecora bombistas que para sempre levarão sangue nas mãos e quanto a isso não se arrependem. Há um país que tem por referência criminosos julgados nos tribunais e que roubaram e mataram em tempos de democracia. Há um país que ainda não aprendeu a viver com a democracia, com as memórias da revolução, com a ausência da ditadura sonhada por alguns.

A propósito das seguintes palavras:

"O crime compensa

Otelo Saraiva de Carvalho foi o líder operacional das FP-25 de Abril. Este facto foi julgado e provado em tribunal. Entre os crimes de que foi acusado, estavam o assassinato de 17 pessoas, de uma forma fria, brutal e cobarde. Apesar disso, Otelo foi promovido a Coronel por despacho conjunto do Ministro da Defesa e das Finanças.
Entre as vitimas, estava o meu Pai, Gaspar Castelo-Branco, Director Geral dos Serviços Prisionais, assasinado a sangue frio, de forma cobarde, com dois tiros na nuca. Apesar da sua coragem e sentido de dever, Gaspar Castelo-Branco, foi ostensivamente esquecido pelo poder vigente. No ano da sua morte, foi proposto para uma condecoração, recusada por Mário Soares.
Hoje, Otelo é promovido a Coronel, com uma indemnização superior aquela que receberam as famílias das vítimas que assassinou. Não vale a pena expressar ainda mais a minha vergonha, revolta e incompreensão. Este Ministro que o promoveu, não tem memória nem vergonha, não merece o meu respeito nem dos Portugueses.

PS
Gaspar Castelo-Branco não foi assassinado por se opor ou discordar das FP-25 Abril, mas porque no exercício da sua função, ao serviço do Estado, cumpriu o seu dever, acatou ordens com coragem e sentido de dever. Era o homem certo no lugar errado e por isso foi morto. Foi o mais alto funcionário do estado a ser vitima dos terroristas das FP-25 de Abril."
Manuel Castelo-Branco in 31 da Armada

21.4.09

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Morreu J. G. Ballard. Não conhecia a fundo a sua obra, mas li, e reli, um livro seu de que muito gostei e me marcou. Foi um dos casos em que o filme em nada era inferior ao livro, apesar de ser obra relativamente mal amada. Falo de “O Império do Sol”. Grande livro, ainda mais cru do que um filme. Nas mãos de Spielberg tornou-se, por motivos vários, um dos filmes da minha vida. As interpretações de Christian Bale, como Jim, e de John Malkovich, como Basie, são inesquecíveis e a sua história de sobrevivência é contada de uma forma belíssima. Ficaram na memória muitas e muitas cenas de um filme onde Spielberg mostrou toda a sua genialidade para além dos efeitos especiais e dos filmes fantásticos. Acho que vou aproveitar hoje para procurar a cassete de VHS e rever de novo. Foi a primeira cassete original que comprei, assim como foi o primeiro cartaz de um filme que esteve na parede do meu quarto. Ainda mantenho os dois, como parte importante das minhas memórias de adolescência.

20.4.09

Diálogos Imaginários

(Sábado. Na neve.)

– Charles, agora que já bebemos café, vamos subir para as cadeirinhas.
– Com certeza, menino. Tenho tudo combinado com o Anselmo. Eu ficarei cá em baixo para entregar as mantas e ele ficará no cimo para as receber. Assim poderão fazer a travessia mais quentes.
– Magnífico, Charles. Ainda bem que os meus amigos trouxeram o Anselmo, assim sempre podem dividir o trabalho.
– Também já preparei dois termos, um com Oolong e outro com Marco Pólo. Penso que sejam chás adequados para retemperar as temperaturas após as descidas das pistas. O Anselmo trouxe algumas bolachas inglesas e scones com compota de whisky.
– Muito bem, tudo me parece estar bem organizado, Charles. Também gostei do que espreitei na cesta do pic-nic. Boa escolha de champagne, presunto de Guijuelo bem cortado, “caña de lomo” de óptimo aspecto. As tapas parecem deliciosas.
– Era uma surpresa, mas ainda bem que está a seu gosto.

Palavras de outros

"Notícia é só aquilo que alguém quer esconder"

A noite de sexta-feira foi frenética nas redacções por todo o país. Às 20 horas, a TVI mostrou a gravação onde Charles Smith é, pela primeira vez, visto e ouvido a descrever um acto de corrupção no licenciamento do Freeport. Um por um, jornais, rádios e TV tentaram obter comentários do gabinete do primeiro-ministro. Tornou-se clara a linha oficial de controlo de estragos dos operadores de média do Governo: nada havia de novo na transmissão da TVI, o primeiro-ministro considerava falsas as afirmações feitas no DVD e tencionava processar quem o tinha difamado.
Com mais ou menos emotividade e calor, os assistentes do primeiro-ministro contactados mostraram também o seu desagrado pelas intenções da Comunicação Social de considerar o DVD da TVI peça importante na cobertura noticiosa do caso Freeport. É de facto muito importante. O DVD do Freeport é o equivalente às gravações do Watergate que fizeram cair Nixon. Foi na consciência disso que, para desgosto dos conselheiros de São Bento, vários órgãos de Informação optaram por reproduzir excertos do scoop da TVI. Outros não. Todos estão no pleno direito de exercer o seu juízo editoral.
Assim, nos dias seguintes, quem passasse os olhos pelos jornais, ouvisse rádio ou seguisse a TV, inevitavelmente seria informado da notícia que a TVI tinha originado. A liberdade de expressão funciona assim, validando-se nesta diversidade de opções que serve o interesse público. O fundamental é que o continue a fazer em total liberdade porque, com os casos do Freeport e do BPN em roda livre e manifestamente longe de uma conclusão, há incógnitas e suspeitas transversais a todo o Estado, e a democracia tem-se vindo a esboroar. Isto não é uma só questão filosófica. É contabilística também. Os economistas sabem projectar os custos da corrupção no quotidiano das dificuldades dos portugueses. Neste mundo do dinheiro público aplica-se muito bem a lei da química de Lavoisier - nada se cria nem se perde, tudo se transforma. O problema está nessa transformação. Se no Freeport ou no BPN alguém fica com dinheiro subtraído aos lucros dos promotores, ele não entra nos impostos e não se transforma em bem-estar social. Os roubos já conhecidos no BPN (mais de dois mil milhões) e os quatro milhões que a Freeport detectou que tinham desaparecido das contas do seu investimento em Portugal deviam ter passado pelo circuito fiscal e ter sido transformados em bem-estar geral nacional. Foi dinheiro do Estado que foi roubado e, se não fosse a Comunicação Social com os seus exageros e exactidões, a sua pluralidade e o seu sectarismo, a sua independência e o seu clubismo fanático, por vezes tudo manifestado na mesma publicação, nada se saberia e o país empobreceria ainda mais depressa. Claro que é preocupante ter a democracia de um Estado dependente de um só sistema, aparentemente tão frágil e anárquico. Mas neste momento é o que nos resta. Entre segredos de justiça e segredos cúmplices, o Estado tem-se vindo a desrespeitar. O DVD do Freeport foi escondido durante anos, ocultando a verdade ou parte dela. Cinco processos judiciais contra jornalistas depois, é conhecido. Nada pode ficar como dantes. Como Bob Woodward disse, "notícia só é aquilo que alguém quer esconder. Tudo o mais é publicidade".
Há demasiada publicidade em Portugal.

Mário Crespo no Jornal de Notícias.

As imagens da campanha negra.

16.4.09

Fundo do Baú

O Fecebook tem trazido uma divertida corrida ao fundo dos baús e uma disputa de vídeos nostálgicos dos tempos em éramos jovens inconscientes. Coisas entre amigos, mas que não resisto a trazer também para o blog.
Hoje fica Madonna nos seus tempos mais jovens.

15.4.09

Títulos possíveis para um post

Porque ainda há cinema.
O filme do ano.
A complexidade da natureza humana.
Um mundo de homens imperfeitos e complexos.
Walt Kowalski, uma das melhores personagens criadas pelo cinema dos últimos anos.
Uma interpretação para a história do cinema.
Clint Eastwood insiste em querer a perfeição.
Cinema sério. Cinema a sério.
Perder este filme é um erro profundo.
Mais uma obra-prima do maior cineasta clássico vivo.
Um filme mais para a eternidade.
Simplesmente Genial.
O triunfo da simplicidade complexa.
O derradeiro personagem de Eastwood ficará perpetuado na memória.


O post seria sobre o filme “Gran Torino”, de, e com, Clint Eastwood.

Gran Torino



“Youa: You're funny.
Walt Kowalski: I've been called a lot of things, but never funny. “

“Mitch Kowalski: What would I want?
Walt Kowalski: I don't know... Your wife's already gone through all of your mother's jewelry.“

“Walt Kowalski: [to Father Janovich] I think you're an overeducated 27-year-old virgin who likes to hold the hands of superstitious old ladies and promise them everlasting life.”

13.4.09

Ouvir coisas boas

Ando em fase de pop-rock português independente. A ouvir “Os Quais” e os “Pontos Negros”, à espera do primeiro disco de “Os Golpes”.

“Hoje anuncio que me despeço,
À procura de um país de árvores”

Na música “Caído no ringue”, de "Os Quais", sobre um improviso de John Coltrane, declamado por José Tolentino Mendonça.

8.4.09

Páscoa

Este blog irá passar a restante Semana Santa às terras de origem. Procissões antigas e envelhecidas. Cerimónias dolentes. Tempos de recolhimento.

6.4.09

Música boa

Marisa Monte



"Amor I Love You" (Marisa Monte e Carlinhos Brown)

Deixa eu dizer que te amo
Deixa eu pensar em você
Isso me acalma, me acolhe a alma
Isso me ajuda a viver

Hoje contei pras paredes
Coisas do meu coração
Passeei no tempo, caminhei nas horas
Mais do que passo a paixão

É um espelho sem razão
Quer amor, fique aqui

Deixa eu dizer que te amo
Deixa eu gostar de você
Isso me acalma, me acolhe a alma
Isso me ajuda a viver

Hoje contei pras paredes
Coisas do meu coração
Passeei no tempo, caminhei nas horas
Mais do que passo a paixão

É o espelho sem razão
Quer amor, fique aqui

Meu peito agora dispara
Vivo em constante alegria
É o amor que está aqui

Amor I Love You

Tinha suspirado

Tinha beijado o papel devotamente.

Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades

E o seu orgulho dilatava-se ao calor amoroso que saía delas

Como um corpo ressequido que se estira num banho tépido.

Sentia um acréscimo de estima por si mesma,

E parecia-lhe que entrava enfim

Numa existência superiormente interessante

Onde cada hora tinha o seu encanto diferente

Cada passo conduzia a um êxtase

E a alma se cobria de um luxo radioso de sensações*

* Trecho do romance "O Primo Basílio", de Eça de Queiroz, recitado por Arnaldo Antunes.

3.4.09

Hexabomba

Para comemorar os seis anos da Bomba Inteligente, aqui fica uma Milonga Sentimental, em versão dos "Otros Aires".

2.4.09

Postais atrasados



Primeiras horas do ano na Praça de São Marcos em Veneza.
Sob a suave neve que caía, testemunho uma cena romântica. À medida que os anos passam eles parecem empedernir o coração e trazem o cinismo perante as manifestações exteriores de amor. Ainda assim algo no fundo de nós resiste e não contém a candura perante a felicidade alheia. Nestes momentos percebemos que não somos ainda um caso perdido no mar infinito da vida celibatária. Sentimos a possibilidade de nos cruzarmos com uma ilha, talvez nova, talvez conhecida, talvez já explorada, uma ilha que nos mostre um porto de abrigo no qual ainda sejamos capazes de aportar.

Palavras de outros

“A doença do crescimento tomou conta da economia há muitos anos mas só agora se lhe reconhece o carácter de catástrofe. A imprensa espanhola fala de uma crise abominável no sector automóvel – parece que se venderam menos 450 mil carros do que no ano anterior e o alarme soou, gravíssimo. Os economistas de serviço (uma espécie de astrólogos de segunda categoria) choram, temendo desemprego e recomendando subsídios para a indústria automóvel. Recomendo ao leitor que imagine um milhão de carros novos vendidos todos os anos em Espanha e veja se não é um exagero. A doutrina do crescimento infinito, grata aos economistas e políticos, é que nos levou à crise, de bolha em bolha, exigindo mais camas ocupadas nos hotéis, mais livros vendidos nos supermercados, mais máquinas de lavar vendidas nas lojas, com menos população, pedindo mais população para poderem ser cobrados mais impostos. A economia, como a deixaram os anos noventa, em crescimento infinito, precisa de mudar. O mundo precisa de viver de outra maneira. Com menos crescimento infinito.”

Francisco José Viegas in “A Origem das Espécies”

31.3.09

País estupendo

Recordo o post sobre a Máfia ao saber que Domingos Névoa foi nomeado – repito, nomeado – para presidir à empresa intermunicipal Braval. Conclui-se que para o presidente da Câmara de Braga, assim como para os outros municípios, o pormenor do senhor ter sido condenado – e não apenas arguido, ou réu – por corrupção em nada interfere as suas capacidade para gerir uma empresa de capitais públicos. Estou a ficar repetitivo, mas a falta de lata está a atingir níveis próximos da demência.

30.3.09

Versões

Gosto muito de versões. Manias minhas. Já por aqui deixei várias versões desta música, mas agora descobri uma mais de que gostei muito.
“Ne me quittes pás”, pela brasileira Maysa, cuja voz sofrida traz ainda mais desespero a esta canção.

Coisas preocupantes

Admitir que as melhores críticas ao governo são feitas por Alberto João Jardim.

Notícias boas

O MEC está na blogosfera.

A Máfia que faz falta

Quando olho pela janela o sol a brilhar sobre Monsanto, ao mesmo tempo que vou olhando as notícias no computador, penso na falta que faz uma Máfia séria em Portugal. Não pretendo com isto dizer que seja preciso mais crime, ou violência, mas sim algo que organize subterraneamente o país e que concretize a inutilidade da política. Neste país que é o meu, insistimos em falar de estabilidade governativa, na importância das maiorias, dos governos que cumpram mandatos. Em Itália, alturas há em que os governos mudam mais depressa que os treinadores de futebol das equipas portuguesas. Terá isto impedido Itália de ser uma potência europeia e um país bem mais civilizado do que nós?
A cada dia que passa nos apercebemos que somos governados por uma pseudo-máfia do bloco central que insiste em manipular o país para proveito dos seus membros dos próprios partidos. Houvesse uma Máfia séria e os partidos seriam irrelevantes e ela actuaria apenas para proveito dos próprios, atirando os partidos para a irrelevância que indiscutivelmente merecem. Nós por cá temos o Avelino a ser absolvido, o Isaltino quase, a Felgueiras também e o Domingos Névoa foi declarado culpado de corrupção e teve de pagar uns excessivos 5000 Euros. O primeiro-ministro tem sobre si uma acusação de corrupção e um conselheiro de estado está envolvido em negócios incríveis.
Venha a Máfia, a séria, privada e discreta. Venha alguém que ajude o país por fora do sistema, porque por dentro já percebemos que vai ser impossível.

23.3.09

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Brancos ainda não intensos, alguns pontuados de amarelo, Verde, muito verde. Os encarnados e roxos esperam por mais sol. Falo dos campos do Alentejo, claro.

A lata

Andamos a aprender com este governo que está na moda ter lata. Não pelos melhores motivos, é certo, mas o descaramento tomou conta do país. O que dantes se fazia com discrição é hoje feito sem pudores. Enganar, mentir, manipular, roubar. Ficámos agora a saber que a moda chegou à arbitragem e foi bem assimilada por Lucílio Rodrigues. O roubo de Sábado entra nos anais do descaramento e mostra que este árbitro está, sem dúvidas, na moda. Sugiro convite para desfile no Portugal Fashion.

20.3.09

Fim-de-semana

Faz parte desta altura do ano ser repetitivo. Ano após ano em que me desloque ao Alentejo no início primavera volto a falar do assunto. Inevitável. Nem vagamente sou imune ao esplendor cromático dos campos, à sua beleza bucólica e vasta. A vastidão é hoje menos impressionante depois de ter estado em terra realmente vastas, longínquas e quase infinitas. Ainda assim é a nossa vastidão, pequena, limitada, humilde e simples. Também muito nossas são as cores, aquelas cores indefiníveis e que choram por não terem tido um Van Gogh que as perpetuasse. A serenidade invade os olhos de quem pode admirar esta natureza que sempre insiste em nos surpreender, seja por formas inauditas que empresta a troncos de sobreiros, seja por um novo pantone de roxos que aplica em herbáceas. O Homem prudente não estragou aqui a oferta que Deus em bom dia lhe deu. Preserva, tira partido e também, como se tal fosse possível, melhora em alinhamentos de choupos junto a linhas de água, escultóricos montes de palha ou singelas casa brancas no cimo de montes.

Coisas difíceis

No espaço de dois dias tive de tentar explicar as declarações de Bento XVI sobre o preservativo e de fazer perceber a alguns católicos modernistas que este papa em quase nada ultrapassa o anterior no que ao reaccionarismo concerne. João Paulo II foi um papa marcante e muito querido, mas entusiasmou mais pela forma do que pelo conteúdo, facto que as pessoas não querem assumir, mas que define, e bem, os tempos imediatos em que vivemos. Bento XVI não me entusiasma, mas também não tem sido um arauto dos tempos medievais como muitos querem fazer crer. Custa-me que, cada vez mais, as diferenças de forma se sobreponham ao conteúdo. Trocar o essencial pelo acessório é característica bem humana, mas tenho para mim que este não é o melhor caminho.

18.3.09

A bem do país

Acho ser esta a altura certa para o primeiro-ministro retirar do governo a Ministra da Educação, uma vez que tem à sua disposição a mais adequada substituta. Com Maria de Lurdes Rodrigues com a popularidade nas ruas da amargura, este devia ser o momento da insigne Margarida Moreira ascender a ministra. Depois das últimas notícias vindas de Barcelos, esta senhora seria a pessoa certa no lugar certo: “Margarida Moreira a Ministra da Educação”.

13.3.09

Estado do sítio

Os plátanos rebentam e o alecrim já tem flor. Cheira a primavera. Os sorrisos voltam a aparecer. Ontem, o fim de tarde teve ar cosmopolita num sofá com vinho branco em esplanada no centro de Lisboa. Assim dá gosto viver e esquecem-se as coisas desagradáveis, o que é bastante agradável. O fim-de-semana traz ideias de boa vida entre praia ou esplanada, deixando a casa sossegada no seu canto, também ela a descansar.

Complexos

Tenho pouca paciência para complexos. Acho que devem ser tratados e pronto. Assim, estou constrangido com a cabal expressão de complexo colonial que o meu país está a mostrar. A transmissão em directo do banquete de recepção à comitiva angolana no Palácio da Ajuda foi, além de saloio, mais um reflexo de algumas más consciências da descolonização. Reconhecer erros pode ser bom, mas querer passar, a todo o custo, de colonizador a humilde colonizado, é um insulto para um país com quase nove séculos de história.

Luto

Este blog já cumpriu o luto pelos acontecimentos de Munique, no entanto ainda não garante tranquilidade a Paulo Bento caso o destino se encarregue de nos juntar.

10.3.09

A puta

Anda aí por Lisboa um criminoso. Parece que vai ser recebido com honras de estado, com a excepção do Bloco de Esquerda que se recusa a entrar no circo de medíocre qualidade. Talvez seja a primeira vez que concordo com o Bloco, talvez a primeira que me apetece aplaudi-lo. Compreendo que a real-politik exige habilidades diplomáticas e de valores e que Angola é hoje essencial à nossa economia, mas regozijo-me que ainda haja um partido fora do sistema institucionalizado que se permita a não estar na presença deste déspota assassino. José Eduardo dos Santos tornou-se multimilionário a pilhar o seu país e passeia-se pelo mundo com uma displicência que só muitos milhões permitem. Angola é um regime de nojo onde se morre de fome enquanto as senhoras “dos Santos” se passeiam nas melhores lojas de alta-costura deste mundo e o senhor “dos Santos” compra pedaços de Portugal por atacado, sejam terras seja em empresas.
Portugal assemelha-se a uma puta desesperada que a tudo se presta e tudo suporta de um velho lúbrico e depravado, em troca de uns tostões que lhe permitam comprar, numa loja de bairro, um vestido de lantejoulas démodée que lhe permita adquirir o glamour suburbano que lhe é indispensável.

P.S. Lembro que este texto não poderia se publicado em Angola sem graves consequências para mim ou a minha família.

Primavera

Ontem, enquanto caminhava ao lado de alecrins em flor, realizei que já cheira a primavera. O sol brilhava e as preocupações iam-se tornando etéreas. Depois de jantar um tagliatelle com presunto tudo estava bem, até encontrar Medina Carreira em entrevista a Mário Crespo. Passado meia hora ouvia trovões e relâmpagos entravam pelas frestas das persianas. Ainda pensei agarrar no carro e esperar o senhor à saída da SIC para o raptar e manter cativo até ceder a formar um novo partido. Uma vez mais ganhou a inércia, mas se algo mais precisasse para saber que este país perdeu há muito o rumo, aquela meia hora confirmou-o. Não há rumo, nem haverá enquanto formos (des)governados por esta gente. Difícil é não concordar com Medina Carreira, o triste é que, caso não estejamos alienados por qualquer substância ilegal, é mesmo impossível não concordar. Resta chorar, ou então voltar a olhar o sol, cheirar a primavera e deixar que seja a natureza a alienar-nos. No fundo, precisamos mesmo é de algo que nos aliene e que nos impeça de sair pelas ruas a distribuir bordoadas.

6.3.09

Much ado about nothing

A obra de ampliação do Aeroporto Sá Carneiro demorou mais quatro anos do que o previsto e derrapou em 99 milhões de Euros. As notícias sobre este facto são manifestamente exageradas e nem percebo porque se gastou tanta tinta de jornal, afinal este é o parâmetro de normalidade a que nos habituámos nas nossas obras públicas.

5.3.09

Frase do dia

O tempo passa, mas insiste em não querer deixar marcas.

Palavras de outros

"Rio 444
A vida das cidades traduz-se em tudo – no cinema, na literatura, na música, nas ideias que produziu, nos romances que suscitou, nas pessoas que a amam e que a não dispensam. O Rio de Janeiro assinalou anteontem 444 anos de vida. Eu poderia dizer que se trata da minha cidade, mas seria pouco: o Rio é o retrato mais forte da beleza impura. Fundada por portugueses, cresceu contra nós para se tornar aquilo que é – bela, cosmopolita, rica, miserável, canalha, bela, limpa, suja, romântica, erótica, festiva, melancólica. A corte portuguesa, fugitiva, emprestou-lhe poder; mas a graça, a beleza, a alegria e a malandrice, vieram depois, com a imigração massiva, a misturança e o orgulho – ela é aquilo que nós poderíamos ter sido se não tivéssemos sido aquilo que fomos: uns aborrecidos."
Francisco José Viegas in "A Origem das Espécies"

PSDisses

A abaixo citada petição deu grande polémica entre Pacheco Pereira e os seus subscritores. Novos episódios de uma Guerra de Laranjas que cada vez mais se assemelha a uma novela venezuelana. No entanto, gostaria de perguntar aos subscritores se subscreveriam igualmente uma petição para Marcelo avançar para líder do partido? Talvez para esse cargo já o não julguem adequado e prefiram alguém com voz de tenor, mas só depois de 2009. Aliás, como sempre no PSD, só depois de algo, sempre depois, numa edificante e constante espera por um Godot. E Pinto de Sousa a esfregar as mãos sem necessitar de sabonete…

4.3.09

PSDisses

A história da Petição para a candidatura de Marcelo Rebelo de Sousa nas listas do PSD às eleições europeias é de um ridículo profundo. Só quem não entende a personalidade de Marcelo o imagina no burocrático e aborrecido Parlamento Europeu, para onde são enviados políticos em prateleira dourada. A única explicação é que o queiram arrumar distante de outros cargos, esses sim ao seu nível. O pós-Ferreira Leite começou, mostrando o surrealismo a que o PSD chegou. Marcelo pode ser o que quiser em Portugal e pena é que não queira ser primeiro-ministro. Gostava muito de ver Pinto de Sousa em campanha contra Marcelo. No preciso momento do anúncio da candidatura de Marcelo, a maioria absoluta passaria a ser uma miragem tão distante quanto Ulan Bator e a própria vitória poderia afastar-se com a lentidão firme de um veleiro star-clipper.

2.3.09

Postais atrasados


Florença, Janeiro de 2009

No escuro brilhando sob raios de luz quebrados por formas sublimes.
Olho a sombra, um perfil sempre misterioso da realidade que não conheço.

Coisas fora de moda

Liberdade.

Eleições, já!

Fátima Felgueiras, Isaltino Morais e Valentim Loureiro devem aproveitar a onda e marcar eleições antecipadas de imediato. Afinal, não é todos os dias que um primeiro-ministro sugere as urnas como júri de tribunal e os votos como meio de absolvição.

26.2.09

Coisas de costumes

Depois do Magalhães de Torres Vedras, o Courbet de Braga. Vi o filme “Carrington” na televisão e fiquei a pensar na evolução das mentalidades. Talvez se fosse uma fotografia de Mapplethorpe as coisas fosse diferentes pelo medo da brigada do politicamente correcto.

Courbet

Mapplethorpe

P.S. Assumo que fui puritano na escolha da fotografia de Mapplethorpe. Assim como assim, uma fotografia não é uma pintura e não me apetecia ter um homem nu neste blog. Coisas minhas.

20.2.09

Visão do paraíso




Freida Pinto em “Slumdog Millionaire”.

Postais atrasados



Florença, Janeiro de 2008

Passeio nocturno por entre overdose patrimonial.

São Magalhães

Censurar uma representação do computador Magalhães com imagens de mulheres semi-nuas, constante num monumento alegórico do Carnaval de Torres Vedras, com o argumento de serem pornográficas e ofenderem a moral pública, ultrapassa o que seria feito por uma inquisição católica dos tempos modernos.
O Magalhães é o santo e sagrado dos “modernitos” que nos governam. Sim, não se pense que a censura foi moral, o bufo fez queixa, por certo, por achar ofensivo associar “gajas nuas” ao Magalhães. Ofende a castidade desse santo omnipresente, dessa instituição sagrada.
As coisas andam complicadas neste pais cinzento e salazarento e vou dando graças por escrever sob pseudónimo, pois isto de dar o nome à crítica vai sendo perigoso.

Gostava de ser checo

Para ter um primeiro-ministro, Vaclav Klaus, capaz de ir ao Parlamento Europeu dizer:

"the present decision-making system in the European Union is different from a classic parliamentary democracy, tried and tested by history. In a normal parliamentary system, part of the MPs support the government and part support the opposition. In the European Parliament this arrangement has been missing. Here only one single option is being promoted and those who dare think about a different option are labelled enemies of European integration."

there is "a great distance (not only in a geographical sense) between citizens and Union representatives, which is much greater than inside the Member countries. This distance is often described as the democratic deficit, the loss of democratic accountability"

"the proposals to change the current state of affairs - included in the rejected European Constitution or in the not very different Lisbon Treaty - would make this defect even worse".

"Since there is no European demos - and no European nation - this defect cannot be solved by strengthening the role of the European Parliament either"

"attempts to speed up and deepen integration" could "endanger all the positive things achieved in Europe in the last half a century" and he urged that the situation must not be allowed "where the citizens of Member countries would live their lives with a resigned feeling that the EU is not their own, that it is developing differently than they would wish, that they are only forced to accept it".


Estas palavras “ofensivas” levaram a que vários deputados abandonassem o hemiciclo com grande indignação, em mais uma cabal demonstração da democraticidade desta “Europa”.

Palavras de outros

"a grande porca"
Há algumas semanas atrás, na SIC, Medina Carreira citou a expressão de Bordalo Pinheiro referindo-se à política em Portugal. Plagio Medina Carreira num dia em que são publicadas novas notícias sobre José Sócrates, desta feita a propósito da compra da sua casa no edifício Heron Castilho.
Ponto prévio - não sei se o primeiro-ministro:
- recebeu luvas no Freeport;
- simulou o valor pelo qual comprou a sua actual casa aquando da escritura;
- terminou a licenciatura por favor, beneficiando do facto de António Morais ser professor de 4 das 5 últimas cadeiras do seu curso;
- enviou o exame de inglês técnico por fax do ministério;
- assinou projectos, enquanto engenheiro técnico, que não foram por si elaborados;
- foi sócio de Fátima Felgueiras e de Armando Vara na Sovenco, ignorando propositadamente tal facto na sua biografia;
- sabia que o famoso relatório sobre a educação não era da OCDE quando afirmou o seu contrário;
- ...
O que sei é que vários ministros de Cavaco foram, por muito menos, 1.ªs páginas do Independente.
O que sei é que o anterior Governo, liderado por Santana Lopes, foi demitido por muito menos (por via da dissolução parlamentar).
O que sei é que a procuradora que tem a seu cargo o processo do Freeport já veio a público manifestar compreensão pelo mau estar do primeiro-ministro com o caso.
O que sei é que se fala de uma gravação em que alguém afirma ter pago luvas ao primeiro-ministro.
O que sei é que já vieram diversos camaradas de Partido sugerir que Sócrates desse explicações.
Posto isto, é para mim incompreensível que o primeiro-ministro não tome a iniciativa de esclarecer todas as dúvidas acerca dos temas acima mencionados, e que continue a persistir na tese da calúnia e da difamação.
Se eu estivesse no lugar dele, e não tivesse nada a esconder, podem ter a certeza que nesta altura já teria disponibilizado o acesso a todos os meus dados pessoais que permitissem calar os alegados boatos, arrumando de uma vez por todas com as suspeições vindas a público nestes últimos tempos.
Não ponho em causa que, no âmbito criminal, Sócrates é inocente até trânsito em julgado de condenação. Não é isso que está em discussão. O que está em discussão é a sua honorabilidade. O que está em discussão é saber se Sócrates tem condições para continuar a governar o país.
Eu acho que não tem.

Rui Castro no 31 da Armada

19.2.09

Leve ironia acerca do "casamento" gay

O OBJECTO

"Há que dizer-se das coisas
o somenos que elas são.
Se for um copo é um copo
se for um cão é um cão.
Mas quando o copo se parte
e quando o cão faz ão ão?
Então o copo é um caco
e um cão não passa dum cão.

Quatro cacos são um copo
quatro latidos um cão.
Mas se forem de vidraça
e logo forem janela?
Mas se forem de pirraça
e logo forem cadela?

E se o copo for rachado?
E se o cão não tiver dono?
Não é um copo é um gato
não é um cão é um chato
que nos interrompe o sono.

E se o chato não for chato
e apenas cão sem coleira?
E se o copo for de sopa?
Não é um copo é um prato
não é um cão é literato
que anda sem eira nem beira
e não ganha para a roupa.

E se o prato for de merda
e o literato de esquerda?
Parte-se o prato que é caco
mata-se o vate que é cão
e escreveremos então
parte prato sape gato
vai-te vate foge cão

Assim se chamam as coisas
pelos nomes que elas são."

José Carlos Ary dos Santos

P.S. Os sublinhados são por minha conta.

“Porto Livre”

Segundo a procuradoria, o processo não parou durante os últimos quatro anos.
Segundo a procuradoria, a carta rogatória dos ingleses nada acrescenta ao que já se sabia e nada do que saiu na imprensa revela novos dados sobre o caso.
A procuradoria, até ontem, não tinha interrogado nenhum dos citados no processo e não tinha suspeitos.
A procuradoria interrogou, ontem, Júlio Monteiro e outros intervenientes.
Se não há dados novos e o processo não tinha parado, quer dizer que demoraram quatro anos a passar à fase de interrogatórios prévios?
O que os fez interrogar esta gente e deixar, até ver, de fora o sobrinho de Júlio Monteiro?
Nada disto se percebe, mas já se percebeu que a ideia é que não se perceba nada.

Coisas Boas

A nova Fundação Francisco Manuel dos Santos, criada com o apoio da família Soares dos Santos e dirigida por António Barreto. Esperemos que esta fundação contribua para que passemos a ter “estudos” feitos com independência e competência que possam servir de base a tomadas de decisão mais responsáveis.

18.2.09

Luz

Voltei a reconhecer Lisboa. O brilho desta luz lembrou-me onde estava e desfez a ideia de ter sido transportado para uma qualquer aborrecida cidade do norte da Europa.

Coisas fora de moda

Sensatez.

17.2.09

Treinador de bancada

Os saltos entusiasmados, o segredar conspirativo aos seus vizinhos de lugar, os papéis passados pela sua mão, os sinais para refrear indignação, o constante revolver na cadeira. Daniel Oliveira parecia, ontem no “Prós e Contras” – e ao exemplo de outros debates –, o Jorge Jesus da esquerda fracturante. Sempre gesticulando, sempre dando indicações com veemência, sempre com ar muito agressivo e com aparente vontade de invadir o campo.

Os jogadores

Mister Oliveira tinha, ontem, alguns jogadores com excesso de entusiasmo que, por certo, contrariaram as suas ordens, em particular a jurista Isabel Moreira para quem a vida deverá ser feita de leis – tornando-a por certo uma pessoa bastante aborrecida. O entusiasmo era tal que, numa das suas intermináveis tiradas, acabou por dizer que se a lei do casamento gay não for aprovada estamos perante uma inconstitucionalidade. Que o direito é coisa complexa e subjectiva, já o sabemos, mas parece-me que a postura da senhora era de alguma arrogância quanto à interpretação da constituição, em especial quando contraria com displicência o Professor Jorge Miranda. Não sei mesmo como o Padre Vaz Pinto não lhe retorquiu, em resposta à sua insinuação de que iria presumir das “boas intenções” do senhor padre, que iria presumir da “inteligência” das intervenções da senhora Dra.

Preconceitos

Os defensores do casamento gay acusam quem o contraria de preconceito. Nalguns casos terão, efectivamente, razão. Há homofobia em Portugal e, como é óbvio, ela está do lado do “Não”. O que o debate de ontem também demonstrou, ainda que a isso tentassem inteligentemente fugir, é que do outro lado há um forte preconceito contra a visão da sociedade judaico-cristã. A arrogância moral foi patente, como sempre é nestes debates de “valores”, pois eles acham-se melhores que nós. Preconceito?

Palavras de outros

Mário Crespo continua em excelente forma e de leitura indispensável.

"O Horror do Vazio"
Depois de em Outubro ter morto o casamento gay no parlamento, José Sócrates, secretário-geral do Partido Socialista, assume-se como porta-estandarte de uma parada de costumes onde quer arregimentar todo o partido.
Almeida Santos, o presidente do PS, coloca-se ao seu lado e propõe que se discuta ao mesmo tempo a eutanásia. Duas propostas que em comum têm a ausência de vida. A união desejada por Sócrates, por muitas voltas que se lhe dê, é biologicamente estéril. A eutanásia preconizada por Almeida Santos é uma proposta de morte. No meio das ideias dos mais altos responsáveis do Partido Socialista fica o vazio absoluto, fica "a morte do sentido de tudo" dos Niilistas de Nitezsche. A discussão entre uma unidade matrimonial que não contempla a continuidade da vida e uma prática de morte, é um enunciar de vários nadas descritos entre um casamento amputado da sua consequência natural e o fim opcional da vida legalmente encomendado. Sócrates e Santos não querem discutir meios de cuidar da vida (que era o que se impunha nesta crise). Propõem a ausência de vida num lado e processos de acabar com ela noutro. Assustador, este Mundo politicamente correcto, mas vazio de existência, que o presidente e o secretário-geral do Partido Socialista querem pôr à consideração de Portugal. Um sombrio universo em que se destrói a identidade específica do único mecanismo na sociedade organizada que protege a procriação, e se institui a legalidade da destruição da vida. (artigo completo)

13.2.09

(Novas) Causas Fracturantes - Poligamia

Um homem pode casar com uma mulher. Querem que uma mulher possa casar com outra, assim como dois homens entre eles. Passarei a reclamar o direito à poligamia. Acho que, no caso de ser aprovado o casamento homossexual, estaremos perante um caso de discriminação intolerável para com todos os muçulmanos, marialvas com amantes não assumidas e mulheres de ninfomania descontrolada.

P.S. Leia-se no Mar Salgado a história de Francisco, Rute e Renata.

Pedimos desculpa pela interrupção

No DN de hoje: “Plano Regional de Ordenamento do Território de Lisboa apenas previa para Alcochete um pólo de apoio ao Turismo de muito baixa densidade e uma vocação para a instalação de actividades de investigação ligadas ao estuário do Tejo. Foi aprovado um mês antes da decisão do Freeport.” Leia o resto aqui.
Pronto, já podemos falar da eutanásia, do casamento gay ou da “nova” licença de paternidade.

11.2.09

Súbita boa disposição

Hoje faz sol. O verde de Monsanto brilha em tonalidades escuras sob o céu de tímido azul claro. Abriu-se a luz sem a qual Lisboa é como uma feia espanhola sem a maquilhagem lhe dá salero que a torna bela.

Coisas que se fazem

A SIC resolveu mostrar a vida privada de Salazar numa versão que, ao que parece, transforma o senhor num frenético e empenhado conquistador. Até hoje, muitas particularidades foram apontadas ao Dr. António, agora fazer dele um Santana Lopes “avant la lettre” talvez seja manifestamente excessivo. Comento mas não vi a série, pois o simples facto de Salazar ser interpretado por Diogo Morgado retira qualquer hipótese de perder o meu tempo.

10.2.09

Postais atrasados

Veneza, 7 de Janeiro de 2009

Coisas fora de moda

Decência.

Palavras de outros

“Façamos de conta que nada aconteceu no Freeport. Que não houve invulgaridades no processo de licenciamento e que despachos ministeriais a três dias do fim de um governo são coisa normal. Que não houve tios e primos a falar para sobrinhas e sobrinhos e a referir montantes de milhões (contos, libras, euros?). Façamos de conta que a Universidade que licenciou José Sócrates não está fechada no meio de um caso de polícia com arguidos e tudo.
Façamos de conta que José Sócrates sabe mesmo falar Inglês. Façamos de conta que é de aceitar a tese do professor Freitas do Amaral de que, pelo que sabe, no Freeport está tudo bem e é em termos quid juris irrepreensível. Façamos de conta que aceitamos o mestrado em Gestão com que na mesma entrevista Freitas do Amaral distinguiu o primeiro-ministro e façamos de conta que não é absurdo colocá-lo numa das "melhores posições no Mundo" para enfrentar a crise devido aos prodígios académicos que Freitas do Amaral lhe reconheceu. Façamos de conta que, como o afirma o professor Correia de Campos, tudo isto não passa de uma invenção dos media. Façamos de conta que o "Magalhães" é a sério e que nunca houve alunos/figurantes contratados para encenar acções de propaganda do Governo sobre a educação. Façamos de conta que a OCDE se pronunciou sobre a educação em Portugal considerando-a do melhor que há no Mundo. Façamos de conta que Jorge Coelho nunca disse que "quem se mete com o PS leva". Façamos de conta que Augusto Santos Silva nunca disse que do que gostava mesmo era de "malhar na Direita" (acho que Klaus Barbie disse o mesmo da Esquerda). Façamos de conta que o director do Sol não declarou que teve pressões e ameaças de represálias económicas se publicasse reportagens sobre o Freeport. Façamos de conta que o ministro da Presidência Pedro Silva Pereira não me telefonou a tentar saber por "onde é que eu ia começar" a entrevista que lhe fiz sobre o Freeport e não me voltou a telefonar pouco antes da entrevista a dizer que queria ser tratado por ministro e sem confianças de natureza pessoal. Façamos de conta que Edmundo Pedro não está preocupado com a "falta de liberdade". E Manuel Alegre também. Façamos de conta que não é infinitamente ridículo e perverso comparar o Caso Freeport ao Caso Dreyfus. Façamos de conta que não aconteceu nada com o professor Charrua e que não houve indagações da Polícia antes de manifestações legais de professores. Façamos de conta que é normal a sequência de entrevistas do Ministério Público e são normais e de boa prática democrática as declarações do procurador-geral da República. Façamos de conta que não há SIS. Façamos de conta que o presidente da República não chamou o PGR sobre o Freeport e quando disse que isto era assunto de Estado não queria dizer nada disso. Façamos de conta que esta democracia está a funcionar e votemos. Votemos, já que temos a valsa começada, e o nada há-de acabar-se como todas as coisas. Votemos Chaves, Mugabe, Castro, Eduardo dos Santos, Kabila ou o que quer que seja. Votemos por unanimidade porque de facto não interessa. A continuar assim, é só a fazer de conta que votamos.”
Mário Crespo in “Jornal de Notícias”

9.2.09

L’angoisse

Chuva incessante, vento desagradável, algum frio, bastante trabalho.

Diálogos Imaginários

– Charles, preciso de algo que me tire da angústia deste Inverno intolerável.
– Com certeza, menino. O que acha de umas perdizes recheadas com foie para o jantar, acompanhadas por uma boa colheita de Vale Meão.
– Charles, só a ideia já está a melhorar a minha disposição. Acho que fico em estado de esquecer a ideia de ficar fechado em casa sem comunicar com ninguém. Vou ligar a umas amigas para tomar um chá.
– Menino, não esqueça que chegou a encomenda da Mariáge Fréres. Poderei fazer um Thé de Fête e uns scones.
– Magnífico, Charles, só você para transformar a minha penosa vida em algo imensamente agradável.

Coisas fora de moda

Honestidade.

5.2.09

Coisas que animam

Assistir ao Sporting a despachar, com traços de massacre, o F.C.Porto com uma belíssima cabazada.

Náusea

As intervenções de Augusto Santos Silva têm o condão de me fazer correr para o estojo dos remédios em busca de sais de fruto ou Kompensans.

Curiosidades

Não deixa de ser curioso que o primeiro-ministro fale em poderes ocultos. Logo ele que escolheu Rui Pereira, eminente membro da Maçonaria, para Ministro do Interior. Ao que consta, e que uma boa investigação poderia provar, os serviços secretos estão a ser subtilmente infiltrados por "irmãos". Afinal falamos de que poderes ocultos?

3.2.09

Estado de espírito

Até quinta-feira passada não acreditava que houvesse dinheiros envolvidos na actuação de Pinto de Sousa no processo “Porto Livre”.

“Lixívias & Detergentes”

Constou-me, por telefonema de um amigo, que o “Prós e Contras” de ontem era sobre o caso “Porto Livre”. Logo perguntei quais eram os convidados. A resposta deixou-me a pensar no nome do programa, que talvez devesse mudar para “Prós”, porque ter José Miguel Júdice no lado dos “Contras” só pode ser uma brincadeira. Claro que logo resolvi não ver.

Curiosidades

Segundo a sondagem de hoje, há 19% que acham que o primeiro-ministro se justificou bem. O senhor pode ser inocente, mas achar que se justificou bem parece coisa de fanática crença religiosa.

31.1.09

Ideias deste fim de semana

Ontem, depois da sua entevista a Manuela Moura Guedes, ponderou-se a criação do CFTJ, vulgo Clube de Fans do Tio Júlio. Foram angariados dois ou três membros fundadores, embevecidos com as deliciosas tiradas do tio de Zezito Pinto de Sousa.