9.12.09

De volta a casa

No regresso a casa tudo parece igual, um país cinzento e triste como este dia outonal. Do sol nem vislumbre, escondido por densas nuvens brancas que retiram toda a possibilidade de luz. Tal qual o deixei há umas três semanas. O meu lado conservador até aprecia esta constância, o meu lado pessimista quase se regozija por ter razão, o meu optimismo anda cada vez mais tímido. Esta condição portuguesa obriga a uma certa habituação e conformismo, quanto mais não seja pela preguiça de tomar uma qualquer atitude mais drástica. Sair deste local mal frequentado sempre areja ideias e abre novas perspectivas, mas é importante não cair na tentação de, na volta, olhar o país com "novos" olhos. Pelo menos se nos queremos poupar a uma imensa depressão.

2.12.09

Postais de Viagem

Os Andes esmagam na imensidao e diversidade, na maneira simples como tornam o Homem pequenino e insignificante. Ao seguir por estradas desertas de carros e cheias de uma beleza rude, em que a janela se torna a tela de um excelente documentário, deixamos, como Jacinto, que o apelo forte da natureza nos faça esquecer a sociedade do conhecimento e da Civilizaçao.

29.11.09

Postais de Viagem

O apelo da vastidao nao é fácil de explicar, mas por qualquer motivo ele tem em mim muita força, o que me leva a estar em San Pedro de Atacama, no meio do nada, entre algures e nenhures. Gosto desta beleza dura e infinita, em que me sinto mais perto de algo indefinível a que alguns talvez chamem paz. A longura convida a limpar a alma de ruídos acessórios do dia-a-dia, deixando o cérebro como que num banho termal tépido e relaxante. Nem o mal das alturas, capaz de devastar a cabeça com dores bem desagradáveis, consegue fazer esquecer o poder da natureza e de vulcoes, géiseres, vales rasgados em sal ou rocha, de uma paisagem pouco terrena com que o criador brindou Atacama.
P.S. Onde se escondeu o til deste teclado.

Postais de Viagem

A surpresa é, quase sempre, boa numa viagem, foi por isso muito agradável chegar a uma cidade sul-americana em que os condutores param suavemente nas passadeiras sem que tenhamos de nos atirar, qual suicidas, na tentativa de colher alguma boa vontade e atravessar uma rua. Santiago nao tem muitos pontos de interesse para visitar, mas trata-se de uma cidade tao civilizada que é um imenso gosto percorrer as ruas e terminar o dia numa esplanada no Barrio de Bellas Artes bebendo um Pisco Sour.
P.S. Texto com problemas de acentos graças a este diabólico teclado.

24.11.09

Postais de viagem

As nuvens apareceram ao fim do dia, como que facilitando as despedidas. Simpáticas, abraçavam os "dois irmãos" que espreitavam tímidos e a espaços. O Rio não tem mais encanto na hora da despedida, ele permanece perene em quem já deambulou por esta terra encantada. Poucos sítios justificam. como este, ser admirados por uma representação de Cristo, por certo orgulhoso com a a sua obra. A beleza desta cidade ultrapassa pormenores de arquitectura de gosto duvidoso ou de favelas pobres e anárquicas. Está na natureza, nos morros, no recortado da costa, no mar, em qualquer coisa estranha a que não serão estranhos os cariocas, invenção de alegria e boa vida contagiante.

21.11.09

Postais de viagem

Calor e falta de planos. Aproveitar a onda carioca e deixar as horas correr entre choppes e mergulhos. O caminho irá seguir ainda sem destino definido, numa liberdade que em momentos questiono. O melhor é deixar o sol continuar a brilhar despreocupadamente.

20.11.09

Férias

O blogue está de férias e ontem comprovou que há Sushi Leblon para lá do blog. A Madonna já cá não está, mas vislumbravam-se longas e elegantes pernas, bem encimadas por caras frescas e bonitas. Lá fora o calor dissolve e empurra ferozmente para a praia.

10.11.09

O Muro

A história é, por hábito, boa conselheira. Vale a pena por isso lembrar o Muro e o que ele significou. Nestes tempos em que quase tudo se relativiza, é bom ter em conta o que de facto foi o comunismo. Podemos simpatizar com comunistas, mas olhando para a história é cada vez mais intolerável a capacidade para tolerar o comunismo. Está tão na moda tolerar os extremismos da esquerda, que talvez convenha aos modistas lerem um pouco de história, sob pena de passarem amiúde por ignorantes, ou então por colaboracionistas, tudo pervertendo ao gritarem liberdade em nome de regimes como o que caíu, em boa hora, com o Muro.

4.11.09

Os intocáveis

Mário Crespo no JN, cada vez mais uma leitura essencial.

O processo Face Oculta deu-me, finalmente, resposta à pergunta que fiz ao ministro da Presidência Pedro Silva Pereira - se no sector do Estado que lhe estava confiado havia ambiente para trocas de favores por dinheiro. Pedro Silva Pereira respondeu-me na altura que a minha pergunta era insultuosa.
Agora, o despacho judicial que descreve a rede de corrupção que abrange o mundo da sucata, executivos da alta finança e agentes do Estado, responde-me ao que Silva Pereira fugiu: Que sim. Havia esse ambiente. E diz mais. Diz que continua a haver. A brilhante investigação do Ministério Público e da Polícia Judiciária de Aveiro revela um universo de roubalheira demasiado gritante para ser encoberto por segredos de justiça.
O país tem de saber de tudo porque por cada sucateiro que dá um Mercedes topo de gama a um agente do Estado há 50 famílias desempregadas. É dinheiro público que paga concursos viciados, subornos e sinecuras. Com a lentidão da Justiça e a panóplia de artifícios dilatórios à disposição dos advogados, os silêncios dão aos criminosos tempo. Tempo para que os delitos caiam no esquecimento e a prática de crimes na habituação. Foi para isso que o primeiro-ministro contribuiu quando, questionado sobre a Face Oculta, respondeu: "O Senhor jornalista devia saber que eu não comento processos judiciais em curso (…)". O "Senhor jornalista" provavelmente já sabia, mas se calhar julgava que Sócrates tinha mudado neste mandato. Armando Vara é seu camarada de partido, seu amigo, foi seu colega de governo e seu companheiro de carteira nessa escola de saber que era a Universidade Independente. Licenciaram-se os dois nas ciências lá disponíveis quase na mesma altura. Mas sobretudo, Vara geria (de facto ainda gere) milhões em dinheiros públicos. Por esses, Sócrates tem de responder. Tal como tem de responder pelos valores do património nacional que lhe foram e ainda estão confiados e que à força de milhões de libras esterlinas podem ter sido lesados no Freeport.
Face ao que (felizmente) já se sabe sobre as redes de corrupção em Portugal, um chefe de Governo não se pode refugiar no "no comment" a que a Justiça supostamente o obriga, porque a Justiça não o obriga a nada disso. Pelo contrário. Exige-lhe que fale. Que diga que estas práticas não podem ser toleradas e que dê conta do que está a fazer para lhes pôr um fim. Declarações idênticas de não-comentário têm sido produzidas pelo presidente Cavaco Silva sobre o Freeport, sobre Lopes da Mota, sobre o BPN, sobre a SLN, sobre Dias Loureiro, sobre Oliveira Costa e tudo o mais que tem lançado dúvidas sobre a lisura da nossa vida pública. Estes silêncios que variam entre o ameaçador, o irónico e o cínico, estão a dar ao país uma mensagem clara: os agentes do Estado protegem-se uns aos outros com silêncios cúmplices sempre que um deles é apanhado com as calças na mão (ou sem elas) violando crianças da Casa Pia, roubando carris para vender na sucata, viabilizando centros comerciais em cima de reservas naturais, comprando habilitações para preencher os vazios humanísticos que a aculturação deixou em aberto ou aceitando acções não cotadas de uma qualquer obscuridade empresarial que rendem 147,5% ao ano. Lida cá fora a mensagem traduz-se na simplicidade brutal do mais interiorizado conceito em Portugal: nos grandes ninguém toca.

23.10.09

Assino e subscrevo

Uma Farsa
Por Vasco Pulido Valente

O problema com o furor que provocaram os comentários de Saramago sobre a Bíblia (mais precisamente sobre o Antigo Testamento) é que não devia ter existido furor algum. Saramago não disse mais do que se dizia nas folhas anticlericais do século XIX ou nas tabernas republicanas no tempo de Afonso Costa. São ideias de trolha ou de tipógrafo semianalfabeto, zangado com os padres por razões de política e de inveja. Já não vêm a propósito. Claro que Saramago tem 80 e tal anos, coisa que não costuma acompanhar uma cabeça clara, e que, ainda por cima, não estudou o que devia estudar, muito provavelmente contra a vontade dele. Mas, se há desculpa para Saramago, não há desculpa para o país, que se resolveu escandalizar inutilmente com meia dúzia de patetices.

Claro que Saramago ganhou o Prémio Nobel, como vários "camaradas" que não valiam nada, e vendeu milhões de livros, como muita gente acéfala e feliz que não sabia, ou sabe, distinguir a mão esquerda da mão direita. E claro que o saloiice portuguesa delirou com a façanha. Só que daí não se segue que seja obrigatório levar a criatura a sério. Não assiste a Saramago a mais remota autoridade para dar a sua opinião sobre a Bíblia ou sobre qualquer outro assunto, excepto sobre os produtos que ele fabrica, à maneira latino-americana, de acordo com o tradição epigonal indígena. Depois do que fez no PREC, Saramago está mesmo entre as pessoas que nenhum indivíduo inteligente em princípio ouve.

Oregime de liberdade, aliás relativa, em que vivemos permite ao primeiro transeunte evacuar o espírito de toda a espécie de tralha. É um privilégio que devemos intransigentemente defender. O Estado autoriza Saramago a contribuir para o dislate nacional, mas não encomendou a ninguém? principalmente a dignatários da Igreja como o bispo do Porto - a tarefa de honrar o dislate com a sua preocupação e a sua crítica. Nem por caridade cristã. D. Manuel Clemente conhece com certeza a dificuldade de explicar a mediocridade a um medíocre e a impossibilidade prática de suprir, sobre o tarde, certos dotes de nascença e de educação. O que, finalmente, espanta neste ridículo episódio não é Saramago, de quem - suponho - não se esperava melhor. É a extraordinária importância que lhe deram criaturas com bom senso e a escolaridade obrigatória.

Afinal Sócrates tem sentido de humor

Só isso justifica a escolha de Santos Silva para o Ministério da Defesa. Fica agora a divertida dúvida se o ministro vai malhar nos generais ou se os generais vão malhar no ministro. No fundo, um jogo da malha militar com potencial de levar a levantamentos de rancho.

20.10.09

Much ado about nothing

Saramago vem sendo notícia por declarações insultuosas à igreja católica. Nenhuma novidade, pois parece que a criatura vive com uma estranha obsessão religiosa, talvez devido a conflitos internos mal resolvidos. O que continuo a não perceber é a importância que lhe é dada. O senhor lançou um livro novo e precisava de publicidade, vai daí criou uma polémica para que se fale dele. Uma vez mais, nenhuma novidade. O que os católicos ainda não perceberam é que a melhor forma de lidar com gente como Saramago é a indiferença. Ele tem direito às suas opiniões, assim como eu tenho direito em o detestar e me recusar a perder tempo com os seus livros. São insultuosas? É claro que são, mas a melhor arma contra o insulto, à falta de um bom par de estaladas, é mesmo a indiferença. Aliás, fosse Saramago tratado com indiferença de há uns anos para cá, e teria por certo vendido muito menos livros em consequência das barbaridades que já disse. Não discuto a sua qualidade como escritor, pois recuso-me a ler os seus livros, agora dar importância às opiniões de alguém com seu curriculum cívico e político é um desmedido acto de estupidez.

1.10.09

Património Imaterial da Humanidade


Astor Piazzola, "Milonga del Angel"

Património Imaterial da Humanidade


Roberto Goyeneche, "La ultima curda"

Ainda há boas notícias

A UNESCO declarou ontem o Tango como Património Imaterial da Humanidade.

Carlos Gardel, "Cuesta abajo"

Um nojo

Fiquei incrédulo ao ouvir António Costa declarar, no “Esmiuça os sufrágios”, que Santana Lopes queria tirar o Instituto Português de Oncologia para o substituir por um parque de diversões. Dito assim, “tout court”, como se fosse uma troca por troca de alguém que achava a diversão mais importante do que o cancro. Esta não é uma interpretação pessoal, ele disse mesmo isto e com esta intenção clara. A coisa não foi sequer uma gaffe, pois pode ler-se num post do blog da candidatura de António Costa: “Enfim, para quê cuidados de saúde quando podemos ter farturas e algodão-doce?” assinado por um tal Tiago Antunes.

É evidente que ontem Santana explicou e respondeu e o mínimo de decência que pode restar a António Costa, depois deste intolerável insulto, devia-o obrigar a um pedido público de desculpas. Há gente que tem de perceber que a política não é um combate de “vale tudo”, nem de boxe tailandês, há um mínimo de civismo e educação. A canalhice é tal que é por estas e por outras que, contra toda a inteligentzia, Santana ainda vale muitos votos. Costa até pode ser melhor candidato do que Santana, mas a continuar assim é bom que se lembre como é que João Soares perdeu as eleições para a Câmara de Lisboa.

30.9.09

Coincidências

O CDS conseguiu no Domingo quase dez por cento de votos. Na terça-feira são feitas buscas a escritórios de advogados por causa das aquisições submarinos nos tempo de Portas como Ministro da Defesa.

29.9.09

Promete

Os próximos tempos vão ser bem divertidos, a ver pelo discurso de Pedro Silva Pereira. Anda tudo acossado. Para quem sentia a falta de Santana temos agora um manancial de possibilidades de casos na convivência Belém, S.Bento.

Aposta

Não ganhei primeira parte da aposta, que ninguém comigo quis fazer. A múmia falou hoje. Já a segunda parte, completamente certa, declarações baças e inconclusivas como é hábito.